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3.3.17

Reflexões políticas, parte 3

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O debate exterminado

Uma revolução pode ser compreendida de muitas formas. Em certo sentido a história humana, particularmente no campo político, está sempre em revolução, em mudança constante. Também há as revoluções internas, que se dão na mente e na alma de cada um, e as externas, que envolvem mudanças na sociedade em geral. Para não correr o risco de ser mal interpretado, e também para fazer uma separação mais clara entre revolucionários e progressistas, vou usar o termo revolucionário extremista para me referir aos revolucionários radicais. Explico melhor:

Ora, se dissemos que um progressista se diferencia de um conservador pela maneira como compreende a velocidade ideal pela qual devem se suceder as mudanças políticas, sociais e legais, em nenhum momento entendemos que o progressista deva desconsiderar completamente as ideias do conservador, e vice-versa. Afinal, esta é a essência da Política: ouvir o outro lado, buscar o consenso possível entre as ideias aparentemente opostas, sempre considerando que numa democracia há maiorias e minorias, e todas devem ser escutadas quando se trata do debate público.

Assim, um revolucionário extremista é aquele que já não deseja mais dialogar, ouvir o outro lado. Ele está disposto a impor a sua opinião a qualquer custo. Muitos revolucionários deste tipo costumam pegar em armas e criar guerras civis para tentar tomar o poder pela força. Outros, provavelmente os mais perigosos, tentam se eleger por vias democráticas; mas, uma vez no poder, tratam de tentar “mudar as regras do jogo” para que simplesmente não possam mais, nunca mais, perder uma eleição.

Quando um progressista desiste do debate político e passa a crer que a mudança deve ocorrer pela força, seja das armas, seja de um projeto de poder que visa acabar com a democracia em maior ou menor grau, ele se torna um revolucionário extremista. Ou seja, é aquele que crê que o futuro deve ser imposto a força, pois já não há mais tempo para debate algum no presente.

Em reação a tais ideias é que surgem, justamente, os reacionários, que também são revolucionários, só que a revolução deles visa um retorno ao passado que eles conhecem bem (ou pelo menos creem nisso), e não um salto às cegas para um futuro desconhecido. Os conservadores podem se tornar reacionários justamente quando também desistem do debate no presente, e passam a crer que o retorno a “época dourada” do passado, quando “tudo funcionava bem, e havia menos corrupção e crimes em geral”, deva ser realizado igualmente na base da força – o que geralmente envolve golpes militares.

Fica mais simples resumir tudo com uma ideia (considerando que se trata tão somente de um resumo): é quando passam a defender o totalitarismo, ou seja, o fim do debate político e da democracia, que conservadores se tornam reacionários, e progressistas se tornam revolucionários extremistas.

Muito bem, agora só nos resta falar dos totalitarismos em si. Em geral, não é muito difícil compreender o que é o totalitarismo: é onde o debate foi exterminado, e somente uma única vertente política predomina; da mesma forma, geralmente só há de fato um único partido capaz de vencer eleições (isto é, quando há eleições). É também quando a mídia em geral deixa de criticar o seu governo, e passa e exaltá-lo todos os dias (geralmente sendo muito bem paga para tal). Finalmente, os totalitarismos costumam estar ligados a grandes líderes messiânicos, “salvadores da pátria”, por vezes com características mitológicas.

Quando um totalitarismo já está instaurado, as divisões passam a ser entre os que apoiam os totalitários e aqueles que lutam pela liberdade. É neste momento, e somente nele, que os revolucionários e os reacionários podem ser perdoados por se tornarem radicais: é que a Política já foi assassinada, e a luta deles passa a ser pelo retorno da possibilidade do debate. Mesmo aqui, entretanto, é preciso ter muito cuidado: é ponto passivo entre reacionários e revolucionários extremistas que a democracia ou “não existe de fato” ou está em vias de falência, e eles costumam usar essa percepção como justificativa para o seu próprio desejo de impor pela força as suas próprias ideias. Podemos, quem sabe, julgar assim: se ainda há um Congresso funcionando, por mais corrupto que seja, ainda há representação política, e a democracia ainda vive – mesmo que com a ajuda de aparelhos.

Por convenção de quase todos os comentaristas políticos, o que determina o alinhamento dos totalitarismos em esquerda ou direita já não é mais o aspecto econômico, e é precisamente aqui que o nosso precioso Diagrama de Nolan começa a rachar – mas tudo bem, ele não poderia mesmo resumir toda a complexidade das nossas ideias políticas. Assim sendo, a minha análise abaixo tenta buscar mais o bom senso do que a rigidez geométrica:

Um totalitarismo de esquerda costuma estar mais alinhado, obviamente, aos revolucionários extremistas. Ele geralmente se inicia por revolta popular ou guerra civil, e busca erradicar em boa medida o passado, isto é: o sistema político, legal e social que estava instaurado. É também muito comum, como já dito acima, que um totalitarismo de esquerda surja de um projeto de poder que se elegeu democraticamente, mas que busca acabar com a democracia uma vez no poder. É muito raro ver um totalitarismo de esquerda tomar o poder com a ajuda de algum poder religioso organizado, pois eles geralmente favorecem a tradição antiga. Apesar de estar ligado inicialmente a movimentos populares, o resultado final desse tipo de totalitarismo costuma ser a mera substituição de uma elite por outra.

Por oposição lógica, um totalitarismo de direita costuma estar mais alinhado aos reacionários. Ele geralmente se inicia por um golpe militar, muitas vezes com algum apoio do poder religioso já estabelecido, que prefere conservar a tradição como está, e das elites financeiras e midiáticas, que obviamente preferem manter a sua partilha atual das riquezas. Ele busca se livrar do futuro, e na medida do possível retroagir aos sistemas do passado, particularmente no que tange a legislação mais conservadora. Não é raro vermos um totalitarismo de direita estar alicerçado numa narrativa quase mitológica da história de um país, que é muitas vezes apenas uma invenção (o que às vezes também pode ser chamado de nacionalismo radical).

Muitas vezes vemos discussões acerca de “qual totalitarismo matou mais?”. Nesse sentido, acho proveitoso consultarmos o historiador Leandro Karnal:

Matamos em nome do capital e em oposição ao capital. Matou-se em nome de Deus e matou-se em nome da negativa de Deus. Houve genocídio no Congo pelo capitalista e católico Rei Leopoldo da Bélgica. Houve genocídio na Ucrânia pelo ateu socialista Stalin. Parece que matar é um prazer acima do modelo político ou da opção religiosa. [1]

A moral da história é que, seja de esquerda ou de direita, todo o totalitarismo é igualmente ruim na medida em que cerceia a liberdade, sufoca a democracia e, inevitavelmente, tolhe a possibilidade do florescimento da Política.

Assim acredito que tenhamos percorrido em boa medida o Diagrama de Nolan. Mas, se ele se rachou um pouco em nossa análise dos totalitarismos, em breve ele irá se quebrar por completo, quando falaremos de globalização e globalismo, e de como o que era direita pode ter virado esquerda, e vice-versa.


» A seguir, o que Donald Trump e um punhado de manifestantes da esquerda peruana têm em comum.

***

[1] Retirado do artigo O fantasma de Stalin.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Charlie Chaplin em O Grande Ditador); [ao longo] Pawel Kuczynski

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26.2.17

Reflexões políticas, parte 2

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A tradição em reforma

Se imaginarmos a linha que liga os extremos de esquerda e direita econômica (dos quais falei no último artigo) como um plano horizontal, e uma outra linha vertical cortando esta primeira ao centro, em que no topo temos um extremo de totalitarismo governamental, onde geralmente a democracia é inexistente ou precária, e na ponta inferior, uma forma de governo plenamente democrática, que garante todas as liberdades individuais de seus cidadãos, então chegaremos a uma das versões do Diagrama de Nolan (ver a imagem acima).

David Nolan, um ativista político americano, criou este diagrama em 1969. Nolan via uma esquerda progressista que defendia somente as liberdades individuais, mas era favorável a intervenções do Estado na economia, ao mesmo tempo em que percebia na direita conservadora de seu país uma defesa somente da liberdade do Mercado, e não exatamente dos indivíduos (por exemplo, a união estável entre casais homossexuais não era então reconhecida pela lei). Assim, Nolan adicionou mais um eixo na divisão entre esquerda e direita, como forma de divulgar as ideias do libertarianismo, que defende uma regulação estatal mínima tanto na economia quanto na vida pessoal de cada cidadão [1].

De certa forma, é impossível defender a democracia plena sem concordar em alguma medida com o libertarianismo, mas antes de falar de totalitarismo e liberdade, eu vou falar de conservadorismo e progressismo:

Podemos considerar que desde os girondinos e jacobinos, na Revolução Francesa, o mundo político (principalmente o ocidental) tem avançado em suas reformas passo a passo, ora estimulado pelos reformistas, ora refreado pelos tradicionalistas. Obviamente que os tradicionalistas são conservadores e defendem que as reformas sejam feitas da forma mais lenta e gradual possível, preocupados que são com a possibilidade de que uma série de passos descuidados a frente venham a precipitar todo o sistema num abismo do qual necessitará de muitas gerações para escapar; os reformistas, pelo contrário, acreditam que as mudanças vêm ocorrendo de forma muito lenta, e que o progresso social deve se dar de forma mais urgente, ainda que alguns passos apressados eventualmente possam nos levar para algumas armadilhas pelo caminho.

