Pular para conteúdo
29.8.13

Sama

Trecho do Projeto Rumi:

Nós viemos girando do nada,
espalhando as estrelas como pó.
As estrelas então se puseram em círculo
e nós dançamos com elas ao centro.

Como a pedra do moinho, gira a roda do céu
em torno de Deus.
Acaso segure um raio de tal roda
terá sua mão decepada!

Girando e girando
tal roda dissolve todo e qualquer apego.
Acaso não estivesse apaixonada
ela mesma gritaria, “Basta!
Até quando hei de seguir nesse giro?”

Cada átomo gira desnorteado,
mendigos circulam entre as mesas,
cães rondam um pedaço de carne,
o amante gira em torno
de seu próprio coração.

Envergonhado perante tanta beleza,
giro ao redor de minha vergonha.

***

Vem! Ouça a música do sama [1].
Venha se unir ao som dos tambores!
Aqui nós celebramos. Aqui todos nós anunciamos:
“Eu sou a Verdade!”

Estamos em êxtase.
Embriagados de um vinho que não se colhe na videira.
O que quer que pensem de nós
em nada lembrará o que somos.

Giramos e giramos, extasiados.
Esta é a noite do sama.
Há luz agora. “Luz! Luz!”

Eis o amor verdadeiro
que diz para a mente: “Adeus”.
Este é o dia do adeus.
“Adeus! Adeus!”

Todo coração que arde nesta noite
é amigo da música.

Ardendo, ansioso por seus lábios,
meu coração transborda por minha boca.

***

Silêncio!
Você é feito de pensamento, afeto e paixão;
e o que resta é nada além de carne e ossos...

Por que nos falam de templos de oração
e de atos piedosos?
Nós somos o caçador e a caça,
outono e primavera,
noite e dia,
o Visível e o Invisível.

Nós somos o tesouro do espírito.
Nós somos a alma do mundo,
liberta do peso que enverga ao corpo.

Não somos prisioneiros nem do tempo nem do espaço
nem mesmo desta terra em que pisamos.

No amor fomos gerados.
No amor nascemos.


Comentário

Enquanto estamos aqui, nesta pedra a girar em torno do Sol, que por sua vez gira em torno do centro gravitacional da Via Láctea, que por sua vez gira atraída pelos grandes aglomerados de galáxias locais, não há sequer um momento em que estamos parados, nem mesmo um momento em que nossos átomos estejam parados.
Nesta roda cósmica tudo se move em direção a algum lugar. Tudo se encontra catapultado rumo ao horizonte... O que há depois disso tudo? O que existia antes? Por que diabos o mundo não cansa de dançar?
Você pode abordar esta questão cientificamente, e procurar analisar a posição e a velocidade de cada pequena partícula do Cosmos; e então, quem sabe, tal qual o Demônio de Laplace, saber perfeitamente para onde tudo se move, e com que velocidade se move. Saber de cada pequena coisa que ocorreu e ocorrerá!
Mas, ainda que você consiga tais informações a duras penas, ainda que se torne onisciente das coisas materiais, ainda assim não saberá de nada do que ocorre neste momento, nesta dança.

O sama é a dança da alma.
A alma não tem nem posição nem velocidade, nem tampouco está preocupada com o que ocorreu ou está para ocorrer.
A alma está no que ocorre neste momento; ela está dando o próximo passo desta dança...

Você pode sentir seus movimentos?

***

[1] O sama é a dança cósmica dos dervixes rodopiantes, criada por Rumi e praticada pela ordem sufi Mevlevi.

» Ouça o poema acima sendo recitado por Leticia Sabatella (a partir de 1:50; ela usa outra tradução)

Crédito da imagem: achada em facebook.com/mevlana

Marcadores: , , ,

27.2.13

Rumi - A dança da alma (Projeto Rumi)

Rumi - A dança da alma foi lançado em 27.09.13:

Comprar o livro no Clube de Autores

Após Ad infinitum estar publicado e divulgado, inicio outro projeto. Desta vez, serei mais tradutor do que autor... O que segue abaixo é um trecho da introdução deste novo livro, que por enquanto será aqui chamado de Projeto Rumi [1]:


Já é noite, e a lua cheia da Pérsia estampa o tecido estelar, a refletir a luz que vem do outro lado do mundo. A sua volta, todos os discípulos estão tão taciturnos e quietos que, acaso fossem lamparinas vivas, poderiam ser confundidos com estrelas tristes.

