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16.3.19

Parmênides, Heráclito e a disputa pelo Ser

Em boa medida a história da filosofia se construiu pelo embate de ideias, principalmente no Ocidente. Hoje em dia é comum analisarmos qualquer embate do tipo, também chamado de “treta”, como uma disputa onde um lado precisa humilhar o outro, mas nem sempre foi assim... Na verdade, de um embate de ideias virtuoso, onde pedras se chocam não para tirar lascas umas das outras, mas para produzir faíscas de pura luz, é que surgiu o incêndio do pensamento genuinamente filosófico; e tal fogo arde até hoje, apesar dos séculos.

Que se saiba, o primeiro grande embate entre ideias da filosofia ocidental ocorreu na antiga Grécia, pouco antes do nascimento de Platão. Tal embate contou com duas posições antagônicas – Parmênides de Eleia e Heráclito de Éfeso –, e aquele que de alguma forma sintetizou suas ideias, o grande Sócrates.

Parmênides e o Ser
Tudo indica que Parmênides escreveu somente uma única obra, um poema intitulado Da Natureza, que sobreviveu aos séculos a partir da citação de fragmentos nas obras de outros autores. Assim, o que nos resta do seu pensamento são somente fragmentos copiados do original. Ainda assim, tais fragmentos possuem trechos tão profundos que influenciaram inúmeros pensadores posteriores, do próprio Platão a Benedito Espinosa, já dezenas de séculos depois.

Seu poema também fundou a ontologia, a ciência (logoi) do ser (ontos). Basicamente, o que Permênides defende é que tudo o que há, foi ou será é parte de um mesmo Ser, que não pode jamais ter deixado de existir, nem por um momento. Assim, tudo o que existe é parte do que é e sempre foi e sempre será, o Ser. Em suas palavras:

Como poderia [o Ser] ter sido gerado? E como poderia perecer depois disso? Assim a [sua] geração se extingue e a [sua] destruição é impensável. Também não é divisível, pois que é homogêneo, nem é mais aqui e menos além, o que lhe impediria a coesão, mas tudo está cheio do que é. Por isso, é todo contínuo; pois o que é adere intimamente ao que é.

Talvez a melhor forma de explicar tal ideia nos tempos atuais seja compará-la ao conceito do tecido espaço-temporal: se é que existe apenas este universo em que vivemos, fato é que não há nada “fora dele”, pois desde o Big Bang vivemos dentro do mesmo espaço-tempo, sendo até mesmo o próprio tempo somente mais uma das dimensões deste “todo”. Muita gente, até mesmo cientistas, até hoje se choca e se encanta com tal pensamento: pois bem, Parmênides foi um dos primeiros homens a concebê-lo em toda a sua profundidade!

No entanto, o grande “problema” do pensamento de Parmênides, e que lhe rendeu inúmeros críticos ao longo da história, é que a partir do pressuposto lógico de que só existe um único Ser do qual tudo o mais é parte derivante, ele se dedicou a refletir sobre a imutabilidade deste Ente, e aparentemente chegou a surpreendente conclusão de que nada no mundo de fato muda, e que a própria mudança, ou a própria percepção do tempo, é nada mais que uma ilusão causada por nossos sentidos falhos.

Ora, não foi a primeira nem a última vez que um filósofo extrapolou um pensamento lógico e o transportou diretamente para a nossa realidade subjetiva; mas sem dúvida foi, até hoje, uma das formas mais brutais com que isto foi feito.

(Dito isso, em meio aos fragmentos de seu poema, nos chegou um (III) em que lemos tão somente: ...pois o mesmo é pensar e ser. Teria sido extraordinário se mais algum trecho dessa parte do poema tivesse sobrevivido.)

Heráclito e o “fogo sempre vivo”
Diz-se que o grande contraponto a tal ideia de imutabilidade surgiu de Heráclito, um filósofo que viveu mais ou menos na mesma parte do mundo, e que provavelmente nasceu enquanto Parmênides ainda era vivo. É difícil cravar, no entanto, que Heráclito tomou contato com o pensamento de Parmênides. Fato é que a obra que lhe foi atribuída pelo historiador Diógenes Laércio tinha um título quase idêntico: Sobre a Natureza. Mas isto por si só não deveria ser grande motivo de surpresa, uma vez que era justamente sobre a natureza que muitos pensadores daquela época se dedicavam (aliás, até poucos séculos atrás, muitos cientistas ocidentais na realidade se autointitulavam “filósofos da natureza”).

Diógenes também acusou Heráclito de escrever de forma “obscura, próxima das sentenças oraculares”. Ademais, também nos chegaram tão somente fragmentos de sua obra – infelizmente, em número ainda menor do que os de Parmênides. Dessa forma, o que se sabe se seu pensamento é, em boa medida, mais uma construção tardia do que algo embasado.

Ao contrário de Parmênides, Heráclito ficou famoso pela defesa da ideia oposta à imutabilidade: “tudo flui” (panta rei) ficou conhecido como o seu grande “mantra”. Por exemplo, um trecho particularmente famoso de sua obra fala do fluxo dos rios (XII):

Para os que entram nos mesmos rios, afluem sempre outras águas.

Assim, imaginando esta cena de um homem atravessando um rio, podemos claramente conceber que, a despeito do mesmo rio poder permanecer séculos atravessando o mesmo local, em nenhum momento é a mesma água que corre através dele. Dessa forma, se um homem atravessa este rio pela manhã, quando retorna pela tardinha, e o atravessa novamente, já está a atravessar outro rio: as suas águas já não são as mesmas.

Ora, Parmênides poderia afirmar que na realidade é uma ilusão sensorial que faz com que acreditemos que o Ser se modificou na medida em que as águas desceram pelo rio. Mas então, será mesmo que Heráclito se colocaria diametralmente em oposição a ele? Honestamente, eu tenho minhas dúvidas...

O Ser imutável de Parmênides não é o mesmo que o rio mutável de Heráclito, dentre outras razões pelo fato de o rio ser somente a parte de um “todo”. Heráclito jamais negou este “todo”, que ele chamava de Logos; de fato a sua obra se inicia assim:

Com o Logos, porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido [acerca dele]. Com efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo com este Logos...

E nos trechos XXX e XXXVI temos complementos poderosos a esta ideia:

O mundo, o mesmo em todos, nenhum dos deuses e nenhum dos homens o fez, mas sempre foi, é e será, fogo sempre vivo, acendendo segundo a medida e segundo a medida apagando.

Para os ventos, morte vem a ser água, para a água, morte vem a ser terra; mas da terra nasce a água, e da água, [nasce] o vento.

Para Heráclito, portanto, tudo o que existe jamais poderia ser resumido em mera “mudança” (como alguns intérpretes supuseram, de maneira preguiçosa), mas antes às infindáveis mudanças do Logos, ou do “fogo sempre vivo”.

A reconciliação platônica
Segundo Platão, Sócrates teria reconciliado e sintetizado as ideias de Parmênides e Heráclito no célebre mundo das ideias, onde as formas perfeitas subsistiam imutáveis, para que seus reflexos pudessem existir de forma mutável no mundo sensível; isto é, neste mundo que vemos com os olhos e cheiramos com o nariz.