É muito importante notar que ambos os movimentos creem que é necessário o aprimoramento das leis e das condições sociais, eles tendem a discordar apenas na velocidade em que tais mudanças devam ocorrer para que elas de fato funcionem da melhor forma. Quando compreendido desta forma, não há a menor razão para que o debate entre conservadores e progressistas se dê de forma dogmática, crendo que o pensamento oposto está intrinsecamente errado: é provável que o melhor caminho surja precisamente do consenso entre eles. A isto chamamos, mais uma vez, Política.

Vamos citar um exemplo contemporâneo: em junho de 1971, o então presidente dos EUA, Richard Nixon, afirmou numa conferência de imprensa que o abuso do uso de drogas ilegais era o “inimigo público número um” dos Estados Unidos. A chamada Guerra às Drogas, que já estava em curso, se radicalizou bastante nas décadas seguintes. Com o passar dos anos, entretanto, muitos pensadores progressistas começaram a alertar para o fato de que ela se parecia muito mais com uma espécie de “enxugamento de gelo”; que, além de não resolver definitivamente o problema, ainda transferia muitos recursos para o crime organizado, conforme havia ocorrido no período da Lei Seca, quando os americanos continuaram consumindo bebidas de um jeito ou de outro, e Al Capone se tornou um criminoso célebre pelo seu poder.

A ideia dos progressistas não era afirmar que o consumo de toda e qualquer droga deveria ser liberado e estimulado mas, pelo contrário, de que as dependências químicas seriam melhor administradas e tratadas pelos médicos do que pelos policiais. Para quê, afinal, gastar imensos orçamentos em segurança pública somente para impedir que um cidadão se aproxime das drogas se a experiência milenar da relação entre seres humanos e substâncias do tipo tem nos dito que isto provavelmente jamais irá acabar?

Ora, os primeiros progressistas que vieram com este papo foram demonizados, como é comum ocorrer com todos aqueles que se erguem para criticar o senso comum: “as drogas fazem mal!”... Foi preciso que algumas décadas se passassem para que, tal qual água mole batendo em pedra dura, o seu discurso começasse a ser assimilado pela sociedade em geral. Hoje, temos muitos políticos que foram convencidos de que a Guerra às Drogas, afinal, tem feito mais mal do que bem – um dos que mudaram de ideia foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, muitos estados americanos seguiram os exemplos de diversos países europeus, e legalizaram a venda da maconha, que sozinha respondia por bem mais da metade do lucro dos traficantes ilegais. O país que inaugurou a Guerra às Drogas hoje tem dificuldades em saber o que fazer com tanto dinheiro arrecadado nos impostos deste novíssimo mercado. Uma boa dica seria: investir em clínicas públicas de tratamento de dependentes químicos. Assunto resolvido.

Mas é claro que tal mudança não se deu da noite para o dia, e passou por anos de debates e da cuidadosa elaboração de planos de legalização. É possível que em muitos países a liberação da venda da maconha tenha aumentado, e não diminuído, o número de usuários, mas o que não podemos dizer é que o tratamento dos dependentes piorou – afinal, nesses países hoje eles são considerados doentes, e não criminosos.

No exemplo acima falamos de um debate entre progressistas e conservadores que varou décadas, mas que no fim das contas parece ter chegado a um consenso vantajoso para todas as partes envolvidas. Provavelmente, daqui a mais algumas décadas, o período em que a maconha foi considerada proibida será lembrado da mesma forma que hoje é lembrada a Lei Seca. Hoje, é ponto passivo entre a grande maioria dos conservadores que a Lei Seca foi um erro.

Isto não quer dizer, no entanto, que os conservadores estarão sempre errados, e que a tendência natural da história seja comprovar os seus equívocos: mesmo no campo das drogas, há muitas delas potencialmente muito mais perigosas que a maconha, e que não respondem sozinhas por um lucro muito expressivo do tráfico. É possível que elas devam permanecer proibidas, e assim, percebemos que os conservadores também tinham razão. Após essa reflexão, podemos afirmar com certa convicção que um mundo sem conservadores seria tão trágico quanto um mundo sem progressistas.

O mesmo talvez não possa ser dito dos extremistas reacionários, revolucionários e totalitários, mas fato é que estes também compõem o nosso espectro político de dois eixos. Mas este artigo já se estendeu o suficiente, precisarei usar o próximo para falar deles...


» A seguir, como exterminar o debate e sempre ter razão.

***

[1] Os críticos de Nolan chamam o seu Diagrama de Propaganda de Nolan, mas creio que em geral ele é muito útil para esclarecer as ideias políticas que não tem a ver com economia.

Crédito das imagens: [topo] raph (minha adaptação do Diagrama de Nolan); [ao longo] Google Image Search (Al Capone)

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24.2.17

Reflexões políticas, parte 1

O parto de um novo mundo

Era uma vez um grande mercado de peixes situado numa grande metrópole. Todo dia, ainda antes do sol nascer, muitos compradores representantes dos mais badalados restaurantes japoneses da cidade vinham comprar salmão a peso de ouro. Esse pessoal sabia que o salmão de maior qualidade tem a cor da carne avermelhada, e por isso pagava mais caro por ele.

Com o tempo, no entanto, começaram a surgir boatos de que os vendedores do mercado estavam passando gato por lebre, ou seja, fingindo vender um salmão de maior qualidade, quando na verdade se tratava de salmão de cativeiro, onde os criadores usavam corantes artificiais na ração para conferir a mesma cor avermelhada ao produto final.

Os consumidores vieram questionar os comerciantes do mercado, e estes lhes responderam mais ou menos assim: “Olha, a única forma que teríamos para nos certificar de que todo o salmão é da mesma qualidade seria contratarmos especialistas independentes para trabalharem nessa regulação; isto, no entanto, aumentaria consideravelmente o preço do salmão por aqui”.

Neste momento, os compradores tiveram de se deparar com um imenso dilema, que na verdade explica boa parte da discussão política e econômica da modernidade: o que é mais vantajoso, um mercado desregulado que vende produtos mais baratos, porém potencialmente perigosos, ou um mercado regulado que vende produtos mais caros, por uma promessa de maior segurança?

Na verdade, usei a metáfora do salmão somente pela simplicidade mesmo, pois hoje em dia a quase totalidade deste mercado não passa por uma regulação minuciosa. No entanto, há muitos outros mercados que necessitam de regulação, seja para combater os monopólios e carteis de grandes empresas, seja simplesmente para resguardar os direitos dos consumidores de não serem enganados na cara dura.

O bom senso nos indica algo até mesmo óbvio, e que de certa forma já ocorre em boa parte do mundo: há que se ter uma certa regulação dos mercados, mas não ao ponto de torná-los inviáveis para os comerciantes – afinal todo comércio necessita de algum lucro, do contrário ninguém iria arriscar seu rico dinheiro investindo nele.

No entanto, o ser humano sofre de uma latente e um tanto resiliente atração pelo maniqueísmo. Mani foi um filósofo cristão do século III que propunha que o mundo era o palco de uma guerra eterna entre um Deus Bom e um Demônio Mal. Claro que o maniqueísmo, assim como o zoroastrismo que foi sua fonte original, são bem mais complexos do que esta dualidade superficial dá a entender... mas, como muitas outras doutrinas e filosofias, o maniqueísmo passou para a enciclopédia da história de uma forma um tanto resumida, e este resumo decaiu precisamente neste “dualismo ralo”.

Assim, nas visões econômicas atuais, podemos tentar distribuir as ideias numa linha com dois pontos opostos: na extremidade esquerda, temos a ideia de que o Estado deve regular praticamente tudo, inclusive o quanto cada comerciante pode ter de lucro em sua atividade, pois que a distribuição de toda e qualquer renda excedente garantirá que tudo funcione bem para todos; já na outra ponta, a direita, temos a ideia de que o Mercado deve ser regulado o mínimo possível, deixando que os comerciantes lucrem o quanto conseguirem, pois que o livre mercado e a concorrência garantirão que tudo funcione da melhor forma.

Se recorrermos novamente ao bom senso, veremos que qualquer uma das extremidades desta linha, quando livre das considerações opostas, na realidade não funciona assim tão bem quanto o prometido. E, se é difícil imaginar os motivos, basta recorrer a nossa história recente para vermos inúmeros exemplos de como guinadas muito grandes para uma das duas pontas costumam terminar em tragédias econômicas, principalmente em se considerando um mundo cada vez mais globalizado, onde o mercado de peixes se estende por todos os continentes.

Talvez não tenha sido por uma razão puramente econômica que os modelos comunistas, baseados em alta regulação estatal, tenham desmoronado junto com o Muro de Berlim, mas o fato é que não deram muito certo. Por outro lado, nós estamos atualmente vivendo uma das maiores crises econômicas da história, e ela se originou precisamente pela falta de regulação do mercado imobiliário americano. Ou seja, não é preciso ser especialista em economia global ou análise política para compreender o óbvio: nós precisamos das duas coisas, a regulação estatal e o livre mercado, funcionando em harmonia.

Por que diabos então as pessoas ainda brigam tanto por conta disso? É a pergunta que necessariamente surge desta pequena reflexão.

Eu confesso a vocês que, se tal pergunta fosse simples de ser respondida, o mundo seria outro – no mínimo, as pessoas iriam economizar bastante tempo em debates nas redes sociais.

Mas, eu proponho responder a tal indagação com uma outra, que talvez nos ajude a chegar mais próximo de um entendimento mais abrangente da questão: Imaginem se todas as pessoas fossem de esquerda ou de direita, e concordassem em absolutamente tudo no que hoje teimam em discordar?

