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6.3.13

A revelação de Hermes Trimegisto

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. II” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 258 a 261. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. Algumas notas ao final são minhas.

Sob a denominação de hermetismo, compreende-se a totalidade das crenças, ideias e práticas transmitidas na literatura hermética [1]. Trata-se de uma coletânea de textos de desigual valor, redigidos entre o século III a.C. e o século III d.C. Distinguem-se duas categorias: os escritos pertencentes ao hermetismo popular (astrologia, magia, ciências ocultas, alquimia) e a literatura hermética erudita, em primeiro lugar os 17 tratados, em grego, do Corpus Hermeticum [2]. Apesar de suas diferenças de propósito, conteúdo e estilo, há entre os dois grupos de textos certa unidade de intenção, a qual evoca as relações entre o taoismo filosófico e o taoismo popular ou a continuidade entre as expressões “clássicas” e “barrocas” da ioga [3]. Cronologicamente, os textos do hermetismo popular são os mais antigos, sendo que alguns deles datam do século III a.C. Quanto ao hermetismo filosófico, o seu desabrochar deu-se sobretudo no segundo século da Era Cristã.

Como era de prever, essa literatura reflete mais ou menos o sincretismo judaico-egípcio (e portanto também certos elementos iranianos); reconhece-se, ademais, a influência do platonismo; mas, desde o século II d.C., o dualismo gnóstico torna-se predominante. “Pelos seus atores, pelo seu cenário, pelos seus mitos, a literatura hermetista pretende ser egípcia. Essa pretensão, pelo menos para alguns textos antigos, baseia-se em certo conhecimento do Egito ptolomaico ou romano, conhecimento cuja realidade não devemos subestimar” [4]. As personagens (Thoth, Agatodêmon, Amon, etc.), os cenários (Mênfis e Tebas, Hermópolis, Saís, Assuã, etc.), certos motivos da teologia faraônica, a familiaridade com as tradições egípcias antigas, constituem indicações que devemos levar em conta.

A identificação de Thoth com Hermes já era conhecida por Heródoto (II, 152). Para os escritores da época helenística, Thoth era o patrono de todas as ciências, o inventor dos hieróglifos e um temível mágico. Teria criado o mundo por meio da palavra; por outro lado, os estoicos haviam identificado Hermes com o lógos [5].

Os escritos do hermetismo popular exerceram um papel importante na época imperial. [...] O conhecimento, e portanto o domínio da natureza, era possibilitado pela divindade. Por conseguinte, a ciência de tipo hermético constitui, ao mesmo tempo, um mistério e a transmissão iniciatória desse mistério; o conhecimento da natureza é obtido pela oração e pelo culto ou, em um nível inferior, por meio da sujeição mágica. Nesse corpus amorfo de receitas mágicas e de tratados referentes à magia natural e às ciências ocultas, voltamos por vezes a deparar com concepções características da literatura erudita.

No Koré Kósmou (14-18), a criação das almas é descrita como uma operação alquímica. A oração que serve de fecho ao Asclepius é reencontrada, em grego, numa receita mágica. A importância dessa literatura hermética “popular” não deve ser subestimada [...]. Sua cosmologia e suas ideias mestras (a doutrina das simpatias e correspondências, em primeiro lugar a correspondência entre macrocosmo e microcosmo) tiveram considerável êxito desde a baixa Idade Média até aproximadamente o fim do século XVIII; voltamos a encontrá-las não só nos platônicos italianos e em Paracelso, como também em cientistas tão diferentes como John Dee, Ashmole, Fludd e Newton [6]. [...]

