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16.4.13

San Jacinto: mantenham a corda segura

Esta música de um dos mestres do Rock Progressivo, Peter Gabriel, sempre me intrigou... "San Jacinto, eu seguro a corda" [San Jacinto, I hold the line] é o seu refrão. A princípio me parecia uma música religiosa que falava de um santo, e acredito que há muitos que tenham pensado o mesmo. Ocorre que, ao analisar trechos da letra, percebemos que faz algumas menções a termos dos indígenas norte-americanos, e tudo parece mais a descrição de um transe xamânico do que alguma oração para alguma santo (claro, só vim compreender isso muitos anos após ouvi-la pela primeira vez).

Houve muitas interpretações desta letra, a maior parte postulando que se tratava de uma crítica ao extermínio dos índios americanos pelos colonizadores europeus. Mas não: era algo mais inefável, mais profundo... Somente recentemente o próprio autor passou a explicar, em seus shows, a origem da música. Trata-se da história da iniciação xamânica de um descendente indígena que Gabriel um dia conheceu no Arizona. Ele lhe contou que, quando jovem, os xamãs (ou pajés, etc) de sua comunidade o deixaram só no meio do deserto após haver sido picado por uma cascavel. Delirando, teria de encontrar o caminho de volta, e se tornar um xamã, ou morrer tentando... Não sabemos se, caso falhasse, seria ainda salvo por sua tribo - mas fato é que, em falhando, mesmo que sobrevivesse não seria considerado um xamã.

San Jacinto provavelmente não é um santo ou um lugar, mas uma estrada que corta uma região desértica do Arizona. Mas ainda resta o mistério da corda: porque é tão importante "mantê-la segura nas mãos"? Para tal temos de relembrar de tradições do xamanismo ancestral: há muitos mitos antigos que falam de uma "corda" que poderia conectar a Terra ao Céu, e que somente através dela o xamã poderia se guiar por estas estranhas aventuras espirituais. Ocorre que, "segurar a corda" não se refere somente a aventura de um xamã em específico, mas também a necessidade de mantermos esta conexão, esta corda, ativa entre os dois mundos. Segundo estes mesmos mitos, pela ignorância e o "esquecimento de quem realmente somos", a corda pode ser rompida, e o Céu pode estar perdido...

Daí a importância de mantermos a corda segura. Os xamãs, "renascidos da terra", são todos irmãos, e sabem que, de uma forma ou de outra, dia virá que se reencontrarão no Céu. O que os deixa triste é saber de seus outros irmãos que, "seduzidos pelos sonhos do homem branco", ainda poderão permanecer na escuridão do "esquecimento" por muito, muito tempo... Até que uma nova corda seja jogada do Céu:

Nuvem espessa - névoa surgindo - uma pedra assobia no fogo do chalé
Em minha volta - veste de búfalo - antiga sabedoria - correndo pela pele
Lá fora - ar frio - "levante-se, espere pelo sol a nascer"
Tinta vermelha - penas de águia - o chamado do coiote - começou...
Algo se movendo aqui dentro - eu sinto em minha boca e em meu coração
Uma sensação de morte - lenta - vou deixando a vida esvair

O pajé me guiou pela cidade - solo indígena - tão vasto!
Caminhando pela terra - por cada casa - um lago - crianças com asas líquidas - bebericando no gelado
Seguindo o leito seco do rio - observando aos Batedores e Guias fazendo sinais
Após Geronimo's Disco - Sit 'n' Bull Steakhouse [churrascaria] - o sonho de um homem branco
Um chocalho na bolsa daquele ancião - "olhe para o cume da montanha; continue a subir"
Muito acima de nós há um deserto de neve - ventos brancos sussurram

Eu seguro a corda - a corda da força que me impulsiona através do medo
San Jacinto - eu seguro a corda
San Jacinto - a mordida venenosa e a escuridão tomam minha visão - eu mantenho a corda
E as lágrimas escorrem por minha face inchada - penso que estou perdendo a consciência - estou cada vez mais fraco
Mas eu seguro a corda - eu a seguro!
San Jacinto - águias douradas voam baixo vindas do sol - vindas do sol...

Nós andaremos - na terra
Nós inspiraremos - do ar
Nós beberemos - do córrego
Nós iremos viver - mantenham a corda segura

San Jacinto, de Peter Gabriel, traduzido do inglês por Rafael Arrais

***

Crédito da imagem: Alexis Vabre

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3 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Muito significativa a letra: o simbolismo da veste de búfalo,da serpente, da águia dourada vinda do sol, a corda... Seria necessário um comentário longo para citar nuances destes símbolos, mas nem é preciso, pois apesar de grandiosos e variados, são relativamente fáceis de vir a mente... ótima indicação!

17/4/13 18:59  
Blogger raph disse...

E tudo isso ainda é coroado com o pequeno ritual simbólico que Gabriel faz ao final da apresentação (no vídeo acima) :)

18/4/13 09:42  
Blogger Lena Moraes disse...

Gratidão pela postagem <3

23/2/15 19:58  

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