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16.9.12

Quando Israel era menino, parte 1

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 162 a 165. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas das notas ao final são minhas.

A religião de Israel é acima de tudo a religião do Livro. Esse corpo de escrituras é constituído de textos de idade e orientação diversas, que representam, por certo, tradições orais bastante antigas, mas reinterpretadas, corrigidas, redigidas durante vários séculos e em diferentes meios [1]. Os autores modernos começam a história da religião de Israel por Abraão. Na verdade, segundo a tradição, ele é o escolhido de Deus para se tornar o ancestral do povo de Israel e tomar posse de Canaã. Mas os 11 primeiros capítulos do Gênese relatam os acontecimentos fabulosos que precederam a eleição de Abraão, desde a Criação até o dilúvio e a Torre de Babel. A redação desses capítulos é, como se sabe, mais recente que muitos outros textos do Pentateuco. Por outro lado, alguns autores – e dos mais notáveis – afirmaram que a cosmogonia e os mitos de origem (Criação do homem, origem da morte, etc.) desempenharam papel secundário na consciência religiosa de Israel. Em suma, os hebreus interessavam-se mais pela “história santa”, isto é, pelas suas relações com Deus, que pela história das origens.

[...] Isso pode ser verdadeiro a partir de determinada época e, sobretudo, para certa elite religiosa [2]. Mas não há razão para concluir que os antepassados dos israelitas fossem indiferentes às questões que apaixonavam todas as sociedades arcaicas. [...] Ainda em nossos dias, depois de 2.500 anos de “reformas”, os acontecimentos referidos nos primeiros capítulos do Gênese continuam a alimentar a imaginação e o pensamento religioso dos herdeiros de Abraão.

Na abertura do Gênese, temos este passo célebre: “No princípio, Deus (Elohim) criou o Céu e a Terra. Ora, a Terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas” (I:1-2) [3]. A imagem do oceano primordial sobre o qual paira um deus criador é muito arcaica [4]. Entretanto, o tema do deus sobrevoando o abismo aquático não é atestado na cosmogonia mesopotâmica, ainda que o mito relatado no Enuma elish fosse provavelmente familiar ao autor do texto bíblico. (De fato, o oceano primordial é designado, em hebraico, tehôm, termo etimologicamente solidário do babilônico tiamat [5]). A Criação propriamente dita, ou seja, a organização do “caos”, é efetuada pelo poder da palavra de Deus. Ele diz: “Haja luz”, e houve luz (I:3). E as etapas sucessivas da Criação são sempre realizadas pela palavra divina. O “caos” aquático não é personificado (cf. tiamat) e, por conseguinte, não é “vencido” num combate cosmogônico.

[...] O mundo é “bom” e o homem é uma imago dei; ele habita, tal como seu Criador e modelo, o paraíso. Entretanto, como o Gênese não tarda a salientar, a vida é penosa, apesar de ter sido abençoada por Deus, e os homens já não habitam o paraíso. Mas tudo isso é o resultado de uma série de erros e pecados dos antepassados. Foram eles que modificaram a condição humana. Deus não tem responsabilidade alguma nessa deterioração de sua obra-prima. Assim como para o pensamento indiano pós-upanixádico, o homem, mas exatamente a espécie humana, é o resultado de seus próprios atos [6].

O outro relato, javista [ver nota 1], é mais antigo e difere claramente do texto sacerdotal que acabamos de resumir. Já não se trata da Criação do Céu e da Terra, mas de um deserto que Deus (Javé) tornou fértil por meio de uma onda que subia do solo. Javé modelou o homem (âdâm) com a argila do solo e animou-o insuflando “em suas narinas um hálito de vida”. Pois Javé “plantou um jardim em Éden”, fez brotar todas as espécies de “árvores boas” e instalou o homem no jardim “para o cultivar e o guardar” [7]. Em seguida, Javé deu forma aos animais e às aves, levou-os a Adão e este lhes deu nomes. Finalmente, depois de tê-lo adormecido, Javé tirou uma de suas costelas e formou uma mulher, que recebeu o nome de Eva (em hebraico hawwâh, vocabulário etimologicamente solidário do termo que significa “vida”).

