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5.8.20

O último enigma de Sócrates

Há pouco mais de 2.400 anos, a filosofia ocidental viveu a sua cena definitiva: numa prisão em Atenas, após ser julgado pelos próprios concidadãos e se recusado a abandonar a cidade, Sócrates cumpria sua pena, e bebia o veneno que, dali a alguns momentos, causaria sua morte.

Faziam parte da acusação: ateísmo (não crer nos deuses gregos, e se associar a deuses desconhecidos) e corrupção dos jovens (com novas ideias). Ambas eram absurdas, e talvez os próprios acusadores sequer acreditassem realmente nelas, mas fato é que eles desejavam se livrar daquele maldito filósofo que insistia em expor a todos o quão ignorantes eram aqueles que se julgavam sábios, sem o ser. Foi oferecida a Sócrates a oportunidade de abandonar sua defesa do que considerava ser a verdade, exilando-se de Atenas para sempre. Ele preferiu a morte a uma vida exilada do diálogo e da busca conjunta pela verdade.

Sócrates, afinal, não deixou obra escrita e sequer fundou alguma nova doutrina. Foi influenciado por Permênides e pelos ritos místicos de sua época, mas não parece ter sido alguém como Platão, que fundou uma escola filosófica e deixou extensa obra escrita, onde usava de Sócrates como personagem para divulgar suas próprias ideias. O que sabemos de Sócrates, para além do personagem de Platão, é que ele de fato existiu, e parece mesmo ter irritado muitos atenienses de sua época, sobretudo aqueles que julgavam ser “muito sábios” acerca de certos assuntos. Existiu, porque também foi descrito na obra de Xenofonte – outro filósofo que foi seu discípulo – e nas peças teatrais de Aristófanes. Foi irritante, porque ninguém é alvo da galhofa de um grande comediante sem razão: e as peças de Aristófanes nada mais eram do que uma crítica bem humorada aquele “filósofo chato” que insistia em viver no mundo das ideias.

Voltemos então à cena: Sócrates aproxima o veneno dos lábios e toma a taça de uma vez. A sua volta, seus discípulos mais próximos se desesperam. Eis o que narrou Fédon (retirado do Fédon de Platão):

Até então quase todos tínhamos tido forças para conter nossas lágrimas, mas, ao vê-lo beber e depois de ter bebido, já não podíamos conter nossos impulsos. Quanto a mim, minhas lágrimas caíam em abundância, apesar de meus esforços para contê-las, e tive de cobrir-me com meu manto para poder chorar livremente. Porque não era a desgraça de Sócrates que chorava, mas a minha, ao pensar no amigo que ia perder. Críton, que já estava transtornado antes de mim, não pôde reter as lágrimas e saiu do recinto. Apolodoro, que não parava de chorar, se colocou a gritar e a soluçar de tal modo que não houve quem não se comovesse, exceto Sócrates.

Sócrates continuava sendo irritante: ele insistia em permanecer ao lado da verdade – ao menos, da sua verdade – mesmo no momento de sua morte. “Permaneçam tranquilos, meus amigos, e demonstrem maior coragem” – foi mais ou menos o que disse em seguida; e ele tinha todo motivo para tal, pois segundo sua lógica, viver no exílio seria algo certamente terrível, enquanto a morte era somente uma viagem desconhecida. Pouco antes daquele momento trágico, Sócrates havia dito uma de suas frases definitivas:

Mas eis a hora de partir: eu para a morte, vocês para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo, ninguém o sabe, exceto os deuses.

Na realidade, a crença de Sócrates nos deuses gregos era tão profunda que ele confiava que a vida após abandonar definitivamente o seu corpo não seria tão terrível, uma vez que seguiu a sabedoria por boa parte da sua vida; vejam como ele próprio explicou a questão (outro trecho do Fédon):

Há uma coisa, pelo menos, que seria justo que todos nós refletíssemos: se a alma é verdadeiramente imortal, é preciso que zelemos por ela não apenas durante o tempo atual, que chamamos vida, mas durante todo o tempo, pois seria grave perigo não se preocupar com ela. Admitamos que a morte seja tão somente uma total dissolução de tudo. Que sorte admirável estaria então reservada para os maus que se veriam libertos de sua própria maldade! Mas, na verdade, uma vez tendo sido tornado claro que a alma é imortal, não haverá fuga possível para ela frente a seus males, a não ser que se torne melhor e mais sábia.

Eis, portanto, a sua lógica: Sócrates julgava que se tornava melhor e mais sábio ao dedicar-se a filosofia. O seu método, no entanto, não era solitário. Ele precisava estar em Atenas, junto aos jovens (de ideias), para poder prosseguir em seu caminho rumo à sabedoria. Exilar-se seria, antes de tudo, abdicar daquilo que ele julgava ser a tarefa mais essencial da vida. Seria melhor continuá-la após a vida – curar-se da própria ignorância, era tudo o que o filósofo buscava, e talvez seja isso o que melhor explique o seu último enigma, a última frase que disse a um dos seus discípulos mais próximos:

Críton, somos devedores de Asclépio, nós o devemos um galo; pois bem, paga minha dívida, não se esqueça.

Críton ainda respondeu, “Assim será, mas veja se não tem algo mais a dizer”. E não tinha, pois estava morto. O homem mais sábio de Atenas havia deixado o mundo com um dito aparentemente corriqueiro e ordinário para alguns, ou um profundo enigma, para outros.

Ora, do ponto de vista ordinário, tal frase pode dar a entender que o filósofo valorizava a justiça ao ponto de, mesmo em seu último momento, não esquecer de que eles deviam um galo a algum cidadão ateniense. Uma coisa do dia a dia, por assim dizer. Entretanto, apesar de Sócrates só o haver mencionado uma única vez em toda a obra de Platão, Asclépio não era um mero homem a quem se pudesse “dever um galo”, mas sim o deus da medicina (posteriormente conhecido como Esculápio, entre os romanos) – aquela não era propriamente uma dívida, portanto, mas antes uma oferenda.

Parece estranho, deveras estranho, que o sábio e tantas vezes excessivamente racional Sócrates tenha reservado suas últimas palavras para render culto a um “deus menor”, ao menos se comparado a Zeus, que ele cita incontáveis vezes. Mas, se é verdade que Sócrates foi um personagem usado por Platão para divulgar suas próprias ideias, aqui fica mais evidente, quem sabe, o “Sócrates real”, para além do mero personagem dos livros. E esse homem real era bem mais ligado ao misticismo do que Platão gostaria.

O mais antigo registro do nome “Asclépio” é encontrado na Ilíada de Homero. Ele pode ter existido de fato, vivendo em torno de 1200 a.C. Na cultura grega era comum que heróis célebres fossem objeto de culto após sua morte. Asclépio, no entanto, foi médico, não exatamente um herói aos moldes de Hércules. Seja como for, na época de Sócrates e Platão ele já havia sido incluso no panteão dos semideuses, sendo filho do deus Apolo com uma mortal chamada Corônis. Segundo dizem as lendas, Asclépio eventualmente se tornou um curandeiro tão poderoso que era mesmo capaz de ressuscitar aqueles que morreram há pouco tempo, o que virou motivo de preocupação para Hades, o deus que cuidava do mundo dos mortos. Hades foi reclamar a Zeus que um médico estava impedindo que mais almas chegassem ao seu reino, e este resolveu a situação fulminando Asclépio com um raio. Algumas versões dizem que após algum tempo Zeus ressuscitou Asclépio e permitiu que continuasse a tratar dos doentes, desde que nunca mais trouxesse ninguém de volta dos mortos.

Em torno de 420 a.C., aproximadamente vinte anos antes de Sócrates beber o veneno, o deus da medicina havia sido invocado para afastar uma peste em Atenas, no que foi aparentemente bem sucedido. Poucos anos após, Asclépio também foi inserido definitivamente nos ritos dos Mistérios de Elêusis, que eram cultos agrícolas de cunho místico-iniciático celebrados nas proximidades de Atenas – é quase certo que tanto Sócrates quanto Platão não somente os conheciam como também participaram de suas celebrações; e, o que é mais importante, tiveram o seu pensamento influenciado por tais ritos.

Eventualmente o culto a Asclépio cresceu, e entre os romanos, sob o nome de Esculápio, ele chegou a ter templos em dezenas de cidades. Se as práticas do seu culto foram fieis a época de Sócrates (de onde não temos relatos lá muito precisos), então podemos considerar que elas eram mais ou menos assim:

O paciente adentrava o templo, se purificava na fonte do santuário e oferecia um sacrifício. Oferendas comuns eram bolos de mel, bolos de queijo e figos. Preces, meditação, o canto de hinos sacros, banhos medicinais, exposição à luz do sol, caminhadas de pés descalços, uma dieta especial, abstinência de sexo e exercícios físicos também eram muitas vezes parte do ritual e do tratamento. À noite o doente se dirigia a um quarto reservado, a fim de dormir e se produzir a enkoimesis, ou "incubação", ou seja, a revelação do deus em sonhos, o que frequentemente acontecia. O deus ou aparecia e curava diretamente, ou dava instruções sobre um tratamento específico, o que às vezes acontecia ao longo de vários dias em sonhos diferentes. Os sonhos eram então relatados ao sacerdote, que interpretava ou complementava as instruções. Ocasionalmente o deus transformava uma doença séria em outra mais branda, e então a deixava ao cuidado dos médicos. Às vezes os sonhos não eram necessários, e a cura se efetuava imediatamente. Se a pessoa fosse curada, o costume era agradecer com um novo sacrifício, então geralmente era oferecido um galo ou uma soma em dinheiro.

