11.2.09

Crítica aos espíritas (3)

3. Do entendimento da Lei de Causa e Efeito

Muitos espíritas não entendem corretamente a Lei de Causa e Efeito (não é o mesmo que o Karma de doutrinas orientais).
Alguns associam essa lei ao dogma cristão de Céu/Inferno eternos, que é claramente refutado ponto a ponto em O Céu e o Inferno, de Kardec, e por qualquer pessoa com um mínimo de pensamento lógico.
Infalizmente esse dogma da pena eterna está tão incrustado na nossa sociedade ocidental, que por ignorância ou preguiça, muitos espíritas apenas substituem a Punição do Inferno Eterno pela Punição das Reencarnações Sucessivas em Sofrimento.

Ora, lógico que a idéia de reencarnarmos para expiar faltas passadas, por mais sofrida que seja e encarnação, ainda é bem mais lógica e justa do que a doutrina absurda do Inferno Eterno... no entanto, ainda esbarramos numa palavra que não tem razão de ser:

PU-NI-ÇÃO.

Ora, punição não existe... Ao longo da doutrina de Kardec, quantas vezes ouvimos que devemos antes agradecer por nossas adversidades, pois que é através delas que estamos realmente evoluindo moralmente, que ao longo da eternidade, é o que importa!
Mas quão difícil é para alguns espíritas compreenderem isso direito.
Pensemos na idade da Terra, 4 bilhões de anos, no tempo que o homem está aqui, milhões de anos, no tempo desde que Jesus esteve na Terra, 2 mil anos... E veremos que encarnações de 100 anos são como gotas no oceano do tempo eterno de Deus.

A Lei da Causa e Efeito não fala de punições, e sim de remédios e testes.
A todo doente devemos remediar a doença, e alguns remédios são amargos, mas curam mesmo assim!
A todo estudante devemos aplicar testes, para que demonstre a seus professores e confirme a si próprio que está em condições plenas de conhecimento sobre o que estudou. De que adiantaria uma escola que deixasse todos os seus alunos passar de ano sem testes? De que adiantaria uma outra que os expulsa sumariamente a qualquer erro de conduta ou falha, mesmo que grave?

Devemos sim nos dedicar para nos graduarmos o mais rapidamente possível, e não pensar em punições que existem só em nossa ignorância.

***

Sobre a pena do Talião
Há um ponto que sempre me incomodou no espiritismo, a lei do Talião: olho por olho e dente por dente.

Eu defendo Gandhi quando ele diz:
"Olho por olho, e logo estaremos todos cegos."

Em O Céu e o Inferno temos casos de homens justos que morreram queimados em acidente, ou enterrados vivos (epilepsia de dias deixou-o como um cadáver), e etc. -- Depois ao se contatarem os espíritos eles diziam que fizeram isso para pagar na mesma moeda o que haviam praticado em vidas anteriores (mandar pessoas a fogueira no primeiro caso, no segundo jogar um criança num fosso e deixa-la para morte).

No entanto, em analisando os textos, mesmo se considerando que são meramente a visão dos espíritos que passaram por isso, é muito difícil qualquer um dizer que foi Deus quem impôs essas penas... Ou seja, o espiritismo pode evoluir, e já se passaram 150 anos. Hoje eu acredito que:

Esses espíritos não conheciam outra forma de justiça, e terminaram por aplicar a si próprios a pena do Talião.
Obviamente que na lei dos homens a pena do Talião é válida, então para apaziguar seu remorso e imensa dor moral após o desencarne (muito pior que a dor física de um possível Inferno), eles optaram por se sacrificarem dessa forma.

No entanto lembremos que Jesus disse: "Quero misericórdia, não sacrifício".
Portanto, acredito que espíritos mais evoluídos em sua moral escolhem sempre a CARIDADE para pagarem penas passadas, e não essas adversidades fatais. O maior exemplo disso é Chico Xavier: foi doente toda a vida, mas nenhuma dor física proveniente de suas doenças pôde impedi-lo de fazer caridade toda a vida... Portanto acredito que um espírito evoluído jamais escolha o sacrifício próprio acima da caridade com o próximo.

Vale lembrar que para um espírito fraco, escolher o sacrifício é mais fácil do que a caridade.
A caridade exige força de vontade, o sacrifício não, pois é escolhido antes do nascimento e quando o espírito não tem vínculos emocionais com a vida futura.
A caridade é uma obra em andamento, o sacrifício é um grito desesperado por reparação.
Ou seja, evolue-se pela dor ou pelo amor. Mas evolue-se sempre.

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10 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Concordo com a sua opinião. São temas complicados e que estão sujeitos a diversas interpretações.