Nós tivemos muitos períodos históricos em que o debate político teve, oficialmente, somente um lado. No entanto, nos países e regiões do planeta que passaram por tais períodos, tivemos os governantes mais sangrentos, e os regimes mais totalitários, seja num extremo, seja noutro.

Aqui neste blog vocês devem ter percebido que eu tento evitar, na medida do possível, falar de Política. Assim, não foi da noite para o dia que eu decidi voltar ao tema. A realidade é que nosso mundo passa por mais um período raro da história humana: aqueles períodos em que os sistemas antigos já faliram, são como zumbis se arrastando pela estrada, mas os novos sistemas ainda não tiveram tempo de nascer.

Eduardo Galeano vislumbrou tal gestação numa praça espanhola durante uma manifestação popular, e chegou a sábia conclusão de que “este mundo de merda está grávido de um outro, e são os jovens que nos levam adiante”... Assim, eu não tenho grandes pretensões de ver tal nascimento nos anos ou nas décadas seguintes, mas penso que talvez alguém que esteja lendo isso possa um dia viver lá.

Esta minha singela nova série de reflexões políticas não procurará tratar de nada senão deste parto de um novo mundo. A única coisa que peço aos que por ventura se interessarem em prosseguir é que compreendam que a Política não se faz pelo extermínio da esquerda ou da direita, mas pelo consenso e a harmonia possível entre elas.

A Política existe para que os debates e as leis transcorram e sejam elaboradas em mesas de representantes do povo, e não em palácios e gabinetes habitados por homens cheios de dogmas e ideologias compradas.

Não é fácil lidar com as ideias contrárias, mas seria pior se elas não pudessem sequer serem manifestadas. Se não podemos concordar em tudo, que nossa discordância seja construtiva, que as pedras se choquem para produzir faíscas de novas ideias, e não somente para arrancar lascas umas das outras.

Sigamos adiante.


» A seguir, mais um eixo é adicionado ao nosso espectro político.

***

Crédito da foto: Mike Gates

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9.2.17

O templo dentro de mim

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Esta questão do universalismo espiritual é interessante.

Muitos grandes estudiosos de mitologia do século passado, e mais especificamente Joseph Campbell, acabaram por estudar inúmeros mitos nas mais diversas regiões e culturas do globo, assim chegando aqueles "pontos em comum" entre as mitologias (como os mitos de Origem ou do Dilúvio), o que o Campbell depois chamou de Monomito. No entanto, estudar mitologia é uma coisa, se iniciar nas ordens e religiões é outra muito diferente, até mesmo porque a maior parte delas requer uma dedicação exclusiva, do contrário você acaba ficando só na superfície.

Eu mesmo me considero um turista de egrégoras e doutrinas religiosas. Já fui médium em casa espírita, já dancei com ciganos incorporados e gurus indianos, já cantei mantras com uma mestra em ascensão, já "meio que me iniciei" no sufismo, já fui em alguns simpósios de hermetismo, já fiz a Contagem do Ômer (meditação da cabala judaica) etc. A maior parte disso transparece num canto ou noutro do meu blog, mas nem contar tudo eu contei.

Apesar de fazer amigos em muitas estradas, eu sei bem que não posso seguir profundamente em nenhuma delas, pois teria necessariamente de abandonar parte dos meus passeios pelas demais. Assim, eu visito algumas estalagens em diversas estradas que rumam para os grandes templos, mas não chego em templo algum.

É por isso que tive de criar o meu próprio templo. Não a toa o símbolo do meu blog é um torii japonês. Os toriis, no xintoísmo, são portais que demarcam a entrada ou a proximidade de um local sagrado. Ora, ocorre que eles estão espalhados pelo Japão todo, pois no xintoísmo se acredita que tudo o que é vivo é animado e habitado por espíritos, e para eles toda a Natureza é viva. Assim, o meu templo também é tudo o que está a minha volta, acima e abaixo, a esquerda e a direita, a frente e atrás. Esta foi a maneira com que consegui chegar a um templo: o carregando dentro de mim.

Por isso que digo, "minha religião é meu pensamento", pois se religião é religação a Deus ou ao Cosmos, e se pensamento é a forma com que a mente se aventura pelos caminhos e estalagens e templos, então é com esta carruagem, este veículo, que eu poderei um dia chegar lá.

E, se o fato de parar em tantas estalagens pelo caminho por ventura me atrasar um bocado, eu sinceramente não ligo. Pois ainda que eu chegasse lá antes dos demais, em todo caso eu teria de voltar para convidar os que ainda se arrastam pela estrada.

Em todo caso, no Céu continuaremos trabalhando.

***

Crédito da imagem: Joel "Boy Wonder" Robinson

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16.1.17

Eles não sabem o que fazem

Noite na periferia paulista. José havia acabado de voltar do hospital com a filhinha de 8 meses. Quase teve um troço com o diagnóstico do médico, “sífilis congênita”, mas ficou mais tranquilo quando lhe explicaram que não era nada grave. Na calçada em frente de casa, José explicava a dois amigos como tinha sido a viagem até o hospital. Todos jovens, na casa dos 20 e poucos anos, mas apenas ele já havia se tornado pai. Foi “sem querer”, e a filhinha ficava mais na casa da avó materna. “Pelo menos não abandonei minha filha” – gostava de dizer aos amigos, o que sempre deixava sua própria mãe, Dona Maria, orgulhosa (ela havia criado José sem ajuda de pai algum).

De repente, um barulho de correria. Passaram pela calçada uns 3 ou 4 sujeitos correndo apavorados. “Foge, polícia!” – um deles gritou... Na verdade José mal teve tempo de entender o que estava acontecendo, logo cerca de 3 motos da polícia militar de São Paulo cercaram a todos, e mandaram encostar no muro do outro lado da rua, com as mãos para cima. Na revista, foram encontrados com o grupo 20 pinos de cocaína, uma quantidade irrisória de maconha, e cerca de 37 reais. Os 37 reais estavam justamente com José, que era o troco dos 50 reais que sua mãe havia lhe emprestado para levar a bebê no hospital e “tomar um suco”. Ele era ajudante de pedreiro, mas estava desempregado.

“Manda todos os vagabundos para a delegacia”, disse um dos policiais. Naquele dia José foi liberado, mas depois teve de ir com a mãe se defender da acusação de tráfico de drogas na audiência do Tribunal de Justiça. Dona Maria não pôde entrar... Antes de José o seu advogado, um defensor público, fez perguntas aos policias: “Vocês já o conheciam?”. A resposta foi “não”. “A droga estava no bolso da blusa ou da calça?”. “Da blusa”. “Havia mais gente na rua?”. “Sim, mas alguns conseguiram fugir”. A promotoria não se manifestou.

Durante os cerca de 3 minutos que teve para se defender na frente da juíza, José explicou que havia acabado de voltar do hospital (como sua mãe lhe instruiu a fazer). “Sífilis?”, perguntou a juíza. “Sim”, respondeu José. “Quantos anos ela tem?”. “8 meses”. “Não deve ser nada grave”, amenizou a juíza... O advogado também tentou tranquilizar José: “Foi o que falei, você é réu primário. Vão negar nosso recurso, normal. Você vai ficar oito meses preso e depois entra no regime semiaberto”. Antes de sair, algemado, José pediu ao advogado para que ele mandasse um beijo para a mãe dele.

Tal relato é uma ficção, mas baseado em fatos reais e corriqueiros. Desde 2006, com a promulgação de uma nova lei de combate às drogas, o crescimento de casos como esse foi vertiginoso. Segundo dados de 2014, grande parte dos encarcerados no Brasil tem o ensino fundamental incompleto (53%) e está na cadeia por conta de tráfico de drogas (27%). No mesmo relatório, vemos que apenas 1% dos presos têm o ensino superior completo, e aqueles presos por casos envolvendo assassinato, como homicídio ou latrocínio, não chegavam a 20% do total.

A primeira coisa que um réu primário como José precisa decidir ao entrar na cadeia é se vai ou não se juntar a uma das facções criminosas. Em se tratando de São Paulo, é quase certo que a única opção disponível seja mesmo o Primeiro Comando da Capital (PCC), que já domina as prisões paulistas há tempos, visto que também administra o próprio tráfico de drogas na Grande São Paulo.

O PCC surgiu no início da década de 1990 num presídio do interior paulista. Oito presidiários se juntaram para formar uma espécie de “irmandade” e assim tentar se proteger da violência nas cadeias. Antes do PCC os réus primários geralmente sequer tinham essa opção de “se juntar a irmandade para se proteger”. Muitas vezes, eram “vendidos” como escravos sexuais para os presos de alta periculosidade, os “bandidões”. Eram usados de todas as formas, até como “cofre” para guardar objetos no ânus ou no estômago. Apesar de tudo, antes do PCC, o destino de gente como José era geralmente muito mais trágico. Hoje, gente como José pode optar por se juntar ao PCC e se manter vivo, pelo menos nas prisões onde não há guerra de facções criminosas.

Outra grande facção criminosa no país é o Comando Vermelho (CV), ainda mais antiga que o PCC. Até outro dia, o CV, que é carioca, dominava o negócio de drogas no maior ponto de vendas da América Latina, a Rocinha. O PCC tomou o ponto sem disparar um único tiro, apenas pela via da negociação comercial. Explica-se: faz alguns meses, o PCC se internacionalizou ao assassinar de forma cinematográfica o “rei do tráfico” no Paraguai, e agora controla boa parte da plantação da maconha no país vizinho. Ora, se a maconha responde por cerca de 80% das vendas do tráfico, não deve ser difícil imaginar como o PCC simplesmente “cooptou” a Rocinha ao oferecer o seu produto de maior destaque por um preço bem mais barato do que o dos demais atravessadores.

