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20.7.11

O escultor da realidade

Texto de Miguel Nicolelis em "Muito além do nosso eu” (Ed. Cia. das Letras) – Trechos das pgs. 55 a 58. Os comentários ao final são meus.

Acredito que o cérebro pode ser definido como o mais fenomenal simulador produzido pela evolução no universo conhecido; pelo menos, até onde podemos verificar independentemente. Como um escultor paciente e preciso da realidade, nosso sistema nervoso produz uma série de comportamentos vitais para nossa sobrevivência e existência consciente, que podem ser divididos em três principais categorias:

a) Manter a operação fisiológica de todo o corpo por meio de um processo fisiológico global denominado homeostase;

b) Construir modelos altamente refinados do mundo exterior, de nós mesmos e da interação dinâmica entre os dois [1];

c) Explorar ativamente o ambiente externo em busca de novas informações para testar e atualizar seus modelos internos. Isso inclui a previsão de eventos futuros e recompensas associadas a eles, por meio da geração de expectativas para seus possíveis resultados, custos e benefícios [2].

Surpreendentemente, essa pequena lista cobre boa parte das funções básicas do sistema nervoso central. Por definição, uma simulação ou modelo permite ao modelador realizar uma análise e monitoração contínua de toda sorte de parâmetros que podem levar a uma acurada previsão de eventos futuros. Neurofisiologistas despenderam uma considerável quantidade de tempo investigando como o cérebro mantém o processo de homeostase, e nas últimas décadas houve uma explosão exponencial na investigação experimental dos mecanismos que permitem ao cérebro codificar informações sensoriais, motoras e cognitivas.

Mas, devido às óbvias dificuldades experimentais envolvidas, a neurociência moderna ainda evita investigar os mecanismos fisiológicos dos comportamentos mais complexos que sustentam a fascinação obsessiva, presente em todas as culturas, por reconstruir um caminho verossímil, não importa o quão abstrato ou místico, de como o universo foi criado, de como a humanidade surgiu desse cosmos envolto num vácuo silencioso e inóspito, e por que a dádiva da vida emergiu, quase que inconsequentemente, numa discreta esquina da periferia do universo [3].

Não é surpresa, portanto, que onde a investigação científica não conseguiu se estabelecer tenha surgido um terreno fértil para a proliferação de inúmeros mitos religiosos, tão ou mais comuns e excludentes hoje do que nos dias de nossos antepassados distantes. Esses mesmos comportamentos complexos que nos levam a inquirir sobre a origem de tudo e de todos definem a curiosidade ardente, marca da essência mental de nossa espécie, que deu à luz ao método científico [4].

Comportamentos altamente sofisticados também definem as estratégias de convívio social e de corte amorosa empregadas pelos seres humanos para conquistar o monte Everest do processo evolutivo: a transmissão de seus genes para gerações futuras. Neles também encontramos todas as formas de expressão usadas pelos membros de nossa espécie para imprimir ideias e crenças, sonhos e receios, paixões e preconceitos nas memórias de nossos entes queridos, conhecidos e outros membros de nossa sociedade.

Ao leitor que, a essa altura, pode estar se perguntando se toda essa introdução teórica e a proposta de mudança de rumo que proponho para a neurociência do século XXI não passam de picuinha filosófica, respondo apenas que tal discussão tem desempenhado um papel central numa batalha intelectual que, nos últimos duzentos anos, serviu de inspiração para muitos dos maiores praticantes da delicada arte de estudar o cérebro, numa disputa apaixonante e acirrada pelo direito de desvendar os mistérios da essência da natureza humana [5].