Ao centro há um velho poeta dançarino. Ele encontrou e perdeu um grande amigo, ao mesmo tempo seu mestre e seu discípulo, pois que um completava ao outro como o sol e a lua... Mas isto foi há muitos anos, agora tudo o que ele faz é dançar. A tristeza incomensurável da perda em sua alma foi suplantada por chama ainda maior: um fogo que nunca se apaga.

Eis como se lamentava o seu filho ante sua aparente ausência:

Noite e dia, em êxtase ele dançava,
na terra girava como giram os céus.
Rumo às estrelas lançava seus gritos
e não havia quem não os escutasse.
Aos músicos provia ouro e prata,
e tudo o mais de seu entregava.
Nem por um instante ficava sem música e sem transe,
nem por um momento descansava.
Houve protestos, no mundo inteiro ressoava o tumulto.
A todos surpreendia que o grande sacerdote do Islã,
tornado senhor dos dois universos,
vivesse agora delirando como um louco,
dentro e fora de casa.
Por sua causa, da religião e da fé o povo se afastara;
e ele, enlouquecido de amor.
Os que antes recitavam a palavra de Deus
agora cantavam versos e partiam com os músicos [2].

Mas esta lamentação não inibiu seu espanto ante as palavras que o velho poeta parecia conseguir roubar do céu. Este silêncio todo é tão somente isto: o silêncio que antecede a chegada da poesia...

Ele faz um breve gesto, o sinal está dado. Os músicos começam a assoprar da alma para fora as melodias mais belas de todo o mundo árabe, e os escribas ficam a postos.

O poeta começa a dançar. Pé ante pé, suas passadas fazem com que gire agilmente em torno do próprio eixo, apesar da idade já avançada. Porém, assim como a Terra não gira no mesmo lugar, o poeta também circula uma estrela imaginária, um sol invisível a pairar no reino da imaginação [3]. É de sua luz que começam a chegar às palavras cantadas. Cada pequeno trecho é anotado:

Se você não me achar em você, nunca me achará.
Pois, tenho estado contigo, desde o início de mim.

Não há tempo a perder. É preciso aproveitar cada minuto do transe extático daquele que fora um grande sacerdote, mas que ao fim da vida havia se tornado algo ainda maior e mais profundo: um poeta que sabe como dialogar com Deus.

Lá onde nasce o verdadeiro amor
morre o “eu”, esse tenebroso déspota.
Tu o deixas expirar no negro da noite
e livre respiras à luz da manhã.

“Como pode, tão velho, após haver sofrido tanto de amor e de saudades, ainda conseguir trazer tanta água da fonte?” – pensam os escribas enquanto anotam, e anotam, e anotam... Foram milhares e milhares de poemas:

Está com ciúmes da generosidade do oceano?
Porque se recusaria a doar
esta alegria aos outros?
Os peixes não guardam o líquido sagrado em canecas!
Eles nadam nesta imensidão de liberdade fluída.

Ainda é noite, e o primeiro e maior dos dervixes rodopiantes, o dançarino em transe, continua a girar em torno de todo o Cosmos que, afinal, também está dentro dele mesmo.

Ele veio ao mundo para nos revelar a luz que vem do sol, pois que foi um dos poucos que a observou diretamente e não cegou – apenas amou, enlouquecidamente, e cada dia mais, até que seu espírito foi reclamado pelos que já estavam muito saudosos no outro mundo.

Isto foi há aproximadamente 8 séculos. O seu nome era Jalal ud-Din Rumi.

