Pular para conteúdo
18.8.14

Conectados, parte final

« continuando da parte 5

Não seja escravo do seu passado. Mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe, e voltará com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais que explicará e superará a anterior. (Ralph Waldo Emerson)


Pensamentos libertos

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencefalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantou em muito a quantidade de erros; e naquele dia, se tudo corresse bem, todos presenciariam um “pequeno milagre” ocorrer diante de seus olhos.

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Até os primeiros dias do século 21, o mero fato de pessoas conseguirem se comunicar instantaneamente por todo o globo, através de chats na Web, já parecia um grande avanço tecnológico. Algumas mentes afortunadas já podiam mesmo antever o advento dos smartphones, dos tablets, dos chats por vídeo, da TV on demand, etc. Porém, eram poucos, pouquíssimos, que já no início deste século puderam vislumbrar uma era onde nossa tecnologia permitirá que comandemos computadores microscópicos embutidos em todo o tipo de equipamento, automóvel ou eletrodoméstico, e até mesmo dentro de nosso próprio corpo, sem que seja necessário mover um dedo, um único músculo!

Com o avanço das ICMs, os computadores poderão ler o baile elétrico que ocorre em nosso cérebro quando “imaginamos um movimento”, ainda que este movimento nem chegue a ser executado por membros e músculos de nosso corpo. De fato, com um entendimento mais completo de como funciona o nosso cérebro, talvez seja possível uma interface ainda mais direta, onde a separação entre o corpo e o dispositivo que ele “pilota” deixe de ser clara. O nosso “cérebro liberto” poderia, desta forma, incorporar (literalmente) em robôs exploradores das fossas submarinas deste planeta, ou do solo avermelhado de Marte. Mas, para a maior parte de nós, o mais provável é que passemos a viver, cada vez mais, imersos nos ambientes virtuais... De fato, talvez neste tempo o próprio termo – “virtual” – deixe de fazer qualquer sentido.

Em seu livro, Nicolelis chamou a ideia de “brainet” (a Web do cérebro):

“Nossa interação com sistemas operacionais e programas específicos de nossos computadores pessoais se transformaria num claro exemplo de simbiose virtual, uma vez que nossa atividade elétrica cerebral seria utilizada diretamente para capturar objetos virtuais e, eventualmente, utilizar um novo meio de comunicação, uma verdadeira rede cerebral, a “brainet”, como gosto de chamá-la, um considerável upgrade das redes sociais, que nos permitiria, literalmente, trocar ideias com milhões de outros cérebros navegantes. O fato de empresas como Intel, Google e Microsoft já terem criado suas divisões de interface cérebro-máquina indica claramente que esta ideia não é tão exótica quanto pode parecer à primeira vista.

[...] No futuro, o que hoje soa como inimaginável se tornará rotina, pois o ser humano, com suas faculdades mentais amplificadas, certamente terá acesso a uma variedade de ambientes remotos e até mesmo inóspitos, através de emissários que tomarão o formato de ferramentas artificiais sofisticadas, robôs humanoides e até mesmo virtuais, todos controlados única e exclusivamente pelo pensamento de seu mestre.”

Imaginem um cenário onde todo e qualquer pensamento irradiado por uma mente humana pode não somente influenciar, como ser influenciado por outro pensamento. Imaginem uma imensa rede de pensamentos interligados, se conectando e entrecruzando uns com os outros. Imaginem os pensamentos mais potentes, com maior penetração sobre as mentes alheias, lentamente galgando degraus numa “lista de tópicos” global. Imaginem um grupo enorme de mentes reunidas em torno dos pensamentos e sonhos mais celebrados, os alimentando e os tornando cada vez mais enraizados nos alicerces desta verdadeira teia global que, em verdade, une todas as consciências humanas... Imaginaram?

Agora me digam, com sinceridade, será que estávamos imaginando algo que surgirá num futuro tecnológico, ou algo que não somente existe neste momento, como tem existido desde os primórdios da humanidade?

