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28.8.12

Os apócrifos e o gnosticismo

Como hospedo transcrições de alguns dos chamados Evangelhos Apócrifos neste blog, achei por bem trazer aqui algumas observações acerca do que são exatamente estes apócrifos, e da sua relação (nem sempre muito clara) com o chamado gnosticismo.

Que são os apócrifos?
Os evangelhos apócrifos são basicamente todos aqueles que não foram incorporados “oficialmente” ao Novo Testamento [NT], embora se relacionem claramente com Jesus Cristo e tragam muitos dos eventos citados no NT, muitas vezes sob outra ótica ou interpretação. A maior parte dos evangelhos apócrifos que chegaram à modernidade faz parte da Biblioteca de Nag Hammadi [1].

Esta Biblioteca é uma coleção de textos do cristianismo primitivo (período que vai da fundação até o Primeiro Concílio de Niceia, em 325 d.C.) descoberta na região do Alto Egito, perto da cidade de Nag Hammadi, em 1945. Naquele ano, um camponês local chamado Mohammed Ali Samman encontrou uma jarra selada enterrada que continha 13 códices de papiro embrulhados em couro. Os códices contêm textos sobre 52 tratados classificados majoritariamente como gnósticos, além de incluírem também 3 trabalhos pertencentes ao Corpus Hermeticum (do hermetismo), e ainda uma tradução/alteração parcial de A República de Platão.

Na introdução de sua obra A Biblioteca de Nag Hammadi, James M. Robinson sugere que estes códices podem ter pertencido ao monastério de São Pacômio, localizado nas redondezas de Nag Hammadi, e tenham sido enterrados por monges que tomaram os livros proibidos [2] e os esconderam em potes de barro na base de um penhasco. Ali ficaram esquecidos e protegidos por mais de 1500 anos. Os textos nos códices estão escritos em copta, embora todos os trabalhos sejam traduções do grego. O mais conhecido trabalho é provavelmente o Evangelho de Tomé, cujo único texto completo está nesta Biblioteca. Atualmente, todos os códices estão preservados no Museu Copta do Cairo, no Egito [3].

Os textos de Nag Hammadi são todos gnósticos?
Pois bem, a polêmica que surge em relação aos textos da Biblioteca não toca sua relevância histórica nem espiritual, mas sim a questão de classificação da sua doutrina em específico. São muitos textos diferentes, uns muito mais profundos do que os outros, sendo que pelo menos dois dos principais (Tomé e Maria) se assemelham num aspecto: não necessariamente seriam gnósticos.

Para explicar porque, primeiro é necessário considerarmos que nem sequer sabemos ao certo o que exatamente é o gnosticismo, pois para muitos ele parece ser mais um conjunto de doutrinas (nem sempre congruentes) do que apenas uma única doutrina em específico.

Desse modo podemos considerar o gnosticismo (do grego gnosis, conhecimento) como um conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas que chegaram a mimetizar-se com o cristianismo primitivo, vindo a ser declarado como um pensamento herético após uma etapa em que conheceu prestígio entre os intelectuais cristãos. De fato, podemos falar em um gnosticismo pagão e em um gnosticismo cristão, ainda que o pensamento gnóstico mais significativo tenha sido alcançado como uma vertente heterodoxa da aurora cristã.

O movimento originou-se provavelmente na Ásia Menor, difundindo-se da região do Irã à Gália, exercendo a sua maior influência sobre o cristianismo entre os anos de 135 e 200. Tem como base elementos das filosofias pagãs que floresciam na Babilônia, Antigo Egito, Síria e Grécia Antiga, combinando elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas como os de Elêusis, do Zoroastrismo, do Hermetismo, do Sufismo, do Judaísmo e do Cristianismo.

Se há um elemento do gnosticismo que parece “permear” tantas vertentes diversas, este sem dúvida seria a reflexão primordial de que “a gnose é nada mais do que o conhecimento de Deus”. A partir deste pressuposto, entretanto, temos muitos caminhos incongruentes em todas estas vertentes, inclusive nos textos da Biblioteca de Nag Hammadi.

