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20.5.11

Reflexões sobre o tempo, parte 1

Todos certamente já afirmaram, de forma natural: "o tempo corre", "este ano passou depressa" ou mesmo "esta aula não acaba". Uma definição científica mais precisa faz-se certamente necessária, e com ela ver-se-á que o tempo, em sua acepção científica, não flui. O tempo simplesmente é.

Perseguindo a eternidade

A ilha Samoa, no Pacífico Sul, anunciou que vai avançar um dia no calendário para incentivar os negócios com os seus principais parceiros econômicos, a Austrália e a Nova Zelândia. Hoje, a ilha de 180 mil habitantes está 21 horas atrás da principal cidade australiana, Sydney. A partir do dia 29 de dezembro de 2011, vai estar 3 horas à frente.

O primeiro-ministro de Samoa, Tuilaepa Sailele, afirmou que a ilha está perdendo dois dias úteis por semana em suas transações comerciais com esses países. Quando é sexta-feira em Samoa, já é sábado na Nova Zelândia. E aos domingos, enquanto a população da ilha está na igreja, os negócios estão a todo vapor em Brisbane e Sydney. A alteração do calendário significa que Samoa passará para o lado oeste da linha internacional do tempo. Há 119 anos, os samoanos fizeram o contrário e se transferiram para o lado leste da linha, a fim de incentivar negócios com os Estados Unidos e a Europa. Hoje, entretanto, são a Austrália e a Nova Zelândia os importantes parceiros comerciais da ilha.

Quando a linha internacional do tempo (ou linha de data) foi estabelecida, o mundo ainda seguia a doutrina newtoniana do tempo, e cria piamente que o tempo era uma entidade absoluta. Dessa forma, apesar de serem linhas imaginárias, os meridianos estariam associados à rotação da Terra em torno do Sol, algo que transcorreria em um tempo absoluto. Até hoje, como podemos ver, a engrenagem de nossa economia se baseia em linhas imaginárias concebidas numa época em que se acreditava que o tempo era uma medida absoluta. Einstein provou que estávamos todos errados...

Ainda adolescente, o gênio alemão lutava com a questão de como uma pessoa veria um raio de luz se viajasse exatamente à mesma velocidade da luz. Segundo Newton, o viajante veria uma onda de luz “estacionária”, e poderia até mesmo estender o braço e recolher um punhado de luz imóvel, como se recolhe a neve aqui na Terra. Ocorre que, segundo as equações de Maxwell para o comportamento da luz, ela jamais poderia algum tempo estar parada, sem se mexer. A luz era como um tigre selvagem que jamais poderia ser domado. Einstein descobriu um grande paradoxo.

Para compreendermos melhor o problema, imaginemos que Calvin acabou de ganhar um trenó com propulsão nuclear. Ele decide então aceitar o maior de todos os desafios e apostar uma corrida com um raio de luz. A velocidade máxima de seu trenó é de 800 milhões km/h, contra 1,08 bilhão km/h da luz, mas ele é um garotinho destemido e aceita o desafio. Haroldo, seu tigre de estimação, está atento com um relógio atômico altamente preciso, e anuncia a largada!

Para cada hora que passa, Haroldo percebe que o raio viaja a 1,08 bilhão km/h, enquanto o trenó de Calvin, conforme o previsto, não passa dos 800 milhões de km/h. Segundo a doutrina newtoniana, o tempo é uma entidade absoluta, e dessa forma Calvin concordaria com seu tigre em que o raio tem se afastado dele, desde a largada (desconsideremos a aceleração inicial), a precisamente 280 milhões km/h, a diferença entre as duas velocidades...

Mas, em seu regresso, Calvin está irritado e não concorda de modo algum. Ao contrário, desanimado e acusando a luz de ser trambiqueira, ele diz que por mais que apertasse o acelerador de seu trenó nuclear, o raio de luz continuava a se afastar dele a 1,08 bilhão km/h e nem um pouquinho a menos. Haroldo o aconselha a se acalmar e diz que a luz não é trambiqueira, o tempo é que é relativo!

A explicação de Einstein para tal paradoxo é a de que as medições de distâncias espaciais e durações temporais realizadas pelo relógio de pulso de Calvin são diferentes das de Haroldo, e isso nada tem a ver com o fato de ele estar usando um relógio mais preciso... A divergência entre tais medições só podem ser explicadas pela doutrina einsteiniana onde o tempo não é mais absoluto, mas relativo ao observador.

A velocidade da luz, ela sim, é absoluta e constante, já o próprio espaço e o próprio tempo dependem do observador. Cada um de nós leva o seu próprio relógio, seu monitor da passagem do tempo. Todos os relógios tem a mesma precisão, mas quando nos movemos, uns com relação aos outros, os relógios não mais concordam entre si. Perdem a sincronização. O espaço e o tempo ajustam-se de uma maneira que lhes permite compensar-se exatamente, de modo que as observações da velocidade da luz sempre dão o mesmo resultado, independente da velocidade do observador.

Newton achava que esse movimento através do tempo era totalmente independente do movimento através do espaço. Einstein descobriu que eles são intimamente ligados. A descoberta revolucionária da relatividade especial é esta: quando você olha para algo, como um trenó nuclear estacionado, que, do seu ponto de vista, está parado – ou seja, não se move através do espaço –, a totalidade do movimento do trenó se dá através do tempo. O trenó, a neve, o tigre, você, sua roupa, tudo está se movendo através do tempo em perfeita sincronia. Mas, se Calvin voltar a acelerar o trenó, parte de seu movimento através do tempo será desviada para o movimento pelo espaço. Por fim, a relatividade especial declara a existência de uma lei válida para todos os tipos de movimento: a velocidade combinada do movimento de qualquer objeto através do espaço e do seu movimento através do tempo é sempre precisamente igual à velocidade da luz.

Você pode até se imaginar parado, mas mesmo o monge budista meditando no templo mais afastado do Butão tem o seu corpo em constante movimento através do espaço. Ainda que a gravidade o prenda a Terra, a Terra está girando em torno do Sol em extrema velocidade, e o Sol, por sua vez, gira em torno do centro da Via Láctea – a nossa galáxia –, e nossa galáxia inteira vai de encontro a Andrômeda [1], e todas as galáxias se movem em torno de conglomerados inimagináveis aos mortais (embora alguns físicos tentem imaginar seriamente o tamanho do infinito)...

Mas, ainda que por milagre o monge atingisse algum espaço perfeitamente estático do Cosmos, ainda assim estaria se movendo a precisamente 1,08 bilhões km/h pelo tempo, na crista das ondas de luz.

Já a própria luz, que sempre viaja à sua velocidade através do espaço, é especial porque sempre opera a conversão total da velocidade do tempo para o espaço. Isso significa que o tempo pára quando se viaja a velocidade da luz através do espaço. Um relógio usado por uma partícula de luz não anda. Os fótons lançados no espaço-tempo tem a mesma idade desde o Big Bang, eles operam no reino da eternidade [2].

Embora não possamos nunca realmente nos aproximar da velocidade da luz mantendo a matéria que nos forma intacta, existe algo de profundo e assombroso nesta visão do mecanismo cósmico. Desde que despertamos para a vida consciente, temos nos perguntado de onde viemos e para onde vamos, e alguns de nós tem tido um contato mais estreito com a própria eternidade que nos cerca – uma essência misteriosa que parece permear todas as coisas, e lhes dar forma e informação.

Para estes, a busca pela eternidade, pelo retorno as origens, ao reino do que não foi nem será, mas simplesmente é, nesse exato momento o é, essa busca se torna uma perseguição implacável... Por outro lado, através da racionalidade, terminamos por desvelar os segredos da própria luz, por retirar o próprio tempo de seu pedestal absolutista. Terminamos por perceber, por uma via completamente distinta, que a eternidade está espalhada por todo o lugar. Nós a percebemos com os olhos – os fótons são eternos [3].

» Na continuação, a ilusão persistente do tempo...

***

[1] Nossa galáxia e a de Andrômeda fazem parte do Grupo Local de galáxias em nossa vizinhança cósmica. Mas não se preocupem, ainda vai demorar muito, muito tempo, para que as galáxias se choquem...

[2] A noção de que o tempo para a velocidade da luz é interessante, mas é importante não exagerar quanto às implicações desse fato. A perspectiva “atemporal” do fóton limita-se a objetos sem massa, o que está limitado a uns poucos tipos de partículas.

[3] O exercício mental do trenó nuclear e várias citações e informações científicas descritas neste artigo são fruto direto da leitura de “O tecido do cosmo” (Cia. das Letras), do físico Brian Greene. Recomento sua leitura para um aprofundamento científico (e muito mais embasado, nesse sentido) do assunto.

***

Crédito das imagens: [topo] Paul Souders/Corbis; [ao longo] Bill Watterson (Calvin e Haroldo).

