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10.9.19

Do Xamanismo aos Vedas

Neste vídeo analisamos toda a estranheza dos primórdios da civilização indiana, e como o xamanismo migrou da contação de histórias para o registro escrito dos rituais mágicos e religiosos. Ao final também analiso a situação deplorável das comunidades indígenas no nosso país.

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18.3.19

O que é magia?

Neste vídeo damos prosseguimento ao que já foi dito sobre a magia no canal, desta feita focando na definição de prática mágica dos tempos modernos, afinal o xamanismo já não é mais o mesmo após dezenas de milhares de anos! Assim, tentaremos uma vez mais desvendar os mistérios e segredos da Arte, com a ajuda de grandes magistas: Éliphas Lévi, Aleister Crowley e, não menos importante, Mr. Alan Moore... Também tentarei explicar algumas diferenças entre os sistemas mais tradicionais de magia e o sistema mais pop dos dias atuais: a magia do caos! Fiquem até o fim para ver minhas indicações de podcasts, canais no YouTube e livros sobre o tema.

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3.12.18

Encontrando o animal de poder (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo trago mais um depoimento pessoal, desta vez acerca da minha experiência mística na busca pelo meu animal de poder, uma das práticas espirituais mais antigas da humanidade, filha do xamanismo ancestral. Tudo ocorreu, entretanto, num prédio em plena Avenida Paulista, no V Simpósio de Hermetismo (2016), organizado pela Associação Educacional Sírius-Gaia. Sem a condução do antigo tambor de Fernando Maiorino, tal aventura seria impossível... (edição especial do Colossi Estúdio Gráfico).

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17.7.18

Odin está voltando (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre a volta do paganismo nórdico na Islândia, terra da "Edda Poética" e de Odin, o rei xamã, que também já foi andarilho e as vezes faz até bico de Papai Noel ou de mago em filmes do "Senhor dos Anéis". Através deste deus riquíssimo em simbologia, vamos compreender melhor do que diabos se trata um mito: algo que não existe, mas existe sempre!

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5.6.18

Xamanismo, Arte e Magia (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre como a religião, a filosofia, a ciêcia e todas as formas de arte tiveram sua origem no xamanismo ancestral. Também veremos como o hermetismo foi essencial para o advento da chamada ciência moderna, como estamos a todo momento navegando num oceano de informação, e como podemos estar fazendo magia mesmo sem saber:

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27.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo final)

« continuando do tomo III


Imagine esta noite, há dez mil anos, fria e úmida, nalgum canto europeu onde tudo o que os homens sabiam acerca de outros homens se resumia a tribos que foram vistas de passagem pela margem da floresta, e que logo se esconderam dos olhares estranhos. Um mundo ancestral, onde vivíamos isolados, andarilhos vivendo da caça e da coleta, temerosos dos trovões e da raiva dos deuses. Conectados, em todos os momentos, à Natureza em nossa volta, ao ponto de nem precisar lhe dar um nome: a Natureza já era todo o mundo.

Alguns poucos dentre nós eram escolhidos, geralmente desde a infância, para serem os discípulos do xamã da tribo, aprendendo com ele todos os dias e todas as noites a se comunicar com os espíritos de antigos heróis e sábios tribais, assim como com os seres etéreos da natureza; e, de vez em quando, até mesmo com alguns dos seus deuses. Um xamã abandonava seu corpo, sua mortalha, para ir habitar do outro lado, e então o seu discípulo assumia o seu lugar, e logo escolheria outro para também um dia lhe substituir no futuro, pois que nenhuma tribo era capaz de sobreviver por muito tempo sem o auxílio daquele que se comunica com espíritos, que dá conselhos sobre as caçadas e conhece todos os segredos das ervas medicinais.

Imagine esta noite, ao redor da fogueira, onde o velho xamã canta (acompanhado de alguns tocadores de tambor) antigos poemas sobre caçadas épicas, tempos de fartura de frutos, e metamorfoses de seu próprio ser com diversos animais – vivenciadas em transe profundo, no único lugar onde todos os seres fantásticos, os espíritos, os deuses e demônios existem incontestavelmente: a mente humana.

Nessa era, quando todos os conhecimentos espirituais eram centrados na figura do xamã, a magia sequer tinha um nome. Por se tratar “de tudo o que tem relação com o espírito humano”, ela não precisava realmente ser rotulada, reduzida a uma palavra, um signo... no entanto, se um xamã fosse intimado a falar acerca da sua teologia, ele provavelmente responderia como um sacerdote xintoísta respondeu a Joseph Campbell: “nós não temos teologia, nós dançamos”.

Desde os primórdios da humanidade, a mente e o espírito sempre encontraram caminhos propícios para transbordar sua subjetividade no mundo objetivo, para de alguma forma estranha, tornar possível a migração de informações do mundo das ideias, do mundo interior, onde tudo é fluido, onde tudo pode ser simplesmente imaginado, até o mundo das coisas, até o mundo exterior, onde tudo tem corpo e forma, onde tudo tem o seu tempo de nascer, viver e morrer. Assim, sempre nos pareceu (e para a maioria de nós ainda parece) que este mundo dito objetivo é mais como uma passagem, um entrecruzamento de vias férreas, onde os trens de nossas vidas podem apitar uns para os outros, por breves períodos, até que precisem novamente zarpar para a próxima estação.

Lá no início de tudo, lá, muito antes da linguagem, a magia já brotava como uma espécie de noivado com a consciência. Através da magia, o que era somente imaginado pôde, passo a passo, ser transferido para o mundo lá fora. Na falta de um nome melhor, lhe chamamos A Arte...

Enclausurados no fundo das cavernas, com pouquíssima iluminação, se valendo de sangue animal e de tintas arcaicas, os xamãs gravaram no ventre da própria Terra imagens de suas caçadas, do que vivenciavam em seus transes, e da morte e renascimento em suas próprias iniciações, quando também eles vieram desvanecer no ventre da Mãe, para renascerem como filhos de Gaia, irmãos de todos os demais xamãs do mundo. E isto, que hoje chamamos de arte rupestre, nada mais foi do que o surgimento da pintura.

Muitos também aprenderam a talhar a pedra não somente para produzir pontas de lanças e flechas, como para trazer ao mundo das formas sólidas as figuras dos mais antigos deuses, sobretudo a Deusa Mãe, com suas formas fartas, garantidora da vida e da fertilidade da tribo. Assim surgiu a escultura.

Da música e da poesia nós já falamos, mas considere como ambas foram reunidas com danças e encenações, quando já não bastava mais somente contar uma história: era preciso reencená-la novamente, e quantas vezes fossem precisas, nas noites em que a tribo rememorava antigos acontecimentos dignos de nota. Muito tempo, e algumas civilizações depois, tais encenações passaram a ser independentes da religião em si, e foram chamadas de teatro pelos gregos antigos. Conforme a ópera e o próprio cinema não poderiam ter surgido sem o teatro, há que se considerar que todos eles ainda derivam, em última instância, da Arte.

Finalmente, foi inventada a escrita, e todas as histórias ancestrais puderam fluir da mente daqueles que as recitavam de memória para os símbolos que, se eram incapazes de trazer consigo todo o sentimento, toda emoção daqueles que um dia cantaram ao redor das fogueiras ancestrais, ao menos podiam registrar com exatidão inimaginável algo que se passava tão somente na mente do xamã. Milhares de anos depois, o próprio ocultismo iria se basear largamente na forma como certas palavras são recitadas, assim como no estilo com a qual elas eram guardadas nos livros e nos grimórios. A isso tudo nós também demos outro nome: literatura.

É bem verdade que os primeiros magi (magus, no singular) eram sacerdotes do zoroastrismo, que mais tarde vieram a ser rotulados de “praticantes de magia” pelos gregos, que ironicamente não viam o que eles faziam com bons olhos. Assim, quando a Arte recebeu o nome “magia”, foi mais por um acidente da história. É curioso como, mais ou menos desde essa época, tudo o que era realizado pelas religiões dos povos estrangeiros foi considerado “magia”, sobretudo como forma de diferenciação para com as práticas sagradas da religião oficial do próprio país. Até hoje é fácil se encontrar coisa parecida: “macumba é magia negra, mas as minhas simpatias, as minhas orações aos santos, isso é tudo coisa de Deus”.

