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10.9.19

Do Xamanismo aos Vedas

Neste vídeo analisamos toda a estranheza dos primórdios da civilização indiana, e como o xamanismo migrou da contação de histórias para o registro escrito dos rituais mágicos e religiosos. Ao final também analiso a situação deplorável das comunidades indígenas no nosso país.

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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7.12.16

Avistando tribos, parte 2

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).


« continuando da parte 1

A Águia aterrissou numa rocha mais elevada bem próxima a entrada da gruta, e me olhou fundo nos olhos. Não havia comunicação por palavras, apenas processos de pura intuição – e, afinal de contas, é preciso sempre lembrar que ela mesma era parte de mim.

Não sei exatamente como corre o tempo em tais experiências místicas, é certo que o que se passou jamais caberia nos 10 minutos em que Maiorino permaneceu tocando o seu tambor mágico, mas ainda assim boa parte da jornada já havia sido gasta em encontrar meu animal de poder, então não restava muito tempo, e talvez por isso o que senti a seguir se parecesse mais com um chamamento para um último voo, antes que aquele portal ancestral se fechasse.

Sim, um voo! Não foi como nos filmes do Senhor dos Anéis, devo deixar claro. Não havia ali nenhuma águia gigante em que pudesse pular no cangote. Era o voo da Águia e o meu voo, ao mesmo tempo, como se fôssemos um, ou ao menos como se eu pudesse ver através dela, com a sua peculiar acuidade visual... Assim voamos por extensos territórios, e pude ver que o meu Templo, afinal, parecia ser tão vasto quanto um país inteiro!

Não me entendam mal: muito pouca coisa do que vi era criação minha. Ocorre que, de alguma forma, quando caminhamos muito tempo na via espiritual, cruzamos com outros caminhantes, outras doutrinas, outras formas de enxergar este Cosmos. E, se nosso coração é aberto e interessado o suficiente nessa exploração toda, é claro que ganhamos algo em troca, ganhamos um mundo inteiro por ser explorado, lá dentro (ou lá fora, no próprio Plano Astral? a verdade é que não importa, o que importa é o que foi visto).

Nas extensas matas abaixo a Águia avistou muitas e muitas tribos, tribos que viviam em montanhas, próximas aos rios, em planícies de caça, e na profundeza das florestas. Nada disso era novidade para mim, tudo isso era apenas a própria jornada de nossos ancestrais por este vasto mundo ao qual chamamos Terra, ou Gaia.

Talvez seja mais fácil explicar com um breve relato de um outro dia, quando pude conversar com um caboclo, ou espírito de indígena, incorporado num médium num centro espírita ecumênico. Vocês já devem saber que os meus questionamentos nesses casos passam longe do trivial, “como vai meu emprego?” ou “será que minha mulher está me traindo?” etc., eu prefiro perguntar coisas que realmente me interessam, e naquele dia eu perguntei:

Vocês que foram perseguidos e exterminados por nossos ancestrais, que chegaram de barcos vindos de outras terras, porque continuam voltando aqui para nos ajudar?

E o caboclo, com o sorriso mais triste do mundo, me respondeu assim:

Meu filho, todos nós somos da mesma Tribo, nós voltamos para ajudá-los a relembrar. A doença da tribo daqui é esse grande esquecimento!

E quando se carrega esse entendimento, essa compreensão, marcada a ferro e a fogo na própria alma, não é difícil avistar tribos no horizonte de si mesmo. Desde que saímos da África, nós, os homo sapiens, temos montado muitos acampamentos e muitas fogueiras pelo mundo todo. O próprio termo xamã tem origem nos povos indígenas da Sibéria, e significa “aquele que enxerga no escuro”. Talvez as fogueiras tenham auxiliado nisso.

Em meu voo, foi chegando à tardinha, e as fogueiras começaram a ser acesas. Que espetáculo belíssimo! O tipo de cena que compensa todas as dificuldades e percalços neste caminho espiritual, e todo o sangue que foi deixado nos espinhos...

Mas então, naquele prédio em plena Avenida Paulista (lembram dele?), o toque do tambor começava a variar seu ritmo, era o momento de se preparar para voltar ao mundo do grande esquecimento.

A Águia pousou no topo de uma montanha, e um pouco antes de retornar, por um brevíssimo instante, eu pude me ver ali, metamorfoseado, meio homem, meio águia. Um homem com cabeça de águia. Nada que já não tenhamos visto na arte mais antiga do mundo...

***

“Sim, mas e de que adianta tudo isso?”, você pode me perguntar... A ideia, é claro, não é encerrar essa jornada após haver encontrado nosso animal de poder. De fato, este encontro é somente o seu início!

Uma das coisas que o Maiorino disse na sua palestra, antes da prática com o tambor, e que achei muito interessante, é que deveríamos iniciar o estudo de nosso animal de poder pelo seu comportamento na Natureza. Ou seja, nada de livros de simbologia ou mitologia, o estudo deveria começar pelos livros de biologia.

Como veterinário (dentre muitas outras especialidades), Maiorino sabia exatamente do que estava falando: é claro que a simbologia também importa, mas é o comportamento do animal em si que poderá nos dar mais pistas sobre nós mesmos, afinal a prática do xamanismo é indissociável da Natureza, como já foi dito.

Assim, por exemplo, posso me reconhecer de cara em duas características muito conhecidas das águias: caçar de forma solitária ou em pares; planar por longos períodos nas correntes de vento do alto, observando tudo o que se passa lá embaixo, para atacar com precisão qualquer presa desavisada.

Ora, não é isso o que tenho feito por tantos anos em meu blog? Planado pelas doutrinas, pelas filosofias, pelas religiões e teorias científicas, na maior parte do tempo só, às vezes com a ajuda de poucos amigos interessados, para de vez em quando descer e apanhar com minhas garras um ou outro pensamento, uma ou outra ideia, uma ou outra reflexão, que achei que dariam uma refeição apetitosa?

Voltando ao O Espírito do Xamã, Mike Williams também conta uma história que tem a ver com águias: “Os xamãs buryat do lago Baical, no sul da Sibéria, receberam seu poder dos deuses, ou tenger. Num esforço para dar fim ao sofrimento na Terra, o deus dos céus, Tengri, enviou uma águia para ensinar o xamanismo às pessoas. Mas elas não entenderam a língua da águia, então a uniram a uma mulher e a esta deram seu poder. Ela se tornou o primeiro xamã dos buryat.”

E assim, desde a primeira xamã até hoje, tudo o que as tribos do Alto têm tentado fazer é ensinar as tribos aqui de baixo a acender as suas próprias fogueiras, e sinalizar:

Ei! Nós estamos aqui! Nós nos lembramos de porque estamos aqui!


***

Nota: Encontrei um trechinho em vídeo da palestra do Fernando Maiorino, que entrou ao vivo no Facebook do pessoal da página Conhecimentos da Humanidade.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Susan Seddon Boulet (Shadow Play)

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8.1.15

As Hiper Mulheres

Ganhador dos prêmios Especial do Juri e de Melhor Montagem no Festival de Gramado, As Hiper Mulheres (2011) intercala linguagem documental e ficção para abordar um ritual raro realizado pelas mulheres da aldeia Kuikuro, localizado no Alto Xingu (MT). Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamuikumalu, um ritual feminino para que ela cante ainda uma última vez. O ritual consiste, entre outras coisas, em invadir as cabanas dos homens durante a noite e "forçá-los a praticar sexo", provocando os homens da aldeia no que em realidade não passa de uma grande brincadeira (até mesmo porque está sendo filmado).

Infelizmente há muitos que se interessam por este filme pelos motivos errados. Se buscam ver índias e índios nus, ok, vão ver. Mas se buscam por alguma espécie de pornografia ou mesmo erotismo, podem ter certeza de que vão se decepcionar... No entanto, para aqueles que buscam ver os indígenas vivendo suas vidas de forma natural (apesar de se tratar também de uma ficção; aliás, muito bem encenada), este filme pode ser surpreendentemente belo e inspirador!

O filme possuí outro diferencial que aproxima o mensageiro e seu objeto de estudo. A direção é assinada por Carlos Fausto, Leo Sette e Takumã Kuikuro, cineasta e indígena local, com produção do Vídeo nas Aldeias, da Associação Indígena dos Kuikuro do Alto Xingu e do Documenta Kuikuro – DKK. Abaixo segue o filme completo (cerca de 80 min.) no Vimeo, mas se gostarem considerem adquirir o DVD na Livraria Cultura.