***

[1] Em 24/09/13 foi revelado o título do livro: Rumi - A dança da alma

[2] Texto de Sultan Walad, filho dileto, biógrafo e sucessor de Rumi. Walad foi o primeiro intérprete e exegeta de sua obra, e também o fundador da ordem sufi Mevlevi, conhecida como a ordem dos dervixes girantes, ou dançantes. O trecho citado foi transcrito da introdução de “Poemas Místicos” (Attar Editorial), com a seleção e tradução de José Jorge de Carvalho.

[3] Rumi criou a dança cósmica, o sama, praticada pela ordem sufi Mevlevi (ver nota 1). Sergio Rizek, editor da Attar, explica que essa dança se inspira no movimento dos astros: "Assim como todos os corpos giram por amor ao sol, os dervixes também giram por amor ao divino, que muitas vezes precisa de uma contrapartida humana, pois no Islã o amor humano é símbolo e reflexo do amor divino" (citação retirada do artigo de Débora F. Lerrer, “Quando o homem se confunde com Deus”).

» Veja também: Os dois mundos de Rumi

» Veja mais posts do Projeto Rumi

***

Crédito da imagem: Ayon/Raph

Marcadores: , , , , , , ,

5.2.13

O Reino

I.
“Que é a vida?”
Um desconhecido me perguntou
Há muitas vidas, quando lhe disse:
“A vida é o que me foi revelado
Por um profeta cheio de segredos
Falando aos brados”

“Tudo é pecado, tudo é pecado!”
Gritava aquele homem santo
Que sabia ver a sombra do Demônio
Debaixo de cada pedra e galho seco...

Com ele aprendi a orar para me salvar
Do grande Fim de Tudo
E do Julgamento do Pai Justo:
Aquele quem diria quem de nós iria ao Céu
E quem iria arder abaixo da Terra

Mas, foi nalguma vida que pensei...
“Ó Pai Justo e Onisciente, se Tu a tudo criou
Mesmo o Inferno é Tua obra
E mesmo do que lá ocorre, Tu bem sabes:
Sabes de cada gemido e ranger de dentes
De cada filho Teu a arder no enxofre
Sabes perfeitamente!”

Foi nesta vida que tornei-me ateu...

II.
“Que é a vida?”
Perguntei a um rabi que andava pela Galileia
E parecia estar cheio de vida
No olhar
E em todos os poros do corpo...

“A vida é uma festa que se dá no Reino”
“Mas onde está o Reino, é alguma ilha além do mar?”
“Se o fosse, os peixes teriam nos precedido...”
“Então, estaria acima das nuvens?”
“Se estivesse, os pássaros seriam já como anjos...”
“Onde está tal Reino? Diga-me, ó rabi!”

“Primeiro é preciso que você aprenda a dançar;
Pois que, do contrário, não será convidado para a festa”

III.
Foi então que me dediquei a essa tal dança
De corpo e alma
E, em cada vida que fosse
Se houvesse aprendido mais um passo
Um movimento sequer...

Não teria vivido em vão

IV.
“Que é a vida?”
Me perguntará outro desconhecido
Nalguma vida que virá;
E eu citarei o rabi:
“Uma dança. Uma dança belíssima”

E mostrarei seus passos
E o desconhecido ficará espantado
E achará que sou um homem santo
Ou profeta...

“Não há santos nem profetas”
“Mas como se pode dançar tão perfeitamente?”
“Nenhuma dança nunca será perfeita”
“Mas quero dançar como tu, ó dançarino!”
“Digo-te o que me disse uma vez um rabi, há muitas vidas:
Tudo que tenho feito, dia virá que farão o mesmo
Mesmo a minha dança, dia virá que a dançarão com ainda mais vida
E ainda mais entusiasmo
Pois que são deuses
E é dançando
Que os deuses alcançam ao Céu”

“Mas, onde está o Céu?”
“Onde sempre esteve: na alma do dançarino...
Hoje danço e apenas danço
E sei que nada precisa ser revelado
Além do que já percebo em meu coração
Ouça, ouça o ritmo!”
“Nada ouço, ó dançarino”
“Como pode?
Como pode não ouvir o ritmo da vida
Na ânsia por si mesma
Tempestuosa e caudalosa
Preenchendo todos os espaços?”