Na realidade, como pudemos ver, desde o xamanismo antigo, a própria religião, a própria religação a Natureza, ao Cosmos e aos deuses, esteve indissociada da Arte. Religião também é, e sempre será, uma forma de magia (uma das mais antigas, por sinal).

Aliás, quando a então famosa pitonisa de Delfos, Temistocleia, iniciou Pitágoras em seus conhecimentos ocultos, ela ainda poderia ser rotulada como “religiosa”. Foi somente quando o próprio Pitágoras ganhou sua fama (basicamente evangelizando a sabedoria de sua mestra), que ele eventualmente foi chamado de “filósofo”: amante (filos) da sabedoria (sophia). Assim surgiu a filosofia no Ocidente, e também ela, obviamente, é filha da Arte.

Desde Demócrito os antigos “filósofos da Natureza” (título que, aliás, foi assumido por alguns desta estirpe até poucos séculos atrás) começaram a focar sua atenção também nos eventos que ocorrem lá fora, e investigaram tanto os átomos quanto as constelações. Eratóstenes já sabia que a Terra não era plana cerca de 2 séculos antes de Cristo, e chegou a calcular sua circunferência com precisão invejável. Mas foi alguma espécie de deus ou semideus, Hermes o Três Vezes Grande, quem antecipou em milênios a física de partículas e o estudo de outros sóis e outros mundos: pelo menos desde a antiga Grécia ele já havia arriscado dizer que “tudo vibra, e nada está parado”, e que as leis que regem o Alto são as mesmas que regem o que acontece por aqui.

Quando Nicolau Copérnico publicou o seu célebre Das revoluções das esferas celestes, algumas linhas abaixo da primeira ilustração do heliocentrismo estava descrita a sua maior inspiração: Hermes Trimegistus. Diz a “história oficial” que a Igreja mandou um de seus monges (Giordano Bruno) para a fogueira simplesmente por defender que a Terra girava em torno do Sol. Eles preferem ignorar o que realmente se passou, e como Bruno quis fundir o cristianismo com o hermetismo, criando uma nova religião cósmica. Tivesse tido sucesso, o mundo ocidental seria hoje muito, muito diferente...

Em todo caso, fato é que o que havia se iniciado lá em Demócrito hoje está plenamente consolidado na era moderna: a separação definitiva entre a Arte e a ciência, entre a alquimia e a química, entre a astrologia e a astronomia, entre o conselho xamânico e a psicanálise.

Diz o atual dogma científico que nada do que escapa ao puramente objetivo deve ser considerado pela ciência. Nem sempre foi assim, mas hoje a Academia prefere relegar o que pode ser chamado de “sobrenatural” as “esquisitices da mente” e ao efeito placebo. Que seja, que a magia seja a arte de se catalisar efeitos placebo. E, quanto à mente, bem, é justamente nela que se passa toda a nossa existência, seja ela “esquisita” ou “normal” (não sabemos o que é mais estranho).

Foi mais ou menos assim que a Arte se decompôs em inúmeras partes, infindáveis campos de estudo, incontáveis maneiras de se contemplar a Natureza. No entanto, se pudéssemos voltar atrás, e reconciliar toda a nossa sociedade de acordo com os preceitos arcaicos do xamanismo, ainda seríamos divididos entre caçadores e artistas. Ora, felizes aqueles que não necessitam caçar para sobreviver, e podem se dedicar plenamente a Arte, e a sua Grande Obra. Para isso, sim, meus irmãos, para isso vale a pena estar aqui, para isso vale a pena apontar nossos espelhos pequeninos para a luz do Alto, a luz que se encontra espalhada por tudo o que há, mas que ainda é invisível para quem se arrasta sonolento pela existência.

Acorde! Recorde que você é um homem, que veio de uma estrela, que está em uma estrela, que irá para outra estrela...

Imagine esta noite, há dez mil anos, com você sentado ao redor da fogueira. Imagine, sinta como a sua chama lhe aquece. Feche os olhos e veja: na sua frente, do outro lado da fogueira, está um xamã ancestral, também de olhos fechados. Ele abre os olhos, e lhe encara... de alguma forma, você sabe, você sempre esteve lá. Isto é Ars Magica.

Pouse suavemente. Os mensageiros orientam...


raph’18

***

Crédito das imagens: [topo] TASS/Vladimir Smirnov (xamã siberiana); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França); Google Image Search (Angkor Wat).

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27.7.17

O campo além das ideias

Caminhando junto ao poente numa das regiões mais inóspitas do planeta, as margens do grande Kalahari, deserto ao sul da África, Pedro se impressiona com os hábitos de seus companheiros (além do guia turístico, é claro): os bushmen, ou povo san, caçadores-coletores que vivem em torno dos poucos poços d’água subterrânea na região há dezenas, quiçá centenas de milhares de anos.

“É interessante como a gente anda neste lugar e é incapaz de observar o que eles observam. Eles veem cada planta, fruta, cada detalhe da paisagem com outro olhar, pois isso tudo faz parte da sua sobrevivência” – conclui Pedro, ou Pedro Andrade, jornalista apresentador do programa Pedro Pelo Mundo, do canal de TV a cabo GNT. Neste episódio ele decidiu retornar a Botswana, antigo protetorado britânico que, após adquirir sua independência em 1966, multiplicou seu PIB per capta em dezenas de vezes e se encaminha para a prosperidade sem ter passado por guerra civil ou períodos ditatoriais, algo extremamente incomum para um país africano.

Mas a grande característica de Botswana é precisamente estar tão isolado do resto do mundo que, por algum milagre, o povo san pôde viver relativamente intocado até os dias atuais, preservando uma cultura e estilo de vida arcaicos, o que também pôde ser comprovado pela ciência. Segundo estudos modernos, os san possuem um dos mais elevados graus de diversidade do DNA mitocondrial dentre todas as populações humanas, o que indica que eles são uma das mais antigas comunidades do globo. O seu cromossomo Y também sugere que, do ponto de vista evolucionário, os san se encontram muito perto da “raiz” da espécie humana (homo sapiens).

No fim da noite, Pedro participa como observador dos rituais e cânticos dos san. Em torno de uma pequena fogueira, as mulheres cantam e batem palmas sentadas, e os homens dançam enfileirados em círculo. Mas não é só isso: após entrarem em transe, alguns dos xamãs [1] san incorporam seus próprios antepassados e entidades da natureza. Até mesmo o guia turístico, um branco ocidental que se apaixonou pela região e pelos san, pratica a incorporação para virar ele mesmo um xamã entre o povo ancestral. Afinal, os san são antigos o suficiente para saber que, sejamos brancos ou negros, todos somos um mesmo povo, todos saímos dali, ou de bem perto dali, há centenas de milhares de anos, para povoar o resto do planeta.

Alguma coisa antiga e profunda tocou Pedro nesta viagem, e principalmente neste breve contato com os san. É isto pelo menos que ele próprio confessa ao fim do episódio, muito embora “não saiba explicar ao certo o que é exatamente”. Decerto, o mesmo deve ocorrer com muitos ditos civilizados que têm a oportunidade de realizar este tipo de contato. Seria inútil perguntar ao próprio guia turístico e aprendiz de xamã o que é que o fez trocar a vida ocidental pela vida como guia turístico no Kalahari. Há alguma coisa de transcendente nos san, alguma alma ancestral que, de muitas formas, é também a nossa alma.

E decerto de nada adiantaria escrever um tratado sobre o assunto. Ainda que os san aprendessem inglês ou português, jamais seriam capazes de colocar em palavras as experiências místicas que, de tão constantes, quase diárias, são praticamente o seu dia a dia. Os san vivem até hoje noutro mundo, o mesmo mundo que toda a nossa espécie viveu um dia, mas que vem sendo gradativamente esquecido. Neste mundo, não faz sentido se falar em mundo material e espiritual, em vivos e mortos, em coisas sagradas: no dia a dia dos san, o material e o espiritual são basicamente uma coisa só, os vivos e os mortos jamais deixaram de se comunicar, e não há nada, absolutamente nada, que não seja sagrado.