A resposta do CV foi tentar investir na outra via de comércio ilegal de drogas e armas no país: ao invés de recorrer à via Paraguai-Bolívia, teve de se voltar para a via amazônica. Talvez por isso as recentes rebeliões e chacinas nos presídios brasileiros tenham se iniciado justamente em Manaus. Mas claro, não deve terminar por lá, e de fato já se espalhou pelas cadeias de todo país, uma espécie de “guerra interna” entre PCC e CV.

Um ex-Ministro da Justiça já afirmou que nossos presídios são como “masmorras medievais”. Se a maior autoridade de segurança no país disse isso, é porque de fato já não era segredo para ninguém. Há muitos “homens de bem” que passaram a crer justamente que as chacinas seriam a solução para a nossa criminalidade. Bem, se fossem, as estatísticas de violência já teriam diminuído há décadas, justamente antes da criação do PCC, quando ocorriam bem mais assassinatos dentro das prisões (só não dava manchete nos jornais porque não tinham decapitações em série).

Quando imaginamos a prisão como uma espécie de “limbo” ou “buraco negro” de onde os presos jamais sairão, estamos simplesmente ignorando a realidade do ciclo de violência no Brasil: ora, é justamente porque em geral a sociedade pouco se interessa pelo que ocorre dentro das cadeias que facções como o PCC proliferaram à vontade. Pense só, num estado como São Paulo, é a própria Justiça que ajuda o PCC a estar sempre recrutando novos funcionários. Ao misturar réus primários ou não violentos com a “nata da bandidagem”, damos um fluxo gratuito e contínuo de gente para o PCC; afinal não é bem a questão de escolher entre “ser honesto ou criminoso dentro da cadeia”, é antes algo como “viver ou morrer”. Darwin explica.

Assim, o Estado paga caro para manter um sistema que não só não ressocializa ninguém para a vida em sociedade, como funciona mais como uma verdadeira “fábrica de criminosos”, onde gente como José, se tiver sorte, sairá muito, muito pior do que entrou. E, se não tiver sorte, pode nem sair vivo, mas tal fato não diminuí o ciclo da violência, apenas aumenta. O Karma explica.

Afinal, se o PCC pode até funcionar como um “agente de proteção social” dentro dos presídios, fora deles pratica sequestros, assassinatos, e outros crimes, além de intimidar agentes da lei e políticos ou, muitas vezes, simplesmente comprá-los para o seu lado. Quando necessário, o PCC também pode muito bem atuar “fora dos presídios”, causando um verdadeiro caos nas grandes cidades. Da última vez que algo assim ocorreu, em São Paulo, pouco mais de uma década atrás, foram às próprias autoridades quem correram para chegar a um acordo de “cessar fogo” com a facção, e o acordo saiu. Mas, e se não tivesse saído? E se o PCC resolver voltar a “se manifestar” fora das cadeias, como será? O que podemos dizer hoje é: cada vez pior.

Se voltarmos ao exemplo de José, veremos que ele pelo menos teve um julgamento, enquanto cerca de 40% dos nossos presos aguardam por um. E pelo menos teve um defensor público, coisa inexistente em mais da metade dos estados...

Você pode me dizer que na verdade a história de José era mesmo uma baita mentira, que ele de fato estava correndo junto com os outros traficantes que passaram pela calçada da sua casa, que ele também era um deles. Tudo bem, você pode até julgar daí que José era mesmo um bandido. E, ainda que o mantra “bandido bom é bandido morto” possa lhe soar como a solução derradeira de todos os problemas, devo lhe dizer que é justamente por pensamentos como este que chegamos na situação em que chegamos. Morram quantos Josés forem, eles continuarão nascendo, e a violência continuará ardendo mais e mais nesta imensa pira de ignorância.

E, se queremos manter os presos realmente perigosos e violentos dentro das cadeias, é justamente tratando réus primários como José de uma outra forma, liberando espaço e recursos no sistema penitenciário, que teremos alguma chance de começar a mudar este cenário.

Afinal, não foi nos países onde há pena de morte que a violência se reduziu ao ponto de faltarem presidiários para popular as cadeias, pelo contrário, foi nos países que tratam mais a causa do que os sintomas, em todas as dimensões que envolvem o crime: na educação, na ressocialização, na política em relação às drogas etc. Sim, ainda estamos muito distantes do nível de desenvolvimento humano dos países escandinavos, mas até quando vamos permanecer ignorantes dos exemplos que deram certo? Até quando vamos continuar vendo nossos criminosos com um olhar tão arcaico, alimentando infindavelmente este ciclo macabro de decapitações e banhos de sangue?

Há dois mil anos, o doce Rabi da Galileia, aquele quem nos ensinou toda a profundidade do Amor, também cumpria sua pena ao lado de dois bandidos, todos crucificados ao público. A sua volta, o povo gritava a sua própria versão de “bandido bom é bandido morto” para a época. Segundo Lucas 23:34, esta foi a sua resposta:

Pai, perdoa-lhes, pois eles não sabem o que fazem.

***

Créditos das imagens: [topo] Salve Geral/Divulgação; [ao longo] Google Image Search

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12.1.17

A civilização e a barbárie

O texto abaixo foi retirado de uma de minhas respostas dentro de um debate entre pensadores e espiritualistas.

Em nosso debate, foi citado um historiador espanhol que afirmou que todas as civilizações partem da barbárie, passam por um período religioso e depois entram numa espécie de "decadência espiritual", pela falta da prática do autoconhecimento [1]. Eu associei isso ao estágio atual da nossa própria civilização, e nesse contexto é que elaborei o meu complemento:

Acho que todas as culturas de fato partem da barbárie, mas isso se dá desde o advento das cidades. Antes delas, provavelmente em boa parte do mundo humano não havia a barbárie, tampouco bárbaros, já que pela etimologia do termo "bárbaro" chegamos ao grego antigo, "não-civilizado", "estrangeiro", "estranho". Antes das cidades, todos eram não-civilizados, estrangeiros, estranhos, mas como não sabiam disso, se tratavam apenas como seres humanos mesmo.

As cidades surgiram com a agricultura, pois antes dela éramos todos nômades basicamente todo o tempo, e os únicos "locais fixos" da pré-civilização eram justamente os templos religiosos da religiosidade arcaica, as cavernas com arte rupestre, os círculos de pedras elevadas, e provavelmente locais específicos nas florestas, dos quais praticamente não restaram registros.

Com a agricultura e o excedente de alimentos, grãos e cereais que podiam ser estocados nos primeiros silos, houve a possibilidade de se cercar e delimitar pedaços de terra e dizer: "Aqui é nosso território". Daí logo vieram os primeiros conflitos e guerras organizadas. No início, não creio que quisessem conquistar a terra do outro, mas sim somente roubar seus alimentos. Depois, quando o outro montou seu primeiro exército para proteger seus grãos, os invasores precisaram também formar exércitos, e assim foi até que a maior parte das grandes cidades tiveram seus exércitos permanentes, e muita guerra e muito sangue correu desde então...

A grande ironia é que talvez tenhamos nos tornado bárbaros justamente quando nos tornamos civilizados. Nesse sentido, toda a civilização tem de lidar com a sua própria barbárie, contê-la, administrá-la na medida do possível e, acima de tudo, sempre acusar os outros de serem bárbaros, pois assim se parece decerto mais civilizado.

Claro que, com o passar dos séculos, muitas civilizações de fato avançaram muito na contenção de sua barbárie, e criaram as primeiras legislações, as primeiras religiões organizadas, as primeiras mitologias que vieram a ser registradas em palavras, as primeiras ideias filosóficas extensivamente debatidas, as primeiras ciências baseadas na observação do mundo natural etc. Mas, será que alguma delas foi totalmente bem-sucedida nisso? Eu creio que não.

Assim como nas tribos ancestrais eram somente alguns poucos xamãs e pajés quem detinham de fato o dom ou a capacidade de se conectar com o sagrado, mesmo nas grandes culturas tais homens e mulheres continuaram sendo uma grande minoria, infelizmente. Mas existe um alento nesta análise: não é que as civilizações tenham caído em decadência moral ou espiritual (pelo contrário, eu sempre gosto de lembrar que hoje vamos ao Maracanã ver e aplaudir partidas de futebol, e não a um Coliseu romano ver homens se matando ou sendo devorados por feras), mas é que este ápice moral e espiritual nunca chegou a ser de fato alcançado, nem mesmo na antiga Atenas, ou em Florença em pleno Renascimento, tampouco nas cidades de maior índice de desenvolvimento humano da Escandinávia de hoje em dia.

Desde as primeiras tribos, nós não estamos em decadência, mas em ascensão. E, se parece ao contrário, é justamente porque simplesmente há muito mais gente viva hoje do que há milênios atrás. No meio dessa gente toda, ainda há muito mais xamãs e pajés genuínos do que jamais houve na história deste planetinha. Basicamente, toda a gente que não se esqueceu da Alma. Se queremos caminhar mais rápido em sua direção, é bom ouvirmos o que eles têm a nos dizer. Mas não será fácil encontrá-los, pois (salvo raras exceções) eles não estão na Grande Mídia ou nos Bestsellers, tampouco nos Grandes Templos. Muitos deles podem estar convivendo ao seu lado, sem terem sido percebidos.

