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4.6.10

A crença do espiritualista

Através de diálogos pela internet uma vez fiquei sabendo de uma história, conforme contada por um amigo cético. Ele dizia que um amigo a quem admirava a inteligência sofreu um acidente de carro e ficou alguns dias desacordado. Ao recobrar a consciência, consta que ele perguntou “se ainda estava vivo, ou se já estava do outro lado”. Seu amigo era espírita e acreditava em vida após a morte (na realidade, em vida após a vida), e ele se perguntou: “mas como uma pessoa tão inteligente pode crer numa coisa dessas?” – Esta é uma excelente pergunta...

Muitos céticos e aqueles classificados como “eruditos ou intelectuais” parecem não conseguir resolver tal enigma. É que eles esbarram em duas interpretações algo preconceituosas: a primeira é a de que a fé não pode ser racional, e a segunda é a de que a grande maioria dos espiritualistas e religiosos é alienada da realidade. Este artigo tentará abrir os olhos dessas pessoas, para que possam analisar aos espiritualistas pelo que eles realmente são: pessoas como qualquer outra, mas que consideram a possibilidade da existência do espírito.

Fé e Razão
A etimologia da palavra “fé” nos traz duas origens não necessariamente complementares. A primeira deriva do grego pistia e quer dizer “acreditar”. Este é o significado mais usual, entretanto ainda incompleto, pois não basta crer, é necessário também compreender a razão pela qual se crê. Esta é a chamada fé raciocinada. Antes de ser uma contradição, como podem pensar alguns, o uso da razão solidifica a fé, pois ao analisarmos o objeto de nossa fé, compreendo-o e aceitando-o, estamos criando alicerces que tornarão nossa fé inquebrantável, fortalecendo-nos frente aos desafios mais árduos. Por outro lado, a fé sem a razão é frágil, está sujeita a ser desfeita e pode, frente ao menor abalo, desmoronar. Ou ainda pior, esta fé irracional pode nos conduzir ao fanatismo, a negação de tudo que seja contra o nosso ponto de vista. Por não ser oposta a razão, a pistia é por si mesma não dogmática e, portanto, perfeitamente compatível com o ceticismo.

Mas temos uma outra origem da palavra “fé”, derivada do latim fides, que também possui o sentido de acreditar, mas agrega a este o conceito de fidelidade, ou seja, é necessário que sejamos fieis ao objeto de nossa fé. Falando em fé religiosa, estamos falando em Deus, portanto é preciso que sejamos fieis a Deus e isto só é possível seguindo os seus preceitos: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos”.

No entanto, é preciso tomar muito cuidado na definição deste Deus, pois muitas vezes as pessoas de fé seguem o deus definido pelo discurso eclesiástico, quando o caminho da espiritualidade nos leva a busca de nossa própria definição de Deus. E isso nos leva ao contraponto do segundo tipo de interpretação preconceituosa...

O Deus de cada um
Cada doutrina religiosa traz sua própria concepção de Deus, e na maioria das vezes elas são conflitantes. Isto, por si só (e não sem razão), já soa absurdo para aqueles que cultivam um pensamento mais cético e racional. Não é a toa que muitos acabam taxando a maioria dos teístas de alienados: se não chegam a um acordo sequer sobre a natureza de Deus, como podem querer ditar regras de conduta a serem seguidas?

Essa pergunta é pertinente porque toca no cerne da religiosidade. O verdadeiro religioso não é aquele que se inscreveu em uma comunidade dos escolhidos de Deus (a origem de “igreja”, do grego ekklesia), mas aquele que pratica uma comunhão com Deus ou com o Cosmos, um caminho de retorno a compreensão de sua própria origem (do latim re-ligare, origem de “religião”). Desnecessário seria dizer que são definições bastante distintas, e que embora todo seguidor de igrejas possa ser religioso, nem todo religioso é seguidor de igrejas. Mas, ainda mais profundo do que isso: a todo verdadeiro espiritualista parece mesmo óbvio que a forma de comunhão com Deus (ou o Cosmos) é própria de cada um, pessoal e intransferível. Não serão livros nem padres nem gurus espirituais quem poderão lhe ensinar – todos esses ajudam, mas cada um aprende por si próprio, e na prática.