Pois bem, esta é uma das formas de reconciliar tais ideias... mas, será que elas precisavam mesmo de uma síntese tão extravagante? Seriam elas assim tão opostas, no final das contas?

A Substância de Espinosa
A despeito de ser usualmente listado como grande defensor da vertente de Parmênides, Benedito Espinosa, o grande filósofo holandês, parece ter alcançado uma síntese bem mais lógica e profunda em sua obra-prima, a Ética demonstrada à maneira dos geômetras.

Logo no início da obra, Espinosa chega a sua grande declaração lógica, que afirma que “uma substância não poderia gerar a si mesma”. Assim sendo, fica claro que a Substância de Espinosa se assemelha ao Ser de Parmênides.

No entanto, para Espinosa o fato de existir uma só substância não quer dizer que as suas infindáveis subdivisões sejam mero fruto de uma onipresente ilusão sensorial: nada disso, as coisas poderiam se modificar sem perder a sua essência substancial, as águas de um rio poderiam correr por séculos sem que o rio deixasse de ser rio.

Nesse sentido, a ideia de Espinosa para a Substância também se casa perfeitamente com o Logos, o “fogo sempre vivo” de Heráclito. O fato de haver mudança constante no mundo não significa que nada tenha uma essência, uma substância da qual deriva em última instância.

E fica ainda mais simples compreender se retornarmos à ciência: disse Lavousier que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Ora, se de fato é assim (e até agora a ciência não provou o contrário), isto significa que os mesmos átomos que formavam o hélio e o hidrogênio do início deste universo ainda estão aqui, e se acaso elementos pesados foram formados no núcleo das estrelas, e se acaso se formaram o Sistema Solar, a Terra e os seres humanos, nada disso quer dizer que o espaço-tempo deixou por um momento sequer de existir.

Assim, seja Ser, Logos ou Substância, tudo o que é, foi e será continua sendo o mesmo Cosmos. E nós somos uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo. Nós somos aqueles que atravessam os rios, e os rios correm para sempre, embora jamais sejam, por um momento sequer, o que foram antes, ou o que virão a ser.


raph

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Bibliografia
Os pensadores originários. Anaximandro, Parmênides e Heráclito. Editora Vozes de Bolso.
Da natureza. Parmênides. Edições Loyola.
Parmênides. Platão. Editora PUC Rio e Edições Loyola.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Parmênides); [ao longo] Ben Blennerhassett/unsplash

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23.2.18

O que é Deus pra você?

Após ter acompanhado seu nascimento e crescimento desde o início, é com muita honra que hoje prosseguimos com a parceria deste blog com o canal Conhecimentos da Humanidade no YouTube, apresentado por Bruno Lanaro e Leo Lousada.

Neste roteiro, trouxe de volta um antigo artigo sobre as muitas formas de crença ou descrença em Deus ou nos deuses, e acredito que o resultado final tenha ficado muito bom. Logo nas primeiras horas, o vídeo chegou a uma centena de comentários, não deixe de dar o seu também. Afinal, o que é Deus pra você?

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24.11.14

Unicidade

Há muitos agnósticos que creem que Deus talvez até exista, mas pouco intervem. Equivale a dizer que, na prática, todo o debate acerca da existência de Deus é um tanto inútil, já que nem mesmo Ele está interessado em intervir para dar a discussão por encerrada. A verdade é que não se convence ninguém da existência de Deus – há muitos que foram convencidos da existência do Diabo e que, por temerem o seu Lago de Enxofre, acabam por achar melhor crer num Deus salvador. Mas como pode Deus salvar, se não intervem?

Já dizia o velho Lao Tse que o melhor governante é o governante desconhecido, o que faz com que seu povo prospere por si mesmo e nem se preocupe com quem está sentado nalgum trono distante... Trazendo para a época atual, poderíamos imaginar duas universidades: a primeira, uma instituição de ponta, onde todos os professores e funcionários seguem a um estatuto muito bem elaborado, que já previra todos os percalços do caminho, e mantém seus alunos em constante aprimoramento; a segunda, um caos completo, onde um estatuto falho faz com que funcionários e professores não tenham regras claras a seguir, e não consigam manter o bom funcionamento da instituição nem tampouco manter seus alunos interessados nas aulas...

Onde vocês acham que um reitor teria de intervir mais, na primeira ou na segunda universidade?

Ora, nós estamos acostumados a questionar e a reelaborar constantemente nosso conhecimento, nossa ciência, nossa arte e até mesmo nossas doutrinas religiosas. Porém, não é sempre mirando a ordem grandiosa da Natureza que temos, passo a passo, evoluído ao longo de tantas eras humanas?

Foi preciso, afinal, nos apoiarmos em ombros de gigantes para que pudéssemos enxergar mais adiante. E os gigantes eram nós mesmos... Mas todos os gigantes da Terra, no final das contas, tinham os pés plantados no solo. A relva nos precede tanto quanto o nascer e o pôr do sol. As leis naturais, as forças naturais, as grandezas naturais, as simetrias naturais, estão a nossa volta desde que aprendemos a captar a luz e, com ela, formar as mais belas e variadas formas em nossas mentes ancestrais... Até onde isso leva?

Dizer "Deus é a Natureza" não é bem o problema, o problema é crer que isto seria reduzir a Deus. Pois a questão é que por "Natureza" muitos compreendem somente o seu Mecanismo, e daí reduzir Deus a "mera Natureza" não seria tão diferente de reduzir a Natureza a "mero Mecanismo". É o Sentido, o Sentido que traz para a nossa alma um vislumbre da grandiosidade de tudo o que há!

A ciência, infelizmente, nada tem a nos dizer acerca deste Sentido (embora não deixe de indicar o caminho)... É necessário elaborarmos o estatuto de uma nova Academia, de uma Universidade da Alma, e a sua primeira aula será: Unicidade.

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Crédito da imagem: Google Image Search

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13.2.13

Ad infinitum: Porque não há 2 substâncias incriadas?

Este é um comentário adicional acerca do meu livro: Ad infinitum. Este comentário pode parecer complexo, mas devo dizer que o livro foi escrito para ser o mais compreensível possível. Portanto, não deixe de ler a Amostra grátis antes de descartá-lo por alguma razão de aparente complexidade.

Algumas pessoas parecem não ter compreendido muito bem alguns conceitos chaves do livro, e da ideia de Substância de Benedito Espinosa.

Uma das questões que encontrei se referia ao motivo lógico de não poder haver mais de uma substância incriada, no caso, 2+. Ou seja, entre 2 ou 1 milhão ou 1 googolplex de substâncias incriadas, o problema lógico seria o mesmo. Mas, para facilitar o entendimento, vou considerar apenas 2 aqui.

Devo dizer que o que vou falar aqui é exposto bem mais aprofundadamente logo no início da obra prima de Espinosa, a Ética. Mas, devido à linguagem “geométrica” utilizada na obra, o entendimento pode ser mesmo complexo para quem não está muito acostumado com uma filosofia um pouco mais densa. Somente por isso venho aqui tentar explicar o mesmo, procurando usar a linguagem mais simples possível:

Ou há "0" ou há "1" (onde "0" = nada).
Conforme nada pode surgir do nada, temos que ou deve existir algo, ou deve existir nada.