E, como as palavras por si só são inúteis, precisamos recorrer à poesia. Como bem resumiu o poeta persa Jalal ud-Din Rumi: “Além das ideias de certo e errado há um campo, eu lhe encontrarei lá. Quando a alma se deixa naquela grama, o mundo está preenchido demais para que falemos dele. Ideias, linguagem, e mesmo a frase cada um já não fazem mais nenhum sentido”.

Para boa parte do planeta, os san são um povo selvagem que permaneceu atrasado e perdido nalgum deserto africano. Para os san, ou para os seus espíritos ancestrais, o restante do planeta é nada mais do que a família que resolveu ir caminhar para as regiões mais afastadas, até que se esqueceu de retornar. E, segundo a ciência moderna, são os san quem estão com a razão [2]. Dá o que pensar.

É costume do Ocidente avaliar a “evolução” de um povo ou civilização pela sua capacidade filosófica e científica, em suma, pela sua racionalidade. No campo espiritual, porém, as coisas são um tanto mais complexas de se julgar. O povo san, por exemplo, não pratica canibalismo, não faz sacrifícios de sangue aos deuses, não devasta o seu meio ambiente de forma predatória. Um teólogo de certo renome poderá dizer: “Ok, tudo bem, mas eles são incapazes de reconhecer um Deus único”... Mas, será que isso é algum parâmetro razoável para determinar sua “evolução espiritual”?

Há muitos reinados milenares do continente africano que veneravam os chamados orixás, que são basicamente os correspondentes dos deuses das mitologias gregas ou egípcias, e possivelmente até mais antigos. No entanto, entre diversos mitos de Criação africanos, temos um “Ser Supremo quem criou os orixás e os homens”, e seu nome é Olorum. Ao contrário dos demais orixás, Olorum não possui nem culto direto nem templo individual, além é claro de não receber oferendas, sejam de animais ou frutas ou o que for, já que Olorum “já é tudo”. Ora, muito embora seja complexo associar Olorum diretamente com Javé ou Allah, fica muito claro que, no fundo, a religião dos orixás também é, e sempre foi, monoteísta. Portanto, os africanos antigos já conheciam um Deus Criador único, e isso não foi invenção exclusiva dos povos do Oriente Médio.

Claro que nem todos os povos africanos ao longo dos últimos milênios chegaram à mesma profundidade de compreensão espiritual. Mas nós ocidentais não podemos nos gabar de estarmos muito na frente deles. Até pouco tempo atrás, nossas doutrinas mais elaboradas ainda aceitavam, na prática, que escravos não tinham alma, e que precisavam ser batizados para conseguirem sua entrada no Céu. Foi assim que muitos ditos cristãos arrancaram milhões de africanos a força de suas casas e, através de grilhões e açoites, os trouxeram para trabalhar na América. Trabalho não assalariado, evidentemente.

Nem mesmo seus nomes eles puderam trazer na bagagem. Chegando ao Novo Mundo, eram batizados com nomes como Joaquim de Jesus ou Maria de Fátima. Mas, ainda que os nomes tenham se perdido, seus espíritos ancestrais jamais lhe abandonaram. Foi assim que, no Brasil, o maior país negro do mundo, surgiu o samba, o Candomblé, a Umbanda etc. Os sobrinhos dos san perderam suas casas e seus nomes, mas os orixás persistiram, afinal aqui eles também estavam dentro de Olorum. Não há nada “lá fora”.

E, apesar dos grilhões, dos açoites e do preconceito que surge da ignorância persistente dos ditos civilizados, lá naquele campo onde vivem os poetas e os místicos, lá, além das ideias de certo e errado, lá, onde habitam os deuses e dançam os xamãs, eles nos perdoaram, eles nos aceitaram de volta, de braços abertos, de alma aberta.

E, aqueles que, como Pedro, estiveram por lá, ainda que por pouco tempo, ainda que por uma noitinha só, compreenderam: a África é todo o mundo!

***

[1] O termo “xamã” se originou do estudo dos povos indígenas da Sibéria, mas na realidade se aplica para povos ancestrais em todo o mundo. No Brasil, por exemplo, um xamã pode ser conhecido como pajé.

[2] Há diversas teorias para as origens da humanidade, mas o mais aceito atualmente é que nossa espécie surgiu na África e depois migrou para o resto do globo. Em todo caso, ainda que tenha surgido no mesmo período na Europa, teria a pele tão negra quanto à dos africanos, visto que a mutação que possibilitou a pele branca é relativamente recente, de cerca de 8.000 anos atrás (portanto mais nova que o próprio povo san).

Crédito da imagem: Google Image Search/Latinstock (povo san)

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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

***

[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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7.12.16

Avistando tribos, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


« continuando da parte 1

A Águia aterrissou numa rocha mais elevada bem próxima a entrada da gruta, e me olhou fundo nos olhos. Não havia comunicação por palavras, apenas processos de pura intuição – e, afinal de contas, é preciso sempre lembrar que ela mesma era parte de mim.

Não sei exatamente como corre o tempo em tais experiências místicas, é certo que o que se passou jamais caberia nos 10 minutos em que Maiorino permaneceu tocando o seu tambor mágico, mas ainda assim boa parte da jornada já havia sido gasta em encontrar meu animal de poder, então não restava muito tempo, e talvez por isso o que senti a seguir se parecesse mais com um chamamento para um último voo, antes que aquele portal ancestral se fechasse.

Sim, um voo! Não foi como nos filmes do Senhor dos Anéis, devo deixar claro. Não havia ali nenhuma águia gigante em que pudesse pular no cangote. Era o voo da Águia e o meu voo, ao mesmo tempo, como se fôssemos um, ou ao menos como se eu pudesse ver através dela, com a sua peculiar acuidade visual... Assim voamos por extensos territórios, e pude ver que o meu Templo, afinal, parecia ser tão vasto quanto um país inteiro!

Não me entendam mal: muito pouca coisa do que vi era criação minha. Ocorre que, de alguma forma, quando caminhamos muito tempo na via espiritual, cruzamos com outros caminhantes, outras doutrinas, outras formas de enxergar este Cosmos. E, se nosso coração é aberto e interessado o suficiente nessa exploração toda, é claro que ganhamos algo em troca, ganhamos um mundo inteiro por ser explorado, lá dentro (ou lá fora, no próprio Plano Astral? a verdade é que não importa, o que importa é o que foi visto).

Nas extensas matas abaixo a Águia avistou muitas e muitas tribos, tribos que viviam em montanhas, próximas aos rios, em planícies de caça, e na profundeza das florestas. Nada disso era novidade para mim, tudo isso era apenas a própria jornada de nossos ancestrais por este vasto mundo ao qual chamamos Terra, ou Gaia.

Talvez seja mais fácil explicar com um breve relato de um outro dia, quando pude conversar com um caboclo, ou espírito de indígena, incorporado num médium num centro espírita ecumênico. Vocês já devem saber que os meus questionamentos nesses casos passam longe do trivial, “como vai meu emprego?” ou “será que minha mulher está me traindo?” etc., eu prefiro perguntar coisas que realmente me interessam, e naquele dia eu perguntei:

Vocês que foram perseguidos e exterminados por nossos ancestrais, que chegaram de barcos vindos de outras terras, porque continuam voltando aqui para nos ajudar?

E o caboclo, com o sorriso mais triste do mundo, me respondeu assim:

Meu filho, todos nós somos da mesma Tribo, nós voltamos para ajudá-los a relembrar. A doença da tribo daqui é esse grande esquecimento!

E quando se carrega esse entendimento, essa compreensão, marcada a ferro e a fogo na própria alma, não é difícil avistar tribos no horizonte de si mesmo. Desde que saímos da África, nós, os homo sapiens, temos montado muitos acampamentos e muitas fogueiras pelo mundo todo. O próprio termo xamã tem origem nos povos indígenas da Sibéria, e significa “aquele que enxerga no escuro”. Talvez as fogueiras tenham auxiliado nisso.

Em meu voo, foi chegando à tardinha, e as fogueiras começaram a ser acesas. Que espetáculo belíssimo! O tipo de cena que compensa todas as dificuldades e percalços neste caminho espiritual, e todo o sangue que foi deixado nos espinhos...

Mas então, naquele prédio em plena Avenida Paulista (lembram dele?), o toque do tambor começava a variar seu ritmo, era o momento de se preparar para voltar ao mundo do grande esquecimento.

