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23.2.24

Lançamento: A Tábua de Esmeralda de Hermes

As Edições Textos para Reflexão retornam ao hermetismo!

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Esta edição conta com tradução e comentários de Rafael Arrais e luxuosa introdução de Thiago Tamosauskas, alquimista praticante.

Já disponível em e-book na Amazon e também na versão impressa, pelo Clube de Autores:

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» Leia minha tradução da Tábua


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18.1.24

A Tábua de Esmeralda (traduzida por Rafael Arrais)

A Tábua de Esmeralda foi um dos textos fundamentais que deram origem à alquimia, ao hermetismo e a boa parte do ocultismo e esoterismo que conhecemos hoje. Também conhecida como Tábua Esmeraldina ou O Segredo de Hermes, trata-se de um texto antiquíssimo que influenciou tanto o Oriente como o Ocidente, e que se propõe a revelar a natureza do universo e suas transformações. Sua autoria remonta a Hermes Trismegisto, o lendário semideus greco-egípcio, também associado aos deuses Thoth, Hermes e Mercúrio. Sua origem exata é incerta, mas há indícios míticos e históricos que apontam para o Egito Antigo.

Em breve as Edições Textos para Reflexão vão lançar minha versão da Tábua de Esmeralda, traduzida e comentada, com introdução luxuosa de Thiago Tamosauskas (de onde foi retirado o parágrafo acima), alquimista praticante e autor do Principia Alchimica. Enquanto o e-book não sai (ele está sendo escrito nesse momento), trago aqui a minha tradução da Tábua, que no fim das contas é um texto bem curto mesmo:


A Tábua de Esmeralda

(1) É verdade, sem falsidade, certo e muito verdadeiro:
(2) O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma coisa só.
(3) E assim como todas as coisas vieram do Um, pela sua mediação, assim todas as coisas nasceram desta única coisa, por adaptação.
(4) O seu pai é o Sol, a sua mãe é a Lua, o Vento o embalou em seu ventre; a Terra é a sua ama de leite.
(5) A Origem de toda Telesma [1] do mundo está aí.
(6) Seu poder permanece intacto, se estiver voltado para a Terra.
(7) Você irá separar a terra do fogo, o sutil do denso, suavemente e com muito talento.
(8) Suba da Terra para o Céu, e desça novamente à Terra, e receba o poder das coisas superiores e inferiores.
(9) Desse modo você terá a glória do mundo inteiro.
(10) E todas as trevas se afastarão da sua presença.
(11) Aí está a força mais poderosa de todas: aquela que conquista todas as coisas sutis e penetra em tudo o que é sólido.
(12) Assim o mundo foi criado.
(13) Esta é a fonte das admiráveis adaptações que indiquei aqui.
(14) Por isso fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia de todo o mundo.
(15) O que eu tinha a dizer sobre a Obra Solar está completo.

(tradução por Rafael Arrais)


***

[1] O termo latino, telesma, veio do árabe ṭilasm, sendo este o idioma onde temos o registro mais antigo da Tábua (os originais se perderam). No árabe, ṭilasm significa "talismã" e/ou "enigma". Obviamente eu vou me aprofundar bastante em seu significado nos comentários do livro.

Crédito da imagem: uma gravura (de autoria desconhecida) do livro de Heinrich Khunrath, Amphitheatrum Sapientiae Aeternae, publicado em 1595; esta mesma imagem é usada na capa do nosso livro digital, a ser lançado em breve:

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22.10.18

A Alquimia, com Caciano Camilo Compostela

Há muito a era moderna especula sobre o que diabos seria a Alquimia (além é claro de mãe da química). Fala-se em transmutar chumbo em ouro, mas seria isto algo real ou somente metafórico? Fala-se em um suposto Elixir da Longa Vida, mas se ele tem este nome, por que deveria conferir a vida eterna? Fala-se numa Pedra Filosofal, mas desde quando as pedras filosofam?

Para elucidar essas e outras questões recorrentes dos curiosos recém-chegados na trilha que leva a Alquimia real, o pessoal do podcast Papo na Encruza convidou Caciano Camilo Compostela, que além de ser um dos maiores entendidos do tema no país, é também um colunista deste blog. Ouçam com carinho e atenção, e quem sabe vocês também poderão tornar o seu próprio ser um laboratorium, isto é, um local de trabalho (labor) e oração (oratorium). Que toda alma, enfim, possa ser o seu próprio laboratório alquímico.

