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14.12.09

Onde estarão os memes, parte 3

Continuando da parte 2...

Idéias inatas

Dawkins costuma dizer que o darwinismo é uma teoria boa demais para ficar restrita apenas à biologia. A idéia foi levada a sério pelo psicólogo evolucionista Steven Pinker, da prestigiosa Universidade Harvard. Seu livro “Tábula Rasa” (Cia. das Letras) é um extenso apanhado das contribuições da biologia darwinista a campos como a antropologia, a sociologia, a ciência política e até a crítica de arte.

O objetivo declarado de “Tábula Rasa” é nada mais nada menos do que propor uma nova idéia de natureza humana. A palavra "natureza" deve ser entendida literalmente. Diz respeito à nossa biologia, às determinações inescapáveis que a seleção natural depositou em nosso código genético. Impressas em nosso DNA estariam não apenas as instruções para fazer cinco dedos em cada mão e um nariz no meio dos olhos. Todos nascemos com uma programação básica que nos habilita à condição humana, da capacidade de aprender uma língua ao senso de justiça em trocas comerciais. O apêndice do livro traz uma lista de "universais humanos" compilada pelo antropólogo Donald Brown. Seriam características comuns a todas as culturas do planeta – uma lista de cinco páginas com itens que vão do óbvio ao curioso: medo de cobras, poesia, sorriso, linguagem, etc.

O estudo dessas características comuns do comportamento humano faz parte do programa da psicologia evolucionista, ramo científico relativamente novo, que ganhou força no final do século XX. Para esses psicólogos, se o homem trai mais do que a mulher, é porque ainda guarda muitas características da Idade da Pedra em sua mente – precisa disseminar seus genes, se reproduzindo com o maior número possível de mulheres, visto que para sua mente “ancestral”, ele ainda vive num mundo inóspito e selvagem, e não têm grandes perspectivas de sobrevivência à longo prazo. Já as mulheres seriam, ao contrário, muito mais seletivas – a gestação é um período de perigo iminente a sua sobrevivência, e a de seus filhos, e ao invés de se “arriscar” com qualquer homem que apareça, as mulheres tendem a preferir aqueles com aparência mais saudável, e que tenham maior tendência a permanecer para protegê-las durante a gestação e alguns anos depois.

Tais idéias de comportamento masculino e feminino entre as espécies não são novas. A novidade está em atribuir tamanha influência do instinto animal as decisões do homem moderno. Não se trata nem de se considerar o homem moderno como uma espécie de sub-produto da mente “ancestral”, mas por vezes quase que considerá-lo praticamente um animal irracional, a mercê dos instintos – ainda que viva com a convicção de que têm toda a liberdade do mundo em suas decisões.

As teorias da psicologia evolutiva sofrem pesadas críticas de outros cientistas mais céticos. A maior parte delas se resume a questão da falta de evidências. Nesse caso, o ceticismo não poderia estar mais bem fundamentado: a ciência simplesmente não sabe como diabos essas idéias inatas, esses comportamentos ancestrais, são passados adiante de geração a geração (se é que o são), visto que genes transmitem apenas características físicas, e não características psicológicas ou tendências comportamentais.

Entretanto, Dawkins não podia negar o que percebia claramente a sua frente – idéias inatas, sejam o que forem exatamente, certamente existem – e criou a teoria dos memes para abarcar esse problema. Acredito, no entanto, que as alegações da psicologia evolutiva caiam por terra quando analisamos algumas características mais exóticas do comportamento humano. Por exemplo: a homossexualidade...

Kim Petras nasceu menino, mas antes mesmo de completar 18 anos conseguiu se transformar em uma menina sensação da música pop alemã e britânica. Como não poderia deixar de ser, ela passou a ser um alvo dos tablóides europeus. Kim, que nasceu Tim, disse que passou a tomar hormônios em 2005, consultou dezenas de psiquiatras e sempre se viu como uma garota. Os pais deram o apoio para a transformação, relata. O último passo para o tratamento foi realizado em outubro de 2008.

Ora, muitos homossexuais e/ou bissexuais manifestam suas tendências sexuais “heterodoxas” geralmente em algum momento da adolescência – nesses casos, podemos atribuir a causa à influência da cultura e das relações sociais em suas tendências. Mas, e quanto à gente como Kim? E quanto às crianças que, desde muito cedo, dizem se sentir “presas em um corpo errado”?

A equipe chefiada pela cientista Ivanka Savic, do Instituto Karolinska, mostrou, com a ajuda da ressonância magnética, que o tamanho e a forma do cérebro variam de acordo com a orientação sexual. O cérebro de um homem gay parece o de uma mulher hétero – com os dois hemisférios mais ou menos do mesmo tamanho. O de uma lésbica, no entanto, parece o de um homem hétero – pois os dois têm o lado direito um pouco maior que o esquerdo. O cérebro de um homem gay é mais parecido com o de uma mulher do que com o de um homem heterossexual. É o que mostra seu estudo feito na Suécia, que revelou as provas mais sólidas até hoje de que a sexualidade não é uma opção, mas uma característica biológica.