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13.5.11

Não há fronteiras

Ainda me lembro da primeira vez que subi ao Platô, uma das montanhas turísticas de Monte Verde, adorável cidadezinha do sul de Minas Gerais. Além da bela visão das montanhas da Mantiqueira, tive a oportunidade de colocar um pé no estado de Minas e outro no de São Paulo, visto que a fronteira entre os dois estados passava exatamente por aquela pedra. Eu talvez fosse muito pequeno na época, ou talvez simplesmente não tenha dado a importância ao assunto, mas fato é que, em realidade, não havia fronteira alguma ali. A única fronteira estava em nossa própria mente, na crença de que haviam fronteiras – quando nada mais havia além de vento, pedras e tufos de grama...

Na época do advento do cristianismo, os primeiros e talvez mais fiéis seguidores dos ensinamentos de Jesus foram nomeados pelos romanos como gnósticos, embora eles mesmos se intitulassem cristãos. Sabe-se que, segundo o Evangelho de Tomé – um dos taxados mais tardiamente como apócrifo, e que foi descoberto em Nag Hammadi no século XX –, o reino de Deus pode ser encontrado debaixo de alguma pedra ou dentre um galho seco partido. Isso nada mais era do que uma metáfora, certamente bem profunda e além de análises superficiais, que demonstrava que nada poderia estar efetivamente “fora de Deus”.

Estando Deus em toda parte, a edificação de grandes templos e catedrais não seria de maior valia, para nosso reencontro com seu reino, do que uma edificação mental, uma guinada de nossa própria consciência na direção do infinito... A fronteira para o reino de Deus estava em toda parte, e em parte alguma – pois que era essencialmente um estado da consciência humana.

Para o imperador Constantino, não era interessante que o cristianismo recém instalado em Roma permitisse esse tipo de religiosidade liberta. Isso ameaçaria a autoridade dos eclesiásticos e, por tabela, a autoridade do próprio imperador, que no fim das contas era a autoridade por cima dos eclesiásticos. Por razões parecidas, muitas igrejas têm se mantido pelo dogma de que formam uma comunidade de escolhidos por Deus (do grego ekklesia), e que toda a autoridade pertence aos eclesiásticos, que falam em nome de Deus – por mais absurdo que isso soe para um cristão antigo (um gnóstico).

Mas a religiosidade, a religação (do latim religare) as nossas origens – ao Cosmos ou a Deus –, não necessita desse tipo de intermédio. Muito embora seja perfeitamente compreensível que mentes afins desejem se reunir para discutir sua própria crença em conjunto (os gnósticos, os místicos judeus, os filósofos gregos, os monges budistas, todos já tinham essa prática...), essa concepção pode ser facilmente extrapolada quando um dos religiosos pretende falar em nome dos demais, ou pior, em nome de Deus. Foi dessa forma que nasceu, por exemplo, o conceito absurdo de guerra santa – uma matança desenfreada em nome de Deus, uma ignorância suprema das leis cósmicas.

Por isso que, embora todos os eclesiásticos sejam religiosos, nem todos os religiosos estão associados a uma igreja ou doutrina em específico. Há muito religiosos que, tal qual os gnósticos, ainda conseguem ver o reino de Deus em toda parte. Para estes, não há fronteiras.

Com a radicalização das doutrinas eclesiásticas na época medieval, o racionalismo científico, que já houvera florescido na Grécia e diversos outras regiões do mundo antigo, renasce em todo o seu esplendor, junto com a arte, a literatura e os novos ideais de humanismo e liberdade de pensamento. Há muitos racionalistas que, até hoje, creem piamente que toda religião é um veneno para a mente, e que somente a razão científica deve ditar os rumos de nossa cultura e sociedades. Eles também se alistaram para uma guerra santa, não em nome de Deus, mas em nome da Natureza, em nome de uma estranha ideia que mistura ciência, racionalismo, ceticismo e negação radical da subjetividade... Obviamente, não poderia ter dado certo.

Kierkegaard, filósofo e teólogo dinamarquês, questionava-se se não era possível que sua atividade como observador puramente racional e objetivo da natureza, ou seja, sua atividade científica – conforme a ciência era erroneamente interpretada já em sua época –, pudesse limitar o seu potencial como ser humano pleno. Mais recentemente, Paul Feyerabend, filósofo da ciência austríaco, valeu-se do pensamento de Kierkegaard para sua feroz crítica a metodologia científica moderna, excessivamente metódica, sem praticamente nenhum espaço para a subjetividade: “Será que a ciência como a conhecemos hoje, uma ‘busca pela verdade’ no estilo da filosofia tradicional, criará um monstro? Não será possível que uma abordagem objetiva que desaprova contatos pessoais entre entidades irá prejudicar as pessoas, torná-las miseráveis, hostis, criando mecanismos moralistas desprovidos de charme e humor? Eu suspeito de que a resposta para muitas dessas questões seja afirmativa e eu acredito que a reforma das ciências para torná-las mais anárquicas e mais subjetivas (em um sentido Kierkegaardiano) é urgentemente necessária.”

Feyerabend estava especialmente preocupado com o fato do pensamento existencial, espiritual, filosófico, estar sendo ignorado pela nova geração de cientistas que emergiu após o fim da Segunda Guerra, em plena era da corrida nuclear: “O isolamento da filosofia em uma casca ‘profissional’ própria têm trazido consequências desastrosas. A jovem geração de físicos, os Feynmans, os Schwingers, etc., podem ser brilhantes; eles podem ser mais inteligentes que seus predecessores, do que Bohr, Einstein, Schrödinger, Boltzmann, Mach e outros. Mas eles são selvagens não-civilizados, lhes falta a profundidade filosófica – e esse é o erro da própria ideia de profissionalismo que vocês hoje defendem”. Embora possa ter sido um tanto radical, a mensagem de Feyerabend atingiu um cheio a Academia, bem em seu ponto fraco e obscuro.

Ocorre que a Academia, ou o grupo de cientistas que nomeou a si mesmos como “escolhidos da Natureza”, nada mais era do que o outro lado da moeda neste interessante jogo entre as autoridades eclesiásticas e acadêmicas que tem sido jogado no Ocidente há mais de um século. Da mesma forma que os imperadores de outrora decidiam qual texto seria sagrado, e qual seria apócrifo, quais religiosos seriam salvos, e quais seriam perseguidos e esquecidos pela história (que eles próprios escreviam), alguns dos acadêmicos de hoje em dia tem tratado de tornar a ciência – a observação e o conhecimento da Natureza – uma espécie de ideologia associada à racionalidade e objetividade extremas. Dessa forma, puderam decidir, por exemplo, que Darwin e não Wallace deveria ser lembrado pela teoria da evolução (embora sejam co-autores, Wallace era espiritualista); que a ciência ocidental deveria ter preponderância sobre as outras, que foram chamadas de alternativas ou pseudo-ciências (embora a acupuntura já seja largamente utilizada no Ocidente, inclusive em animais); que todo e qualquer estudo científico que sugerisse a existência da alma fosse tratado como algo apócrifo (embora até mesmo Carl Sagan tenha admitido que o estudo com crianças que lembram vidas passadas seja intrigante).

Obviamente, e felizmente, os acadêmicos são ainda civilizados o suficiente para atacar os de pensamento contrário apenas no campo das ideias e no escoamento de verbas para pesquisas – ainda não se teve notícia de cientistas queimando religiosos em fogueiras... O importante é que não se pense a ciência e a religião como áreas hermeticamente separadas. Assim como Einstein e Bohr foram profundos conhecedores e admiradores de doutrinas espiritualistas (o deísmo espinosiano e o I Ching, respectivamente), não há nenhum bom motivo para os cientistas de hoje tratarem da religiosidade como algo apócrifo.

A questão não é se a verdade está no dogma eclesiástico ou no método acadêmico, se está na religião ou na ciência, na objetividade ou na subjetividade. A verdade é que não sabemos toda a verdade, e talvez jamais saibamos – ou, ainda que ela nos chegue por algum texto sagrado ou mensagem extraterrestre, não a saibamos interpretar corretamente.

A única verdade é que o Cosmos é algo muito, muito grande. Que a Natureza jamais nos deixará relaxar. Que ainda temos muito, muito o que desvendar dentre átomos e quarks, galáxias em agrupamentos inimagináveis, e delicadas e fluidas engrenagens de pensamento. Seja você um jovem acadêmico, teólogo, artista, filósofo, ou neófito (e, de certa forma, todos o somos), a verdade é que não há fronteiras neste reino.

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Crédito da foto: Niels Sörensen (vista do Platô em Monte Verde/MG).

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6.5.11

Primeiro a alma

Se você leu qualquer capa de jornal ou revista de notícias, ou assistiu qualquer noticiário na TV a praticamente qualquer momento dos últimos dias, já deve saber que o presidente americano afirmou ter assassinado o célebre terrorista, Osama Bin Laden.