***

Crédito da foto: Divulgação/As Hiper Mulheres

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29.12.14

Um elogio a reflexão

É sempre muito proveitoso ler boa filosofia, a despeito das inúmeras lendas acerca de sua complexidade e aparente inutilidade prática. Ademais, nunca é tarde para começar a pensar sobre si, a se aventurar nos reinos da própria alma, a se conhecer. Ou, como bem resumiu Epicuro:

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz.

Obviamente há que se ter em mente para que serve propriamente a filosofia. Em minha adolescência ela não foi ensinada no colégio, e portanto não servia para passar nas provas e tampouco no vestibular. Da mesma forma, o fato de alguém haver estudado filosofia não parece ser uma das prioridades das empresas na hora de analisar um currículo. Nesse sentido, é melhor aprender a programar, gerenciar ou até mesmo cozinhar. De fato, a filosofia não serve para passar em provas nem para se ter um bom salário.

No entanto, ela serve para se ter uma boa vida, uma vida com muito mais felicidades do que angústias, o que é fruto direto do contato e conhecimento de nossa própria alma. Não se deveria estudar filosofia somente para ter assuntos para conversar com este ou aquele intelectual de linguagem rebuscada, melhor seria evitar amizades deste tipo. A verdadeira filosofia não cria barreiras de linguagem entre as pessoas, todo verdadeiro filósofo é um apreciador da alma humana, pois é somente de lá que advém a sabedoria.

O Chefe Seattle, por exemplo, não sabia nada de física ou química, nem nunca leu nenhum clássico da literatura alemã ou russa. Mas todo filósofo saberá apreciar o seu quinhão de sabedoria, pois reconhecerá nela um pouco da água que flui da mesma fonte, na essência das almas, de todas as almas:

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

E foi necessário bem mais de um século para que o restante da humanidade se desse conta destas verdades. Ora, Epicuro e o Chefe Seattle nunca ouviram falar um do outro, mas certamente dariam excelentes amigos, pois ambos conheciam suas próprias almas de uma forma bem mais profunda do que a maioria de nós. A sabedoria, nesse sentido, é um dos nossos maiores tesouros, bem mais valiosa do que terras, petróleo, ou um cargo na diretoria de uma multinacional.

Amar a sabedoria, ser um filósofo, nesse sentido, é antes se preocupar em ser do que em ter. Antes se preocupar com as coisas naturais do que com as coisas superficiais. Mas no que exatamente a mera leitura dos clássicos poderá nos auxiliar? Em quase nada, se nos mantivermos apenas na leitura dos manuais de natação, sempre nos resguardando do mergulho. Por que deixar para amanhã a aventura que pode se iniciar neste momento?

Uma das máximas do estoicismo, por exemplo, é uma frase supreendentemente simples: “Preocupe-se apenas com aquilo que pode mudar”. Mas qual a utilidade em se ler e decorar tal máxima, quem sabe para passar nalguma prova estranha, ou talvez para recitá-la em meio a uma reunião de negócios, querendo passar a ideia de que é um intelectual?

Pois é, de nada adianta haver lido Epicteto ou Sêneca se você nunca exercitou esse amor a sabedoria, esse olhar para si, enfim, a reflexão. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que poderemos nos desligar um pouco das crises nos noticiários, e tratar de resolver as crises de nossa própria existência. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que podemos, quem sabe, sair de casa para dirigir nosso carro numa metrópole engarrafada tendo em mente que o trânsito estará lá, como sempre esteve, e não é xingando o motorista ao lado ou algum deus da fortuna que iremos chegar mais rapidamente ao nosso destino.

O nosso destino, afinal, sempre foi nossa própria alma. Viaje até a Índia, visite um vulcão na Islândia ou um cassino em Las Vegas, e não terá dado sequer um passo para além de sua alma, de sua essência. Há todo um mundo por lá – de fato, o único mundo que há.

E somos bombardeados constantemente por informações, anúncios, equações de lucros e perdas, número de mortos e feridos, placares de partidas e resultados de provas, e nada disso existe por si só, ou tem significado por si só: somos nós, em nós mesmos, quem interpretamos o mundo. Por que, então, se abster de mergulhar, por que viver a margem de nossa própria alma?

Seja na filosofia, na ciência, na religião ou até mesmo na poesia, a primeira coisa que o mergulhador aprende é que os manuais só nos servem para dar a coragem do primeiro mergulho, dos primeiros cem metros na trilha da floresta íntima, pois que o restante da aventura caberá somente a nós.

Neste caminho, entretanto, não temos somente a ajuda do relato daqueles que caminharam há séculos ou milênios atrás por essas mesmas trilhas, temos também a possibilidade de sermos auxiliados pelos que caminham ao mesmo tempo que nós. E a única coisa que eles lhe pedirão é que ajudem também aos que vêm atrás.

E é assim, é somente assim, de mãos dadas nesta jornada, que poderemos um dia alcançar a eternidade. Esta região onde residem todas as utopias e todas as promessas de um novo amanhã, de onde cintila a luz que não gera nem é gerada, e que existe e sempre existiu para ser refletida – um pensamento de cada vez.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Epicuro)

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19.4.13

Um encontro amazônico

Texto de Ana Aranha para o blog Reportagem 3x4, os comentários ao final são meus:

Os seis trabalhadores da construção civil estavam perdidos em meio à floresta amazônica, no norte de Rondônia. Algumas horas antes, eles tinham corrido mato a dentro para fugir do caos que tomara o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Jirau, onde a Polícia Militar reprimia o movimento grevista, em 2011. Depois de andar cerca de seis quilômetros, o grupo tentava encontrar o caminho de volta à obra, ou a estrada, ou qualquer sinal de urbanidade. Sem sucesso.

Ao invés disso, foram encontrados.

Sem perceber que estavam sendo cercados, os trabalhadores uniformizados se viram rodeados por oito índios nus. Eles tinham o rosto e corpo pintados, flechas em punho e “murmuravam" palavras em uma língua que os trabalhadores não conheciam. Mas logo interpretaram o sentido: estavam rendidos.

Hoje, excepcionalmente, esse espaço não será dedicado a um retrato, mas a um encontro. Encontro que pode servir de pista para compor o retrato dos povos indígenas que habitam o nosso país e os quais temos tanta dificuldade de entender.

Assustados, os trabalhadores da usina se comportaram como prisioneiros dos índios. Seguiram seus passos e pararam quando eles sinalizaram. O coração disparava a cada vez que os índios se reuniam em círculo. Observaram a construção de uma espécie de churrasqueira com gravetos, onde um porco do mato foi assado. Disfarçando o mal estar, comeram cada pedaço de carne que lhes foi oferecido. À noite, um dos trabalhadores foi repreendido pelos colegas por espiar os seios da índia mais nova, a regra era olhar para o chão.

A madrugada avançou, alguns índios deitaram e adormeceram. Os trabalhadores ficaram alertas. Pela manhã, caminharam até chegar a um local onde se ouvia um barulho familiar. Os índios sinalizaram em direção ao som, disseram algumas frases que ninguém entendeu e foram embora. Os trabalhadores correram na direção indicada até que, exaustos, chegaram à rodovia federal BR 364.

Esse relato foi registrado pela historiadora Ivaneide Bandeira Cardozo, da ONG indigenista Kanindé, que entrevistou um dos trabalhadores na presença de um funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio). Ela acredita que os homens e mulheres descritos sejam parte de um grupo que a entidade e a Funai tentam rastrear há anos. “Pela descrição, parecem ser Kawahiba isolados”.

“Isolados” são os índios que não têm contato com a nossa sociedade, ou porque nunca cruzaram com um não-índio (casos cada vez mais raros) ou porque recusam o contato.

Na região que foi alagada pela usina de Jirau, havia rastros de um grupo isolado e nômade. A empresa repassou dinheiro para que a Funai mapeasse esses rastros. Depois de identificados, eles deveriam ganhar uma área de proteção. Mas o investimento não foi suficiente para encontrar ou proteger os índios.

Ao contrário, foram eles que encontraram e salvaram os funcionários da usina. “É difícil entender o que passou na cabeça dos índios quando viram os trabalhadores perdidos”, reflete Ivaneide. “Por que decidiram ajudar? Nunca vamos saber”.