Em seu livro A essência da realidade, o físico israelense David Deutsch afirma que “tudo o que experimentamos diretamente não passa de uma construção virtual, convenientemente gerada para nosso usufruto, por nossa mente inconsciente, a partir de dados sensoriais somados a complexas teorias adquiridas e congênitas sobre como interpretar novas informações”. Ora, se a vida sempre foi uma construção virtual, porque exatamente a “brainet” de Nicolelis seria algo essencialmente novo? Diferente, certamente – novidade, de forma alguma!

Desde que nos reuníamos em torno da fogueira no centro da tribo, após mais um dia de caça extenuante, e ouvíamos as histórias dos homens e mulheres que contemplavam as estrelas e diziam se comunicar com espíritos, temos construído, em nossas mentes, em nossos mundos internos, reais ou virtuais (tanto faz), os sonhos mais iluminados, os pesadelos mais macabros, os mitos mais transcendentes. De lá para cá nossas lanças e machadinhas se tornaram ferramentas muitíssimo mais elaboradas, mas que continuam sendo tão somente ferramentas. Um computador, afinal, serve para computar, da mesma forma que uma machadinha serve para cortar – quem utiliza as ferramentas, quem esculpe e interpreta o mundo, real ou virtual (tanto faz), somos nós, os humanos, os que despertaram.

Dessa forma, de nada adiantará nos deslumbramos com o avanço de nossa tecnologia, de nos conectarmos numa “brainet” global, se neste processo continuarmos a nos desconectar de nossa essência mais profunda, que aí sempre esteve a quem teve olhos para ver. Antes da Web, antes da teia global de computadores, nós já formávamos uma rede, e já estávamos conectados, como ainda estamos, a Alma de tudo o que há.

***

[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em Muito além do nosso eu (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler a obra. O artigo ainda trará outros trechos do mesmo livro.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Miguel Nicolelis); [ao longo] Heather Layton/Nagaland

Marcadores: , , , , , , ,

24.10.11

Objetividade relativa

Texto de Miguel Nicolelis em "Muito além do nosso eu” (Ed. Cia. das Letras) – Trechos das pgs. 449 a 453. Os comentários ao final são meus.

Sem dúvida alguma, as teorias da relatividade especial e geral de Albert Einstein representam a maior expressão de sucesso de uma versão do pensamento relativístico criada pela mente humana [1]. [...] Essencialmente, para Einstein, nem o tempo nem o espaço são absolutos. Assim, a relativização do tempo e do espaço explicam uma série de efeitos contraintuitivos, coisas como a dilatação do tempo, em que o tempo observado – como no exemplo clássico em que dois relógios carregados por um par de observadores – sai de sincronia, e a contração de comprimento de Lorentz, em que o comprimento de objetos se contrai à medida que a velocidade destes se aproxima daquela da luz. [...] Brian Greene, em seu livro O universo elegante, escreve que “A relatividade especial não está em nossos ossos [porque] não a sentimos. Suas implicações não são parte central de nossa intuição”.

A despeito da quase unânime aceitação da teoria da relatividade, o conceito de relativismo permanece sendo o centro de uma controvérsia extremamente acirrada no mundo científico. Dessa forma, não é surpresa que o pensamento relativístico tenha gerado um intenso debate, envolvendo visões extremamente contraditórias sobre o que a prática da investigação científica de fato significa. Nessa disputa interminável, a filósofa irlandesa Maria Baghramian coloca num lado do ringue o argumento de que o conhecimento científico é universal, uma vez que ele pode ser verificado em qualquer lugar, a qualquer momento.

Por exemplo, de acordo com o prêmio Nobel Sheldon Glashow, os cientistas “afirmam que existem verdades universais que são eternas, objetivas, fora da história, socialmente neutras e externas à mente humana, e que a catalogação dessas verdades define o objeto das ciências naturais. Leis naturais podem ser descobertas porque são universais, invariáveis, invioláveis, sem sexo e verificáveis”. Curiosamente, Glashow finaliza seu manifesto dizendo que “essa afirmação eu não posso provar. Essa é minha fé!” [2].