Para minha surpresa, durante os capítulos recentes dessa batalha, a visão aqui proposta do cérebro como um verdadeiro simulador da realidade tem recebido cada vez mais apoio fora da comunidade de neurocientistas. Em seu clássico livro O gene egoísta, o biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins claramente declara sua concordância com a teoria de que o cérebro, especialmente o humano, desenvolveu a capacidade de criar simulações elaboradas e detalhadas da realidade. Cantando no mesmo tom, o físico israelense David Deutsch vai ainda mais longe, ao propor, em seu livro A essência da realidade, que tudo que “experimentamos diretamente não passa de uma construção virtual, convenientemente gerada para nosso usufruto, por nossa mente inconsciente, a partir de dados sensoriais somados a complexas teorias adquiridas e congênitas sobre como interpretar novas informações [6]”.

No primeiro parágrafo de sua obra-prima Cosmos, o astrônomo americano Carl Sagan reflete: “O cosmos é tudo que existe, existiu ou existirá. A contemplação do cosmos nos comove, provoca calafrios que sobem pela nossa espinha dorsal, e nos corta a voz, causando uma sensação de vertigem, como uma memória remota de estar caindo de uma grande altura. Sabemos que estamos nos aproximando do maior de todos os mistérios”.

Até onde sabemos, existe apenas uma criação desse cosmos impressionante capaz de decifrar sua linguagem majestosa, e ao mesmo tempo se dar ao luxo de gerar um enorme repertório de sensações inebriantes, que nossos verdadeiros progenitores, remotas supernovas, nunca tiveram o privilégio de saborear. Justamente porque esses progenitores se queimaram em seu fogo celestial – completamente inconscientes de que, um dia, ventos cobertos de poeira estelar seriam capazes de semear o sopro de vida num insignificante planeta azul localizado no obscuro sistema solar de uma galáxia distante –, nosso cérebro nos permite consumir, com lascívia incomparável e incessante, cada bit de uma existência plenamente consciente, enquanto em silêncio ele entalha em nossa mente todos os detalhes mais íntimos de uma memória infinita, enquanto ela durar [7].

***

[1] Numa visão espiritualista, o cérebro certamente pode construir um “modelo de nós mesmos”, mas esse modelo se limita a nossa personalidade, ou o conjunto de memórias de uma vida. Das potencialidades, o cérebro nada sabe, pois que é antes um serviçal das potencialidades, e não seu gerador. Nicolelis possui uma instituição no nordeste do Brasil que patrocina a educação científica de crianças carentes, ele certamente deve até hoje se admirar com o “milagre” do tilintar das potencialidades dessas crianças, embora provavelmente não compartilhe da crença de sua verdadeira origem.

[2] Hoje se sabe que o processo de consciência está sempre ativo, mesmo quando estamos apenas descansando de olhos entreabertos. Porém, mesmo a consciência é apenas uma parte dos sistemas cerebrais, sempre incessantes (até a morte cerebral, pelo menos).
Já a teoria da “ação e reação visando recompensas” é tão somente o mais próximo que a neurociência conseguiu chegar a uma definição de porque temos vontade, porque amamos, etc. Obviamente ela ainda falha miseravelmente numa compreensão mais profunda dos sentimentos mais básicos; que dirá do sentimento que leva um bombeiro a se aventurar em um prédio em chamas para salvar vítimas, ou da convicção de um médico da cruz vermelha em arriscar a própria vida no entorno de zonas de guerra, para salvar a vida alheia.

[3] Ao longo desse parágrafo, Nicolelis nos traz uma curiosa definição “científica” para a religião ou religiosidade humana.

[4] O autor entra em contradição, talvez quase que inconscientemente, provavelmente devido a “programação do pensamento científico da Academia”: Ora, a experimentação científica surgiu primeiramente na ilha grega de Samos, e, muitos séculos depois, ressurgiu em plena Renascença. Já a ciência é muito mais antiga, de uma época em que ciência e religião compartilhavam a mesma origem. A ciência deve sua origem à religião, tanto quanto a astronomia a astrologia, a química a alquimia, e a teoria da evolução as teorias espiritualistas (principalmente através de Alfred Russel Wallace). A investigação científica não conseguiu se estabelecer, portanto, porque antes ainda não existia.
Já em relação aos “mitos religiosos comuns e excludentes”, talvez Nicolelis mudasse de opinião caso conhecesse Joseph Campbell, e sua teoria do Monomito, onde todos os mitos compartilham uma certa essência em comum – e, nesse caso, nunca foram excludentes.