O encontro ocorrido em 2011 é o reflexo oposto do desencontro que se deu na Câmara dos Deputados essa semana. Na terça dia 16, em uma cena inédita, os deputados federais correram pelo plenário como uma manada assustada. Fugiam de homens seminus, pintados de urucum e que balançavam seus chocalhos para protestar contra a mudança da lei que define como as terras indígenas são demarcadas.

Se o comportamento dos índios isolados e dos deputados deixa alguma pista, é que continuamos longe de entender os povos que habitam a nossa terra.

Quando retornaram à usina, os trabalhadores contaram sobre o encontro, mas o supervisor deu risada, chamando-os de mentirosos. Como se fosse impossível haver índios nas proximidades da obra, cravada no meio da floresta amazônica.

Para Ivaneide, a precisão dos detalhes é a maior evidência da veracidade da história. “Os trabalhadores eram de outros estados, uma pessoa sem convivência com indígenas não poderia saber tanto. Ele descreveu a pintura no peito, os traços no rosto dos homens, diferente das mulheres, a pena do gavião real, como tratavam a ponta das flechas. Até os detalhes de como montaram o moquém, que é onde assam a carne”. Segundo ela, o relato bate com hábitos comuns a etnias que vivem ou viveram na região, algumas consideradas extintas.

Existem 82 pistas de grupos indígenas isolados no Brasil, é a maior concentração de povos isolados do mundo. Em março desse ano, os funcionários da Funai fizeram uma carta aberta com um “pedido de socorro”. Nela, escrevem que não há equipe para proteger esses grupos, cujos territórios estão sendo invadidos pelas grandes obras, madeireiros e traficantes.

Como lidar com índios isolados é um dos temas mais complexos dentro da política indigenista. Talvez a pequena mensagem deixada pelo grupo que resgatou os trabalhadores e pelos que invadiram o congresso seja justamente sobre os nossos limites. Os índios tem um modo diferente de ser, nem sempre seremos capazes de entende-los. Talvez esses encontros sejam os momentos para refletir sobre os impactos das nossas escolhas. E fazer um esforço para, a partir dessa nova realidade, respeitar as escolhas deles.

***

Comentário
Quando publiquei esta imagem emblemática em nossa página no Facebook, provavelmente a primeira coisa que todos imaginaram é que estava fazendo uma crítica ao chamado "ativismo de redes sociais", que muitas vezes faz muito barulho, mas não provoca nenhuma ação concreta. Ora, e isto ocorre mesmo, mas desde que o ativismo esteja restrito a zona virtual...

O outro sentido da frase, "os índios não tem Facebook", é o de conclamar todos os ativistas do Facebook a divulgar a causa indígena (eles não tem Facebook, e nós temos). Ao contrário de muitos outros ativismos virtuais, este sempre foi real - o Facebook serve somente como meio de divulgação para a luta indígena. Os índios ficaram com o trabalho mais difícil, e estão fazendo sua parte (até mesmo porque, no caso deles, a outra opção é a extinção completa do que resta de sua cultura e território)... Que tal fazer a nossa também?

Sim, nós ficamos com a parte mais fácil, a de clicar em "compartilhar". Mas há várias outras formas de se compartilhar esta ideia. Porém, ainda que tudo o que faça é clicar num botão virtual, ainda isto é melhor do que não fazer nada.


Você pode clicar na imagem acima para abri-la no Facebook e compartilhar, ou pode simplesmente escrever seu próprio texto de apoio a essa causa. O importante é mantermos o pensamento em movimento. Não é impossível mudar esta situação, os índios no Plenário estão apenas nos relembrando disso.


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16.4.13

San Jacinto: mantenham a corda segura

Esta música de um dos mestres do Rock Progressivo, Peter Gabriel, sempre me intrigou... "San Jacinto, eu seguro a corda" [San Jacinto, I hold the line] é o seu refrão. A princípio me parecia uma música religiosa que falava de um santo, e acredito que há muitos que tenham pensado o mesmo. Ocorre que, ao analisar trechos da letra, percebemos que faz algumas menções a termos dos indígenas norte-americanos, e tudo parece mais a descrição de um transe xamânico do que alguma oração para alguma santo (claro, só vim compreender isso muitos anos após ouvi-la pela primeira vez).

Houve muitas interpretações desta letra, a maior parte postulando que se tratava de uma crítica ao extermínio dos índios americanos pelos colonizadores europeus. Mas não: era algo mais inefável, mais profundo... Somente recentemente o próprio autor passou a explicar, em seus shows, a origem da música. Trata-se da história da iniciação xamânica de um descendente indígena que Gabriel um dia conheceu no Arizona. Ele lhe contou que, quando jovem, os xamãs (ou pajés, etc) de sua comunidade o deixaram só no meio do deserto após haver sido picado por uma cascavel. Delirando, teria de encontrar o caminho de volta, e se tornar um xamã, ou morrer tentando... Não sabemos se, caso falhasse, seria ainda salvo por sua tribo - mas fato é que, em falhando, mesmo que sobrevivesse não seria considerado um xamã.

San Jacinto provavelmente não é um santo ou um lugar, mas uma estrada que corta uma região desértica do Arizona. Mas ainda resta o mistério da corda: porque é tão importante "mantê-la segura nas mãos"? Para tal temos de relembrar de tradições do xamanismo ancestral: há muitos mitos antigos que falam de uma "corda" que poderia conectar a Terra ao Céu, e que somente através dela o xamã poderia se guiar por estas estranhas aventuras espirituais. Ocorre que, "segurar a corda" não se refere somente a aventura de um xamã em específico, mas também a necessidade de mantermos esta conexão, esta corda, ativa entre os dois mundos. Segundo estes mesmos mitos, pela ignorância e o "esquecimento de quem realmente somos", a corda pode ser rompida, e o Céu pode estar perdido...

Daí a importância de mantermos a corda segura. Os xamãs, "renascidos da terra", são todos irmãos, e sabem que, de uma forma ou de outra, dia virá que se reencontrarão no Céu. O que os deixa triste é saber de seus outros irmãos que, "seduzidos pelos sonhos do homem branco", ainda poderão permanecer na escuridão do "esquecimento" por muito, muito tempo... Até que uma nova corda seja jogada do Céu:

Nuvem espessa - névoa surgindo - uma pedra assobia no fogo do chalé
Em minha volta - veste de búfalo - antiga sabedoria - correndo pela pele
Lá fora - ar frio - "levante-se, espere pelo sol a nascer"
Tinta vermelha - penas de águia - o chamado do coiote - começou...
Algo se movendo aqui dentro - eu sinto em minha boca e em meu coração
Uma sensação de morte - lenta - vou deixando a vida esvair

O pajé me guiou pela cidade - solo indígena - tão vasto!
Caminhando pela terra - por cada casa - um lago - crianças com asas líquidas - bebericando no gelado
Seguindo o leito seco do rio - observando aos Batedores e Guias fazendo sinais
Após Geronimo's Disco - Sit 'n' Bull Steakhouse [churrascaria] - o sonho de um homem branco
Um chocalho na bolsa daquele ancião - "olhe para o cume da montanha; continue a subir"
Muito acima de nós há um deserto de neve - ventos brancos sussurram

Eu seguro a corda - a corda da força que me impulsiona através do medo
San Jacinto - eu seguro a corda
San Jacinto - a mordida venenosa e a escuridão tomam minha visão - eu mantenho a corda
E as lágrimas escorrem por minha face inchada - penso que estou perdendo a consciência - estou cada vez mais fraco
Mas eu seguro a corda - eu a seguro!
San Jacinto - águias douradas voam baixo vindas do sol - vindas do sol...

Nós andaremos - na terra
Nós inspiraremos - do ar
Nós beberemos - do córrego
Nós iremos viver - mantenham a corda segura

San Jacinto, de Peter Gabriel, traduzido do inglês por Rafael Arrais

***

Crédito da imagem: Alexis Vabre

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2.2.13

Citações (11)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


Neste mundo há espaço, e há tempo, tanto para que o mais sábio dos mestres evolua, quanto para o mais ignorante dos discípulos. Quando a sabedoria chega, enfim, não há mais discípulos na ignorância. E, de fato, nem mestres... Em cima do Pé de Feijão mágico há um Céu, e em cima do Céu há uma festa onde todos, mestres e discípulos, entrarão de mãos dadas.