“Onde está a vida? Está aqui, no presente?”
“O presente é como um rio a escaldar
Uma chuva torrencial
De vida ancestral

Não há mais medo
Não há mais dúvida ou certeza
Não há mais profecias
Nem Deus ou o Demônio
Há apenas esta dança na chuva
Há apenas esta vida, gota de inúmeras outras
Que encharcam há tudo que há...

Agora vejo:
Debaixo da cada pedra e galho seco
Além do mar e das nuvens
E ainda dentro da alma que dança:
Tudo foi Céu
Tudo será Céu
Tudo é Céu!”

Bem vindo, tu que não é mais desconhecido
Meu semelhante...
Bem vindo ao Reino

raph'13'A.'.A.'.

***

Crédito da foto: favim.com (Anônimo)

Marcadores: , , , , , ,

5.11.12

Geometria Sagrada na Dança

Recentemente participei do III Simpósio de Hermetismo, em São Paulo, onde tive a oportunidade de conhecer diversas grandes almas... Ainda citarei algumas delas aqui no blog, mas fico feliz de começar trazendo este belo texto de uma dançarina do Cosmos, Paola Blanton [1] (o comentário ao final é meu):

Geometria é o primeiro de muitos prazeres para a Dançarina Celestial. A harmonia simples de um círculo chama os aspectos mais puros e inocentes de nossas almas - círculos na areia, no céu, nos nossos joginhos. Oh, como nós brincavamos, lembra-se? Girando e rindo, pura alegria...

Para a frente vai a vida num espiral, de modo que nós, presos em ciclos e vórtices, ainda seguramos nossos centros, nossos pequenos centros instintivos.

A Dançarina Celestial descobre seu corpo como uma bússola instintiva; orientando ela para um mundo sujeito às mesmas leis, orientações e dinâmicas. Ela herda a Dança Circular, dançando por alegria e centro tribal. Na harmonia do círculo ela aprende as direções cardeais e alinha seu eixo com o da Terra.

Ela logo descobre o corpo como uma ferramenta de escritura. Ela começa a traçar os contornos de seu universo, pintando em 3D, esculpindo esferas de poesia que derretem de volta para o caos até que ela expressa-los novamente no ciclo de vida / morte / vida das ideias. Ela acrescenta o poder da visão a suas criações, enxergando-os interna e externamente, deixando-os expandir no espaço.

Girando sozinha no espaço, ela se une com a energia dinâmica do círculo. Em espírito de oração, ela permite que a força circular a transforme. No centro do vórtice, o corpo torna-se uma ferramenta de revelação, capaz de revelar os mistérios mais profundos de seu Ser.

No centro do vórtice, há grande poder de cura enquanto nossas impurezas começam a se separar de nossos corpos físicos e energéticos. A Dançarina Celestial entra no jogo, girando, espiralando, surfando, voando, explodindo e implodindo em meio do caos. Ela sabe que o caos é um energia que pode moldar, transmitir e transmutar. Mas ela mantém seu centro, porque que ela tenha aprendido algumas coisas por aqui, e o Grande Fluxo é uma delas.

É por isso que ela não tenta conter ou parar esta energia, porque a Dança do Universo nunca pára, e, além disso, como você pode segurar o oceano em um dedal? Ela dança como parte e partícula, tecendo e ondulando entre fios e cordas e teorias e realidades. Órbitas se enfrentam e épocas se encerram, mas o Universo continua girando, e nós também.

É por isso que eu danço. Porque o simples apreciação de um círculo é apenas o começo de um direito de nascença de consciência cosmicamente proporcionado. Movimento é o estado natural do Universo, e nós somos parte do Universo. Movendo-se em círculos e ciclos, nós re-criamos os grandes códigos geométricos do Universo. Nós vivenciamos nossos centros, velocidades, centrífugas, expansões, contrações...Começamos a ampliar nossos sentidos e despertar nossas faculdades sutis. Nós sutilmente fundimos nossos navios genéticos, nossos corpos, com o Grande Fluxo através dos sacramentos da respiração e suor - purificando nossos corpos ao limparmos a nossa percepção.

