4.12.10

O pescador de almas

Então, após uma longa jornada de auto-conhecimento pelas terras orientais, o Mensageiro dos Céus chegou caminhando nos arredores de antigos povoados judeus, na costa do Mar da Galileia. Ficou surpreso ao ver que uma cidade romana estava a ser construída onde antes havia apenas uma aldeia de pescadores. Foi então que encontrou outro andarilho e teve com ele a seguinte conversa:

Mensageiro – Porque se erguem essas muradas em torno de Rakkat, meu amigo?

Andarilho – Herodes Antipas quis prestar uma homenagem ao imperador, eis que surge Tiberíades...

Mensageiro – Então este é o legado dos imperadores, muros de pedra a cercar antigas aldeias?

Andarilho – E não é este o legado da conquista e da brutalidade? Mas esperemos o dia que Jeová nos enviará um guerreiro para que possamos ser livres uma vez mais!

Mensageiro – E de que adianta derrubar muros com espadas, para logo após sermos forçados a reconstruí-los, para que outras espadas não os derrubem?

Andarilho – Deixaremos um legado de liberdade para nossos filhos.

Mensageiro – Liberdade? Mas quem com ferro fere, com ferro será ferido. Isso não é liberdade, mas escravidão... Antes ser escravo de Roma do que escravo da espada.

Andarilho – Você é estranho, estrangeiro. Como acha que devemos conquistar a liberdade, portanto?

Mensageiro – Primeiro, aprendemos a sobreviver, a caçar, a pescar, a plantar, e nos sustentar, e vemos que isso nos trouxe liberdade...

Andarilho – Sim, mas isso é óbvio, continue.

Mensageiro – Depois aprendemos a viver, a observar a natureza, a passagem dos dias, as brisas e as pequenas coisas do reino. Então percebemos que isso nos traz um outro tipo de liberdade, e pensamos em Deus.

Andarilho – Mas apenas pensar em Deus não basta. Precisamos orar para que Jeová nos envie logo o messias!

Mensageiro – Então aprendemos a morrer, e desvelamos o lado oculto das coisas do reino, e vivemos somente este momento sagrado, livres dos grilhões do passado e do futuro.

Andarilho – Mas essa liberdade é fajuta, não nos livra do grilhão de Roma...

Mensageiro – Você não percebe, meu amigo, que é exatamente o contrário? Mesmo os romanos, mesmo o imperador, todos estão presos dentro de si próprios, como aves enjauladas.

Andarilho – E como nos libertar, afinal?

Mensageiro – Após morrermos para nossa antiga vida, percebemos que não há realmente morte, e nos tornamos renascidos no reino de Deus. Em todo lugar onde víamos escuridão e morte, passamos a ver luz e renovação. E nenhuma murada conseguirá nos prender em nossa aldeia. E teremos liberdade para atravessar todos os muros e adentrar todos os corações!

Andarilho – Mas onde está essa liberdade? Onde encontrar tal reino?

Mensageiro – A liberdade está aqui e agora, na eternidade do ser. E o reino, se não estivesse aqui, em torno de nós, e dentro de nós, onde mais estaria?

O andarilho não sabia identificar completamente o conteúdo daquelas palavras recém pronunciadas, porém, não sabia ao certo dizer o porque, talvez a forma como foram ditas, talvez a liberdade que brotava dos olhos daquele homem a sua frente, talvez o sentimento de profunda paz que sentiu no momento – tudo contribuiu para que acreditasse no que o Mensageiro dizia, como se acredita que o Sol vai nascer novamente no dia seguinte...

Andarilho – Tu és algum sábio de terras distantes?

Mensageiro – Não, sou apenas um andarilho, como tu meu amigo.

Andarilho – Leva-me contigo, eu quero experimentar essa liberdade de que falas!

Mensageiro – Mas tu és um pescador?

Andarilho – Não, na verdade sou um rabino, tenho bastante conhecimento, mas jamais vi alguém falar como você. Poderia levá-lo para nossa sinagoga, tenho certeza que teria uma vida bem tranqüila por lá.

Mensageiro – Mas eu não procuro a tranqüilidade, em verdade eu vim trazer a inquietação e o conflito! Sinto não poder segui-lo meu amigo, mas meu Pai me disse que deveria procurar aprender mais com os pescadores, por agora...

Andarilho – Aprender com os pescadores? O que alguém como você teria a aprender com eles?

Mensageiro – Eu preciso me tornar um pescador de almas, preciso ser a rede arremessada ao mar, para que Ele possa nos puxar... Até a volta, meu amigo.


raph'10

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Este conto é uma continuação direta de "O rabi", e continua em "O unigido".

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Crédito da foto: Aliraza Khatri

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