Os convites estão chegando...

***

Paganismo: Vem do latim paganus, que significava "camponês", "rústico", "alguém que mora em aldeias". Desde muito cedo, nas primeiras cidades, houveram elites sacerdotais que tentaram ditar qual doutrina religiosa seria dominante, e desde esta época todos aqueles "vindos de fora" eram geralmente considerados inferiores, rústicos, camponeses, seres da periferia - pagãos. Na origem, nenhum pagão chamava a si mesmo de pagão, assim como nenhum gnóstico chamava a si mesmo de gnóstico, mas geralmente de cristão.

***

Igreja: O termo grego ekklesia originalmente se referia a principal assembleia da democracia ateniense, na Grécia antiga. Já a palavra latina, ecclesia, de etimologia muito próxima, originalmente significava “um curral, ou abrigo de ovelhas”. Em sua origem etimológica, portanto, a palavra que hoje chamamos “igreja” não necessariamente tinha cunho religioso algum. Mas é a partir do cristianismo que é feita esta associação de “abrigo de ovelhas” com uma comunidade onde os fiéis são as ovelhas e os eclesiásticos, os pastores. O que os pastores têm prometido, é que mediante a fé (fidelidade a Deus), aquele grupo comunitário alcançará, eventualmente, a salvação. Daí a ideia, para muitos de nós equivocada, de que possa existir “uma comunidade dos escolhidos de Deus”, que se salvam, enquanto todos os demais são condenados a arder num lago de enxofre por toda a eternidade.

***

Não há como não haver uma festa celestial para cada um de nós quando, finalmente, alcança o Céu.

Isto é, dentro de nós mesmos...

Joseph Campbell, grande estudioso de mitologia do século passado, uma vez concluiu que "o Éden não foi nem será, o Éden é".

É assim que vejo este mito universal... Primeiro foi preciso que comecemos o fruto do conhecimento do bem e do mal, que fossemos expulsos do estágio animal e ignorante, para então retornar aquele estágio de pureza, só que desta vez conscientemente... Não por intervenção divina, mas por mérito próprio.

Eu sei que nem todos creem nisso, mas para mim é uma crença libertadora.

A existência pode ser uma festa. O Éden pode ser aqui e agora; e, as vezes, até mesmo eu consigo dançar no ritmo de sua música...

***

É muito difícil que as pessoas entendam que um milagre (conforme a maioria das pessoas compreende um milagre, pelo menos) seria uma injustiça de Deus para com os seres que vivem em igualdade dentro das leis naturais. Interceder por um ou outro em detrimento dos demais é injusto.

Mas isso não significa que a oração seja inútil, imagino. Penso que a oração serve para que o próprio ser que ora solidifique sua fé, e doe de si mesmo para o outro ser pelo qual está orando. Não que nossa própria energia seja maior que a de Deus, mas as vezes as pessoas "se fecham" para a energia que preenche todo o Cosmos, e orando por alguém, quem sabe não a ajudemos a "se abrir".

Acho que a maior oração que podemos fazer por alguém é amar alguém. E, neste caso, nenhuma palavra (decorada ou não) sequer precisa ser dita para que nossa oração de amor funcione...

***

Seria a "escalada do crime" um efeito da "escalada do ateísmo"? Tem gente que gosta de dizer isso a tarde na TV aberta...

Mas, vamos refletir um pouco:
Se os cristãos dizem que os ateus são uma grande minoria, significa que a maioria dos criminosos é cristã. Ora, na verdade, o que faz um criminoso não é sua orientação religiosa ou não religiosa, mas sua moral. Se todo cristão fosse automaticamente um ser de "elevada moral", o paraíso já haveria chegado há tempos.

Eu, que também me considero cristão, não acredito que isto seja a garantia para que eu seja uma pessoa boa. Eu serei uma pessoa boa se for, enfim, uma pessoa boa.

***

Chico dizia que "o telefone só toca de lá para cá". E há muitos espiritualistas que condenam a possibilidade de "ligarmos de cá para lá". Só que Kardec, por exemplo, cansou de fazer ligações assim. Chico decerto teve suas razões para dizer o que disse. Lembrem da quantidade de gente que ia visitá-lo somente pelas mensagens que chegavam, imaginem se ainda se achassem no direito de pedir ao Chico para "ligar para os parentes do lado de lá". Ou seja, há que se analisar o contexto em que Chico se manifestou. Mas, sobretudo, há que se tomar cuidado com a conta das ligações que pretendemos fazer.

(escrito com o auxílio de uma arara)

***

"Não digo: eu descobri essa terra porquê meus olhos caíram sobre ela, portanto a possuo. Ela existe desde sempre, antes de mim." 
(Davi Yanomami ; pajé e líder do povo Yanomami)

"Para nós indígenas, a palavra é de grande valor. É através das histórias contadas pelos mais velhos que mantemos viva a nossa identidade e firme a memória da nossa história, o uso e o cuidado com a nossa terra sagrada. Mas, descobrimos nesses 500 anos de colonização que para os não-índios a palavra não vale nada." 
(Carta do Ororubá; IV Assembléia Geral do povo Xukuru do Ororubá)

"Eu não fico deitado sem pensar." 
(Rupawê; velho sábio do povo Xavante, do Mato Grosso)

***

Fábio de Melo, católico, dá uma lição sobre como "descrer sem desmerecer"...

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Crédito da imagem: Berndnaut Smilde

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19.11.12

Carta a um evangélico

Olá Sr. Evangélico, aqui quem fala sou eu, o Sr. Espiritualista.

Antes de mais nada, preciso lembrar-lhe de que somos irmãos, ou pelo menos não há nada explícito em nossas doutrinas que afirme o contrário...

Vejamos, então, a questão da espiritualidade africana. Tenho visto o senhor dizer que os orixás são demônios e que toda macumba é necessariamente coisa do Capeta... No entanto, é preciso que saiba: para o pessoal lá dos terreiros, macumba é só um instrumento musical, tipo reco-reco, sabe como é? Nem tem tanta importância assim, o som dos tambores é bem mais importante no ritual deles; E, já que falamos nos rituais, são coisas bem antigas, bem antigas mesmo! Muito antes dos termos “demônio” e “Capeta” terem sido inventados, já se faziam rituais para os orixás na África. Se ler um pouco de ciência e antropologia, saberá o que os cientistas já dão por quase certo: que viemos todos da África, o homo sapiens surgiu em algum ponto entre a parte sul e central do continente mãe.

O próprio deus bíblico deve muito ao deus que era cultuado na Mesopotâmia por povos que já eram bisnetos milenares dos primeiros africanos que batiam tambores em homenagem a Natureza. Sem El, Javé não seria muito mais do que o espírito ancestral de alguma tribo de hebreus perambulando por Canaã. Javé foi cultuado como um patriarca de homens, El foi compreendido como um deus cósmico, criador de tudo o que há [1]... Mais ou menos como Olorun, que criou o mundo, mas está tão acima de nosso plano de existência que não há nenhum xamã africano que tenha tido coragem de tratar diretamente com ele [2].

Foi muita engenhosidade dos hebreus esta que associou Javé a El, e com isso criou a ideia de um deus cósmico que, não obstante, poderia ser contatado como qualquer outro grande patriarca. O problema é supor que somente os rabinos podiam contatá-lo... Não foi exatamente por isto que Lutero lutou toda sua vida? Para que as pessoas comuns pudessem ler os textos sagrados e conhecer a Deus por si mesmas, sem a intermediação de Roma? Pois bem, pois os nossos irmãos africanos já falavam com Deus há muito mais tempo que a gente, e nem precisavam de livros para isso.

Quer dizer que todo o ritual que evoca orixás é coisa do bem? Claro que não, mas a maioria é. Maçãs podres, temos em qualquer pomar, e tenho certeza de que mesmo o neopentecostalismo tem as suas... Ou o senhor acha que abençoar talismãs com óleo ungido, ou derrubar fileiras inteiras de pessoas ao chão, é algo perfeitamente baseado nas Escrituras?