Ou seja, o galo que Sócrates “devia” a Asclépio não era uma dívida ordinária, mundana, mas uma forma de oferenda em agradecimento a uma cura alcançada. E a cura que o filósofo julgava ter alcançado era justamente aquela que o permitiria, enfim, viajar para o mundo dos deuses. E não por um motivo fútil, não por uma fuga da vida, mas tanto o oposto disso: por haver defendido a sua verdade até o fim.

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Crédito das imagens: [topo] Jacques-Louis David (1787); [ao longo] Google Image Search (culto a Asclépio/Esculápio)

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26.3.20

O Apocalipse do COVID-19 (parte 1)

Em geral costuma valer a pena buscar a origem etimológica das palavras quando nos propomos a refletir sobre seu significado. “Apocalipse”, por exemplo, vem do grego apokálypsis e significa literalmente “revelação”. Apesar do livro bíblico supostamente trazer a revelação do fim dos tempos, esta é também somente uma interpretação: o fim de um tempo pode, afinal, apenas significar a transição repentina para um novo tempo.

No entanto, se tem uma coisa que não foi repentina foi o surto do chamado Novo Coronavírus, o COVID-19. Aliás, hoje boa parte do planeta se encontra em quarentena por conta dele, e na origem do próprio termo “quarentena” nós já podemos verificar que certamente já passamos por várias crises como esta, e em situações tecnológicas e sanitárias bem mais calamitosas.

A origem da palavra vem da língua veneta (antigo dialeto italiano), e se referia originalmente ao período de quarenta dias em que todos os barcos deveriam ser isolados antes que passageiros e tripulantes pudessem desembarcar numa cidade costeira. Era a época da peste negra, que no século XIV matou cerca de um terço da população europeia.

Ora, é óbvio que o Coronavírus não é uma nova peste negra, mas mesmo assim ele pode ser bem mais perigoso do que se julgou a primeira vista. Para explicar melhor o seu real perigo, é preciso falar de ciência:

A ciência e o Coronavírus
Existem muitos coronavírus diferentes. A maioria deles causa doença em animais. No entanto, sete tipos de coronavírus são conhecidos por causar doença em seres humanos. Quatro dessas sete infecções por coronavírus em humanos envolvem doença do trato respiratório superior leve, que causa os mesmos sintomas do resfriado comum. No entanto, três das sete infecções por coronavírus em humanos podem ser muito mais graves, e recentemente causaram grandes surtos de pneumonia mortal.

A primeira, assim como o COVID-19, também surgiu na China, em 2002, e o seu nome era SARS (ou Síndrome Respiratória Aguda Grave). Houve um surto mundial que resultou em mais de oito mil casos no mundo todo, e um total de 811 mortes. Nenhum caso foi relatado no mundo desde 2004, e hoje se considera que a SARS foi totalmente erradicada (a doença, mas não o vírus). Presume-se que a fonte imediata de transmissão do vírus para os humanos tenham sido as civetas, mamíferos semelhantes a gatos, que estavam sendo vendidas em mercados de animais vivos (wet markets) como alimentos exóticos. Como as civetas foram infectadas não está claro, embora os biólogos presumam que os morcegos sejam o hospedeiro reservatório do vírus SARS na natureza.

A segunda ficou conhecida como MERS (ou Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e teve origem no Oriente Médio, em 2012. Ainda não foi inteiramente erradicada, mas hoje novos casos são bem raros. Ela ceifou cerca de 790 vidas em todo o mundo, e os biólogos presumem que seu hospedeiro na natureza seja o dromedário.

A terceira, no entanto, é um caso totalmente a parte. Surgida no final de 2019, em meados de Fevereiro do ano seguinte ela já havia matado mais do que as duas anteriores. Em Março de 2020 o COVID-19, ou Novo Coronavírus, já estava matando diariamente em países como Itália e Espanha mais do que a MERS e a SARS mataram até hoje em todo o mundo. No entanto, sua taxa de letalidade é consideravelmente inferior as anteriores, girando em torno de 3% a 4%. Então, como diabos esse vírus pegou o mundo desprevenido? Em boa medida, porque o mundo não o levou tão a sério, até que fosse tarde demais.

Como a China havia concentrado a grande maioria dos casos e dos óbitos do SARS quase 20 anos antes, a princípio muitos governos imaginaram que o mesmo ocorreria com o COVID-19. Além disso, cerca de 80% dos que pegam o vírus apresentam no máximo os mesmos sintomas de uma gripe comum, e estima-se que tais pacientes assintomáticos foram responsáveis por dois em cada três casos de contágio. Para piorar a situação, ao contrário de doenças mais graves que debilitam o paciente em poucas horas ou dias, o COVID-19 tem um tempo de incubação médio de 5 dias, podendo chegar até mesmo a 14 dias. Nesse período quase todos estão sem sintoma algum e, no entanto, já podem transmitir o vírus aos demais. Somente 20% dos casos, em média, requerem tratamento em leito hospitalar, sendo que só 5% chegam a necessitar de internação em UTI. Assim sendo, de cada pessoa infectada que sente sintomas graves o suficiente para buscar um hospital, quatro outras estarão com sintomas de uma gripe comum, ou inteiramente assintomáticas – a maioria, portanto, nem vai perceber que pegou o vírus.

Quando ouvi dizer que somente cerca de 3,5% das pessoas infectadas estavam morrendo de COVID-19, eu mesmo achava que o Brasil deveria estar se preocupando mais com o surto da Dengue, para dar um exemplo prático. No entanto, eu estava redondamente enganado, assim como muitos dos que, por pura ignorância, subestimaram o novo vírus.

Ora, ocorre que, devido ao seu longo tempo de incubação e a possibilidade de ser transmitido mesmo por pessoas sem sintoma algum, a capacidade do COVID-19 de se espalhar rapidamente pelo planeta, de forma exponencial, é o que o torna um desafio sem precedentes para os sistemas de saúde pública da era moderna. A grande questão é que, ainda que somente 20% dos infectados necessite de tratamento hospitalar, quando o vírus atinge um novo país, alcançando uma nova população que nunca entrou em contato com ele, o COVID-19 pode potencialmente se espalhar de maneira tão rápida que serão dezenas de milhares de contagiados a bater as portas dos hospitais ao mesmo tempo, e isso nem a China nem qualquer outro país do mundo teria condições de suportar sem que o seu sistema de saúde entrasse em colapso.

É exatamente o que ocorreu no norte da Itália, e ligou o sinal de alerta vermelho em todo o mundo. Enquanto a China, uma ditadura comunista, não teve grandes dificuldades em manter uma quarentena forçada em Wuhan, mantendo quase 11 milhões de pessoas (quase uma São Paulo) presas em casa, a Itália teve idas e vindas em sua própria quarentena, o que comprometeu seriamente a sua eficácia.

Moral da história: o COVID-19 está longe de ser o vírus mais letal do mundo, e de fato a maioria dos infectados não sofrerá grandes consequências. Mas é exatamente por isso que ele é um problema tão grave para os sistemas de saúde no mundo, principalmente em suas ondas iniciais de contágio. É por isso que em Março de 2020 boa parte do Ocidente fechou as portas, mantendo toda a sua população em quarentena. Na Índia, por sinal, tivemos o início da maior quarentena da história humana, com mais de um bilhão de pessoas restritas aos seus devidos lares.

Isso deve causar uma crise econômica global que vai entrar para os anais da história. Mas é melhor que os livros de história no futuro falem de uma época onde houve um súbito pico de desemprego e falências de empresas [1] do que de um tempo onde caixões se amontoavam nas ruas, e precisavam ser buscados por caminhões do exército.

» Na sequência, no que a Filosofia pode nos ajudar nessa crise.

***

[1] Como o tema é particularmente polêmico, cabe uma explicação mais "direto ao ponto": é óbvio que ninguém deseja causar uma crise econômica desnecessariamente, mas hoje já sabemos que se não for feita uma quarentena abrangente, como a chinesa, corremos o risco de estender a própria crise econômica por ainda mais tempo, como ocorre na Itália. Dito isso, é preciso bom senso para decidir com a devida cautela o que é ou não um serviço essencial, que não deveria ser afetado pela quarentena. No Brasil, por exemplo, penso que postos de estrada são essenciais para que nossos caminhoneiros continuem abastecendo os supermercados e farmácias país afora sem morrerem de fome no caminho; já quanto aos templos e igrejas, não faz o menor sentido que fiquem abertos.

Crédito das imagens: [topo] Adli Wahid/unsplash (na China, cartazes em homenagem ao Dr. Li Wenliang, o primeiro a alertar as autoridades acerca da gravidade do vírus, e que infelizmente morreu infectado); [ao longo] Vaticano (o Papa Francisco abençoa o Vaticano esvaziado em plena quarentena).

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8.1.16

A morte é um dia que vale a pena viver

Um dia perguntaram a Ana Claudia Quintana Arantes, "O que você aprendeu lidando com a morte?"