Osama foi um dos membros sauditas da próspera família Bin Laden, além de líder e fundador da Al-Qaeda, organização terrorista famosa pelos ataques de 11 de setembro nos Estados Unidos e numerosos outros contra alvos civis e militares. A Al-Qaeda ("A Base") foi originalmente destinada a combater a família real saudita. Bin Laden detestava os modos ocidentalizados, perdulários, corruptos e "pouco islâmicos" da família real. Tinha como objetivo alijá-la do poder e implantar no país a semente do que sempre sonhou - o novo califado islâmico. A família real, por ironia do destino, possuía grande consideração para com a família de Bin Laden.

O historiador e pesquisador do Laboratório do Tempo Presente, Daniel Santiago Chaves, chama a atenção para o tipo de "escola de terrorismo" desenvolvido pela Al-Qaeda e que hoje serve de modelo para organizações menores. "Quando nós lembramos da Al-Qaeda, a primeira imagem que vem à nossa cabeça é a de um avião sequestrado sendo jogado contra um prédio, causando a morte de milhares de pessoas. Esse conceito de terrorismo espetacular foi apropriado por esses pequenos grupos", afirmou. Círculo vicioso: segundo ele, a Al-Qaeda, os demais grupos terroristas e a mídia acabam se retroalimentando por essas ações. "Ter a imagem vinculada a Al-Qaeda é bom para os grupos porque dá visibilidade aos seus atos, é bom para a Al-Qaeda, que se mantém na mídia, e é bom para mídia, que vende a sua notícia", analisa. Quem entende esse mecanismo e está à frente das principais explosões em hotéis, boates e restaurantes, principalmente na Ásia, são grupos oriundos de famílias ricas que têm condições de planejar ações desse porte, explica. "São pessoas com liquidez financeira não necessariamente pertencentes a uma grande rede como a de Osama Bin Laden, mas que entendem o significado de um atentado com impacto midiático e são capazes de gerar a inteligência suficiente para executá-lo. De comum com a Al-Qaeda, além dos métodos, existe uma agenda: transformar os Estados da Ásia em um califado islâmico". Por isso os principais alvos dos atentados estão sempre ligados de alguma forma ao Ocidente.

Assim como o alvo da Al-Qaeda nunca foram as torres gêmeas, e sim a mídia, eles tampouco se organizam tal qual os apreciadores de fantasias de duelos do bem contra o mal gostariam: como uma organização hierárquica, com apenas um grande “mestre do mal” – um inimigo para os filmes de Hollywood... Seu quadro composto por células terroristas localizadas em diversos países gerou o que os analistas chamam de Al-Qaeda "nebulosa". Esta denominação tem duplo significado. Ao mesmo tempo em que dá a ideia de que se trata de algo difícil de enxergar, remete ao termo nebulosa presente no vocabulário da astronomia, cuja definição é um conglomerado de astros com uma formação complexa e variável.

São como “franquias do terror” – assim como a desativação de uma lanchonete da Subway praticamente não afeta seu funcionamento global, destruir uma célula da Al-Qaeda, mesmo que seja a do próprio Bin Laden, não vai fazer com que a nebulosa se dissipe da noite para o dia.

Em realidade, violência gera violência, terror gera terror, e esta grande roda da ignorância ainda está longe de parar sua rotação. Sejam os ditos “bonzinhos”, que aceitam a tortura institucionalizada de Guantanamo, ou o conceito de “guerra preventiva”, como caminhos para “aplacarmos o mal”; Sejam os terroristas, os “mestres do mal”, que creem piamente que mudarão os hábitos e o pensamento do povo islâmico com bombas e atentados – todos estão profundamente equivocados. Ou, como dizia Gandhi, o grande guerreiro da alma: “Olho por olho, dente por dente, e a humanidade continuará profundamente carente”...

A grande luz que se acende no mundo islâmico está além das doutrinas do capitalismo ou do terrorismo: foi o próprio povo islâmico, os jovens em sua grande maioria, quem começaram a mudar o seu mundo... E nenhum deles trazia fotos ou cartazes de Bin Laden, nem se dizia abertamente contra o Ocidente ou o capitalismo. Eles não querem terror, eles não querem seguir estritos preceitos de doutrinas religiosas ultra-conservadoras, eles não querem se empanturrar de sanduiches, gadgets e carros grandes – eles querem apenas a liberdade de pensar, a liberdade para a alma.


Todo esse cenário me remeteu ao belo diálogo entre Judas e Jesus no roteiro do filme “A Última Tentação de Cristo”, de Paul Schrader, baseado no romance homônimo, de Nikos Kazantzakis. Como podemos ver, a história ainda se repete, e embora evoluamos lentamente a passo de formigas anestesiadas, ainda insistimos no caminho da dor, e não do amor:

Judas - Eu não sou como esses homens [referindo-se aos outros seguidores de Jesus]. Digo, eles são boas pessoas. Mas eles são fracos. Como irão lutar por você? Eles não podem nem lutar por si mesmos. Onde você os encontrou? Um é pior do que o outro. Isso não é um exército.

Jesus - Eu não preciso de soldados.

Judas - Você me procurou. E se eu amo alguém, eu morro por ele. Caso odeie alguém, eu o mato. Eu posso até matar alguém que eu amo se ele fizer a coisa errada. Você me entende?

Jesus - Eu compreendo.

Judas - Noutro dia quando você disse para darmos a outra face para quem nos bateu, eu não gostei disso. Somente um anjo poderia fazer isso, ou um cachorro. Eu sou um homem livre. Eu não dou minha face para ninguém bater. Você precisa de soldados.

Jesus - E acaso os soldados me farão livre?

Judas - Você deseja a liberdade para Israel?

Jesus - Eu desejo a liberdade para a alma.

Judas - Primeiro você liberta o corpo, depois a alma. Você sabe disso. Os romanos vêm primeiro.

Jesus - A alma vêm primeiro. Se você não mudar o que a alma deseja, você irá apenas substituir a dominação romana por outra dominação, e nada nunca irá mudar. Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta. É o desejo de riquezas e poder que faz com que o homem queira dominar os outros. É o desejo que precisamos mudar, precisamos primeiro libertar a alma. Com amor.

***

Crédito da imagem: Divulgação (William Dafoe em "A Última Tentação de Cristo").

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2.5.11

Caso Parmod, parte 5

« continuando da parte 4

A primeira coisa que se lê no livro de Ian Stevenson (publicado pela Editora Vida e Consciência) é uma citação atribuída a ele – que não sei se consta da edição original americana, mas não deixa de ser pertinente –, que diz assim:

“Se os hereges pudessem ser queimados vivos nos dias de hoje, os cientistas – sucessores dos teólogos, que queimavam qualquer um que negasse a existência das almas no século XVI – hoje queimariam aqueles que afirmam que elas existem”.

Exagero? Provavelmente que sim, mas nem tanto... A vantagem dos cientistas radicais sobre os eclesiásticos radicais é que, apesar de tudo, eles ainda são mais racionais, e não se esqueceram dos seus precursores que morreram na fogueira – embora estes não fossem tão radicais e tampouco apenas cientistas, muitos eram também religiosos e até mesmo frades, como o dominicano Giordano Bruno.

Ainda assim, a neutralidade da ciência Ocidental é um mito. A começar pelo fato de ser primordialmente a ciência de uma cultura. Não há espaço para trazer muitos detalhes, mas apenas gostaria de lembrar que Alfred Russel Wallace é tão autor da teoria da evolução quanto Darwin, mas a Academia optou por relegá-lo a um rodapé da história, pois que era um espiritualista com “ideias heterodoxas”; Também vale a pena citar a acupuntura, parte da ciência Oriental, largamente utilizada na medicina dita complementar e mesmo na veterinária, que é muito pouco estudada pela Academia, apesar de que admitem seus resultados – todos, sem exceção, caindo na conta do “misterioso” efeito placebo...

A Academia parece até abrir um certo precedente para doutrinas como a do catolicismo, onde todos os milagres ocorreram a muito tempo atrás, e os pouquíssimos admitidos pelo Vaticano atualmente servem muito mais para beatificações e santificações do que para qualquer espécie de estudo científico do assunto. Se almas existem, pouco importa cientificamente falando, pois só teremos contato com elas após a morte. A presença de um Espírito Santo imaterial em tudo que há tampouco pode ser detectada. E, se orações funcionam ou não, não parece aborrecer a Academia no sentido em que o Vaticano tampouco conduz experimentos sobre isso.

Porém, quando surge um sujeito sério como Ian Stevenson, pesquisando temas ditos esotéricos e místicos de forma científica e extremamente meticulosa, daí é um grande absurdo! Talvez não décadas atrás, quando ele iniciou os estudos com o patrocínio de Carlson, mas nos dias atuais vemos várias publicações científicas atacando seus métodos. Interessante como justamente Carl Sagan endossou sua seriedade... Ah, quantos céticos de negação a priori não devem se incomodar: “porque diabos o Sagan foi falar disso?”.