Já que estamos aqui, há "1". Há informação, e não nada.
Conforme estamos aqui pensando, e conforme a nossa volta existem cadeiras e tortas de maça [1], temos que algo existe. Poderia ser somente uma única informação, um único bit [2], ou poderia ser tudo o que há no Cosmos. Tanto faz: fato é que algo existe, e não nada. De fato, esta é uma das poucas certezas que podemos ter em filosofia.

Acaso existissem duas substâncias incriadas, precisariam ter dois atributos diferentes: "1a" e "1b".
Se imaginarmos que poderiam existir duas substâncias incriadas, ou causas de si mesmas, temos que elas precisariam ser diferentes uma da outra, do contrário seriam a mesma. Desta forma, seria necessário que tais substâncias tivessem ao menos um atributo, uma informação, capaz de diferenciá-las entre si. Então, neste caso, teríamos algo como: “1a" e “1b”. Onde “a” e “b” são atributos diferentes um do outro.

Mas "a" e "b" são informações, e toda informação é já um efeito da causa primeira: "1".
Conforme os atributos “a” e “b”, atribuídos às supostas substâncias incriadas, são por si só informação, e como nenhuma informação poderia surgir sem uma causa [3], daí concluímos, pela lógica pura, que “1a" e “1b” na verdade partilham informações já criadas. Isto significa que “1a" e “1b” não poderiam ser as responsáveis por haver criado, respectivamente, “a” e “b”. Ou seja, apenas partilham uma informação que foi criada por uma substância necessariamente pré-existente a elas: “1”.

Dessa forma, temos que "1a" e "1b" nada mais seriam do que subdivisões, efeitos de "1".
Conforme “a” e “b” eram já informações pré-existentes, isto significa que “1a" e “1b” não seriam substâncias incriadas, mas antes subdivisões, substâncias filhas da substância incriada, que deve necessariamente ser única: “1”.
Outra analogia que nos cabe fazer é imaginarmos a luz e suas cores: Ora, hoje sabemos que as cores nada mais são do que a luz (fótons) em diferentes comprimentos de onda. Poderíamos, portanto, imaginar que “existe a cor azul” e que “existe a cor verde”. Mas ambas as cores são apenas percebidas assim por nossos olhos, subjetivamente, pois objetivamente são formadas por luz. Não é que as cores não existam, elas existem, mas existem somente porque antes existiu a luz, e depois uma mente capaz de perceber a luz. Quando rodamos um disco de cores (ou Disco de Newton) percebemos que o que resulta da mistura de todas as cores é a cor branca. Da mesma forma, poderíamos nos iludir imaginando que “1a" e “1b” seriam substâncias incriadas, quando em realidade seriam como que “cores” de “1”, que corresponderia, por analogia, a cor branca, a luz em si.
Lembremos, porém, que isto é somente uma analogia, pois que mesmo os fótons em si já seriam subdivisões de “1”.

A conclusão lógica é que há somente uma única substância incriada, e que estamos dentro dela.
Esta é a beleza desta reflexão profunda: conforme tudo o que existe é subdivisão da substância incriada, e conforme tudo o que existe é formado por informação, daí concluímos, pela lógica, que somos também formados por esta mesma substância, que estamos neste momento, e em todos os outros, navegando dentro dela [4].
Isto não significa crer num deus pessoal (e Espinosa, de fato, não acreditava), mas significa, quem sabe, reconhecer que debaixo de cada pedra e dentre qualquer galho seco, há uma brisa de Eternidade, há algum pedaço do Infinito.
E, agora que vocês sabem disso, podem se tornar também, nesta Criação, cocriadores!

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[1] “Para criar uma torta de maça a partir do nada, primeiro seria necessário criar todo o universo” (Carl Sagan, em Cosmos).

[2] Um bit de informação corresponderia a “sim” ou “não”, “falso” ou “verdadeiro”, ou qualquer outro conjunto de dois valores. Atentem, porém, que neste caso o “0” ou “1” já não corresponderia ao “0” (nada) ou “1” (algo) da primeira suposição lógica. Neste caso, o “0” seria já alguma informação, e não nada.

[3] Isto é: Nenhuma informação poderia surgir sem uma causa, e nem mesmo a própria ideia de informação em si, pois que nada poderia ser formado por alguma informação sem que a própria informação em si já fosse existente. Seria o mesmo que dizer que uma árvore foi árvore sem antes ter sido semente, ou que “1” ao mesmo tempo é “1+1”, ou “1a", o que é ilógico. Primeiro veio “1”, primeiro veio à semente, e depois veio todo o resto.

[4] De fato, conforme exponho no decorrer do livro, mesmo nossos pensamentos são formados por subdivisões da substância incriada. Lidamos com informações o tempo todo.

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Crédito da imagem: Ayon/Raph.

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10.8.12

Citações (7)

Algumas citações minhas e de outros autores. Elas geralmente já terão aparecido anteriormente na página do Textos para Reflexão no Facebook...


O Bergson diz aqui que "o olho vê somente o que a mente está preparada para compreender"...

É uma frase bastante profunda do Bergson, mas se formos refletir um pouco mais a fundo sobe o assunto, teremos algumas conclusões ainda mais surpreendentes:

-O olho é apenas uma ferramenta de captar fótons (luz); O que vê não é o olho, mas o cérebro. Uma pessoa com os olhos perfeitos, mas sem um cérebro funcional, pode ainda assim não ver nada, ou não distinguir o que vê.

-Mesmo o cérebro levou anos para "aprender a ver". Cegos de nascença, como alguns descritos nos livros do neurologista Oliver Sacks, mesmo após terem recuperado a visão podem levar até 15 anos para "reaprender a enxergar", e alguns deles podem até enlouquecer ou preferir voltarem a ser cegos.

-Se o olho é uma ferramenta que envia informações ao cérebro, mesmo o cérebro age como ferramenta para a mente, ou o que quer que, dentro dele, interprete o que está sendo visto, e possa admirar "o amarelo da pétala do Girassol", ou "a vermelhidão do céu no final da tarde".

-Nos sonhos, quando nunca vemos com os olhos, mas diretamente com a mente, ainda assim podem surgir formas e signos tão "alienígenas" a nossa realidade desperta, que mesmo após acordar não compreendemos o que se passou, ou simplesmente esquecemos...

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Segundo o filósofo americano John Searle, a consciência poderia ser imaginada como um “quarto chinês”: neste quarto estariam armazenados todos os dicionários e regras de gramática associados ao idioma chinês. Dentro dele haveria um homem capaz de traduzir e responder às questões escritas em chinês manipulando esses recursos, apesar de não saber falar uma única palavra nessa língua. Então, alguém que enviasse a frase “Como está o dia hoje para você?” poderia receber a resposta “Horrível!”, no mesmo idioma. Visto de fora, poderia parecer que o homem no interior “entendeu” a questão, mas Searle argumenta que esse comportamento não é suficiente para a compreensão.

Da mesma forma, um computador nunca poderia ser descrito como “tendo uma mente” ou “compreendendo”. Já o cérebro poderia ser tão somente “um supercomputador pilotado pela mente”.

Outros filósofos argumentam que a compreensão consciente seja tão somente o processo de “se comportar como se entendesse”.