A Águia pousou no topo de uma montanha, e um pouco antes de retornar, por um brevíssimo instante, eu pude me ver ali, metamorfoseado, meio homem, meio águia. Um homem com cabeça de águia. Nada que já não tenhamos visto na arte mais antiga do mundo...

***

“Sim, mas e de que adianta tudo isso?”, você pode me perguntar... A ideia, é claro, não é encerrar essa jornada após haver encontrado nosso animal de poder. De fato, este encontro é somente o seu início!

Uma das coisas que o Maiorino disse na sua palestra, antes da prática com o tambor, e que achei muito interessante, é que deveríamos iniciar o estudo de nosso animal de poder pelo seu comportamento na Natureza. Ou seja, nada de livros de simbologia ou mitologia, o estudo deveria começar pelos livros de biologia.

Como veterinário (dentre muitas outras especialidades), Maiorino sabia exatamente do que estava falando: é claro que a simbologia também importa, mas é o comportamento do animal em si que poderá nos dar mais pistas sobre nós mesmos, afinal a prática do xamanismo é indissociável da Natureza, como já foi dito.

Assim, por exemplo, posso me reconhecer de cara em duas características muito conhecidas das águias: caçar de forma solitária ou em pares; planar por longos períodos nas correntes de vento do alto, observando tudo o que se passa lá embaixo, para atacar com precisão qualquer presa desavisada.

Ora, não é isso o que tenho feito por tantos anos em meu blog? Planado pelas doutrinas, pelas filosofias, pelas religiões e teorias científicas, na maior parte do tempo só, às vezes com a ajuda de poucos amigos interessados, para de vez em quando descer e apanhar com minhas garras um ou outro pensamento, uma ou outra ideia, uma ou outra reflexão, que achei que dariam uma refeição apetitosa?

Voltando ao O Espírito do Xamã, Mike Williams também conta uma história que tem a ver com águias: “Os xamãs buryat do lago Baical, no sul da Sibéria, receberam seu poder dos deuses, ou tenger. Num esforço para dar fim ao sofrimento na Terra, o deus dos céus, Tengri, enviou uma águia para ensinar o xamanismo às pessoas. Mas elas não entenderam a língua da águia, então a uniram a uma mulher e a esta deram seu poder. Ela se tornou o primeiro xamã dos buryat.”

E assim, desde a primeira xamã até hoje, tudo o que as tribos do Alto têm tentado fazer é ensinar as tribos aqui de baixo a acender as suas próprias fogueiras, e sinalizar:

Ei! Nós estamos aqui! Nós nos lembramos de porque estamos aqui!


***

Nota: Encontrei um trechinho em vídeo da palestra do Fernando Maiorino, que entrou ao vivo no Facebook do pessoal da página Conhecimentos da Humanidade.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Susan Seddon Boulet (Shadow Play)

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6.12.16

Avistando tribos, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


Eu havia finalmente encontrado a gruta. Não era uma caverna, um buraco no chão ou nalgum tronco oco, mas uma gruta, e bem debaixo da cachoeira que eu costumava sempre ver ao longe... E agora, tão perto, era belo assistir a corredeira passar por cima de mim, salpicando gotículas que pairavam por todo o ambiente. Até o musgo nas pedras era de um verde que talvez só existisse mesmo ali, dentro de mim.

Mas eu não estava ali para admirar a Natureza que a mente imagina, estava ali para adentrar a gruta, e encontrar o meu animal de poder!

Ao mesmo tempo em que estava lá, frente a frente com a entrada escura que me encaminharia para algo desconhecido debaixo da terra, também estava em plena Avenida Paulista, confortavelmente sentado ao lado das dezenas de inscritos no V Simpósio de Hermetismo (2016), escutando ao ritmado e potente toque de tambor de Fernando Maiorino, fundador do Núcleo Xamânico Casca da Tartaruga, o primeiro palestrante daquele sábado.

Como o próprio Maiorino havia dito na apresentação que antecedeu aquela prática, “para o xamã os mundos sonhados são tão reais quanto este”. Num certo sentido, a experiência espiritual pela qual muitos de nós passamos na busca por nosso animal de poder era ainda mais real do que o mundo em que vivemos de olhos abertos, mas na maior parte das vezes desatentos para o que há de belo na Natureza lá fora. Afinal, a capacidade de estar atento à tanta beleza depende essencialmente da beleza que encontramos lá dentro, em nossas cavernas ancestrais e no seu entorno.

Segundo Maiorino, deveríamos fechar os olhos e relaxar a mente, permitindo que ela “inventasse as coisas livremente”. Essa invenção, obviamente, era guiada pelo passo a passo do ritual: “Se veja numa floresta, sinta o ambiente a sua volta, a grama, a corpulência das árvores, a brisa etc. Então procure por uma caverna, ou algum buraco no chão, um tronco oco de árvore, qualquer coisa que você possa se meter dentro. Entre nele e, ao aparecer um animal, lhe pergunte – Você é meu animal de poder?”

Em O Espírito do Xamã, o estudioso e praticante de xamanismo Mike Williams explica que o animal de poder, ou nagual, “não é um totem, não representa uma pessoa ou sua linhagem, e não é um animal real. Só é possível interagir com o animal de poder num plano paralelo. Cada pessoa tem um animal de poder próprio, que a acompanha por toda a vida, estando ela ciente disso ou não”. Na realidade, o animal de poder representa um aspecto expressivo de nosso próprio mundo interior, de nosso inconsciente mais ancestral e profundo. Conhecer nosso animal é talvez a mais antiga e sobrevivente prática de autoconhecimento da humanidade, muito anterior à religião arcaica, a filosofia e tudo o que veio depois...

Obviamente que o tambor tinha forte influência no ritual, era ele o instrumento primordial para a condução aos chamados estados alterados de consciência, que permitiam que a mente “inventasse tanta coisa”. Como bem resumiu Maiorino, “o tambor representa o útero de Gaia, e o seu som, a batida do coração da Terra”. A experiência xamânica é indissociável da experiência de contato com a Natureza, ainda que todos estivéssemos de fato bem no centro de uma das maiores metrópoles do planeta, que não foi exatamente sábia em sua urbanização.

Uma coisa que provavelmente auxiliou em minha jornada sob o som do tambor é o fato de que o meu Templo Astral [1] já é situado num espaço natural e aberto. Normalmente estou ao lado de um imenso carvalho, sentado numa pequena pedra sobre a grama, em cima de um monte, e à distância vejo um rio passar, vindo de uma cachoeira bem mais ao fundo, a minha direita, caindo de uma montanha um pouco maior.

Assim que fechei os olhos estava lá, como sempre. Tudo o que tive de fazer foi me levantar e me virar, pois sabia que atrás de mim havia uma floresta. Em meu ceticismo (subjetivo) eu honestamente pensei que provavelmente veria muitas araucárias e quem sabe eucaliptos, pois é esta a flora da Serra da Mantiqueira ao sul de Minas Gerais, onde vou desde pequeno passar algumas das minhas férias, e de longe o lugar do planeta onde mais me embrenhei no mato, por assim dizer. Mas nunca me toquei de que a charada já estava posta: ora, se em meu Templo eu sempre estive ao lado de um carvalho, era mesmo para se supor que a floresta seria de frondosos carvalhos – e, de fato, era exatamente assim.

É preciso deixar claro que nunca tive muita facilidade para esse tipo de ritual de “imaginação de coisas”. Até mesmo por isso eu construí mentalmente o meu Templo de forma bastante elaborada, para sempre ter ao menos uma boa base para as viagens internas. Nessa aventura ao som do tambor de Maiorino, no entanto, eu vi e vivenciei muita coisa, muito mais coisa do que seria verossímil acontecer nos 10 minutos em que durou a prática.

Mas, assim como nos sonhos, onde muita coisa pode ocorrer em pouco tempo, e onde vemos muitas coisas, mas sem usar os olhos, e escutamos a tudo, sem usar os ouvidos, e por vezes falamos, sem mexer os lábios, exatamente assim se passou naquele longo sonho lúcido em meu mundo interior.

