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9.5.18

Racismo é ignorância (Reflexões no YouTube)

Neste vídeo falo sobre o único código que não surgiu da mente humana, o mesmo que trouxe a mensagem da Natureza, e ela dizia "que só há uma raça humana". Também veremos como nossos ancestrais migraram da África para todos os demais continentes, e ao final ainda temos uma surpresa especial:

Se gostaram, não esqueçam de curtir, compartilhar e se inscrever no canal!


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16.9.15

Human

O cineasta Yann Arthus-Bertrand passou 3 anos coletando histórias reais de mais de 2 mil pessoas em 60 países. Estes relatos pessoais com suas emoções, suas lágrimas e sorrisos, unem a todos nós. Em Human, um documentário monumental de mais de 4 horas, tais relatos são expostos numa determinada sequência que a princípio parece aleatória, mas depois, com o tempo, percebemos que segue um certo "fio da meada", e este fio nos conecta a todos, pelo coração...

Para além dos relatos intensos, profundos, e por vezes extremamente emocionais, tanto de anônimos quanto de famosos, ainda somos presenteados com belíssimas imagens aéreas de nosso planeta, que parecem dividir o documentário em pequenos capítulos próprios. De fato, uma boa forma de encarar essas mais de 4 horas é assistir tais trechos um por um, interrompendo a exibição após o final de uma sequência de imagens aéreas (se estiver logado, o YouTube salva o momento aproximado em que você interrompeu o vídeo):

Human, vol. 1

» Assistir a Human, vol. 2

» Assistir a Human, vol. 3


"Eu sonhei com um filme em que a força das palavras ampliasse a beleza do mundo. As pessoas me falaram de tudo; das dificuldades de crescer, do amor e da felicidade. Toda essa riqueza é o centro do filme Human. Esse filme representa todos os homens e mulheres que me confiaram suas historias. O filme se tornou um mensageiro de todos eles."

Yann Arthus-Bertrand

***

Crédito da imagem: Human/Divulgação

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8.4.15

Adão e Eva eram negros

É bem provável que a maioria dos cientistas não creia, ao menos literalmente, que Adão e Eva foram os primeiros seres humanos. Mas, fato é que os primeiros seres humanos, sejam quais fossem os seus nomes, eram negros. Neste caso já não é uma questão de crença, a ciência já tinha fortes evidências de que o homo sapiens se originou na África [1], e recentemente, com o estudo do genoma humano, chegou à conclusão que a pele branca, clara ou pálida é resultado de uma mutação relativamente recente em nossa história evolutiva.

O estudo, apresentado na 84ª reunião anual da Associação Americana de Antropologia Física, realizada em março de 2015 nos EUA, oferece fortes evidências que os europeus modernos não se parecem muito com os de 8 mil anos atrás.

Um time internacional de cientistas analisou o genoma dos restos de 83 indivíduos encontrados em sítios arqueológicos espalhados pela Europa. Os resultados apontam que a população europeia moderna é uma mistura de pelo menos três antigas populações que chegaram à Europa em diferentes migrações nos últimos 8 mil anos. Comparando com dados do Projeto 1000 Genomas, os cientistas conseguiram encontrar quatro genes associados com as mudanças na pigmentação da pele que passaram por forte processo de seleção natural.

Os cientistas encontraram dois genes diferentes relacionados com a coloração da pele, além de um outro, ligado aos olhos azuis e que também pode contribuir para a pele clara e o cabelo louro. Os humanos modernos que migraram da África para a Europa há cerca de 40 mil anos tinham a pele escura, o que é uma vantagem para regiões ensolaradas. E o estudo confirma que há 8.500 anos, povos caçadores e coletores na Espanha, Luxemburgo e Hungria também possuíam a pele escura, pois eles não tinham os genes SLC24A5 e SLC45A2, que levaram à despigmentação e à pele pálida dos europeus atuais.

Mas no extremo norte, onde os baixos níveis de luz favorecem a pele branca, os pesquisadores encontraram um panorama diferente entre os povos caçadores e coletores: sete corpos do sítio arqueológico de Motala, no sul da Suécia, datados em 7.700 anos, possuíam ambos os genes ligados à pele clara, assim como um terceiro, o HERC2/OCA2, que causa os olhos azuis [2]. Dessa forma, segundo o estudo, os povos caçadores e coletores do Norte da Europa já possuíam a pele pálida, mas os das regiões centrais e sul tinham a pele escura.

Então, os primeiros povos agricultores chegaram à Europa, há 7.800 mil anos, vindos do Oriente Próximo, também carregando os dois genes em questão. Eles se misturaram às populações caçadoras e coletoras e espalharam o gene SLC24A5 pelas regiões Central e Sul da Europa. A outra variante, o SLC45A2, se manteve em níveis baixos de penetração até 5.800 atrás, quando começou a se espalhar pelo continente.

O estudo não especifica porque esses genes passaram por tamanho processo de seleção, mas existe a teoria que a despigmentação serviu para maximizar a síntese de vitamina D, conforme afirmou a paleoantropóloga Nina Jablonski, da Unversidade do Estado da Pensilvânia. Pessoas que vivem em altas latitudes não recebem radiação UV suficiente para sintetizar a vitamina, então a seleção natural pode ter favorecido duas soluções genéticas para a questão: evoluir a pele clara para absorver mais radiação e favorecer a tolerância à lactose, para se digerir os açúcares e a vitamina D encontrados no leite.

“O que nós imaginávamos como um entendimento simples sobre o surgimento da pele despigmentada na Europa, é um emocionante trabalho da seleção” — disse Nina, em entrevista à revista Science — “Esses dados são interessantes porque mostram como se deu a evolução recente.”

Enquanto em boa parte de nossa história o racismo teve suporte na cultura geral, em algumas doutrinas de religiosos equivocados, em filosofias empobrecidas, em políticas públicas desconexas, e até mesmo na própria ciência, é um alento perceber como estavam certos todos aqueles que contemplaram a Natureza e perceberam há eras, pelas mais diversas vias, que somos todos uma única raça. E foi a própria Natureza quem nos contou: o estudo do genoma humano deixa muito claro e cristalino que tudo aquilo que um dia foi chamado de “raça humana” se resume a pequenas diferenças de tonalidade da pele, além de características faciais e capilares, que nem de longe são suficientes para delimitar mais de uma raça de homo sapiens no globo.

De fato, a única outra “raça humana” com quem já convivemos já está extinta, mas há resquícios dela em partes de nossos genes. Os neandertais e os homo sapiens tiveram um breve período de coexistência no Oriente Médio, quando chegaram a gerar filhos uns dos outros. Mas, enquanto os homo sapiens partiram para dominar a Ásia, a Oceania e as Américas (através da Ponte Terrestre de Bering, que hoje derreteu), os neandertais preferiram, por alguma razão, continuar no próprio Oriente Médio e na Europa... Nalgum dia histórico da pré-história, os homo sapiens finalmente decidiram adentrar a Europa, e encontraram seus primos entre uma e outra caçada. O que terão pensado uns dos outros? Teria a tradição oral de suas tribos selvagens conservado as histórias de suas origens em comum? É quase certo que não – é quase certo que se entenderam como seres completamente distintos.

Se há uma “raça pura” entre os homo sapiens, ela é composta precisamente pelos raros povos ancestrais africanos que chegaram aos dias atuais sem jamais terem saído do Continente Mãe. Enquanto a lendária “raça ariana” é na realidade uma grande mistura de migrações genéticas, onde se incluí até mesmo parte do DNA neandertal, a única vertente “pura” dos homo sapiens é negra e africana, como Adão e Eva.