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Para os Panteístas, como Parmênides, Plotino e Espinosa, Deus e o Universo são a mesma coisa, o Uno. Neste contexto, falar em "causas naturais" e "causas divinas" não faz muita diferença, pois a Natureza também é divina.

Por isso que, para muitos Panteístas, dizer que Deus existe ou não é inútil, ao menos do ponto de vista filosófico. Melhor seria perguntar: "O que é Deus para você?"; ou ainda: "Porque existe algo e não nada?". Estas sim são questões pertinentes, sem respostas fáceis, e que fazem pensadores, e não dogmáticos do "existe" ou do "não existe".

No fundo, Deus é apenas uma palavra. E, ao mesmo tempo, Deus é Tudo.

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A vida é cheia de muitas coisas. Felizes são aqueles que conseguem se preocupar apenas com aquelas que podem mudar, e não esquecer jamais do perfume dos amantes, e não desviar a atenção do ritmo da melodia da festa - sim, esta mesma, que é celebrada neste momento.

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É melhor amar e perder, amar e sofrer, do que nunca haver sequer amado, do que nunca haver sequer vivido. O que sobra do amor? Todo o amor, e toda a poesia.

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Seria o Nirvana o último passo da longa caminhada? E depois o que? Ficar eternamente diluído no Grande Oceano? Dar por encerrada a navegação?

Devemos lembrar que o próprio Buda respondeu tais questões, não com palavras, mas com ações: foi somente após ter alcançado o Nirvana que Sidartha passou a percorrer as estradas e os vilarejos do Oriente, refletindo a luz de sua sabedoria adiante... Para o Buda, o Nirvana foi o início, não o fim.

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O Céu, afinal, não é o lugar onde os anjos estão, nem há nesse momento nenhuma festa acontecendo por lá. Os anjos estão atarefados demais convidando aos que ainda não chegaram para a Grande Festa, quando o Céu estará finalmente cheio - todos nós, de mãos dadas, dançando em torno do Sol.

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Crédito da imagem: Martin Puddy/Corbis

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22.3.12

Comentário: o que é Deus?

Comentário das respostas da pergunta “o que é Deus?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Alguns leitores se perguntaram qual seria a minha própria resposta para esta e outras perguntas da série, mas a minha intenção não era propriamente responde-las (até mesmo porque algumas delas não têm exatamente uma resposta), e sim iniciar uma reflexão, uma nova gama de pensamentos, um debate proveitoso e respeitoso sobre os temas que, por alguma estranha razão, volta e meia são taxados de polêmicos. Às vezes, até mesmo de tabus.

Com o tempo, eu passei a compreender em parte o motivo pelo qual a maioria das pessoas se sente desconfortável quando alguém chega para elas e diz: “Deus é assim”; ou “Deus é desse jeito”; ou “Aceite Deus como dizemos que é, e será salvo”; ou até mesmo “Não existe Deus, não creia nessa grande bobagem”... Talvez seja mais simples me fazer entender evocando a própria linguagem, pois é afinal apenas através dessas cascas de sentimentos, as palavras, que tentamos compreender e nos comunicar uns com os outros. E a linguagem é muito proveitosa e útil em inúmeros casos – é sempre bom falarmos em “rua” e “avenida” quando queremos saber de algum endereço; ou em “comida” e “restaurante” quando estamos famintos no meio da cidade. Em outros casos, entretanto, a linguagem nem sempre é o suficiente – falamos em “liberdade”, “disciplina”, “justiça”, “Deus”, etc., e as pessoas prontamente pensarão nos conceitos (subjetivos) mais distintos, em alguns casos até mesmo opostos uns dos outros.

Substituamos, então, a palavra “Deus” por “amor”, e temos afirmações desse tipo: “O amor é assim”; ou “O amor é desse jeito”; ou “Aceite o amor como dizemos que é, e será salvo”; ou até mesmo “Não existe o amor, não creia nessa grande bobagem”... Sim, é um exercício proveitoso, mas devemos tomar cuidado com esse jogo de linguagem. Se, por um lado, cada um tem sua própria visão de Deus, e do amor, e do Cosmos, e da vida, e da natureza, etc., há uma boa razão para todas essas palavras terem sido nalgum dia criadas, e não serem uma mesma ideia, um mesmo conceito. Não são. O que eu queria dizer ao associar Deus com o Cosmos ou, agora, com o amor, não é que tais conceitos são a mesma coisa, mas pelo contrário: que assim como cada um tem sua própria visão deles, mesmo quando falamos em uma só palavra – “Deus” –, ainda assim essa divergência, essa interpretação subjetiva, própria de cada um, persiste.

É exatamente por isso, por não existir um único Deus enquanto conceito, mas sim o Deus de cada um, que eu aprendi que é bem melhor iniciar uma conversa sobre este assunto com uma pergunta, e jamais com uma afirmação: pergunte “o que é Deus para você?”, mas jamais diga “Deus é desse jeito” ou “Deus existe” ou “Deus não existe”... Depende de cada um, de cada visão específica do Cosmos sobre si mesmo – nenhuma digital em 7 bilhões é igual, nenhuma mente é igual, nenhuma crença (subjetiva) é igual. Os radicais e dogmáticos são aqueles que pretendem que acreditemos que todos podem efetivamente pensar igual, num mesmo conjunto de regras morais infalíveis, seguindo manuais de verdades absolutas – mas a única verdade absoluta que existe é que existe algo, e não nada. O resto, todo o resto, é apenas derivado desse fato extraordinário, desse mistério inefável, infinito: existe algo, isto tudo a nossa volta, isto tudo dentro de nossa mente, é parte disso, é parte do Cosmos, é parte de Deus, não é nada, jamais foi ou será nada...

Mas, então, não estamos realmente falando do Deus antropomorfizado, reduzido a nossa semelhança, que parece ter personalidade e desejos específicos, que parece ser um ser, um deus pessoal. Estamos nos aventurando a um infinito maior, a origem de todas as coisas, ao que mantém a ordem e harmonia de todo o Cosmos, da mais ínfima informação subatômica ao mais vasto agrupamento de galáxias a vagar pelo tecido do espaço-tempo. Estamos falando de uma força, ou de várias forças irradiadas de uma só. Estamos falando de um Deus que parece ser um Todo, um deus impessoal, incriado, mas que tudo mais irradiou a partir de si.

E, se ao engendrar o conceito de tal Deus substância, a substância que não pode criar a si mesma, Espinosa se preocupou em estabelecer um Deus em oposição aos demais, isso até tem sua relevância, mas é muito pequeno perto da magnitude de nos aventurarmos nessa viagem, nesse caminho de horizonte sem fim, dessa tentativa de sondar a mente do Cosmos. Podemos dizer, sem dúvida, que aqueles que creem nesse Deus-Substância são em realidade ateístas, pois o próprio termo “ateísmo” admite inúmeras interpretações. Mas não podemos imaginar que apenas um rótulo incerto como esse (“ateísta”, “espinosista”, “panteísta”, que seja!) sirva para que ignoremos o assunto, evitando ter de nos aproximar do pensamento alheio, como se o pensamento alheio fosse alguma espécie de vírus capaz de nos afetar as ideias e nos fazer abandonar nossas próprias crenças ou descrenças.