[5] A ciência moderna se digladia para explicar o que somos de forma mecanicista, mas ainda passa ao largo de compreender como podemos ser seres que interpretam informações e têm vontades, e não máquinas que foram programadas pela natureza para buscar a sobrevivência da melhor forma possível (a mais adaptável ao meio ambiente, de preferência). É mais ou menos como tentar explicar uma poesia de Pessoa, ou a vermelhidão do vermelho, com termos puramente científicos: não vai dar. Não vai dar...

[6] Até aí perfeito, eu só não entendi o “não passa de”... Ora, isso não é pouca coisa. A capacidade de interpretar informações, própria da consciência humana, está muito além da capacidade de qualquer máquina já produzida, e talvez de qualquer uma ainda por se produzir.

[7] Nas belas palavras de Nicolelis, o cérebro humano mais parece um deus a esculpir nossa realidade. E, estranho de se pensar, ele talvez não esteja muito distante da verdade... Em algum ponto de nós ainda arde uma fagulha divina, um pequeno resquício da Grande Supernova.

***

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Crédito da foto: Judith Wagner/Corbis

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5 comentários:

Blogger Marcos Oliveira disse...

Raph, é impressão minha ou você NÃO GOSTOU das palavras do Nicolielis.

Adoro seu blog e tenho lido quase diariamente. E ao ver um texto do Nicolielis aqui, achei que vc fosse comentar numa linha mais "vejam só como o cérebro é surpreendente e nossa consciência molda a realidade e o desconhecido".
Mas ao invés disso, senti um tom meio crítico nos seus comentários.

A propósito, aproveito meu 1º comentário aqui pra dizer que seu artigo "Reflexões sobre o tempo" é um dos textos mais fascinantes que eu já li! (e reli, e reli...).

22/7/11 08:54  
Blogger raph disse...

Hehe, eu também achei que acabei sendo crítico demais, talvez... Mas note que minha crítica não é ao trabalho de Nicolelis e nem ao livro, mas a algumas noções de materalismo científico presentes nesse trecho.

Mas não me entenda mal, Nicolelis é hoje um dos grandes cientistas do mundo, e provavelmente nosso futuro primeiro Nobel brasileiro. Longe de mim querer criticar o trabalho dele... A crítica é realmente apenas "ideológica" mesmo :)

Abs
raph

22/7/11 10:13  
Blogger Marcos Oliveira disse...

OK. Dessa vez passa! rs

Mas tb não achei ele materialista demais não. Até acho que, quanto mais coisas ele descobre, mais fico espantado com a capacidade do nosso cérebro! E mais espiritualista e humanista eu fico!!! hehe

22/7/11 13:08  
Blogger raph disse...

As vezes há essa confusão de termos. Esse trecho do livro dele defende de uma forma meio indireta o materialismo científico, que "aposta" que somente a matéria já detectada explica todo o funcionamento da consciência (aqui eu explico melhor o que quero dizer por "materialismo científico"):

http://textosparareflexao.blogspot.com/2010/12/reflexoes-sobre-o-materialismo-parte-3.html

A minha crítica vai sempre num sentido de expor o quanto essa "aposta" é incerta, talvez mais incerta do que a própria "aposta" na existência do espírito.

Ah, e obrigado pelo comentário acerca da série sobre o "Tempo". Adianto aqui que a próxima série será uma das mais difíceis da história do blog, onde vou falar sobre o "Amor"...

Abs
raph

22/7/11 14:02  
Blogger Marcos Oliveira disse...

Valeu pela explicação! Eu ainda não li essa série do materialismo. Vou ler com calma!

Caraca... falar sobre o "amor" é complicado até no senso comum!!!
Vou aguardar essa série!

22/7/11 14:59  

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