Há que se exaltar, finalmente, a coragem de Stevenson. Em nenhum momento ele diz ter certeza da reencarnação, mas a hipótese surge como uma explicação mais plausível e menos absurda para os fenômenos que ocorrem a crianças em todo mundo, embora relativamente raros. Alguns materialistas podem preferir a teoria dos Memes de Dawkins, outros parapsicólogos podem atribuir tudo ao Inconsciente Coletivo de Jung, mas apesar de serem mais bem aceitas pelos asseclas da Academia, tais teorias são consideravelmente mais místicas do que a da reencarnação, pelo menos vista pela visão científica de Stevenson.


Para terminar este estudo, gostaria de comentar sobre alguns dos padrões mais interessantes e relevantes observados no livro:

Da morte traumática
Muitos dos casos estudados relatam lembranças de uma morte traumática na vida anterior. Acidentes, assassinatos, suicídios, brigas, doenças fatais... Nesse sentido, o mecanismo da memória não parece ser muito diferente do que ocorre numa mesma vida. Ora, não é preciso nem se aprofundar muito na neurologia ou na psicologia para sabermos que são as memórias de maior carga emocional as mais duradouras, as que mantemos mais detalhes, muitas vezes as que nos traumatizam e se recusam a ir embora.
Muitas vezes é necessária uma imagem ou situação catalisadora dessas memórias “perdidas”... Uma garotinha da Europa medieval pode ter fugido da invasão de uma tribo de bárbaros a sua vila, apenas para morrer de fome em meio à área selvagem, sendo devorada por urubus ainda agonizante. Se a última imagem da vida anterior foi de um pássaro negro te devorando, não será de surpreender que numa outra vida esta mesma alma desenvolva uma estranha fobia a pássaros, sobretudo pássaros grandes.
Então muitos espiritualistas ficarão buscando um sentido para tais experiências, como se pudessem realmente compreender a consciência alheia, e seus “débitos” em relação ao Cosmos. Não podem: só o ser saberá dizer, quem sabe um dia, o porque de ter passado por tudo o que passou.
Mas fato é que, se a reencarnação existe, todos nós havemos de ter passado por alguma morte traumática, sendo que o importante é compreender que foi algo que já passou. Conforme Parmod ao reencontrar sua esposa da vida anterior – ele não se lamentou nem amaldiçoou a Deus por seu destino, apenas disse: “eu vim”.

Do esquecimento das vidas passadas
Interessante como o estudo de crianças que se lembram de vidas passadas também passe pelo seu esquecimento. É realmente quase que um padrão fixo: mais ou menos entre 1 a 3 anos as memórias se iniciam, mais ou menos entre 4 a 10 anos começam a desaparecer, mais ou menos na idade adulta foram completamente esquecidas, ou assimiladas e compreendidas, corretamente, como uma personalidade que já não está mais aqui.
Pois que drama há nisso tudo? Não é verdade que nenhum de nós sequer faz ideia de como éramos antes dos 3 a 4 anos (exceto alguns autistas, mas isso é uma outra história)? Ora, da mesma forma que as células de nosso corpo morrem e se renovam, de modo que ao morrermos não possuímos mais praticamente nenhuma célula daquelas que nasceram conosco, as memórias são muitas vezes apenas bruma e espuma, sustentáculos de nossas breves personalidades que estão em constante renovação e afloramento.
Você saberia dizer quem era você há 15, 20 anos atrás? E, mesmo que saiba dizer, tem mesmo certeza de que todo o seu relato é fiel a uma realidade que não existe mais? Pois, dessa forma, você já morreu – e continuará morrendo...
Apenas a potencialidade persiste. A capacidade de amar, o dom para as letras ou para a música, a lógica matemática, a intuição do caçador, a divina criatividade do poeta... Se é que existe mesmo uma alma primordial por detrás dessas máscaras de personalidade que usamos e trocamos inúmeras vezes, mesmo que em uma única vida, ela ainda parece estar muito distante de nossa compreensão. Portanto, quem acha que a reencarnação é apenas uma teoria para aplacar a angústia perante a morte, pense novamente – muitas vezes, esquecer é morrer. Mas será que esquecemos para sempre?

Da mudança de sexo
Segundo Stevenson, os relatos de vidas passadas com sexo diverso comportam menos de 10% de todos os casos estudados. Entretanto, essas ocorrências raras (dentro das já raras crianças que podem ser estudadas), apontam para um outro aspecto muito pertinente destes casos: o comportamental.
Ora, se é verdade que muitos casos são investigados do ponto de vista das informações passadas adiante pelas crianças – como nome de familiares, endereços, descrições de eventos, identificação de objetos, etc. –, há ainda muitos outros que caem no campo do comportamento, e que são muitas vezes mais sutis. Por exemplo: se uma criança do gênero masculino tem um comportamento afeminado, isso pode ser fruto de uma vida passada no gênero feminino? Essa seria a resposta mais superficial, mas nos estudos de Stevenson muitas vezes a vida passada era a de uma mulher com comportamento dito masculino. É difícil julgar, pois as almas insistem em serem apenas almas: nem homens, nem mulheres.
Muitas vezes, um modo de caminhar, um modo de dirigir o olhar durante uma conversa, um modo de observar a natureza ao redor, são muito mais pertinentes do que uma mera tendência a este ou aquele gênero sexual. A reencarnação pode nos ensinar que ainda antes de sermos heterossexuais ou homossexuais, somos almas, ou, porque não dizer, apenas seres sexuais.

Do tempo “entre-vidas”
Deste assunto Stevenson praticamente não trata, pois é até curioso de se notar: não há nada mais raro do que uma criança que afirme se lembrar de um tempo entre encarnações. E mesmo dentre as que lembram, os relatos não fazem muito mais sentido do que um sonho. Parece que, particularmente neste caso, o estudo genuinamente científico ainda precisará transpor muitas barreiras técnicas...
Entretanto, vale a pena notar como na maioria dos casos do livro, talvez por se tratarem de casos de mortes por acidente, violência ou doenças, e não por idade avançada, resultem em tempos entre vida bastante curtos – desde reencarnações “automáticas”, quando uma alma reencarna imediatamente após a morte (se quiserem saber mais, comprem o livro, não é minha intenção prejudicar o mercado editorial, e sim auxiliar!), até períodos de não muito mais do que alguns poucos anos.
Nesse aspecto as observações de Stevenson parecem diferir bastante de inúmeros casos relatados na literatura espírita, particularmente em livros como “O Céu e o Inferno” (de Kardec) e “Nosso Lar” (psicografia de Chico Xavier). Há a possibilidade dos relatos espíritas serem feitos por espíritos desencarnados, e não por crianças encarnadas, e, portanto, incluírem a memória do tempo entre-vidas: este tempo pode ser semelhante ao tempo que percebemos nos sonhos, e que muitas vezes é bastante mais longo do que o tempo “normal”. Quantas vezes não acordamos 15 minutos antes do despertador, e ao voltamos a dormir, experienciamos toda uma epopeia narrativa em apenas 15 minutos, até sermos interrompidos pelo despertador?
Enfim, o mundo dos espíritos pode mesmo ainda estar fora do alcance de uma análise objetiva e racional. Mas, o mundo das crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas ainda promete nos ensinar muito sobre o mecanismo da existência e, principalmente, sobre os mecanismos de nossa mente.

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Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Ian Stevenson); [ao longo] Tim Pannell/Corbis.

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25.4.11

Caso Parmod, parte 4

« continuando da parte 3

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Reconhecimentos mais relevantes feitos por Parmod
Abaixo listarei os 6 reconhecimentos mais relevantes de uma lista original com 36 itens. Também optei por ignorar alguns que já foram citados ao longo do meu resumo do texto completo deste caso.

1. Ele “morreu em uma banheira” (Informantes: M. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra, J.D. Mehra, segundo irmão de Parmod)
Comentários: De acordo com Sri M. L. Sharma, Parmod disse que “morreu em uma banheira”. As testemunhas da família Mehra afirmaram que Parmanand tentou uma série de tratamentos com banhos naturopáticos, quando teve apendicite. Ele fez alguns desses tratamentos dias antes de morrer, mas não morreu na banheira. Em uma carta de 6 de setembro de 1949, Sri B. L. Sharma afirmou que Parmod tinha dito que morreu “por ter sido molhado com água” e que ele (Sharma) soubera (supostamente por meio da família Mehra) que alguém dera um banho nele imediatamente antes de sua morte.

2. Ele tinha um cinema em Saharampur (Informantes: B. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra)
Comentários: A família possuía um cinema em Saharampur [1].

3. Seu nome era Parmanand (Informantes: B. L. Sharma; Verificação: M. L. Mehra)
Comentários: Parmod não havia dito o nome Parmanand até o momento em que cumprimentou Sri Karam Chand Mehra, na estação de Moradabad. Ele disse: “Olá, Karam Chand. Eu sou Parmanand”.