***

Crédito da imagem: Google Image Search

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5.8.15

Alumínio

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Há algum tempo atrás li num livro que Napoleão, o imperador da França, tinha uma pequena coleção de talheres de alumínio, e que os guardava somente para si e os seus convidados mais ilustres. Os demais usavam talheres de ouro mesmo.

Isto porque, na sua época, a produção de alumínio em larga escala havia sido recém-descoberta, e ainda era tão cara que os talheres ou joias feitos de alumínio tinham muito mais valor do que os mesmos forjados em ouro. Somente algumas décadas depois, ao final do século XIX, é que novas descobertas científicas permitiram que a produção de alumínio se tornasse bem mais barata [1].

Mas não consta que durante o reinado de Napoleão os alquimistas franceses tenham substituído o ouro pelo alumínio. Que eu saiba, eles continuaram tentando transformar o seu chumbo em ouro, como antes.

Ocorre que o ouro dos alquimistas nada tinha a ver com o ouro dos talheres comuns de Napoleão. Se tratava de um ouro mais etéreo, mais espiritual, mais simbólico. Um ouro, de fato, muito mais difícil de produzir do que aquele ouro mais comum. No entanto, um ouro que não se sujeitava as leis de escassez, da oferta e procura – enfim, um ouro que nunca esteve à venda.

Outra importante consideração a fazer sobre os alquimistas é que eles não valorizavam seus mestres pelo seu peso em ouro, mas sim pela sua luminosidade.

Na antiga Atenas um grande mestre das ideias também se tornou puro ouro. Mas ele fazia questão de ressaltar que nada sabia. As ideias tinham valor por si mesmas, ele provavelmente pensava, e o fato de orbitá-las não o fazia seu dono, apenas o seu divulgador. Ele era apenas um espelho devidamente polido, tudo o que fazia era refletir alguma luz vinda sabe-se lá de onde...

E se ele repetia há todo momento que tudo o que sabia era que nada sabia, é porque era sábio o suficiente para compreender a grande e vil armadilha que se arma para aqueles que julgam que o seu ouro é sua propriedade, e não a propriedade de toda a humanidade.

Pois que se a fonte dourada é represada pelas alucinações do ego, ela perde a sua pureza, e se torna fétida.

Afinal, aquele que se torna imperador de si mesmo produz não talheres, mas o próprio alimento para todos aqueles que vagam por este mundo, esfomeados e desamparados. São eles quem precisam ser alimentados, e não o ego!

Assim, o sábio que conquistou os seus próprios países, que marchou sobre a própria sombra e a trouxe para o seu exército, dispõe de riqueza inimaginável.

Mas como isso valeria mais do que ouro?

Ora, se os pretensos alquimistas tivessem sucesso, e se todo o chumbo do mundo se transmutasse em ouro, os talheres mais valiosos passariam a ser de prata. Isso já não diz muito sobre o valor que damos ao ouro?

No entanto, o outro ouro, o ouro dos verdadeiros alquimistas, será sempre o bem mais valioso! E no dia em que ele deixar de ser tão raro, no dia em que for tão comum quanto o alumínio de Napoleão, então esta terra estará cheia de imperadores sem súditos, e um céu dourado terá sido derramado sobre o mundo...

Há uma batalha diária, feroz e violenta, para que cada pensamento se livre do seu chumbo, e se eleve e se doure e se torne sublime!

Para aqueles que creem que o céu está lá fora, cheio de deuses misteriosos, esta é uma guerra sem sentido.

Mas para aqueles que trouxeram seus deuses para dentro, esta é a única guerra que merece ser travada, a grande guerra alquímica.


raph’15

***

[1] Essa história também é contada neste artigo: Você sabia que o alumínio chegou a valer mais do que o ouro?