Quem sabe, afinal, o que é Deus? Seja uma entidade descrita por livros infalíveis, seja um conceito filosófico além de nossa atual compreensão, seja um grande acaso cósmico, nada disso é definitivo, pois nada disso encerra a ideia. A única coisa de que sabemos é que ainda não sabemos responder a tal pergunta e, segundo os agnósticos, talvez jamais possamos respondê-la. Mas, alguns de nós também sabem de outra coisa, que passa desapercebida da maioria: que quem têm de responder somos nós, juntos!

Se vamos usar a Deus como um Deus-Barreira, se interpondo entre aqueles que pensam como a gente, e aqueles que discordam de nós, estaremos fazendo, talvez, o uso mais vil e pernicioso deste conceito tão abrangente, infinito, iluminado... Melhor seria aprender com Espinosa (e Einstein, e os estóicos) e imaginar um Deus-Substância a irradiar-se por tudo o que há, que foi, e será. Um Cosmos que talvez tenha mesmo possibilitado a vida consciente para que a própria consciência pudesse visualizar esta luz, esta beleza, esta harmonia infindável. É pensando nisso que nos conectamos a eternidade. É pensando nisso que despertamos, passo a passo, nossa intuição, nossa consciência, nosso amor... É pensando nisso, enfim, que percebemos quanta felicidade, quanta alegria, quanta sabedoria, nos esperam no caminho de volta.

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» Veja também o artigo "Teísmos e ateísmos", que foi escrito inspirado por esse debate.

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Crédito da foto: APOD

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5.1.12

Parmênides: Da natureza

Os fragmentos abaixo fazem parte de um poema original intitulado Da Natureza e sua permanência, escrito pelo filósofo pré-socrático (classificado como tal, apesar de ter vivido mais ou menos na mesma época de Sócrates) Permênides de Eleia, e que influenciou inúmeros filósofos a partir do século IV a.C. até – mesmo que desapercebidamente – os dias atuais.

Esta tradução foi compilada por José Trindade Santos no livro homônimo lançado pelas Edições Loyola – e que recomendo a leitura para uma análise mais aprofundada, embora estritamente “filosófica científica”. Talvez não seja simples interpretar um poema fragmentado, mas certamente podemos ao menos intuir do que chegou até nós que Parmênides praticamente inaugurou a ontologia (a filosofia do ser). Além disso, se Espinosa por acaso não leu tal poema antes de compor sua Ética, devemos considerar que chegou a conclusões muito próximas mais de um milênio após o filósofo antigo.

Pois que quando Parmênides sabiamente resume que “o Ser é, o Não-ser jamais poderia haver sido”, está apenas refletindo sobre o mesmo tema que seria posteriormente desenvolvido na “Substância que não pode criar a si mesma, pois que é tudo o que é e foi e será” de Espinosa... Qualquer semelhança com filosofias ainda mais antigas, vindas do Oriente e, sobretudo, de algum canto do Egito, talvez não seja mera coincidência. Portanto, saboreiem com atenção:

Fragmento 1
Os corcéis que me transportam, tanto quanto o ânimo de impele, conduzem-me, depois de me terem dirigido pelo caminho famoso da divindade, que leva o homem sabedor por todas as cidades.

Por aí me levaram, por aí mesmo me lavaram os habilíssimos corcéis, puxando o carro, enquanto as jovens mostravam o caminho.

O eixo silvava nos cubos como uma siringe, incandescendo (ao ser movido pelas duas rodas que vertiginosamente o impeliam de um e de outro lado), quando se apressaram as jovens filhas do sol a levar-me, abandonando a região da Noite para a luz, libertando com as mãos a cabeça dos véus que a escondiam.

Aí está o portal que separa os caminhos da Noite e do Dia, encimado por um dintel e um umbral de pedra; o portal, etéreo, fechado por enormes batentes, dos quais a Justiça vingadora detém as chaves que os abrem e fecham.

A ela se dirigiram as jovens, com doces palavras, persuadindo-a habilmente a erguer para elas por um instante a barra do portal. E ele abriu-se, revelando um abismo hiante, enquanto fazia girar, um atrás do outro, os estridentes gonzos de bronze, fixados com pregos a cavilhas. Por ali, atrás do portal, as jovens guiaram com celeridade o carro e os corcéis.

E a deusa acolheu-me de bom grado, mão na mão direita tomando, e com estas palavras se me dirigiu: “Ó jovem, acompanhante de aurigas imortais, tu, que chegas até nós transportado pelos corcéis, Salve! Não foi um mau destino que te induziu a viajar por este caminho – tão fora do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Terás, pois, de tudo aprender: o coração inabalável da realidade [ou “da verdade”] fidedigna e as crenças dos mortais, em que não há confiança genuína. Mas também isso aprenderás: como as aparências têm de aparentemente ser, passando todas através de tudo”.

Fragmentos 2-5
Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: um que é, que não é para não ser, é caminho de confiança (pois acompanha a realidade); o outro que não é, que tem de não ser, esse te indico ser caminho em tudo ignoto, pois não poderás conhecer o não-ser, não é possível, nem indicá-lo [...]

[...] pois o mesmo é pensar e ser.

Nota também como o que está longe pela mente se torna firmemente presente: pois não separarás o ser de sua continuidade com o ser, nem dispersando-o por toda a parte segundo a ordem do mundo, nem reunindo-o.

[...] para mim é o mesmo por onde hei de começar: pois aí tornarei de novo.

Fragmento 6
É necessário que o ser, o dizer e o pensar sejam: pois podem ser, enquanto o nada não é: nisto te indico que reflitas.

Desta primeira via de investigação te [afasto], e logo também daquela em que os mortais, que nada sabem, vagueiam, com duas cabeças: pois a incapacidade lhes guia no peito a mente errante; e são levados, surdos ao mesmo tempo que cegos, aturdidos, multidão indecisa, que acredita que o ser e o não-ser são o mesmo e o não-mesmo, para quem é regressivo o caminho de todas as coisas.

Fragmentos 7-8 [1]
Pois nunca isto será demonstrado: que são as coisas que não são; mas afasta desta via de investigação o pensamento, não te force por esse caminho o costume muito experimentado, deixando vaguear olhos que não veem, ouvidos soantes e língua, mas decide pela razão a prova muito disputada de que falei.

Só falta agora falar do caminho que é. Sobre esse são muitos os sinais de que o ser é ingênito e indestrutível, pois é compacto, inabalável e sem fim; não foi nem será, pois é agora um todo homogêneo, uno, contínuo. Com efeito, que origem lhe investigarias? Como e onde se acrescentaria? Nem do não-ser te deixarei falar, nem pensar: pois não é dizível, nem pensável, visto que não é. E que necessidade o impeliria a nascer, depois ou antes, começando do nada?

E, assim, é necessário que seja de todo, ou não.

Nem a força da confiança consentirá que do não-ser nasça algo ao pé do ser. Por isso nem nascer, nem perecer, permite a Justiça, afrouxando as cadeias, mas sustém-nas: esta é a decisão acerca disso – é ou não é –; decidido está então, como necessidade, deixar uma das vias como impensável e inexprimível (pois não é via verdadeira), enquanto a outra é a autêntica.