4. Explicação de como mexer na máquina de refresco na loja dos irmãos Mohan, em Moradabad. (Informantes: M. L. Mehra, B. L. Sharma, N. K. Mehra)
Comentários: Quando Parmod entrou na loja, um de seus primeiros comentários foi: “Quem está cuidando da panificadora e da fábrica de refrescos?” (Essas eram as funções de Parmanand nos negócios da família.) Ao ser levado até a máquina de refrescos, Parmod sabia exatamente como fazê-la funcionar. A água tinha sido desligada para enganá-lo, mas ele percebeu sem que ninguém lhe dissesse, como aquela máquina complicada tivesse condição de funcionar.

5. Reconhecimento da esposa de Parmanand. (Informantes: Nandrani Mehra, B. L. Sharma, M. L. Sharma)
Comentários: Sugestão não intencional pode ter entrado neste reconhecimento, uma vez que Parmod foi levado entre um grupo de moças e perguntaram a ele se conseguia reconhecer “sua” esposa. Ele ficou tímido e olhou para a viúva de Parmanand. Ela desviou o olhar. Mais tarde, ela disse a outros que Parmod havia dito: “Eu vim, mas você não colocou o bindi”. Essa afirmação referia-se à marca redonda de pigmento vermelho usada na testa das esposas, mas não por viúvas na Índia. O comentário teria sido muito incomum para um menino fazer a uma mulher mais velha, mas totalmente apropriado na relação entre marido e mulher. Ele indica como Parmod acreditava que a senhora era “sua” esposa [2]. Ele também a reprovou por estar usando um sári branco, como as viúvas hindus costumam fazer, em vez de um colorido, como é próprio às esposas.

6. Reconhecimento de Yasmin, um cobrador muçulmano de Parmanand. Parmod disse a ele: “Preciso receber um dinheiro de você”. (Informantes: B. L. Sharma, Raj. K. Mehra)
Comentários: Yasmin, a princípio, ficou relutante em assumir a dívida, mas quando membros da família Mehra afirmaram que não pediriam o dinheiro de volta, ele disse que, de fato, existia uma dívida. As testemunhas disseram valores diferentes [3].

O desenvolvimento posterior de Parmod
Não encontrei Parmod entre agosto de 1964 e novembro de 1971. Mas, durante esses anos, fiquei sabendo notícias dele por meio do Dr. Jamuna Prasad, que havia incluído o caso de Parmod entre aqueles nos quais uma equipe liderada por ele vinha estudando correspondências dos traços comportamentais entre indivíduos e personalidades anteriores relacionadas de casos de reencarnação. Durante esses anos, também recebi algumas cartas de Parmod ou de seu pai com notícias sobre suas atividades atuais.

Em novembro de 1971, pude conversar longamente com Parmod em Pilibhit. Nós nos reunimos no escritório do Soil Conservation Service, no qual ele trabalhava na época. Parmod tinha um pouco mais de 27 anos.

(...) Parmod continuava mantendo amizade com os membros da família de Parmanand, e os encontrava com frequência. Às vezes passava alguns dias com eles em Moradabad, apesar de não ter vivido com eles no período em que estava trabalhando em Moradabad. Com preferências condizentes com as de Parmanand, Parmod via mais os filhos de Parmanand do que a esposa dele em Moradabad.

Parmod disse que às vezes pensava na vida como sannyasi ou homem sagrado (anterior àquela de Parmanand) de que ele havia-se lembrado antes. Ele se lembrava dessa vida de vez em quando, em ocasiões em que se encontrava com pessoas com interesses filosóficos. Das três vidas das quais tinha lembranças, a do sannyasi, a de Parmanand e a de Parmod, ele preferia a de Parmanand. Não conseguia explicar essa preferência.

(...) Discutimos o valor de ele ter se lembrado de uma vida anterior. Parmod respondeu que a experiência não tinha sido útil nem prejudicial, mas imediatamente continuou dando exemplos que sugeriam que a experiência tinha sido as duas coisas.

Por um lado, ele concordava com a mãe em relação ao fato de sua lembrança da vida anterior ter interferido em seus estudos; e se isso fosse verdade, ele não havia se recuperado totalmente dessa deficiência, uma vez que seu avanço futuro dependia em grande parte do fato de completar os estudos e ter um diploma. Por outro lado, ele acreditava que suas lembranças de uma vida anterior também haviam trazido vantagens. No nível prático, ele acreditava que sua perspicácia nos negócios vinha do que ele havia aprendido da vocação da Parmanand [4].

E de modo mais geral, a certeza da continuação da vida depois da morte que suas lembranças lhe davam fazia com que tivesse equilíbrio, o que o ajudava muito em seus relacionamentos pessoais [5].

» Na continuação, minhas considerações finais acerca do caso Parmod.

***

Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] É preciso considerar que naquela época (e até mesmo ainda nos dias atuais, em muitas regiões da Índia) os cinemas eram pequenos e administrados como um negócio de família. Mesmo assim, pouquíssimas famílias indianas tinham um cinema, o que aumenta consideravelmente a relevância da informação. É o tipo de coisa que parece a primeira vista uma fantasia, mas que termina por se tornar uma verificação relevante.

[2] É curioso ler nas entrelinhas. Percebam como o menino não se virou para a “esposa” e apontou: “é aquela ali”. Ao invés disso, comportou-se como se apenas houvessem se separado por algum tempo. A relação tempestuosa entre os dois também fica evidente: mesmo após terem sido separados pela “morte”, a primeira declaração de Parmod é uma represaria.

[3] Em todo caso, melhor assumir uma dívida menor do que a real...

[4] Em realidade, sua vocação para negócios era uma de suas potencialidades bem desenvolvidas ao longo de inúmeras vidas, enquanto a personalidade anterior era tão somente a última de uma série onde teve a oportunidade de aprimorar esta potencialidade em específico... Ou, em outras palavras, ninguém nasce gênio por bênção divina ou uma graça aleatória da combinação genética, mas tão somente reflete a potencialidade (ou a “genialidade”) que vem sendo desenvolvida, passo a passo, vida a vida, pelas eras pregressas.

[5] Talvez ninguém tenha mais “certeza” disso do que uma criança que “já nasceu sabendo”. Há muitos que creem em vida após a morte, mas são pouquíssimos os que compreendem ao menos uma parte do mecanismo pelo qual isso ocorre. Crianças que lembram vidas passadas são especiais no sentido de que trazem uma crença que está por si só além de qualquer sistema religioso, científico, ou filosófico, pré-estabelecido pela sociedade.

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Crédito da foto: Doug Pearson/JAI/Corbis.

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12.4.11

Caso Parmod, parte 3

« continuando da parte 2

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Meios possíveis de comunicação entre as famílias
Bisauli é uma pequena cidade de 50Km a sudeste da grande cidade de Bareilly, no estado de Uttar Pradesh. Moradabad é outra grande cidade do estado, cerca de 97Km ao norte de Bareilly. Saharanpur fica ainda mais ao norte, cerca de 1600Km.

(...) A família de Parmod não tinha conhecimento da família dos “Irmãos Mohan” e, como já foi mencionado, a família de Parmod não iniciou contatos para combinar um encontro entre as duas famílias. [Elas] entraram em contato por meio de Sri Lala Raghanand Prasad, que tinha parentes em Moradabad, apesar de viver em Bisauli, onde era amigo do pai de Parmod.

(...) Em 1961, a mãe de Parmod afirmou que seu irmão, Sri Shiva Sharan Sharma, empregado de uma estrada de ferro, passou um tempo trabalhando em Moradabad. Ele também conversou com os irmãos Mehra a respeito do comportamento de Parmod depois que tomou conhecimento dele. Sri Shiva e Sri L. R. Prasad podem ter servido de elos telepáticos entre a família Mehra e Parmod [1].

Observações relevantes do comportamento das pessoas envolvidas
Por cerca de quatro anos, dos três aos sete anos, Parmod mostrou um comportamento que indicava uma forte identificação com a personalidade anterior, Parmanand Mehra.

(...) Durante esse período, Parmod costumava ficar sozinho e evitava brincar com outras crianças; ele parecia preocupado com a vida em Moradabad e com frequência pedia a seus pais que o levassem para lá, chegando a chorar por isso. Com relutância, começou a frequentar a escola, com a promessa de sua mãe de que ele poderia ir a Moradabad quando soubesse ler. Parmod reclamou do status financeiro de sua família, que ele comparava de modo desfavorável a “sua” antiga propriedade.

Além do comportamento já mencionado, Parmod demonstrou outros desejos, hábitos e coisas de que não gostava que eu descobri que se relacionavam com traços e experiências de Parmanand. Ele tinha, por exemplo, grande aversão a comer coalhada, cuja ingestão, como já foi dito, acredita-se ter contribuído decisivamente para a doença e morte de Parmanand. Parmod disse ao pai que ele não devia comer coalhada, que era perigoso [2].