Crédito da imagem: Google Image Search/todayifoundout.com

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28.7.15

Um poema misterioso

Há alguns dias um poema de autoria anônima, encontrado num pub londrino, viralizou nas redes sociais. A princípio, ele parece um poema um tanto depressivo [1]:

Hoje foi absolutamente o pior dia de todos
E não tente me convencer que
Há algo bom em cada dia
Porque, quando você olha mais de perto,
Este mundo é um lugar muito ruim
Mesmo sabendo que
Alguma bondade vem brilhar de tempos em tempos
Satisfação e felicidade não perduram
E não é verdade que
Está tudo na mente e no coração
Porque
A verdadeira felicidade pode ser obtida
Apenas se o que nos rodeia for bom
Não é verdade que o bem exista
Eu estou certo que você pode concordar com isso
A realidade
Cria
Minha atitude
Está tudo fora do meu controle
Nem em um milhão de anos me escutará dizer que
Hoje foi um bom dia

Mas havia nele uma última linha, que em realidade faz toda a diferença, e foi o que de fato o tornou viral:

Agora leia de baixo para cima


Então, o que parecia um poema refletindo a angústia de algum beberrão britânico, subitamente se torna um pequeno tratado de como nosso ponto de vista pode transformar a realidade, e uma verdadeira alquimia mental é realizada.

O mais interessante, no entanto, não foram as dezenas de milhares de leituras que tal poema conquistou no mundo todo na última semana, mas o fato de que ele na realidade foi escrito por uma garota do ensino médio de Nova York, de família judaica, chamada Chanie Gorkin.

O poema, intitulado “Worst day ever?” (“O pior dia de todos?”), já havia sido semifinalista de um concurso de poesia, no site poetrynation, e chegou a ser publicado numa coletânea por uma pequena editora americana, isso tudo em 2014.

Quando ficou sabendo do sucesso do poema da filha, Dena Gorkin se disse “chocada”, já que se considera parte de uma família “regular e pacata”. Dena ainda afirmou ao site poetrynation que Chanie está em férias escolares, sem acesso a internet, e que ainda não faz ideia do ocorrido na última semana.

Para mim, particularmente, esta bela e curiosa história evidencia como muitos de nossos jovens, no mundo inteiro, podem ser tão sensíveis e talentosos. A parte realmente triste é que há muitos artistas em potencial que jamais irão exercer sua arte, seja por questões econômicas, seja por questões culturais; afinal, mesmo em Nova York é muito difícil “viver de poesia”. Quem sabe Chanie se sinta encorajada a tentar, mas pela personalidade da mãe, acredito que será complicado...

Em todo caso, a despeito de todas as mazelas e comentários sombrios que temos visto nas redes sociais, é inegável que ela também é capaz de nos fazer sorrir de vez em quando. E, se formos capazes de manter nosso ponto de vista e nosso estado de espírito elevados, são os sorrisos que vencerão, e farão dos nossos dias não os melhores ou os piores, mas tão somente dias de aprendizado.

***

[1] A tradução do original em inglês foi feita por Gabriel Bonfim.

Crédito da imagem: Alan Copson/Jai/Corbis/Twitter/Mashable

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28.9.13

Uma pergunta para Debora

Não há porque temermos o Lago de Enxofre
Debora, este mundo já é um inferno.
As guerras por restos fósseis,
as matanças e perseguições,
os estupros, as famílias divididas,
e mesmo as pequenas violências
do dia a dia...

Não existem “violências pequenas”.
E eu bem sei, Debora, o quanto
sua mente está cansada disso tudo;
tudo o que os “homens de bem”
fazem pela África e outros grotões
e tudo o que dizem ser
na TV: “Paladinos agindo
em nome de Deus!”

Mas a África não é “um grotão”.
É a casa de nossos ancestrais,
a nossa primeira casa.
Pise em suas terras com reverência,
dê graças por suas chuvas e rios,
pelas montanhas e as savanas,
e por todos os demais deuses.

O que falta, minha amiga,
para este inferno todo queimar
no fogo inefável do amor
até que se torne, novamente,
o Paraíso?

Antigamente, os deuses julgavam estranho
apenas ao que é estranho.
Não estavam tão preocupados
com a promiscuidade dos bonobos,
nem com o andar desengonçado dos elefantes
ou com a vaidade dos leões.

Quando o presidente em Washington
ofereceu uma quantia em dólares
ao Chefe Seattle, ele respondeu assim,
“Você deseja comprar nossa terra,
mas os homens não são donos da terra,
são parte dela.
Como podem comprar aos rios e as matas?
Esta é uma ideia estranha para nós.”
Foi o que eu quis dizer com
“Apenas ao que é estranho”.