Tudo bem, vamos ser honestos: o que achamos um barato é essa tal experiência religiosa. Decerto Pentecostes foi uma loucura do Espírito Santo, mas quem garante que foi a primeira? Se até hoje os senhores procuram falar a língua dos anjos, porque encrencar com o caboclo que fala a língua dos espíritos da Natureza? Por mim, anjos e rios, cachoeiras e carruagens de fogo, florestas e sarças ardentes, se foram vistas pelas mentes que creem, se fizeram o bem para elas, que mal há? Onde o senhor vê o Capeta nessa história toda?

Por mim, se existe um ser assim, condenado a ser mal por toda a eternidade, ele não iria atuar sobre os verdadeiramente religiosos, mas antes optar pela via mais simples: tentar aqueles que já não creem, que não se dedicam, que nunca se arriscaram realmente a mergulhar neste Oceano de Amor que permeia todo o espaço e todos os tempos...

Me perdoe, eu tenho certeza que não é o seu caso, mas acaso nunca viu um cristaozão desses que bate no peito dentro da Igreja e diz: “Sou de Cristo!”, mas que começa a falar mal da sogra 5 minutos depois de terminar a oratória do pastor? De que adianta se achar um grande cristão ao chutar imagens de santos e orixás por aí, se ao chegar em casa chuta o seu cachorro e esbofeteia sua esposa? Será que Cristo falou numa espada para matar os infiéis, ou em oferecer a outra face para o agressor?

Os índios das Américas, coitados, também nunca tinham ouvido falar em Cristo. Os colonizadores europeus não deram muitas escolhas para eles: ou se convertiam, ou eram exterminados [3]. Até mesmo muitos que disseram ter se convertido foram exterminados do mesmo jeito, pois não serviam para o trabalho escravo... E o que há de cristão nisso tudo? Nas Cruzadas, o general francês perguntou ao representante do Papa como iriam identificar os cristãos dos não cristãos, na invasão de uma cidade onde cristãos, judeus e cátaros viviam em harmonia; Ele apenas disse isto: “Matem todos, que Deus escolherá os seus”... Ao que lhe pergunto: e quais deles não eram “de Deus”?

Ainda hoje, no Centro-Oeste do Brasil, há tribos indígenas sendo evangelizadas. Evangelizar não é o problema, pois ao menos estão dando a oportunidade para que esses indígenas se tornem parte de alguma outra comunidade que não a sua, e não vivam isolados, como párias, em um país construído sobre a invasão e o extermínio de suas terras ancestrais... O problema, este sim, é proibi-los de pintar o corpo de vermelho. “Vermelho é a cor do Capeta!”, seus colegas dizem... Mas, e o que diabos os índios tem a ver com o Capeta? Na maioria das mitologias indígenas, sequer existe um ser representante do mal, quanto mais um anjo caído... Eles nem sabem o que é um anjo! Se não podem se pintar de vermelho, vão se pintar de branco? Ou de verde? Ou lilás? Convenhamos, isso não faz o menor sentido.

Vamos tentar ser mais seguidores de El, e menos seguidores de Javé. Javé era um espírito ancestral, e precisava de barganhas e favores, e tinha ciúmes dos cultos de espíritos e deuses alheios, como foi o caso com Baal. Mas El não, El não tinha um oposto, pois o Tudo não tem oposto – o Nada não existe.

Dessa forma, se existe um Capeta, seria injustiça da parte de Deus que ele pudesse controlar a mente dos seres puros, corrompendo-os... Acho que faz mais lógica, além de estar mais de acordo com o que vemos na Natureza e na psicologia humana, considerarmos que o mal existe na alma de cada um de nós, e que é somente lá, precisamente lá, que precisamos fazer uso desta espada de que Cristo falou...

Para cortar a trave que obstruí nosso próprio coração. Para que nossa luz de amor transborde, e englobe os irmãos a nossa volta. Para que evangelizemos realmente uma boa nova, uma notícia de uma nova era, de uma nova sociedade, uma nova espiritualidade, uma nova religião... Assim, quem sabe, também poderemos ler, dentro de nossa alma, conectada a Alma do Mundo: “também eu sou da raça dos deuses, também eu trago o Pai dentro de mim, também eu farei tudo aquilo que o Cristo realizou, e talvez até mais”. E nem sequer precisaremos de um livro para guardar tal Verdade.

Cristo salva, afinal, todos aqueles que o encontram dentro de si mesmos... Mas Cristo é apenas uma palavra. O que salva é a fé, e não há fé mais profunda do que a fé no Amor. Pense nisso meu amigo, meu irmão. Pense, e reflita esta boa nova adiante!

***

[1] Maiores detalhes na série A roda dos deuses (esta teoria não é minha, mas de Mircea Eliade, um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX).

[2] Na mitologia Iorubá, talvez a de maior influência no Brasil, Olorun ou Olodumare é o criador do universo e mora no Orun (Céu). Embora reconhecido como Ser Supremo, não existe um culto ou templo que lhe é dedicado exclusivamente. Os orixás são os seus representantes em Aiye (Terra).

[3] Michel de Montaigne dá sua opinião, bem mais embasada do que a minha, nesta série de Reflexões sobre o sexo.

***

Crédito das imagens: [topo] Mark Keathley (Dance of Grace); [ao longo] Stephen Frink/Science Faction/Corbis

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25.3.12

Cantos da floresta

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

No documentário Cantos da floresta (com cerca de 27min.), vemos como o grupo foi atrás dos povos antigos da Amazônia, de sua cultura, sua música, e seu espírito... Vemos como, através da música, séculos de opressão podem ser perdoados, e um novo contato, uma nova visão, podem ser reestabelecidos. No fundo, somos todos iguais, e é através desses espelhos entre nós que a luz do espírito tem sua chance de irradiar-se adiante, uma vez mais:

Veja também outros clássicos do Mawaca, ao vivo:

» Ciranda indiana (Brasil/Índia)

» Cangoma me chamou (África/Brasil)

» Lamidbar (Israel)

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9.3.12

Xamãs ancestrais, parte 2

« continuando da parte 1

Ayahuasca é uma bebida produzida a partir de duas plantas amazônicas: Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis. O nome significa, literalmente, a “Videira dos Mortos”. Os cientistas sabem que a ayahuasca produz visões, principalmente por ser rica em DMT, um alucinógeno de ação extremamente rápida. Entretanto, os xamãs ancestrais têm conhecimento considerável do que ocorre após bebermos a ayahuasca, enquanto os cientistas não, principalmente porque a maioria jamais experimentou.

Um antropólogo em Vênus

O tempo passa sem que eu tenha noção. Fecho meus olhos, e um grande desfile de visões subitamente se inicia... Começo a prestar atenção em uma imagem em particular, ou, mais exatamente, a uma área de meu campo visual interno, onde complexos padrões geométricos entrelaçados provam, numa inspeção mais cuidadosa, ser parte de uma grande serpente, aparentemente viva, com sua cabeça e sua cauda afastadas de mim. Posso distinguir as escamas individuais, retangulares, como janelas... Existe um círculo no centro de cada retângulo, círculos púrpura, girando como fogos de artifício, brilhando com a luz escura de um outro mundo onde agora estou... Aqui? Onde é aqui? Por que é um lugar onde vejo cores que não existem na vida cotidiana?

O xamã recomeça a entoar seu ritual. A cantoria inicia em tom mais baixo, mas aumenta, e aumenta... As serpentes são muito grandes, e todo corpo, da cabeça à cauda, é claramente visível para mim. Agora as cores castanho e amarelo predominam. Lendo sobre o assunto, antes de vir a Amazônia, aprendi que pessoas em regiões e culturas diversas, de todo o mundo, encontram serpentes na jornada da ayahuasca... Elas agora formam padrões de rodas e espirais entrelaçados, se fundem e depois se dividem em duplas individuais serpenteando em volta uma da outra, como a dupla hélice do DNA... A náusea chega com força e estou agora vomitando na escuridão...

Saio do círculo ritual e volto após vomitar, agora minha cabeça está aliviada. Então, de repente, dois seres completamente feitos de luz branca surgem a minha frente. São pequeninos – cerca de 1,20m de altura –, mas estou ciente apenas da parte superior de seus corpos, não vejo os pés. Sua faces têm mais ou menos o formato de um coração, com grandes testas e queixos estreitos e pontudos. Narinas e bocas, se é que as tem, são apenas fendas em suas feições suaves. Seus olhos são completamente negros e aparentemente sem pupilas... Eles parecem querer se comunicar. A tentativa de comunicação, que me parece telepática, não está funcionando por alguma razão. Sinto ansiedade e... frustração da parte deles. A náusea retorna, os seres de luz se vão, eu volto a vomitar na escuridão...

