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1.6.10

Onde está o seu deus?

No início do século II d.C., no mercado principal de Enoanda, cidade de 10 mil habitantes no sudoeste da Ásia Menor, foi erigida uma enorme muralha de oitenta metros de largura e quase quatro metros de altura, com inscrições baseadas na filosofia de Epicuro, e cuja finalidade era atrair a atenção dos compradores. Era uma espécie de alerta:

“Comidas e bebidas requintadas... de modo algum libertam do mal ou proporcionam a saúde da carne. Deve-se atribuir à riqueza excessiva o mesmo grau de inutilidade que representa acrescentar água a um recipiente que já estava prestes a transbordar. Os verdadeiros valores não são gerados por teatros e termas, perfumes e essências... mas pela ciência natural.”

O muro foi pago por Diógenes, um dos homens mais ricos de Enoanda, que desejava, 4 séculos após Epicuro e seus amigos terem fundado o Jardim de Atenas, compartilhar os segredos da felicidade que ele havia descoberto na filosofia de Epicuro.

O antigo filósofo cuja maior parte das obras se perdeu foi bem mais incompreendido – ou analisado de forma superficial – do que compreendido. Dizem que tudo que ensinava era a busca pelo prazer (hedonismo) e o materialismo (atomismo), mas é preciso desconhecê-lo profundamente para tais tipos de hiper-simplificações de seu pensamento.

Sobre a busca do prazer, Epicuro em realidade afirmava que “o homem que alega não estar ainda preparado para a filosofia ou afirma que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que é jovem ou velho demais para ser feliz.” Longe de ensinar uma busca desenfreada por prazeres mundanos, ele defendia que uma vida equilibrada e na companhia de boas amizades era todo o necessário para a felicidade – neste caso, pão e água eram suficientes... “De todas as coisas que nos oferecem a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade... alimentar-se sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo.”

Poucos foram aqueles que, ao longo da história, enxergaram o quanto a filosofia de Epicuro sempre se fez necessária para nos afastar das tentações e desejos inúteis da vida em sociedade. Ele separava os desejos da seguinte forma:

O que é essencial para a felicidade

Natural e necessário Natural mas desnecessário Nem natural nem necessário
Amigos, Liberdade, Reflexão, Casa, Comida, Roupas Palacete, Terma privativa, Banquetes, Empregados, Peixe, Carne Fama, Poder, Status

Dizem também que Epicuro era ateu. Mas de fato tudo o que defendia era que os deuses viviam em uma realidade muito superior a mundana, de modo que provavelmente não estariam preocupados com nossos afazeres, e nem era necessário que nos afligíssemos com eles ou que preparássemos rituais e oferendas para aplacar sua ira ou barganhar por favores sobrenaturais.

Para Epicuro, isso tudo era fonte de angústias desnecessárias... Porque se preocupar com política, com os deuses, com o acúmulo de riquezas ou com a morte, se o prazer da vida está exatamente em compartilhá-la com os amigos, em não viver com mais do que o necessário, e na constante reflexão sobre a natureza infinita do Cosmos?

Em sua recusa em se preocupar com um panteão de deuses com seus próprios afazeres e em sua exaltação da felicidade que advém da vida harmoniosa, em contato constante com os amigos e a natureza, Epicuro era bem mais religioso que a maioria dos eclesiásticos – e bem mais monoteísta que a maioria dos religiosos que dizem seguir somente a um único Deus, mas que ao fim do dia seguem a vários...

Pensemos nos dias atuais, em que a maior religião e o maior deus passam desapercebidos da grande maioria, embora quase todos acabem rezando para ele: o deus do consumo. Seus evangelizadores estão em cada canal de TV paga ou aberta, sua bíblia é ensinada desde as “orientações vocacionais” das escolas aos “discursos sobre a dura realidade da vida e sobre como um bom salário é mais importante do que tudo”... Andando pelas ruas, vemos suas orações expostas em outdoors e páginas de jornal. Ele é tão poderoso que abocanhou até mesmo o tempo – “tempo é dinheiro, eu sou o tempo, eu sou o seu deus!”