Enquanto num prédio da Avenida Paulista um antigo tocador de tambor se aproximou de onde eu estava sentado, e com ele o seu som mágico, em meu Templo eu imediatamente iniciava a minha jornada... Adentrando a floresta, parcamente iluminada pelos poucos raios de sol que venciam os carvalhos gigantes, procurei e procurei por alguma caverna ou buraco que fosse, mas estranhamente era sempre atraído para o som do rio e da cachoeira distante. Me embrenhei profundamente na mata, descendo e subindo níveis, sem encontrar nenhuma caverna ou animal, até que, de repente, vi uma abertura na floresta, e ao passar por ela me dei de cara com a cena inicial deste relato: a gruta por baixo da cachoeira, a água caudalosa passando por cima, as gotas transparentes flutuando pelo ar, o musgo de um verde peculiar, e a entrada escura, rumo ao fundo da terra.

Naquele momento eu busquei seguir os comandos ritualísticos a risca: “Entre na caverna e, ao aparecer um animal, lhe pergunte – Você é meu animal de poder?”. Assim, era óbvio que eu tinha de entrar naquela gruta escura. Mas algo me deteve. Não foi o medo nem nada parecido, pois eu de fato estava ansioso por encontrar algum animal que fosse. Foi algo mais inusitado: o ressonante piar de alguma ave, lá no alto, que descia em círculos em minha direção. Era ela quem não me deixava entrar!

Assim, acomodando meus olhos a claridade que vinha do alto, e desviando das gotas da cachoeira, pude contemplá-la em toda a sua beleza e magnitude: uma Águia de penas brancas e acinzentadas [2], imperadora do ar, vinha circulando pelo céu...

Ela havia me escolhido há quem sabe tantas vidas, e era ali, precisamente na entrada da gruta, o nosso reencontro tão esperado. O tipo de reencontro que será lembrado por muito, muito tempo.

» Em seguida, voando com a Águia...

***

[1] Segundo Marcelo Del Debbio, “o Templo Astral é uma das primeiras coisas que um estudioso de ocultismo aprende a fazer, em praticamente qualquer Ordem ou Fraternidade que ingresse. Trata-se de uma construção no Plano Mental e Astral de um refúgio onde o magista pode descansar a mente, preparar uma viagem astral e guardar suas ferramentas. Trata-se de um local onde ele pode até mesmo realizar rituais se não dispor de espaço físico no Plano Material para tal”. Eu devo acrescentar que uso o meu Templo para tudo, desde breves meditações a trabalhos espiritualistas em geral, seja no campo do espiritismo e umbanda, seja no campo da magia. Saiba como criar o seu.

[2] Aqui é preciso ser sincero e admitir que o que eu vivenciei foi mais o conceito, o símbolo de uma águia. O que me chamou mais a atenção foi o seu rosto (os olhos e o bico), e não tenho certeza se era uma águia de cabeça branca, aquela mais famosa que é inclusive símbolo dos EUA, ou alguma outra espécie. Para este relato, eu optei por considerar a espécie Geranoaetus melanoleucus, a águia serrana, por ser uma espécie que vive em território brasileiro. Talvez seja só o incômodo de um cético, me perdoem.

Crédito das fotos: [topo] AESG/Divulgação (Fernando Maiorino durante o V Simpósio de Hermetismo); [ao longo] avespampa(.)com(.)ar (Águia Serrana)

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8.9.15

Laboratorium Pieśni

Vivemos uma época de grande esquecimento. Mas, na eternidade, todos os cânticos antigos aguardam por ser rememorados... Que tal entrar nesta dança?

As beldades acima fazem parte do grupo polonês Laboratorium Pieśni. Estudantes de música, elas também se dedicam a pesquisar por canções folclóricas e tradicionais dos Bálcãs, Polônia, Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Escandinávia, e muitos outros países ao redor do mundo. Com seus rearranjos musicais e belíssimo canto à capela, elas lembram muito o grupo brasileiro Mawaca.

Outra similaridade está no fato de, além de se dedicarem a música, vez por outra elas também encenam peças teatrais baseadas nas culturas antigas que têm estudado a fundo. Boa parte de suas músicas também são acompanhadas por instrumentos ancestrais, particularmente o tambor tradicional dos xamãs siberianos.

No vídeo acima, somos transportados para uma outra época, onde embora certamente houvesse um menor acesso a informação, muitas comunidades se achavam plenamente satisfeitas em poderem se reunir, de quando em quando, para cantar e dançar ao redor das fogueiras, ou pelos prados floridos, e assim simplesmente celebrar a existência. Abaixo, segue a tradução da letra original da canção, mas é preciso esclarecer que as letras, essas cascas de sentimento, são incapazes de realizar tudo o que a música faz:

Pelo mar, um mar azul
Flutuava um bando de cisnes brancos
E de onde teria vindo a águia acinzentada?

Ela dispersou o bando pelo mar azul
Penas brancas voaram ao céu
Penas cinzas pousaram no prado verde
E quem as colherá?
- Uma bela menina

Shtoy pa moru ("Pelo mar"), canção tradicional da Bielorrússia

***

Indicação de Rato Saltador

Crédito da foto: Marta Obiegla

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8.1.15

As Hiper Mulheres

Ganhador dos prêmios Especial do Juri e de Melhor Montagem no Festival de Gramado, As Hiper Mulheres (2011) intercala linguagem documental e ficção para abordar um ritual raro realizado pelas mulheres da aldeia Kuikuro, localizado no Alto Xingu (MT). Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamuikumalu, um ritual feminino para que ela cante ainda uma última vez. O ritual consiste, entre outras coisas, em invadir as cabanas dos homens durante a noite e "forçá-los a praticar sexo", provocando os homens da aldeia no que em realidade não passa de uma grande brincadeira (até mesmo porque está sendo filmado).

Infelizmente há muitos que se interessam por este filme pelos motivos errados. Se buscam ver índias e índios nus, ok, vão ver. Mas se buscam por alguma espécie de pornografia ou mesmo erotismo, podem ter certeza de que vão se decepcionar... No entanto, para aqueles que buscam ver os indígenas vivendo suas vidas de forma natural (apesar de se tratar também de uma ficção; aliás, muito bem encenada), este filme pode ser surpreendentemente belo e inspirador!

O filme possuí outro diferencial que aproxima o mensageiro e seu objeto de estudo. A direção é assinada por Carlos Fausto, Leo Sette e Takumã Kuikuro, cineasta e indígena local, com produção do Vídeo nas Aldeias, da Associação Indígena dos Kuikuro do Alto Xingu e do Documenta Kuikuro – DKK. Abaixo segue o filme completo (cerca de 80 min.) no Vimeo, mas se gostarem considerem adquirir o DVD na Livraria Cultura.

***

Crédito da foto: Divulgação/As Hiper Mulheres

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16.4.13

San Jacinto: mantenham a corda segura

Esta música de um dos mestres do Rock Progressivo, Peter Gabriel, sempre me intrigou... "San Jacinto, eu seguro a corda" [San Jacinto, I hold the line] é o seu refrão. A princípio me parecia uma música religiosa que falava de um santo, e acredito que há muitos que tenham pensado o mesmo. Ocorre que, ao analisar trechos da letra, percebemos que faz algumas menções a termos dos indígenas norte-americanos, e tudo parece mais a descrição de um transe xamânico do que alguma oração para alguma santo (claro, só vim compreender isso muitos anos após ouvi-la pela primeira vez).

Houve muitas interpretações desta letra, a maior parte postulando que se tratava de uma crítica ao extermínio dos índios americanos pelos colonizadores europeus. Mas não: era algo mais inefável, mais profundo... Somente recentemente o próprio autor passou a explicar, em seus shows, a origem da música. Trata-se da história da iniciação xamânica de um descendente indígena que Gabriel um dia conheceu no Arizona. Ele lhe contou que, quando jovem, os xamãs (ou pajés, etc) de sua comunidade o deixaram só no meio do deserto após haver sido picado por uma cascavel. Delirando, teria de encontrar o caminho de volta, e se tornar um xamã, ou morrer tentando... Não sabemos se, caso falhasse, seria ainda salvo por sua tribo - mas fato é que, em falhando, mesmo que sobrevivesse não seria considerado um xamã.