E, se a sedução de pertencer a uma suposta “raça superior” é muitas vezes motivo suficiente para que muitos de nós abandonem o bom senso e as lições de boa convivência, talvez seja a hora de levantarmos um alerta: o racismo não é uma questão de ser ou não politicamente correto, de se ter ou não uma boa capacidade de convivência, o racismo é uma questão de profunda, profundíssima ignorância.

Se nos dias atuais nossos irmãos que carregam os genes de nossa pele original já conseguem ser aceitos e amados quando são craques em seus times de futebol, ou até mesmo quando se tornam presidentes de potências mundiais, isso é muito bom, mas ainda não é o bastante...

Pois se mesmo tais craques da bola volta e meia ainda são obrigados a conviver com torcidas de mentalidade pré-histórica, que se aprazem em atirar bananas nos gramados, e mesmo se em países de primeiro mundo, governados por um presidente de pele negra, nossos irmãos ainda são mortos por policiais com tiros pelas costas, é porque ainda há muita ignorância ainda por ser depurada.

E como vencer a ignorância da alma, senão pela educação da alma?

E como perpetuar a ignorância, senão por uma educação corrompida?

Sim, Adão e Eva, e todos nós, somos negros, pois é negra a nossa cor original, e é negro o continente de onde todos nós um dia saímos para conquistar a Terra. Sim, o Éden, afinal, também é africano... Está na hora de começarmos a reconstruí-lo, no mundo inteiro.

***

[1] Embora também existam outras teorias que afirmam que ele pode ter se originado tanto na África quanto na Ásia Central e na Europa. Em todo caso, o que nos importa neste artigo é que há fortes evidências de que os primeiros homo sapiens eram negros, seja onde tenham surgido.

[2] Novos estudos científicos e antropológicos levam a crer que a própria distinção da cor azul é algo recente em nossa história.

Crédito da imagem: Karin Miller

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8.1.15

As Hiper Mulheres

Ganhador dos prêmios Especial do Juri e de Melhor Montagem no Festival de Gramado, As Hiper Mulheres (2011) intercala linguagem documental e ficção para abordar um ritual raro realizado pelas mulheres da aldeia Kuikuro, localizado no Alto Xingu (MT). Temendo a morte da esposa idosa, um velho pede que seu sobrinho realize o Jamuikumalu, um ritual feminino para que ela cante ainda uma última vez. O ritual consiste, entre outras coisas, em invadir as cabanas dos homens durante a noite e "forçá-los a praticar sexo", provocando os homens da aldeia no que em realidade não passa de uma grande brincadeira (até mesmo porque está sendo filmado).

Infelizmente há muitos que se interessam por este filme pelos motivos errados. Se buscam ver índias e índios nus, ok, vão ver. Mas se buscam por alguma espécie de pornografia ou mesmo erotismo, podem ter certeza de que vão se decepcionar... No entanto, para aqueles que buscam ver os indígenas vivendo suas vidas de forma natural (apesar de se tratar também de uma ficção; aliás, muito bem encenada), este filme pode ser surpreendentemente belo e inspirador!

O filme possuí outro diferencial que aproxima o mensageiro e seu objeto de estudo. A direção é assinada por Carlos Fausto, Leo Sette e Takumã Kuikuro, cineasta e indígena local, com produção do Vídeo nas Aldeias, da Associação Indígena dos Kuikuro do Alto Xingu e do Documenta Kuikuro – DKK. Abaixo segue o filme completo (cerca de 80 min.) no Vimeo, mas se gostarem considerem adquirir o DVD na Livraria Cultura.

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Crédito da foto: Divulgação/As Hiper Mulheres

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6.5.14

Lançamento: A terapêutica da palavra - da Magia à Psicanálise

As Edições Textos para Reflexão têm o prazer de lançar o primeiro livro de Igor Teo, colunista do portal Teoria da Conspiração e autor do blog Artigo 19:

"O que possuem em comum um xamã e um psicoterapeuta do século XXI? E o que os diferenciam? Separados pelo tempo e o espaço social, ambos lidam em seus respectivos pressupostos com a complexidade da existência.

Esta obra é uma pequena jornada pela mente humana, em seus níveis cognitivo, emocional e corporal, demonstrando como estes estão relacionados com a linguagem, e em última instância, a própria palavra. Pois tudo é narrativa, dos mitos às notícias, da história dos povos à nossa própria história. Façamos aqui então uma narrativa psicoterápica."

Comprar versão impressa

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Abaixo, segue o meu prefácio para o livro...

Cascas de sentimento

Um caçador entra na tenda de um xamã. É um xamã antigo, que o conhece desde que ele nasceu. Como de costume, ele já sabe o que o caçador irá perguntar, “Onde devo caçar amanhã, o que dizem os deuses?”, e se prepara para o início do ritual – afinal, a sobrevivência de toda a tribo depende de boas caçadas.

Deixemos este planeta pequenino girar milhares de vezes em torno de seu astro, e teremos outra cena, onde um executivo, CEO de uma multinacional que vai muito mal na bolsa de valores, adentra a sala do seu terapeuta cheio de questões existenciais e angústias encarceradas em sua infância e adolescência.

As perguntas serão mais complexas e as respostas, provavelmente menos objetivas, mas a função do terapeuta, mesmo assim, não é tão diferente da do xamã. Separados pelo tempo e o espaço, ainda assim continuam lidando com o mesmo elemento – a alma humana, e a complexidade da existência.

Hipócrates, “pai da medicina”, dedicou sua vida ao estudo de formas racionais para o tratamento de doenças. Era avesso a superstição e as práticas de “barganhas” com os deuses em busca de curas milagrosas. Dizia que “tudo acontece conforme a natureza”, que a cura “está ligada ao tempo e às vezes também às circunstâncias”, e por isso mesmo nenhum médico poderia prometer cura, e sim tratamento: “Tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que irão curar suas doenças”.

A medicina moderna, no entanto, parece ter a tendência a analisar o corpo como uma máquina. Fascinados pelos avanços da tecnologia, talvez tais médicos pensem que a maquinaria avançada possa fazer todo diagnóstico e tratamento quase que no “piloto automático”, e que eles devem tão somente estar muito bem informados acerca das últimas descobertas das ciências médicas.

Para os materialistas eliminativos, que levam a ideia de “máquina biológica” às últimas consequências, a própria subjetividade, a ideia de que temos uma consciência e que participamos em suas escolhas de alguma forma, nada mais é do que uma ilusão persistente.

Segundo o arqueólogo Peter Watson, “as ciências sociais, psicológicas e cognitivas permanecem enlatadas em palavras e conceitos pré-científicos. Para muitos de nós, a palavra “alma” é tão obsoleta quanto “flogístico”, mas os cientistas ainda usam palavras imprecisas como “consciência”, “personalidade” e “ego”, para não falar em “mente”. Os artistas ainda podem divertir-se com esses conceitos, mas os assuntos mundiais sérios já seguiram em frente” [Not Written in Stone, New Scientist, 29/08/2005].

Sem dúvida que os artistas ainda se divertem. Segundo Alan Moore (vocês ainda ouvirão falar mais dele neste livro), “a magia, como a arte, é uma ciência da linguagem, do uso de símbolos para induzir alterações na consciência”. Isto quer dizer que, se é que existe a alma, ela parece existir neste fluxo de estados de consciência, onde a chave que abre e fecha suas intermináveis portas é nada mais que a palavra, a linguagem.