Como poderia o ser perecer? Como poderia gerar-se? Pois, se era, não é, nem poderia vir a ser.

E assim a gênese se extingue e da destruição não se fala.

Nem é divisível, visto ser todo homogêneo, nem num lado é mais, que o impeça de ser contínuo, nem noutro menos, mas é todo cheio de ser e por isso todo contínuo, pois o ser é com o ser.

Além disso, é imóvel nas cadeias dos potentes laços, sem princípio nem fim, pois gênese e destruição foram afastadas para longe, repelidas pela confiança verdadeira.

O mesmo em si mesmo permanece e por si mesmo repousa, e assim firme em si fica. Pois a potente Necessidade o tem nos limites dos laços, que de todo o lado o cercam.

Pois não é justo que o ser seja incompleto: pois não é carente; ao [não-]ser, contudo, tudo lhe falta. O mesmo é o que há para pensar e aquilo por causa de que há pensamento.

Pois, sem o ser – ao qual está prometido –, não acharás o pensar. Pois não é e não será outra coisa além do ser, visto o Destino o ter amarrado para ser inteiro e imóvel. Acerca dele são todos os nomes que os mortais instituíram, confiantes de que eram reais: “gerar-se” e “destruir-se”, “ser” e “não ser”, “mudar de lugar” e “mudar a cor brilhante”.

Visto que tem um limite extremo, é completo por todos os lados, semelhante à massa de uma esfera bem rotunda, em equilíbrio do centro a toda a parte; pois, nem maior, nem menor, aqui ou ali, é forçoso que seja.

Pois nem o não-ser é, que o impeça de chegar até o mesmo, nem é possível que o ser seja maior aqui, menor ali, visto ser todo inviolável: pois é igual por todo o lado, e fica igualmente nos limites.

Nisso cesso o discurso fiável e o pensamento em torno da verdade; depois disso as humanas opiniões aprende, escutando a ordem enganadora das minhas palavras. E estabeleceram duas formas, que nomearam, das quais uma não deviam nomear – e nisso erraram –, e separaram os contrários como corpos e postaram sinais, separados uns dos outros: aqui a chama do fogo etéreo, branda, muito leve, em tudo a mesma consigo, mas não a mesma com a outra; e a outra também em si contrária, a noite sem luz, espessa e pesada.

Esta ordem cósmica eu te declaro toda plausível, de modo algum que nenhum saber dos mortais te venha transviar.

Fragmentos 9-11
Mas, uma vez que tudo é chamado luz ou noite e o conforme a estas potências é dado a isto e aquilo, tudo é igualmente cheio de luz e de noite obscura, ambas iguais, visto cada uma delas ser como nada.

E conhecerás a natureza do éter e no éter de todos os sinais e dos raios da pura lâmpada do sol as obras destruidoras, e de onde nascem, e conhecerás as obras que rodam em torno da lua de olho redondo e a sua natureza, e saberás do céu que os tem à volta, e de onde nasce, e como guiando-o a Necessidade o obriga a conter os limites dos astros.

[...] como a terra e o sol e a lua e o éter que a tudo é comum e a Via-Láctea e o Olimpo extremo e o calor ardente dos astros forçados a nascer.

Fragmentos 12-13 [2]
Pois as coroas mais estreitas enchem-se de fogo sem mistura e as que vêm à noite depois destas, mas com elas lança-se uma parte de chama.

No meio delas está a divindade que tudo governa; pois em tudo comanda o parto doloroso e a mistura, impelindo a fêmea a unir-se ao macho, e ao contrário o macho à fêmea.

Primeiro que todos os deuses, concebeu Eros.

Fragmentos 14-16
Facho noturno, em torno à terra, alumiado a uma alheia luz. Sempre à espreita dos raios do sol.

(15a [Nota posterior]: Parmênides no poema diz que “a terra tem raízes na água”.)

Pois, tal como cada um tem mistura nos membros errantes, assim aos homens chega o pensamento; pois o mesmo é o que nos homens pensa, a natureza dos membros, em cada um e em todos; pois o mais [pleno] é o pensamento.

Fragmentos 17-19
À direita os machos, à esquerda as fêmeas.

Quando a mulher e o homem juntos misturam as sementes de Vênus, a força que se forma nas veias a partir de sangues diversos, mantendo o equilíbrio, gera corpos bem formados.

Se, contudo, misturados os sêmens, as forças se opõem, e não fazem unidade, misturados no corpo, cruéis, atormentam o sexo da criança com o duplo sêmen.

Assim, segundo a opinião, as coisas nasceram e agora são e depois crescerão e hão de ter fim. A essas os homens puseram um nome que a cada uma distingue.

***

[1] Sobre este trecho, ver também a série de artigos “Reflexões sobre o nada”.

[2] Sobre este trecho, ver também a série de artigos “4 amores”, particularmente no que tange aos dois primeiros: pornea e eros.

***

Crédito da imagem: BordomBeThyName

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16.12.11

Teísmos e ateísmos

Ao longo de vários anos participando e observando discussões filosóficas e religiosas, pude observar que, muitas e muitas vezes, as pessoas se digladiam muito mais por não conseguirem compreender o que a outra efetivamente pensa, do que por qualquer outro motivo mais importante. Usualmente, o que causa esse tipo de desentendimento é o fato de que alguns termos – particularmente os que englobam a crença ou descrença em um Criador – são compreendidos de maneiras diversas pelas pessoas.

Por exemplo, para alguns um ateu é alguém que afirma categoricamente que Deus não existe (seja quem ou o que for). Para outros – incluindo ateus – o ateísmo não chega a fazer tal afirmação. Para alguns atenienses Sócrates era ateu, embora ele estivesse um tanto longe disso, tanto que mais tarde sua filosofia influenciou decisivamente um grande teísta: Sto. Agostinho. Já Epicuro dizia não se preocupar com os afazeres dos deuses – e também foi taxado de ateu. Dizem que Einstein acreditava no “deus de Espinosa”, mas seria esse deus o mesmo deus do Antigo Testamento? Richard Dawkins deixa claro que não, e em seu polêmico Deus, um delírio se dedica a atacar apenas o deus bíblico, e não a concepção panteísta do Cosmos. Confuso, não?

Para tentar auxiliar em tantas definições, teísmos, ateísmos e outros “ismos”, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates. Comece perguntando: “que tipo de ismo você segue exatamente, afinal?”, antes de ter certeza do que exatamente o outro crê ou não crê...

Teísmo
O teísmo, derivado do grego Théos (Deus), é a crença na existência de um ou mais deuses. No politeísmo acredita-se em diversos deuses, mas no henoteísmo, apesar de admitir-se a existência de um panteão, há também um Deus supremo, criador do Cosmos. No monoteísmo reduz-se a divindade a apenas um único ser supremo, usualmente taxando outros deuses de semideuses, divindades ou demônios (do grego daemon) – que em certas doutrinas também podem assumir o papel de intermediários entre os homens e o Deus supremo.
O teísmo filosoficamente deriva diretamente do antigo questionamento: “porque afinal existe algo, e não nada?” – Que por sua vez remete a crença em uma espécie de ser consciente (embora não necessariamente um velho barbudo ou um avatar profético) que arquitetou todo o Cosmos. Pode ser, talvez, resumido como “a crença em um Criador pessoal”.
A grande maioria dos teístas também compartilha a crença de que Deus não somente pode intervir diretamente (e, usualmente, de forma sobrenatural) nos eventos da existência humana, como também pode transmitir revelações e segredos cósmicos através de profetas, sonhos e experiências religiosas em geral.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre sim.
Creem em revelações divinas e dogmas: sim.

