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6.1.10

Algumas reflexões, parte 2

Continuando da parte 1...

A profetisa

Dizem que o maior de todos os medos é o medo de morrer. Bem, eu não sei se isso é verdade – acho que tenho mais medo de ser atropelado por um cavalo a galope e continuar vivo e todo esturricado – mas deve estar, em todo caso, bem próximo da verdade... Dizem também que o homem imaginou os deuses e o além-vida como forma de amenizar esse tal medo da morte. Ora, mas se o homem imaginou a Deus, com quem é que os profetas costumam conversar?

Eu não me lembro de ter conhecido algum profeta pessoalmente, mas sim uma profetisa! A amiga de minha prima católica, da qual não me lembro o nome, costumava dar conselhos para os fiéis que se dirigiam a ela com os mais variados problemas existenciais – alguns profundos, como “o que Deus quer de mim?” e outros nem tanto, como “quando vou encontrar o homem que Deus está guardando para mim?”. Mas fato é que ela sempre tinha as respostas na ponta da língua, seja qual fossem as indagações existenciais...

A profetisa, católica fervorosa, no entanto tinha uma estranha tristeza no olhar, uma melancolia que me parecia altamente contrastante com a felicidade e consolo que suas respostas traziam aos que lhe traziam perguntas e olhares igualmente angustiados... “Minha nossa”, eu pensei, “se ela tem esse dom tão maravilhoso, o que diabos a deixa tão triste?”

Ao final de uma das suas sessões de respostas proféticas – que eram realizadas, por pura caridade mesmo, em sua própria casa – eu tive a oportunidade de lhe perguntar:

“Você está triste porque não consegue falar com Deus não é?” – e sim, eu juro que não faço idéia de porque exatamente complementei a pergunta com a afirmação... Talvez eu também tenha “absorvido” brevemente seu dom de profetizar.

Ela nem precisou responder nada: seu olhar já me dizia que era exatamente esse o seu problema. E, se eu já havia acertado a primeira aposta, acho que desenvolvi bem a habilidade em seguida:

“Mas não fique triste. Veja bem: todas essas pessoas vêm até você com suas dúvidas e seus problemas, e você parece ter sempre uma boa resposta para lhes dar. Não acho que você seja adivinha, acho que é Deus quem fala através de você... Nunca havia percebido isso? Logo você, que reclama que Deus nunca lhe responde, é aparentemente quem está mais próxima dele, e não se deu conta!”

Ela se comoveu com essa resposta, e nos emocionamos juntos. Ela, porque percebeu que sempre esteve próxima de Deus. E eu, porque adorei a experiência de estar próximo de Deus, ainda que tenha durado tão pouco tempo. Na verdade, como sempre, só percebi a profundidade da experiência algum tempo após o ocorrido - no momento em que ocorreu, me pareceu algo tão natural quanto apreciar o nascer do sol.

Isto é, se é que Deus existe... Entretanto, se não foi Deus quem nos causou uma impressão tão avassaladora dos sentidos e da alma, não sei o que possa ter sido. A experiência religiosa é sim, subjetiva, mas quem passa por ela, e tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, nunca mais esquece.

***

Crédito da foto: Max Tuta

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