San Jacinto provavelmente não é um santo ou um lugar, mas uma estrada que corta uma região desértica do Arizona. Mas ainda resta o mistério da corda: porque é tão importante "mantê-la segura nas mãos"? Para tal temos de relembrar de tradições do xamanismo ancestral: há muitos mitos antigos que falam de uma "corda" que poderia conectar a Terra ao Céu, e que somente através dela o xamã poderia se guiar por estas estranhas aventuras espirituais. Ocorre que, "segurar a corda" não se refere somente a aventura de um xamã em específico, mas também a necessidade de mantermos esta conexão, esta corda, ativa entre os dois mundos. Segundo estes mesmos mitos, pela ignorância e o "esquecimento de quem realmente somos", a corda pode ser rompida, e o Céu pode estar perdido...

Daí a importância de mantermos a corda segura. Os xamãs, "renascidos da terra", são todos irmãos, e sabem que, de uma forma ou de outra, dia virá que se reencontrarão no Céu. O que os deixa triste é saber de seus outros irmãos que, "seduzidos pelos sonhos do homem branco", ainda poderão permanecer na escuridão do "esquecimento" por muito, muito tempo... Até que uma nova corda seja jogada do Céu:

Nuvem espessa - névoa surgindo - uma pedra assobia no fogo do chalé
Em minha volta - veste de búfalo - antiga sabedoria - correndo pela pele
Lá fora - ar frio - "levante-se, espere pelo sol a nascer"
Tinta vermelha - penas de águia - o chamado do coiote - começou...
Algo se movendo aqui dentro - eu sinto em minha boca e em meu coração
Uma sensação de morte - lenta - vou deixando a vida esvair

O pajé me guiou pela cidade - solo indígena - tão vasto!
Caminhando pela terra - por cada casa - um lago - crianças com asas líquidas - bebericando no gelado
Seguindo o leito seco do rio - observando aos Batedores e Guias fazendo sinais
Após Geronimo's Disco - Sit 'n' Bull Steakhouse [churrascaria] - o sonho de um homem branco
Um chocalho na bolsa daquele ancião - "olhe para o cume da montanha; continue a subir"
Muito acima de nós há um deserto de neve - ventos brancos sussurram

Eu seguro a corda - a corda da força que me impulsiona através do medo
San Jacinto - eu seguro a corda
San Jacinto - a mordida venenosa e a escuridão tomam minha visão - eu mantenho a corda
E as lágrimas escorrem por minha face inchada - penso que estou perdendo a consciência - estou cada vez mais fraco
Mas eu seguro a corda - eu a seguro!
San Jacinto - águias douradas voam baixo vindas do sol - vindas do sol...

Nós andaremos - na terra
Nós inspiraremos - do ar
Nós beberemos - do córrego
Nós iremos viver - mantenham a corda segura

San Jacinto, de Peter Gabriel, traduzido do inglês por Rafael Arrais

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Crédito da imagem: Alexis Vabre

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19.11.12

Conversa Alheia: Estados alterados de consciência, Rituais e Personalidades

Com vocês, mais um episódio do Conversa Alheia, onde alguns blogueiros e livres-pensadores falam sobre o que quer que lhes venha a mente...

Raph Arrais, Dani Roses e Igor Teo chamam Carl Gustav Jung para uma conversa.

Citado no programa:
Invocando os Deuses
Xamãs Ancestrais

***

» Ouça aos demais episódios no canal do Conversa Alheia no YouTube

» Para baixar os vídeos do YouTube, você pode usar o complemento Ant Video Downloader (para Firefox)


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6.9.12

O que Sócrates não disse

Para Cármides, Sócrates diz que se tornou um xamã durante a batalha de Potidéia, quando ainda era um jovem soldado grego [1]. Para a grande maioria dos estudiosos, entretanto, não é crível que Sócrates tenha passado por uma iniciação espiritual em meio à guerra. Tais coisas, supõe-se, não teriam como ocorrer nesse tipo de ambiente. Será mesmo?

No Banquete, Alcibíades relata, talvez, o êxtase socrático de maior duração, 24 horas ininterruptas de transe: Sócrates imóvel, insensível às exigências normais do corpo e a tudo o que ocorre em torno dele, totalmente ausente. Ora, mas Alcibíades era um companheiro de Sócrates na batalha da Potidéia, e tal relato se refere à experiência mística socrática bem no meio da guerra!

Dizem então, os estudiosos, que o xamanismo socrático é nada mais que uma metáfora: Sócrates é capaz de curar a alma pela palavra, assim como os xamãs curam por seus encantamentos. Na verdade, os estudiosos tem razão em dizer que Sócrates curava a alma pela palavra, mas isto não é somente uma metáfora: é a essência da magia. Sócrates era, portanto, um xamã, um feiticeiro, exatamente porque sabia “curar pela palavra”.

Nem tudo que o homem com olhos de touro experienciava em seus êxtases podia, no entanto, ser dito... Conta-nos Alcebíades que, após um dia em transe na Potidéia, Sócrates volta a “realidade normal”, faz uma prece ao sol, e depois age normalmente, como se absolutamente nada tivesse transcorrido. Essa maneira de retomar contato com a realidade ordinária denota o caráter místico da experiência. Mesmo o destinatário da oração, o sol, indica uma relação de Sócrates com a natureza e os elementos que não provém da religião grega clássica [2].

Esta iniciação xamãnica tampouco foi o único êxtase socrático. No caminho para a festa organizada por Agatão no Banquete, Sócrates estava a seguir com outro convidado, Aristodemos, mas durante o caminho “isola-se em seus pensamentos” e fica para trás. Aristodemos chega sozinho a casa de Agatão, que envia um criado para buscar Sócrates. O escravo o encontra de pé, sobre o pórtico da casa vizinha, mas o filósofo não responde aos seus chamados. Aristodemos explica que é inútil insistir: o fenômeno é habitual em Sócrates; isso se apodera dele em qualquer lugar, mas após um tempo ele acaba por retornar. Os outros não esperam por “seu retorno a esta realidade”, e quando Sócrates “chega”, já estão no meio da refeição.

Hoje em dia um sujeito como Sócrates seria taxado de “completamente lunático”, mas em sua época foi conhecido como um dos homens mais sábios de toda Grécia, ou pelo menos entre os seus seguidores e amigos, que como sabemos não foram poucos; e podemos contar dentre eles alguns dos maiores filósofos da história do Ocidente. Porque, afinal, seguiam aos ensinamentos, a “palavra xamãnica”, de um “homem louco?

Pode-se questionar, claro, se o transe socrático se impunha à força, ou se Sócrates tinha como escapar dele. Não temos, é evidente, uma resposta precisa. Talvez Sócrates, sentindo vir o êxtase, não pudesse evitá-lo, talvez considerasse esse estado tão superior às convenções sociais que achava absurdo privar-se dele. Apesar disso, de acordo com os relatos dos livros de Platão, Sócrates não parece ter “o controle da situação”: é arrebatado sem ter desejado nem previsto, por vezes, literalmente, no meio da estrada.

É evidente que gostaríamos de saber o que vivenciava o sábio grego durante esses longos arrebatamentos, que visões lhe poderiam ser oferecidas, que conhecimento tiraria delas. Quando chegou ao banquete, Agatão lhe pediu para que ele tomasse o lugar a seu lado, e lhe contasse sobre “as descobertas” que acabara de fazer. Mas Sócrates esquiva-se, e encerra o incidente com uma ironia: “Basta estar perto de um sábio para participar de sua ciência, e vou pôr-me ao lado de ti, que acabas de obter tal sucesso com [a análise da] tragédia”. Agatão não se engana, sabe que nada mais vai saber acerca do “incidente”.

Em realidade, ninguém ousava insistir nestes questionamentos... Um pudor compreensível diante do inconcebível. Não se fala dessas experiências, pois estão ligadas ao incomunicável, ao que nem a “palavra mágica” de Sócrates era capaz de dar conta. Esse saber, a sophia, não passa de um espírito para o outro, é um conhecimento que não se transmite e do qual Sócrates jamais se refere diretamente.

O encantador ateniense teve a honestidade de não explorar seus êxtases para apresentar-se como detentor de saberes divinos, o que significa que jamais pretendeu transmitir uma revelação ou um conhecimento “superior”. Paradoxalmente, afirmam outros estudiosos, vê-se Sócrates sempre repetir que “nada sabe”.