Disso tudo você já sabe, Debora.
Que neste inferno de desejos desenfreados
não somos realmente proprietários de nada,
exceto do que há de mais precioso
e assustador...

Há muitos que tem preferido
viver anestesiados e alheios,
repetindo as orações das igrejas
e as fórmulas de sucesso
das celebridades.

Você que não é famosa neste mundo,
mas nos reinos de cima;
Você que tomou coragem
e se atirou nesse abismo infinito;
Você, ó grande dona
dos jardins da alma,
me diga:

Como conseguiu abraçar ao mundo todo
e realizar toda esta Alquimia
de dor e desespero
em sentido
e missão?


raph'13 (escrito na AE)

***

Crédito da imagem: Martin Bartsch Salvadores

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4.8.13

Astrum

Texto de Paracelso em "Filosofar pelo fogo” (Ed. Madras) – trechos das págs. 181 e 182. Tradução de Idalina Lopes. O comentário ao final é meu.

Tratemos agora do terceiro fundamento sobre o qual repousa a arte médica, ou seja, a alquimia. Se o médico não lhe dedica o maior cuidado e dela não adquire uma profunda experiência, toda sua arte corre o risco de permanecer inútil. Pois a Natureza é tão sutil, tão penetrante em suas diversas produções, que dela só podemos extrair seus benefícios com o auxílio de uma grande arte.

De fato ela não revela nada que se mostre realizado por si mesmo, e cabe, portanto, ao homem finalizar seus desejos; essa realização leva o nome de alquimia.

Assim, o alquimista é semelhante ao padeiro que assa o pão, ao vinhateiro que faz o vinho, ao tecelão que confecciona um tecido. E consequentemente é alquimista qualquer um que leve ao termo desejado pela Natureza o que nela cresce para o proveito do homem.

Saibam que a respeito dessa arte deve ser feita aqui uma distinção notável: se alguém tomasse uma pele de carneiro e, deixando-a em estado bruto, a usasse como pelica ou casaco, seria o maior exemplo da grosseria e inabilidade em comparação com a arte do peleteiro e do fabricante de tecido. Tão grosseiro e inábil é aquele que, recebendo algum dom da Natureza, não o usa.

[...] Mas hoje todos os ofícios manuais escrutaram a Natureza e adquiriam a experiência de suas propriedades, de forma que eles sabem, em todas as operações que são as suas, seguir suas vias e extrair o que nela existe de mais elevado.

Ora, hoje isso não é mais posto em prática em medicina – onde, no entanto, isso seria o mais necessário – e, que, no estado em que ela se encontra hoje, é a mais grosseira e inábil das artes.

[...] Ora, a própria Natureza o avisa, por meio das coisas, ao que você deve se dedicar a fim de oferecer à sua medicina toda a sua eficácia. O que o verão efetua com as peras e com as uvas também deve ser introduzido e realizado na medicina. E, quando sua medicina seguir tais preceitos, você também estará em condição de obter bons resultados.

Por isso é necessário agora mais uma vez relembrar que sua medicina deve dar frutos como o verão o faz com os seus. Saiba que o verão age assim com a ajuda do Astrum, e não sem ele.

Quando o Astrum exerce no tempo desejado a sua influência, saiba mais uma vez que sua preparação médica deve lhe ser rigorosamente ordenada e submetida; pois é ele que realiza a obra de arte.

***

Comentário
Françoise Bonardel, filósofa e professora da Universidade de Sorbonne, é a responsável por essa grandiosa antologia de textos alquímicos publicada pela Madras. Segundo ela, o Astrum (em alemão, Gestirn) é um termo usado sobretudo desde Paracelso para designar o princípio ígneo (do fogo) capaz de fazer crescer e multiplicar as sementes das coisas.

O Astrum pressupõe, no entanto, para ser operativo, que a semente de cada coisa tenha sido excitada pelo calor celeste; e, portanto, que o microcosmo (pequeno mundo; humano) tenha sido colocado em estrita correspondência com o macrocosmo (grande mundo; cósmico), principalmente graças ao “fogo secreto” da Arte...