E quando condensa a essência purificada de volta a nossa Ânfora, gota por gota, como um perfume raro, o círculo está lá para cumprimentar cada gota, irradiando para fora numa piscina de luz líquida, essência destilada em repouso. E assim vai, até a próxima.

Dançarinos Celestes, todos nós somos, e somos todos um. Não há falcoeiro, falcões colegas, há apenas o Fluxo, em espiral e vivo, movendo-se e respirando. Vamos celebrar a Dança Celestial juntos, em comunhão consciente e para a alegria e cura da tribo. Em círculos, em fogueiras, na praia, no sonho, eu vou te encontrar lá, meu povo, e nossas almas vão voar.

"Nada está parado, tudo se move, tudo vibra" (Lei da Vibração, do Hermetismo)

***

Comentário (livremente inspirado no texto acima):

Quando estou antevendo qualquer tristeza que possa se prolongar por falta de cuidado (mental), eu danço. Danço a noite, em casa, só, ou as vezes com a lua como espectadora e reflexo. Ouço antigas canções judaicas, ou modernas inspirações que surgiram na Islândia, ou qualquer cantiga que algum povo já cantou em volta de uma fogueira...

As vezes sou o auxiliar de um aborígene, o vento que sopra em torno da tenda do xamã, um gaulês desgovernado numa taberna medieval, uma cigana (e não há nada a se acrescentar sobre elas), um japonês fazendo cosplay de si mesmo, um dervixe, um átomo girando em torno do reflexo do Sol (pois que é noite). E giro, giro, junto ao ritmo, em silêncio...

E, quando paro de rodopiar, estou suado, bastante suado... É que cansa converter tristeza em alegria, mas através da dança, nem sinto esse tal cansaço.

***

[1] Saiba mais sobre Paola em seu site pessoal: www.paolablanton.com

Crédito da imagem: Desconhecido.

Marcadores: , , , , , , ,

3.10.12

Pé ante pé

Nesta dança em plena imensidão
Existe um momento
Em que pensamos no próximo passo
Que daremos em devoção

Neste distinto momento
Não mais sabemos
Se é o ritmo que nos faz dar o passo
Ou nosso passo que determina o ritmo

Então acontece:
O flautista divino, e o dançarino embriagado...
Eles se encontram
Se reconhecem
Se alimentam mutuamente
E dançam juntos
Pé ante pé

Neste momento há uma dança de Amor
Seus ecos ressoam em todas as almas
Que bailam junto a cada ventania
E cada pequena brisa

Como bem disse Shams:
Cada átomo
Gira apaixonado
Em torno do Sol

Mas e o que diabos
Tudo isso é?
Só a alma o sabe
Pé ante pé

Vem, dancemos então...
Dancemos em silêncio

raph’12

***

Crédito da foto: Retirado da página em homenagem a Rumi, no Facebook

Marcadores: , , , ,

25.3.12

Cantos da floresta

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

No documentário Cantos da floresta (com cerca de 27min.), vemos como o grupo foi atrás dos povos antigos da Amazônia, de sua cultura, sua música, e seu espírito... Vemos como, através da música, séculos de opressão podem ser perdoados, e um novo contato, uma nova visão, podem ser reestabelecidos. No fundo, somos todos iguais, e é através desses espelhos entre nós que a luz do espírito tem sua chance de irradiar-se adiante, uma vez mais:

Veja também outros clássicos do Mawaca, ao vivo:

» Ciranda indiana (Brasil/Índia)

» Cangoma me chamou (África/Brasil)

» Lamidbar (Israel)

Marcadores: , , , , , ,

1.3.12

Michael Play

» Parte da série: Play a myth

Se o mito existe fora do tempo, há alguns raros artistas que souberam falar diretamente ao reino da alma. Suas obras influenciaram e sensibilizaram tantos de nós que, mesmo após o fim, tornaram-se mitos de si mesmos, habitando nosso imaginário. Que viver na memória daqueles que nos amam é viver como um ser imortal. E, se algumas velas foram apagadas pelo tempo, não há nada capaz de extinguir a lembrança perene de sua luminosidade...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

***

(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

» Veja e compartilhe esta imagem no Facebook

» Saiba mais sobre Michael

» Veja posts sobre Michael em nosso blog

***

Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

Marcadores: , , ,

16.11.11

Gitana

Para lhes trazer um exemplo de como o espírito cigano ainda se faz presente mesmo nos grandes palcos da mídia mundial, achei que seria interessante convidar a bela Shakira em sua exibição no Rock in Rio deste ano (no Rio). Nem tanto pela letra, mas pela melodia, pela dança e, sobretudo, pela sensualidade - tudo isso de maravilhoso que o gênero feminino irradia aos bons observadores...