Os três últimos parágrafos são trechos (selecionados por mim) dos depoimentos de Graham Hancock [1], pesquisador e escritor britânico que resolveu participar dos rituais xamânicos de povos indígenas da Amazônia e de regiões da África. Em seu monumental Sobrenatural, Hancock parte da análise dos signos e símbolos pictóricos da arte rupestre para fazer uma associação fortuita desse tipo de imagem com as visões “psicodélicas” usualmente experimentadas em tais rituais, pelo menos por aqueles que efetivamente experimentam a ayahuasca, a iboga, e outras bebidas rituais que “trazem visões do outro mundo”. Esta associação não foi ideia original sua, mas sim de David Lewis-Williams, um professor, antropólogo e pesquisador de arqueologia cognitiva sul africano.

Segundo o modelo neuropsicológico de Lewis-Williams, a real origem da arte rupestre e, por conseguinte, da religião primal dos povos da pré-história, poderia ser mais profundamente explicada e compreendida se levarmos em consideração que o que estava sendo ali representado eram visões provenientes de estados de transe e consciência alterada, originários de experiências rituais extremadas (como danças até a exaustão e/ou a repetição de ritmos musicais durante horas e horas de ritual) e, principalmente, da ingestão de bebidas e substâncias naturais alucinógenas. Esta era, segundo sua teoria, a maneira mais simples e lógica de justificar o porquê da arte rupestre ter características tão enigmáticas, não encontradas na natureza, mas que estão representadas tanto em cavernas europeias quanto em inúmeras regiões africanas, distantes milhares de quilômetros, e milhares de anos na história, umas das outras.

Diferentemente das outras teorias propostas pelos antropólogos em quase um século, esta está baseada em evidências bastante sólidas... Que por muito pouco não se perderam para sempre.

Até 1927, ano em que foi dada a última permissão oficial para se caçar bosquímanos, era legal para os brancos da África do Sul assassinar os san, cujas partes dos corpos eram exibidas orgulhosamente como troféus pelos matadores... Não, os bosquímanos, os san, não eram animais, eram seres humanos, como nós. Na realidade, faziam parte de uma das culturas mais ancestrais e persistentes de nossa história, e até meados do final do séc. XIX, ainda praticavam a arte rupestre. Os san eram, portanto, os continuadores de um estilo de arte que perdurou por dezenas de milhares de anos, até que fossem praticamente extintos pelos “grandes colonizadores racionais”. Poderíamos saber, afinal, se a teoria de Lewis-Williams faz mesmo sentido, desde que encontrássemos algum xamã san ainda vivo, e que ainda conhecesse os antigos rituais que originavam as visões representadas na arte rupestre. Alguns xamãs, algum conhecimento, ainda restou, mas o povo san não é mais o mesmo – seu espírito se foi, e com ele, qualquer esperança para que a arte rupestre pudesse continuar sua longa jornada.

Felizmente, alguma evidência restou, mais precisamente cerca de cem cadernos com notas escritas a mão, descrevendo a cultura e os rituais do povo san no final do séc. XIX, quando ainda praticavam sua arte nas pedras e cavernas. As entrevistas foram conduzidas pelo filólogo alemão Wilhelm Bleek e sua cunhada, Lucy Lloyd, dois acadêmicos muito adiante do seu tempo, que anteciparam com muita clareza a aniquilação que então pairava sobre o povo e a cultura san. O conteúdo de seu estudo permaneceu oculto da Academia até a década de 1930, quando um jornal sul africano fez uma breve referência aos cadernos. Apenas em meados das décadas de 1960 e 1970 os cadernos foram novamente mencionados na mídia especializada, até que Lewis-Williams finalmente colocou seus olhos neles: “mas que estranha experiência, folhear 12 mil páginas de cadernos de notas ancestrais, sobrenaturais” – descreveu o antropólogo acerca do evento.

De posse dos registros de uma cultura ancestral perdida, Lewis-Williams finalmente tinha a evidência que faltava para talvez a única teoria científica sólida jamais postulada acerca da real origem dos signos rupestres. Ainda assim, quando Hancock encontrou pessoalmente com o professor sul africano, não resistiu a lhe indagar:

“Afinal, o senhor já experimentou entrar em transe por meio de danças e batuques ritmados de tambor, ou jejuou por 40 dias até delirar, ou tomou o chá da ayahuasca ou qualquer outra substância natural psicoativa?”

Diante da negação veemente, Hancock perguntou o porquê, e Lewis-Williams deu de ombros:

“Não quero fundir minha cuca e não estou nem um pouco interessado na experiência.”

Vênus, com sua superfície uniforme e seu brilho incomparável no céu noturno, sempre despertou o sonho da humanidade. A estrela vespertina parecia, certamente, um céu prometido, um mundo de luz... Entretanto, hoje sabemos que sua superfície é inóspita e, na realidade, bem mais próxima dos lagos de enxofre do inferno. Assim, também sabemos, ocorre com as drogas: num primeiro momento são estupendas, maravilhosas, mas depois viciam, e podem nos levar a ruína psíquica... Por tudo o que sabemos acerca delas, não é difícil compreender os motivos que levaram Lewis-Williams a evitar os chás alucinógenos e os estados de transe.

A questão é: os povos antigos sabem muito bem desse perigo, e por isso mesmo jamais se utilizaram de suas plantas sagradas como diversão ou mera busca do prazer. Seus rituais sempre foram controlados, e seus xamãs sempre foram raros, escolhidos a dedo por sabe lá qual entidade... E, exatamente por isso, por terem sido tão poucos e tão especiais, hoje praticamente não existem mais.

Os xamãs ancestrais já se foram há muito, e nem mesmo entre os san restou algum. O espírito de um povo desaparece, e o deixa perdido, atordoado, procurando o suicídio, há menos que tal espírito retorne para os auxiliar, como a estrela da manhã... Mas não é fugindo de Vênus que vamos vislumbrar qualquer esperança de um dia os compreender melhor. Tal qual a ciência enviou sondas robô a estrela vespertina, e hoje a compreende muito mais do que há séculos atrás, os exploradores da mente não têm outra alternativa que não mergulhar neste outro mundo, repleto de serpentes, padrões geométricos, seres de luz e armadilhas na escuridão...

Mas, para tal, sondas e robôs não nos servem, precisamos realizar a travessia por nós mesmos. Graham Hancock teve a coragem de mergulhar no próprio lago em que empreendeu seu extensivo estudo – ele é o nosso antropólogo em Vênus.

» Na continuação: Quimeras mentais, homens feridos, e o delicioso Vin Mariani...

***

Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[1] Retirados do livro recomendado acima.

***

Crédito das imagens: [topo] Susan Seddon Boulet (mulher xamã dançando em ritual); [ao longo] Pinturas do xamã peruano Pablo Amaringo, que serviu também como “guia” de Hancock nos rituais com ayahuasca.

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23.1.12

Para ser um médium, parte 1

« continuando da introdução

O homem, as gerações humanas, morrem no tempo. Mas o espírito não. O tempo é o campo de batalha e que os vencidos tombam para ressuscitar. Quem poderia deter a evolução do espírito no tempo? (J. Herculano Pires)

O espírito no tempo

Ernesto Bozzano foi um pesquisador e intelectual italiano com grande interesse em antropologia, sociologia, evolução e as origens da mediunidade no palco obscuro da pré-história. Num de seus livros ele inicia suas exposições dizendo que “se consultarmos as obras dos mais eminentes antropólogos e sociólogos, notamos que todos concordam em reconhecer que a crença na sobrevivência do espírito humano se mostra universal”. Na época em que Bozzano publicou seus primeiros livros, no final do século XIX, falar abertamente sobre “espírito” ainda não era tão escandaloso na Academia. Os espiritualistas europeus daquela época, muitos influenciados pelas ideias expostas nos livros de Allan Kardec, eram igualmente grandes entusiastas da teoria de Darwin-Wallace... Mas, enquanto esta se ocupava exclusivamente da evolução física das espécies, alguns espiritualistas – dentre eles o próprio Wallace – se interessavam em tentar elucidar a evolução espiritual, particularmente em como o espírito humano havia evoluído através do tempo.