Quem ama de fato e profundamente, quem volta a sua lupa mais para dentro do que para fora, quem busca julgar mais a si mesmo do que aos "bárbaros", este conhece alguma coisa do tema!

***

[1] Alejandro Deulofeo em Matemática da História

Crédito da imagem: Google Image Search/Canal History

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3.1.17

Ainda não acabou

O Relógio do Apocalipse é um relógio simbólico mantido desde 1947 pelo comitê de diretores do Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago. Se trata de um alerta para a iminência de uma guerra nuclear de larga escala, o que potencialmente significaria o fim da civilização humana. Segundo a analogia, quanto mais próximo da meia-noite, mais próxima estaria a humanidade de um apocalipse nuclear. Os ponteiros iniciaram com 7 minutos para a meia-noite, e chegaram a estar à apenas 2 minutos, em 1953, quando EUA e URSS testaram novas armas nucleares a poucos meses de intervalo um do outro. Hoje, ele marca 3 minutos para o fim.

É irônico como foi justamente a ciência quem nos levou mais próximo de um Juízo Final, um Armagedom real para a humanidade. A despeito de milênios de mitos e lendas acerca do final dos tempos, que muitos racionalistas sempre caçoaram, coube justamente a mais racional das invenções da mente humana o poder de nos levar, de fato, a uma guerra final. Claro que a ciência por si só não tem culpa alguma, os culpados somos nós, os seres que vivem neste mundo e, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, trabalham para a sua aniquilação.

A palavra “apocalipse”, do grego apokálypsis, significa literalmente algo como “a retirada do véu”, o que geralmente é compreendido como alguma espécie de revelação divina. No entanto, como o Livro da Revelação no Novo Testamento bíblico trata justamente de uma elaborada metáfora para alguma espécie de fim dos tempos, o termo Apocalipse também se tornou uma espécie de sinônimo para fim do mundo na cultura popular.

De fato, numa análise esotérica do significado essencial de uma revelação divina, temos duas possibilidades que fazem todo o sentido: o fim de uma era, para que outra se inicie, ou mesmo a morte de uma persona, para que outra mais espiritual e profunda surja deste processo. No entanto ocorre que, muitas vezes, tanto o Apocalipse bíblico quanto os de outras doutrinas religiosas é visto não como o fim de um processo para que outro se inicie, mas simplesmente como o final de todos os processos, de todo o sofrimento e de todo trabalho, geralmente para ser substituído por um julgamento sumário de alguma divindade, onde uns serão condenados a sofrer eternamente num Lago de Enxofre, enquanto outros serão conduzidos a uma espécie de Jardim de Ócio Eterno.

A despeito do absurdo lógico de ambas as opções (uma divindade amorosa que permitiria que suas criações fossem torturadas brutalmente ad aeternum; seres amorosos que conquistaram uma passagem para um Céu de Escolhidos, sendo lá felizes mesmo sabendo que há muitos de seus irmãos sofrendo), é mais ou menos nisso que muitos povos e culturas, principalmente no Ocidente e Oriente Médio, colocaram todas as suas fichas. Durante séculos e séculos, depois de Cristo, e até mesmo antes, tivemos muitos crentes aguardando ansiosamente pelo final dos tempos, alguns com temor no coração, e outros simplesmente ansiando pelo fim desta terra... Todos eles na expectativa do prometido julgamento dos bons e dos maus.

E dificilmente os que creem nessas coisas veem a si mesmos como pertencentes aos não escolhidos, aos maus. Daí se tira que, muitas vezes, o seu desejo pelo Juízo Final parte muito mais do próprio julgamento que fazem dos seus irmãos do que genuinamente de um desejo de habitar o Jardim de Ócio pela eternidade, para fazer sabe-se lá o quê pelos milênios a perder de vista. Ou seja: pode ser preferível que o mundo acabe de fato, se com ele todos os gays que insistem em se beijar na rua e desafiar os mandamentos do Levítico sejam levados para o Inferno, ou se todos aqueles jovens metidos a besta que insistem em usar drogas ilícitas ardam nas forjas subterrâneas, ou se os políticos de um ou outro campo ideológico cumpram suas penas junto ao Tinhoso.

Claro, também há muitos que cansam de simplesmente esperar pela chagada de Cristo, e partem eles mesmos para provocar o seu próprio fim dos tempos, se radicalizando e chacinando os inocentes que encontram pela frente. Para nossa sorte, esse tipo de radical religioso ainda não dispõe de armas nucleares, somente das armas que as grandes empresas armamentistas dos países de primeiro mundo lhes vendem.

Neste baile da ignorância humana, é curioso pensar como, ao menos até aqui, as armas de destruição em massa talvez tenham freado uma nova e derradeira Guerra Mundial, ao contrário do que muitos poderiam imaginar. Explica-se: até o advento das armas nucleares, guerras destruíam cidades, e às vezes países inteiros, mas não podiam destruir a civilização humana como um todo. Hoje, uma guerra nucelar pode fazer justamente isso. Hoje, o Armagedom deixou de ser uma metáfora mitológica para se tornar uma possibilidade real. Hoje, aqueles que detém o poder de lançar ogivas nucleares sabem muito bem que, num cenário de guerra nuclear total, pressionar o botão vermelho será essencialmente um ato de suicídio.

Mas nem todo Apocalipse é um Apocalipse global. Há muitos povos e territórios da Terra que sofreram os seus próprios Juízos Finais. Desnecessário dizer que até hoje em dia eles estão em pleno processo, particularmente no Oriente Médio e arredores, ironicamente o grande berço das civilizações humanas.

Como narra um memorável anúncio dos Médicos Sem Fronteiras, “podemos ser violentos, insensíveis, cruéis, egoístas, indiferentes, mas só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano”. O MSF atua justamente para amenizar o Juízo Final alheio.

Voltando ao Apocalipse como revelação, como final de um estágio para o início de outro, recorro à história de vida de minha amiga Debora Noal, psicóloga do MSF, brasileira: pouco antes de ser convocada para a sua primeira missão humanitária no Haiti, há quase uma década, Debora morava numa cobertura de frente para uma praia paradisíaca de Aracaju, e tinha um emprego público na área médica.

Então, como ela mesma relatou numa reportagem da Época, “Pedi demissão, larguei tudo [...] Porque era uma missão de urgência. Entreguei o apartamento, deixei os móveis no meio do corredor porque não tinha condições de distribuir tudo rápido. O que não é possível carregar comigo é porque não é meu. E acho que, se você se apega a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser”. E após o Haiti, Debora foi ajudar mulheres brutalmente estupradas e infectados pelo vírus ebola em algumas missões humanitárias nos cantões mais afastados dos olhares da Grande Mídia, em plena África...

Como Debora estava tão preparada para substituir suas raízes terrestres por raízes aéreas, senão por um processo de Apocalipse pessoal? Senão por haver colocado sua própria vida mundana em segundo plano, e a Alma do Mundo, a alma e o coração de todos os seres, acima de tudo o mais? Não há Revelação maior do que este Amor que brotou aos borbotões do coração de minha amiga.

E, se ainda nos convém falar em mitologia, que a praia em Aracaju seja o Céu, que as periferias do Congo sejam o Inferno, e que Debora seja o Anjo... Tampouco existe mitologia mais bela, pois que trata exatamente da realidade, de como as coisas de fato o são. Pois só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano. E só quem pode salvar a própria vida é o próprio ser em si.

Assim sendo, sempre que se sentir abatido pelo peso deste mundo de chumbo, pense sobre os pensamentos que lhe vêm à mente, pense sobre de onde eles de fato surgiram, e para onde pretendem lhe levar. Há muitos que desejaram modificar o mundo inteiro, e terminaram por se regozijar com a promessa do Juízo Final, e assim perderam seu entusiasmo, e se deixaram afogar no charco dos hábitos moribundos... Mas há alguns, alguns de nós, que pensaram em mudar primeiro a si mesmos, e ser a própria mudança que desejam ver neste mundo.

Passo a passo, mudaremos a nós mesmos, a vizinhança e o mundo inteiro. Se a vida já não tem qualquer outro sentido, que tenha este. Afinal, a despeito da crença e do desejo de muitos, nossa história ainda não acabou... Gritem meus irmãos, gritem pela alma adentro: ainda não acabou!

***

Para encerrar, gostaria de descrever em maiores detalhes a autoria e o cenário das duas fotos que ilustram este artigo:

A primeira, no topo, é da Reuters e mostra uma multidão de refugiados (na grande maioria palestinos) do Campo de Yarmouk, em Damasco na Síria, em fevereiro de 2014. Eles estavam tão somente aguardando a distribuição de alimentos pela ONU. Em abril de 2015 este campo foi atacado e controlado pelo Estado Islâmico, mas foi recuperado pelo governo sírio alguns meses depois. Yarmouk está ativo há mais de meio século.

A segunda, ao longo do texto do artigo, é de um jovem fotógrafo da Faixa de Gaza, Emad Nassar, e foi tirada em junho de 2015. Ela mostra um pai palestino dando banho na filha e na sobrinha, no pouco que restou inteiro de seu apartamento em Gaza. A Faixa de Gaza é um dos territórios mais densamente povoados do mundo, e vive um Apocalipse permanente há muitas décadas.

O que cada uma das fotos têm a ver com o meu artigo, deixo que cada um de vocês interprete e sinta por si só...