Os exegetas observaram que o relato javista, mais simples, não opõe o “caos” aquático ao mundo das “formas”, mas deserto e seca a vida e vegetação. Parece plausível que esse mito de origem tenha nascido numa zona desértica. Quanto à formação do primeiro homem com argila, o tema era conhecido na Suméria. Mitos análogos são atestados quase no mundo inteiro, desde o antigo Egito até as populações “primitivas”. A ideia básica parece a mesma: o homem formou-se de uma matéria-prima (terra, madeira, osso) e foi animado pelo hálito do Criador. Em muitos casos, tem a forma de seu autor. Em outras palavras, mediante sua “forma” e sua “vida”, o homem comparte, de algum modo, a condição do Criador. Só o seu corpo é que pertence à “matéria” [8].

A formação da mulher a partir de uma costela retirada de Adão pode ser interpretada como indicadora da androginia do homem primordial. Concepções similares são atestadas em outras tradições. [...] O mito do andrógino ilustra uma crença bastante difundida: a perfeição humana, identificada no antepassado mítico, encerra uma unidade que é simultaneamente uma totalidade. [...] É de salientar que a androginia humana tem por modelo a bissexualidade divina, concepção compartilhada por muitas culturas [9].

» Em seguida encerraremos com Caim, Abel, cultivadores e pastores...

***

[1] Nota do autor: [...] As fontes dos cinco primeiros livros da tôrâh (Pentateuco) foram designadas pelos termos: javista, porque essa fonte, a mais antiga (séc. X ou IX a.C.), chama a Deus por Javé; eloísta (ligeiramente mais recente: utiliza o nome Elohim); e deuteronômica (quase que exclusiva do Deuteronômio).

[2] Não foi à toa, penso eu, que os primeiros livros da tôrâh eram conhecidos como “os livros da lei”. Eis o que nos diz Alan Dershowitz, professor de direito de Harvard, sobre o Gênese: “É sobre o mundo antes de haver lei. É sobre um Deus em aprendizagem, lutando para ser justo, sem regras (antecedentes). Deus não teve problemas em criar um universo físico, só precisou de seis dias. Ele teve mais dificuldade quando chegou à parte da justiça... O Gênese é sobre isso, sobre tentar fazer as coisas direito, com justiça”. Ou seja: a preocupação de uma suposta elite religiosa com a história somente a partir de Abraão, em detrimento dos mitos de criação, talvez se explique pelo fato de ser exatamente esta elite de legisladores quem debatia e elaborava as leis hebraicas.

[3] Somente este trecho traz inúmeros questionamentos. Por exemplo, o “vento de Deus” poderia ser traduzido (como normalmente o é, nas traduções modernas) como “espírito de Deus”. Ocorre que a palavra que se refere a “Deus” é usada duas vezes: Elohim seria tanto “Deus” quanto o “espírito de Deus”. No entanto, a palavra Elohim pode ser vista tanto no singular quanto no plural, quando normalmente se refere a “deuses” (por exemplo, em XXXV:2). Dessa forma, nada nos impediria de considerar uma tradução como: “No princípio, Deus criou o Céu e a Terra (...) as trevas cobriam o abismo, e os deuses pairavam sobre as águas”. Este tipo de interpretação indica que Deus já havia “tido filhos”, ou irradiado “outras criaturas” de si mesmo, ainda no princípio.
Mesmo aqui, ainda podemos alinhar a possível origem etimológica de “Elohim” ao deus “El”, o “pai dos deuses” das religiões e mitologia dos primeiros semitas a se estabelecerem em Canaã, pouco antes de 3 mil a.C. Até 1929, as informações sobre tais mitos eram fornecidas pelo Antigo Testamento e alguns escritores gregos. Ocorre que o AT trabalha exatamente para a “demonização” dos deuses pagãos, e deve ser visto com certa desconfiança neste contexto.
Mas felizmente, em 1929, uma grande quantidade de textos mitológicos foi descoberta em escavações em Ras Shamra, a antiga Ugarit, cidade portuária da costa Síria, que pode ter sido fundada ainda em 6 mil a.C. Embora a religião de Ugarit nunca tenha sido a religião de toda Canaã, é lá que se ouve falar, pela primeira vez, de El, o “pai dos deuses”, e de Baal, “o Senhor da Terra, que castra o pai e toma seu lugar como administrador do mundo”. Em XXXIII:20 ficamos sabendo que um dos nomes de Deus é exatamente “El”.

