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8.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 4

Continuando da parte 3

Substância – Princípio do ser, que é permanente, em oposição aos acidentes que mudam; A essência de algo; Qualquer espécie de matéria.

Há somente uma Substância

Um dos dogmas principais do cristianismo afirma que Jesus Cristo ressuscitou após três dias. O Novo Testamento nos conta que Maria Madalena foi o primeiro discípulo a ver Jesus ressuscitado. Conta também que tanto ela quanto outros discípulos a princípio se assustaram com sua aparição e somente após alguns momentos o reconheceram. Após algum tempo a notícia já se espalhava, mas um dos seguidores de Jesus, Tomé, não parecia crer nela – ele afirmou “que precisava ver para crer”.

A Bíblia diz que Jesus apareceu para Tomé e ainda permitiu que ele tocasse suas chagas... Carl Sagan admirava o ceticismo de Tomé, segundo ele este tipo de experiência – de ver, e tocar, para crer – deveria ser incentivada entre todos os religiosos. Já para os cristãos, Tomé sofria de falta de fé, e não havia nenhum mérito em seu ceticismo. Jesus chega a afirmar que “felizes são aqueles que creram sem ver” – de acordo com o Novo Testamento, é claro.

Ao contrário do que muitos céticos imaginam, há muitos religiosos que são extremamente materialistas. E não estou falando do materialismo no sentido do apego a bens materiais ou consumismo (este é um assunto para outro artigo), mas da necessidade básica que muitos deles têm de reafirmar a ressurreição da carne de Jesus, e jamais apenas de seu espírito.

Há muitos deles que tem verdadeiro asco de coisas fluidas e “imateriais”. Para eles, espíritos nada mais são que assombrações e/ou alucinações causadas por loucuras ou pela influência do próprio Diabo (e eles costumeiramente confundem as duas coisas). Poderíamos questionar o porque de apenas o Diabo ter tantos “poderes” de afetar diretamente nossa realidade, enquanto Deus “gastou” todos os seus milagres nos milênios anteriores – mas isso também seria assunto para outro artigo.

O que eu acho irônico é essa crença dogmática em corpos incorruptíveis, em seres que só podem retornar a vida ou se comunicar com aqueles ainda vivos na posse de um novo corpo, como num grande passe de mágica... Não pela crença em si, mas pelo fato de a grande maioria dos que creem nisso ignoram o fato de que a matéria é em todo caso intangível e invisível. Ora, Tomé não tocou nas chagas de Jesus e nem o viu a sua frente, ele apenas – supondo que o relato é real – sentiu a pressão dos elétrons se repelindo mutuamente (de sua mão e do corpo de Jesus) e percebeu os quantas de luz refletidos por seu corpo.

Tivessem eles conhecimento dos avanços da ciência moderna, se questionariam se existe assim tanta diferença entre um corpo e um espírito, ou por assim dizer entre um espírito encarnado em um corpo, e outro desencarnado. Sim, pois se eles já creem em tantas coisas jamais detectadas, o que custaria crer em seres não imateriais, mas compostos por matéria ainda desconhecida, conforme postulou Bahram Elahi?

Os espíritas, por exemplo, também são materialistas, apenas não compartilham dos mesmos dogmas de alguns cristãos. Vejamos a pergunta #82 do Livro dos Espíritos de Allan Kardec: “É certo dizer que os espíritos são imateriais?” – Para surpresa de muitos, os próprios espíritos que ditavam as respostas para as jovens médiuns que auxiliavam o cientista francês trouxeram a seguinte resposta: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.” Ora, hoje em dia talvez fosse possível fazer analogias mais próximas – “Matéria Escura” seria uma delas.

Entretanto, sé é muito custoso para os céticos e materialistas anti-subjetivos acreditarem que consciências possam existir longe de cérebros feitos da matéria que já conhecemos, que isso não seja uma barreira intransponível entre nós, espiritualistas, e eles...

