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12.4.11

Caso Parmod, parte 3

« continuando da parte 2

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Meios possíveis de comunicação entre as famílias
Bisauli é uma pequena cidade de 50Km a sudeste da grande cidade de Bareilly, no estado de Uttar Pradesh. Moradabad é outra grande cidade do estado, cerca de 97Km ao norte de Bareilly. Saharanpur fica ainda mais ao norte, cerca de 1600Km.

(...) A família de Parmod não tinha conhecimento da família dos “Irmãos Mohan” e, como já foi mencionado, a família de Parmod não iniciou contatos para combinar um encontro entre as duas famílias. [Elas] entraram em contato por meio de Sri Lala Raghanand Prasad, que tinha parentes em Moradabad, apesar de viver em Bisauli, onde era amigo do pai de Parmod.

(...) Em 1961, a mãe de Parmod afirmou que seu irmão, Sri Shiva Sharan Sharma, empregado de uma estrada de ferro, passou um tempo trabalhando em Moradabad. Ele também conversou com os irmãos Mehra a respeito do comportamento de Parmod depois que tomou conhecimento dele. Sri Shiva e Sri L. R. Prasad podem ter servido de elos telepáticos entre a família Mehra e Parmod [1].

Observações relevantes do comportamento das pessoas envolvidas
Por cerca de quatro anos, dos três aos sete anos, Parmod mostrou um comportamento que indicava uma forte identificação com a personalidade anterior, Parmanand Mehra.

(...) Durante esse período, Parmod costumava ficar sozinho e evitava brincar com outras crianças; ele parecia preocupado com a vida em Moradabad e com frequência pedia a seus pais que o levassem para lá, chegando a chorar por isso. Com relutância, começou a frequentar a escola, com a promessa de sua mãe de que ele poderia ir a Moradabad quando soubesse ler. Parmod reclamou do status financeiro de sua família, que ele comparava de modo desfavorável a “sua” antiga propriedade.

Além do comportamento já mencionado, Parmod demonstrou outros desejos, hábitos e coisas de que não gostava que eu descobri que se relacionavam com traços e experiências de Parmanand. Ele tinha, por exemplo, grande aversão a comer coalhada, cuja ingestão, como já foi dito, acredita-se ter contribuído decisivamente para a doença e morte de Parmanand. Parmod disse ao pai que ele não devia comer coalhada, que era perigoso [2].

(...) Parmod também demonstrava não gostar de ser submerso em água. Ele não tinha problemas com a água de uma torneira, por exemplo, mas ficava ansioso quando lhe propunham nadar ou até banhar-se em um rio, onde seu corpo ficasse todo submerso. Esse medo relacionava-se aos banhos de banheira que Parmanand tomou antes de morrer. Quando Parmod tinha 19 anos, em minha segunda visita, estava livre de ambos os medos descritos acima.

Na primeira infância, Parmod demonstrava uma devoção incomum, que correspondia a um traço parecido de religiosidade em Parmanand. Parmod disse que conseguia se lembrar de alguns fragmentos de uma vida antes daquela de Parmanand, quando era um saanyasi ou homem sagrado [3].

(...) Parmod usava diversas palavras e frases em inglês que seu pai dizia que não poderiam ter sido aprendidas na família, mas que eram apropriadas para Parmanand, que sabia falar inglês. (...) Parmod também mencionava os nomes Tata, Birla e Dolmia, grandes empresas da Índia. A última é uma fábrica de biscoitos [4].

(...) Em um aspecto de seu comportamento, Parmod demonstrava habilidade superior. Um parente que tinha uma pequena loja deixava alguém nela para cuidar dos negócios quando tinha de se ausentar. Parmod demonstrava grande aptidão para cuidar da loja, e esse homem preferia-o a qualquer outra pessoa para substituí-lo na loja.

(...) Ao encontrar membros da família de Parmanand pela primeira vez, Parmod demonstrou grandes emoções, incluindo lágrimas e demonstrações de afeto [5]. Sri M. L. Mehra disse que Parmod, em Moradabad, demonstrava preferência por ficar com ele e não com seu pai [6]. Essa atitude em relação aos membros da família de Parmanand correspondia aos relacionamentos que Parmanand tinha com eles.

