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29.11.12

Atalanta fugidia

Dizem que foi uma caçadora virgem que transpassava seus pretendentes com sua lança, mas os mitos não contaram esta outra história acerca de Atalanta:

Na primeira vez que a viu, Hipomene duvidou dos próprios olhos. Não era o fato de uma mulher, totalmente nua, haver vencido grandes guerreiros numa corrida, que o deixara espantado. Espantado estava Hipomene com a beleza de Atalanta, que parecia resumir toda a beleza da Natureza, e de todas as mulheres do mundo, em um único corpo, esguio como a água dos riachos, misterioso como a lua cheia em meio à noite obscura.

Todos aqueles que perderam a corrida nunca mais foram os mesmos: tornaram-se melancólicos e tristonhos, e desistiram das guerras e da vida. Antes seus olhos brilhavam com a glória prometida em seus sonhos e devaneios, agora eram escravos dos vinhos, das tavernas e das cortesãs. Como não conseguiram alcançar Atalanta, passaram a buscá-la em todas as mulheres do mundo, como se, ao possuírem uma por uma, estivessem de certa forma a possuir a própria caçadora, filha dos ursos... Ante tal horrendo exemplo de vidas perdidas, Hipomene abdicou do duelo com Atalanta.

Passou a estudar sobre ela em mitos ainda mais antigos que o seu. De tanto buscar pela inspiração, acabou tendo alguma sorte mais tarde em sua vida, quando os primeiros cabelos brancos já eram vistos a escorrer pela fronte... Numa noite, enquanto seguia as passadas de Atalanta, munido de sua lanterna, de um cajado e dos óculos de Benedito (um amigo), chegou a uma estranha floresta que nunca havia visto, embora nem estivesse assim tão distante do reino de seu pai.

De suas árvores frondosas, de carvalho ancestral, pendiam frutos que lembravam maçãs, mas eram dourados, e pareciam brilhar no escuro, de modo que por vezes Hipomene os confundia com as próprias estrelas. Ao chão, viu diversos frutos que pareciam já maduros, e tinham uma cor acinzentada – estes não brilhavam mais...

Ao agachar para pegar um deles, espantou-se com seu peso – mais pareciam esculturas de maçãs, só que de ferro, ou algum material ainda mais pesado! Foi neste momento que Afrodite apareceu, como se o estivesse seguindo desde o início de sua aventura.

Que deseja nesta floresta, filho de Megareu?” – perguntou a deusa do amor.

“Quem dera eu soubesse ao certo, ò deusa... Apenas busco por esta inspiração, por sentir uma vez mais aquilo que senti quanto era jovem, ao ver a bela Atalanta correr nua pelos campos, deixando aos homens para trás”.

“Você deseja alcançar a musa fugidia? Você deseja ser um artista, filho de Megareu?”.

“Sim!” – respondeu, emocionado, Hipomene. Então Afrodite trepou numa das árvores (que só permitiam que deusas de seu porte as escalassem) e lhe trouxe três frutos dourados, além de um conselho:

“Vai, seja célere filho de Megareu, que fora das árvores tais frutos não tardam a se tornarem Chumbo. Vai e os coloca no caminho de sua musa, a fim de seduzi-la para ti. Vai agora mesmo!”.

E Hipomene, seguindo a intuição que Afrodite havia camuflado em meio as suas palavras, calculou tudo ainda naquela noite. Seguindo um teorema ainda mais antigo do que aquele atribuído a Pitágoras, colocou dois dos frutos nas extremidades de uma longa hipotenusa e, sabendo que os deuses adoram geometria, colocou-se no ângulo reto formado por seu triângulo, com o terceiro fruto nas mãos, aguardando a chegada de Atalanta...

Mas infelizmente sua musa não era muito boa de cálculos, e acabou por levar horas e horas para lhe encontrar, de modo que, quando chegou, o sol já se precipitava a nascer, e o fruto nas mãos de Hipomene estava amadurecendo, de forma que ele mal conseguia segurá-lo nas mãos.

“São precisos três frutos dourados para realizar minha transformação. Como se atreve a me ludibriar e me fazer chegar aqui, se tudo que me oferta é Chumbo?” – avisou a deusa nua, com uma imensa lança em riste, no alto da cabeça, carregada em sua mão esquerda, e apontada para o coração do pobre Hipomene.

“Me desculpe! Eu desisto, eu desisto; mas me poupe a vida!”.

“Sua vida já está selada, ó aspirante a Arte. O que nos resta saber é se irá renascer ou não”.

Aquelas palavras calaram fundo na alma de Hipomene. Então, subitamente, ele finalmente compreendeu... Largou o fruto de Chumbo ao chão e, como um cordeiro sorridente, caminhou à frente.

Quando Atalanta o transpassou pelo coração com sua lança, ainda pôde ver os primeiros raios de sol a refletirem em sua lâmina... Antes de desfalecer, ainda achou estranho como seu coração, arrancado do corpo, mais parecia um outro pequeno sol na extremidade daquela lança. Ele parecia cintilar, brilhar, parecia um coração de Ouro...

***

Ao despertar, já era dia, e Atalanta não se via. Via-se apenas uma imensa mariposa, que voou de um arbusto próximo até sua mão. Assim Hipomene soube: havia alcançado sua inspiração, havia se tornado um com ela, havia finalmente transformado tudo que era Chumbo em Ouro...

Deixou o cajado, os óculos e a lanterna para o próximo aspirante desta aventura, pois a sua havia terminado, e já não necessitava de nada além do que já trazia em sua alma.


raph’12

***

Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados, já que em deus algum faltava a humanidade inteira (Schiller, acerca da mitologia grega)

***

Parte da série Esta outra história

Crédito da imagem: escultura de Vilhelm Bissen (Atalanta)

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2 comentários:

Blogger Rato Saltador disse...

Maravilhoso! Me impactou em especial a última cena, lembra-me uma experiência muito intensa que tive faz algum tempo... Me motivou a ler mais sobre Atalanta.

29/11/12 18:45  
Blogger raph disse...

A experiência de morrer e renascer, principalmente "espetado por lanças", é bastante antiga, na Arte Rupestre os xamãs já registravam este tipo de experiência espiritual...

Xamãs ancestrais

Abs!
raph

30/11/12 11:12  

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