Mas relativamente à Pena de Talião também concordo. Penso que as pessoas por falta de informação requerem essas provas para superar algo que fizeram no passado, contudo isso poderá não ser obrigação mas é a única forma que elas, no seu entendimento, encontram para ultrapassar as faltas passadas.

13/2/09 08:20  
Blogger raph disse...

Encontrei um excelente texto sobre "Carma e Linearidade" aqui:

http://anoitan.wordpress.com/2008/11/25/carma-e-linearidade/

Abs
raph

13/3/09 19:37  
Blogger Yara Rückert disse...

Excelente post!!!
Como é bom colocar os fatos sob a luz da razão...
Minha família é espírita e eu cultivo simpatia pela doutrina.Mas vez ou outra me deparo com algumas dúvidas muito pontuais tipo: Se nós reencarnamos sucessivas vezes nesse mundo,como explicar que antes éramos milhões e hoje somos bilhões? de onde surgiu tanta gente nesse "BOOM" do século XIX para o XX??Acredito que a reencarnação é a explicação mais plausível para a justiça divina,mas vez ou outra me pego em questões como essa...já li boa parte dos livros da codificação e também de Chico e Emmanuel,mas ainda não achei respostas para tal...
Estou aqui avidamente lendo seus textos,um puxa o outro!parabéns!

Abs,

Yara

21/3/11 01:12  
Blogger raph disse...

Oi Yara, que bom que posso ajudar a esclarecer essas questões então :)

A razão proque existem bilhões de homo sapiens e antes haviam milhares é a mesma de porque antes haviam apenas bonobos e chimpanzés, e antes roedores, e antes peixes, até retoragirmos as bactérias...

Ora, espíritos são criados princípio inteligentes, como "bacterias espirituais". Coletivamente, já habitamos os reinos mineral, vegetal, animal, e a alguns milênios adquirimos a consciência... Mas ainda existe muitos bilhões de anos pela frente. A evolução física seria então apenas o reflexo da espiritual.

Isso pode até soar como "desculpa para justificar este problema"... Mas ele nunca foi um problema, ele é apenas fruto do preconceito e ignorância, da época em que acreditávamos que animais não poderiam ter alma (espírito), ou que o homem é uma espécie "especial" em todo Cosmos.

Não é. Somos apenas espíritos habitando corpos de homo sapiens. Já habitamos outras espécies de menor consciência, e na medida em que evoluirmos, habitaremos muitas mais...

Quando Jesus disse que somos deuses, e faremos tudo o que ele fez e muito mais, talvez muitos não tenham entendido... Mas um dia vão entender!

Abs
raph

21/3/11 01:47  
Blogger raph disse...

A todos:

Eu desenvolvi melhor esta crítica em específico nesta série de artigos...

http://textosparareflexao.blogspot.com/2009/07/reflexoes-sobre-reencarnacao-parte-1.html

21/3/11 01:49  
Blogger Yara Rückert disse...

Ah sim,eu concordo totalmente que não somos especiais,que já passamos por todos os reinos até chegarmos aqui e que ainda evoluiremos ainda mais.
Só que neste caso não haveria muitos e muitos espíritos recém-chegados a raça humana já que essa explosão demográfica é bem recente? isso não faria com que os espíritos milenares tivessem vantagem intelectual e em alguns casos moral sob eles? E pensando na atualidade,onde a informação e novidade se renovam de forma assombrosa,não seria difícil aos espíritos humanos recentes acompanharem?
Desculpe pelas perguntas aparentemente estranhas...mas elas estão aqui sem me deixar dormir haha!!
Abs

Yara

21/3/11 02:00  
Blogger raph disse...

Oi Yara,

Sim são perguntas bem pertinentes, nesse caso.

Na verdade, nunca tivemos tantos espíritos sábios (prefiro chamar assim) encarnados na Terra, o problema é que perto de 8-9 bilhões eles são ainda poucos...

O homo sapiens no entanto é um ser de potencialidades. Há muitas potencialidades espirituais, mentais, até mesmo físicas, que não vinham sendo despertadas na infância... Com o advento da tecnologia e a disseminação generalizada do conhecimento, fica mais simples essas potencialidades serem despertadas.

De modo que o espírito de 100 anos atrás, chamado ignorante, na verdade poderia ser simplesmente um espírito que não teve oportunidade de despertar todas as suas potencialidades desde a infância.

E, em todo caso, seres como o Chefe Seattle nos deixam claro que sábios sempre virão, mesmo entre os povos "selvagens".

Ainda assim, talvez seja necessária a explicação da transmigração de espíritos entre mundos/planetas para explicar o crescimento exponencial... Outra opção seria a chegada de espíritos que acabaram de evoluir da "animalidade" para o homo sapiens.