Assim, ele se comportava com a esposa de Parmanand do modo como um marido faria, e em relação aos filhos dele como um pai faria. Demonstrava familiaridade com os filhos de Parmanand, mas não com seu sobrinho. Parmod não permitia que os filhos de Parmanand o chamassem pelo nome, mas disse que eles deveriam chamá-lo de “pai”. Ele dizia: “Apenas fiquei pequeno”.

Parmod perguntou à esposa de Parmanand se ela lhe daria trabalho de novo. Em outra ocasião, ele disse, referindo-se à esposa de Parmanand: “Esta é minha esposa com quem eu sempre discuto”. Um informante disse que Parmanand fora irritado pela esposa e que ele havia se mudado para Saharanpur para se afastar dela [7].

(...) Em 1962, o professor Sharma afirmou que Parmod havia “esquecido completamente” os fatos a respeito de sua vida anterior. (...) Ele não pensava muito sobre sua vida anterior, a menos que visitasse algum lugar, como Délhi, e sentisse uma certa familiaridade com alguma área ou construção. Ele tentava relacionar o local com suas lembranças da vida como Parmanand. E ele falava ainda menos da vida anterior aos outros, a menos que, como em minha visita, alguém lhe perguntasse algo específico.

» Na continuação, um quadro com os reconhecimentos mais relevantes de Parmod, e os comentários finais de Stevenson acerca deste caso...

***

Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] Estas análises céticas de possíveis formas de troca de informação entre a família da criança e a família de sua suposta vida passada estão presentes em todos os 20 casos descritos no livro. É muito comum que os investigadores deste tipo de fenômeno recorram também a explicações do ramo da parapsicologia, como a telepatia ou a “imposição de personalidade” dos pais aos filhos; muito embora os casos sugestivos do livro sempre tenham ao menos algum detalhe que não poderia ser explicado por outra teoria que não a da reencarnação, ou alguma outra teoria mais elaborada – e que ainda não foi criada.

[2] Fico imaginando se, daqui a algumas décadas, ou até mesmo nos dias atuais, não veremos crianças reclamando dos hábitos alimentares dos pais, ainda antes de terem estudado qualquer coisa sobre o tema...

[3] Isso é um padrão raro entre os casos descritos no livro, assim como nos casos em geral, mas bastante interessante. Ao que tudo indica, ter sido um “homem santo” não livra ninguém de ter de retornar para viver vidas bastante mundanas. Isso pode significar que: (1) Homens santos ou profundamente religiosos podem eles mesmos se interessarem em retornar, para ajudar a evolução da humanidade; (2) Tais “homens santos” tinham apenas um título eclesiástico ou similar, e não possuíam necessariamente uma estatura espiritual condizente com seu posto; ou (3) Uma mistura das duas possibilidades anteriores.

[4] Tais características eram bem mais relevantes no passado, antes do advento da internet. Parmod tampouco tinha acesso a enciclopédias ou grandes bibliotecas... Infelizmente, nos dias atuais, esse tipo de característica torna-se cada vez menos relevante, visto que as crianças já usam a internet desde muito cedo (contanto que tenham acesso a ela).

[5] Neste ponto a mera descrição por palavras, ou cascas de sentimento, é sem dúvida muito aquém do tipo de sensação vivenciada, ainda que não sejamos nós mesmos parentes das famílias envolvidas... Os vídeos sobre o assunto por vezes trazem uma visualização mais relevante, mas nada se compara a vivenciar este tipo de coisa. Não foi à toa que Stevenson trabalhou com isso por quase toda a vida!

[6] Eis a principal razão pela qual os pais das crianças só pesquisam e levam seus casos adiante quando não tem mais outra opção para aplacar a angústia das mesmas. Mesmo em países onde a reencarnação é aceita, nenhum pai passa sem o medo de que seu filho decida simplesmente ir viver com a outra família – embora isso quase nunca ocorra, em todo caso.
Da mesma forma, muitas vezes o esquecimento da vida anterior, que vem invariavelmente com a idade e a falta de convívio, é muitas vezes uma bênção. Pois quem gostaria de viver com saudades por mais uma vida inteira? E quem disse que renascer é fácil?

[7] “Até que a morte os separe” é muitas vezes uma nova bênção.

***

Crédito da foto: Photosindia.com/Photosindia/Corbis.

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