E na entrevista concedida a revista Vida simples, a médica geriatra, especializada em cuidados paliativos para pacientes que têm pouquíssimo tempo restante de vida, respondeu assim:

"Aprendi a viver. Eu vejo muita gente, todos os dias, no final da vida. E, nesse instante, as pessoas ficam muito lúcidas sobre o que importa. A morte tira o véu da mentira sobre a vida. E a pessoa deixa de lado o que é bobagem ou ilusório. Você quer dizer que ama, então expressa isso e não fica preocupado com o que os outros vão pensar a respeito. Afinal aquela é a sua vida – e ela está acabando. Então você demonstra mais afeto, você reconhece seus erros."

Ana é uma genuína médica de almas, que trata não somente doenças ou corpos, mas vai direto ao coração, onde cada momento restante de vida pode ser um momento mágico, um momento eterno... É sempre muito belo, e muito triste e profundo, conhecer mais sobre as histórias de gente como ela. Nesta palestra do TEDxFMUSP, A morte é um dia que vale a pena viver, ela conta algumas delas:

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Crédito da foto: Namu

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2.10.15

Uma epidemia de autismo?

“Vivemos uma epidemia de autismo nos EUA. Se nada for feito, em 2025 um em cada dois recém-nascidos será diagnosticado com autismo.” – a conclusão não é de qualquer leigo no assunto,  mas de Stephanie Seneff, pesquisadora sênior do Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory no mundialmente respeitado Massachusetts Institute of Technology (MIT). A Dra. Seneff, assim como muitos outros cientistas, afirma que o autismo não é um distúrbio neurológico apenas genético – é praticamente certo que ocorra devido a fatores ambientais. Dois desses fatores estão relacionados à exposição ao glifosato e a um coquetel de metais pesados, incluindo o alumínio. “Glifosato”, guarde este nome, pois já voltaremos a ele...

Antes, é preciso falar um pouco mais sobre o autismo. Trata-se de um distúrbio neurológico caracterizado por comprometimento da interação social, comunicação verbal e não-verbal, assim como de comportamento restrito e repetitivo.

Ninguém “pega autismo”, como se pega uma gripe ou doença sexualmente transmissível. Ou nascemos com autismo, ou não. Os pais costumam notar sinais nos dois primeiros anos de vida da criança. Os sinais geralmente desenvolvem-se gradualmente, mas algumas crianças com autismo alcançam o marco de desenvolvimento em um ritmo normal e depois regridem.

Segundo Temple Grandin, uma famosa autista savant (que desenvolveu grande empatia para com os animais, e pouca para com os seres humanos), autistas como ela “pensam em imagens” e, exatamente por “não serem atrapalhados pelas emoções”, estão aptos a resolver mais facilmente diversos problemas matemáticos e detectar padrões naturais que uma mente normal usualmente deixa passar em branco, simplesmente porque sua consciência está focada em aspectos, digamos, mais sociais da existência.

Mas são poucos os autistas que conseguem se destacar, como Grandin. Muitos são condenados a viver uma vida enclausurada em seu próprio mundo interno, como uma larva que entra num casulo, mas jamais chega a virar borboleta e voar para fora.

Voltando ao assunto da epidemia, mas não ao glifosato (continuem guardando o nome), há muitos americanos que desconfiam que o autismo está sendo causado por vacinas. Apesar de aparentemente absurdo, o assunto foi levado até mesmo ao recente debate dos candidatos do partido republicano à presidência dos EUA. E foi exatamente o mais cotado nas pesquisas para concorrer pelo partido, o bilionário Donald Trump, o único a defender abertamente a ideia de que, sim, as vacinas podem ter alguma relação com a tal epidemia.

Para o desespero dos médicos americanos, este assunto vem se tornando tão popular que doenças erradicadas há décadas estão retornando aos EUA, simplesmente porque alguns pais estão se recusando a vacinar seus filhos. Ora, para derrubar tal teoria, basta comparar as vacinas de hoje com as de décadas atrás, quando não havia tantos casos de autismo diagnosticados, e veremos que não, não é culpa das vacinas, ao menos não diretamente.

É aí que voltamos a Dra. Seneff e ao glifosato... A Monsanto é uma multinacional americana do ramo da agricultura e biotecnologia, sendo de longe a líder mundial na produção e comercialização de sementes geneticamente modificadas e do agrotóxico herbicida RoundUp, o mais vendido do mundo, cuja base é exatamente o glifosato.

O glifosato é um herbicida desenvolvido para matar todo tipo de ervas, usado no mundo todo, e no Brasil desde a década de 70. Há vários indícios de que ele pode ser cancerígeno, além de causar certo impacto ambiental pela destruição de bactérias que são vitais para a regeneração do solo, assim como pela má-formação de fetos de certos animais, principalmente anfíbios. Mas nada foi oficialmente comprovado, não se sabe se com a ajuda do lobby da Monsanto ou não.

A questão é que nunca se usou tanto glifosato no mundo quanto nas últimas décadas, pois a Monsanto também desenvolveu sementes geneticamente modificadas “imunes ao glifosato”, permitindo que ele pudesse ser despejado em grande quantidade sobre as plantações.

Isso significa que todos nós temos traços de glifosato na urina, e até mesmo no leite materno. Nos EUA, essas concentrações são cada vez maiores, e é precisamente aí que a teoria da Dra. Seneff começa a fazer todo sentido.

É possível que o glifosato seja inócuo para a grande maioria de nós, ou que seu efeito nocivo não seja facilmente notado, como a possibilidade de ser um agente cancerígeno. Entretanto, a coisa muda de figura quando temos a informação que ele está presente no leite materno e, dessa forma, na única dieta de um recém-nascido em seus primeiros meses de vida. É possível que o glifosato interfira na formação cerebral, já que sabemos que o homo sapiens vem ao mundo com seu cérebro ainda em plena formação, particularmente no início da vida.

Fazendo mais um “parêntesis” nessa história, vamos dar um pulo no campo espiritual... Anos atrás, quando estudei sobre o tema do autismo, eu tinha certa convicção que se tratava de uma “doença do espírito”. Isto porque, pensemos, ele só aparecia em crianças, e afetava as relações sociais, a empatia e o aspecto puramente emocional da vida. Sempre me pareceu como que uma doença programada para aqueles espíritos que “abusaram” das emoções noutras vidas, e que precisavam passar uma vida com esse aspecto “anestesiado”.

E, se tal convicção foi agora seriamente abalada por esta notícia de que o autismo pode muito bem ser causado por fatores puramente ambientais, ela não caiu inteiramente por terra em minha “rede de possibilidades” – simplesmente pelo fato de que a principal ação do glifosato nos recém-nascidos é a interrupção do bom funcionamento da glândula pineal.

Particularmente quando acompanhado de alumínio (e esse alumínio também vem das vacinas, que podem mesmo ter algum envolvimento indireto no assunto – com toda ênfase no “podem”), o glifosato interfere diretamente na boa formação da pineal, e conforme já sabemos muito pouco sobre essa glândula, sabemos menos ainda sobre o que o seu comprometimento pode acarretar. No entanto, segundo a teoria de um cientista brasileiro, Dr. Sérgio Felipe de Oliveira, a relação entre o comprometimento da pineal e a baixa empatia faz todo sentido.

O Dr. Oliveira estuda a pineal há muitos anos, e como se trata de um cientista espiritualista, não se acanha ante as possíveis “funções espirituais” associadas à glândula. O que ele encontrou em seus estudos não é nada como “a sede da alma” ou algo vago, mas cristais, cristais de apatita. Ele percebeu que algumas pessoas já nascem com a pineal cheia desses cristais, enquanto outras têm poucos ou nenhum. Assim, ele fez experimentos com ambos os grupos.

Entre aqueles que possuem os cristais, os chamados fenômenos mediúnicos, assim como a percepção de campos eletromagnéticos, são muito mais significativos. Ora, no espiritualismo sabemos que a mediunidade não deixa de ser uma percepção do mundo à volta mais desenvolvida, principalmente no que tange a empatia e as emoções. É muito comum médiuns serem alertados para “tomarem cuidado com o canal aberto”, isto é, como o fato de que, para eles, os fenômenos emocionais podem ser muito mais poderosos e, por vezes, até mesmo devastadores...

E o autismo, o que é, senão o oposto da mediunidade?

Enquanto muitos médiuns têm enorme dificuldade em erguer um casulo entre o seu mundo interior e o exterior, os autistas sofrem do extremo oposto: têm dificuldades exatamente em romperem o casulo que os mantém quase que isolados do mundo social-emocional.

Tudo bem, você pode não acreditar em nada disso, mas a questão aqui não é bem crer, mas buscar por hipóteses que façam sentido, e que não sejam absurdas a priori. E ignorar a possibilidade do autismo se originar no comprometimento das funções da glândula pineal pode não ser o melhor caminho para elucidarmos tal mistério.

Em todo caso, fato é que há sim uma característica de epidemia nos casos de autismo nos EUA. Há um aumento de 75% nos registros desde 2001, e em 2014 cerca de uma a cada 68 crianças foram diagnosticadas com algum grau de autismo (enquanto em boa parte do mundo, esse número não passa de uma a cada 500). Segundo a Dra. Seneff, esse número pode chegar a uma a cada duas, em 2015. É preciso estar de olhos abertos para que os lucros de uma multinacional americana não justifiquem o custo de termos de lidar com dezenas, centenas de milhões de autistas.