Deísmo
O deísmo tem suas raízes nos antigos filósofos gregos e, sobretudo, na doutrina aristotélica da “primeira causa”. Voltou a florescer no Iluminismo, sobretudo através de Galileu, Newton, Voltaire e outros. No deísmo admite-se que o Cosmos não é obra do acaso, e que portanto deva existir um Criador. Porém, os deístas creem que é papel do homem se aproximar de Deus através da razão, e não o contrário. Em suma, os deístas negam as revelações divinas e têm uma concepção naturalista do Cosmos, usualmente negando também a possibilidade de intervenções sobrenaturais.
Os deístas creem em um relojoeiro que sabia enxergar muito bem, tão bem que arquitetou todo o Cosmos de forma magistral. Tão perfeita, que lhe é mesmo desnecessário intervenções específicas. Conforme disse uma vez Voltaire a uma senhorita: “Minha senhora, acredito em uma providência geral, mas não numa providência particular que salvou o seu pássaro que estava machucado”.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: geralmente sim.
Creem em intervenções sobrenaturais: quase sempre não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Panteísmo (ou “espinosismo”)
O panteísmo associa o conceito de Deus ao próprio Cosmos: a totalidade de todas as coisas no universo, na natureza. Einstein dizia que havia duas formas de se enxergar a vida: uma é pensar que não existem milagres, a outra é conceber tudo a sua volta como um milagre. Obviamente, Einstein queria dizer que as próprias leis naturais, a própria simetria e harmonia do Cosmos, eram em si mesmas um milagre persistente – ao menos para aqueles que tinham olhos para ver.
Essa concepção de Cosmos remonta novamente a Grécia antiga, sobretudo aos estoicos. E foi bebendo dessa fonte que Benedito Espinosa concebeu a Deus como “a substância que não pode criar a si mesma, mas que gerou tudo o mais a partir de si”. Esta é uma bela síntese para um questionamento ancestral, e exatamente por isso Espinosa é até hoje tão admirado (apesar de ter sido excomungado do judaísmo, sob a acusação curiosa de ateísmo).
Se no início de sua Ética Espinosa engendra o conceito de Deus de forma geométrica e precisa”, é preciso se aventurar no restante do livro para perceber que o filósofo holandês também acreditava que esse tal Deus era capaz de nos trazer profunda felicidade existencial, sobretudo quando alinhamos nossa intuição com a “vontade do Cosmos”. Era esse deslumbramento que Einstein sentia constantemente, ao desvelar os segredos da natureza.

Creem em uma causa primeira: sim.
Creem em um Criador pessoal: não.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Pandeísmo
O pandeísmo nasceu da fusão do panteísmo com o deísmo, e se trata de um concepção divina do Cosmos, que só pode ser compreendida através da razão.

Panenteísmo
O panenteísmo é um doutrina muito similar ao panteísmo, mas compreende que Deus é “o Cosmos e algo a mais”. Ou seja, que o universo está contido em Deus, mas Deus não se limita apenas ao universo.

Agnosticismo
Thomas Henry Huxley, um biólogo inglês, cunhou o termo “agnóstico” (do grego agnostos, “ausência do conhecimento”) em 1869, mas a essência do agnosticismo foi melhor desenvolvida pelo filósofo alemão Immanuel Kant. No agnosticismo, admite-se que a questão ancestral acerca da natureza exata da “primeira causa” não pode ser resolvida com base no conhecimento atual da humanidade, e talvez jamais venha a ser efetivamente solucionada. Geralmente isso significa apenas que os agnósticos se posicionam com ceticismo em relação à existência de Deus: não podem afirmar que existe, nem tampouco que não existe. Ou, como dizia Carl Sagan, um grande agnóstico: “a ausência da evidência não é a evidência da ausência”.
O agnosticismo possuí algumas vertentes interessantes: os fideístas creem que essa mesma questão da “primeira causa” realmente não pode ser resolvida pela razão, mas sim pela fé. Também é possível ser um agnóstico teísta – que crê em Deus, mas não crê que pode compreendê-lo; ou ainda, bem mais comum, um agnóstico ateísta – que não crê em Deus, embora tampouco afirme que não exista.
Se formos considerar a essência do ceticismo filosófico, para um cético só é mesmo possível ser um agnóstico, há menos que este cético tenha passado por experiências religiosas subjetivas, e que por conta delas tenha passado a crer em Deus.

Creem em uma causa primeira: geralmente sim, embora não saibam resolve-la.
Creem em um Criador pessoal: não (exceto no fideísmo).
Creem em intervenções sobrenaturais: não (exceto no fideísmo).
Creem em revelações divinas e dogmas: não (exceto no fideísmo).

Ateísmo
Em sua origem antiga, o ateísmo (do grego atheos, “ausência de Deus”) sempre foi um termo profundamente arraigado na religião, visto que usualmente significava a negação dos deuses e práticas religiosas locais. Claro que o ateísmo na antiguidade também poderia significar literalmente a descrença em todo e qualquer deus, mas esses casos eram muitíssimo raros. Mesmo grandes profetas e filósofos foram acusados de ateísmo, a despeito de sua óbvia crença em Deus ou em deuses, dentre eles contamos até mesmo Sócrates e Jesus Cristo.
Com o passar dos séculos e, sobretudo, com o aflorar das ciências naturais após o Iluminismo, o ateísmo em seu sentido de “descrença total em Deus” passou a ser cada vez mais comum. Teoricamente, aquele que se declara ateu na era moderna estará afirmando categoricamente que “não existe um Criador”, e também geralmente poderemos adicionar à afirmativa: “tampouco existe uma causa primeira com objetivo definido”. Ou seja, um ateu moderno não vê sentido ou desígnio divino no universo.
Mas esse tipo de definição do parágrafo acima não é compartilhado por todos, tampouco pelos próprios ateus – e há muitos ateus que se colocam, em realidade, como agnósticos, ou agnósticos ateístas (ver acima), apesar de se definirem “apenas como ateus”. Esse tipo de afirmação gera muitos desentendimentos, pois há muitos teístas e mesmo deístas que se sentem ultrajados com o fato de alguém se sentir na condição de afirmar que “não existe um Criador nem um sentido para a causa primeira” – muito embora nem sempre seja o que alguém que se autointitule ateu queira realmente dizer.
Em suma, há muitos agnósticos que gostam de se dizer ateus apenas para se colocarem ainda mais claramente em oposição às concepções teístas, sobretudo aquelas originárias das doutrinas dogmáticas.

Creem em uma causa primeira: por vezes sim, embora em todos os casos neguem um sentido ou desígnio divino no universo.
Creem em um Criador pessoal: não, e por vezes podem ter “certeza que não existe Criador algum”.
Creem em intervenções sobrenaturais: não.
Creem em revelações divinas e dogmas: não.