(...) Parmod também demonstrava não gostar de ser submerso em água. Ele não tinha problemas com a água de uma torneira, por exemplo, mas ficava ansioso quando lhe propunham nadar ou até banhar-se em um rio, onde seu corpo ficasse todo submerso. Esse medo relacionava-se aos banhos de banheira que Parmanand tomou antes de morrer. Quando Parmod tinha 19 anos, em minha segunda visita, estava livre de ambos os medos descritos acima.

Na primeira infância, Parmod demonstrava uma devoção incomum, que correspondia a um traço parecido de religiosidade em Parmanand. Parmod disse que conseguia se lembrar de alguns fragmentos de uma vida antes daquela de Parmanand, quando era um saanyasi ou homem sagrado [3].

(...) Parmod usava diversas palavras e frases em inglês que seu pai dizia que não poderiam ter sido aprendidas na família, mas que eram apropriadas para Parmanand, que sabia falar inglês. (...) Parmod também mencionava os nomes Tata, Birla e Dolmia, grandes empresas da Índia. A última é uma fábrica de biscoitos [4].

(...) Em um aspecto de seu comportamento, Parmod demonstrava habilidade superior. Um parente que tinha uma pequena loja deixava alguém nela para cuidar dos negócios quando tinha de se ausentar. Parmod demonstrava grande aptidão para cuidar da loja, e esse homem preferia-o a qualquer outra pessoa para substituí-lo na loja.

(...) Ao encontrar membros da família de Parmanand pela primeira vez, Parmod demonstrou grandes emoções, incluindo lágrimas e demonstrações de afeto [5]. Sri M. L. Mehra disse que Parmod, em Moradabad, demonstrava preferência por ficar com ele e não com seu pai [6]. Essa atitude em relação aos membros da família de Parmanand correspondia aos relacionamentos que Parmanand tinha com eles.

Assim, ele se comportava com a esposa de Parmanand do modo como um marido faria, e em relação aos filhos dele como um pai faria. Demonstrava familiaridade com os filhos de Parmanand, mas não com seu sobrinho. Parmod não permitia que os filhos de Parmanand o chamassem pelo nome, mas disse que eles deveriam chamá-lo de “pai”. Ele dizia: “Apenas fiquei pequeno”.

Parmod perguntou à esposa de Parmanand se ela lhe daria trabalho de novo. Em outra ocasião, ele disse, referindo-se à esposa de Parmanand: “Esta é minha esposa com quem eu sempre discuto”. Um informante disse que Parmanand fora irritado pela esposa e que ele havia se mudado para Saharanpur para se afastar dela [7].

(...) Em 1962, o professor Sharma afirmou que Parmod havia “esquecido completamente” os fatos a respeito de sua vida anterior. (...) Ele não pensava muito sobre sua vida anterior, a menos que visitasse algum lugar, como Délhi, e sentisse uma certa familiaridade com alguma área ou construção. Ele tentava relacionar o local com suas lembranças da vida como Parmanand. E ele falava ainda menos da vida anterior aos outros, a menos que, como em minha visita, alguém lhe perguntasse algo específico.

» Na continuação, um quadro com os reconhecimentos mais relevantes de Parmod, e os comentários finais de Stevenson acerca deste caso...

***

Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] Estas análises céticas de possíveis formas de troca de informação entre a família da criança e a família de sua suposta vida passada estão presentes em todos os 20 casos descritos no livro. É muito comum que os investigadores deste tipo de fenômeno recorram também a explicações do ramo da parapsicologia, como a telepatia ou a “imposição de personalidade” dos pais aos filhos; muito embora os casos sugestivos do livro sempre tenham ao menos algum detalhe que não poderia ser explicado por outra teoria que não a da reencarnação, ou alguma outra teoria mais elaborada – e que ainda não foi criada.

[2] Fico imaginando se, daqui a algumas décadas, ou até mesmo nos dias atuais, não veremos crianças reclamando dos hábitos alimentares dos pais, ainda antes de terem estudado qualquer coisa sobre o tema...

[3] Isso é um padrão raro entre os casos descritos no livro, assim como nos casos em geral, mas bastante interessante. Ao que tudo indica, ter sido um “homem santo” não livra ninguém de ter de retornar para viver vidas bastante mundanas. Isso pode significar que: (1) Homens santos ou profundamente religiosos podem eles mesmos se interessarem em retornar, para ajudar a evolução da humanidade; (2) Tais “homens santos” tinham apenas um título eclesiástico ou similar, e não possuíam necessariamente uma estatura espiritual condizente com seu posto; ou (3) Uma mistura das duas possibilidades anteriores.

[4] Tais características eram bem mais relevantes no passado, antes do advento da internet. Parmod tampouco tinha acesso a enciclopédias ou grandes bibliotecas... Infelizmente, nos dias atuais, esse tipo de característica torna-se cada vez menos relevante, visto que as crianças já usam a internet desde muito cedo (contanto que tenham acesso a ela).

[5] Neste ponto a mera descrição por palavras, ou cascas de sentimento, é sem dúvida muito aquém do tipo de sensação vivenciada, ainda que não sejamos nós mesmos parentes das famílias envolvidas... Os vídeos sobre o assunto por vezes trazem uma visualização mais relevante, mas nada se compara a vivenciar este tipo de coisa. Não foi à toa que Stevenson trabalhou com isso por quase toda a vida!

[6] Eis a principal razão pela qual os pais das crianças só pesquisam e levam seus casos adiante quando não tem mais outra opção para aplacar a angústia das mesmas. Mesmo em países onde a reencarnação é aceita, nenhum pai passa sem o medo de que seu filho decida simplesmente ir viver com a outra família – embora isso quase nunca ocorra, em todo caso.
Da mesma forma, muitas vezes o esquecimento da vida anterior, que vem invariavelmente com a idade e a falta de convívio, é muitas vezes uma bênção. Pois quem gostaria de viver com saudades por mais uma vida inteira? E quem disse que renascer é fácil?

[7] “Até que a morte os separe” é muitas vezes uma nova bênção.

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Crédito da foto: Photosindia.com/Photosindia/Corbis.

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8.4.11

Caso Parmod, parte 2

« continuando da parte 1

Texto de Ian Stevenson em "Reencarnação, 20 casos” (Ed. Vida e Consciência) – Trechos das pgs. 163 a 185. Tradução de Carolina Coelho Lima. Os comentários ao final são meus.

Parmod Sharma, segundo filho do professor Bankeynehary lal Sharma, nasceu em Bisauli no dia 11 de outubro de 1944 [1].

Aos dois anos e meio de idade, ele começou a dizer a sua mãe para não cozinhar, porque ele tinha uma esposa em Moradabad que poderia cozinhar. Mais tarde, entre três e quatro anos de idade, começou a se referir a uma loja de refrescos e biscoitos que tinha em Moradabad [2].

Parmod pedia para ir a Moradabad. Afirmava ser um dos “Irmãos Mohan” e dizia ser rico e que tivera uma loja em Saharanpur [3]. Ele demonstrava grande interesse em biscoitos e lojas, que eu descreverei de modo mais completo posteriormente. Dizia que em sua vida anterior havia ficado doente depois de comer muita coalhada e que “havia morrido em uma banheira” [4].

Os pais de Parmod, no início, não fizeram nada para verificar as afirmações do menino. Essas notícias chegaram aos membros de uma família chamada Mehra, em Moradabad [5].

Os irmãos dessa família, que tinham uma loja de refrescos e de biscoitos (chamada Irmãos Mohan [6]) em Moradabad e outra loja em Saharanpur, haviam tido um irmão, Parmanand Mehra, que morrera no dia 9 de maio de 1943, em Soharanpur [7]. Parmanand havia sofrido de uma doença gastrintestinal crônica depois de se empanturra de coalhada. Parece que ele sofreu de apendicite e peritonite, e morreu.

Parmanand era um homem de negócios que mantinha uma sociedade com três irmãos e um primo. Eles tinham muitos interesses em Moradabad e Saharanpur, incluindo o negócio de fabricação de refrescos e biscoitos da família, que ele gerenciou por muitos anos.

Quando a família de Parmanand ficou sabendo das afirmações de Parmod por meio das conexões descritas a seguir, eles decidiram visitar o menino em Bisauli.

No verão de 1949, quando Parmod tinha pouco menos de cinco anos, diversos membros da família Mehra foram para Bisauli, mas não encontraram Parmod. Logo depois, Parmod viajou com seu pai e seu primo por parte de mãe para Moradabad. Ali, ele reconheceu diversos membros da família Mehra e diversos pontos da cidade. Posteriormente, visitou Saharampur e fez mais reconhecimentos das pessoas ali [8].

(...) Em 1961, investiguei o caso com a ajuda de Sri Sudhir Mukherjee atuando como intérprete. Em 1962, Sri Subash Mukherjee reuniu alguns relatos de entrevistas com testemunhas. Eu voltei à região em 1964 e reverifiquei o caso com o Dr. Jamuna Prasad como intérprete. A maioria das testemunhas apenas falava híndi, mas o pai de Parmod e um irmão mais velho falavam inglês, assim como Sri Raj K. Mehra (sobrinho de Parmanand Mehra) em Moradabad. Parmod falava apenas um pouco de inglês. Ao preparar este relatório, tive como base, principalmente, minhas entrevistas em 1964.