No outro canto do ringue, Baghramian coloca o físico alemão Werner Heisenberg, que – como era de se esperar – mantém sua postura de incerteza ao afirmar, em The physicist’s conception of nature [A concepção da natureza por um físico], que “o objetivo dessa pesquisa não é mais um entendimento dos átomos e seus movimento em si mesmo. Desde o início, estamos envolvidos com o debate entre a natureza e o homem, no qual a ciência desempenha apenas uma parte, de modo que a divisão rotineira do mundo entre subjetivo e objetivo, interior e exterior, corpo e alma, não é mais adequada e nos leva a dificuldades”. Aqui, o homem confronta a si mesmo na mais profunda solidão.

Nesse debate, como em muitos outros assuntos científicos, defiro sem remorsos minha própria opinião em favor das visões defendidas por outro crente imaculado do método científico, o grande paleontólogo americano Stephen Jay Gould. Apesar de não subescrever a filosofia do relativismo, Gould argumenta que “nossas formas de aprender sobre o mundo são fortemente influenciadas pelas preocupações sociais e pelos modos enviesados de pensamento que cada cientista aplica a qualquer problema. O estereótipo de um método científico totalmente racional e objetivo em que cientistas individuais trabalham tão logicamente quanto robôs serve apenas como mitologia de autopromoção classista” [3]. Em vez disso, Gould propõe que:

“A imparcialidade (mesmo que desejada) não pode ser atingida por seres humanos [...]. É perigoso para um pesquisador sequer imaginar que ele pode atingir um estado de neutralidade completa, pois assim ele corre o risco de deixar de se preocupar com suas preferências pessoais e suas influências – o caminho mais fácil para se transformar em vítima de seus próprios preconceitos. A objetividade deve ser definida operacionalmente como o tratamento honesto dos dados, não a ausência de preferências pessoais.

Uma vez que todas as descobertas emergem de uma interação entre a mente e a natureza, os cientistas sábios devem escrutinar os diferentes vieses que registram nossos encontros sociais, nosso momento na história geográfica e política, mesmo as limitações impostas pela nossa maquinaria mental, no júri comparado da imensidão da evolução.”

Em minha definição operacional do ponto de vista próprio do cérebro, o conjunto de restrições fisiológicas que o processo de evolução natural impôs ao sistema nervoso desempenha o papel equivalente àquele que a luz tem na teoria da relatividade, definindo uma constante biológica universal ao redor da qual os modelos cerebrais, criados ao longo de nosso cotidiano, têm de ser relativizados [4]. A evolução das espécies em termos gerais, e a dos mamíferos e primatas em particular, tem de ser considerada como a fonte dos limites ao redor dos quais giram os mecanismos responsáveis pela gênese dos pensamentos, dado que a organização anatômica e fisiológica de nossos cérebros foi modelada pelo processo de seleção natural.

Na realidade, graças a uma série imprevisível de eventos ambientais que se desdobraram ao longo de centenas de milhões de anos, esse processo produziu um arcabouço ótimo para o surgimento do tipo de cérebro de primata que beneficia cada um de nós: desde o arranjo convoluto e compacto do córtex humano, ditado pela necessidade de limitar o tamanho da cabeça de um recém-nascido, de forma que este pudesse escorregar sem problemas pelo canal de parto de sua mãe, até a teia inigualável que prevê a conectividade para dezenas de bilhões de neurônios se comunicarem eletricamente, sempre à mercê do metabolismo, da bioquímica e da fisiologia [5].

***

[1] Neste trecho Nicolelis fala sobre o pensamento relativístico num sentido de crítica a crença de que existe uma única “realidade absoluta e objetiva” na natureza. Falo mais sobre as teorias de Einstein nas minhas reflexões sobre o tempo.

[2] É mesmo um grande paradoxo: sabemos, decerto, que as leis da natureza são idênticas e simétricas por toda a parte e em todos os tempos, na Terra e em Andrômeda, hoje ou há bilhões de anos atrás – entretanto, cabe a uma mísera mente de homo sapiens a tarefa de interpretá-las, e a interpretação jamais será totalmente objetiva.