Carl Sagan resume muito bem a questão em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios” – para alguns “a bíblia do ceticismo”:

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas.

Existam espíritos ou não, o primeiro espírito que precisamos conhecer é o nosso próprio, ainda que não passe de um efeito de nosso processo de consciência. Os primeiros cientistas na Grécia antiga, na Sicília e na ilha de Samos, já buscavam a Substância que dava origem a todas as outras – o fogo, a terra, o ar, a água? – tanto faz se estavam equivocados; Assim como Demócrito equivocou-se em sua abordagem dos átomos mas estava fundamentalmente correto em suas analogias, eles da mesma forma estavam... Todos chegaram a resultados errôneos, mas acertaram profundamente em sua busca.

Inspirado por tais sábios de outrora, o grande Benedito Espinosa chegou à conclusão definitiva em sua “Ética”: “uma substância não pode criar a si mesma” – Sim, tudo, tudo o que há, há de advir de uma única Substância, incriada, eterna, a que se opõe ao nada...

E ainda que tudo o que exista sejam “átomos e vazio” e que nossas vidas não passem de um breve lampejar de vela em noite de ventania, há espiritualidade suficiente na ideia de que estamos sim todos conectados, todos feitos das mesmas substâncias, filhos de fusões nucleares em sóis catapultados em uma imensidão que nem mesmo a luz pode dizer onde acaba.

Nós somos os filhos do horizonte, e nosso único e derradeiro pecado é ignorar tal necessidade de vislumbrar nossa essência uma vez mais – não como Tomé a apalpar as chagas do messias, mas como aqueles que perceberam tanto o mundo material quanto o espiritual, e não souberam dizer ao certo qual é o mais bonito.


Disse Jesus: se vocês disserem qual a vossa origem, dizei-lhes: viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Ela permaneceu e revelou-se a si mesma em sua imagem. Se vos disserem quem sois vós, dizei-lhes: somos seus filhos e somos eleitos do Pai Vivo. Se vos perguntarem qual é o sinal do vosso Pai em vós, respondei-lhes: é o movimento e o repouso. (O Evangelho de Tomé [o Dídimo] – v.50)

***

Crédito das imagens: [topo] Aidan McHae Thomson; [ao longo] Holger Spiering/Westend61/Corbis

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13 comentários:

Blogger Sergio Junior disse...

Pensei que seria trilogia, mas foi além e melhor..ehehehe

Gosto muito da interferência do material no espiritual, assim como o inverso. E você com maestria conseguiu amarrar essa dualidade.

Grande abraço

Sergio

8/12/10 21:56  
Blogger raph disse...

Oi Sergio,

Pois é, o que queria demonstrar principalmente é que precisamos conhecer a matéria em sua essência, pois esse conhecimento é fundamental tanto para materialistas (subjetivos) quanto para espiritualistas.

Assim como na época de Demócrito essa busca era tanto científica quanto religiosa (no sentido de religação), nada impede que continue sendo hoje em dia :)

Obrigado pelo elogio.

Abraço!
raph

9/12/10 10:03  
Blogger Samuel disse...

Sobre a afirmação de Spinosa, eu me lembrei do conceito hindu de Prakrití e Purusha.
Prakriti seria o potencial contido que gera todos os fenômenos possíveis. O leite que já contém dentro de si a manteiga, mas necessita passar por diversos processos até chegar a ser manteiga. Assim segundo Prakriti fenômenos manifestos devem ser efeitos de uma causa -primordial, uma matriz de onde emanam todos os fenômenos possíveis.
Purusha o homem cósmico o observador .
Realmente é muito difícil pensar em algo que não tenha surgido de algo pre-existente, na verdade é impossível para minha mente conceber que algo venha do nada.
O todo em si já é integro e já carrega em si o potencial de tudo que irá existir.Ver isto é enxergar através do homem cósmico de dentro de nós.
Onde começa o pensamento e onde termina a matéria. Segundo o caballion o todo é mente o universo é mental. As tribos primitivas quando enxergavam o espírito das rochas entendiam isto, não há este limite porque o todo já é em si um .
Assim é necessário um veículo para o pensamento. Na verdade a matéria já é pensamento em diferentes níveis e ritmos. Através de sua expressão que da forma a unidade contida nela a experiência é que da a forma ao potencial contido nela.
Assim se não há mais pensamento não há mais vida e a matéria volta ao todo mas não é só de pensamento que é feito o existir. As quatro almas do Xamanismo: Kon (Pensamento) Ki (energia vital) mei ( a vida), rei (espírito).