(...) Usei relatórios [de outros estudiosos do caso] apenas quando as testemunhas que eu entrevistei os leram e os aprovaram como corretos. O material reunido pelo professor B. L. Atreya e os primeiros relatórios têm a vantagem de terem sido escritos logo depois que os principais acontecimentos do caso ocorreram [9].

» Na continuação, um resumo dos relatos e observações relevantes do comportamento das pessoas envolvidas no caso...

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Comentários sobre esta parte. Ao final da série trarei comentários gerais:

[1] Este caso se encontra entre os casos estudados na Índia.

[2] Difícil dizer ao certo quando as memórias surgem. Provavelmente na maior parte dos casos elas já tenham surgido, mas a criança só consegue comunica-las aos pais a partir do momento em que adquire maior domínio da linguagem. Especificamente em casos de xenoglossia em crianças prodígio, é possível que as memórias possam ser comunicadas ainda muito cedo. Porém, devido a raridade desses casos de xenoglossia infantil, a grande maioria dos casos só pode ser verificada após os 2 anos de idade.

[3] Este na realidade é um dos poucos casos do livro em que a vida anterior (ou personalidade anterior, como Stevenson gosta de chamar) tinha uma condição financeira consideravelmente superior a atual. Trata-se obviamente de uma exceção, visto que na Índia do século passado, e mesmo na atual, existe uma proporção muito maior de pobres e classe média do que de ricos.

[4] Um dos motivos porque escolhi este caso sobre outros onde houveram grandes acidentes, assassinos e assassinados, é exatamente porque a morte pode ser considerada “banal”, embora tenha sido traumática. Falarei mais sobre isso ao longo dos comentários.

[5] Este trecho é importante. Muito embora a Índia seja um país onde a crença na reencarnação é fortemente arraigada, isso não significa que os pais tenham interesse em divulgar os “comentários estranhos” de seus filhos. Normalmente, são vizinhos curiosos (ou fofoqueiros) que acabam por divulgar tais notícias, visto que os pais na maior parte das vezes são os menos interessados em seguir adiante nas investigações (principalmente em casos onde há assassinos ou assassinados).

[6] Conforme comentário do autor: O irmão mais velho dos sócios da família Mehra era Mohan Mehra. Seu nome tornou-se relacionado aos negócios da família, chamado “Mohan e irmãos”, abreviado para “Irmãos Mohan”.

[7] Posteriormente irei comentar sobre o tempo médio “entre vidas” e da possível relação de mortes traumáticas com períodos mais breves.

[8] Stevenson analisa detalhadamente cada reconhecimento, o que será descrito em outras partes desta série.

[9] Um problema comum – e constantemente lembrado pelos críticos – das investigações de Stevenson é o fato de na maior parte das vezes terem sido tardias. Acredito que ele tenha aprendido a lição, tanto que o principal “continuador” de seu trabalho, Dr. Jim Tucker, tenha optado por focar em casos norte-americanos, como forma de conseguir chegar às crianças analisadas o mais breve possível. Isso é vital por duas razões: a primeira é a de que na maior parte dos casos as crianças vão se esquecendo das lembranças já a partir dos 7 anos – sendo que muitas se esquecem por completo. A segunda é a de que analisando o caso desde o início, é possível anotar afirmações das crianças ainda antes de sequer terem sido validadas, o que traz uma enorme credibilidade a pesquisa. Não podemos esquecer do caso extraordinário de James Leninger, norte-americano, em que inúmeras afirmações foram comprovadas posteriormente.

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Crédito da foto: Scott Stulberg/Corbis (criança de Jaipur/Índia).

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5.4.11

Caso Parmod, parte 1

Ian Stevenson foi um médico psiquiatra canadense e também o fundador da moderna pesquisa científica a respeito da reencarnação. Ele ficou conhecido por recolher e analisar meticulosamente casos de crianças as quais pareciam lembrar de vidas passadas sem o auxílio da hipnose. Após a publicação de seu primeiro ensaio sobre reencarnação em 1966, o inventor da fotocopiadora, Chester Carlson, custeou as suas primeiras visitas de campo à Índia e ao Sri Lanka. Quando Carlson faleceu (1968), legou um milhão de dólares para manter uma cadeira na Universidade da Virgínia, e mais um milhão de dólares para o próprio Stevenson, com o intuito de que a pesquisa sobre a reencarnação não parasse [1].

E, de fato, não parou: em 1974 Stevenson lançou sua obra mais relevante e conhecida, “20 casos sugestivos de reencarnação”, onde relata os 20 casos de evidência mais forte dentre as centenas que estudou em todas as partes do mundo (não apenas no Oriente, como também no Alasca e até mesmo no Brasil). Felizmente, esta obra se encontra hoje traduzida e lançada no país pela Editora Vida e Consciência, da família Gasparetto.

A despeito do interesse do tema entre os espíritas e reencarnacionistas em geral, esta obra é relevante para qualquer estudioso sério da parapsicologia. Mesmo Carl Sagan, em sua “bíblia do ceticismo”, o livro “O mundo assombrado pelos demônios”, menciona os estudos de Stevenson como o tipo de pesquisa heterodoxa que mereceria uma atenção mais cuidadosa da comunidade científica: “crianças pequenas às vezes reportam detalhes de uma vida anterior, detalhes que quando analisados revelam-se precisos, e um conjunto de informações que não poderiam saber de nenhuma outra forma que não a reencarnação”... Ainda que Sagan acreditasse numa explicação alternativa – ou seja, não necessariamente a espiritual – fato é que reconheceu a seriedade da pesquisa.

O próprio Stevenson reconhecia que seus estudos não eram inteiramente conclusivos, mas sem dúvida requeriam um aprofundamento maior. Simplesmente negar a tudo a priori, ou taxar todas as manifestações como fraudes, seria uma simplificação inteiramente não compatível com o ceticismo – primeiro, porque os relatos eram originários de crianças, segundo porque as famílias envolvidas não recebiam qualquer benefício financeiro ou vantagem pela divulgação dos casos (pelo contrário, a maior parte delas procurava evitar a exposição indesejada, e só seguia adiante devido à angústia das crianças), e finalmente, porque os relatos ocorrem em todas as partes do globo, não apenas nas regiões onde a cultura e a religião são favoráveis a explicação da reencarnação [2].

Stevenson aposentou-se em 2002, deixando o seu trabalho para sucessores, dirigidos pelo Dr. Bruce Greyson. Dr. Jim Tucker, um psiquiatra infantil, continua com trabalho de Ian Stevenson com crianças, concentrando-se em casos norte-americanos. Em 2007 Stevenson faleceu de pneumonia, aos 88 anos.

Uma das maiores vantagens que vejo na pesquisa genuinamente científica da reencarnação, é que ela opera livre de dogmas ou crenças fortemente arraigadas do passado. Não se trata, portanto, de ler o livro de Stevenson apenas para demonstrar para si mesmo “que a reencarnação está cientificamente comprovada”, conforme diz (erroneamente) o site onde o livro é vendido no Brasil. Pois já na introdução do livro é o próprio autor quem afirma que seus estudos são inconclusivos, comportamento de um cético genuíno... Ou seja, é preciso analisar como exatamente a reencarnação opera na natureza.

E, nesse aspecto, as descrições dos 20 casos de Stevenson acabam por identificar certos padrões que, por serem fruto de pesquisa científica, podem ser analisados de forma puramente racional [3]. Alguns destes padrões corroboram, é claro, muito do que tem sido afirmado sobre a reencarnação em literatura espiritualista. Outros, no entanto, podem fugir completamente das teorias mais aceitas, ou até mesmo aprofundar a explicação de aspectos que são tratados de forma superficial nos textos filosóficos e religiosos.

Acredito que a melhor forma de demonstrar isso seja trazendo a vocês o texto original de Stevenson, comentado onde encontrei os padrões mais relevantes... Como não posso e nem pretendo publicar todos os 20 casos do livro aqui, optei por trazer a versão resumida de apenas um dos casos.

» Na continuação, o caso de Parmod.

***

[1] Num mundo acadêmico essencialmente materialista e avesso a estudos do gênero, seria uma surpresa que um cientista conseguisse custear suas pesquisas sem o auxílio de um patrocinador da área empresarial. O fato de Stevenson ter sido patrocinado por um empresário meramente curioso, ocidental, e que ainda por cima faleceu logo no início de suas pesquisas, retira de sua obra qualquer sombra de conivência com grupos religiosos. Não custa lembrar que isso é atestado por céticos do porte de Sagan.