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Crédito da imagem: Google Image Search/cancerfactsheet.org

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4.8.13

Astrum

Texto de Paracelso em "Filosofar pelo fogo” (Ed. Madras) – trechos das págs. 181 e 182. Tradução de Idalina Lopes. O comentário ao final é meu.

Tratemos agora do terceiro fundamento sobre o qual repousa a arte médica, ou seja, a alquimia. Se o médico não lhe dedica o maior cuidado e dela não adquire uma profunda experiência, toda sua arte corre o risco de permanecer inútil. Pois a Natureza é tão sutil, tão penetrante em suas diversas produções, que dela só podemos extrair seus benefícios com o auxílio de uma grande arte.

De fato ela não revela nada que se mostre realizado por si mesmo, e cabe, portanto, ao homem finalizar seus desejos; essa realização leva o nome de alquimia.

Assim, o alquimista é semelhante ao padeiro que assa o pão, ao vinhateiro que faz o vinho, ao tecelão que confecciona um tecido. E consequentemente é alquimista qualquer um que leve ao termo desejado pela Natureza o que nela cresce para o proveito do homem.

Saibam que a respeito dessa arte deve ser feita aqui uma distinção notável: se alguém tomasse uma pele de carneiro e, deixando-a em estado bruto, a usasse como pelica ou casaco, seria o maior exemplo da grosseria e inabilidade em comparação com a arte do peleteiro e do fabricante de tecido. Tão grosseiro e inábil é aquele que, recebendo algum dom da Natureza, não o usa.

[...] Mas hoje todos os ofícios manuais escrutaram a Natureza e adquiriam a experiência de suas propriedades, de forma que eles sabem, em todas as operações que são as suas, seguir suas vias e extrair o que nela existe de mais elevado.

Ora, hoje isso não é mais posto em prática em medicina – onde, no entanto, isso seria o mais necessário – e, que, no estado em que ela se encontra hoje, é a mais grosseira e inábil das artes.

[...] Ora, a própria Natureza o avisa, por meio das coisas, ao que você deve se dedicar a fim de oferecer à sua medicina toda a sua eficácia. O que o verão efetua com as peras e com as uvas também deve ser introduzido e realizado na medicina. E, quando sua medicina seguir tais preceitos, você também estará em condição de obter bons resultados.

Por isso é necessário agora mais uma vez relembrar que sua medicina deve dar frutos como o verão o faz com os seus. Saiba que o verão age assim com a ajuda do Astrum, e não sem ele.

Quando o Astrum exerce no tempo desejado a sua influência, saiba mais uma vez que sua preparação médica deve lhe ser rigorosamente ordenada e submetida; pois é ele que realiza a obra de arte.

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Comentário
Françoise Bonardel, filósofa e professora da Universidade de Sorbonne, é a responsável por essa grandiosa antologia de textos alquímicos publicada pela Madras. Segundo ela, o Astrum (em alemão, Gestirn) é um termo usado sobretudo desde Paracelso para designar o princípio ígneo (do fogo) capaz de fazer crescer e multiplicar as sementes das coisas.

O Astrum pressupõe, no entanto, para ser operativo, que a semente de cada coisa tenha sido excitada pelo calor celeste; e, portanto, que o microcosmo (pequeno mundo; humano) tenha sido colocado em estrita correspondência com o macrocosmo (grande mundo; cósmico), principalmente graças ao “fogo secreto” da Arte...

***

Ora, não é de surpreender que a Academia seja hoje tão “reticente” em lembrar que os primeiros grandes cientistas da história ocidental (ignorando-se os da Grécia antiga e, sobretudo, os da ilha de Samos) eram quase todos alquimistas, astrólogos, ocultistas, magos ou, no mínimo, filósofos da Natureza.

De fato, termos como “alquimia”, “arte médica”, “fogo secreto” ou “grande arte” são muito mal compreendidos pela quase totalidade dos cientistas atuais. Para que pudessem descobrir o real significado de tais termos há 500 anos atrás, teriam antes de se livrar de mais de um século de preconceitos estabelecidos pela Academia atual em torno de qualquer ideia que possa lembrar, mesmo que vagamente, a espiritualidade. Neste aspecto, nem os filósofos modernos lhes seriam de muita ajuda – teriam mesmo é que se debruçar nos livros de ocultismo (esta antologia poderia ser já um bom começo).

Mas, ainda assim, a mera leitura de antigos Manuais de Natação não seria o suficiente para lhes ensinar sobre a Experiência do Mergulho... Que diabos seria essa tal “arte médica”, esta “alquimia” de que nos fala Paracelso?

Não tenho nenhuma pretensão de lhes explicar, mas antes de tentar lhes despertar na alma alguma luz que pode estar ali guardada por falta de uso: Ora, “cumprir o desejo da Natureza”, “frutificar as sementes através da medicina”, “transformar chumbo em ouro”, tudo isso são metáforas, mas metáforas muito poderosas – que querem se comunicar com a alma, e não com a mera “intelectualidade” ou com o mero “raciocínio mecanicista”, conforme a Academia tende a interpretar o termo “razão” nos dias atuais.

Para ser um Médico como Paracelso, não basta decorar patologias e títulos de doenças catalogadas, é preciso também ser um médico de si mesmo, um conhecedor dos Astros, um cirurgião do Amor. Dessa forma, irá praticar a Grande Arte não somente nos pacientes, mas em toda a Vizinhança ao mesmo tempo, e assim cumprir a Vontade que vem do Alto. Irá, enfim, tratar das causas, e não dos efeitos.

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Crédito da imagem: Wikipedia

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15.9.12

A acupuntura vence a dor

Reportagem publicada no site da Revista Veja em 10/09/2012. Os comentários ao final são meus:

A acupuntura acaba de ganhar um importante reforço para sua credibilidade. Uma análise de 29 estudos clínicos mostrou que a acupuntura é melhor que o uso de placebo para o tratamento de alguns tipos de dor crônica, como a lombalgia e a cefaleia.

Publicado nesta segunda-feira no Archives of Internal Medicine, periódico da Associação Médica Americana, o estudo reforça as recentes evidências que apontam para a eficácia da acupuntura. Até hoje, a técnica de introduzir agulhas em pontos específicos sob a pele, criada há pelo menos 2.500 anos pelos chineses, foi posta em dúvida porque, em muitos estudos, apresentava resultados não suficientemente melhores que o tratamento placebo.

Na análise coordenada por Andrew Vickers, pesquisador do Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, foram utilizadas informações de estudos clínicos feitos com um total de 17.992 pacientes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha e Suécia. A acupuntura se mostrou superior no tratamento da dor crônica tanto em relação ao grupo que não recebeu nenhuma terapia quanto ao que recebeu acupuntura simulada (na qual agulhas são introduzidas na pele, mas fora dos pontos específicos). Além da acupuntura simulada, também foram usadas nos estudos analisados agulhas retráteis (que pressionam, mas não ultrapassam a pele dos pacientes), acupuntura a laser e nenhum tratamento.

Segundo os autores da pesquisa, os pacientes que receberam acupuntura apresentaram menor dor nos casos crônicos de lombalgia, osteoartrite e cefaleia que os pacientes tratados com acupuntura simulada (os pacientes dão 'notas' para o grau de dor que estão sentindo, sendo zero o menor índice de dor e 10 a pior dor possível). A redução foi ainda maior em comparação com pacientes que receberam outros tratamentos placebos.

"Os dados resultantes dessa análise de outros estudos com quase 18.000 pacientes em testes clínicos de alta qualidade fornecem as mais robustas evidências até hoje de que a acupuntura é uma boa opção para pacientes com dor crônica”, afirmaram os autores do estudo.

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CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Acupuncture for Chronic Pain - Individual Patient Data Meta-analysis
Onde foi divulgada: revista Archives of Internal Medicine
Quem fez: Andrew J. Vickers, Angel M. Cronin, Alexandra C. Maschino, George Lewith, Hugh MacPherson, Nadine E. Foster, Karen J. Sherman, Claudia M. Witt, Klaus Linde
Instituição: Sloan-Kettering Cancer Center 
Dados de amostragem: estudos com 17.922 pessoas
Resultado: pacientes que receberam acupuntura apresentaram menor dor nos casos crônicos de lombalgia, osteoartrite e cefaleia que os pacientes tratados com acupuntura simulada. A redução foi ainda maior em comparação com pacientes que receberam outros tratamentos placebos.

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"O grande problema da acupuntura é que muitos estudos mostravam que seu uso fazia a dor diminuir, mas também havia redução no grupo placebo. Este artigo mostra que existe uma boa diferença entre acupuntura e placebo e reafirma o que já observávamos na prática clínica.

Entretanto não é para toda dor crônica. A acupuntura tem maior efetividade nos casos crônicos de lombalgia, dor cervical, osteoartrite e cefaleia.

É bom lembrar que, em medicina, usamos mais de uma terapia ao mesmo tempo. Isso significa que a acupuntura pode ter um efeito superior se combinada a outros tratamentos contra a dor crônica. Isso é bem nítido na prática clínica."