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3.11.16

Estranho

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”

Foi em homenagem a esta frase de William Blake, o poeta inglês, que Aldous Huxley, seu conterrâneo de um século mais próximo ao nosso, deu o título ao seu clássico As portas da percepção, que por sua vez é o livro que Stan Lee está lendo em sua curtíssima aparição no novo filme da Marvel, Doutor Estranho.

Stephen Strange é um dos meus personagens favoritos nos quadrinhos da Casa das Ideias. Ele foi criado em 1963 por Lee e a lenda, Steve Dikto, que também foi cocriador de Peter Parker, o Homem-Aranha. Aliás, como veremos abaixo, há algum paralelo entre a origem e a motivação desses heróis, a despeito de sua diferença de idade.

Antes de prosseguir, no entanto, devo avisar que este artigo vai falar exatamente do novo filme de Estranho, e embora eu não vá falar de nada que já não esteja na origem do personagem nos quadrinhos, certamente o que virá a seguir trará alguns spoilers do filme, estejam avisados!

Spoilers ahead...

Não foi à toa que Lee apareceu com o livro de Huxley: toda a ideia por detrás do Doutor Estranho nasceu da brincadeira com a possibilidade da existência de incontáveis dimensões paralelas e outros planos de existência, ou de percepção da existência, bem aqui em nosso mundo e a nossa volta. Também não é por acaso que Lee está exclamando it’s hilarious! (isto é hilário!) em sua cena: talvez a sua grande qualidade seja exatamente essa, de não se levar tão a sério, tampouco as suas criações.

Aliás, é também isso que transparece nos filmes da Marvel Studios nos últimos anos, o que é muito bom por sinal, pois quadrinhos são entretenimento, e espera-se que eles sirvam mais para nos divertir e atiçar a imaginação do que para nos trazer reflexões acerca de como a existência é sombria, de como o mundo é ultraviolento, ou de como o nome de nossa mãe é algo sagrado.

Dito isso, não quer dizer que quadrinhos, ou filmes de quadrinhos, não possam trazer suas lições de moral, por mais que hoje elas sejam clichês algo antigos. É também dos anos 1960 a famosa reflexão que Peter Parker aprende a duras penas: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Tudo bem, é um clichê antigo, mas ainda é perfeitamente válido. Quadrinhos são mitologia líquida, profanada, hilária, divertida, e assim está bom – em todo caso, nada disso conseguiu apagar por completo a luz dos contos de outrora (basta lembrar que ainda temos um Thor e um Hércules na Marvel).

No filme de Estranho, apesar de ser muito fiel aos quadrinhos, não há somente uma frase capaz de resumir a moral da história toda, como no Homem-Aranha, mas ainda podemos refletir acerca de muitos ensinamentos:

Um outro sentido para a vida
Strange é um neurocirurgião muito bem sucedido em Nova York, talvez o melhor do mundo. Ele tem memória fotográfica, grande inteligência e uma capacidade de concentração incomparável. Mas, no final das contas, tudo depende do que ele consegue realizar na mesa de cirurgia: é ali que realiza não somente o seu grande show, como até então o grande sentido de sua vida.

Fica muito claro, no entanto, que Strange não está ali propriamente para curar pessoas, e sim para manter o seu status de grande cirurgião. Não exatamente pela grande quantia de dinheiro que recebe, mas simplesmente pela fama. Já diziam os estoicos que não devemos basear nossa vida nas coisas que não dependem de nós, como o status e a fama, e é precisamente isso que Strange tem de aprender, não pela sabedoria (que não tinha até então), mas pela dor, esta grandiosa professora...

Ao acordar do grave acidente de carro onde quase perdeu a vida, ele parece mais preocupado com a situação de suas mãos do que com o resto do corpo. De fato, ali poderíamos quem sabe dizer que ele trocaria a cegueira de um olho, ou até uma perna, por ter suas mãos novamente intactas. Afinal, elas eram o seu principal instrumento de trabalho, e consequentemente de status – sem elas o sentido de vida que ele havia construído para si estava arruinado. Uma lição e tanto.

A arrogância não leva a lugar nenhum
A arrogância, ou ignorância das próprias limitações humanas, é também um grande fardo para o ignorante: enquanto tudo vai bem, há a enorme angústia e preocupação em poder se manter na costumeira posição de status, onde se pode dizer “você sabe com quem está falando?”; mas, assim que as coisas vão mal, o arrogante encontra enorme dificuldade em achar um caminho de saída, de resolução para a situação atual, pois que há muitas coisas neste mundo das quais não temos controle algum.

O acidente de carro, a fatalidade, pegou Strange de calças curtas. Neste momento, a arrogância não lhe serve mais para nada, mas é exatamente a dor gerada por esta falta de controle do próprio destino que o encaminha para uma via espiritual, ainda que a princípio pelas razões erradas. Fato é que, bem ou mal, foi a fatalidade que o levou ao Oriente, a esta milenar metáfora para o caminho da sabedoria. Teria sido melhor que chegasse lá pelo autoconhecimento, mas como dizem por aí: seja pelo amor ou pela dor, caminhamos sempre!

Me ensine!
Como tantos outros místicos e ocultistas do mundo real, Strange chega ao templo no Oriente (de fato, poderia ser em qualquer outro canto) profundamente cético acerca do mundo espiritual. Basta atentar para o que a cultura moderna, científico-materialista, fez do significado dos termos “místico” e “ocultista” para compreender que, na maior parte dos casos, o ceticismo é um estágio inicial perfeitamente natural para as mentes racionais. E, embora trabalhem sua percepção muitas vezes muito além desta racionalidade, em nenhum momento se disse que místicos e ocultistas deveriam ser irracionais.

Apesar de recorrer aos velhos clichês de sempre, no filme este embate entre a racionalidade cética e a racionalidade “mente aberta” é, em geral, tratado de forma saudável. Quando finalmente vê com os próprios olhos que a magia é real, Strange vai aos poucos cedendo em seu ceticismo, e também em sua arrogância. A neurociência, a medicina de ponta, quem diria, não explicavam tudo o que havia por ser explicado. Existiam outras possibilidades, outros caminhos, e ao encarar sua guru e suplicar, “Me ensine!”, ele estava tão somente dando o seu primeiro passo, para dentro.

Não é sobre você, Stephen
Tão logo inicia seu caminho de mago, Strange se vê envolvido na costumeira batalha do bem contra o mal, embora no filme eles tenham tratado o “bem” e o “mal” de uma forma consideravelmente menos maniqueísta do que a média. Em todo caso, em se falando de caminho espiritual, tal batalha é muito mais interna do que externa. Assim como foi com Arjuna, a primeira reação de Strange é querer ficar de fora desta guerra.

No entanto, é somente lá para meados do filme que, numa derradeira conversa com sua guru, Strange finalmente percebe que, naquele cenário, fugir da batalha também era um ato egoísta. “Não é sobre você, Stephen”, é sobre a vizinhança, é sobre o mundo inteiro: que o objetivo desta grande guerra que cada ser trava dentro de si, para domesticar seus demônios sombrios, seu lado animal, é também o de salvar a humanidade toda.

Aqui se dá o grande paradoxo de tantos contos mitológicos: eles dizem respeito a você, todos os personagens são aspectos de nós mesmos; porém, ao mesmo tempo, a nossa evolução neste caminho diz respeito a um céu que ainda precisa ser erguido lá fora, nesta terra, nesta vizinhança. No fim das contas, todos os paradoxos de fato serão reconciliados...

Um pacto com Dormammu
O momento mais profundo e inteligente do filme, e também o mais hilário, é aquele em que Strange vai sozinho negociar um pacto com o grande demônio Dormammu na dimensão sombria.

Parece ser simples e trivial a solução de prendê-lo num loop temporal junto com si mesmo, de modo que ou ambos ficariam ali se digladiando pela eternidade (bem, não exatamente, pois Strange seria massacrado infinitas vezes, mas ainda assim, pela eternidade...), ou chegariam a uma espécie de trégua onde cada um poderia cuidar da sua vida sem intervir na do outro: Strange aqui na Terra, Dormammu em sua dimensão sombria.

Mas, pensem bem, não teria algo muito mais profundo se passando nesta negociação? Afinal, o que é a ignorância senão um loop temporal? Senão um rato correndo em sua gaiola, sem jamais sair do lugar? Senão um embate sem fim, e sem sentido, na dimensão sombria de nossa própria alma?

O que Strange realizou, afinal, foi um pacto com sua própria animalidade, sua própria ignorância: “Olha, já estamos aqui nos matando faz muito tempo, que tal seguirmos em frente agora?”.

E assim, ao se curar, ao salvar o seu próprio mundo, Strange não se tornou de fato nenhum mestre, nenhum guru, mas sim um médico de si mesmo, um Doutor Estranho.

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Crédito das imagens: Marvel Studios/Divulgação (Doutor Estranho)

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31.10.16

Platão comunista

“Críton, somos devedores de Asclépios, devemos-lhe um galo, pois bem, paga minha dívida, não te esqueças.”

Essas foram às últimas palavras de Sócrates, grande sábio da antiguidade grega, já após haver bebido do veneno, e cercado de seus discípulos mais próximos. Logo, o veneno fez seu efeito...

O filósofo com olhos de touro havia sido condenado pelo Estado ateniense à morte, e a contragosto daqueles que lhe amavam, mas permanecendo fiel ao que acreditava, escolheu seguir a vontade da polis, e jamais considerou a possibilidade de se exilar.