Claro que sempre existirão espíritos novos junto com antigos, e os antigos sempre terão maior responsabilidade, principalmente em guiar os mais novos na mesma estrada em que percorreram (embora na maioria das vezes nem se lembrem disso)...

Abs
raph

21/3/11 09:45  
Blogger Jim das Silvas disse...

Não concordo com a opinião expressa sobre a distinção entre a lei de causa e efeito e o Karma. Acrescente-se a esta concepção a lei de Talião. Talvez exista algo estranho na combinação das culturas indiana e européia, donde se desenvolveram as citadas leis. Pois bem, o que é o Karma, senão a memória das ações para as quais há reações?! Na literatura espírita, aliás, causalidade é muitas vezes interpretada, sem a devida mediação, como lei de ação e reação. Karma é precisamente o resultado dessa lei. Choca, de início que regras atribuídas a corpos brutos sejam estendidas a ações de cunho inteligível, caracterizados pela escolha; sabe-se que as citadas leis são derivações explicitadas por Newton para a natureza, quando sobretudo intencionava explicar a gravitação universal. Ora, o que vemos no espiritismo da codificação é precisamente o conceito de ação e reação - terceira lei de Newton para a matéria bruta - traduzido como lei de Talião, ou de modo mais amplo, como Karma. Poderíamos objetar que as leis do universo bruto não podem ser as mesmas da ação livre humana, sob pena de brutalizarmos uns ou de tornarmos livres outros. A perspectiva positivista à época de Kardec de há muito - vide os desenvolvimentos da teoria da relatividade conjugados com os da mecânica quântica e da teoria do Caos - mostrou-se incapaz de justificar tal extensão das regularidades do mundo bruto para as sutís complexidades do universo da liberdade humana.
Devo admitir que a lei de Talião, sozinha, é precedente às leis do movimento de Newton. Mas também é verdade que o contexto espiritista em que é citada é posterior àquele momento da caracterização da lei como relativa à "olho por olho, dente por dente".
Se interfiro com análise crítica em reduto de somente divulgação doutrinária, excuso-me. Gostaria, entretanto, de entender o espiritismo como o mundo temático onde se desenrolam discussões construtivas.
Sinceramente
Cesar

10/3/13 00:06  
Blogger Jim das Silvas disse...

Pedindo escusas pelo alongamento da opinião, mas, por outro lado, percebendo que eu não tocara no ponto nevrálgico, insisto em argumentar.
O ponto citado como fundamental é o assim expresso:"Ora, punição não existe... Ao longo da doutrina de Kardec, quantas vezes ouvimos que devemos antes agradecer por nossas adversidades, pois que é através delas que estamos realmente evoluindo moralmente, que ao longo da eternidade, é o que importa!
Mas quão difícil é para alguns espíritas compreenderem isso direito."
Na verdade, o que me interessa neste texto é o início, "que a punição não existe". Ora, as leis supracitadas são justamente a contrapartida natural da decisão de um Deus. E é óbvio que a punição existe. Traduzí-la como resultado do movimento natural, ao invés da decisão de um ser superior, não a torna menor, não a relativiza, não a desfaz. Compreendendo a natureza como apta e, principalmente, como capaz de aplicar a lei de Talião, mediante a lei de ação e reação - insisto, somente aplicável a seres brutos - conclui-se que a participação de Deus na ação de julgar fica sistematizada, pois internalizada na própria natureza das ações. Mas não vou argumentar contra isso que parece surreal. E sim no sentido de que o controle sistêmico divino das ações exclui a necessidade do próprio Deus; em seu lugar o sistema regulado pela ação e reação. O mecanismo parece tirar do Criador a função mesma de regular a criação. Não defendo a ideia, apenas a exponho porque é decorrência lógica.

10/3/13 00:40  
Blogger raph disse...

Compreendo hoje que o Sistema não precisa mesmo de Regulador algum, que foi concebido de tal forma que as próprias consciências é que julgam a si mesmas, "punem" a si mesmas.

Mas esta "punição" não é uma punição no sentido em que se compreende o termo geralmente... É como um remédio amargo que tende a nos fazer caminhar a frente. Se o nosso sistema penal fosse ainda muito superior aos de países como Suécia e Noruega, daí talvez pudéssemos falar em punição, como uma tentativa real de reinserir o criminoso na sociedade, de "curá-lo de sua doença", que no caso seria sua ignorância.

A questão é que não é necessário um "deus punidor" para que evoluamos espiritualmente. Se fazemos boas ações por medo de uma "punição divina", por medo de um "inferno", então estamos no caminho circular, isto é, aquele que não sai ainda do lugar.

Mas a Natureza detesta a estagnação!

10/3/13 20:22  

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