Pular para conteúdo
6.9.12

O Evangelho de Maria

» Caso não saiba ao certo o que são os apócrifos e o gnosticismo, leia antes este artigo

A seguir temos a transcrição do Evangelho de Maria, conforme consta em A Biblioteca de Nag Hammadi (organização de James M. Robinson, publicado no Brasil pela Editora Madras, com tradução de Teodoro Lorent).

O Evangelho de Maria é o primeiro tratado fragmentário do Códice Gnóstico de Berlim, mas sua versão copta, achada em Nag Hammadi, é de longe a mais completa. Estão faltando 6 páginas iniciais, e 4 no meio do texto. Apesar de estar tão danificado, o texto retém uma parte substancial de sua mensagem, e o que foi mantido pode ser esclarecedor, embora certamente não seja parte de uma simples compreensão.

Este texto gnóstico (ou estoico, segundo alguns pesquisadores [1]) nos traz duas partes bem distintas. Na primeira, há um diálogo iniciático entre Jesus e seus discípulos. Na segunda parte, após Jesus ter saído de cena, é a própria Maria quem prossegue o diálogo, falando sobre “mistérios” que ela teria aprendido a sós com Jesus. Ao final, os discípulos homens questionam a autoridade de Maria, “enquanto mulher”, de assumir tal papel professoral acerca dos ensinamentos de Jesus.

No entanto, fato é que inúmeras interpretações dos evangelhos (incluindo aqui tanto os “canônicos” quanto os “apócrifos”) apontam para Maria Madalena como não somente uma das discípulas “mais queridas” de Jesus, mas também como uma das poucas que parecia compreender toda à profundidade de seus ensinamentos. Segundo a pesquisadora Karen King (em The Gospel of Mary Magdala), no cristianismo primitivo, “a autoridade é investida não em uma hierarquia masculina, mas na liderança de homens e mulheres que atingiram a força de caráter e a maturidade espiritual”. Ou seja, “as mulheres, assim como os homens, podiam assumir papéis de liderança com base em seu desenvolvimento espiritual”. De todos os discípulos de Jesus, talvez justamente uma mulher detivesse, portanto, a maior autoridade espiritual...

***

[...] (pgs. 1-6 faltando; pg. 7) irá a material então será [destruída] ou não?”. O salvador disse, “Todas as naturezas, todas as formações, todas as criaturas existem por si e umas com as outras, e elas serão resolvidas em suas próprias raízes. Pois a natureza da matéria é resolvida nas (raízes) de sua própria natureza. Quem quer que tenha ouvidos para ouvir, permita-lhe que ouça”.
Pedro disse a ele, “Desde que explicaste tudo para nós, conta-nos também isto: qual é o pecado do mundo?” O salvador disse, “Não há pecado, mas és tu quem comete o pecado quando fazes as coisas que estão na natureza do adultério, que é chamado de ‘pecado’. É por isso que o Bondoso veio ao meio de vós, à (essência) de cada natureza, para restaurá-la junto com sua raiz”. Então ele continuou e disse, “Por isso tu [te tornas enfermo] e morre, pois [...]

(pg. 8) daquele que [... Aquele que] compreende, permite-lhe compreender. [A matéria deu a luz a] uma paixão que não há igual, a qual emanou de (algo) contrário à natureza. Então um distúrbio se ergueu em todo o corpo. Por isso eu vos digo, ‘Sede de boa coragem’, e se vós perderes a coragem, (sede) corajoso na presença de formas diferentes da natureza. Quem quer que tenha ouvidos para ouvir, permita-lhe que ouça”.
Quando o abençoado disse isso, Ele saudou a todos, dizendo, “Que a paz esteja convosco. Recebi minha paz entre vós. Cuidai-vos para que ninguém vos desoriente, dizendo, ‘Por aqui!’ ou ‘Por ali!’ Pois o Filho do Homem está convosco. Segui os passos Dele! Aqueles que o buscam o encontrarão. Ide, então, e pregai o evangelho do reino. Não

(pg. 9) proclamai novas leis além daquelas que vos apontei, e não oferecei a lei como um legislador, para que não sejais obrigados a ela”. Quando disse isso, ele partiu.
Porém, eles ficaram aflitos. Eles lamentaram muito, dizendo, “Como devemos ir aos gentis pregar o evangelho do reino do Filho do Homem? Se eles não o pouparam, como pouparão a nós?” Então Maria se ergueu, saudou a todos eles, e disse aos seus irmãos, “Não chorai e não vos afligi e nem sede irresolutos, pois sua graça está plenamente convosco e vos protegerá. Vamos louvar sua grandeza, pois ele nos preparou e nos transformou em homens”. Quando Maria disse isso, ela fez com que seus corações se voltassem ao Bondoso, e eles começaram a discutir as palavras do [Salvador].