[Os tratados de literatura hermética erudita] diferem pelo gênero literário e, sobretudo, por sua doutrina. Já em 1914, Bousset observara que o Corpus Hermeticum apresenta duas teologias inconciliáveis; uma otimista (de tipo monista-panteísta), a outra pessimista, caracterizada por um forte dualismo. Para a primeira, o cosmo é belo e bom, porquanto é penetrado por Deus [7]. Ao se contemplar a beleza do cosmo, chega-se à divindade. Deus, que é ao mesmo tempo Um (C.H., XI, 11) e Todo (XII, 22), é Criador, e recebe o nome de “Pai”. O homem ocupa o terceiro lugar na tríade, depois de Deus e do cosmo [8]. Sua missão é “admirar e adorar as coisas celestes, cuidar das coisas terrestres e governá-las” (Asclepius, 8). O homem é, em última análise, o complemento necessário da Criação; é “o ser vivo mortal, ornamento do Ser vivo imortal” (C.H., IV, 2).

Por outro lado, na doutrina pessimista, o mundo é fundamentalmente mau, “não é obra de Deus, pelo menos do primeiro Deus, pois esse primeiro Deus mantém-se infinitamente acima de toda matéria, está oculto no mistério do seu ser: só podemos, portanto, atingir a Deus fugindo do mundo, devemos nos comportar aqui embaixo como um estrangeiro” [9]. Lembremos, por exemplo, a gênese do mundo e o drama patético do homem segundo o primeiro tratado do Corpus, o Poimandres: o intelecto superior andrógino – o noûs – cria inicialmente um demiurgo que modela o mundo, em seguida o Ánthrôpos, o homem celeste; este último desce na esfera inferior, onde, “iludido pelo amor”, se une à natureza (Phúsis) e gera o homem terrestre. Daí em diante, o Ánthrôpos divino cessa de existir como pessoa distinta, porque ele anima o homem: sua vida transforma-se na alma humana e sua luz converte-se em noûs.

É por essa razão que, sozinho entre os seres terrestres, o homem é, ao mesmo tempo, mortal e imortal. No entanto, com o auxílio do conhecimento, o homem pode “tornar-se deus”. Esse dualismo, que desvaloriza o mundo e o corpo, sublinha a identidade entre o divino e o elemento espiritual do homem; tal como a divindade, o espírito humano (noûs) caracteriza-se pela vida e pela luz. Como o mundo é “a totalidade do mal” (C.H., VI, 4), temos de nos tornar “estrangeiros” no mundo (XIII, 1) para que possamos efetuar o “nascimento da divindade” (XIII, 7); de fato, o homem regenerado dispõe de um corpo imortal, é “filho de Deus, o Todo no Todo” (XIII, 2).

Essa teologia, solidária de uma cosmogonia e de uma soteriologia específicas, tem uma estrutura “gnóstica” por excelência. Seria, porém, imprudente vincular ao gnosticismo propriamente dito os tratados herméticos que compartilham o dualismo e o pessimismo. Certos elementos mitológicos e filosóficos de tipo “gnóstico” fazem parte do Zeitgeist da época: por exemplo, o menosprezo do mundo, o valor salvífico de uma ciência primordial, revelada por um Deus ou por um ser sobre-humano e comunicada sob o signo do segredo. Acrescentemos que a  importância decisiva atribuída ao conhecimento, transmitida sob a forma de iniciação a alguns discípulos, lembra a tradição indiana (os Upanixades, o Samkhya e o Vedanta), assim como o “corpo imortal” do homem regenerado apresenta analogias com o hata-ioga, o taoismo e as alquimias indiana e chinesa [10].

***

[1] O hermetismo parece ser bastante antigo, mas foi primordialmente através da literatura que ele sobreviveu até os dias atuais. Ou, pelo menos, é o que os historiadores podem confirmar. Se as práticas magísticas atuais relacionadas ao hermetismo têm algum parentesco com aquelas de mais de 2 mil anos atrás, é muito complexo saber.

[2] Nota do autor: Dispomos ainda da tradução latina, conhecida pelo nome de Asclepius, de um “Discurso perfeito” (Lógos téleios) cujo original se perdeu e de uma trintena de exercícios conservados no Anthologium de Estobeu, c.500.