[3] E, em todo caso, como sempre digo: não somos máquinas a computar informações, mas seres a interpretar o Cosmos.

[4] A diferença entre o limite imposto pela velocidade da luz, e o limite imposto pelas limitações biológicas de nosso cérebro, é que ainda não sabemos exatamente até onde nossa imaginação pode realmente nos levar. A luz continuará a percorrer o universo na mesma velocidade (ao menos no vácuo), já nossos pensamentos parecem ter um parentesco mais próximo do infinito (ou da eternidade, por assim dizer).

[5] Apesar de saber muito bem que existe um número finito de potenciais de ação eletromagnética a cada momento em nosso cérebro, Nicolelis é, como todo grande cientista, um eterno maravilhado com a majestosa capacidade que este número finito pode produzir – seja na filosofia, na religião, na ciência, ou até mesmo no futebol arte...

***

Crédito da foto: John Smith/Corbis

Marcadores: , , , , ,

7.10.11

A little moonwalk

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencéfalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantaram em muito a quantidade de erros.

Desde os primórdios do estudo do cérebro – em roedores, primatas e humanos – os cientistas tenderam a crer que o cérebro possuía regiões e neurônios específicos para cada uma das atividades do corpo físico: havia então a região dos neurônios relacionados ao equilíbrio, outra aos responsáveis por codificar informações sensoriais, ainda outros neurônios para cuidar do movimento de um dedo, uma mão, um braço, uma perna, etc. Mas Nicolelis muito cedo percebeu que o cérebro era muito mais incrível do que uma empresa dividida em setores e departamentos responsáveis por cada uma dessas tarefas – ele era maleável, adaptável, uma verdadeira máquina miraculosa!

Somente estudando grupos de centenas e milhares de neurônios simultaneamente que Nicolelis, paulistano e torcedor do Palmeiras, pôde finalmente avançar em suas leituras cada vez mais precisas do código elétrico gerado pelo cérebro: como numa final de campeonato de futebol, quando todos os torcedores de um time cantam como se fossem um só, assim também operavam os neurônios...

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Uma etapa importante da experiência era a certificação de que a troca de informações entre Durham e Kyoto ficasse abaixo da casa de 250ms, e o cientista Gordon Cheng estava radiante: ele havia cumprido o prometido, estavam na casa dos 230ms!

Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Foi, sem dúvida, um grande passo para o conhecimento humano. Aqueles que hoje não se dão conta disso, certamente um dia se darão – nem que seja apenas quando Nicolelis ganhar o prêmio Nobel, algo que muitos dão por quase certo... Pelo fato de nenhuma parte do corpo físico de Idoya ter sido envolvida na operação desta ICM, pelo menos a partir do momento onde a esteira foi desligada, esse e outros experimentos [2] sugerem que, no futuro, pacientes severamente paralisados devido a uma lesão da medula espinhal poderão tirar proveito desta tecnologia. E isso seria, é claro, só o começo...

Desde o advento do eletroencéfalograma (EEG) e tecnologias similares, os cientistas tem conseguido observar, maravilhados, o tráfego eletromagnético que se opera incessantemente nos cérebros dos seres vivos. Postularem eles, não sem razão, que todo nosso corpo físico é mera ferramenta do cérebro, comandado por esse divino condutor da mesma forma que robôs humanoides passam a ser comandados, à distância, por cérebros de pequenos primatas. Porém, como garantir que o cérebro não é, ele também, apenas mais uma ferramenta no meio do processo?

Hoje sabemos como fazer com que macaquinhas caminhem em esteiras, oferecendo frutas e biscoitos como recompensa. Mas, saberemos um dia porque alguém decide se suicidar de um penhasco? Ou porque bombeiros arriscam a própria vida para salvar vidas alheias em grandes acidentes? Ou porque alguém algum dia resolveu pintar um quadro ou escrever poesia? Ou, finalmente, o que alguém compreende exatamente por “vermelho”? O maior paradoxo da ciência moderna consiste no fato da consciência ter sido reconhecida como um processo evidente dos seres racionais (e até irracionais), para então ter sido reduzida ao mero tilintar dos neurônios, num processo que até hoje tende a ser descrito como ocorre no experimento de Nicolelis: como se tudo o que buscássemos na vida fossem uvas-passa e pedaços de biscoito...