Uma visão superficial: o deus mau que criou a natureza
A visão superficial mais comum encontrada em quem mal compreende o gnosticismo, ou que o compreende apenas pelo aspecto exotérico (superficial), é aquela que interpreta literalmente os mitos gnósticos que apresentam ora a batalha eterna de um deus bom contra um deus mau (o que também é encontrado no zorastrismo), ora a história de um deus chamado Demiurgo, que foi gerado por Deus (o Deus incriado), e que gerou a natureza, sendo que a natureza seria “má” e “corrupta”. Segundo tal mito, o objetivo da alma seria se livrar da natureza material e voltar ao “mundo espiritual”.

Como no Mito da Caverna de Platão, este mito apresenta uma distinção entre uma realidade supranatural, incognoscível e a materialidade sensível, da qual o Demiurgo é o criador. Porém, em contraste com Platão, aqui o Demiurgo é apresentado como um antagonista do Deus Supremo. Seu ato de criação, seja ele inconsciente e uma imitação fundamentalmente falha do modelo divino, ou formado com a intenção maligna de aprisionar aspectos do divino na materialidade, funciona como uma solução para o problema do mal.

Bem, se no Mito da Caverna já encontramos diversas interpretações, nem todas tendendo necessariamente para uma desvalorização forçosa do mundo material, neste mito do Demiurgo uma interpretação esotérica (espiritualmente profunda) se faz essencial... Não terei espaço aqui para adentrar neste assunto, mas se iniciarmos pela consideração que a batalha do Bem contra o Mal se dá essencialmente em nossa própria alma, e que o Demiurgo não é um ser “que existe fora de nós mesmos”, já teremos dado um importante passo para a compreensão do mito.

Uma visão profunda: o Reino está em toda parte
Agora gostaria de trazer a consideração importante de como alguns dos textos da Biblioteca de Nag Hammadi pouco ou quase nada têm em comum com a visão da natureza como “má” e/ou “corrupta”. Tanto pelo contrário, tais textos consideram que a Natureza não só é sagrada, como o Reino de Deus se encontra espalhado por todas as coisas, inclusive as coisas materiais, sendo que os seres não o veem.

Para que tal ideia fique clara e cristalina em suas mentes, não é necessário nada mais do que citar o terceiro versículo do Evangelho de Tomé, por exemplo:

Jesus disse: Se aqueles que vos guiam vos disserem: vê, o Reino está no céu, então os pássaros vos precederão. Se vos disserem: ele está no mar, então os peixes vos precederão. Mas o reino está dentro de vós e está fora de vós. Se vos reconhecerdes, então sereis reconhecidos e sabereis que sois filhos do Pai Vivo. Mas se vos não reconhecerdes, então estareis na pobreza, sereis a pobreza.

Alguém consegue associar esta ideia da Natureza com algo “corrupto” do qual necessitamos “escapar”? Pois é, eu também não consigo imaginar nenhum tipo de associação entre tais ideias.

E, se já citamos Tomé, deveremos citar também o Evangelho de Maria, no qual é demonstrado não somente a natureza sagrada da Natureza, como também da própria mulher, na pessoa de Maria Madalena. Esther A. de Boer é uma das pesquisadoras dos apócrifos cristãos que se opõe totalmente a classificação do Evangelho de Maria como gnóstico. Vejamos um trecho do que ela escreveu em seu livro, The Gospel of Mary:

A linguagem particular do Evangelho de Maria [...] pertence a um contexto mais especificamente estoico, no qual a matéria é uma construção do pensamento, e a matéria e a natureza estão entrelaçadas. Isso significa que o mundo material como tal não pode ser evitado, como seria o caso de uma visão dualística gnóstica, mas que se deve tomar cuidado para não ser governado pelo poder contrário à natureza.

Esta visão profunda da Natureza, associada à emanação do pensamento do Uno, da Substância Primeira, ou de Deus, não foi inaugurada nem pelos apócrifos, nem pelos estoicos, mas pode ser traçada na antiguidade até ao menos Parmênides e, quem sabe, a sabedoria de Hermes Trimegisto. Se formos considerar certas interpretações dos Vedas do hinduísmo, tal ideia esbarra quase nos primórdios da religião em si. É esta a Natureza que assombrou Plotino, Espinosa, e até mesmo Einstein – é este o Reino que se espalha por tudo que há, mas somente alguns veem.