Dessa forma, das pinturas rupestres ao cubismo de Picasso, dos rituais para Dionísio ao último sucesso da Broadway, das esculturas da Deusa Mãe ao hiper-realismo de Ron Mueck, das antigas máscaras tribais ao garotinho que veste a máscara do Homem-Aranha no último sucesso de Hollywood, estamos ainda, todos nós, encenando os fatos da mente humana através destes símbolos que, a despeito das promessas do racionalismo da pós-modernidade (ou como diabos chamem isto hoje em dia), não estão desvanecendo, não estão indo embora, e jamais irão!

A maior capacidade do ser humano é, afinal, a interpretação de símbolos. É somente isto que nos separa das máquinas mais avançadas, que somente computam, somente seguem algoritmos e programação de ponta, mas não imaginam, não criam, não interpretam; são, enfim, apenas “machadinhas mais elaboradas”.

E, se você, como eu, acredita nisso, esta obra que tem em mãos pode ser de enorme utilidade para que possa conhecer melhor os meandros da sua própria mente, da sua própria alma, e de tudo o que os xamãs, novos ou antigos, têm encontrado em seu vasto universo interior.

Afinal, nós somos universos nós mesmos, com tantos neurônios flutuando em nosso crânio quanto estrelas no espaço-tempo observável, e com tantos mitos e construções da realidade quanto pudemos, ao longo de nossa história, transportar para as palavras e a linguagem.

E, a grande ironia disso tudo é que toda a linguagem humana foi criada, no fundo, para falar daquilo que não pode ser dito. Como diria o poeta inglês, John Galsworthy, “as palavras são apenas cascas de sentimento”.

Cabe aos terapeutas e aos xamãs trazer este sentimento à tona...

Rafael Arrais, Maio de 2014


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5.12.12

A idade do ser, parte 1

Personalidade é o conjunto de características psicológicas que determinam os padrões de pensar, sentir e agir, ou seja, nossa individualidade pessoal e social.

Bem vindo ao baile

Numa sala há três crianças e dois adultos a observá-las. Duas dessas crianças, Sally e Ann, são atrizes mirins, contratadas para o experimento. A outra criança se chama Sarah, e é o objeto do experimento em si – ou, mais precisamente, sua mente.

Na sala, a frente de onde Sarah está sentada (apenas observando, conforme instruída pelos cientistas), há três objetos: uma bola de plástico, um cesto e uma caixa de papelão... Inicia-se o experimento: Sally caminha até a bola, a pega e coloca dentro do cesto. Enquanto a outra garota, Ann, apenas observa, Sally sai da sala. Neste momento, Ann se levanta rapidamente e vai até o cesto, pega a bola e a coloca dentro da caixa, logo voltando para a mesma posição onde estava. Então, cerca de um minuto após, Sally retorna a sala. Ela diz em voz alta: “Quero brincar com a bola!”; e então uma voz de desenho animado ressoa nos alto falantes da sala: “Sarah, onde Sally vai procurar pela bola, no cesto ou na caixa?”. Os cientistas anotam a resposta.

O que este experimento aparentemente bobo (chamado “Teste Sally-Ann”) pode demonstrar é algo extraordinariamente importante para o convívio do ser humano no mundo: a capacidade de compreender o outro como um ente em separado, uma mente que pensa por si mesma.

Caso Sarah responda que Sally vai procurar pela bola na caixa (onde Ann a colocou), ela não demonstrará a capacidade de formular uma teoria da mente, ou seja, de considerar que a mente de Sally está dissociada da sua, e opera por si mesma, portanto não teria como saber que a bola havia sido retirada do cesto no minuto em que se ausentou da sala. No entanto, quando crianças como Sarah respondem que Sally vai procurar pela bola no cesto, e que não irá encontrá-la, demonstram que sua mente já é suficientemente desenvolvida para compreender duas coisas: (a) Que cada mente opera por si mesma, e tem sua própria personalidade; (b) Que exatamente por isso, uma mente pode enganar a outra, mentir.

Estudos recentes [1] mostraram que crianças tão jovens quanto 10 meses de idade já conseguem “passar” neste teste. Algumas crianças autistas terão muito mais dificuldades para chegar a este estado de compreensão “do outro”... Ao que tudo indica, esta capacidade de conviver com outras mentes, e as compreender como dissociadas de nós mesmos, está no cerne de nossas potencialidades sociais, estas que vêm se desenvolvendo desde os primórdios dos hominídeos.

Não é a toa que a mentira e a falsidade são amplamente repudiadas em qualquer grupo ou sociedade: desde a época em que convivíamos em pequenas tribos espalhadas por ermos inóspitos e desconhecidos, precisávamos confiar um no outro – esta era a essência da sobrevivência em grupo. Por mais paradoxal que seja, no entanto, sempre houveram aqueles dentre nós que souberam usar da falsidade para obter vantagens pessoais. Afinal, se podemos enganar as pessoas sem sermos pegos, ou acreditando que não seremos pegos, porque não ir em frente?

Mas ainda assim é preciso tomar muito cuidado. Não muito tempo atrás, quando um marido era traído por sua esposa, estava em seu direito puni-la, às vezes até com a morte. Esta “defesa da honra” pode hoje parecer barbárie (e, de fato, o era [2]), mas diz muito sobre o quanto o ser humano odeia ser passado para trás, principalmente quando acredita estar num certo patamar social, quando crê piamente ser “o dono da situação”.

O que muitos não sabem, no entanto, é que foi o próprio ato mental de reconhecer uma “vontade alheia” no outro que fez com que criássemos nossa própria personalidade. O termo vem do latim persona ou personare, que significa “máscara”, mas há alguns que também o ligam etimologicamente ao latim per se esse, “ser por si”... E, como num baile de máscaras, só entram aqueles que trazem a sua.

Não houvessem outros seres humanos no mundo, ninguém com quem pudéssemos conversar, confiar ou enganar, amar ou odiar, provavelmente não estaríamos aqui pois não teríamos nascido. Mas, se por alguma razão algum deus estranho nos houvesse criado já humanos, a partir do nada, e estivéssemos por aqui sós, não teríamos personalidade alguma: seríamos a mais pura e inocente das pessoas e, provavelmente, a mais ignorante. Talvez por isso os mitos sempre afirmem que fomos criados aos pares: é preciso conviver, é preciso enganar e ser enganado, confiar e ser confiado, odiar e ser odiado, amar e ser amado.

Mas, será que teremos apenas uma única personalidade? E, mesmo que seja apenas uma, será que ela tem se mantido a mesma, exatamente a mesma, ao longo dos anos?

» Em seguida, 15 anos depois...

***

[1] Ver O livro do cérebro (Ed. Duetto).

[2] Inclusive porque, quando ocorria o contrário – o marido trair a esposa –, a esposa traída não tinha, na prática, nenhum direito legal a uma “defesa da honra”.