Uma comparação pertinente pode ser feita entre aprender espiritualidade e aprender a nadar: de nada adianta ler extensos manuais sobre natação, ou infindáveis palestras de grandes nadadores – você só irá se tornar um grande nadador se tomar coragem de mergulhar e enfrentar as ondas por si próprio.

O verdadeiro espiritualista não é, portanto, um alienado da realidade. Ele apenas mergulhou na própria consciência, enquanto outros (não sem razão) preferiram abster-se da aventura.

Navegar é preciso
Para o espiritualista em constante estudo e deslumbramento perante o infinito do Cosmos, a razão e a fé andam lado a lado com a moral e o amor, e ele encontra na religião, assim como na filosofia e na ciência, preciosos instrumentos para sua longa caminhada...

Nada pode ter contra o cético. Se este ainda não acredita, é por dois motivos: ou porque ainda não passou pela mesma experiência religiosa – e, portanto, subjetiva – que o espiritualista; ou porque simplesmente o espírito realmente não existe, e todas as questões espirituais se resumem a questões psicológicas, a serem analisadas conforme o avanço da ciência. Em ambos os casos, não há razão para nenhuma inimizade entre o espiritualista e aquele que não crê.

Na verdade, se alguém tem o dever moral de evitar brigas e permanecer em postura apaziguadora e amorosa, este é o espiritualista – que bem ou mal, assumiu a responsabilidade de assim o ser, um ente amoroso e equilibrado. Os outros não têm responsabilidade alguma, tampouco Deus algum para lhes inspirar temor, e não há nenhum problema nisso.

Pois que se o caminho espiritual foi trilhado apenas por medo de punições divinas, por barganhas ridículas em troca de um céu para poucos, então ele já se iniciou na direção errada. Que aquele que ainda não compreendeu que todos os seres do infinito são filhos da mesma substância, e que entrarão todos no céu de mãos dadas, é porque ainda está no início da trilha.

Então, perdoai-vos, pois eles não sabem o que fazem. E perdoai-nos, pois nós também não. Mas dos confins do Cosmos uma ponta da longa teia é puxada, e todos somos impelidos em sua direção... quer compreendamos, quer não.

***

Crédito da foto: 21guilherme

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11 comentários:

Blogger Renato Seabra disse...

Muito bom o texto !!
Gosto de aprender as origens dos termos.

Muito bom!

7/6/10 14:39  
Blogger raph disse...

Obrigado Renato, realmente é bom saber a origem dos termos para que consigamos compreender melhor a nós mesmos e aos outros - mas claro que muitas vezes as pessoas ainda usarão os termos errados, então também é importante saber o contexto em que são usados e saber se, literalmente, as pessoas sabem do que estão falando :)

Abs
raph

7/6/10 16:40  
OpenID oespirito disse...

Certa vez um amigo agnóstico fez o mesmo comentário para mim: "Eu não entendo, você é um cara tão inteligente mas acredita nesse negócio de espiritismo."

Felizmente esta confusão que quer sempre por em lados antagônicos a fé e a razão está em seus últimos momentos. Que a verdade nos liberte.

Parabéns pelo texto, você (como sempre) foi notável na clareza da sua exposição e na organização das idéias.

7/6/10 18:59  
Blogger raph disse...

Como disse Tagore através de uma poesia, "deixe minha nação acordar nesse céu de liberdade"...

Fico feliz que tenha gostado, pois respeito muito a sua opinião pelo pouco que já conheço dela :)

Abs
raph

7/6/10 23:59  
Blogger Yer Moraleskind! disse...