Ao contrário do deus de Epicuro, que podia ser encontrado em qualquer grama de jardim, nalgum galho partido ou nos sorrisos dos amigos, este deus é feito sobretudo de coisas sem vida e de desejos desenfreados; muito embora possa parecer “onipresente” em nosso dia a dia – uma roupa de grife, um terno, um celular, um videogame, um carro, um iate... Ele nunca se cansa, e o tempo é a prova:

Porcentagem dos norte-americanos que declararam os seguintes itens como necessários

  1970 2000
Segundo carro 20% 59%
Segunda televisão 3% 45%
Mais de um telefone 2% 78%
Ar-condicionado no carro 11% 65%
Ar-condicionado em casa 22% 70%
Lava-louças 8% 44%

Hoje em dia vivemos correndo, "utilizando" todas as horas do dia. Comendo em fast-foods e tendo relacionamentos no estilo fast – simples, rápidos, indolores, muitas vezes “anestesiados”. Se nos angustiamos com a vida ou se caímos em depressão, oramos também ao grande profeta do deus do consumo – o guardião dos comprimidos em seu manto de tarja preta... Com tudo isso economizamos bastante tempo. Tempo para...?

Não era esse tipo de religião que Epicuro professava. Ele preferia simplesmente ser livre, talvez por reconhecer que perto da imensidão da natureza, suas angústias e desejos eram como poeira e folhas espalhadas pelo vento em seu jardim.

Quaisquer que sejam as diferenças entre as pessoas e seus desejos e angústias, elas não são nada perto das diferenças entre os seres humanos mais poderosos e os grandes desertos, as altas montanhas, geleiras e oceanos, a luz das estrelas. Existem fenômenos naturais tão grandes que tornam as variações entre duas pessoas quaisquer ridiculamente pequenas. Ao passar um tempo em amplos espaços, a consciência de nossa própria insignificância na hierarquia social pode se transformar na consciência reconfortante da insignificância de todos os seres humanos no Cosmos.

Podemos superar o sentimento de que somos insignificantes não nos tornando mais importantes ou desejando fama, poder ou status, mas reconhecendo a insignificância relativa de todos. Nossa preocupação com quem é alguns milímetros mais alto do que nós pode dar lugar a uma reverência a coisas infinitamente maiores que nós, uma força que podemos ser levados a chamar de natureza, vida, infinito, eternidade – ou simplesmente Deus.

Mas, sobretudo, quem mantém os pés no chão florido das amizades duradouras e a mente na imensidão estelar do Cosmos, este não poderá jamais ser seduzido pelas efêmeras promessas dos arautos do deus do consumo, tampouco necessitará recorrer a tratar da angústia com comprimidos (*). Este tem a seu lado o amor ao saber, as reflexões diárias, a liberdade de pensamento: este encara toda angústia e todo desejo por si mesmo, ou talvez com a ajuda de amigos. Seres reais, não imaginários nem inanimados – aí está o deus de Epicuro. Onde está o seu deus?

***

(*) Certas doenças necessitam de medicação, e é excelente dispor da medicina atual para tratá-las. O que não podemos é usar comprimidos como muletas - nesse sentido nossos comprimidos serão nossos deuses, e nós os seus fantoches. Por outro lado, também é necessário "cortar o mal pela raiz": a filosofia nos ajuda a evitar a necessidade de comprimidos, evitando antes a doença.

Leitura recomendada: “As consolações da filosofia” e “Desejo de status” – ambos de autoria de Alain de Botton e publicados no Brasil pela Editora Rocco. As citações de Epicuro e Diógenes foram retiradas do primeiro.

***

Crédito das imagens: Bettmann/Corbis (anúncio de cigarros de 1936) [topo], Iplan/amanaimages/Corbis [ao longo].

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7 comentários:

Anonymous lucas cotrim disse...

Eu acho o panteismo interesante,aproposito tem um texto sobre o relacionamente entre a religião e a ciencia escrita por um cetico que eu gostaria que voce desse uma olhada:http://mbarbatti.sites.uol.com.br/def/p83.html

(Eu não tenho a intenção de te converter ao materialismo,so quero saber sua opinião como espiritualista de mente aberta)

24/8/10 20:57  
Blogger raph disse...

Oi Lucas, já que considera a minha opinião acho interessante lembrar que segundo o Livro dos Espíritos o espírito em si mesmo (e o perispírito) é feito de matéria, apenas matéria fluida e ainda não detectada diretamente em laboratório (como o restante dos 96% que não interagem com a luz, segundo a Teoria da Matéria Escura). Portanto, há muitos espíritas e espiritualistas (como eu) que consideram a matéria espiritual (isso não veio do espiritismo mas passou a ser bem mais considerado à partir dele).

Um materialista, em suma, apenas crê que a matéria QUE JÁ FOI detectada (os cerca de 4%) explicam TODO o processo de consciência humano. Ele também tende a ser monista, no sentido de não crer na separação mente-corpo... Mas você pode ser espiritualista e monista (e não dualista), considerando que o espírito só existe junto ao corpo. Um exemplo é Amit Goswami...