Se saltarmos diretamente para a época em que os primeiros hominídios surgiram no tempo, podemos nos aproveitar de uma bela, simples e elegante teoria proposta pelo arqueólogo Steven Mithen, conforme exposta em A pré-história da mente: Mithen acreditava que algumas potencialidades da mente eram suficientemente conectadas entre si para que pudessem ser agrupadas conceitualmente em módulos mentais... A inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais os hominídios evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc.; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que nossos ancestrais reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Mithen acreditava que o que nos separava definitivamente dos outros hominídios de inteligência primitiva era a interseção entre tais módulos mentais, que parece ter ocorrido de forma mais abrangente no homo sapiens. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

A teoria de Mithen não têm absolutamente nada de espiritualista, como podemos ver, mas a sorte de sermos espiritualistas é que não precisamos ignorar as teorias daqueles que não creem em espíritos. Se alguns sentem-se escandalizados com a possibilidade do espírito ter surgido antes do homem, e ser formado por matéria fluida, parte dos 96% da matéria cósmica que não interage com a luz, e que vêm habitando corpos das mais variadas espécies, desde organismos unicelulares até os hominídios e animais com cérebro adequado para comportar um espírito em processo de individualização consciente, numa odisseia multimilenar que caminha lado a lado com a evolução descrita por Darwin e Wallace, deixem estar: lembremos que boa parte de nossa compreensão espiritual se baseia em experiências subjetivas, e que a matéria fluida, espiritual, ainda não foi detectada em laboratório.

Ainda assim, nos anais da pré-história humana, e das primeiras tribos e civilizações, permanece a dúvida objetiva: como podem tantas comunidades isoladas terem chegado a crenças tão parecidas? Em realidade, as crenças nem são tão próximas quanto às atividades místicas em si: a mediunidade, esta sim, conecta de forma definitiva todos os povos primitivos da Terra, sem exceção.

Define-se religião primal como um “sistema de crenças anterior às grandes religiões mundiais”. As religiões primais seguidas por povos tão distintos quanto os inuítes da América do Norte e os aborígenes australianos são variadas, mas com amplas similaridades. Os adeptos ainda hoje vivem quase sempre isolados e privados das comodidades modernas. Enfrentam rigores climáticos, escassez de comida e desastres naturais. Suas crenças lhes dão suporte para lidar com esses problemas. Seus milhares de espíritos ou divindades os ajudam a lidar com as forças naturais, e suas práticas religiosas variam desde experiências místicas e extáticas, normalmente guardadas aos médiuns ativos, até coisas bem mais práticas, como perguntar a um espírito qual a região próxima mais apropriada para a caçada de amanhã...

Muitos chamam tais médiuns ancestrais de xamãs, mas este é um termo surgido na Sibéria, e significa algo como “aquele que enxerga no escuro” na língua local. Mas sejam xamãs, ou pajés, babalorixás, iogues, curandeiros, feiticeiros, etc., todos são em essência médiuns, e suas práticas de comunicação com espíritos, sejam os seus próprios, sejam os de fora, são, estas sim, a grande prática universal que os conecta a todos, e assim conecta a humanidade como um todo, desde sua origem. Conforme disse o Chefe Seattle em sua carta ao presidente americano: “Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida - ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.”

Como por vezes é complexo identificar como exatamente tantas sociedades primitivas chegaram a ideias e símbolos tão elaborados e “fora da realidade”, muitos antropólogos preferem deixar tudo a cargo das experiências psicodélicas induzidas por alucinógenos naturais. Por exemplo, há escritos do hinduísmo, que é reconhecidamente uma das religiões mais antigas do globo, que louvam a soma, uma planta alucinógena. No Brasil muitos já conhecem o Santo Daime, que é uma doutrina religiosa totalmente baseada nos costumes de povos da grande floresta amazônica, que consomem o chá de ayahuasca a fim de desencadearem experiências místicas... Esta explicação, porém, é incapaz de dar conta de todas as experiências mediúnicas, pois sabemos melhor do que ninguém que a mediunidade hoje pode ser praticada sem o consumo de qualquer tipo de substâncias alucinógenas, e, de fato, esta é a recomendação da grande maioria das doutrinas espiritualistas de hoje em dia. Não há a menor razão para crermos que na pré-história todos os médiuns usavam substâncias do tipo – na verdade, há razões para crer que eles eram minorias localizadas em algumas regiões do globo onde era possível extrair tais substâncias da natureza. Não haviam cogumelos alucinógenos em todas as partes do planeta.

Talvez a religião primal que mais intrigue os antropólogos materialistas seja a religião nativa do Japão que, a despeito do país ter se tornado um verdadeiro polo tecnológico e comportar provavelmente a sociedade mais moderna do mundo, continua plenamente ativa. O xintoísmo, ou “o caminho dos deuses”, foi o título dado à religião nativa do Japão aproximadamente em 720 d.C., poucas décadas após a chegada do budismo na ilha. A questão é que se trata de uma religião pré-histórica, que só foi nomeada em razão de diferencia-la do budismo, recém chegado. Antes o xintoísmo era apenas “a religião”. O xintoísmo reconhece diversos seres divinos chamados kami, supostamente infinitos, que preenchem tudo o que exibe poder ou força vital. Para os japoneses, a natureza é literalmente divina.

Como sabemos, a natureza não é somente divina, como potencialmente viva. Nos dias atuais, presos em nossas selvas de concreto, talvez tenhamos esquecido de como um pequeno galho partido é apenas a parte morta de uma árvore, mas que irá se decompor e formar novamente coisas vivas... Ou que mesmo uma pedra abriga tanto parte da matéria que forma nossos corpos, como parte da matéria que formará espíritos das eras vindouras, embora hoje estejam confortavelmente dormindo no ventre sagrado da Mãe Terra, esperando o chamado do Pai Céu...

Termos antigos, conhecimento antigo, intuição antiga. Certamente tinham uma compreensão precária, parcial, da natureza à volta. Mas, estariam todos eles errados em tudo o que perceberam? Talvez a essência daquilo que viram e sentiram em suas experiências mais sagradas seja exatamente aquilo que falte hoje no mundo moderno. Alguns japoneses o sabem, e também alguns xamãs em meio ao frio do norte, alguns aborígenes, alguns indígenas, alguns poetas, alguns médiuns... Talvez você possa ser um deles, talvez já o seja. Esta é a nossa história, a história do espírito no tempo. Caberá a você escrever os próximos capítulos.

» A seguir, loucura e normalidade...

***

Leitura recomendada: O espírito e o tempo, de J. Herculano Pires (Paidéia). Religiões, de Philip Wilkinson (Zahar, Guia Ilustrado).

***

Crédito das imagens: [topo] Edward S. Curtis/Corbis (indígena da ilha de Nunivak, no Alasca - EUA, com sua máscara cerimonial); [ao longo] Rainer Hackenberg/Corbis (um torii, símbolo xintoísta, em Kyoto - Japão)

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11.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 2)

« continuando da parte 1

Segunda e última parte de um artigo que pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. Não deixe de ler a primeira parte antes de prosseguir (link acima).

Podemos afirmar que o espiritismo é uma doutrina racista?
Certamente que não, pois essa seria uma grande generalização apressada.

Primeiro, porque o espiritismo não é criação de Kardec, e ele foi apenas seu codificador e organizador. Apesar dos 5 livros fundamentais da doutrina possuírem inúmeros comentários do próprio Kardec, foi baseado nas respostas dos espíritos as suas perguntas que Kardec organizou a doutrina espírita. Desse modo, ainda que se seja cético em relação a existência de espíritos, ou da possibilidade de que possamos nos comunicar de forma plenamente inteligível com eles, o máximo que se pode dizer é que as respostas dos espíritos são fruto do imaginário monumental de 3 jovens médiuns (de 14, 16 e 18 anos, respectivamente), as quais ditaram praticamente a totalidade das respostas.

Em todo caso, não é culpa dos espíritos (ou das 3 médiuns) que Kardec tenha interpretado suas respostas dessa forma. É muito comum ao ser humano interpretar de forma incompleta, errônea ou até distorcida as informações que lhe chegam de um, digamos, plano mais elevado. Kardec não foi o primeiro a interpretar a luz de uma forma difusa, e os textos sagrados da humanidade nos trazem inúmeros exemplos até mesmo muito piores (ex: o livro do Levítico, do Antigo Testamento).