Crédito da foto: Heide Benser/Corbis

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22.5.12

Os corvos de Wotan, parte 3

« continuando da parte 2

A fonte da sabedoria
Ainda abaixo de uma das gigantescas raízes de Yggdrasil, a árvore cósmica a sustentar todos os reinos míticos da mitologia nórdica, se encontra uma nascente d’água muito especial: Mímisbrunnr. É neste pequeno lago que vivia o Mímir, um reconhecido sábio (seu nome significa algo como “o sábio”, ou ainda “aquele que se lembra”). Odin ficou sabendo da existência desta fonte, que se acreditava dar “a sabedoria de todas as eras” aqueles que a bebiam regularmente (daí a sabedoria do próprio Mímir, seu guardião). Ora, como Odin era um deus que buscava a sabedoria, ele a visitava regularmente para beber um pouco de sua água, assim também ficando amigo de seu protetor.
O que ficou mais conhecido desta história, entretanto, foi o fato de Odin ter arrancado um de seus olhos (não se sabe qual ao certo) e o mergulhado no lago, onde jaz até hoje, oculto no lodo, onde talvez só ele e o Mímir saibam localizar. Diz-se que Odin realizou tal sacrifício em troca da sabedoria do Mímir, mas obviamente algo aqui não faz sentido: se Odin já conhecia a localização do poço, se já era amigo do Mímir, qual seria a necessidade de sacrificar um olho em troca de sabedoria (da qual ele já dispunha gratuitamente)?
Este me parece mais um mito cuja interpretação exige que usemos os olhos da alma, e não do corpo. Para mim, está muito clara a metáfora de “se ter um olho no mundo espiritual, e um olho no mundo terreno”. Ora, por mais que Odin pudesse galopar os céus em seu corcel de oito patas, ele aparentemente não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo, ou pelo menos não podia estar no plano terreno e no plano espiritual ao mesmo tempo. Esta bela história nos aponta, portanto, para um fato bastante conhecido do caminho espiritual, e até mesmo da própria prática da magia ou da mediunidade: abre-se um olho lá, fecha-se um olho cá. Mas, querer fazer ambas as coisas ao mesmo tempo pode nos levar a loucura, a não ser, talvez, que sejamos também da raça dos deuses.

A cabeça perdida e encontrada
Infelizmente o destino do Mímir não foi dos mais agradáveis... Na apocalíptica guerra entre os vanir e os æsir, o Mímir teve sua cabeça cortada por um guerreiro vanir. Ora, os vanir eram um povo relativamente pacífico e místico, que cultuava deuses da fertilidade e da sabedoria, e também se dizia que muitos eram capazes de ver o futuro. Eles já habitavam o norte europeu, mas foram invadidos pelos æsir (ou “meio-deuses”), um conglomerado de tribos guerreiras e expansionistas, que vinham da Ásia e do sul europeu em busca de novos territórios. Como o Mímir, juntamente com Odin, pertencia aos æsir, foram deles a iniciativa do ataque.
Os vanir eventualmente foram conquistados e tornaram-se um subgrupo dos æsir, até que as eras se passassem e todos fossem confundidos com um só povo: o povo nórdico...
Mas, voltando a grande batalha: Odin, não se dando por rogado, encontrou a cabeça perdida do Mímir após o final da chacina e, com sua magia, manteve seu amigo vivo como uma peculiar (e, provavelmente, assustadora) cabeça falante que ele carrega consigo para onde quer que vá – pois o Mímir ainda é um grande e sábio conselheiro.
Esta épica batalha, que poderia ser lamentada como um fato trágico, na realidade é festejada como o alvorecer da civilização – de qualquer civilização, pois todas começaram assim, e todas tem mitos muito próximos [1] –, quando tribos sedentárias e pacíficas, que já dominavam a agricultura, são invadidas e quase dizimadas por tribos nômades guerreiras. Mas, no fim, tudo se ajusta: a cultura das tribos nativas, geralmente mais profunda e espiritual (por se tratar de gente “que tinha tempo de viver, e não apenas caçar e coletar”), é assimilada aos poucos pela cultura invasora, e com o passar dos séculos é como se todas fossem uma só cultura – e, de fato, já o são.
O próprio fato de Odin ainda hoje ser visto como um deus de sabedoria e magia, e não apenas um grande guerreiro, demonstra que talvez, no fim, a cultura dos vanir tenha se sobressaído à cultura dos æsir, e isso talvez indique que ainda podemos ter a esperança de uma volta a este antigo mundo pacífico: onde a fertilidade é mais exaltada do que a ferocidade.
Mas, e quanto à cabeça decepada e falante do Mímir, o que diabos isso significa? Olha, não vou dizer que sei o que isso significa, mas este mito me remete pelo menos a duas considerações: a primeira, é que os nórdicos já sabiam valorizar a importância da cabeça em relação ao corpo, o que a neurociência apenas confirmou; a segunda, é que eles tinham algum senso de humor.

O deus enforcado
Como já disse no início, Odin também é reverenciado por ter trazido ao conhecimento dos homens as runas, que nada mais eram do que o primeiro alfabeto do povo nórdico, o que possibilitou a origem da escrita entre eles. O que eu não mencionei é o quão estranha é, a primeira vista, a história que nos conta como Odin obteve tal conhecimento...
Diz-se que ele, desejando adentrar reinos ocultos do mundo espiritual, enforcou-se na própria árvore cósmica, Yggdrasil, por nove dias e nove noites (nove também são os reinos míticos da mitologia nórdica em geral), enquanto era estocado por sua própria lança (não está claro quem o “auxiliava” neste ritual, talvez fosse ainda o Mímir quando tinha o corpo inteiro)... Ao final de todo esse sacrifício, Odin acordou (se é que ele morreu no processo, entende-se que após os nove dias ele ressuscitou [2]) e trouxe consigo a memória do conhecimento da escrita rúnica.
Ora, sabe-se que todos os deuses inventores da escrita foram grandes, ou ainda são: pois foi exatamente a escrita que possibilitou que o conhecimento sobre eles fosse preservado de forma mais exata (o que não necessariamente é algo sempre bom). No Egito antigo sabe-se que tal tarefa coube ao deus Thoth. Posteriormente, na Grécia, existiu também Hermes, que partilhava de tantas características em conjunto com Thoth, que muitas vezes faziam referência a ambos os deuses sob o título de Toth-Hermes. Entre os romanos, Hermes foi conhecido como o deus Mercúrio e, de fato, muitos historiadores acreditam que os romanos também confundiam Mercúrio com o próprio Odin, quando se referiam aos povos nórdicos – assim, o ciclo se fecha...
Mas, o que me interessa aqui é que todos os deuses inventores da escrita também eram reconhecidos como grandes intermediários entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses, ou seja: eram médiuns, ou xamãs [3].
E é exatamente daí que parte a compreensão do que diabos Odin foi tentar fazer ao se enforcar numa árvore cósmica: ora, é claro que se trata de ainda mais uma metáfora. A árvore Yggdrasil sustenta todo o Cosmos e, dessa forma, o ato de “enforcar-se” nela nada mais é do que o ato de “perder a consciência deste mundo, e viajar com ela alhures”... Além desta referência mais clara ao xamanismo (ou a viagem astral) há ainda a questão das “estocadas de lança”: uma imagem muito comum na arte das cavernas, a arte rupestre, de nossa pré-história longínqua, e que também está intimamente relacionada às práticas xamãnicas.
O ato simbólico de se cortar, espetar, estocar com lanças, ou até mesmo destroçar o próprio corpo, significa, para o xamã, o abandono total do apego ao corpo, para que ele possa se elevar mais facilmente, e mais profundamente, aos reinos etéreos de sua própria alma, ou da Alma do Mundo, ou de Yggdrasil. Estes sacrifícios foram necessários para que os xamãs, os grandes heróis míticos de outrora, pudessem nos trazer conhecimentos ocultos, que podiam variar desde “onde caçar amanhã”, a “quais plantas e ervas coletar para fabricar este ou aquele remédio”, a até mesmo a própria inspiração divina para algo totalmente novo, como a escrita rúnica.

» Na última parte: finalmente, os corvos...