***

Ora, não é de surpreender que a Academia seja hoje tão “reticente” em lembrar que os primeiros grandes cientistas da história ocidental (ignorando-se os da Grécia antiga e, sobretudo, os da ilha de Samos) eram quase todos alquimistas, astrólogos, ocultistas, magos ou, no mínimo, filósofos da Natureza.

De fato, termos como “alquimia”, “arte médica”, “fogo secreto” ou “grande arte” são muito mal compreendidos pela quase totalidade dos cientistas atuais. Para que pudessem descobrir o real significado de tais termos há 500 anos atrás, teriam antes de se livrar de mais de um século de preconceitos estabelecidos pela Academia atual em torno de qualquer ideia que possa lembrar, mesmo que vagamente, a espiritualidade. Neste aspecto, nem os filósofos modernos lhes seriam de muita ajuda – teriam mesmo é que se debruçar nos livros de ocultismo (esta antologia poderia ser já um bom começo).

Mas, ainda assim, a mera leitura de antigos Manuais de Natação não seria o suficiente para lhes ensinar sobre a Experiência do Mergulho... Que diabos seria essa tal “arte médica”, esta “alquimia” de que nos fala Paracelso?

Não tenho nenhuma pretensão de lhes explicar, mas antes de tentar lhes despertar na alma alguma luz que pode estar ali guardada por falta de uso: Ora, “cumprir o desejo da Natureza”, “frutificar as sementes através da medicina”, “transformar chumbo em ouro”, tudo isso são metáforas, mas metáforas muito poderosas – que querem se comunicar com a alma, e não com a mera “intelectualidade” ou com o mero “raciocínio mecanicista”, conforme a Academia tende a interpretar o termo “razão” nos dias atuais.

Para ser um Médico como Paracelso, não basta decorar patologias e títulos de doenças catalogadas, é preciso também ser um médico de si mesmo, um conhecedor dos Astros, um cirurgião do Amor. Dessa forma, irá praticar a Grande Arte não somente nos pacientes, mas em toda a Vizinhança ao mesmo tempo, e assim cumprir a Vontade que vem do Alto. Irá, enfim, tratar das causas, e não dos efeitos.

***

Crédito da imagem: Wikipedia

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29.11.12

Atalanta fugidia

Dizem que foi uma caçadora virgem que transpassava seus pretendentes com sua lança, mas os mitos não contaram esta outra história acerca de Atalanta:

Na primeira vez que a viu, Hipomene duvidou dos próprios olhos. Não era o fato de uma mulher, totalmente nua, haver vencido grandes guerreiros numa corrida, que o deixara espantado. Espantado estava Hipomene com a beleza de Atalanta, que parecia resumir toda a beleza da Natureza, e de todas as mulheres do mundo, em um único corpo, esguio como a água dos riachos, misterioso como a lua cheia em meio à noite obscura.

Todos aqueles que perderam a corrida nunca mais foram os mesmos: tornaram-se melancólicos e tristonhos, e desistiram das guerras e da vida. Antes seus olhos brilhavam com a glória prometida em seus sonhos e devaneios, agora eram escravos dos vinhos, das tavernas e das cortesãs. Como não conseguiram alcançar Atalanta, passaram a buscá-la em todas as mulheres do mundo, como se, ao possuírem uma por uma, estivessem de certa forma a possuir a própria caçadora, filha dos ursos... Ante tal horrendo exemplo de vidas perdidas, Hipomene abdicou do duelo com Atalanta.

Passou a estudar sobre ela em mitos ainda mais antigos que o seu. De tanto buscar pela inspiração, acabou tendo alguma sorte mais tarde em sua vida, quando os primeiros cabelos brancos já eram vistos a escorrer pela fronte... Numa noite, enquanto seguia as passadas de Atalanta, munido de sua lanterna, de um cajado e dos óculos de Benedito (um amigo), chegou a uma estranha floresta que nunca havia visto, embora nem estivesse assim tão distante do reino de seu pai.

De suas árvores frondosas, de carvalho ancestral, pendiam frutos que lembravam maçãs, mas eram dourados, e pareciam brilhar no escuro, de modo que por vezes Hipomene os confundia com as próprias estrelas. Ao chão, viu diversos frutos que pareciam já maduros, e tinham uma cor acinzentada – estes não brilhavam mais...