Uma questão de nomenclatura
Finalmente, precisamos considerar que a maior parte dos cristãos primitivos que escreveram ou seguiram aos ensinamentos dos apócrifos não chamavam a si mesmos de gnósticos, mas sim de cristãos. Dá o que pensar...

***

» Conheça mais sobre os apócrifos no site Early Chrstian Writings (em inglês)

[1] Todas as transcrições hospedadas neste blog foram retiradas dos textos encontrados em Nag Hammadi. Conforme constam em A Biblioteca de Nag Hammadi (organização de James M. Robinson, publicado no Brasil pela Editora Madras, com tradução de Teodoro Lorent), ou, para o caso específico do Evangelho de Tomé, conforme originalmente publicado no portal Sangha EEU.

[2] Quando o bispo Atanásio de Alexandria condenou o uso de versões não canônicas dos testamentos em suas Cartas Festivas de 367 d.C., após o Concílio de Niceia.

[3] Conforme aumenta à tensão política no Egito, particularmente os atos de hostilidade da maioria islâmica contra a minoria cristã copta, os pesquisadores ficam apavorados com a possibilidade da Biblioteca de Nag Hammadi ser saqueada ou destruída. Em todo caso, há cópias fotográficas de alta definição de todos os papiros espalhadas por todo o mundo – hoje este conhecimento não se perderá tão facilmente.

Crédito da imagem: gnosticisme.com

 

Os Evangelhos de Tomé e Maria

Veja também
Esta edição traz dois dos textos mais profundos encontrados em Nag Hammadi: Os Evangelhos segundo Tomé e Maria Madalena. Os acompanha uma série de contos (O Mensageiro) inspirados no gnosticismo e escritos por Rafael Arrais.

» Versão impressa

» eBook (Kindle)

» eBook (Kobo)

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6 comentários:

Blogger Hermano disse...

Se tem uma coisa que eu fiquei na bronca quando vi o Zeitgeist é que ele não fala nada sobre o cristianismo primitivo.

Eu fiquei até com a impressão de que o documentário queria dizer que Jesus é um cara 100% inventado pela igreja. E que até a existência de um Jesus histórico é questionável. Se fosse assim o documentário teria que explicar a origem do cristinismo, começando pelo cristianismo primitivo antes da ICAR.

29/8/12 10:31  
Blogger raph disse...

Exato, se quer minha modesta opinião, acho que os achados de Nag Hammadi, com a data dos pergaminhos confirmada pelo menos até o século IV, são uma das maiores confirmações histórias de que pelo menos a crença em "algum Jesus" estava relativamente difundida por aquela região do mundo.

Na verdade, os historiadores em sua maioria consideram que "algum Jesus certamente existiu", mas resta saber até que ponto o que dizem sobre ele é invenção ou realiade histórica.

Abs
raph

29/8/12 10:48  
Blogger Amália disse...

www.acordainfinita.blogspot.com

29/8/12 14:45  
Blogger raph disse...

Texto recomendado que fala especificamente dos problemas de definição do Gnosticismo:

http://cinegnose.blogspot.pt/2012/03/controversia-sobre-definicao-do-termo.html

2/8/13 17:46  
Blogger menteconfusa disse...

Raph...no que vc realmente acredita?
Estou interessada em sua opinião pessoal sobre toda essa questão sobre céu, inferno, salvação e condenação...santidade...desculpe a ignorância. ..não sou tão culta quanto a maioria aqui.

18/1/16 18:39  
Blogger raph disse...

Oi querida,

Também não sou culto. Eu amo certos conhecimentos, certas doutrinas, certos mitos, certas teorias científicas, certos poemas, porque tornam a minha vida mais iluminada. Mas não sou culto, e acredito que jamais serei :)

Sobre a minha crença... é sempre complicado resumir em poucas palavras no que acreditamos, mas eu desde cedo tentei resumir assim:

Minha religião é meu pensamento.
Minha vida é minha bíblia.
Minha igreja é meu coração.
Deus é nosso amor.

Há certas coisas que vão além das palavras, essas cascas de sentimentos...

Abs!
raph

19/1/16 09:43  

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