Um dos títulos mais inspirados de uma teoria científica se chama “o problema difícil da consciência” – através dela, diversos cientistas de bom senso continuam a debater sobre o que vem a ser exatamente a consciência e, sobretudo, a vontade. Talvez ainda levem anos, séculos, nessa discussão, mas ninguém disse que seria simples – de fato, é este um dos grandes mistérios de nossa existência.

Observar o baile elétrico dos neurônios e dizer que se chegou à origem da vontade é o mesmo que observar um curto-circuito em um poste de energia e afirmar: “é dali, é dali que vem toda a energia da cidade!”. Mas, fato é que ainda não sabemos onde fica a usina de nossa própria vontade. Pode ser um tilintar “meio aleatório” dos neurônios, pode ser um “fantasminha camarada” a pilotar um cérebro, ou pode ser algo ainda mais sutil, elegante, maleável, além do alcance de nossa ciência e racionalidade, de nossa filosofia e espiritualidade atuais... Pode ser algo que esteve profundamente oculto por toda a história da humanidade, mas que no fim termine por se comprovar como a única coisa que realmente somos, a nossa essência liberta, como um cérebro com asas de águia a planar pelo Cosmos, como uma macaquinha esperta e ágil, que insiste em escapar a nossa detecção, mas que pode muito bem estar agora mesmo incorporando primatas... ou robôs.

***

[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em “Muito além do nosso eu” (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler o livro!

[2] Dias atrás Nicolelis e sua equipe anunciaram outro estudo surpreendente que envolve um feedback não apenas visual, mas que incluí também o sentido do tato. Ele foi largamente anunciado na mídia, e ganhou a capa da revista Science, assim como a publicação na conceituada revista Nature.

***

Crédito das fotos: [topo] treklens.com; [ao longo] Fábio Barriel (foto de Miguel Nicolelis)

Marcadores: , , , , , , ,

20.7.11

O escultor da realidade

Texto de Miguel Nicolelis em "Muito além do nosso eu” (Ed. Cia. das Letras) – Trechos das pgs. 55 a 58. Os comentários ao final são meus.

Acredito que o cérebro pode ser definido como o mais fenomenal simulador produzido pela evolução no universo conhecido; pelo menos, até onde podemos verificar independentemente. Como um escultor paciente e preciso da realidade, nosso sistema nervoso produz uma série de comportamentos vitais para nossa sobrevivência e existência consciente, que podem ser divididos em três principais categorias:

a) Manter a operação fisiológica de todo o corpo por meio de um processo fisiológico global denominado homeostase;

b) Construir modelos altamente refinados do mundo exterior, de nós mesmos e da interação dinâmica entre os dois [1];

c) Explorar ativamente o ambiente externo em busca de novas informações para testar e atualizar seus modelos internos. Isso inclui a previsão de eventos futuros e recompensas associadas a eles, por meio da geração de expectativas para seus possíveis resultados, custos e benefícios [2].

Surpreendentemente, essa pequena lista cobre boa parte das funções básicas do sistema nervoso central. Por definição, uma simulação ou modelo permite ao modelador realizar uma análise e monitoração contínua de toda sorte de parâmetros que podem levar a uma acurada previsão de eventos futuros. Neurofisiologistas despenderam uma considerável quantidade de tempo investigando como o cérebro mantém o processo de homeostase, e nas últimas décadas houve uma explosão exponencial na investigação experimental dos mecanismos que permitem ao cérebro codificar informações sensoriais, motoras e cognitivas.

