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3.3.17

Reflexões políticas, parte 3

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O debate exterminado

Uma revolução pode ser compreendida de muitas formas. Em certo sentido a história humana, particularmente no campo político, está sempre em revolução, em mudança constante. Também há as revoluções internas, que se dão na mente e na alma de cada um, e as externas, que envolvem mudanças na sociedade em geral. Para não correr o risco de ser mal interpretado, e também para fazer uma separação mais clara entre revolucionários e progressistas, vou usar o termo revolucionário extremista para me referir aos revolucionários radicais. Explico melhor:

Ora, se dissemos que um progressista se diferencia de um conservador pela maneira como compreende a velocidade ideal pela qual devem se suceder as mudanças políticas, sociais e legais, em nenhum momento entendemos que o progressista deva desconsiderar completamente as ideias do conservador, e vice-versa. Afinal, esta é a essência da Política: ouvir o outro lado, buscar o consenso possível entre as ideias aparentemente opostas, sempre considerando que numa democracia há maiorias e minorias, e todas devem ser escutadas quando se trata do debate público.

Assim, um revolucionário extremista é aquele que já não deseja mais dialogar, ouvir o outro lado. Ele está disposto a impor a sua opinião a qualquer custo. Muitos revolucionários deste tipo costumam pegar em armas e criar guerras civis para tentar tomar o poder pela força. Outros, provavelmente os mais perigosos, tentam se eleger por vias democráticas; mas, uma vez no poder, tratam de tentar “mudar as regras do jogo” para que simplesmente não possam mais, nunca mais, perder uma eleição.

Quando um progressista desiste do debate político e passa a crer que a mudança deve ocorrer pela força, seja das armas, seja de um projeto de poder que visa acabar com a democracia em maior ou menor grau, ele se torna um revolucionário extremista. Ou seja, é aquele que crê que o futuro deve ser imposto a força, pois já não há mais tempo para debate algum no presente.

Em reação a tais ideias é que surgem, justamente, os reacionários, que também são revolucionários, só que a revolução deles visa um retorno ao passado que eles conhecem bem (ou pelo menos creem nisso), e não um salto às cegas para um futuro desconhecido. Os conservadores podem se tornar reacionários justamente quando também desistem do debate no presente, e passam a crer que o retorno a “época dourada” do passado, quando “tudo funcionava bem, e havia menos corrupção e crimes em geral”, deva ser realizado igualmente na base da força – o que geralmente envolve golpes militares.

Fica mais simples resumir tudo com uma ideia (considerando que se trata tão somente de um resumo): é quando passam a defender o totalitarismo, ou seja, o fim do debate político e da democracia, que conservadores se tornam reacionários, e progressistas se tornam revolucionários extremistas.

Muito bem, agora só nos resta falar dos totalitarismos em si. Em geral, não é muito difícil compreender o que é o totalitarismo: é onde o debate foi exterminado, e somente uma única vertente política predomina; da mesma forma, geralmente só há de fato um único partido capaz de vencer eleições (isto é, quando há eleições). É também quando a mídia em geral deixa de criticar o seu governo, e passa e exaltá-lo todos os dias (geralmente sendo muito bem paga para tal). Finalmente, os totalitarismos costumam estar ligados a grandes líderes messiânicos, “salvadores da pátria”, por vezes com características mitológicas.

Quando um totalitarismo já está instaurado, as divisões passam a ser entre os que apoiam os totalitários e aqueles que lutam pela liberdade. É neste momento, e somente nele, que os revolucionários e os reacionários podem ser perdoados por se tornarem radicais: é que a Política já foi assassinada, e a luta deles passa a ser pelo retorno da possibilidade do debate. Mesmo aqui, entretanto, é preciso ter muito cuidado: é ponto passivo entre reacionários e revolucionários extremistas que a democracia ou “não existe de fato” ou está em vias de falência, e eles costumam usar essa percepção como justificativa para o seu próprio desejo de impor pela força as suas próprias ideias. Podemos, quem sabe, julgar assim: se ainda há um Congresso funcionando, por mais corrupto que seja, ainda há representação política, e a democracia ainda vive – mesmo que com a ajuda de aparelhos.

Por convenção de quase todos os comentaristas políticos, o que determina o alinhamento dos totalitarismos em esquerda ou direita já não é mais o aspecto econômico, e é precisamente aqui que o nosso precioso Diagrama de Nolan começa a rachar – mas tudo bem, ele não poderia mesmo resumir toda a complexidade das nossas ideias políticas. Assim sendo, a minha análise abaixo tenta buscar mais o bom senso do que a rigidez geométrica:

Um totalitarismo de esquerda costuma estar mais alinhado, obviamente, aos revolucionários extremistas. Ele geralmente se inicia por revolta popular ou guerra civil, e busca erradicar em boa medida o passado, isto é: o sistema político, legal e social que estava instaurado. É também muito comum, como já dito acima, que um totalitarismo de esquerda surja de um projeto de poder que se elegeu democraticamente, mas que busca acabar com a democracia uma vez no poder. É muito raro ver um totalitarismo de esquerda tomar o poder com a ajuda de algum poder religioso organizado, pois eles geralmente favorecem a tradição antiga. Apesar de estar ligado inicialmente a movimentos populares, o resultado final desse tipo de totalitarismo costuma ser a mera substituição de uma elite por outra.

Por oposição lógica, um totalitarismo de direita costuma estar mais alinhado aos reacionários. Ele geralmente se inicia por um golpe militar, muitas vezes com algum apoio do poder religioso já estabelecido, que prefere conservar a tradição como está, e das elites financeiras e midiáticas, que obviamente preferem manter a sua partilha atual das riquezas. Ele busca se livrar do futuro, e na medida do possível retroagir aos sistemas do passado, particularmente no que tange a legislação mais conservadora. Não é raro vermos um totalitarismo de direita estar alicerçado numa narrativa quase mitológica da história de um país, que é muitas vezes apenas uma invenção (o que às vezes também pode ser chamado de nacionalismo radical).

Muitas vezes vemos discussões acerca de “qual totalitarismo matou mais?”. Nesse sentido, acho proveitoso consultarmos o historiador Leandro Karnal:

Matamos em nome do capital e em oposição ao capital. Matou-se em nome de Deus e matou-se em nome da negativa de Deus. Houve genocídio no Congo pelo capitalista e católico Rei Leopoldo da Bélgica. Houve genocídio na Ucrânia pelo ateu socialista Stalin. Parece que matar é um prazer acima do modelo político ou da opção religiosa. [1]

A moral da história é que, seja de esquerda ou de direita, todo o totalitarismo é igualmente ruim na medida em que cerceia a liberdade, sufoca a democracia e, inevitavelmente, tolhe a possibilidade do florescimento da Política.

Assim acredito que tenhamos percorrido em boa medida o Diagrama de Nolan. Mas, se ele se rachou um pouco em nossa análise dos totalitarismos, em breve ele irá se quebrar por completo, quando falaremos de globalização e globalismo, e de como o que era direita pode ter virado esquerda, e vice-versa.


» Nalgum dia, virá a parte 4.

***

[1] Retirado do artigo O fantasma de Stalin.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Charlie Chaplin em O Grande Ditador); [ao longo] Pawel Kuczynski

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