Mas claro que a maioria dos espiritialistas é dualista mesmo... Assim como praticamente não faz sentido ser materialista sem ser igualmente monista.

O artigo lerei agora...

Abs
raph

24/8/10 23:30  
Blogger raph disse...

Sobre o artigo:

"Se o questionário de Leuba fosse estendido para avaliar tanto a crença num Deus pessoal quanto num Deus-harmonia, o número de crentes entre os cientistas norte-americanos provavelmente subiria para algo similar ao número de crentes entre a população inglesa ou francesa."

Concordo plenamente. É preciso lembrar que muitos grandes sábios eram panteístas, como Epicteto e muitos dos estóicos, e posteriormente o grande Espinosa, e o próprio Einstein nos dias mais atuais...

Minha religião é meu pensamento, mas conforme disse no blog algumas vezes, a minha crença em Deus se aproxima muito da de Espinosa.

O problema é que mesmo Espinosa não é inteiramente panteísta (*), pois crê (como eu) numa "intenção" da natureza, que atua como um guia oculto sempre a nos inspirar para a evolução constante. Toda a "Ética" de Espinosa trata exatamente de compreender essa "intenção" da natureza e segui-la da melhor forma possível.

E, convenhamos, um Deus que criou tudo a partir de si mesmo (a substância-primeira, pois uma substância jamais criou outra) e estabeleceu leis tão elegantes, simétricas e constantes, não iria se dispor a ir falar com um povo perdido no deserto de um cantão de um pequeno planeta orbitando um pequeno sol na periferia de uma de bilhões e bilhões de galáxias no Cosmos.

Ser panteísta, ou deísta, é sobretudo reconhecer que Deus é muito, muito maior do que o senhor dos exércitos ou o filho ungido, etc.

Nada contra Jesus (muito pelo contrário), apenas não acho que poderia ser Deus...


(*) Da maneira como ele é as vezes compreendido - uma simples oposição a um "deus pessoal" -, isso daria um longo debate heh...

Abs!
raph

24/8/10 23:40  
Anonymous lucas cotrim disse...

Ainda falando sobre ateismo aqui tem um bom blog caso resolva voltar a escrever sobre o tema:http://adrianoped.blogspot.com/

26/8/10 18:15  
Blogger raph disse...

Também foram encontradas mais inscrições de Diógenes sobre a filosofia de Epicuro. Numa inscriçao em pedra ela aparece sob a forma de um tetrapharmakon, um quadruplo remedio, composto por ingredientes das doutrinas principais do filósofo:

"Não há o que temer quanto aos deuses.
Não há nada a temer quanto a morte.
Pode-se alcançar a felicidade.
Pode-se suportar a dor."

20/4/12 09:54  
Blogger Dionisio Ribeiro disse...

Eu tenho certa convicção que todo cientista apaixonado francamente pelo seu trabalho é de certa forma panteista. Falando de mim, minhas primeiras experiências místicas se deram através da ciência. Apenas estudando espiritualidade mais a fundo consegui classificá-las como tal. Um cientista que medita sobre os mistérios da realidade com dedicação e amor não esta distante dos grandes filósofos da natureza do passado. Ouso dizer que estão mais proximos de um ofício sagrado do que a maioria de nossos atuais sacerdotes.
Acho interessante considerar que a maioria dos cientistas que conheço sao pessoas simples. Talvez de gosto refinado, porém simples. Pessoas com atitudes muito mais voltadas a honrar ao Deus de Epicuro do que ao do consumo. Pode ser, é claro, que eu seja muito otimista. Mas afinal, como a realidade é mental, acho produtivo pensar desta forma sobre um meio que estou inserido. =)

5/7/13 05:21  
Blogger raph disse...

Certamente Dionisio, os cientistas de outrora (do renascimento da ciência no Ocidente) chamavam a si mesmos não de cientistas, mas de Filósofos da Natureza.

Se formos considerar grandes cientistas como Feynman e Sagan, eles eram mesmo pessoas muito simples (mas jamais pessoas simplórias ou medíocres). Como influenciaram tantos outros cientistas, acaba que o seu próprio "jeito de ser" tende mais a simplicidade e a despreocupação com o consumismo.

Afinal, quem tem toda a Natureza para observar, não se incomoda em ter um smartphone de duas ou três gerações atrás :)

Abs!
raph

5/7/13 10:05  

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