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26.2.15

A educação de Casanova, parte 9

Texto recomendado para maiores de 16 anos.

« continuando da parte 8


9.

O crepúsculo tomava rapidamente o céu do Campo do Leblon, mas meus olhos estavam perdidos, enfeitiçados pela pele sideral de Janaína. Seu corpo era tão negro quanto a noite, tão escultural quanto a arte renascentista de meu tempo, e tão excitante quanto o florescimento da primavera. As gotas salgadas que escorriam por entre seus volumosos seios nus, no entanto, disputavam minha atenção com a estranha máscara que cobria seu rosto: uma espécie de rede de onde pendiam inúmeras joias iluminadas, ou talvez fossem estrelas...

O mar estava calmo e soturno, de modo que ela nem precisou sair inteiramente dele. Como uma sereia, manteve somente metade do corpo na superfície, e acenou para mim. Em uma de suas mãos, havia um pequeno espelho, que ela parecia querer me entregar.

Retirei meus sapatos e larguei na areia, dobrei ainda mais a bainha da minha calça, e me encaminhei lentamente, pé ante pé, para aquele mar morno, que guardava lembranças do sol recém-saído de cena. A essa altura a beleza de Janaína era quase insuportável aos olhos. Eu gostaria de poder fazer um elogio digno dela, mas aparentemente ela não entendia a minha língua – quem sabe não entendesse língua alguma, quem sabe a própria linguagem lhe fosse inteiramente inútil.

Finalmente estava ao seu lado, sentindo a sua fragrância marinha, um cheiro qualquer de vida abundante, de fecundidade infinita... Meu coração batia aos solavancos; eu tinha minha cota de amores mortais, mas jamais havia me apaixonado assim por algo divino.

Mesmo por entre a rede estelar que cobria sua face, eu podia sentir que ela sorria. Mas o seu sorriso era ao mesmo tempo algo doce e assustador. Não parecia significar somente uma simpatia pela vida, mas antes um desejo de que a vida caminhasse a frente, sempre a frente... Janaína me estendeu seu espelho, e eu compreendi que ela me convidava para uma grande aventura, talvez a maior delas – uma jornada da qual ninguém poderia retornar igual a como partiu, ocorreria necessariamente uma espécie de “modificação”...

As palavras do velho pescador ressoavam na minha mente, “Para um sujeito qualquer, o encanto dessa moça é muito, muito perigoso!”

Mas retomei minha coragem ao lembrar de que não estava naquela praia à toa, aquilo tudo também fazia parte da reeducação conduzida por meu amigo Asik, ou quem sabe fosse uma ideia exclusiva de sua amada Dunia, mas não importava, em todo caso eu estava no caminho certo, o caminho para a alma...

Tomei o espelho de suas mãos e olhei para o meu próprio reflexo nele. A princípio não pude ver muita coisa, pois o vidro estava muito enferrujado, mas logo Janaína tomou um pouco da água do mar em suas mãos e jogou sobre ele, e pude ver claramente a mim mesmo, naquela bela noite quente, ao mesmo tempo cheio de curiosidade e de angústia... A curiosidade falou mais alto, a curiosidade sempre fala mais alto...

Mergulhei em meus próprios olhos, e era como se houvesse mergulhado no próprio mar, no próprio oceano que separava o Campo do Leblon da terra natal de Janaína – tão distante, e tão próxima!

Lá no fundo submarino, a primeira coisa que vi foi a mim mesmo nos bordéis italianos, há muito tempo, exercendo com maestria minha arte de sedução. Então eu pude rever toda a minha glória sexual, e subitamente pude compreender que aquilo tudo havia sido tão somente um primeiro passo na via do amor. Era verdade que Casanova havia desejado e amado, a sua maneira, cada uma das mulheres que penetrou, mas também me era claro e cristalino, naquele momento no fundo do mar, como minhas penetrações haviam sido superficiais, como havia me dado por satisfeito em me manter somente nas margens da alma, sem jamais mergulhar no fundo do coração de mulher alguma, tampouco no subterrâneo de mim mesmo...

Mas eu não sabia, eu não tinha como saber... Ó Asik, ó Dunia, ó Janaína, me desculpem, eu não tinha como saber! Se soubesse, por um momento, o quão vasto era este oceano dentro de meus olhos, teria contemplado tal espelho há muitos séculos atrás. Enfim, vivemos decerto um dia de cada vez.

Olhei para a superfície das águas, e vi a beleza de minha amada em todo o seu esplendor. Mesmo do alto do céu, a própria lua conseguia trazer o reflexo do sol a escuridão submarina. Então eu pude me reconfortar inteiramente: não havia nada a temer, nem nada a duvidar, não havia por onde pudesse realmente mergulhar para fora dos deuses...


***

Esta foi a nona parte de A educação de Casanova, por raph em 2015.
Comece a ler do início | Veja a parte final


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2 comentários:

Anonymous Henriquess777 disse...

Asik, Dunia, Janaina... excelente escolha de nomes.
:)

18/3/15 19:49  
Blogger raph disse...

:)

19/3/15 10:40  

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