[4] Nota do autor: Em numerosas tradições, o Criador é imaginado sob a forma de um pássaro. Mas trata-se de um “endurecimento” do símbolo original: o espírito divino transcende a massa aquática, é livre para mover-se; portanto, “voa” como um pássaro.

[5] Ou seja, tanto o oceano primordial quanto a “serpente-dragão” (tiamat) representariam o caos. Coube a um “herói” mitológico, ou ao próprio Deus, “matar a serpente e a separar em dois”, ou separar os Céus da Terra, e criar todas as coisas a partir de um oceano disforme, um “caos primordial”.
Para outros temas “serpentuosos”, recomento lerem o artigo Serpentes.

[6] Segundo os upanixades, entretanto, a “culpa” não recai sobre o “pecado original” de um antepassado, mas é fruto dos erros dos próprios homens, quando em vidas passadas.

[7] O mito javista é ainda mais próximo do mito de criação do povo Bassari, da África Ocidental: “Unumbotte (Deus) fez um ser humano e seu nome era Homem, e depois fez muitos outros seres (Mulher, Serpente, Antílope, etc.). Então, deu-lhes sementes de todos os tipos e lhes disse: ‘Plantem todas essas sementes’...” – E nele também há o “fruto proibido” que, uma vez comido, faz com que Homem e Mulher sejam “expulsos do jardim”. Aqui também encontrarão maiores detalhes no artigo Serpentes.

[8] Dessa forma, as concepções de vida após a morte através da ressurreição de um “corpo incorruptível” não são somente uma abominação (ao menos em relação à quase totalidade da mitologia antiga), como um “ponto de vista” extremamente materialista em relação à espiritualidade em geral.

[9] Nota do autor: A bissexualidade divina é uma das múltiplas fórmulas da “unidade/totalidade” representada pela união dos pares de opostos: feminino/masculino, visível/invisível, Céu/Terra, luz/escuridão, mas também bondade/maldade, criação/destruição, etc. A meditação sobre esses pares de opostos levou, em diversas religiões, a conclusões audaciosas referentes tanto a condição paradoxal da divindade quanto à revalorização da condição humana.
Meu complemento: Isto tudo tem muito a ver com hermetismo, Parmênides, estoicismo, Plotino e Espinosa. Mas, saindo do conceito de “Uno” e focando apenas nas “dualidades” (particularmente: essência/forma, permanência/impermanência, eternidade/tempo, etc.), chegaremos nas grandes religiões orientais – taoismo, budismo, e algumas interpretações do hinduísmo.

***

Shaná Tová! (hoje fazem "cerca de" 5773 anos que a alma de Adão foi criada por Elohim)

Crédito da foto: Damon Lynch

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3 comentários:

Anonymous Samuel Otemi disse...