***

[1] No Mahabharata hindu temos histórias de batalhas muito parecidas, de onde surgiram grandes reinos e, eventualmente, a própria civilização. Na Europa não será diferente: mesmo a origem de Roma teve seu episódio de brutalidade para com tribos pacíficas na região próxima. No Brasil, poderíamos nos referir aos indígenas como os vanir, e aos colonizadores europeus como os æsir (como já disse, a história é escrita pelos vencedores).

[2] Avatares que morrem por “x dias” e ressuscitam com novos conhecimentos místicos existem aos montes na mitologia em geral.

[3] Você pode achar estranho o termo “xamã” aparecer toda hora neste relato, e tem toda razão: o termo surgiu do estudo antropológico dos primeiros místicos tribais da Sibéria, mas acabou por ganhar o mundo num significado bem mais amplo, referindo-se a todo e qualquer chefe espiritual tribal de toda e qualquer cultura selvagem antiga. Dessa forma, obviamente os índios do Brasil não chamam a seus xamãs como xamãs, mas sim como pajés, e assim vai... É nesse sentido que os termos “xamã” e “xamanismo” (a prática espiritual do xamã) são utilizados ao longo desta série.

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Crédito das imagens: [topo] viking-mythology.com (A fonte do Mímir); [ao longo] Anônimo

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21.5.12

Os corvos de Wotan, parte 2

« continuando da parte 1

Um dos problemas em tentar se interpretar um mito tão antigo como Odin nos dias atuais é a questão de, obviamente, os dias atuais pouco ou quase nada terem a ver com os dias em que os nórdicos cantavam poemas sobre seu Deus no inverno europeu. Isso também nos leva a uma outra questão, mais profunda, que é a antropomorfização do Deus: ora, fica óbvio que o Odin-homem, filho de Bor, não pode ser o Deus do qual tudo emanou, visto que ele mesmo é filho de ainda outro deus. Mas, pelo que sabemos, Bor é citado diretamente apenas uma única vez em toda a Edda Poética, e não há registro algum de culto a este deus (em qualquer época), de modo que mesmo o fato de Odin ter um pai pode fazer parte dessa transformação do Deus em um homem divino, um deus antropomorfizado em um avatar [1].

Pelo menos neste aspecto continuamos no mesmo barco dos ancestrais europeus: temos uma dificuldade muito parecida em nos referir a Deus sem “esbarrar” em antropomorfizações do tipo. Mas isto, longe de ser um problema para o entendimento da mitologia, é na verdade um ponto de encontro entre a modernidade e a antiguidade. É claro que boa parte da simbologia que foi atribuída ao mito de Odin ao longo dos séculos teve muito a ver com o estilo de vida e as ideias, os anseios e os medos, do povo nórdico... É exatamente quando retiram Deus de seu aspecto incognoscível (ao menos para a grande maioria de nós) e os “trazem para baixo”, para nossa realidade humana, é que encontram inspiração para relatar sua realidade em inúmeras histórias fantásticas, baladas poéticas, salpicadas por panteões de deuses e um imenso conjunto de seres mitológicos, simbólicos. E, exatamente por tais histórias terem essas camadas superficiais de simples entendimento, tornou-se possível que chegassem, boca através de boca, mente através de mente, até os nossos dias atuais.

Isso não significa que não tenham muitos elementos ocultos, eternos, escondidos nas camadas mais profundas de sua narrativa. A questão é: e quem terá a lamparina para iluminar tais locais ocultos e descobrir toda a profundidade do mito? Quem, a não ser você? Quem, a não ser todo aquele que busca compreender a mitologia humana, a nossa história mais profunda, com a mente realmente aberta e arejada?

Estas são algumas das histórias mais profundas acerca de Odin... Acendam as lamparinas:

O deus errante
Talvez a mais antiga forma de representação de Odin seja a do deus errante, a vagar pelo mundo dos homens sem um destino exato, carregando um cajado (ou sua lança usual, mas utilizada como cajado), e vestindo um disfarce de nômade (sem elmos, armaduras, nem nada do tipo). Diz-se também que esta versão do deus tinha características xamânicas, que foram preservadas nas versões posteriores, mas que nesta fase eram mais “aguçadas”... Ora, se formos analisar toda a mitologia, há inúmeros casos de deuses errantes, particularmente entre os africanos, os indígenas das Américas e os xintoístas – o que essa ideia nos conecta, historicamente, é com o período pré-histórico em que fomos caçadores-coletores, e não sabíamos nada de agricultura.
Um deus errante não pode, no entanto, ser o patrono de um panteão de deuses, muito menos o governador de um reino como Asgard. Na época dos caçadores-coletores, não fazia muito sentido imaginar uma hierarquia divina, assim como não fazia muito sentido imaginar uma hierarquia entre as tribos humanas – simplesmente existiam inúmeras tribos, umas amigáveis e outras não, e inúmeros deuses ou espíritos errantes da natureza, uns amigáveis e outros não. Antes da civilização, a espiritualidade era horizontal, não vertical.
Com o surgimento da agricultura, das primeiras civilizações, e da ideia de hierarquia, o mito do deus errante aos poucos foi se transformando no mito do Deus-Pai, o Grande Xamã: não apenas de uma tribo, mas de centenas ou milhares de tribos. Odin era então o deus de todos os povos nórdicos, que agora viviam em vilas e cidades, embora ainda caçassem e guerreassem uns com os outros e, sobretudo, com os povos do sul da Europa.
Talvez por isso, apesar de Senhor de Asgard, Odin nunca tenha deixado de ser também o deus caçador, o deus errante... Você pode achar que o Odin errante jamais exerceu qualquer impacto sobre você, mas isso pode não ser verdade, principalmente se você, como eu, já leu e se maravilhou com os livros do britânico J. R. R. Tolkien – O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Ora, ocorre que Tolkien era um grande fã da Edda Poética e, como tal, introduziu em sua Terra Média inúmeros mitos dela. Um deles era exatamente o mago Gandalf, que é totalmente inspirado pelo aspecto errante de Odin, até mesmo na aparência.

Sleipnir
Diz-se que Odin era muitas vezes visto cavalgando pelos ares em seu cavalo de oito patas (mas nenhuma asa), chamado Sleipnir. Esta é mais uma parte do mito que está claramente associada ao xamanismo. Um cavalo de oito patas já pode ser associado aos transes xamânicos, quando supõe-se que, em estados alterados de consciência, provocados por rituais específicos ou mesmo pela ingestão de plantas e/ou cogumelos alucinógenos, os xamãs antigos (assim como os modernos) tinham visões de animais se metamorfoseando em outros animais, ou adquirindo membros extras, dentre outras alucinações do tipo [2]...
Porém, além disso, Sleipnir era um cavalo voador, o que se trata de uma clara menção as “viagens” em transes xamânicos, assim como uma conexão do mundo terreno com o mundo espiritual, celeste. Esta conexão é reforçada pelo fato de Sleipnir ser também capaz de levar seu cavaleiro até o submundo (o mundos dos mortos), e o trazer de volta são e salvo.
Histórias bem mais recentes, medievais, contam que nos dias próximos ao solstício de inverno, as crianças nórdicas deixavam suas botas com cenouras, feno e açúcar, próximas as chaminés das casas, para que Sleipnir viesse e as comesse. Odin costumava recompensar tais crianças com pequenos brinquedos e doces, que no outro dia eram encontrados dentro das botas. Ora, nem preciso dizer o que isso nos lembra nos dias atuais, não é mesmo? Odin é realmente conhecido por diversos nomes...