Andre Wan Wen Tsai (médico ortopedista e acupunturista do Centro de Acupuntura do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do HC FMUSP e diretor de Relações Institucionais do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo)

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Comentário
Apesar de já ser utilizada no Ocidente há muito tempo, e de contar com inúmeros estudos científicos indicando sua eficácia, parece que somente agora a Acupuntura ganhou seu primeiro estudo de destaque na Academia. Ainda que fosse "apenas efeito placebo", a Acupuntura sempre representou um "problema" para a medicina ocidental, pois ela parte de uma interpretação da saúde que questiona o paradigma materialista que parece focar em tratar "a máquina corporal", e ignorar "a alma". Com esta pesquisa abrangente, com quase 18 mil pacientes estudados, ficou comprovado que, ao menos para esses casos de dor crônica, a acupuntura é um dos tratamentos mais eficazes e baratos de que dispomos em toda a medicina (oriental ou ocidental)... Fato é que a acupuntura funciona contra a dor, mas vai faltar explicar como exatamente ela funciona.

» Veja também o que disseram desta pesquisa no Estúdio I, da GloboNews

» Saiba mais sobre Acupuntura no blog da terapeuta holística Liz Oliveira

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Crédito da imagem: Thinkstock

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4.5.12

Comentário: que é o efeito placebo?

Comentário das respostas da pergunta “que é o efeito placebo?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Há muitos anos, diariamente, dezenas de pessoas chegam a outrora desconhecida cidade de Abadiânia, uma pequena cidade com cerca de 13mil habitantes, fincada bem no meio do Brasil, no interior de Goiás. Já seria interessante saber o que tantos brasileiros vão fazer nesse “fim de mundo”, mas a grande maioria dos que chegam vêm na realidade de outras partes do mundo – principalmente dos EUA e Europa. Abadiânia é a cidade onde o médium brasileiro João de Deus realiza seus atendimentos com cirurgias espirituais (e, nalguns casos, físicas) que visam o auxílio na cura de doenças variadas, muitas das quais não têm tratamento conhecido na medicina convencional.

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: tais cirurgias curam alguma coisa?

Um dos espíritos que supostamente incorpora o médium, parte da “equipe de médicos espirituais” que o auxilia nas cirurgias, já respondeu que “as cirurgias físicas não servem para mais nada que não para que o paciente efetivamente creia que está sendo tratado”. Para os pacientes que já tinham fé no tratamento, nenhuma cirurgia física era necessária [1]... Ou seja: o próprio espírito admite que se trata de uma “encenação” criada para que a mente tenha fé no tratamento. A mente, sem dúvida, parece ser o agente que mais importa, o catalisador dos efeitos placebo – e, dessa forma, da cura.

E esta parece ser a questão chave para nosso entendimento do que vem a ser o efeito placebo. Não adiante associá-lo a processos inconscientes do cérebro que terminam por auxiliar e efetivar a cura de doenças: isso é apenas o processo de cura natural, não o efeito placebo. O efeito placebo, exatamente por se tratar de um efeito, tem de ter uma causa, e acredito que quase todos concordem que essa causa passa pela mente quando esta possui a crença consciente de que um tratamento lhe fará bem. Mas, ainda neste caso, o mistério permanece: se é a mente que catalisa o efeito placebo de acordo com sua crença na própria melhora, o que exatamente catalisa a crença?

Essa última pergunta pode ter uma resposta um tanto quanto óbvia para os espiritualistas, mas para muitos materialistas (alguns dos quais que sequer creem que exista a mente) ela é uma questão muito estranha. Mas isso não os impede de continuar estudando objetivamente a questão...

Na UFRJ, a bióloga Rafaela Campagnolli, doutora em neurofisiologia, concluiu um estudo de como o cérebro processa imagens de interações sociais positivas. Na pesquisa, um grupo de 36 universitários saudáveis observou 60 fotos, sendo 30 de adultos e crianças interagindo e 30 de pessoas alheias umas as outras, embora estivessem próximas. Enquanto observavam, suas reações cerebrais e faciais eram medidas por eletroencefalograma (mede atividade elétrica neuronal) e eletromiograma (mede a atividade elétrica dos músculos):

“É fato que os cérebros dos voluntários reagiram diferentemente às imagens de cada grupo. Diante das fotografias com interações sociais positivas, ocorreu aumento da atividade neuronal associada às emoções, e do músculo do sorriso espontâneo (zigomático). Isso quer dizer que elas impactaram mais os voluntários, foram mais relevantes emocionalmente” – explicou Rafaela [2].

Esse tipo de estudo visa reforçar uma crença já ancestral: a de que as emoções positivas auxiliam na cura de doenças e reestabelecimento da saúde, ao passo que as emoções negativas podem facilitar enormemente a morte, mesmo que de forma indireta. Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med Rio Check Up, do alto de sua experiência de mais de 60mil check ups de saúde, declara: “A prática demonstra que um quadro de emoções negativas conduz à depressão e a outros males. Um dos grandes avanços da psiquiatria foi identificar que o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) elevado e crônico é um caminho natural para a morte. Por outro lado, a emoção positiva é a mola da vida” [3].

Portanto, nossa ciência, moderna a objetiva, têm somente demonstrado o que já sabíamos, subjetivamente e filosoficamente, ao menos desde que Hipócrates fundou a medicina, milênios atrás. São mesmo as nossas forças naturais que curam nossas doenças, e até mesmo por isso nenhum médico sério jamais pôde prometer a cura, apenas o tratamento. É apenas a nossa mente, auxiliada pelos diversos tratamentos, quem poderá se livrar da doença, e retornar a saúde. Mas, há algo de subjetivo em nossa mente que incomoda profundamente os materialistas objetivos: algo que não pode ser devidamente catalogado de forma exata, tal qual se cataloga a porcentagem de sucesso dos tratamentos da última droga contra a depressão [4]... O que seria esse espírito, essa alma, esse “eu” que parece ter um ânimo próprio, essa vontade de melhora?

Tim Cridland, também conhecido como Zamora, o Rei da Tortura, é um americano com pinta de roqueiro que parece ter uma boa resposta para tal questão. Desde pequeno, Tim era fascinado pelas histórias de faquires e homens santos da Índia, que podiam se deitar em tábuas de pregos sem sentir dor alguma, e sem causar sangramentos na pele. Sabe-se lá onde ele encontrou “cursos de faquir”, mas o que se sabe é que hoje, após décadas de prática e disciplina inimagináveis para um ocidental, Tim se tornou provavelmente o maior faquir do Ocidente, com um controle da própria mente que beira o sobrenatural. Num episódio dos Superhumanos de Stan Lee, uma série do canal a cabo History que explora pessoas com “poderes sobre-humanos”, vemos Tim perfurar o braço de ponta a ponta com espetos de metal, um dos quais ele enfia através da boca aberta, saindo pelo pescoço [5]. O mais incrível não é nem o fato de ele não sentir dor (o que é comprovado por análise neuronal ao longo do programa), mas sim o fato de ele não sangrar, nem uma gota, nem mesmo na gengiva que, todos devem saber, é uma das partes do corpo que sangram mais facilmente.

O que isso tudo quer dizer? Que devemos abandonar a objetividade da medicina moderna, junto com nosso ceticismo, e admitir que existem homens santos, espíritos e deuses? Não exatamente. Uma coisa não necessariamente leva a outra, e as crenças e descrenças não deveriam vir em “pacotes fechados” – ou cremos em todo tipo de espírito e na eficácia dos tratamentos espirituais e alternativos, ou não cremos em nada disso. Não! Você pode muito bem continuar ateu ou agnóstico em relação ao chamado mundo espiritual, e ainda assim admitir que certas coisas estranhas que provêm dele são, de fato, reais.

Na conclusão final do estudo da AMB sobre João de Deus, é dito que “nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina”, e eu acredito que devemos refletir com muita seriedade sobre isso. Que importa se céticos como James Randi oferecem milhões para qualquer um que prove que é efetivamente um paranormal? Gente como Tim Cridland e João de Deus parece não conhecer ou não estar interessada no dinheiro dos “céticos a priori”, que fazem esse tipo de “show” exatamente por já crer que não existam paranormais [6]. Randi foi certamente útil em desmascarar dezenas de charlatões pelo mundo todo, mas há que se ter em mente que nem todos são charlatões, por mais estanho que isso possa parecer para uma mente racional.

Você pode achar que os fenômenos realizados por tais paranormais – o cirurgião espiritual e o homem imune à dor – é suficientemente raro e extraordinário, e que dificilmente acharemos coisa parecida no resto do mundo, de modo que a “raridade” não permite um estudo objetivo... Mas, não, eles não são assim tão raros quanto possa parecer a priori: para cada cirurgia realizada por João de Deus, milhares de outras são realizadas com igual ou maior eficácia (independentemente de serem cirurgias físicas, e a maioria não é), somente no Brasil, por médiuns que não se interessaram em se tornar fenômenos de mídia; para cada “agulhada” que Tim Cridland dá no próprio corpo, há centenas de faquires indianos praticando algo muito parecido, todo santo dia, e ainda não se viu sangue algum.

E, ainda assim, perto dos fenômenos da mente, tais fenômenos físicos são como a brisa que antecede a tempestade. No fundo, talvez tudo se origine de alguma mente, afinal: jamais poderemos conhecer a realidade ignorando tudo aquilo o que se passa, se passou, e que poderá passar, bem atrás de nossos olhos abertos... O efeito placebo, que diabo seria ele senão um efeito da mente, esta grande desconhecida?

