Manual de Canto
Às vezes me pego perguntando
por que será que as criancinhas
brincam de construir castelos de areia
tão perto do mar?
Afinal, para que será que servem
em seu esplendor fugidio?
No entanto, lá estão elas
entusiasmadas, cheias de sorrisos,
contemplando seus portões de conchas,
suas janelas de pedrinhas,
seu palácio inteiro,
que não durará além desta tarde.
Depois de vir tanto nessa praia,
eu já não me pergunto se isso tudo
serve para alguma coisa ou não:
me pergunto, isto sim,
quais são os castelos de areia
que construímos na vida adulta.
Será que somos mesmo capazes,
como as criancinhas,
de olhar para nossas obras e conquistas
como o mesmo entusiasmo,
a mesma cintilação perene
de um brincadeira que é brincada agora,
e não além desta tarde?
Pois que é a vida,
senão o dia que virará tardinha?
E que é a morte,
senão a noite que antecede
um novo dia?
“Mas eu temo a morte.”
“Por quê?”
“Porque me aflige imensamente
saber que um dia não serei mais eu.”
“Então faça como os construtores
de castelos de areia,
que não se importam em ser lembrados
pela sua magnífica arquitetura;
sabe por quê?”
“Não, me diga, mevlana...”
“Por que estão entusiasmados demais,
preenchidos demais,
para pensar em ter um ‘eu’:
isso sequer faz algum sentido
para quem vive tão perto do mar.”
Às vezes me pego lembrando
do som que as ondas fazem
quebrando suavemente na beira,
e então não preciso mais pensar em nada...
“Por que esse poema é tão estranho?
Quem são essas pessoas dialogando?”
“Bem, tudo o que posso dizer é que
essa é a maneira sufi de recitar,
querer ir além disso
seria como entregar
um Manual de Canto
para um rouxinol.”
raph'26
***
Crédito da imagem: Kits Unger/unsplash
Marcadores: espiritualidade, existência, misticismo, morte, poesia, poesia (171-180), sufismo
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