Geri e Freki
Odin também era acompanhado por dois lobos ferozes, Geri e Freki. Ambos os nomes significam algo como “guloso”, ou até “vorazmente guloso”. Os lobos de Odin eram conhecidos por comerem bastante, realmente: isto, pois Odin sobrevivia apenas de vinho, e mesmo nas festas em seu salão real, deixava toda a carne ou qualquer outro tipo de alimento sólido para que sues lobos devorassem.
Ironicamente, encontramos uma clara referência ao ascetismo espiritual dentre um mito nórdico [3]. Odin era o Grande Xamã e, como tal, a ele apenas o vinho sagrado era necessário – tudo o que precisava para estabelecer seu poder sobrenatural, que provavelmente tinha muito a ver com as visões experimentadas em transes xamânicos. Essa ideia aparentemente estranha é reforçada pelo fato de outras tantas histórias afirmarem que o vinho de Odin é um poderoso catalisador da criatividade poética, e os poucos bardos que um dia tiveram a grande sorte de provar de seu sabor, compunham a seguir as mais belas e profundas baladas de que se tem notícia. Quem sabe, talvez mesmo os Eddas sejam fruto desta divina bebedeira!

» Na próxima parte: Odin, suas visões do mundo espiritual, e uma estranha cabeça falante...

***

[1] O termo avatar vem do hinduísmo e significa algo como a manifestação de um ser imortal em um corpo, um humano mortal como qualquer outro. Este termo obviamente não era utilizado pelos nórdicos, mas eu o estou citando como forma de me fazer compreender melhor.

[2] Para uma análise mais detalhada do xamanismo em geral, recomendo consultarem a série de artigos Xamãs ancestrais.

[3] Uma outra leitura interessante, paralela a esta, seria identificarmos os lobos Geri e Freki como os aspectos bestiais e animalescos da alma. A aventura de Odin também consistiria, portanto, de um grande autocontrole, para que seus lobos continuassem devidamente “adestrados” e controlados, e comessem “somente quando Odin assim o permitisse”.

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Crédito das imagens: [topo] Georg von Rosen (Odin the Wanderer, 1896); [ao longo] John Howe (Gandalf, 1999); John Bauer (Odin and Sleipnir, 1911)

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25.3.12

Cantos da floresta

O Mawaca é um grupo que pesquisa e recria a música das mais diversificadas etnias do globo buscando conexões com a música brasileira. Formado por sete cantoras que interpretam canções em mais de dez línguas (línguas indígenas brasileiras, espanhol, búlgaro, finlandês, japonês, húngaro, swahili, grego, árabe, hebraico, ioruba e português), o Mawaca revela no seu nome a essência do seu trabalho. Segundo a etnia hausa do norte da Nigéria os mawaka (cantores-xamãs) recorrem ao poder mágico da palavra cantada para atrair o poder dos espíritos.

No documentário Cantos da floresta (com cerca de 27min.), vemos como o grupo foi atrás dos povos antigos da Amazônia, de sua cultura, sua música, e seu espírito... Vemos como, através da música, séculos de opressão podem ser perdoados, e um novo contato, uma nova visão, podem ser reestabelecidos. No fundo, somos todos iguais, e é através desses espelhos entre nós que a luz do espírito tem sua chance de irradiar-se adiante, uma vez mais:

Veja também outros clássicos do Mawaca, ao vivo:

» Ciranda indiana (Brasil/Índia)

» Cangoma me chamou (África/Brasil)

» Lamidbar (Israel)

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10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


» Ver todos os posts desta série


Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

***

[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

***

Crédito da foto: moodboard/Corbis

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9.3.12

Xamãs ancestrais, parte 2

« continuando da parte 1

Ayahuasca é uma bebida produzida a partir de duas plantas amazônicas: Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis. O nome significa, literalmente, a “Videira dos Mortos”. Os cientistas sabem que a ayahuasca produz visões, principalmente por ser rica em DMT, um alucinógeno de ação extremamente rápida. Entretanto, os xamãs ancestrais têm conhecimento considerável do que ocorre após bebermos a ayahuasca, enquanto os cientistas não, principalmente porque a maioria jamais experimentou.

Um antropólogo em Vênus

O tempo passa sem que eu tenha noção. Fecho meus olhos, e um grande desfile de visões subitamente se inicia... Começo a prestar atenção em uma imagem em particular, ou, mais exatamente, a uma área de meu campo visual interno, onde complexos padrões geométricos entrelaçados provam, numa inspeção mais cuidadosa, ser parte de uma grande serpente, aparentemente viva, com sua cabeça e sua cauda afastadas de mim. Posso distinguir as escamas individuais, retangulares, como janelas... Existe um círculo no centro de cada retângulo, círculos púrpura, girando como fogos de artifício, brilhando com a luz escura de um outro mundo onde agora estou... Aqui? Onde é aqui? Por que é um lugar onde vejo cores que não existem na vida cotidiana?

O xamã recomeça a entoar seu ritual. A cantoria inicia em tom mais baixo, mas aumenta, e aumenta... As serpentes são muito grandes, e todo corpo, da cabeça à cauda, é claramente visível para mim. Agora as cores castanho e amarelo predominam. Lendo sobre o assunto, antes de vir a Amazônia, aprendi que pessoas em regiões e culturas diversas, de todo o mundo, encontram serpentes na jornada da ayahuasca... Elas agora formam padrões de rodas e espirais entrelaçados, se fundem e depois se dividem em duplas individuais serpenteando em volta uma da outra, como a dupla hélice do DNA... A náusea chega com força e estou agora vomitando na escuridão...

Saio do círculo ritual e volto após vomitar, agora minha cabeça está aliviada. Então, de repente, dois seres completamente feitos de luz branca surgem a minha frente. São pequeninos – cerca de 1,20m de altura –, mas estou ciente apenas da parte superior de seus corpos, não vejo os pés. Sua faces têm mais ou menos o formato de um coração, com grandes testas e queixos estreitos e pontudos. Narinas e bocas, se é que as tem, são apenas fendas em suas feições suaves. Seus olhos são completamente negros e aparentemente sem pupilas... Eles parecem querer se comunicar. A tentativa de comunicação, que me parece telepática, não está funcionando por alguma razão. Sinto ansiedade e... frustração da parte deles. A náusea retorna, os seres de luz se vão, eu volto a vomitar na escuridão...

Os três últimos parágrafos são trechos (selecionados por mim) dos depoimentos de Graham Hancock [1], pesquisador e escritor britânico que resolveu participar dos rituais xamânicos de povos indígenas da Amazônia e de regiões da África. Em seu monumental Sobrenatural, Hancock parte da análise dos signos e símbolos pictóricos da arte rupestre para fazer uma associação fortuita desse tipo de imagem com as visões “psicodélicas” usualmente experimentadas em tais rituais, pelo menos por aqueles que efetivamente experimentam a ayahuasca, a iboga, e outras bebidas rituais que “trazem visões do outro mundo”. Esta associação não foi ideia original sua, mas sim de David Lewis-Williams, um professor, antropólogo e pesquisador de arqueologia cognitiva sul africano.