Do todo emana toda vontade reinante...
De ti nasce toda vontade reinante a canção que se renova de idade em idade e a tudo embeleza. Frase do pai nosso em aramaico. Eu renovarei todas as coisas (apocalipse).
Gostei do texto...

13/12/10 09:44  
Blogger raph disse...

Oi Samuel,

Bem, pena que na tradução esse belíssimo trecho do Pai Nosso se perdeu.

Mas é bem por aí mesmo, sempre que falo em Espinosa é impossível não falar também na "criação mental" do Hermetismo, pois a Substância de Espinosa não poderia necessitar de nenhuma outra para "irradiar" a Criação, e essa é uma analogia direta a "criação mental" do Hermetismo.

Quando vejo que um filósofo do séc XVII chegou a conclusões parecidas com as de um sábio do Egito antigo, isso reforça a minha crença de que alguns estavam mesmo no caminho certo :)

Obrigado pelo comentário.

Abs
raph

13/12/10 11:33  
Blogger raph disse...

Ver também:

A roda e o eixo

13/12/10 11:35  
Blogger Samuel disse...

Pai nosso em aramaico.

http://www.youtube.com/watch?v=GTE_moRm8qM

Não sei se é verdadeira esta versão porque eu não sei se é aramaico. Mas realmente é uma oração muito bonita.

14/12/10 08:04  
Blogger Samuel disse...

Outro:

http://www.youtube.com/user/hillel71#p/a/u/2/nBlMkq7AcTY


http://investigador-cristao.blogspot.com/2010/04/pai-nosso-aramaico-pai-mae-no-original.html

14/12/10 08:31  
Blogger raph disse...

Oi Samuel,

Este primeiro vídeo é muito bonito, obrigado por compartilhar.

Claro que o Investigador Cristão está correto, surgiram inúmeras interpretaçõs do Pai Nosso em aramaico nas últimas décadas e muitas delas são livres interpretações mesmo... Mas não acho isso ruim, seria bom apenas deixarem claro que é uma "nova interpretação" das palavras em aramaico, que conforme os comentário do primeiro vídeo dizem:

"em aramaico, cada "palavra" é formada pela junção de diversos símbolos. Ou seja, cada palavra é formada de outras palavras. Pode-se fazer uma tradução simples, ou buscar "as palavras que formam" cada palavra, buscando as origens, o "fundo" da mensagem."

***

Eu mesmo tenho o meu Novo Pai Nosso no blog, hehe:

http://textosparareflexao.blogspot.com/2009/02/novo-pai-nosso.html

No site do Marcelo Del Debbio tem uma interpretação do Pai Nosso bem parecida com a do primeiro vídeo:

http://www.deldebbio.com.br/index.php/2009/02/04/pai-nosso-em-aramaico/

Abs!
raph

14/12/10 11:21  
Anonymous Franco-Atirador disse...

"...se questionariam se existe assim tanta diferença entre um corpo e um espírito, ou por assim dizer entre um espírito encarnado em um corpo, e outro desencarnado."