Mas a verdadeira questão em jogo é: “nada sabe em relação ao que?”. Vemos no pensamento socrático inúmeras referências aos mitos antigos dos reinos das almas [3], embora ele certamente jamais afirme “ter alguma certeza em relação a isso”. Mesmo ao ser condenado a morte, se pergunta “se estaria em situação melhor ou pior do que aqueles que ficariam do lado de cá”. Mas se a morte não fosse nada, no entanto, ele nada teria de se preocupar, afinal... Sócrates, porém, parecia se lembrar, parecia saber de algo que poucos homens na história compreenderam. No relato de sua morte, todos os seus amigos próximos estavam aos prantos, e ele parecia tratar a ocasião como “algo trivial” ou, quem sabe, apenas mais um de seus êxtases a se aproximar – só que este seria mais longo.

Aquele que se julga “normal” não encontra outra alternativa que não julgar Sócrates como “um louco”, da mesma maneira que muitos céticos de hoje em dia julgam as práticas místicas “uma loucura coletiva”. Mas, afinal, o que seria exatamente esta loucura em que as pessoas podem “entrar e sair”, e depois disso seguirem com suas “vidas normais”, sem terem nenhum tipo de incapacidade mental relacionada à prática em si? Sócrates foi um soldado, serviu bem sua pátria, e depois tornou-se um sábio, um filósofo, e encantou aos jovens, e enfeitiçou ao pensamento ocidental, muito embora pudesse muito bem ser julgado, segundo os padrões da “normalidade”, um perfeito lunático!

Não é sua culpa que tenham se usado de seu pensamento para construírem dogmas. Sócrates, afinal, não deixou nada escrito [4], e tampouco afirmou que tinha certezas. Todo o seu pensamento é baseado nas suas próprias dúvidas, sobretudo na maior delas, aquela que se colocava frente a algo em que não quis acreditar por toda a vida: “Que era, realmente, o maior sábio da Grécia” [5]... Passou a vida buscando por alguém efetivamente sábio, mas se viu cada vez mais solitário na empreitada.

Houvesse Sócrates encontrado alguém que tivesse, como ele, subido por breves momentos no alto da caverna, e visto ao sol diretamente, talvez pudesse ter com quem falar acerca do indizível. Talvez não, pois afinal as palavras, estas cascas de sentimento, estas cascas de êxtases pregressos, talvez estas sejam mesmo incapazes de explicar a inconcebível natureza da Natureza. Aquele que acha que sabe, não sabe. Aquele que sabe que não sabe, este começou, finalmente, a saber...


“Medita agora e examina a fundo, gira teu pensamento em todas as direções, recolhido sobre ti mesmo. Depressa, se cais em um impasse, salta para outra ideia de teu espírito; e que o sono doce ao coração esteja ausente de teus olhos”. (Sócrates em As nuvens, de Aristófanes, 700-705)

***

Bibliografia recomendada
Sócrates ou o despertar da consciência, de Jean-joël Duhot (Edições Loyola); Sócrates, o feiticeiro, de Nicolas Grimaldi (Edições Loyola).

[1] Em Cármides, de Platão.

[2] De fato, uma das acusações que levaram a sua pena de morte foi exatamente a de ateísmo: não seguir aos deuses locais, mas “à um outro deus desconhecido”.

[3] Ele também foi iniciado nos chamados Mistérios de Elêusis, embora muito pouco, ou quase nada para ser mais exato, nos tenha chegado acerca do significado oculto, esotérico, destes rituais.

[4] Há uma célebre e profundamente irônica crítica de Sócrates a escrita descrita no Fedro, de Platão.

[5] A pitonisa do Oráculo de Delfos uma vez lhe afirmou isso quando ele perguntou quem seria o homem mais sábio da Grécia. Ora, era ele mesmo!

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Jacques-Louis David, A morte de Sócrates); [ao longo] Google Image Search

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23.5.12

Os corvos de Wotan, parte 4

« continuando da parte 3

Bran estava caindo mais depressa do que nunca. As névoas cinzentas uivavam em seu redor enquanto mergulhava para a terra, embaixo. “O que você está me fazendo?” – [Bran] perguntou ao corvo, choroso. Estou lhe ensinando a voar.
“Não posso voar!”. Está voando agora mesmo. “Estou caindo!”. Todos os voos começam com uma queda, disse o corvo. Olhe para baixo. “Tenho medo...” OLHE PARA BAIXO!
Bran olhou para baixo e sentiu as entranhas se transformarem em água. O chão corria agora em sua direção. O mundo inteiro espalhava-se por baixo dele, uma tapeçaria de brancos, marrons e verdes. Via tudo com tanta clareza que, por um momento, se esqueceu de ter medo. Conseguia ver todo o reino e toda a gente que nele havia.
[...] Agora você sabe, sussurrou o corvo ao pousar em seu ombro. Agora você sabe por que deve viver.

(Trechos das páginas 120 e 121 de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Publicado no Brasil pela Editora Leya).

Dentre as inúmeras e intrincadas histórias contadas por George R. R. Martin em seu épico As crônicas de gelo e fogo [1], a aventura de Bran, o menino aleijado que, não obstante, parece destinado a se tornar um grande xamã, está certamente entre as de maior importância para a trama geral. Ora, a imagem da própria família de Bran, os Stark de Winterfell, já nos remete a elementos nórdicos, mas será que Martin estudou apenas as descrições de experiências xamãnicas, ou ainda neste caso podemos falar em alguma influência do mito de Odin?

Ora, como eu já havia dito, Odin é também um deus de muitos nomes, e muitas facetas. Boa parte das mais de 200 denominações a Odin estão ligadas, pela raiz (no nórdico arcaico), às palavras vada e od, e, no antigo alto alemão, a Watan e Wuot, que significavam a princípio razão, memória ou sabedoria [2]. Há ainda a palavra Óðr (também do nórdico arcaico) que está mais diretamente associada à deusa Freyja (uma deusa dos vanir, que posteriormente foi associada à Odin como sua esposa), mas que também deu origem ao próprio nome “Odin”, e que poderia significar: mente, alma, espírito, além de poesia e inspiração artística.

O nome de Odin que mais nos interessa, no entanto, para esta associação com o corvo de três olhos dos livros de Martin, é o que deriva do nórdico arcaico Hrafnáss, ou do germânico latinizado Hrafnagud, ou seja: The Raven God, O Deus Corvo. Sabemos que Odin está intimamente ligado aos corvos, tanto que possuí dois corvos muitos especiais (dos quais falarei a seguir); além disso, sabemos que um olho em meio à testa, entre nossos dois outros olhos, significa o olho da mente, o olho da alma: o sentido pelo qual o xamã percebe o mundo espiritual... Ora, o primeiro ato de iniciação de Bran [3], nos livros de Martin, é exatamente ser bicado pelo corvo bem no meio dos olhos, e na altura da testa. Logo após o garoto acorda e acha que tudo “não passou de um sonho estranho”, mas no decorrer dos livros sabemos que não foi bem assim, não é mesmo?

Huginn e Muninn
Por causa de seu voo alto, o corvo foi, muitas vezes, visto como um mensageiro dos deuses. Inúmeras histórias, de diferentes partes do mundo, falam-nos de como um corvo orientou humanos em suas jornadas. Por exemplo: segundo uma tradição, foram corvos que orientaram os beócios rumo ao lugar em que deveriam fundar uma nova cidade – a Beócia. Teriam sido eles que, também, guiaram Alexandre o Grande, até o templo de Júpiter Amon, no oásis de Siwa, no Egito (e que, lá, predisseram sua morte). O imperador japonês Jimmu, teria marchado para a guerra, no século VII, guiado por um corvo dourado. Um corvo era o mensageiro do Rei Marres, do Egito... E as histórias assim se seguem.
Mas é exatamente na mitologia nórdica que o corvo está ainda mais diretamente associado à magia. Diz-se que o voo do corvo simboliza a viagem espiritual, através do Grande Mistério, onde ela se torna igualmente desejada e perigosa, pois pode tanto trazer a iluminação quanto a loucura, dependendo do cuidado com que é realizada. Obviamente isso tudo tem a ver, claramente, com o xamanismo.
Odin possui então esses dois corvos, Huginn e Muninn, cujos nomes significam, no nórdico arcaico: pensamento (Huginn) e memória (Muninn, que também pode significar mente). Diz-se que, todos os dias, enquanto Odin cuida de seus afazeres como governante de Asgard, seus corvos sobrevoam todo o mundo e depois retornam, na calada da noite, para se empoleirar em seu ombro e lhe cochichar tudo o que virem e ouviram. Dessa forma, o Granda Xamã conseguia manter-se bem informado de todos os eventos, e todos os segredos do mundo, enquanto governava seu grande reino mítico.
Mas, o que é mais extraordinário nesta história, e o que a liga ainda mais profundamente ao xamanismo antigo, é o medo que Odin tinha de que seus corvos não retornassem de seus voos diários... Há um trecho da Edda Poética que fala exatamente dessa tal característica tão humana do deus nórdico:

Huginn e Muninn voam a cada dia
Sobre os grandes espaços de Midgard [4]
Eu temo por Huginn, que ele não consiga voltar,
Mas fico ainda mais ansioso pelo retorno de Muninn [5]

Me parece que esse é o mesmo medo de todo o xamã iniciante, de todo aquele que mergulha no Grande Mistério da própria alma, e teme se perder de seu corvo guia, e nunca mais encontrar o caminho de volta. Trata-se de uma belíssima metáfora não somente para a própria arte da magia, como para todo o risco que ela envolve... Ainda assim, Odin é o Grande Xamã, não mais habita nosso mundo (Midgard), mas o mundo espiritual (Asgard), e mesmo assim, mesmo do alto de toda sua sabedoria, ele ainda temia perder seus corvos. Mesmo um deus teme perder sua memória, e seu pensamento – sem estes, ele reduz-se a nada, ou quase nada. Um deus louco não é muito mais do que um xamã louco...

***

Através desta nossa curta, porém espiritualmente profunda, viagem pelo mito de apenas um único deus, quantos ecos ocultos de nossa história não parecem ter vido a tona...

Não tenho dúvidas de que, assim como Odin, todo grande deus, todo grande mito, um dia foi homem: um grande e feroz guerreiro, um exímio caçador cuja lança jamais errava o alvo, um xamã ancião que intercedia no mundo espiritual para proteger e guiar sua tribo ou, quem sabe, apenas mais um que contemplou as estrelas, e tornou-se um artista, um poeta. Nossos mitos mais grandiosos provavelmente são as histórias das vidas de grandes homens e mulheres, mescladas com nosso temor e fascinação pelas forças da natureza, e com os aspectos psicológicos – nossas mais belas e profundas reflexões acerca do porque, afinal, estamos aqui neste mundo.

Eis porque nós mesmos também somos da raça dos deuses, e porque todos, deuses e homens, nada mais são do que emanações da Alma do Mundo, do Grande Mistério, do Oceano que somente alguns de nós se arriscaram até hoje em mergulhar, e de lá trouxeram as mais belas e aterrorizantes interpretações daquilo de oculto que sentiram – mas que, claro, seria impossível traduzir em palavras, em linguagem cognoscível.

Interessante como iniciamos este relato de Odin através das histórias em quadrinhos, onde o mito está mais diluído, mas é exatamente um escritor de quadrinhos que nos traz, atualmente, uma das definições mais completas da grande viagem dos corvos: “Magia é arte, a arte. E essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia. A arte é como a magia, a ciência de manipular símbolos para operar mudanças de consciência” – define Alan Moore no genial The Mindscape of Alan Moore.

Toda a arte nasceu da mitologia. A pintura e a gravura nasceram na arte rupestre, pré-histórica, xamãnica. A música também se desenvolveu conjuntamente com os rituais religiosos ancestrais. Mesmo o teatro surgiu na Grécia antiga, quando os cultos ao deus Dionísio acabaram evoluindo para peças teatrais onde os atores, tal qual aos xamãs, vivenciavam aos mitos. Já a poesia, é pura magia posta em palavras... É exatamente por isso que a magia é a arte, a primeira arte, pois foi através dela que nossos ancestrais puderam transportar suas ideias e pensamentos, seus símbolos, para este nosso mundo de carne e osso. E o que é a mitologia senão o arcabouço simbólico de toda a nossa arte?

Sob um ponto de vista, você poderá dizer: “poxa, mas a magia é apenas isso?”; ou poderá dizer, sob outro ponto de vista: “puxa, mas então a magia é tudo isso!”. O seu ponto de vista dependerá tão somente da altura na qual seus corvos conseguem voar...

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Há muito Heimdall não ouvia aquele pio tão familiar... De fato, há muitas eras nada se mexia – animal, homem ou deus – na ponte Bifröst; de modo que seu fogo havia quase se apagado, e suas cores se mesclado num acinzentado triste. “Eram os corvos”, o antigo guardião jamais se confundiria com tais sons, ainda que fosse difícil os escutar com o ouvido decepado, mergulhado na mesma fonte em que seu Senhor havia deixado um de seus olhos.

Soerguendo-se lentamente – algo que não fazia há gerações –, Heimdall tentou soprar seu berrante, mas faltou-lhe ar nos pulmões, e as aves negras adentraram a clausura dos deuses sem serem sequer anunciadas...

Não era necessário. Asgard estava morta, e todos os seus deuses e semideuses dormiam, algo que ansiavam há muito fazer. Há muitas eras nenhum pensamento chegara até ali, nenhuma invocação, nenhum pedido de boa colheita, nem mesmo um agradecimento... O Deus Corvo e sua linhagem estavam esquecidos, como estátuas antigas em meio à paisagem, das quais ninguém mais lembrava para que serviam, ou o que representavam...

Ainda assim, enraizado em seu trono, coberto pelo denso metal de sua ainda reluzente armadura, Odin dormia por detrás de sua extensa barba, branca como a neve do inverno. Quando o primeiro corvo pousou em seu ombro, foi o medo que o fez abrir lentamente o único olho que lhe restava: “Huginn está aqui, ele voltou, finalmente! Mas, onde está o outro, onde está Muninn?”

Seu outro corvo pousou imediatamente no outro ombro, e juntos eles lhe relataram tudo o que viram e ouviram nos últimos séculos, e sobre como o povo de Midgard, apesar de tudo o que foi dito a seu respeito, ainda o respeitava. E como, ainda hoje, alguns deles ainda tocavam as pedras antigas, e ainda invocavam a magia dos corvos... Foi então que, após tantas e tantas eras, o Grande Xamã sorriu uma vez mais, despiu-se de sua couraça metálica e, apanhando a mesma antiga capa com que perambulava pelo mundo ainda antes das civilizações, pôs-se a caminhar uma vez mais. Em sua mente, ecoavam os antigos sons que as pedras faziam...


Sigur Rós – Odin’s Raven Magic (ao vivo em Reykjavík/Islândia, 2002)

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[1] Apesar de ainda incompleta, os livros já publicados da série (5 de prováveis 7, ao todo) já inspiraram uma legião de fãs, e uma excelente série de TV produzida pela HBO, canal a cabo americano. A melhor (e ao mesmo tempo pior) coisa que podemos falar de Martin é que “ele é o novo Tolkien”: melhor, pois realmente se trata de um dos grandes escritores de literatura fantástica das últimas décadas; pior, pois o seu estilo literário quase nada tem a ver com o de Tolkien, sendo bem mais ancorado na história “real” do que na mitologia em si.

[2] Mais tarde tornaram-se equivalentes a tempestuoso ou violento, sentido que os cristãos faziam empenho de acentuar, procurando depreciar a figura do deus nórdico.

[3] Em gaélico antigo a palavra “bran” significa exatamente “corvo”. Há também um gigante gaulês antigo chamado Bran o Abençoado, que em sua mitologia foi o rei de toda a Bretanha, e que também era associado à imagem do corvo. Martin provavelmente também se interessou pela mitologia celta.

[4] Na mitologia nórdica Midgard é a Terra (este mundo), portanto Odin permanecia em Asgard, mas seus corvos sobrevoavam o nosso mundo.

[5] Traduzido da interpretação (em inglês) de Benjamin Thorpe, conforme aparece na Wikipedia.

Este post foi publicado numa quarta-feira...

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Crédito das imagens: [topo] Daaria (Bran e o corvo de três olhos); [ao longo] Google Image Search (Odin e seus corvos)

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