“Excelente”, você pode estar pensando – a ciência parece estar comprovando que essas características não-físicas, essas idéias inatas de comportamento sexual, são realmente passadas de geração a geração... Ora, independentemente de tais estudos estarem comprovando que a homossexualidade certamente não é uma doença, eles levantam um problema enorme para os psicólogos evolutivos: afinal de contas, como a homossexualidade pode estar sendo transmitida adiante, seja por memes ou por algum outro mecanismo desconhecido, se homossexuais não têm filhos – ou seja, se não transmitem seus genes adiante?

É nesse ponto que a mente do cientista materialista deve estar se fundindo. Não há muitas opções senão ignorar totalmente o assunto, e tratar o estudo de pessoas que nascem com cérebros característicos do gênero oposto de forma separada aos estudos da memética e da psicologia evolutiva. Pois, a outra opção seria admitir que certas características psicológicas e comportamentais humanas não são passadas adiante de geração a geração, através da reprodução e da disseminação de genes ou memes, mas sim através de um mecanismo ainda oculto a ciência.

Tal mecanismo é conhecido dos reencarnacionistas a centenas de anos. A seguir, chegaremos às alternativas espiritualistas para a questão...

***

Veja também:

» Entrevista com Kim Petras na CBS (em inglês)

» Documentário "Meu Eu Secreto", da ABC, sobre crianças transsexuais (legendado)

Crédito da foto: Divulgação (Kim Petras)

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6 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Um gene recessivo não resolveria o problema da homossexualidade? Pode ser pasasdo adiante por heteros, mas ser expressa somente em quem tem o arranjo homozigoto de alelos recessivos

29/9/11 09:06  
Blogger raph disse...

Pode até ser, mas o problema é que fica difícil um gene desses sobreviver na espécie se sempre que se manifesta encontra teoricamente um "fim da linha", já que homossexuais (que nascem assim) quase que nunca tem filhos. Hoje pode-se até falar em inseminação artificial, talvez, mas não há séculos atrás.

Além disso, genes determinam apenas características físicas.. Ah menos que fique comprovado que existem genes que "determinam formatos de cérebros homossexuais".

Estou falando é claro de crianças "que nascem presas no corpo errado", como elas mesmos afirmam.

Abs
raph

29/9/11 10:24  
Anonymous Franco-Atirador disse...

"...visto que genes transmitem apenas características físicas, e não características psicológicas ou tendências comportamentais."

Acho essa afirmação um tanto quanto apressada, pois a ciência ainda engatinha nesse campo e uma característica física é o que em certa instância possibilita a manifestação do traço comportamental/psicológico. Já vi algumas notícias de genes relacionados à comportamentos. Temos que constantemente tentar captar como somos complexos, e ter consciência de que mesmo sabendo um bocado sobre a natureza, ainda sabemos MUITO POUCO. Sabemos que tudo é conectado, então não entendo essa sisma de fugir da influência da matéria, pois creio que tudo SE MANIFESTA pela matéria, então temos que nos preocupar em como se manifesta e porquê.

"afinal de contas, como a homossexualidade pode estar sendo transmitida adiante, seja por memes ou por algum outro mecanismo desconhecido, se homossexuais não têm filhos – ou seja, se não transmitem seus genes adiante?"

Poderia ser apenas um erro comum da segregação de genes. Há mutações mais prováveis do que outras, recorrentes. O homosexualismo seria então algo similar à Síndrome de Down, um 'erro' - biologicamente falando.

6/9/12 10:10  
Blogger raph disse...

Oi Franco,

Mas a Síndrome de Down traz características físicas facilmente identificáveis:

"A síndrome é caracterizada por uma combinação de diferenças maiores e menores na estrutura corporal. Geralmente a síndrome de Down está associada a algumas dificuldades de habilidade cognitiva e desenvolvimento físico, assim como de aparência facial. A síndrome de Down é geralmente identificada no nascimento."

Enquanto que a homossexualidade, além de não ser doença, não traz características físicas identificáveis. Postula-se que cérebros de crianças com claras tendências homossexuais tem certas características do sexo oposto, mas isso pode ser algo que veio se desenvolvendo desde o nascimento. As pesquisas teriam de analisar fetos e recém-nascidos para comprovar alguma coisa (e isto é complexo pois não sabemos quando vai nascer a próxima criança que "acredita estar no corpo errado").

Afora isso, não há nenhum gene comprovadamente responsável por características não-físicas. Se um dia comprovarem a existência de um, serei o primeiro a me interessar pela pesquisa. Mas o que foi feito até agora neste sentido é pseudociência grosseira.

Abs
raph

6/9/12 10:28  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Eu poderia argumentar que a forma do cérebro seria o aparato físico, mas vc bem contra argumentou antecipadamente sobre o cérebro ser moldado pelo espírito na máquina errada. MAS talvez o aparato físico seja realmente algo sutil, como simples moléculas.

Existem livros de genética comportamental que ainda pretendo ler para me aprofundar no assunto e ver se realmente falam de algo vago, correlato em poucos casos ou mesmo inconclusivos. Vou ver o doc. meu eu secreto tbm.

Abraço

7/9/12 00:50  
Blogger Juliano disse...

O começo do texto me gerou algumas questões que vão sendo melhor explicadas ao longo do texto e podem ser mais do que explicadas na continuação... já vou ler :)
É citado claramente sobre a "natureza humana", mas lembrei do caso pássaro João-de-barro: quem o ensinou a fazer sua casa?
Ótimo texto!
Abraço,
Juliano.

17/12/13 12:56  

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