[3] Mircea realmente fala sobre quase todas as religiões em sua obra. Infelizmente morreu antes de terminar a última parte (motivo do vol. III ser mais breve que os demais), onde caberia um resumo das tradições xamânicas e da mitologia e ritualística africana. Foi uma grande perda para os amantes de mitologia o fato de ele não ter conseguido terminar estes textos.

[4] Nota do autor: Jean Doresse, L’hermétisme égyptianisant, p.442.

[5] Nota do autor: Uma tradição que remonta aos primeiros Ptolomeus relata que Thoth, o primeiro Hermes, viveu “antes do dilúvio”; o segundo Hermes, o Trimegisto, lhe sucedeu, e depois vieram seu filho Agatodêmon e seu neto Tat. Todas essas personagens são citadas no tratado Kórê Kósmou. A genealogia é autenticamente egípcia.

[6] Alguns princípios herméticos também são reencontrados na ciência a partir do fim do século XIX, particularmente na cosmologia, na física de partículas e na física quântica. Enquanto “assim em cima, assim embaixo” pode ser relacionado diretamente as simetrias espaciais e temporais do espaço-tempo (a gravidade atua na Terra da mesma forma que em galáxias há milhões de anos-luz), “tudo vibra, nada está parado” certamente pode ser reencontrado no mundo subatômico.

[7] Benedito Espinosa resumiu tal pensamento antigo de forma magistral em sua Ética.

[8] Um pouco parecido com a tríade do cristianismo (Pai, filho e espírito santo), com a diferença que o cosmo é correspondente ao espírito santo, a preencher tudo que há; e, mais fundamental, pelo fato de “o homem” não ser apenas “um único homem”, mas toda a humanidade. Ao afirmar “sois deuses, dia virá que farão tudo que tenho feito e ainda muito mais”, mesmo Jesus estava se alinhando mais ao hermetismo “otimista” do que ao cristianismo.

[9] Devemos lembrar que esta é apenas a análise que os estudiosos modernos fazem desta doutrina. Ela em muito se assemelha a crítica da Igreja ao gnosticismo; até mesmo porque, de fato, o gnosticismo influenciou o hermetismo (e o zoroastrismo influenciou a ambos). Se formos analisar “ao pé da letra”, a ideia de que há um primeiro Deus que criou o cosmo e depois “se retirou”, deixando o governo do mundo físico (uma sombra do “mundo espiritual”) ao cargo de um deus mau, ela certamente parecerá absurda. Por outro lado, se nós formos recorrer a interpretações mais aprofundadas (que o “mundo ilusório” existe apenas na visão de quem ainda não tem olhos para ver o Reino de Deus; que o “deus mau” é um aspecto de nossa própria ignorância; etc.) mesmo o hermetismo “pessimista” passa a alcançar um sentido espiritual mais profundo.

[10] O problema de se estudar este tipo de conhecimento atualmente, é que tendemos a vê-lo somente como um conhecimento, uma literatura, uma teoria espiritual. Seja no gnosticismo, seja no hermetismo e em inúmeras outras escolas iniciáticas, a gnose em si não se traduz apenas em “conhecimento adquirido”, mas sim em “iniciação, renovação espiritual”. Devemos lembrar que o lógos grego inicialmente significava “palavra escrita ou falada”, mas após Heráclito passou a ter significados mais amplos. O lógos como “capacidade de racionalização” é o que foi traduzido para a modernidade simplesmente como “razão”; porém, há ainda outras interpretações antigas. O lógos também significava, na época helenística, um “princípio cósmico de Ordem e Beleza”. Aquele filósofo ou sábio que buscava esta espécie de razão, muito diferentemente da razão moderna, buscava uma razão permanentemente conectada ao Cosmos. Uma razão religiosa por excelência, embora isto hoje soe um absurdo para os racionalistas...
Além disso tudo, devemos sempre levar em consideração os conselhos de outro especialista em mitologia do século passado, Joseph Campbell:

Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual... Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é.

Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana?

Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental.

***

Crédito da imagem: Gravura de autor anônimo, divulgada primeiramente em um livro de Camile Flammarion

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