Eu me lembro quando li os upanixades achei um pensamento muito belo e desenvolvido, mas essa frase, o homem como resultado de suas próprias ações me fez lembrar de André luiz, quando explicaram para ele a relação alma/corpo em um dos livros de Chico Xavier é essa mesma conclusão dos unipanishads que nossas ações, pensamentos moldam o corpo, dando forma a própria matéria, adam kadmon o homem primordial que continha todas as almas e destinos contidos nele, ele é a essênsia humana eterna que foi moldada e transmutada através da experiência, no mito ao sairmos do paraíso nos vimos separados do mundo, essa perda da noção de totalidade para a individualidade, chega em seu zênite no próprio asassinato, no arquétipo caim e abel, a individualidade que além da vergonha perante ao seu semelhante, gera sua destruição.Daí o surgimento da religião.Porque religião e a tentativa de se ligar ao sagrado e essa ideia indica que existe um ruptura, uma separação do sagrado que faz com que eva e adão se envergonhe se cubra perante o mundo, a própria noção de pecado e desviar-se do caminho,em sentido amplo de nossa voz interior ou do sentido de totalidade, ai eu me lembro de uma historinha que o homem é como uma onda do mar, que se perde porque se esquece da sua origem e não tem mais a sua força primoridal e tenta se desfazer na práia para voltar o lugar do seu nascimento. Outra coisa que se pode aprender é que o caminho para deus está no coração/interior de toda sua criação, como diria Jesus, o Sol se ilumina sobre todas as coisas. No mais, Rafael, obrigado pelo bom texto e essas grandes reflexões.

18/9/12 11:44  
Blogger raph disse...

Obrigado por trazer mais reflexos e reflexões :)

18/9/12 11:55  
Blogger Jorge Eleneu de Oliveira disse...

As reflexões sobre Deus já é motivo para que "exista" um Deus? Se há um Deus criador, podem existir outros deuses? Tsc, tsc! Desde quando gerações e gerações vivem nesse embate, nesse questionamento sobre Deus? Não sei desde quando é isso, mas Deus é servido a la carte, com cada um dos seus 'representantes' apresentando, como a mercadoria de um vendedor, o seu produto "Deus" com as suas qualidades e benefícios que pode nos trazer e "efeitos colaterais" que podem nos causar. Até bem pouco tempo pensávamos que os raios eram uma produção de Deus; Que as estrelas cadentes era alguma coisa lançada pelos anjos quando os demônios se aproximavam demais dos céus; mas depois viemos saber que nada disso é verdade; que os raios são produção de duas nuvens com cargas diferentes de energia; que as estrelas cadentes são corpos celeste que se inflamam quando se chocam com a densidade da atmosfera e por aí vai. Ninguém sabe direito a história de Jesus, mas tá mais esse aí, com o status de salvador da humanidade; só porque disse algumas belas e boas palavras; está aí Nossa Senhora Aparecida 'padroeira' do Brasil; de uma imagem encontrada no leito de um rio; adorada e venerada em um santuário próprio; olha o que essas religiões nos fazem: NEGARMOS a vida para afirmarmos um céu, com um Deus que está só no nosso imaginário (ora, é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar nos céus!); ser fodão NÃO pode; aí vamos para uma Casa do Senhor qualquer louvar um Jesus, filho de Deus e portanto Deus; com uma bíblia embaixo do braço na qual parte dela condena expressamente que prestemos culto a outro Deus que não seja o Deus criador de todas as coisas conforme a própria bíblia ensina; mas não contentes inventaram um Diabo...rsrsrs; e muitos acreditam nele; alguns até o viram por aí; poucos refletem que são um produto dos seus próprios pensamentos e buscam identificar a gênese, a herança que traz consigo, das influências sofridas, começando pelos seus pais; os pais dos seus pais; as influências que os afetou; da influência cultural que moldou a sua forma de pensar; Gente! Somos Ocidentais; claro que nossa herança de pensar é de Platão; o Cristianismo dá seguimento ao platonismo na sua perspectiva de dois mundos; mundo sensível e mundo ideal; terra e céu e por aí vai; existem outras perspectivas mais "libertadoras", mas não vai ser tão logo que vai desviar essa humanidade do seu fluxo direcional; como gado que caminha a passos lentos para o matadouro. Isso só vai mudar quando o homem deixar seus deuses e se assumir perante a vida, nas suas relações com os seus semelhantes; fazer o que pode fazer e não deixar nada a cargo de um deus qualquer, de uma criação transcendental do seu próprio imaginário.

13/3/16 11:11  

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