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[1] A imensa maioria dos pacientes de João de Deus não passam por cirurgias físicas, e espera-se que elas sejam cada vez mais raras, já que apenas alguns dos espíritos que supostamente o incorporam defendem sua continuidade. Entretanto, não deixa de ser um fenômeno bastante estranho.

[2] O depoimento da Dra. Campagnolli foi retirado de uma matéria do O Globo de 25/12/2011 (O poder das emoções positivas – Caderno Saúde).

[3] Depoimento também retirado da matéria citada na nota acima.

[4] O que, em muitos casos, não nos traz resultados muito diferentes do tratamento com placebos.

[5] Não é tão horrível quanto parece, principalmente por não haver sangue, nem dor. Infelizmente só achei o episódio com áudio em inglês:

Poderíamos, quem sabe, inserir a legenda: Tim Cridland catalisando um efeito placebo em si mesmo, de modo que não sangre nem sinta dor. É óbvio que existem limites para a "magia" de Tim: uma agulha através do seu coração provavelmente o mataria na hora; Mas isso de forma alguma deveria diminuir nosso espanto em relação ao fenômeno, assim como nossa curiosidade genuína em procurar compreendê-lo.

[6] Neste meu artigo já relativamente conhecido, faço um contraponto entre as alegações de James Randi acerca do suposto “charlatanismo” do médium João de Deus, e o estudo estritamente científico da AMB sobre as cirurgias em si. Que cada um decida por si mesmo quem parece ter maior razão.


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Crédito das imagens: [topo] Heritage Images/Corbis (poster do século XIX anunciando as famosas pílulas da vida, supostamente criadas por Thomas Parr, que supostamente viveu até os 152 anos porque supostamente as tomava - um exemplo da extensão do efeito placebo na história recente); [ao longo] History Channel (trecho do programa sobre Tim Cridland)

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27.4.12

Patch Adams Play

» Parte da série: Play a myth

Se houveram aqueles que souberam falar diretamente ao reino da alma, caminharam no mundo também alguns raros seres que adentraram o reino do mito, e dissolveram seus egos num oceano de bem-aventurança. Embora fossem ainda eles mesmos, eram também um portal vivo para o Infinito, habitados pelos mais belos deuses que a mente humana foi capaz de identificar. Estes são os que falam em nome do amor: os santos...

Jogue, represente, interprete, brinque: play a myth.

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(clique na imagem para abrir em tamanho maior)

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Crédito da imagem: Rafael Arrais + Google Image Search

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26.4.12

Um efeito estranho, parte 1

Texto de Mario Beauregard (Ph.D.) e Denyse O’Leary em "O cérebro espiritual” (Ed. Best Seller) – trechos das pgs. 181 a 184. Tradução de Alda Porto. As notas ao final são minhas.

Alguns afirmam que o efeito placebo é mítico, que só se aplica a crédulos, ou até que usá-lo é antiético [1]. Que tal isso? Os mitos populares sobre placebos incluem as ideias de que funcionam apenas durante três meses, ou que só determinado tipo de personalidade reage a eles. Não há limite específico algum para a maioria dos efeitos placebo, nem de “paciente que reage a placebo”.

Mas, acima de tudo, o efeito placebo tem sido uma dificuldade e um problema para estudos sobre [novas] drogas [...]. O jornalista científico Alun Anderson sugere: “Confiança e crença são muitas vezes vistas como negativas na ciência, e descarta-se o efeito placebo como uma espécie de ‘fraude’, porque depende da crença do paciente. Mas a verdadeira maravilha é que a fé pode funcionar”. Anderson identificou uma questão chave. Uma materialista talvez ache que o efeito placebo é uma espécie de fraude exatamente porque indica que a mente pode mudar o corpo [2].

Em consequência, as explicações materialistas do efeito placebo muitas vezes são incoerentes. Por exemplo, quando descrito como a maneira pela qual “o cérebro manipula a si mesmo” [3]. Como vimos, o efeito placebo é de fato disparado pelo estado mental do paciente. Em outras palavras, depende inteiramente do estado de crença dele. Um processo inconsciente iniciado pelo cérebro para manipular a si mesmo (ou qualquer outra parte do corpo) é um processo de cura natural, não o efeito placebo. Por exemplo, houvesse o cérebro dos pacientes que sofrem de doença de Parkinson conseguido manipular a si mesmo e assim curar-se, não se exigiria tratamento algum, placebo, farmacêutico, cirurgia simulada ou real [4].

[...] Desde que começaram os estudos controlados do placebo, uma questão econômica fundamental confundiu o estudo do verdadeiro papel de seu efeito na manutenção da saúde. Não se pode patentear a marca esperança. Se um dado remédio “não age melhor que o placebo”, é uma má notícia para os fabricantes desse medicamente, mesmo que 85% do grupo de controle e 85% do grupo experimental melhorem [5]. A opinião atual de que os estudos mentais são importantes, mas as drogas são poderosas, obstruiu o estudo correto do efeito placebo.

Grande parte de medicina pré-científica dependia do efeito placebo. O fato de esse efeito tantas vezes funcionar ajuda a entender porque muitas pessoas mais tradicionais relutam em abandonar a medicação pré-científica, apesar de suas doutrinas questionáveis e, muitas vezes, perigosas. Lamentavelmente, os clínicos pré-científicos com frequência atribuem seu poder às doutrinas que abraçaram, quando, na verdade, deveriam atribuí-lo aos efeitos que aprenderam por experiência e erro [6]. A pesquisa médica científica começa a ajudar a resolver o dilema aceitando a natureza mental do efeito placebo. Pode-se estudá-lo como um efeito autêntico e, com o poder direcionado, talvez até aumentado, o que é muito mais produtivo do que se continuássemos a tratá-lo apenas como uma chateação.

O perfeito entendimento do efeito placebo também pode evitar algumas óbvias polêmicas atuais. Por exemplo, talvez fosse mais fácil resolver as questões éticas que cercam o uso de células-tronco embrionárias no tratamento da doença de Parkinson se os efeitos placebos explicassem a maior parte do seu valor atribuído. De modo semelhante, tratamentos polêmicos em algumas partes do mundo envolvem as partes do corpo de espécies em risco de extinção. Esses tratamentos devem quase todo seu efeito à crença do paciente na eficácia do tratamento exótico. Uma clara demonstração desse fato pode ajudar nos esforços de conservação [7].

Como vimos, muitas aplicações clínicas fluem de uma visão não materialista da neurociência. Quando tratamos a mente como capaz de mudar o cérebro, podemos tratar doenças cujo tratamento antes era difícil ou impossível. Mas também precisamos de um modelo de como a mente age no cérebro.

» A seguir, o que se especula sobre a interação da mente com o cérebro...

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[1] Este post é centrado no efeito placebo, um fenômeno muito conhecido e descrito pela medicina (inclusive a medicina dita convencional), mas que na prática é tão pouco compreendido quanto a própria mente humana, a grande catalisadora desse tipo de efeito (pelo que se acredita). Para saber mais, consulte este meu artigo: Placebo-nocebo.

[2] Para os materialistas eliminativos é consideravelmente mais complexo: se, como eles sugerem, a mente é apenas uma ilusão persistente, como exatamente ela muda o corpo?

[3] Jon-Kar Jubieta disse assim numa reunião sobre o efeito placebo, realizada pela Sociedade de Neurociência americana, em 2005: “Essas descobertas podem ter tremendo impacto na medicina, além de ajudar-nos a entender como o cérebro manipula a si mesmo”.

[4] O que ele está querendo dizer, e muitas vezes é mal compreendido, é que o efeito placebo não ocorre naturalmente, e sim como parte de um tratamento. É óbvio que, tal qual já dizia Hipócrates, “são nossas forças naturais que curam nossas doenças”, e nesse sentido a saúde sempre surgirá onde a doença não mais se faz presente. Mas, por outro lado, existe uma série de tratamentos não convencionais, associados pela medicina tradicional ao efeito placebo (ex: acupuntura, cirurgias espirituais, florais, reiki, etc.), que parecem efetivamente auxiliar na catalisação do efeito, de modo que, sem eles, o efeito não ocorreria, ou não ocorreria com a mesma eficiência.

[5] Ultimamente não é mais nenhuma novidade no ramo dos remédios para depressão que, conforme inúmeras pesquisas vêm demonstrando, na grande maioria dos casos eles não tenham nenhum efeito consideravelmente maior do que o “puro” efeito placebo, excluindo-se os casos de depressão severa, que têm medicamentos bastante específicos (e, nesses casos, sim, funcionam melhor do que placebos). A despeito disso, existem muitas pessoas no mundo desenvolvido que sofrem de depressão não severa, e compram mensalmente remédios caros que, na realidade, efetivamente funcionam tanto quanto pílulas de farinha.
Sobre o assunto, ver, por exemplo: revista Mente e cérebro (Scientific American/Duetto) nº226 – Antidepressivos são mesmo eficazes? (que foi matéria de capa); e revista Galileu (Globo) nº247 – Antidepressivos funcionam? Veja também esta entrevista com o psicólogo Irving Kirsch.