Mas, devido às óbvias dificuldades experimentais envolvidas, a neurociência moderna ainda evita investigar os mecanismos fisiológicos dos comportamentos mais complexos que sustentam a fascinação obsessiva, presente em todas as culturas, por reconstruir um caminho verossímil, não importa o quão abstrato ou místico, de como o universo foi criado, de como a humanidade surgiu desse cosmos envolto num vácuo silencioso e inóspito, e por que a dádiva da vida emergiu, quase que inconsequentemente, numa discreta esquina da periferia do universo [3].

Não é surpresa, portanto, que onde a investigação científica não conseguiu se estabelecer tenha surgido um terreno fértil para a proliferação de inúmeros mitos religiosos, tão ou mais comuns e excludentes hoje do que nos dias de nossos antepassados distantes. Esses mesmos comportamentos complexos que nos levam a inquirir sobre a origem de tudo e de todos definem a curiosidade ardente, marca da essência mental de nossa espécie, que deu à luz ao método científico [4].

Comportamentos altamente sofisticados também definem as estratégias de convívio social e de corte amorosa empregadas pelos seres humanos para conquistar o monte Everest do processo evolutivo: a transmissão de seus genes para gerações futuras. Neles também encontramos todas as formas de expressão usadas pelos membros de nossa espécie para imprimir ideias e crenças, sonhos e receios, paixões e preconceitos nas memórias de nossos entes queridos, conhecidos e outros membros de nossa sociedade.

Ao leitor que, a essa altura, pode estar se perguntando se toda essa introdução teórica e a proposta de mudança de rumo que proponho para a neurociência do século XXI não passam de picuinha filosófica, respondo apenas que tal discussão tem desempenhado um papel central numa batalha intelectual que, nos últimos duzentos anos, serviu de inspiração para muitos dos maiores praticantes da delicada arte de estudar o cérebro, numa disputa apaixonante e acirrada pelo direito de desvendar os mistérios da essência da natureza humana [5].

Para minha surpresa, durante os capítulos recentes dessa batalha, a visão aqui proposta do cérebro como um verdadeiro simulador da realidade tem recebido cada vez mais apoio fora da comunidade de neurocientistas. Em seu clássico livro O gene egoísta, o biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins claramente declara sua concordância com a teoria de que o cérebro, especialmente o humano, desenvolveu a capacidade de criar simulações elaboradas e detalhadas da realidade. Cantando no mesmo tom, o físico israelense David Deutsch vai ainda mais longe, ao propor, em seu livro A essência da realidade, que tudo que “experimentamos diretamente não passa de uma construção virtual, convenientemente gerada para nosso usufruto, por nossa mente inconsciente, a partir de dados sensoriais somados a complexas teorias adquiridas e congênitas sobre como interpretar novas informações [6]”.

No primeiro parágrafo de sua obra-prima Cosmos, o astrônomo americano Carl Sagan reflete: “O cosmos é tudo que existe, existiu ou existirá. A contemplação do cosmos nos comove, provoca calafrios que sobem pela nossa espinha dorsal, e nos corta a voz, causando uma sensação de vertigem, como uma memória remota de estar caindo de uma grande altura. Sabemos que estamos nos aproximando do maior de todos os mistérios”.

Até onde sabemos, existe apenas uma criação desse cosmos impressionante capaz de decifrar sua linguagem majestosa, e ao mesmo tempo se dar ao luxo de gerar um enorme repertório de sensações inebriantes, que nossos verdadeiros progenitores, remotas supernovas, nunca tiveram o privilégio de saborear. Justamente porque esses progenitores se queimaram em seu fogo celestial – completamente inconscientes de que, um dia, ventos cobertos de poeira estelar seriam capazes de semear o sopro de vida num insignificante planeta azul localizado no obscuro sistema solar de uma galáxia distante –, nosso cérebro nos permite consumir, com lascívia incomparável e incessante, cada bit de uma existência plenamente consciente, enquanto em silêncio ele entalha em nossa mente todos os detalhes mais íntimos de uma memória infinita, enquanto ela durar [7].