Ao agachar para pegar um deles, espantou-se com seu peso – mais pareciam esculturas de maçãs, só que de ferro, ou algum material ainda mais pesado! Foi neste momento que Afrodite apareceu, como se o estivesse seguindo desde o início de sua aventura.

Que deseja nesta floresta, filho de Megareu?” – perguntou a deusa do amor.

“Quem dera eu soubesse ao certo, ò deusa... Apenas busco por esta inspiração, por sentir uma vez mais aquilo que senti quanto era jovem, ao ver a bela Atalanta correr nua pelos campos, deixando aos homens para trás”.

“Você deseja alcançar a musa fugidia? Você deseja ser um artista, filho de Megareu?”.

“Sim!” – respondeu, emocionado, Hipomene. Então Afrodite trepou numa das árvores (que só permitiam que deusas de seu porte as escalassem) e lhe trouxe três frutos dourados, além de um conselho:

“Vai, seja célere filho de Megareu, que fora das árvores tais frutos não tardam a se tornarem Chumbo. Vai e os coloca no caminho de sua musa, a fim de seduzi-la para ti. Vai agora mesmo!”.

E Hipomene, seguindo a intuição que Afrodite havia camuflado em meio as suas palavras, calculou tudo ainda naquela noite. Seguindo um teorema ainda mais antigo do que aquele atribuído a Pitágoras, colocou dois dos frutos nas extremidades de uma longa hipotenusa e, sabendo que os deuses adoram geometria, colocou-se no ângulo reto formado por seu triângulo, com o terceiro fruto nas mãos, aguardando a chegada de Atalanta...

Mas infelizmente sua musa não era muito boa de cálculos, e acabou por levar horas e horas para lhe encontrar, de modo que, quando chegou, o sol já se precipitava a nascer, e o fruto nas mãos de Hipomene estava amadurecendo, de forma que ele mal conseguia segurá-lo nas mãos.

“São precisos três frutos dourados para realizar minha transformação. Como se atreve a me ludibriar e me fazer chegar aqui, se tudo que me oferta é Chumbo?” – avisou a deusa nua, com uma imensa lança em riste, no alto da cabeça, carregada em sua mão esquerda, e apontada para o coração do pobre Hipomene.

“Me desculpe! Eu desisto, eu desisto; mas me poupe a vida!”.

“Sua vida já está selada, ó aspirante a Arte. O que nos resta saber é se irá renascer ou não”.

Aquelas palavras calaram fundo na alma de Hipomene. Então, subitamente, ele finalmente compreendeu... Largou o fruto de Chumbo ao chão e, como um cordeiro sorridente, caminhou à frente.

Quando Atalanta o transpassou pelo coração com sua lança, ainda pôde ver os primeiros raios de sol a refletirem em sua lâmina... Antes de desfalecer, ainda achou estranho como seu coração, arrancado do corpo, mais parecia um outro pequeno sol na extremidade daquela lança. Ele parecia cintilar, brilhar, parecia um coração de Ouro...

***

Ao despertar, já era dia, e Atalanta não se via. Via-se apenas uma imensa mariposa, que voou de um arbusto próximo até sua mão. Assim Hipomene soube: havia alcançado sua inspiração, havia se tornado um com ela, havia finalmente transformado tudo que era Chumbo em Ouro...

Deixou o cajado, os óculos e a lanterna para o próximo aspirante desta aventura, pois a sua havia terminado, e já não necessitava de nada além do que já trazia em sua alma.


raph’12

***

Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados, já que em deus algum faltava a humanidade inteira (Schiller, acerca da mitologia grega)

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Parte da série Esta outra história

Crédito da imagem: escultura de Vilhelm Bissen (Atalanta)

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19.11.11

Egito perdido, Egito reencontrado

Texto de Rose-Marie e Rainer Hagen em "Egipto: Pessoas – Deuses – Faraós” (Ed. Taschen [Portugal]), tradução de Maria da Graça Crespo – Trechos das pgs. 218 a 221. Os comentários ao final são meus.