[6] Em outras palavras, o Dr. Beauregard não está nem um pouco interessado em explicações vagas para curas espirituais, como “Deus te curou” ou “o espírito da Senhora de Branco veio e te abençoou” – para ele, tais explicações são tão inúteis quanto a materialista (ver nota nº3 acima).

[7] Vamos citar um exemplo bem claro: chifres de rinoceronte são apreciados no Oriente como afrodisíacos, causando sua caça e risco de extinção (pois a carne não é sequer aproveitada). Ora, o chifre em pó conterá grandes quantidades de cálcio e fósforo, o que pode realmente aumentar o vigor de pessoas com deficiência desses minerais. Na posse desse conhecimento, algum antigo consumidor de chifres de rinoceronte em pó poderá, portanto, comprar vitaminas com cálcio e fósforo no lugar, auxiliando na preservação da espécie. Este é um caso onde já se tem uma boa ideia do que ocorre, mas muitos outros ainda caem na zona “nebulosa” do efeito placebo, e ainda não são compreendidos.

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Crédito da foto: Jed Share and Kaoru/Corbis (banca com venda de ervas e afrodisíacos em geral, no Marrocos)

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23.2.12

Poligenecentrismo

Trecho do Projeto Ouroboros (a partir deste ponto irei revelar o nome de um terceiro personagem, até então apenas "P.", agora Petrius). Também gostaria de deixar claro que, apesar de tantos meses sem um post desta série, o livro continua a ser elaborado... Ele está hoje mais deste lado do que do outro.

(Otávio) Desde que o DNA foi descoberto, seu conceito tem sido expandido – na maior parte das vezes, muito além dos seus próprios limites – para explicar praticamente qualquer característica das espécies, e mais particularmente do homo sapiens, o ser humano, que é onde pretendo focar nossa análise agora...
Diga-me, Petrius, o DNA pode servir para definir, por exemplo, a cor dos olhos?

(Petrius) Sem dúvida. De fato, foi uma das primeiras capacidades comprovadas em experimentação – se não me engano, nos olhos de uma mosca... Mas certamente isso pode ser estendido ao ser humano.

(Otávio) Ótimo.
E você concordaria se afirmasse que é o DNA que define a pigmentação de nossa pele, tornando ridícula a crença antiga de que existiam raças distintas de homens?

(Petrius) Mas é claro: o genoma do ser humano é praticamente idêntico para toda a espécie, e a variabilidade genética entre um e outro ser humano é tão ínfima que, de acordo com a biologia, não justifica a existência de “sub-espécies humanas”...
Nesse sentido, hoje é perfeitamente válido afirmar que o racismo não é apenas um defeito moral, mas também uma ignorância das leis naturais.

(I.) Interrompe.
E, ainda que existissem, ainda seria absurda a antiga idéia de que certas raças tinham alma, e outras não...

(Otávio) Sorri.
Perfeito, meu amigo. E não esqueçamos que mulheres e animais também têm alma, pois a natureza não opera de modo seletivo, e a vida que anima a bactéria e o roedor é a mesma que eventualmente permitiu que um dia surgisse a espécie humana. Espécie, e não raça!
Mas, prossigamos meus amigos: Meu caro Petrius, você também concorda que o DNA pode ser decisivo na influência do desenvolvimento de cânceres e outras doenças de nascença?

(Petrius) Muitas doenças, incluindo o câncer, podem ter sua probabilidade de incidência aumentada pelo histórico genético da família, ou da hereditariedade genética. Vale ressaltar, no entanto, que em medicina trabalhamos com possibilidades: jamais um médico poderá afirmar, analisando o histórico genético de sua família, que você terá 100% de chance de desenvolver um câncer – seja na infância ou em qualquer outra fase da vida. Ou, pelo menos, até hoje não ouvi dizer de algo assim.
Já para algumas doenças, particularmente em heranças genéticas ligadas ao sexo, podemos realmente ter uma chance de incidência em 100%...

(Otávio) Pois bem, até aqui falamos somente de características físicas associadas à determinação dos genes.
Agora entrarei em terreno mais pantanoso. Meu amigo, você já ouviu falar no “gene da fé”?

(Petrius) Sorri.
Sim, sim, eu já li sobre isso. O vmat2 é um gene isolado por um polêmico geneticista norte-americano [1]. Ele supostamente estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Aparentemente, para este cientista, a fé se resume a estados alterados de consciência que propiciam “bom humor”... Talvez não esteja de todo errado em relação à fé, mas certamente está errado em relação à função desse tal gene. Desnecessário dizer: não há nada comprovado quanto a isso!

(I.) Levanta a mão e articula em desaprovação.
Pois eu diria que está bastante equivocado em relação a ambos!

(Petrius) Sorri.
Tudo bem, não levantemos uma polêmica em torno das idéias de um cientista equivocado. Prossigamos...

(Otávio) Mas a questão é mais importante do que parece...
Ora, esse tal cientista faz parte do ramo de estudos da chamada genética comportamental. Além deste nome curioso para este campo em específico, temos ainda o campo da psicologia evolutiva, que se baseia na teoria de Darwin-Wallace para tentar elucidar as razões para uma série de comportamentos humanos que têm sido identificados conforme padrões específicos, ao longo do tempo.
Você diria, Petrius, que o DNA pode explicar o surgimento de características não físicas desde o nascimento – como a tendência a crer em Deus, a tendência para esta ou aquela inclinação sexual, ou até mesmo a aptidão para música ou matemática?

(Petrius) O DNA, sozinho, não.

(Otávio) Mas você concorda que há muitos desinformados, seguidores cegos das determinações da ciência moderna, que crêem piamente que o DNA opera como uma espécie de “caixa mágica”, ou algum deus, que determina todas as nossas características, físicas, mentais e até mesmo espirituais, numa espécie de determinismo genético que não deve em quase nada a crença no determinismo divino?

(Petrius) Sim, é claro que isso ocorre. Infelizmente nem todos têm a vontade de estudar ciências, ou pelo menos ler divulgação científica. E, ainda pior, muitos de nossos cientistas mais célebres pouco fazem para tentar remediar o problema. Se surge, por exemplo, um cientista genuíno – e não nego que seja, mas cientistas podem estar errados, e muitas vezes estão – afirmando ter encontrado um “gene da fé” ou um “gene da homossexualidade”, ou ainda uma espécie de “tendência a atos de estupro fomentada pela herança genética da espécie” [2], certamente ele ganha um grande espaço na mídia, rapidamente. Mas as experiências que comprovam a falsidade dessas teorias não são anunciadas da mesma forma, e muitas vezes são anunciadas tarde demais.
Mas, se parte da culpa é dos cientistas equivocados, a maior parcela recaí sem dúvida em nosso sistema social: na mídia que confia quase cegamente em qualquer baboseira que surge de uma “fonte científica oficial”, e na própria sociedade que aceita novas determinações científicas, algumas as mais absurdas, de forma passiva, se abstendo de pesquisar por si mesmos e, em última instância, de pensar.
Eu diria, para terminar, que estamos vivendo na era do genecentrismo, ou melhor, do poligenecentrismo, visto que cada ano que passa surge uma nova pesquisa para adicionar um novo gene ao nosso “panteão de deuses genéticos”. Eu admito que gostei da sua analogia, isso nada mais é do que um novo politeísmo, onde deslocamos os deuses naturais, a determinar nossas vidas desde o berço, para esses tais genes “quase divinos”. Vale ressaltar, no entanto, que até o momento a ciência não encontrou um gene que determine quaisquer características não físicas – não encontrou, mas pode ser que um dia encontre, embora eu certamente não me abstenha de duvidar profundamente disso...

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[1] Conforme a nota existente no livro: Trata-se de Dean Hamer. Ele também já afirmou ter encontrado o “gene da homossexualidade masculina”, mas outros cientistas falharam em replicar suas experiências, e ele foi exposto ao ridículo... Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias.

[2] Eva Jablonka e Marion J. Lamb fazem uma crítica muito mais contundente e embasada da “persona púbica” da genética comportamental no livro “Evolução em quatro dimensões”. Ver, por exemplo, um trecho transcrito neste blog: A pornografia científica.

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Crédito da imagem: Mike Agliolo/Corbis

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13.2.12

Que é o efeito placebo?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Hipócrates, “pai da medicina”, dizia que “nossas forças naturais, as que estão dentro de nós, serão as que curarão nossas doenças”. Ele acreditava que a cura estava ligada ao tempo e ao tratamento, mas não se podia prometê-la: nossa saúde dependia muito de nossa vontade de melhora.

Muitos tratamentos “alternativos”, como a acupuntura, despertam polêmica por não se saber exatamente como funcionam, ao menos no Ocidente. A melhora aparentemente inexplicável conquistada através de tratamentos complementares à medicina tradicional muitas vezes é creditada a “crença da melhora”, por vezes chamada de efeito placebo [1].

Não conhecemos muito acerca do efeito placebo, mas os cientistas dizem ser quase certo que passe pela mente humana. Nesse caso, falta explicar como a acupuntura veterinária obteve tanto sucesso nos últimos anos, mesmo no Ocidente [2]. Em suma: se mesmo os animais parecem se beneficiar do efeito placebo, o que seria este efeito exatamente?

[Mori] Já dizia o filósofo alemão Rolf que “todos os animais têm almas, [basta] olhar em seus olhos”. Ele se referia ao Urseele, a alma primeval, “o melhor que há em nós”. Há que se notar a propriedade e relevância dos pensamentos de Rolf, dado que ele era um cachorro, especificamente um terrier Airedale de dois anos de idade.