***

[1] Numa visão espiritualista, o cérebro certamente pode construir um “modelo de nós mesmos”, mas esse modelo se limita a nossa personalidade, ou o conjunto de memórias de uma vida. Das potencialidades, o cérebro nada sabe, pois que é antes um serviçal das potencialidades, e não seu gerador. Nicolelis possui uma instituição no nordeste do Brasil que patrocina a educação científica de crianças carentes, ele certamente deve até hoje se admirar com o “milagre” do tilintar das potencialidades dessas crianças, embora provavelmente não compartilhe da crença de sua verdadeira origem.

[2] Hoje se sabe que o processo de consciência está sempre ativo, mesmo quando estamos apenas descansando de olhos entreabertos. Porém, mesmo a consciência é apenas uma parte dos sistemas cerebrais, sempre incessantes (até a morte cerebral, pelo menos).
Já a teoria da “ação e reação visando recompensas” é tão somente o mais próximo que a neurociência conseguiu chegar a uma definição de porque temos vontade, porque amamos, etc. Obviamente ela ainda falha miseravelmente numa compreensão mais profunda dos sentimentos mais básicos; que dirá do sentimento que leva um bombeiro a se aventurar em um prédio em chamas para salvar vítimas, ou da convicção de um médico da cruz vermelha em arriscar a própria vida no entorno de zonas de guerra, para salvar a vida alheia.

[3] Ao longo desse parágrafo, Nicolelis nos traz uma curiosa definição “científica” para a religião ou religiosidade humana.

[4] O autor entra em contradição, talvez quase que inconscientemente, provavelmente devido a “programação do pensamento científico da Academia”: Ora, a experimentação científica surgiu primeiramente na ilha grega de Samos, e, muitos séculos depois, ressurgiu em plena Renascença. Já a ciência é muito mais antiga, de uma época em que ciência e religião compartilhavam a mesma origem. A ciência deve sua origem à religião, tanto quanto a astronomia a astrologia, a química a alquimia, e a teoria da evolução as teorias espiritualistas (principalmente através de Alfred Russel Wallace). A investigação científica não conseguiu se estabelecer, portanto, porque antes ainda não existia.
Já em relação aos “mitos religiosos comuns e excludentes”, talvez Nicolelis mudasse de opinião caso conhecesse Joseph Campbell, e sua teoria do Monomito, onde todos os mitos compartilham uma certa essência em comum – e, nesse caso, nunca foram excludentes.

[5] A ciência moderna se digladia para explicar o que somos de forma mecanicista, mas ainda passa ao largo de compreender como podemos ser seres que interpretam informações e têm vontades, e não máquinas que foram programadas pela natureza para buscar a sobrevivência da melhor forma possível (a mais adaptável ao meio ambiente, de preferência). É mais ou menos como tentar explicar uma poesia de Pessoa, ou a vermelhidão do vermelho, com termos puramente científicos: não vai dar. Não vai dar...

[6] Até aí perfeito, eu só não entendi o “não passa de”... Ora, isso não é pouca coisa. A capacidade de interpretar informações, própria da consciência humana, está muito além da capacidade de qualquer máquina já produzida, e talvez de qualquer uma ainda por se produzir.

[7] Nas belas palavras de Nicolelis, o cérebro humano mais parece um deus a esculpir nossa realidade. E, estranho de se pensar, ele talvez não esteja muito distante da verdade... Em algum ponto de nós ainda arde uma fagulha divina, um pequeno resquício da Grande Supernova.

***

» Comprar o livro "Muito além do nosso eu" na Saraiva.com.br

» Veja a passagem de Nicolelis pelo Manhattan Connection, da Globo News

Crédito da foto: Judith Wagner/Corbis

Marcadores: , , , , ,

13.6.11

Nicolelis: muito além do eu

Miguel Nicolelis, professor e diretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, fala sobre seu novo livro ("Muito além do nosso eu") e as grandes promessas de suas pesquisas. É o brasileiro com a maior chance de um dia receber o prêmio Nobel. Vejam sua passagem pelo Manhattan Connection, da Globo News:

Marcadores: , , , , , ,