[2] Ver, por exemplo, o caso extraordinário do garoto americano James Leninger. Apesar de ser um caso bem mais atual, uma pena não ter ocorrido na época dos estudos de Stevenson.

[3] Não que outros tipos de análise sejam inválidos, mas certamente precisamos encarar a realidade sob diversos aspectos. Analisar a reencarnação de forma puramente racional é uma ação que pode nos ajudar a desvelar muitos detalhes que são notoriamente ignorados em textos espiritualistas. Há muitos padrões que, numa análise filosófica ou religiosa são de pouca ou nenhuma importância, mas que numa análise detalhista e meticulosa, sobretudo do mecanismo e não do sentido da reencanação, se revestem de grande relevância – quantos anos em média uma alma demora para reencarnar, se há mudança de sexos e com que frequência, qual a importância de mortes traumáticas na lembrança em vida posterior, etc.

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Crédito da imagem: Editora Vida e Consciência (divulgação).

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25.3.11

O fogo de Prometeu, parte 3

continuando da parte 2

O Sol é a estrela central do Sistema Solar. Todos os outros corpos do Sistema Solar, como planetas, asteroides, cometas e poeira, bem como todos os satélites associados a estes corpos, giram ao seu redor.

Sejamos como os girassóis

Poderemos então imaginar que, no final das contas, a fórmula sagrada de Einstein – E=MC² – é tão somente um arauto da destruição. Mas a mesma equação que produz a morte é essencial para a vida.

O universo é formado principalmente por elementos leves, como gases. Somente o hidrogênio representa cerca de 75% da massa detectada no espaço-tempo. Não fosse pelas reações nucleares nas fornalhas estelares, elementos pesados não existiriam, incluindo o carbono, no qual toda a vida na Terra é baseada.

Nas estrelas o que ocorre, no entanto, é a fusão nuclear, quando dois átomos se fundem e formam um outro núcleo de maior número atômico, liberando vasta energia e formando detritos, que são exatamente os elementos pesados. A fusão nuclear, apesar de produzir bem mais energia do que consome, só ocorre em ambientes com quantidades enormes de energia, como no calor das fornalhas estelares... Apesar de até hoje o homem não ter conseguido dominar este deus, é graças há fusão nuclear que existimos. Nós somos formados, literalmente, por poeira de estrelas, ou o que sobrou do choque atômico no fogo de Prometeu.

A Terra é a terceira pedra do Sol. Deve sua formação e manutenção quase que exclusivamente a esta estrela, que representa 99,86% da massa do Sistema Solar. Sua atração gravitacional, ou a curvatura que provoca no espaço-tempo, é a única coisa que nos impede de orbitar o vácuo cósmico, congelando na escuridão dentre as galáxias longínquas. A gravidade nunca nos falhou, e o Sol ainda nos auxiliará por bilhões de anos.

Desde a pré-história o homem já tem cultuado o Sol como um deus. O deus Invicto, que jamais perdeu a batalha contra a escuridão da noite... Os homens, entretanto, passam longe de terem sido os primeiros seres terrestres a prestar homenagens ao Sol. Foi graças à fotossíntese das plantas que toda a cadeia evolutiva da vida se tornou viável no planeta; Em última instância, nós realmente temos nos alimentado do Sol.

Mesmo o petróleo, este fétido ouro negro pelo qual os homens são capazes de fazer as guerras mais absurdas, nada mais é do que fruto da fotossíntese ao longo de milhões de anos, assim como qualquer outro combustível fóssil. Em nossa sede por energia na era moderna, temos buscado por soluções miraculosas, e foi assim que a fissão nuclear nos pareceu convidativa... Mas, será mesmo segura? Será mesmo que podemos bater no peito e dizer: “agora sim, nós temos exata noção do que ocorre, e podemos controlar totalmente a energia nuclear, jamais teremos outra Chernobyl...”? Acredito que a história fale por si só.

Não há nada de errado, diabólico ou “não-natural” com o uso da energia nuclear. Em realidade, ela é natural, como tudo o mais que compõe o Cosmos... O problema é insistirmos em fazer usinas em areia movediça, enquanto sempre tivemos uma Usina Central funcionando a pleno vapor. Porque não deixar que o Sol continue sendo a nossa usina nuclear? Afinal, ela sempre esteve lá, e nós temos recebido sua energia sem interrupções por bilhões de anos. Em todo caso, se um dia ela falhar, nossa última preocupação seria com o apagão no metrô.

Os girassóis são plantas originárias da América do Sul cultivada pelos povos indígenas para alimentação, foram domesticadas por volta do ano 1000 a.C. Elas tem esse nome porque acompanham a trajetória do Sol todos os dias, do nascente ao poente. Certamente os girassóis já reverenciavam o deus Invicto muito antes do homem ter surgido no planeta. Quem sabe não podemos aprender com eles? Sejamos, pois, como os girassóis!

As sementes do girassol produzem um óleo comestível, e sua produção anual ultrapassava 20 milhões de toneladas em 2008. Este óleo também serve para produzir combustível, o biodiesel, uma solução energética limpa e sustentável, muito embora continue sendo um sub produto da Usina Central.

E que tipo de energia enviada pelo Sol pode nos ajudar, afinal? Ora, a energia solar é a designação dada a qualquer tipo de captação de energia luminosa (e, em certo sentido, da energia térmica) proveniente do sol, e posterior transformação dessa energia em alguma forma utilizável pelo homem, seja diretamente para aquecimento de água ou ainda como energia elétrica ou mecânica. A radiação solar, juntamente com outros recursos secundários de alimentação, tal como a energia eólica e das ondas, hidro-eletricidade e biomassa, são responsáveis por grande parte da energia renovável disponível na terra. Apenas uma minúscula fração da energia solar disponível é utilizada. Ora, e a energia solar nada mais é do que a energia nuclear produzida num local seguro...

Os desertos do planeta recebem mais energia do Sol em seis horas do que todo o consumo da humanidade em um ano. Estima-se que apenas 1% da superfície de 9,1 milhões de quilômetros quadrados do Saara, onde o Sol brilha 4.800 horas por ano, seria suficiente para suprir as necessidades energéticas de todo o mundo. Esse potencial de fonte alternativa, no entanto, permanece até hoje mal aproveitado, pelas limitações logísticas que se impõem à geração de eletricidade em grande escala a partir da radiação solar. Um passo significativo no sentido de utilizar melhor a energia do sol foi dado em 2009, com a assinatura na Alemanha de uma carta de intenções num consórcio de doze empresas, que apresentou o Desertec, um projeto para produzir eletricidade no Saara, no norte da África, e abastecer a Europa.

Concluso, o megaprojeto teria uma capacidade instalada de 100 gigawatts. O sistema conseguiria atender a 15% da demanda europeia em 2050. Com ele seria possível produzir energia o bastante para suprir o Brasil por seis meses, ou o equivalente a quatro Itaipus. Seus idealizadores acreditam que, num mundo de crescente escassez energética e de necessidade premente de buscar fontes que não sejam de origem fóssil, são boas as chances de que o plano saia do papel. O investimento ganhou o apoio da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso.

Os detratores da energia solar dizem que ainda é muito cara a produção de painéis solares, e que a simples produção dos mesmos já envolve um certo gasto de energia. Mas, convenhamos, será que não vale a pena investirmos nessa tecnologia? Ou será que o gasto nessas pesquisas chega sequer a 1% dos trilhões que são gastos no comércio de armas em todo mundo?

Tolos são os governantes que preferem gastar todos os seus recursos em armamento, apenas para assim poderem manter o domínio sobre territórios ricos em ouro negro, enquanto o deus Invicto, o que possibilitou nossa vida, e dos girassóis, e que em última instância produziu o próprio ouro negro, tem flutuado acima de nossas cabeças por todo esse tempo. Prometeu tem nos enviado seu fogo a cada momento, mas não aproveitamos... Talvez a guerra e os horrores dos desastres nucleares nos pareçam mais interessantes?

Se os governantes continuam cegos, saibam que hoje ao menos podemos, pouco a pouco, aproveitar a energia da Usina Central... Conforme a tecnologia para a produção de painéis solares caseiros vai ficando mais barata, cada vez mais projetos residenciais, particularmente na Europa, vão incluindo painéis nos telhados das casas. Não é uma solução tão vasta quanto os planos para usar o Saara como receptor global de energia solar, mas já é um começo... Um passo que já foi dado há alguns anos, aliás.

Quem sabe não chegue o dia em que produziremos nossa própria eletricidade em nossa casa, e dependeremos quase que somente dela para nossa manutenção diária, e inclusive o transporte em carros elétricos. Hoje, não é algo tão difícil de imaginar. Cada casa, um girassol... Não vai acontecer enquanto não tivermos vontade que aconteça.


Bendito seja o mesmo sol de outras terras
Que faz meus irmãos todos os homens
Porque todos os homens, um momento no dia, o olham como eu

- Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

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Crédito das imagens: [topo] Andreas Rocha; [ao longo] Mirian Guarnieri.

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