Segundo o modelo neuropsicológico de Lewis-Williams, a real origem da arte rupestre e, por conseguinte, da religião primal dos povos da pré-história, poderia ser mais profundamente explicada e compreendida se levarmos em consideração que o que estava sendo ali representado eram visões provenientes de estados de transe e consciência alterada, originários de experiências rituais extremadas (como danças até a exaustão e/ou a repetição de ritmos musicais durante horas e horas de ritual) e, principalmente, da ingestão de bebidas e substâncias naturais alucinógenas. Esta era, segundo sua teoria, a maneira mais simples e lógica de justificar o porquê da arte rupestre ter características tão enigmáticas, não encontradas na natureza, mas que estão representadas tanto em cavernas europeias quanto em inúmeras regiões africanas, distantes milhares de quilômetros, e milhares de anos na história, umas das outras.

Diferentemente das outras teorias propostas pelos antropólogos em quase um século, esta está baseada em evidências bastante sólidas... Que por muito pouco não se perderam para sempre.

Até 1927, ano em que foi dada a última permissão oficial para se caçar bosquímanos, era legal para os brancos da África do Sul assassinar os san, cujas partes dos corpos eram exibidas orgulhosamente como troféus pelos matadores... Não, os bosquímanos, os san, não eram animais, eram seres humanos, como nós. Na realidade, faziam parte de uma das culturas mais ancestrais e persistentes de nossa história, e até meados do final do séc. XIX, ainda praticavam a arte rupestre. Os san eram, portanto, os continuadores de um estilo de arte que perdurou por dezenas de milhares de anos, até que fossem praticamente extintos pelos “grandes colonizadores racionais”. Poderíamos saber, afinal, se a teoria de Lewis-Williams faz mesmo sentido, desde que encontrássemos algum xamã san ainda vivo, e que ainda conhecesse os antigos rituais que originavam as visões representadas na arte rupestre. Alguns xamãs, algum conhecimento, ainda restou, mas o povo san não é mais o mesmo – seu espírito se foi, e com ele, qualquer esperança para que a arte rupestre pudesse continuar sua longa jornada.

Felizmente, alguma evidência restou, mais precisamente cerca de cem cadernos com notas escritas a mão, descrevendo a cultura e os rituais do povo san no final do séc. XIX, quando ainda praticavam sua arte nas pedras e cavernas. As entrevistas foram conduzidas pelo filólogo alemão Wilhelm Bleek e sua cunhada, Lucy Lloyd, dois acadêmicos muito adiante do seu tempo, que anteciparam com muita clareza a aniquilação que então pairava sobre o povo e a cultura san. O conteúdo de seu estudo permaneceu oculto da Academia até a década de 1930, quando um jornal sul africano fez uma breve referência aos cadernos. Apenas em meados das décadas de 1960 e 1970 os cadernos foram novamente mencionados na mídia especializada, até que Lewis-Williams finalmente colocou seus olhos neles: “mas que estranha experiência, folhear 12 mil páginas de cadernos de notas ancestrais, sobrenaturais” – descreveu o antropólogo acerca do evento.

De posse dos registros de uma cultura ancestral perdida, Lewis-Williams finalmente tinha a evidência que faltava para talvez a única teoria científica sólida jamais postulada acerca da real origem dos signos rupestres. Ainda assim, quando Hancock encontrou pessoalmente com o professor sul africano, não resistiu a lhe indagar:

“Afinal, o senhor já experimentou entrar em transe por meio de danças e batuques ritmados de tambor, ou jejuou por 40 dias até delirar, ou tomou o chá da ayahuasca ou qualquer outra substância natural psicoativa?”

Diante da negação veemente, Hancock perguntou o porquê, e Lewis-Williams deu de ombros:

Não quero fundir minha cuca e não estou nem um pouco interessado na experiência.”

Vênus, com sua superfície uniforme e seu brilho incomparável no céu noturno, sempre despertou o sonho da humanidade. A estrela vespertina parecia, certamente, um céu prometido, um mundo de luz... Entretanto, hoje sabemos que sua superfície é inóspita e, na realidade, bem mais próxima dos lagos de enxofre do inferno. Assim, também sabemos, ocorre com as drogas: num primeiro momento são estupendas, maravilhosas, mas depois viciam, e podem nos levar a ruína psíquica... Por tudo o que sabemos acerca delas, não é difícil compreender os motivos que levaram Lewis-Williams a evitar os chás alucinógenos e os estados de transe.

A questão é: os povos antigos sabem muito bem desse perigo, e por isso mesmo jamais se utilizaram de suas plantas sagradas como diversão ou mera busca do prazer. Seus rituais sempre foram controlados, e seus xamãs sempre foram raros, escolhidos a dedo por sabe lá qual entidade... E, exatamente por isso, por terem sido tão poucos e tão especiais, hoje praticamente não existem mais.

Os xamãs ancestrais já se foram há muito, e nem mesmo entre os san restou algum. O espírito de um povo desaparece, e o deixa perdido, atordoado, procurando o suicídio, há menos que tal espírito retorne para os auxiliar, como a estrela da manhã... Mas não é fugindo de Vênus que vamos vislumbrar qualquer esperança de um dia os compreender melhor. Tal qual a ciência enviou sondas robô a estrela vespertina, e hoje a compreende muito mais do que há séculos atrás, os exploradores da mente não têm outra alternativa que não mergulhar neste outro mundo, repleto de serpentes, padrões geométricos, seres de luz e armadilhas na escuridão...

Mas, para tal, sondas e robôs não nos servem, precisamos realizar a travessia por nós mesmos. Graham Hancock teve a coragem de mergulhar no próprio lago em que empreendeu seu extensivo estudo – ele é o nosso antropólogo em Vênus.

» Na continuação: Quimeras mentais, homens feridos, e o delicioso Vin Mariani...

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Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

[1] Retirados do livro recomendado acima.

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Crédito das imagens: [topo] Susan Seddon Boulet (mulher xamã dançando em ritual); [ao longo] Pinturas do xamã peruano Pablo Amaringo, que serviu também como “guia” de Hancock nos rituais com ayahuasca.

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5.3.12

Xamãs ancestrais, parte 1

Arte rupestre é o termo dado às mais antigas representações artísticas conhecidas, algumas datadas do período Paleolítico Superior (40mil a.C.), gravadas em abrigos ou cavernas, em suas paredes e tetos rochosos, ou também em superfícies rochosas ao ar livre.

A capela dentro da terra

Foi uma criança quem as viu pela primeira vez. Maria de Sautuola tinha apenas 8 anos, mas já havia entrado em uma ou outra caverna espanhola com seu pai, que era um arqueólogo amador – ou seja: que trabalha por amor. Por volta de 1870, muitas peças de arte portátil (ossos gravados, galhadas de cervo, marfim de mamute, etc.) foram encontradas em diferentes cavernas na França, sabidamente habitadas por nossos ancestrais do Paleolítico Superior, e era exatamente este tipo de objeto que Marcelino Sanz de Sautuola esperava encontrar naquela relativamente pequena caverna em Altamira, a 30Km de Santander, na Espanha. Não era a primeira visita de Sautuola a caverna descoberta acidentalmente por um capataz da propriedade de um latifundiário local, mas ele esteve sempre procurando objetos no solo, foi Maria quem primeiro teve a curiosidade de olhar para o alto, e as ver.

As pinturas rupestres nos tetos e paredes rochosas da caverna de Altamira estão entre as mais belas de toda a arte da pré-história. Alguns já a chamaram de Capela Sistina do Magdaleniano (período entre 16,5 e 14 mil anos atrás). Imaginem o espanto de Sautuola ao conceber pela primeira vez a dimensão daquela descoberta: bisões realisticamente salpicados por todas as partes da rocha, numa cor surpreendentemente viva a despeito dos milhares de anos passados desde que foram cuidadosamente pintados por artistas ancestrais. Como que espectros a flutuar no ar, eles parecem até hoje nos convidar a uma viagem há uma outra era – quando a alma humana estava presente em cada aspecto da vida, e era reverenciada como aquilo que há de mais sagrado, de mais profundo, de mais primordial...