Então, com vocês, Gypsy (em espanhol, Gitana; e ambas significam, obviamente, "cigana"):

Obs: infelizmente esta versão do vídeo está com falhas de sincronização entre som e imagem a partir de cerca da metade da música. A única versão que havia achado no YouTube sem este problema foi retirada do ar, então sobrou apenas esta mesmo :(


Marcadores: , , , ,

15.11.11

Dançando com ciganos, parte 3

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

« continuando da parte 2

E a festa continuou... Ao ritmo de músicas latinas, espanholas, ciganas, espíritos dançavam em meio à mata carioca, úmida, a refletir uma lua cheia em céu límpido, estrelado, infinito. Quantos e quantos espíritos já dançaram nesta terceira pedra do sol, quantas e quantas vidas nômades encontraram refúgio em nosso planeta, quantas ainda por chegar...

Quando digo que espíritos dançavam, é por não saber ao certo se eram os médiuns encarnados a dançar, ou espíritos de outrora, ou de agora, daqui ou de algum lugar, pegando emprestado seus corpos para que dançassem como seres humanos uma vez mais. Como disse, segundo meus colegas de faculdade, quase todos estavam emprestando gentilmente seus corpos. Mas eu não – eu não queria, não poderia, perder aquela dança.

Para mim a dança, sobretudo a espiritual, é uma espécie de ritual em movimento. Quando estou nesse estado, de dançarino da vida, alguma coisa em mim, alguma coisa maravilhosa, passa a influenciar meus passos, meus movimentos, meus pensamentos... Para lhes dizer a verdade, minha relação com a dança é tão intensa (apesar de eu ter iniciado somente lá pelos 16 anos, num casamento de minha família), que eu jamais poderia acreditar em um Deus que não soubesse dançar.

No entanto, nunca gostei de decorar passos de dança, assim como nunca gostei de decorar orações. Para mim a maior oração é aquela que se faz no ato de viver no amor, e a maior dança é aquela que reflete o agitar de nossa própria alma, ao vivenciar este amor.

E aquela poesia noturna continuou...

Quando os ciganos dançam
Saias e lenços vermelhos
Bailam pelo ar
Estamos no mesmo passo
No mesmo ritmo
Todos a amar

Sob a proteção de Sara
Dos astros
E do mar
Destinados a felicidade
Banhados pela luz
De um tênue luar [1]


Até que a música cedeu lugar às consultas com os médiuns (incorporados). Foi nesse momento que me aproximei da fila que se formava em torno de Madalena, e enquanto aguardava minha vez, fiquei de olhos e ouvidos bem abertos para tudo o que era perguntado, e respondido...

Uma coisa que constatei na época, e que até hoje me intriga quando visito centros espíritas, espiritualistas, umbandistas, e festas espirituais em geral, é como as pessoas perguntam sobre coisas pequenas, mundanas, praticamente irrelevantes se comparadas com a divina oportunidade de conversarmos por alguns momentos com entidades que parecem habitar o outro lado do véu, nalguma outra dimensão... “Como vai minha situação no trabalho, será que serei demitido este ano?”; “Queria saber se sicrano gosta de mim mesmo, ou seria de fulano?”; “Você acha que esse ano é um bom ano para iniciar meu novo negócio?” – nada disso me parece importante perto de tal fenômeno.

