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6.5.14

Lançamento: A terapêutica da palavra - da Magia à Psicanálise

As Edições Textos para Reflexão têm o prazer de lançar o primeiro livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração e autor do blog Artigo 19:

"O que possuem em comum um xamã e um psicoterapeuta do século XXI? E o que os diferenciam? Separados pelo tempo e o espaço social, ambos lidam em seus respectivos pressupostos com a complexidade da existência.

Esta obra é uma pequena jornada pela mente humana, em seus níveis cognitivo, emocional e corporal, demonstrando como estes estão relacionados com a linguagem, e em última instância, a própria palavra. Pois tudo é narrativa, dos mitos às notícias, da história dos povos à nossa própria história. Façamos aqui então uma narrativa psicoterápica."

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Abaixo, segue o meu prefácio para o livro...

Cascas de sentimento

Um caçador entra na tenda de um xamã. É um xamã antigo, que o conhece desde que ele nasceu. Como de costume, ele já sabe o que o caçador irá perguntar, “Onde devo caçar amanhã, o que dizem os deuses?”, e se prepara para o início do ritual – afinal, a sobrevivência de toda a tribo depende de boas caçadas.

Deixemos este planeta pequenino girar milhares de vezes em torno de seu astro, e teremos outra cena, onde um executivo, CEO de uma multinacional que vai muito mal na bolsa de valores, adentra a sala do seu terapeuta cheio de questões existenciais e angústias encarceradas em sua infância e adolescência.

As perguntas serão mais complexas e as respostas, provavelmente menos objetivas, mas a função do terapeuta, mesmo assim, não é tão diferente da do xamã. Separados pelo tempo e o espaço, ainda assim continuam lidando com o mesmo elemento – a alma humana, e a complexidade da existência.

Hipócrates, “pai da medicina”, dedicou sua vida ao estudo de formas racionais para o tratamento de doenças. Era avesso a superstição e as práticas de “barganhas” com os deuses em busca de curas milagrosas. Dizia que “tudo acontece conforme a natureza”, que a cura “está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias”, e por isso mesmo nenhum médico poderia prometer cura, e sim tratamento: “Tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que irão curar suas doenças”.

A medicina moderna, no entanto, parece ter a tendência a analisar o corpo como uma máquina. Fascinados pelos avanços da tecnologia, talvez tais médicos pensem que a maquinaria avançada possa fazer todo diagnóstico e tratamento quase que no “piloto automático”, e que eles devem tão somente estar muito bem informados acerca das últimas descobertas das ciências médicas.

Para os materialistas eliminativos, que levam a ideia de “máquina biológica” às últimas consequências, a própria subjetividade, a ideia de que temos uma consciência e que participamos em suas escolhas de alguma forma, nada mais é do que uma ilusão persistente.

Segundo o arqueólogo Peter Watson, “as ciências sociais, psicológicas e cognitivas permanecem enlatadas em palavras e conceitos pré-científicos. Para muitos de nós, a palavra “alma” é tão obsoleta quanto “flogístico”, mas os cientistas ainda usam palavras imprecisas como “consciência”, “personalidade” e “ego”, para não falar em “mente”. Os artistas ainda podem divertir-se com esses conceitos, mas os assuntos mundiais sérios já seguiram em frente” [Not Written in Stone, New Scientist, 29/08/2005].

Sem dúvida que os artistas ainda se divertem. Segundo Alan Moore (vocês ainda ouvirão falar mais dele neste livro), “a magia, como a arte, é uma ciência da linguagem, do uso de símbolos para induzir alterações na consciência”. Isto quer dizer que, se é que existe a alma, ela parece existir neste fluxo de estados de consciência, onde a chave que abre e fecha suas intermináveis portas é nada mais que a palavra, a linguagem.

Dessa forma, das pinturas rupestres ao cubismo de Picasso, dos rituais para Dionísio ao último sucesso da Broadway, das esculturas da Deusa Mãe ao hiper-realismo de Ron Mueck, das antigas máscaras tribais ao garotinho que veste a máscara do Homem-Aranha no último sucesso de Hollywood, estamos ainda, todos nós, encenando os fatos da mente humana através destes símbolos que, a despeito das promessas do racionalismo da pós-modernidade (ou como diabos chamem isto hoje em dia), não estão desvanecendo, não estão indo embora, e jamais irão!

A maior capacidade do ser humano é, afinal, a interpretação de símbolos. É somente isto que nos separa das máquinas mais avançadas, que somente computam, somente seguem algoritmos e programação de ponta, mas não imaginam, não criam, não interpretam; são, enfim, apenas “machadinhas mais elaboradas”.

E, se você, como eu, acredita nisso, esta obra que tem em mãos pode ser de enorme utilidade para que possa conhecer melhor os meandros da sua própria mente, da sua própria alma, e de tudo o que os xamãs, novos ou antigos, têm encontrado em seu vasto universo interior.

Afinal, nós somos universos nós mesmos, com tantos neurônios flutuando em nosso crânio quanto estrelas no espaço-tempo observável, e com tantos mitos e construções da realidade quanto pudemos, ao longo de nossa história, transportar para as palavras e a linguagem.

E, a grande ironia disso tudo é que toda a linguagem humana foi criada, no fundo, para falar daquilo que não pode ser dito. Como diria o poeta inglês, John Galsworthy, “as palavras são apenas cascas de sentimento”.

Cabe aos terapeutas e aos xamãs trazer este sentimento à tona...

Rafael Arrais, Maio de 2014


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2 comentários:

Blogger Musashi disse...

Se o livro se "parecer" com a introdução, vai valer cada página =ppp

Parabéns!

6/5/14 17:54  
Blogger raph disse...

É um pocket book de leitura simples e agradável, embora não deixe de se aprofundar consideravelmente nos temas abordados. É o tipo de livro que, para quem gosta do assunto, deve ser lido em 2 ou 3 dias, no máximo :)

6/5/14 18:37  

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