O incêndio da biblioteca de Alexandria teria destruído 700.000 documentos referentes à civilização faraônica; aí se encontrava, entre outros, o único exemplar completo da lista dos reis, redigido pelo sacerdote Manétho. Considera-se que esta catástrofe pôs termo ao legado do Antigo Egito, ainda que dela se ignore a data precisa. Em 48 a.C., quando César mandou incendiar os seus arsenais, ter-se-ia propagado o fogo ao célebre templo-biblioteca? Teria sido em 391, quando o imperador romano Teodósis I, querendo impor o cristianismo como religião oficial, mandou saquear os templos pagãos? Segundo uma terceira visão, os manuscritos – ou o que deles restava – foram queimados por ordem do califa Omar.

Talvez que a biblioteca tenha sido por três vezes presa das chamas. Os manuscritos são material tão combustível que não é difícil admiti-lo. Mas nada proíbe considerar também que este incêndio tenha sido mais fictício que real [1]. As gerações seguintes se recusaram a aceitar o fim de uma grande e misteriosa tradição que [...] havia se arrastado através dos séculos.

Com efeito, as ideias religiosas dos Antigos Egípcios estavam em vias de desaparecer, e a expansão agressiva do cristianismo, e depois do Islã, aceleraram este processo. No Antigo Egito, a vida espiritual estava ligada ao templo. Assim que o clero deixou de ser legitimado ou mantido pelos soberanos locais ou pela população, a base material desapareceu.

Os sacerdotes desapareceram e o conhecimento dos hieróglifos e de outras escritas egípcias extinguiram-se com eles [2]. Foi o declínio da religião, e não as chamas, a causa do termo deste universo.

Uma herança misteriosa
Na Itália, particularmente em Roma, o culto de Ísis, originário do Egito, popularizou-se durante muito tempo, e os monumentos egípcios continuaram a fascinar os viajantes. [...] O imperador Augusto, no ano de 10 a.C., mandou que pela primeira vez se transportasse um obelisco para Roma, que hoje se encontra na Piazza de Popolo. Ergue-se em frente a São Pedro, e a cruz que lhe ornamenta o cimo assinala, de longe, que o cristianismo domina todas as outras religiões, ainda que podendo considerar-se outra interpretação, visto que os ensinamentos cristãos se apoiam na sabedoria egípcia: numerosas imagens e histórias bíblicas são provenientes do Nilo [3].

Os Egípcios pensavam que Deus tinha formado o homem com barro, concepção esta que se encontra no Antigo Testamento. O inferno cristão lembra o submundo egípcio, com os perigos e os castigos que espreitam os defuntos, e os faraós subiram ao céu anteriormente a Cristo [4]. O príncipe da Ressurreição era bem conhecido dos Egípcios, graças ao exemplo de Osíris despedaçado, cujos bocados foram reunidos por Isís, a grande Mãe, tal como Maria, venerada pelos católicos. As similaridades na concepção de Deus são notáveis: o Cristo, cordeiro pascal; a pomba do Espírito Santo correspondente à tradição egípcia, segundo o que os deuses se oferecem sob a forma animal. Quanto à Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – toda ela é simples e tipicamente egípcia – as divindades manifestam-se sob diferentes formas, são conteúdo de uma e de outra e reagrupam-se preferencialmente em tríades [5].

Os Egípcios já contavam histórias que nos parecem inseparáveis da Natividade bíblica, como por exemplo a deusa Ísis, que prestes a ser mãe, procura um albergue, e, rejeitada por várias grandes damas, deu à luz ao seu filho no pobre abrigo de uma filha de lameiros. Ou como a de Quéops, que, como Herodes, quis mandar matar três dos seus filhos porque uma predição anunciou que eles se disputariam. No que diz respeito aos símbolos visuais, a cruz copta, a dos cristãos egípcios, é descendente direta da cruz alada, a chave da vida dos Egípcios [6].

Seria possível prosseguir indefinidamente por esta via. Estes exemplos não questionam a essência dos ensinamentos cristãos, mas abalam a concepção da Igreja, segundo a qual os textos bíblicos teriam sido, por assim dizer, ditados por Deus. Os historiadores da região sabem desde há muito que nesses textos se encontra algo do legado egípcio, e sem que os crentes tenham consciência disso, as ideias herdadas da civilização faraônica mantêm-se vivas.