Ao contar esta história, não pretendo ridicularizar a acupuntura veterinária, pelo contrário, convido todos sim a conhecer melhor a saga de Rolf – Jan Bodeson publicou um livro recente sobre o tema, do qual há um excerto disponível em inglês mas, ainda mais relevante pelo contexto histórico é a obra de Henny Kindermann, publicada em 1922 sobre “O Pensamento a Fala dos Animais”, ou especificamente sobre Lola, filha de Rolf e também um prodígio. Uma tradução ao inglês está disponível completa pelo Projeto Gutenberg.

Logo no início, Kindermann comenta o então recente caso do cavalo Hans. Antes do canino Rolf, o equino Hans demonstrou impressionante capacidade matemática, até que em uma investigação histórica o psicólogo Carl Stumpf demonstrou que o cavalo só acertava a maior parte das respostas quando aqueles que faziam as perguntas sabiam quais seriam as respostas corretas e podiam ser vistos.

O cavalo não sabia aritmética de fato. Para comunicar as respostas ele batia seu casco no chão e apenas observava a pessoa fazendo as perguntas [3]. Pfungst, um perspicaz assistente de Stumpf, notou que pouco antes do número de batidas correto as pessoas exibiam – involuntariamente – maior tensão, até que no número exato de batidas a tensão era aliviada. O Esperto Hans percebia os sinais involuntários de linguagem corporal e parava de bater o casco, tornando-se um gênio que parecia saber tanto quanto os humanos que lhes faziam perguntas. Mas não mais.

A maior lição do que se tornou conhecido como “efeito Hans Esperto” é que os sinais corporais são exibidos involuntariamente. Mesmo após Pfungst descobrir como o cavalo conseguia fazer seu espetáculo, e mesmo ciente de que poderia estar sinalizando ao animal, ainda assim a linguagem corporal podia denunciar suas expectativas. O experimentador pode afetar o experimento das formas mais inesperadas e que devem ser levadas em consideração.

Isolar e controlar melhor estes fatores é sempre um desafio em qualquer experimento científico. Se ele é um problema com animais, é um ainda maior com humanos. Para lidar com isso, duas técnicas são especialmente importantes: a randomização, para impedir que dados sofram uma seleção involuntária, por exemplo; e os testes duplo-cego, onde tanto experimentadores quanto sujeitos desconhecem se são parte do grupo de controle ou não.

Assim, e finalmente chegamos ao ponto, para saber se a homeopatia ou a acupuntura realmente funcionam, pode-se imaginar que testes com animais sejam os mais seguros, mas como Rolf e Hans demonstram, não é o caso. O que sabemos sobre os animais geralmente passa pela interpretação de um ser humano. Mais importante que animais são protocolos rigorosos, randomizados, duplo-cegos, com amostras apropriadas.

Uma das mais extensas e recentes meta-análises sobre a homeopatia, levando em conta este rigor, concluiu justamente que os efeitos clínicos da homeopatia são compatíveis com efeitos placebo. Outro estudo especialmente revelador sobre a acupuntura demonstrou que não é preciso usar agulhas penetrando a pele, tampouco seguir as supostas linhas de energia no corpo que acupunturistas se orgulham em aprender: “acupuntura de faz-de-conta” com palitos de dente cutucando pontos aleatórios do corpo mostrou os mesmos efeitos benéficos. Efeitos placebo, por definição.

Há mesmo discussão sobre se o efeito placebo em geral seria tão poderoso: seu efeito seria maior justamente nas moléstias físicas relatadas subjetivamente pelos pacientes. Mudanças bioquímicas mais objetivas seriam menos acentuadas, sugerindo o efeito placebo como conhecido na literatura científica pode estar ainda sujeito a nuances experimentais tão básicas como o efeito Hans Esperto.

Neste contexto, não é surpresa que exista confusão e um ou outro estudo pretendendo demonstrar a validade desta ou daquela prática “alternativa”. E para quem ria do cão filósofo, bem, ninguém menos que Carl Sagan dedicou longas linhas às impressionantes habilidade lingüísticas de chimpanzés, no que hoje é uma linha de pesquisa vista com mais ceticismo – interpretada como resultado de efeitos não tão diferentes do Esperto Hans.

E Sagan ganhou um Pulitzer por tal livro. Enquanto cachorros, cavalos ou chimpanzés não escreverem livros sem a ajuda de nenhum facilitador humano e a homeopatia ou acupuntura não fornecerem cura comprovada para uma única doença que não possua remissão espontânea, eu recomendaria cautela.

[Del Debbio] A questão do Efeito Placebo é um dos assuntos que mais fascinam e, ao mesmo tempo, mais causam controvérsias entre a classe científica. Apesar de todo o conhecimento que a ciência hoje possui, o efeito placebo ainda permanece um mistério e todo artigo sobre ele ainda é bastante incompleto e controverso. Seu bom ou mau uso pode significar uma vida, principalmente enquanto seus efeitos são pouco conhecidos a fundo e seu funcionamento, isto é, como realmente age o caminho da cura, ainda é alvo de muitas especulações, especialmente se quisermos reduzi-lo apenas ao Plano Físico.

Hoje, a definição oficial é que o Placebo é uma substância inerte ou inativa, a que se atribuí certas propriedades (como as de cura de uma doença) e que, ingerida, pode produzir um efeito que suas propriedades não possuem. Muitas pessoas que ingerem, por exemplo, um pedaço de papel dobrado meticulosamente e contendo uma oração, revelam melhoras de uma doença, imaginando ter tomado um remédio feito especialmente para essa doença. No plano físico, não há explicação aparente. Pela lógica, a cura não deveria ter se realizado. Para os hermetistas, diz-se que a cura ocorreu no Plano Mental e Emocional, e se propagou até materializar-se no Plano Físico, resultando na cura.

Mas o placebo não existe apenas em forma de uma substância. Uma cirurgia espiritual kardecista ou a intervenção de uma entidade da Umbanda, por não poder ser testada pelos métodos científicos atuais, pode ser chamada de placebo. A pessoa operada sente o corte, sente a sutura e fica curada do mal que a afligia sem passar por uma cirurgia convencional. Tais casos, no entanto, são raros demais para serem exaustivamente testados em laboratório, mas temos muitos casos documentados como, por exemplo, o médium João de Deus.

Uma terapia também faz às vezes de um placebo, onde às técnicas dessa terapia se atribui um tipo de cura e isso realmente acaba acontecendo. As chamadas terapias alternativas, como os florais, os cristais, a radiestesia e muitas vezes a própria psicoterapia ainda são consideradas por uma grande parte da ala científica como um placebo, embora a cada dia existam mais e mais trabalhos científicos demonstrando a eficácia de técnicas como florais, acupuntura e Reiki, especialmente em animais.

A resposta placebo é uma pedra fundamental, infelizmente rejeitada na cura mente-corpo. Histórias de cura espontânea ou consideradas “milagrosas” são menosprezadas pela ciência, devido à nossa mente racional, como resultados não confiáveis, quando deveriam ser estudadas a fundo.

Em seu livro “A Psicobiologia de Cura Mente-Corpo”, Dr. Ernest Rossi diz que a premissa da ciência, neste caso, se aproxima de algo como "não é confiável, portanto não é real". Ele explica que, para uma parte da ciência, que tem uma abordagem focada na “venda de alopatia”, o efeito placebo é simplesmente um "fator aborrecido", quando o bem estar mental e emocional do paciente é tão importante quanto matar bactérias.

Se o chamado efeito Placebo realmente tem um papel fundamental no desempenho dos sistemas simpático, parassimpático e nos outros sistemas do organismo, a expectativa de cura pode ser considerada como uma espécie de “certificado de garantia” para o funcionamento do corpo como algo completo (como estudam os hermetistas). De acordo com a teoria espiritualista, o locus de cura está dentro do organismo do próprio indivíduo, bastando ver que algumas doenças, mesmo sem remédio, também se curam espontaneamente. Para outras, mais graves e que já estão plenamente manifestadas no Plano Físico, a cura só será atingida através de alopatia (a solução para este problema, infelizmente, deveria ter sido a prevenção e uma vida mais saudável e a doença é o karma que se adquire por estragar o corpo com maus hábitos, nesse caso). É importante salientar que não se pode generalizar de maneira nenhuma nessa questão, sendo cada caso um caso específico (o que, infelizmente, dificulta a avaliação em laboratórios, causando um círculo vicioso do qual estamos emergindo somente agora).


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[1] Gostaria de deixar claro que não defendo os tratamentos alternativos em substituição aos tradicionais, mas não vejo nenhum problema em usá-los como tratamento complementar, dependendo de cada caso específico.

[2] Sobre o assunto, gostaria de citar o estudo da Associação Médica Brasileira - Acupuntura: bases científicas e aplicações; Assim como esta reportagem do Globo Repórter (30/06/2006), da TV Globo.

[3] No caso dos cachorros citados acima, eles “escreviam” através de batidas de uma das patas dianteiras, de onde seus donos associavam letras do alfabeto – de acordo com o número de batidas em sequencia.

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Crédito da foto: Portal ANDA/Globoesporte (retirada deste artigo da CRMV-AL)

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