Olá Raph!
Acabo de conhecer seu blog e confesso que foi interessante a forma como cheguei a conhecê-lo.
Estava lendo uma matéria sobre Richard Lynn (aquele que afirmou que ateus geralmente possuem um Q.I. maior que o dos crentes)e é impressionante a sensação de vazio que tais matérias suscitam em alguém de espírito mais sensível...ora,como poderia crer que as porcentagens de ateus mencionadas na pesquisa são reais? Não porque eu ache errado ser ateu,ou acredite que há algo de errado em refutar o deus imposto pelas religiões já existentes (me refiro à religião quanto instituição),mas porque acho que seria triste que a humanidade simplesmente se tornasse insensível às sensações,ao fantástico.Acho que extremos sempre são nocivos,não é bom nem um mundo absolutamente descrente,tampouco um mundo baseado no secularismo.
Eu mesma já tive inúmeras dúvidas,períodos de ceticismo real,mas após passar por uma experiência de digamos "religare" como você mesmo diz,eu senti de forma verídica a existência do algo a mais,seja o cosmos,a espiritualidade a nossa ligação profunda com a natureza.Por vezes ainda me pego duvidando,pensando que a neurociência ainda explicará estes mecanismos relacionados a experiências religiosas,mas logo esta sensação passa tamanha a veracidade de tal experiência.Quem já as teve jamais duvida.
Enfim,eu já estava entrando novamente numa maré de "ceticismo" lendo sobre Zuckerman,Lynn,Dawkins e ficando cada vez mais "down" haha...mas ao me deparar com seu blog confesso que fiquei muito contente em confrontar argumentos absolutamente racionais que defendem a liberdade de pensamento e que consegue se manter na faixa filosófica do "questionar" em vez de simplesmente "afirmar".
Obrigada mesmo!!!

17/1/11 03:04  
Blogger raph disse...

Oi Yer, que nome curioso hehe :)

Adorei ler seu comentário, é o tipo de comentário que me deixa bastante satisfeito com o fato de ter criado este blog, porque ao mesmo tempo que me ajudo escrevendo e organizando tudo isso que passa pela mente (minha e dos gigantes de outrora), percebo que acabo sem querer ajudando outras pessoas em seu caminho. Que bom!

Esse jogo de opostos entre crença e ceticismo na realidade é extremamente saudável, contanto que consigamos nos manter com a razão conectada ao Cosmos (logos), ao invés de desconectada (numa espécie de racionalismo "vazio", que renega a intuição como algo "ruim"). Acho que todos passamos por isso, e certamente eu compreendo que por vezes é um caminho árduo...

Mas vale a pena ser livre. Acabamos por ser um tanto diferentes da maioria. Mas ser livre onde realmente importa, ser livre na alma, acho que ainda é a melhor coisa que existe :)

Abraços e boa sorte na caminhada!
raph

17/1/11 19:06  
Blogger Yer Moraleskind! disse...

Olá!
Ah sim,meu nome é Yara,é que apareceu meu apelido de Twitter haha!!
Como pode ver,depois deste dia frequento seu blog,o que mais me interessa nele é o fato de você "descontruir" fatos,conceitos,crenças e oferecer uma visão alternativa para o que já está "estabelecido".
Tudo de bom pra vc!!
abs

27/1/11 00:39  
Blogger ALMEIDA, C. disse...

Olá, Rafael. fiz um comentário neste seu texto por meio do blog Teoria da Conspiração, mas não o vejo publicado.. =/

26/11/11 19:52  
Blogger raph disse...

Oi carlos, é que havia caído na caixa de spam lá, agora está publicado :)

Abs
raph

28/11/11 10:53  
Blogger Ricardo Santos disse...

Ótimo texto.

Conciso e objetivo.

13/10/12 15:48  
Blogger raph disse...

Obrigado :)

13/10/12 17:28  

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