A Terra negra
Os Egípcios também inventaram o calendário, dividindo o dia em 24 horas e o ano em 365 dias. Resolveram alguns problemas matemáticos e redigiram listas de doenças com as respectivas terapias. Os seus conhecimentos foram transmitidos e evoluíram por intermédio dos Gregos e dos Romanos. Mas o seu ideal de equidade e retidão, exemplar no plano da vida social, é pelo menos igualmente importante. Maât simboliza a justiça à qual todos os homens estão sujeitos – particularmente os reis – e ensina que a justiça deve ser exercida independentemente do poder. Na Europa, a deusa continua a existir sob os traços da Justiça. Nas democracias ocidentais a justiça é devida, a par do governo e do parlamento, como a terceira potência independente no centro do Estado.

Os Egípcios mostraram-nos o caminho de uma outra herança do Egito faraônico que é a alquimia que visa entre outros objetivos, fabricar o elixir da imortalidade. Este desejo de imortalidade explica a concepção egípcia da preservação do corpo defunto, que será reanimado pela alma no Além.

Vários símbolos da alquimia são também egípcios: a serpente ouroboros que morde a cauda simboliza a eternidade, e a fênix que renasce das próprias cinzas representa a ressurreição. Alexandria foi considerada o berço da alquimia. Seu pai era o deus Hermes Trimegisto, que se identifica com Toth, deus egípcio da Sabedoria e da Escrita, aquele que guia as almas no submundo. A química, tal como nós a consideramos, desenvolveu-se a partir das experiências e das técnicas dos alquimistas. Aliás, o seu nome evoca a sua origem. Kemet significa em egípcio arcaico, Terra negra; Kemet é lodo negro dos campos do Nilo, e o nome que seus habitantes deram ao Egito [7].

***

Comentários
Este livro que faz parte das comemorações de 25 anos da Taschen (1980-2005) foi concebido para ser um belo livro de arte repleto de fotos espetaculares da arte e arquitetura egípcias, mas o estilo do texto dos autores combinado com sua minuciosa pesquisa história, particularmente sobre detalhes da vida cotidiana dos Egípcios (o que bebiam, o que comiam, para quem rezavam, etc.), fez com que acabasse se tornando ao mesmo tempo um surpreendente conjunto de belos textos e imagens.

[1] Independente do legado faraônico ter ou não sido extinto por conta da destruição da grande biblioteca, fato é que sua destruição ocorreu (mesmo que em vários incêndios em separado), e que com ela se perderam grandes escritos não só dos egípcios, como dos gregos – por exemplo, Aristarco de Samos já previa na época que os planetas giravam em torno do Sol, a perda de sua obra atrasou em muito o desenvolvimento da astronomia.

[2] Somente em 1822 o jovem e genial linguista francês Jean-François Champollion decifrou a escrita em hieróglifos a partir de comparação com um mesmo texto em grego, na famosa Pedra de Roseta. Estava então fundada a egiptologia. Segundo alguns reencarnacionistas de renome, Champollion fora ele próprio um sacerdote egípcio em vidas passadas...

[3] Como ficará bem demonstrado no texto que se segue, em realidade as guerras religiosas conseguem que uma igreja seja vitoriosa sobre um território (e isso, obviamente, quase nada tem a ver com religião), mas raramente os mitos antigos são suprimidos, na verdade são incorporados as novas doutrinas dominantes, sem jamais desaparecer por completo. Considerar que o cristianismo se baseia numa doutrina que teoricamente condena o paganismo é de uma ironia monumental...

[4] A grande diferença entre o Hades e o Inferno, é que no primeiro os sofrimentos são proporcionais aos pecados, enquanto que no último ladrões de galinha e assassinos aparentemente sofrem igualmente a mesma punição (algo como queimar eternamente num lago de fogo, sem jamais perecer).

[5] Aqui foram citados Osíris e Ísis, que geram um filho: Hórus. No hinduísmo temos a trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Em mitologias antigas pelo mundo todo veremos diversos agrupamentos parecidos.

[6] É de uma infelicidade tremenda que sejamos obrigados a ver a chave da vida manchada pelo sangue de um grande sábio ainda crucificado nela própria. E mais triste ainda vermos a glorificação dessa imagem de sofrimento.

[7] E eis que mesmo na mitologia sagrada, tanto quanto na alquimia e na química, nada se perde, mas tudo se renova e se transforma.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis Art (escultura do deus Osíris); [ao longo] Kenneth Garrett/National Geographic Society/Corbis

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