Embora Sautuola estivesse absolutamente certo acerca da antiguidade da arte de Altamira, ele cometeu três erros quando foi tentar convencer os acadêmicos do final do séc. XIX: o primeiro era ser espanhol; o segundo foi descobrir a caverna na Espanha; o terceiro foi ser um arqueólogo amador. Todas as peças de arte do Paleolítico Superior haviam sido descobertas em cavernas francesas e, sem muita surpresa, as maiores autoridades acadêmicas eram francesas. Emile de Cartailhac e Gabriel de Mortillet eram, na época, os maiores nomes na área. Entusiastas da teoria de Darwin-Wallace e do racionalismo em voga, defendiam que a arte pré-histórica deveria obrigatoriamente ser de técnica e qualidade geral bastante inferior a arte mais moderna, como do Renascimento. Não poderia entrar na mente destes distintos senhores o fato de que nossos ancestrais poderiam pintar tão realisticamente, em cores tão vivas, em formas tão artisticamente impactantes, há dezenas de milhares de anos antes sequer da fundação da primeira civilização, antes da escrita, antes de quase tudo.

Disse Mortillet, tendo visto apenas reproduções das pinturas, sem jamais ter estado pessoalmente em Altamira: “Basta olhar para os desenhos e podemos ver que se trata de uma farsa, nada mais que um embuste. Eles foram feitos e exibidos para todo o mundo de modo que cada um possa dar uma gargalhada à custa dos paleontólogos e pré-historiadores que acreditariam em tudo”. Cartailhac se alinhou ao colega francês, igualmente sem jamais sequer ter viajado a Altamira, supôs com certa convicção que tudo não passava da obra de pastores cristãos da Idade Média, que gostariam que acreditássemos que os ancestrais do Magdaleniano veneravam, quem sabe, “deuses bisões”. Sautuola foi vítima de uma das maiores campanhas de difamação organizadas pela Academia. Segundo o seu neto relembrou já anos após sua morte, “todos os grandes cientistas europeus da época, liderados por Mortillet, e com apenas poucas exceções na Espanha, feroz e maldosamente atacaram a tese de meu avô e acusaram-no de ser um impostor”.

Somente à partir de 1895, quando gravações e pinturas rupestres foram sendo descobertas também em cavernas francesas, com um estilo muito similar ao de Altamira, foi que Cartilhac tomou coragem de ir, finalmente, até a caverna. Em sua volta, escreveu numa revista conceituada um artigo intitulado A gruta de Altamira: mea culpa de um cético. Cartilhac estava então totalmente convencido de que sim, Sautuola tinha razão, desde o início, e a arte pré-histórica poderia, sim, ter uma qualidade técnica surpreendente, muito além do que era cabível se conceber segundo as teorias da época. E pediu sinceras desculpas por ter auxiliado na campanha de difamação de Sautuola: era tarde, o arqueólogo amador já havia morrido, e coube a sua filha continuar seu trabalho. Enquanto esteve na Espanha, Cartilhac escreveu a um amigo francês: “Gostaríamos que você estivesse aqui conosco. Altamira é a mais linda, a mais estranha e a mais interessante de todas as cavernas pintadas”.

Cartilhac morreu em 1921, mas suas teorias já haviam entrado em declínio muito tempo antes, permitindo que seu protegido, o abade Henri Breuil, assumisse o seu lugar. Cada uma das contribuições de vulto que Breuil deu à disciplina da arqueologia até sua morte, em 1961, foram posteriormente descartadas pelos acadêmicos modernos como inteiramente inúteis. As ideias de Breuil, bem como as daqueles outros que ele cooptou ou apoiou, eram genuinamente ruins e foram há muito tempo refutadas pela evidência empírica. Não existem muitos campos em que alguém possa definir dessa maneira todo o saber acumulado de uma disciplina científica em quase 60 anos, mas a pesquisa da arte rupestre é uma delas...

Em todo o mundo atual existem umas poucas centenas de acadêmicos especialistas estudando arte pré-histórica. Os membros dessa “comunidade intelectual” assumem uma pesada responsabilidade – mais de 90% de todas as cavernas pintadas e gravadas do Paleolítico Superior estão permanentemente fechadas ao público, e os pesquisadores, com liberdade de entrar e sair, usufruem de um monopólio da pesquisa básica. Isso lhes permite controlar boa parte da produção de conhecimento sobre o assunto, e assegura que a história que nossa sociedade ouve acerca da vida de nossos ancestrais nas cavernas vá de encontro a sua aprovação. Em um mundo científico racionalista isso significa, obviamente, que toda e qualquer menção a religião, magia, estados alterados de consciência, entidades sobrenaturais e/ou espíritos é permanentemente proibitiva em se tratando de uma teoria acerca das origens e do real significado dos signos da arte rupestre.

Após Breuil, muitas outras teorias estiveram em voga. Já se tentou associar os animais representados na arte rupestre aos totens, mas depois se percebeu que, se assim fosse, cada caverna haveria de ter apenas um único totem animal representado (a caverna do cabrito-montês, a caverna do bisão, etc.), mas vemos uma imensa variedade de animais na grande maioria dos sítios relevantes. Chegaram a afirmar que nossos ancestrais estavam apenas se divertindo, pintando por pintar, para “matar o tempo”, uma grande diversão... Porém, por mais que seja uma ideia “alegre”, fica difícil explicar porque a arte rupestre é encontrada geralmente em cavernas de difícil acesso e, mesmo dentro de tais cavernas, nas áreas mais remotas, algumas das quais só era possível pintar deitado ou agachado, e onde até hoje os exploradores se sentem desconfortáveis em passar apenas algumas dezenas de minutos (isso com lanternas e vestimenta adequada, coisa que os ancestrais não dispunham). Também se falou em uma “magia da caça”, uma análise pobre e superficial da suposta magia em si, que serviria apenas para auxiliar na caça dos animais pintados e gravados nas rochas. Mas hoje se sabe que muitos dos animais representados na arte rupestre sequer eram caçados, sendo que alguns sequer existiam nas imediações (para não falar nos animais que jamais existiram).

O que significam, afinal, homens com cabeça de pássaro, pássaros com pernas de homens, homens se transformando em animais, e animais, em ainda outros animais... Flutuando pela rocha antiga como seres etéreos, sem um sentido de horizonte e perspectiva... O que significam os “homens feridos”, transpassados por dezenas de lanças e flechas, homens a sangrar pelo nariz, a dançar em posições estranhas... E os padrões geométricos, os pontos, as linhas, os zigue-zagues, as serpentes surgindo caoticamente de imagens abstratas. Porque diabos, afinal, a arte rupestre parece mais uma obra de Kandinsky?

Para responder a tais perguntas com alguma sincera esperança de efetivamente chegar a alguma conclusão mais útil que as do último século da arqueologia moderna, um homem precisou, afinal, fazer o que os xamãs ancestrais faziam: ele bebeu do seu chá, e adentrou um outro mundo, dentro de sua própria mente.

» Na continuação, as visões de Graham Hancock...

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Leitura recomendada: Sobrenatural, de Graham Hancock (Nova Era).

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Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (arte rupestre na caverna de Altamira, Espanha); [ao longo] Sisse Brimberg/National Geographic (arte rupestre na caverna de Lascaux, França)

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