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4.4.13

A grama

Trecho do Projeto Rumi:

O mesmo vento que arranca os troncos
faz a grama brilhar.

O vento senhoril ama a fraqueza
e a humildade da grama.
Jamais se vangloria de ser forte.

O machado não se preocupa com a grossura dos galhos.
Ele os corta em pedaços. Mas não as folhas.
Ele deixa as folhas em paz.

Uma flama não considera o tamanho da pilha de lenha.
Um açougueiro não corre de um rebanho de ovelhas.

O que é a forma na presença da realidade?
Muito pobre. A realidade mantém o céu revirado
como um cálice acima de nós, girando. Quem rodou
a roda do céu? A inteligência universal.

E o movimento do corpo
vêm do espírito como uma roda d’água
construída num riacho.

A inalação e a exalação vêm do espírito,
agora raivoso, agora em paz.
O vento destrói, e protege.

Não há realidade que não Deus,
diz o xeique completamente entregue,
que é um oceano para todos os seres.

Os níveis da criação são como pequenas ondulações neste oceano.
Seu movimento provém de uma agitação na água.
Quando o oceano deseja acalmar as ondulações,
ele as envia para perto da costa.
Quando ele as quer de volta, junto as grandes ondas do mar profundo,
faz com elas o mesmo que faz com a grama.

Isso nunca acaba.


Comentário

Os estoicos comparavam nossa vida a vida de um cão atrelado por uma coleira a uma carroça que, a qualquer instante, pode se colocar em movimento.
O comprimento da correia é tal que nos permite certa liberdade de movimento, porém, não nos permite ir aonde bem quisermos...
A carroça hoje está parada, de modo que podemos vaguear um tanto por aqui e acolá. Mas é preciso estar atento e preparado: se ela seguir viagem, se quiser nos levar a outro reino, de nada adiantará lutar contra a coleira – o máximo que conseguiremos é sermos arrastados pela estrada, à força!
Sêneca [1] explicava que “ao lutar contra o laço, o cão o aperta mais... Qualquer cabresto apertado irá machucar menos o animal se ele se mover com ele do que se lutar contra ele. Somente a capacidade de resistência e a submissão à necessidade proporcionam o alívio para o que é esmagador”.

***

Nesta realidade de formas impermanentes, o cão que se adéqua ao cumprimento da própria correia, e se preocupa em passear somente onde lhe é possível passear, é tão humilde quanto uma folha de grama.
A grama, constantemente açoitada pelo vento, mas que não obstante, tem sempre perdurado, junto a suas irmãs, por todas as planícies do mundo...

Que importa se o vento é ameaçador? Enquanto houver um tanto de terra fértil no reino, o sol estará resplandecendo a toda nova manhã, e alimentando a grama, que lhe retribuí com o verde.
Toda manhã traz um novo alento e um novo espírito. Deixemos que a carroça nos conduza seguindo pelos velhos sulcos da terra.

Que importa se o vento é ameaçador?  É o vento quem anuncia a chuva que virá... E enquanto houver chuva, haverá planícies verdejantes, haverá este inefável perfume de grama, haverá vida, haverá eternidade!

***

[1] Lucius Annaeus Seneca, mais conhecido como Sêneca, foi um filósofo estoico. Nasceu no ano 4 a.C. em Córdova e morreu no ano 65 d.C. em Roma: “Se vives de acordo com as leis da natureza, nunca serás pobre; se vives de acordo com as opiniões alheias, nunca serás rico”.

Crédito da imagem: Nathan Griffith/Corbis

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3 comentários:

Anonymous Samuel Otemi disse...

Eu me lembrei daquela frase "se tu queres ganhar a liberdade em relacão a algo retire toda sua força."Assim o machado corta o tronco e não as folhas. Lembrei também que o estado de maior força não é o de maior energia, ao contrário é o mais fraco.Como um neurônio que usa grande quantidade de energia inicialmente, mas com o tempo usa uma energia miníma através do uso.Quanto maior a agitação mais longe o ser está longe da manifestação da sua habilidade, sua face verdadeira.As vezes passamos vidas e vidas nesta agitação o que me lembra. Bahagatvagita e Jesus diz “Você se agita você se inquieta você se preocupa, uma única coisa é necessária”. O poeta nós diz que a tempestade que trás a morte é, faz bater contra as rochas, é a purificação, a volta a tua face original, o que te leva a unidade com o logos, e caminho que nos faz um com Deus.Da mesma forma o poeta diz que o vento trás a beleza para grama, e nesta beleza há este mesmo caminho para logos.O que muda entre essas duas abordagens?Como dizia Herman hesse o espírito (Vento) tem o mesmo signigicado de Distino.Este vento que nos sopra, é a paisagem mental de nossa mente (com todos, os significados e tal), que dá a nossos olhos a força.Se tu olhar para o mundo com os olhos de tempestade, baterá contra as rochas,até voltar ao logos, se tu olhares pela face da beleza encontrá a Deus que vem de Dies "luz do dia".Assim a coleira existe, mas assim como construimos nossa paisagem mental, como diria jesus o vento sopra onde quer,e mesmo com um ambiente fixo, e preso, como um artista o ser,colocar seu espiríto na vida, assim como estra sua própria face no fundo do mármore.Obrigado rafael por compartilhar. Valeu!

5/4/13 09:38  
Anonymous Samuel Otemi disse...

Errei a frase é Significado e Destino

Como dizia herman Hesse o espiríto tem o mesmo significdo de destino.

E lá no fim o que eu quiz dizer foi.

Coloca seu espírito na vida, assim como encontra sua face no fundo do mármore.

5/4/13 10:19  
Blogger raph disse...

Oi Samuel, muito obrigado por este belíssimo e profundo comentário :)

Abs!
raph

5/4/13 11:02  

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