A acusação afirmava que ele era “culpado por não aceitar os deuses que são reconhecidos pelo Estado, por introduzir novos cultos e, também, por corromper a juventude”. Na época Platão tinha em torno de 30 anos, e como jovem discípulo de Sócrates, jamais se recuperou do trauma de se ver privado de sua divina companhia pela decisão democrática (ele foi julgado por um tribunal popular).

Sobretudo por parte da linhagem de sua mãe, Platão tinha parentes diretamente envolvidos na política de Atenas. Era um aristocrata, como tantos outros jovens seduzidos pela sabedoria socrática. Mas nada disso evitou que se tornasse um profundo crítico do sistema político ateniense, e até mesmo que se aventurasse a criar suas próprias versões utópicas para tentar substituir ou reformar o sistema que havia assassinado o melhor homem que ele havia conhecido.

O termo utopia, é preciso lembrar, foi inventado muito após a época platônica. No entanto, uma de suas definições, isto é, “uma descrição imaginária de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade”, certamente se aplica ao que Platão tentou realizar em duas de suas obras mais complexas, A República e As Leis.

Platão foi profundamente conservador em suas ideias, ao ponto de estabelecer (em As Leis) regras estritas para os padrões da música, do canto e da dança na educação moral. Para resumir, e mal comparando, se Platão houvesse vivido no século XX, seria um dos primeiros a abominar o Rock & Roll. Talvez exatamente por isso seja chocante para muitos a defesa que o filósofo grego fez de uma espécie de revolução comunista, muitos séculos antes de Karl Marx.

Assim como o termo utopia deve ser aqui considerado com parcimônia (como dito acima), o mesmo sem dúvida vale para o termo comunismo. Dito isto, que cada um julgue por si só o quanto Marx bebeu de Platão, ou pelo menos quantos pontos em comum podem ser encontrados nas suas ideias políticas...

Em A República, sempre partindo de um conservadorismo arcaico, quase profético, Platão afirma que “nos primórdios da civilização grega” existiu um Estado ideal. Cita, nesse sentido, Hesíodo, e mostra como através dos tempos os homens foram se corrompendo: em consequência do desenvolvimento do espírito de lucro, surgiram as discórdias. Deste modo, nasceu a guerra de todos contra todos, até que por fim os homens entraram em acordo e resolvem dividir as terras e as casas, para implantar a propriedade privada e dividir a sociedade em amos e escravos.

Mas sem uma educação filosófica os homens, logo depois, não mais se contentam com a satisfação das próprias necessidades materiais. São dominados pela ambição e desejam viver luxuosamente. É então que surge a riqueza excessiva, e com ela a cobiça e as guerras de conquista. Tal situação explica o aparecimento de um exército permanente. O Estado se complica.

A insaciabilidade dos ricos determina a pobreza das massas. Afinal, a luta entre as classes termina com a vitória dos pobres, que sempre são mais numerosos, e a implantação da democracia. Mas a democracia, segundo Platão, logo cede lugar à tirania, isto é, ao domínio de indivíduos que enganam as massas para melhor oprimi-las. E é precisamente aqui que o trauma de seus 30 anos o influencia decisivamente em sua utopia comunista: Platão defende sim uma sociedade baseada em valores morais conservadores e em uma distribuição igualitária de terras e riquezas, mas isso não passa por decisões democráticas.

Segundo ele, enquanto os homens sensatos não estiverem à frente do governo, ou enquanto os reis e os príncipes não resolverem governar com inteligência e brandura, os governos não poderão suprimir os males que afligem os Estados e o gênero humano. Platão queria não uma monarquia, mas uma sucessão de reis filósofos, que deveriam ser os verdadeiros guardiões do Estado, procurando o auxilio dos funcionários e dos guerreiros para poderem realizar a sua missão. E as camadas dirigentes, em virtude de seu nível intelectual e moral superior, deveriam ficar situadas acima do povo.
 
Ou seja, no comunismo platônico, a distribuição de terras e riquezas não seria garantida pela ascensão das classes trabalhadoras e pobres a posições de comando, tanto o contrário: a sua utopia deveria ser garantida pela sabedoria dos reis filósofos, que deveriam zelar pelo bem de todos. Nada, em nenhum momento, foi dito sobre a situação dos escravos – o mundo humano, afinal, sempre evoluiu bem devagar.

Dizem os analistas que em A República Platão tentou revolucionar o Estado. Já em As Leis, seu último livro, que de fato deixou incompleto, ele já havia compreendido que uma revolução não seria possível nem desejável, mas sim uma reforma.

Para elaborar tal reforma ele toma como norte que o melhor Estado, a melhor Constituição e as melhores leis aparecerão quando a sociedade tiver por lema: tudo é comum entre amigos. Dessa forma, não é necessário buscar em parte alguma um modelo de Constituição ideal. Basta que os homens sejam fieis a esse lema ou que, pelo menos, se esforcem para atingi-lo.

E como fazer? Bem, tudo se iniciaria pela repartição de todas as terras. A divisão deveria ser feita de tal forma que cada um considere a porção que lhe coube como parte integrante da propriedade coletiva. Nessa altura Platão era consideravelmente mais pragmático, e mesmo dentro de sua utopia considerava que tais terras deveriam ser inicialmente inabitadas (coisa bem mais fácil de se achar na época), isto é: era a fundação de um novo Estado, e não uma revolução dentro de um já existente.

No entanto, a ideia de Platão era construir um Estado tão perfeito que eventualmente o seu sistema seria implementado pelo menos em toda a Grécia. Se obtivesse sucesso, a nobreza intelectual dirigiria o Estado, e os agricultores e os artesãos cuidariam exclusivamente das suas atividades profissionais, com o fim de desenvolver ao máximo todas as aptidões, nos limites da respectiva esfera profissional. Os trabalhos manuais penosos ou degradantes não seriam realizados pelos gregos, mas pelos estrangeiros ou pelos escravos. Os gregos deveriam se dedicar unicamente as suas obrigações de cidadãos ou desempenhar as profissões mais nobres.

Finalmente, ninguém poderia ter ouro, prata ou dinheiro em quantidade excedente às necessidades quotidianas. Ninguém poderia processar o Estado, e a justiça comum só valeria entre os cidadãos ou, claro, no caso do Estado precisar condenar algum crime. Para Platão, no entanto, um julgamento trágico como o de Sócrates jamais ocorreria, ele tinha plena convicção de que os reis filósofos, ou os governantes nobres, julgariam com mais sabedoria do que a população comum.

O seu objetivo não era conquistar riqueza e poder, mas sim erigir uma vizinhança mais nobre, um mundo mais justo... Os cínicos, obviamente, dirão que o Inferno está cheio de boas intenções, não sem alguma razão, devo admitir.

É sempre chocante analisar como um filósofo tão grandioso, tão essencial para o pensamento ocidental (incluindo aí o cristianismo), pôde ter ideias tão claramente desconexas de nossa realidade habitual. A despeito da diferença das eras, o comunismo platônico já era claramente inviável na sua época (e eu nem falei sobre a supressão das famílias, diga-se de passagem).

No entanto, se formos comparar sua utopia com o pensamento político dos últimos dois séculos, veremos que ali se encontram representadas não somente algumas das ideias marxistas, normalmente rotuladas de extrema esquerda, mas também ideias puramente conservadoras, próprias até mesmo de uma extrema direita que, por tampouco crer na democracia, pede por intervenções estatais que possam fazer a sociedade rumar novamente para “aquela época antiga onde o que valia eram a moral e os bons costumes”.

No fundo, ao menos em nossa época, os extremos se encontram e dão as mãos, embora não queiram enxergar. Já na antiguidade grega, onde tudo era novo e onde o mundo humano ainda estava sendo pensado e elaborado, é perfeitamente perdoável que Platão tenha escorregado aqui e acolá. É talvez por isso que os filósofos continuarão sendo filósofos, e os políticos continuarão sendo políticos. Tudo o que eles precisam, tudo o que nós precisamos, é de uma boa conversa.

***

Nota: seguidores do blog me alertaram que não se pode falar em "Estado comunista" em Marx. Como digo no texto, falo de possíveis pontos em comum entre Platão e Marx, pois certamente Platão não foi comunista, uma vez que o termo não existia na sua época. Dito isso, me parece claro que nas tentativas práticas de implementação do comunismo no "mundo real", sempre tivemos um Estado comunista (ou pelo menos na grande maioria das vezes).

Crédito da foto: Google Image Search + raph

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29.7.16

O Estado Anti-Islâmico

O termo Islã deriva de uma antiga palavra árabe que significa “submissão”. Num contexto místico-religioso, é claro que estamos falando de uma “submissão a Deus” e, dessa forma, fica subentendido que todos os verdadeiros islâmicos, os realmente religiosos e místicos, buscam a Deus dentro de si e em tudo o que há. A sua guerra é interna, e a única conquista que desejam é o amor divino.

O Estado Islâmico, dessa forma, está mais para Anti-Islâmico; eles não se submetem de fato a alguma divindade que lhes habita a alma, mas tanto o inverso disto: esperam que o mundo inteiro se submeta as suas regras, ao seu califado sombrio.

Eles basicamente entenderam a religião pelo inverso, mas isto não ocorreu da noite para o dia, e nem é exclusividade do islamismo, ou mesmo de doutrinas religiosas desvirtuadas. Como sabemos, os homens se dedicam a se matar uns aos outros há tempos e pelas mais variadas razões, e ainda que por vezes tentem justificar sua carnificina usando o nome de Deus, na prática eles fazem guerras pelo mesmo motivo de sempre, a mesma ignorância antiga e persistente: por estarem submissos aos territórios, as riquezas e ao poder mundano.