Isso me fez viajar e verificar que de acordo com a doutrina espírita, estamos sempre indo e vindo em duas realidades, material e astral. Por acaso estaríamos confinados eternamente à esse tipo de jornada dupla? Talvez ocorra que o mundo astral seja um mundo permanente (no sentido de que sempre retornaremos à ele - o Hades), tendo em vista que abranja um grande espectro de consciências, de muito atrasadas à muito evoluídas, mas separadas entre sí. E por que escolhemos vir pra essa realidade? Primeiro, qual é a característica dessa realidade em relação àquela? Aqui é mais denso. O que significa? Significa que os desejos, as suas manifestações criativas demoram mais a acontecer, temos mais restrições. E por que precisamos disso? Talvez seja um modo de jogar mais difícil, um nível hard do jogo (hard pro seu nível de xp). Talvez um nível onde o pessoal não saiba jogar direito, por isso tem um tempo a mais antes da coisa se manifestar, pra conferir várias vezes, e ter tempo de mudar de postura para não colher frutos muito amargos. Se existem esferas/realidades/planos mais densos do que esses? Sei la, será que existem? Acho que sim; não é isso que diz a ideia de reino infinito? Outra: será que posso reencarnar com a ideia de vir farrear (vida de prazeres, sem compromisso de auto-lapidação, boêmia), ou mesmo vir praticar o mau? Será que lá podemos farrear ou sermos maus, como podemos aqui? Talvez sim, pois existe o inferno, mas talvez não façamos pois como dito, os efeitos das nossas ações são mais rápidos, além de nos vermos como realmente somos, lembrarmos de tudo que vivemos, etc.

Porém, ao avançarmos no infinito reino da experiência, sabe-se lá que forma tomará a consciência e os seres, que tipo de dinâmica terão eles com a realidade: imortais, polidimensionais, poliseres, diluído no Tao... ou sei lá o quê.

:S

11/9/12 10:52  
Blogger raph disse...

Acho que, na maior parte, carregamos nosso próprio Hades ou Olimpo conosco mesmo, bem aqui em nossa consciência, mais próximo de nossa visão do que nosso próprio olho.

Se o sujeito consegue vir a este mundo denso e ver nele um Céu ("vi o mundo dos homens e vi o mundo das almas, me perdoe Pai, pois não sei qual o mais bonito..."), em praticamente qualquer outra realidade ainda estará, quase que sempre, nalguma espécie de Céu...

11/9/12 15:23  
Anonymous Franco-Atirador disse...

Concordo, mas vc como espiritualista não acredita na outra realidade que eu falei?

11/9/12 15:53  
Blogger raph disse...

Bem, uma vez li no blog da Akiane Kramarik, uma criança prodígio que pinta desde os 3-4 anos, e com uns 7 já tinha as habilidades de um pintor renascentista, digamos, "acima da média"... No blog dela ela só respondia perguntas enviadas, e alguém obviamente perguntou sobre vidas passadas.

Ela respondeu dizendo algo como "estar vivendo em várias realidades, ou planos de realidade, ao mesmo tempo", mas que "só de vez em quando tinha consciência parcial delas, como quando 'sonhou com Deus' com uns 2-3 anos e nunca mais parou de pintar"...

Pois bem, na época não havia entendido muito bem e não dei muita bola, mas depois eu ficava sempre me lembrando disso que ela disse... Ocorre que ela deletou o blog e nem no Wayback Machine eu achei o texto. Na verdade, agora nem lembro se ela escreveu mesmo isso ou se eu "construí" isso a partir de considerações minhas enquanto pensava na história dela.

Mas, enfim, para me ater somente na sua pergunta: podem haver X realidades, mas conforme estamos nesta aqui, precisamos nos dedicar a ela. Se o Éden é aqui e agora, "now and here, nowhere", como dizia Joseph Campbell, então tudo que precisamos saber para começar a caminhar está a nosso alcance.

Podemos, certamente, imaginar como seriam as X realidades, e talvez um espírito no plano espiritual, ao sonhar, vá ainda para um outro plano "supraespiritual" ainda mais "elevado"... Mas somente nos dedicando ao aqui e agora, a este momento, a este Éden, é que creio que um dia todos os mistérios nos serão revelados - por nós mesmos.

Abs
raph

11/9/12 17:25  
Anonymous Franco-Atirador disse...

\o/

11/9/12 18:43  

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