(pg. 10) Pedro disse a Maria, “Irmã, nós sabemos que o Salvador amava a ti mais do que todas as mulheres. Diga-nos as palavras do Salvador que mais te recordas – as quais tu sabes (mas) nós não sabemos, nem ouvimos falar delas”. Maria respondeu e disse, “O que a vós está oculto eu vos proclamarei”. E ela começou a falar para eles estas palavras:
“Eu”, ela disse, “eu vi o Senhor em uma aparição e eu disse a ele, ‘Senhor, eu o vi hoje em uma aparição’. Ele respondeu e disse a mim, ‘Abençoada és tu que não hesitou diante da minha aparição. Pois onde a mente estiver, lá haverá um tesouro’.
Eu disse a ele, ‘Senhor, como aquele que vê uma aparição a vê <através da> alma <ou> através do espírito?’ O Salvador respondeu e disse, ‘Aquele que não vê através da alma não vê através do espírito, mas da mente que [está] entre os dois – ou seja [o que] vê a aparição e o [...]’. (pgs. 11-14 faltando)

(pg. 15) “[...] isso. E deseja que, ‘eu não te vi descendo, mas agora eu o vejo subindo. Por que mentes, sendo que tu pertences a mim?’ A alma respondeu e disse, ‘Eu te vi. Tu não me viste nem me reconheceste. Eu te servi como um manto, e tu não me conheceste’. Quando disse isso, ela se foi em grande alegria.
“Novamente, veio o terceiro poder, que é chamado de ignorância. Ele questionou a alma dizendo, ‘Onde tu estás indo? Que perversão te aprisionas. Mas tu estás aprisionada; não julga!’ E a alma disse, ‘Por que julgas a mim se eu não tenho julgado? Eu estava aprisionada apesar de não ter sido aprisionada. Eu não fui reconhecida. Mas eu reconheci que o Todo está sendo dissolvido, tanto nas (coisas) mundanas

(pg. 16) quanto nas celestiais’.
Quando a alma havia superado o terceiro poder, ela subiu e viu o quarto poder, (que) tomou sete formas. A primeira forma é a escuridão, a segunda o desejo, a terceira a ignorância, a quarta é a excitação da morte, a quinta é o reino da carne, a sexta é a sabedoria néscia da carne, a sétima é a sabedoria colérica. Esses são os sete [poderes] da ira. Eles perguntaram à alma, ‘De onde tu vens, assassina de homens, ou onde tu estás indo, conquistadora do espaço?’ A alma respondeu e disse, ‘O que me prende tem sido o assassínio e o que me rodeia tem sido superado, e o meu desejo foi terminado, e a ignorância morreu. Em um [mundo] eu fui libertada

(pg. 17) de um mundo, [e] em um modelo de um modelo celestial, e (da) corrente do esquecimento que está de passagem. Daqui por diante eu alcançarei até o restante do tempo, das estações, do aeon, em silêncio’”.
Quando Maria disse isso, ela se calou, pois era até neste ponto que o Salvador havia falado com ela. Mas André respondeu e disse aos irmãos, “Dizei o que (desejeis) dizer sobre o que ela disse. Eu pelo menos não acredito que o Salvador disse isso. Pois, certamente, esses ensinamentos são ideias estranhas”. Pedro respondeu e falou sobre essas mesmas coisas. E as questionou sobre o Salvador: “Ele realmente falou com uma mulher sem o nosso conhecimento (e) não abertamente conosco? Vamos todos mudar de posição e ouvi-la? Ele preferiu a ela a nós?

(pg. 18) Então Maria lamentou e disse a Pedro, “Meu irmão Pedro, o que pensas? Tu crê que eu mesma inventei essas coisas no meu coração, ou que esteja mentindo sobre o Salvador?” Levi respondeu e disse a Pedro, “Pedro, tu sempre foste o exaltado. Agora eu te vejo te opondo a uma mulher como (a) adversários. Mas se o Salvador a fez digna, quem és tu de fato para rejeitá-la? Certamente o Salvador a conhece muito bem. Por isso ele a amava mais do que a nós. Vamos nos envergonhar e nos vestir do homem perfeito e recebê-lo em nós como ele nos comandou e pregar o evangelho, sem proclamar outra regra ou lei além daquilo que o Salvador disse”. Quando

(pg. 19) [...] e começaram a sair [para] proclamar e para pregar.


O Evangelho segundo Maria de Magdala


***

Sinais textuais:
[ ] As chaves indicam uma lacuna no manuscrito. Onde o texto não pôde ser reconstruído, as reticências (três pontos) foram colocadas dentro das chaves, independentemente do tamanho da lacuna.
< > Estes parênteses angulares indicam a correção de uma omissão ou erro do escriba.
( ) O parêntese indica o material fornecido pelo editor ou tradutor (moderno).

[1] Esther A. de Boer é uma das pesquisadoras dos apócrifos cristãos que se opõe totalmente a classificação do Evangelho de Maria como gnóstico. Vejamos um trecho do que ela escreveu em seu livro, The Gospel of Mary: “A linguagem particular do Evangelho de Maria [...] pertence a um contexto mais especificamente estoico, no qual a matéria é uma construção do pensamento, e a matéria e a natureza estão entrelaçadas. Isso significa que o mundo material como tal não pode ser evitado, como seria o caso de uma visão dualística gnóstica, mas que se deve tomar cuidado para não ser governado pelo poder contrário à natureza”.

***

Crédito da imagem: Terese Nielsen

 

Os Evangelhos de Tomé e Maria

Veja também
Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais.

» Versão impressa

» eBook (Kindle)

» eBook (Kobo)

Marcadores: , , , , , ,

1 comentários:

Blogger Fernandes Rodrigues disse...

gnosis2042.blogspot.com.br

26/12/16 09:22  

Postar um comentário

Toda reflexão é bem-vinda:

‹ Voltar a Home

Related Posts with Thumbnails