Para os que buscam “evangelizar” o terror, “Deus” é apenas uma palavra, uma desculpa. Como não conseguem se submeter ao Deus que lhes habita, como o evitam a todo custo e a todos os momentos, como temem se abandonar no amor, e aniquilar os seus próprios egos, eles buscam justificar sua própria ignorância da religião subvertendo o sentido de tudo: o caminho então já não é buscar a Deus em mim, mas ter certeza de que todos creiam na mesma doutrina que eu creio, nem que para isso eu precise recorrer a violência extrema, ao caos e ao medo.

Apesar de muitas doutrinas religiosas e ideologias políticas terem a sua cota de sangue pela história humana, é inegável o fato de que hoje, no início deste novo século, foi o islamismo quem pariu a cria mais nefasta e perigosa. E quem deve admitir isto são primeiramente os próprios islâmicos, uma vez que são eles os que mais sofrem com o chamado Estado Islâmico: os países que fazem fronteira com suas bordas no Iraque e na Síria, em sua maioria de muçulmanos, são aqueles que mais sofreram atentados, os que mais tiveram baixas em combates militares, e os que mais receberam refugiados.

No entanto, como vinha dizendo, tal organização pseudo-religiosa não surgiu do dia para a noite. O Estado Islâmico é uma cria do wahabismo, e o wahabismo não teria chegado onde chegou não fosse pela condescendência da Arábia Saudita.

Fica mais fácil explicar contanto uma triste história:

Era manhã em Karbala, uma cidade próxima de Bagdá, e o mercado local estava cheio quando todos ouviram gritos. Um grupo de homens vestidos de preto, levando espadas e bandeiras negras, invadiu o mercado matando crianças, mulheres, idosos e adultos; indistintamente e sem pena. Eles continuaram com a matança avançando pelas ruas até tomar o controle de toda a cidade. Alguns afirmam que, apenas neste dia, cerca de 4 mil pessoas morreram.

Os homens vestidos de preto que organizaram tal ataque não eram do Estado Islâmico. O massacre ocorreu há mais de 200 anos e o grupo era comandando por um dos primeiros governantes da Arábia Saudita, que havia acabado de fundar um novo movimento religioso ultraortodoxo e radical dentro do Islã, o wahabismo.

Segundo o professor Bernard Haykel, de Princeton, especialista em teologia islâmica [1], "o wahabismo sempre foi descrito popularmente como a mãe de todos os movimentos fundamentalistas”.  “No entanto” – ele prossegue –, “para encontrar a inspiração ideológica destes movimentos é preciso voltar ao salafismo jihadista".

O salafismo remonta ao século 19 e uma de suas figuras mais influentes foi um homem chamado Muhammad ibn Abd al Wahhab, um pregador nascido em um lugar remoto da Península Árabe em torno de 1703. Segundo Haykel, "ele acreditava que os muçulmanos tinham se distanciado da verdadeira mensagem do Islã, e ficou horrorizado com o que via em Meca, o lugar sagrado para os muçulmanos, com os nobres vestidos de forma extravagante, fumando haxixe e escutando música".

Wahhab era um fundamentalista que queria "purificar" o Islã, crendo que para tal bastaria que todos se voltassem aos princípios básicos da fé. E assim, gradualmente, suas ideias foram se espalhando... Mas é claro que nem todos estavam de acordo e, como era de se esperar, ele acabou expulso do vilarejo onde morava.

Após peregrinar sem rumo, eventualmente encontrou abrigo junto ao homem que governava uma pequena cidade vizinha, Muhammad Ibn Saud, com quem fechou um acordo em 1744. Com este acordo, foram firmadas as bases para a formação de toda a região: Saud se comprometeu a apoiar Wahhab política e militarmente e, em troca, Wahhab conferiria a Saud uma “legitimidade religiosa”.

Juntos, eles tomaram o controle de muitas cidades no entorno. Saud reinava e Wahhab pregava e colocava em prática o que acreditava ser “o islamismo puro”. Segundo Haykel, “eles tinham listas de todos os membros da comunidade e assim garantiam que todos eles iam à mesquita cinco vezes ao dia para orar. Era uma imposição da fé que aplicavam quase como justiceiros, uma versão intolerante da fé que no Islã tradicional não existe".

A aliança entre Wahhab e Saud continuou conquistando territórios. Pelo final do século 18 eles já controlavam quase toda a Península Árabe. Desta forma foi estabelecida a união histórica entre a Arábia Saudita e o wahabismo. Portanto, não deveria causar espanto que muitas das execuções transmitidas online pelo Estado Islâmico sejam muito parecidas com as execuções oficiais da Arábia Saudita: não poderia ser de outra forma, pois que ambos os estados, o oficial e o terrorista, de certa forma seguem a uma mesma lei sombria.

Nos dias de hoje há um debate acirrado entre os especialistas sobre se realmente Wahhab pregava a violência ou se suas ideias foram manipuladas por Saud e pelos descendentes e partidários que vieram depois dele, e eventualmente fundaram a Arábia Saudita em 1932, mas seja como for, fato é que a ignorância do verdadeiro Islã venceu, e o que restou foi somente o dogma e a violência, sem muito espaço para nada que lembre, nem de longe, alguma espécie de misticismo.

Decerto não ajudou em nada o Reino dos Saud estar situado bem em cima  das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Somente tanta riqueza farta, afinal de contas, pode explicar como a sua monarquia sobreviveu até o nosso século, e como ainda conseguem se manter aliados do Ocidente e dos EUA, que convenientemente se esquecem de que os maiores grupos terroristas da nossa época basicamente não existiriam não fosse pela “vista grossa” que os governantes sauditas fizeram e ainda fazem em relação ao wahabismo.

Claro que estou resumindo bastante a história. Sempre vale lembrar que há séculos persiste o conflito entre duas vertentes do Islã: os sunitas e os xiitas [2]. No atual jogo de xadrez do Oriente Médio, a maior nação xiita é o Irã, enquanto que a maior nação sunita é a própria Arábia Saudita. Dessa forma, uma vez o wahabismo sendo uma vertente radical do sunismo, também foi sempre conveniente para os governantes árabes “fingirem que não estavam vendo” grupos radicais surgindo aqui e ali, dentro de seu próprio território, uma vez que eles eram a promessa de muito trabalho para os seus inimigos iranianos.

Mas certamente ninguém imaginou que a ignorância e a violência chegariam aos níveis atuais. Claro, é bem provável que o mar de refugiados batendo a porta da Europa tenha causado mais problemas para as “boas relações” do Ocidente com os sauditas do que propriamente os anos e anos de extermínios no Iraque, na Síria e no Curdistão, mas fato é que ainda hoje há muita gente que lucra com o Estado Islâmico. Afinal, eles ainda têm de encontrar compradores para sua produção de petróleo nos poços que vieram a conquistar; e, da mesma forma, alguém tem de estar lhes vendendo armamento de guerra. Quem será? Interessa ao Ocidente saber? Vocês me digam...

O Estado Islâmico é um câncer e uma mancha cada vez mais sombria na luz do verdadeiro Islã. Mas é chegada a hora de enfrentá-los de verdade, pois temos visto que apenas o discurso não tem dado tão certo.

E, no entanto, por mais bombas que joguem em suas cabeças, nada me parece tão letal para a sua doutrina do que estas palavras, as palavras de um poeta do século 13, um poeta que também foi um religioso islâmico, e é lembrado até hoje. O wahabismo é incapaz de sobreviver à poesia de Jalal ud-Din Rumi:

O que eu posso fazer, ó muçulmanos? Eu não me conheço mais. Não sou cristão ou judeu. Nem um islâmico, nem um mago. Não venho nem do Oriente nem do Ocidente. Nem do continente, nem do mar. Tampouco do Manancial da Natureza, ou dos céus circundantes. Nem da terra, nem da água, nem do ar, nem do fogo.

Não venho do trono, nem do solo. Nem da existência, nem do ser. Nem da Índia, nem da China, Bulgária ou Saqseen; nem do reino do Iraque ou de Khorasan; nem deste mundo nem do próximo: nem céu nem inferno. Nem de Adão nem de Eva. Nem dos jardins do Paraíso nem do Éden.

Meu lugar é sem lugar, minhas pegadas não deixam rastros. Nem corpo nem alma: tudo que há é a vida do meu Amado.

Eu afastei toda dualidade: eu vi dois mundos como um. Eu desejo Um, eu conheço Um, eu vejo Um, eu clamo: “Um”.

***

[1] Trechos retirados de artigo da BBC.

[2] A história remonta a uma cisma ocorrida ainda no século 7, 30 anos após a morte de Maomé, quando após o assassinato do atual califa (governante religioso), um grupo (os xiitas) defendeu que um primo de Maomé deveria ser o novo califa, enquanto outro (os sunitas) defendeu que tal cargo caberia a um amigo de Maomé, que no entanto não era seu parente de sangue. Os sunitas venceram a disputa e, ainda hoje, são o grupo majoritário, com cerca de 84% dos islâmicos do globo.

***

Para quem quiser se aprofundar no tema, indico o livro Estado Anti-Islâmico da jornalista brasileira e muçulmana Chadia Kobeissi (obs.: este artigo foi publicado anteriormente ao lançamento do livro, o título similar é somente uma feliz coincidência).

Crédito da imagem: Google Image Search/khamenei.ir (uma comparação entre as execuções na Arábia Saudita e no Estado Islâmico)

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