Além disso, muitas vezes (talvez a maioria) um médium não estará realmente incorporando outro espírito, mas o seu próprio, seja alguma parte inconsciente, seja alguma personalidade de outra vida – o que é conhecido usualmente como animismo. Se usamos tal comunicação para perguntar perguntas como estas, melhor seria consultar um psicólogo, um filósofo, talvez um leitor de tarô, e não um ser que veio de outra dimensão da natureza para nos visitar... Apesar de que, muitas vezes, tampouco haverá ser algum ali para nos responder, apenas o animismo do próprio médium.

E como eu não estava ali somente para dançar, mas, sobretudo, para observar e aprender algo de útil, quando veio a minha vez de dialogar com Madalena, lhe trouxe uma pergunta um pouco mais profunda do que as demais:

“O que eu gostaria muito de saber é acerca da natureza do tempo. É verdade que ele é somente uma parte do espaço? E, sendo assim, é verdade que vocês aí de cima conseguem visualizar outras partes do tempo, ou seja, o nosso futuro aqui na Terra?”

O espírito que habitava Madalena me olhou de uma forma doce e respondeu, como se houvesse uma espécie de “tradução simultânea” sendo realizada, enquanto ela buscava as palavras certas para seus pensamentos:

“Jovem, não existe em cima e embaixo, nem o que passou e o que vai passar, existe só amor. Tudo isso aqui, toda essa festa, toda essa música, é só pelo amor que tudo existe...”

Sem refletir muito sobre a resposta dada, prossegui:

“Mas, e como é isso? Porque estamos aqui desse lado, vivendo no tempo? Se já sabem do futuro, tudo já foi escolhido por nós? Somos fantoches?”

“Não! Vocês têm isso... Como que chamam aí? Vontade! Vocês têm vontade! Então, vocês é que escolhem, a gente só observa... Mas, sobre o futuro, jovem, é melhor não saber... Ainda não podem saber... Seria muito, muito ruim, que soubessem quando vão morrer... Têm muito medo, vocês daí, de morrer...”

E já estava terminando meu tempo com ela, então parti para a pergunta que jamais poderia ter deixado de fazer:

“Mas, e quem é você? É algum guia de Madalena?”

“Não... Eu sou guia é das águas... Eu cuido de um lago no Japão há muitos, muitos anos atrás... Acho que... Isso, mais de mil anos atrás! Adeus, é hora de retornar.”

E o que posso dizer é que até hoje estou refletindo sobre aquela última resposta de quem quer que seja que pegou Madalena emprestada [2].

***

[1] Trecho de um poema que escrevi na época, Festa cigana.

[2] Sendo que, o máximo a que cheguei em relação ao assunto se encontra relatado em minhas Reflexões sobre o tempo. Já se acharam estranho um espírito da natureza oriental estar freqüentando uma festa cigana, lembro que os ciganos se originaram de migrações da Índia para a Europa há 1.500 anos; E, independente disso, é muito comum que entidades de egrégoras diversas operem certo “turismo espiritual” em egrégoras alheias – ou, em outras palavras, o mundo é um só.

***

Crédito da foto: knulp (Torii de Shirahige, Shiga, Japão)

Marcadores: , , , , , , , , ,

1.11.11

Mawaca

Há mais de uma década tenho a felicidade de conhecer um dos maiores grupos musicais em atividade no mundo; E que é, quem diria, brasileiro...

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

Além das sete cantoras o Mawaca é formado por um grupo instrumental acústico que apresenta uma multiplicidade de timbres; acordeom, violoncello, flauta, violino e sax soprano, baixo, além dos instrumentos de percussão como as tablas indianas, derbak árabe, djembés africanos, berimbau, vibrafone, pandeirões do Maranhão e marimba.

Vejam abaixo um curto documentário sobre o grupo (cerca de 16 min.):

***

Vejam também a extraordinária Kali, uma oração para a poderosa esposa da divindade hindu Shiva - tradicionalmente entoado como um mantra –, que transformou-se num inusitado rap indiano. Com a dança maravilhosa (e assustadora) de Zuzu Abu:


De todos os cantos, para todo canto, das 1.001 línguas, dos 1.001 povos...

***

Crédito da imagem: Divulgação (Mawaca)

Marcadores: , , , , ,