Segundo, o espiritismo não é um “kardecismo”, e o próprio Kardec incentivou que esta doutrina, da qual ele foi mero codificador, fosse constantemente reavaliada e reinterpretada a luz de novas descobertas e compreensões mais elaboradas não somente no campo da ciência, como no da filosofia e da moral. Portanto, se Kardec era racista, e se hoje como espíritas ou espiritualistas nos damos conta disso, tanto melhor: identificamos então uma falha na doutrina, e cabe a nós corrigi-la, passo a passo, sempre em frente. Kardec não era infalível, nem nunca pretendeu ser... Era antes, como todos nós, humano.

Seriam os “povos selvagens” intelectualmente inferiores?
Tudo indica que não, e é esse o grande erro na interpretação de Kardec. Ora, não podemos confundir adiantamento tecnológico, econômico ou político com adiantamento intelectual ou moral a um nível “racial”. Sabemos que crianças selvagens, que se perderam nas selvas e foram criadas por animais como lobos (conforme o famoso exemplo de Amala e Kamala), quando “recuperadas” e inseridas de volta ao convívio com seres humanos, jamais deixam de se comportar como animais, sendo que na grande maioria das vezes sequer foram capazes de aprender a se comunicar (muito menos a ler e escrever). Da mesma forma que tanto crianças brancas quanto negras se parecerão muito quando criadas por animais em meio a selva, se forem criadas por pais amorosos e responsáveis, e educadas em grandes centros de ensino, não há absolutamente nenhuma teoria científica ou estudo estatístico que nos afirme que as negras, por exemplo, não se desenvolverão intelectualmente tanto quanto as brancas.

Dessa forma, por mais que nas ciências ocultas devamos considerar que em sua maioria os povos são formados por grandes egrégoras espirituais, nada impede que um espírito em grau moral e intelectual adiantadíssimo não encarne dentre os povos ditos “selvagens” [4] . De fato, teremos muitos exemplos de grandes sábios que encarnaram em meio a tais povos. Um deles, inclusive, nos deixou por escrito um registro histórico de seu grau de sabedoria. Vejamos o que o Chefe Seattle tinha a dizer ao então presidente americano, quando este lhe ofereceu uma oferta em dinheiro pela compra de suas terras (apenas um trecho):

“O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do meu pai. Os rios são nossos irmãos. Eles levam nossas canoas e alimentam nossos filhos [5].”

Conclusão
Kardec era um homem de seu tempo, mas isso não deve ser usado como desculpa para que levemos em menor consideração alguns dos seus erros de interpretação. De fato, quando o criticarmos diretamente neste ponto, estamos somente agindo de acordo com o que ele mesmo defendia como filósofo, cético e cientista – o que muitos detratores corriqueiramente se esquecem.

Se esta crítica, muitas vezes acompanhada de julgamentos ferozes e generalizações apressadas, é o máximo que os detratores do espiritismo conseguiram encontrar de errado na doutrina (ao menos no campo moral e humanista, pois se espíritos existem ou não, é uma outra história...), deveremos como espíritas ou simpatizantes nos sentir agraciados por seguirmos uma filosofia tão abrangente e extensiva, e com tão poucas falhas... E mesmo as falhas existentes, estas poderemos também reavaliar, reconsiderar, reformar!

O espiritismo não foi criado ou divulgado para se ancorar em textos seculares, pois esta seria a origem do dogma, e como cientista e livre-pensador, Kardec era claramente contrário a quaisquer espécies de dogma... Kardec fez centenas de perguntas aos espíritos, mas houveram perguntas com respostas mal interpretadas tanto quanto outras tantas que nem os espíritos souberam responder. Isso significa, obviamente, que o espiritismo não está pronto e acabado, e que cabe a nós continuarmos a codificá-lo, quebrando preconceitos e nos livrando da ignorância, um passo de cada vez [6].

O Espiritismo não teme a luz; ele a chama sobre suas doutrinas, porque quer ser aceito livremente pela razão. Longe de temer, pela fé dos Espíritas, a leitura das obras que o combatem, diz: Lede tudo; o pró e o contra, e fazei a escolha com o conhecimento de causa (Allan Kardec).

O Espiritismo, restituindo ao Espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais o orgulho fundou castas e os estúpidos preconceitos de cor. O Espiritismo, alargando o círculo da família pela pluralidade das existências, estabelece entre os homens uma fraternidade mais racional do que aquela que não tem por base senão os frágeis laços da matéria, porque esses laços são perecíveis, ao passo que os do Espírito são eternos (Revista Espírita 1861, pág. 297-298).

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[4] Apesar de raro, não é impossível que um espírito de uma determinada cultura e etnia (e suas egrégoras) reencarne na vida seguinte numa cultura diversa. Em seus estudos de crianças que lembram vidas passadas, Ian Stevensson encontrou um ou outro caso do tipo, e a "simpatia" do espírito por sua cultura anterior era geralmente tão evidente que eles faziam de tudo para "retornar" a região de sua etnia na vida anterior. Também há casos mais dramáticos, infelizmente, quando todo um povo é dizimado, e os espíritos reencarnantes são obrigados a se "deslocar" para outros povos.

[5] Veja aqui um resumo mais extenso da Carta do Chefe Seattle, um dos grandes textos espiritualistas da humanidade...

[6] Se você é espírita, talvez se entusiasme mais por essa extensiva e detalhada defesa que Paulo da Silva Neto Sobrinho faz a Kardec em relação a acusação de racismo. No entanto, não posso afirmar que se trate de um texto totalmente imparcial, como espero que tenha sido o meu - na medida em que espero, igualmente, um julgamento imparcial de cada leitor.

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Crédito da imagem: Reed Kaestner/Corbis

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10.10.11

Como a mais bela tribo

Amanhã faz 15 anos que o Brasil perdeu seu grande poeta punk, que em seus altos e baixos, viveu e cantou a vida de forma intensa, talvez aberta até demais. Dentre as inúmeras letras e músicas memoráveis, resolvi lhes trazer esta abaixo, por conter tantos pensamentos e reflexões resumidos em apenas alguns minutos de pura poesia...

Em "Índios", Renato Russo não fala apenas da forma selvagem com a qual os "seres morais do outro continente" dizimaram os povos indígenas da América, como também encontra espaço para uma crítica social ("quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante, e fala demais por não ter nada a dizer"), ainda outra crítica que toca no cerne do cristianismo ("esse mesmo Deus foi morto por vocês; sua maldade, então, deixaram Deus tão triste..."), uma pitada de gnosticismo ("seu nome está em tudo e mesmo assim ninguém lhe diz ao menos: obrigado"), e um refrão inefável, profundo, pleno de espiritualidade:

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi

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Com vocês, "Índios" no acústico da Legião Urbana (1992):

Renato, obrigado por tudo, espero que tenha encontrado uma bela tribo de luz para continuar a tecer e talhar sua poesia...

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Crédito da foto: Divulgação (renatorusso.com.br)

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3.12.10

O poder do mito

"O poder do mito" é uma inebriante entrevista com Joseph Campbell - um dos maiores pesquisadores de mitologia do século XX -, conduzida pelo jornalista Bill Moyers na aclamada série da PBS nos EUA, transmitida para o mundo inteiro e aqui no Brasil pela TV Cultura. Ela foi lançada em DVD pela Log on Editora Multimidia, mas também temos os vídeos disponíveis online:

Este vídeo, com legendas em português, nos traz apenas a primeira entrevista, intitulada "A mensagem do mito" (ao todo são 6 entrevistas com aprox. 1h cada); Para ver as outras 5 entrevistas, clique nos links abaixo:

» Entrevista 2: "A saga do herói"

» Entrevista 3: "Os primeiros contadores de histórias"

» Entrevista 4: "Sacrifício e felicidade" (*)

» Entrevista 5: "O amor e a Deusa"

» Entrevista 6: "As máscaras da eternidade"

Obs: Os vídeos costumam sair do ar de tempos em tempos, por questões de copyright. Tento manter todos os links atualizados, mas ultimamente tem sido difícil achar os vídeos disponíveis no YouTube ou Vimeo...

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(*) Esta inicia-se com um texto particularmente espetacular, um dos mais belos da humanidade, retirado da famosa Carta do Chefe Seattle ao Presidente em Washington

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