Antiteísmo
O antiteísmo (alguns chamam de neo ateísmo ou novo ateísmo) é uma vertente moderna do ateísmo que não se contenta em apenas se declarar ateísta, como critica veementemente o teísmo e, por vezes, atua de forma militante, tentando convencer as pessoas de que Deus não existe. Embora os antiteístas provavelmente entendam a si mesmos como “evangelizadores da ciência e do racionalismo”, eles na prática lembram muito mais uma versão distorcida dos próprios evangelizadores teístas.

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Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram teístas, deístas, panteístas, etc.

Observação (2): Embora um teísta fundamentalista provavelmente me julgue um ateu, e um antiteísta radical provavelmente me julgue um teísta, eu na realidade estou situado mais ou menos entre o Panteísmo, o Deísmo e o Pandeísmo.

***

Vídeo
Este artigo serviu de base para o roteiro do vídeo O que é Deus para você? no canal Conhecimentos da Humanidade do YouTube.

» Veja também o artigo Monismos e dualismos, que trata da natureza da mente

Crédito da foto: Brian David Stevens/Corbis

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8.6.11

Maldito Benedito, parte 2

« continuando da parte 1

Bruma de Ouro, o Ocidente ilumina
A janela. O assíduo manuscrito
Aguarda, já carregado de infinito.
Alguém constrói a Deus na penumbra.
Um homem engendra a Deus. É um judeu
De olhos tristes e pele pálida;
O tempo o leva como leva o rio
Uma folha que desce pelas águas.
Não importa. O feiticeiro insiste em esculpir
A Deus com geometria delicada;
De sua enfermidade, de seu nada,
Segue erigindo a Deus com a palavra.
O amor mais pródigo lhe foi outorgado,
O amor que não espera ser amado.

Baruch Spinoza, poema de Jorge Luis Borges (tradução de Rafael Arrais).

Uma suave cabeça pensativa

Se Descartes havia separado mente e corpo um substâncias distintas, esta material, a primeira espiritual, Espinosa foi mais além: para o pensador holandês, só poderia haver uma única substância, pois que se houvessem duas, ambas deveriam necessariamente ser o resultado de uma substância ainda anterior. Num brilhante encadeamento de causa e efeito, chegou a “substância que não poderia criar a si mesma”, sendo ela, portanto, incriada e eterna, aquela que se opõe ao nada (afinal, existe algo). Portanto, mente e corpo, e todos os componentes do Cosmos, nada mais eram do que irradiações da substância, que era o próprio Deus. Espinosa não cria que as coisas eram apenas materiais ou espirituais, mas que eram materiais e espirituais, mundanas e divinas, ao mesmo tempo.

Com toda sua filosofia edificada no próprio Deus, Espinosa terminou por ser o grande reformador do pensamento ocidental, o grande “destruidor da autoridade eclesiástica”, não porque fosse um “matador de deuses”, conforme Nietzsche, mas porque substituíra as interpretações bíblicas de Deus por uma ainda mais profunda, baseada apenas na pura lógica filosófica. Quando Nietzsche proclamou que o deus bíblico estava morto, foi porque Espinosa já o havia retirado de seu pedestal há muito tempo... Caíra um deus semelhante aos homens, e surgira um Deus cósmico, irradiador de todas as partículas e todas as galáxias do universo.

A filosofia de Espinosa, entretanto, não era para qualquer um. Era preciso uma certa abertura da mente, um certo distanciamento das paixões embutidas em crenças e descrenças, para que pudesse ser compreendida em toda sua profundidade. Apesar de “Ética” ter sido sua obra prima, as bases lógicas que a sustentam já estavam prontas desde sua juventude... Porque então Espinosa somente entregou seu livro para os amigos publicarem já nos últimos dias de vida, quando certamente já pressentia a própria morte? Ora, é que Espinosa nunca quis ser nenhum revolucionário, e em realidade sabia muito bem que seu sistema filosófico poderia, e provavelmente causaria uma revolução no mundo ocidental. E ele estava certo.

Ao descrever Deus como uma força cósmica, impessoal e sem características humanas, Espinosa não estava sendo completamente original. Sua premissa já era conhecida de místicos orientais e até mesmo da cabala judaica, além de conter referências claras a filosofia estoica e, em menor escala, ao atomismo das escolas gregas. A sua forma “geométrica” de descrição da própria filosofia, sem dúvida influência de Descartes, é que terminou por tornar a “Ética” uma obra prima tanto da filosofia quanto da espiritualidade humana... E, como toda obra desse porte, não escapa dos grandes paradoxos:

O bem e o mal
Para Espinosa o bem e o mal eram conceitos relativos às sociedades humanas, e não fazia sentido crer em um deus que observa e pune os pecados alheios. Ao mesmo tempo, entretanto, a própria busca do conhecimento de Deus era uma virtude, e os sábios que a empreendiam agiam naturalmente no bem, e afastavam automaticamente o mal, na medida da sabedoria de cada um.

Do determinismo
Em sua filosofia constatamos que a grande maioria dos homens e mulheres são guiados por desejos provenientes das paixões da alma, de modo que quase ninguém consegue ser efetivamente livre, e tudo parece estar determinado pelo eterno movimento das substâncias... Por outro lado, existiam alguns poucos que conseguiam olhar para dentro de si próprios e identificar ou até mesmo compreender tais paixões. Do autoconhecimento dos seres, em maior ou menor grau, surgia a liberdade em grau correspondente. A atividade mais nobre de um ser seria, portanto, buscar a compreensão do próprio Deus, pois no fundo somos uma forma do Cosmos compreender a si mesmo.

Do deísmo
Espinosa negava totalmente que as verdades acerca da criação pudessem ser reveladas, como através de santas tábuas ou inspirações divinas. Por isso foi muitas vezes considerado um líder deísta. Mas, sob outro ponto de vista, o fato de todos sermos formados pela irradiação da substância divina, e termos uma conexão direta com a eternidade, nos faz automaticamente receptáculos diretos do movimento de Deus. Talvez não fosse possível que Deus se revelasse diretamente a alguns ditos profetas, um movimento em nossa direção; Mas era perfeitamente possível que cada um de nós compreendesse parte da fagulha divina que trazemos, todos nós, num movimento em direção ao infinito.

Do panteísmo
Se por um lado os críticos terão razão em dizer que a filosofia de Espinosa faz da Natureza um novo Deus, e a engrandece, por outro estarão equivocados em afirmar que Espinosa reduziu Deus a meros eventos naturais, às coisas que compõe o Cosmos... Assim como Epicteto se referia a um “Zeus, Deus dos deuses”, Espinosa deixou claro que todos os materiais que compõe o mundo, sejam os corpos e partículas materiais, sejam os mentais, são todos irradiações da substância divina. Tudo é Deus, de modo que não faria sentido tentar encontrar a Deus apenas em catedrais grandiosas ou através da mediação dos eclesiásticos, qualquer pedra ou galho partido seria tão divino quanto tudo o mais. É somente através da razão, uma razão conectada ao Cosmos, de acordo com o logos grego, que poderemos apreciar o contato com Deus, estejamos onde estivermos.

Do ateísmo
Se por um lado Espinosa foi acusado de ateísmo em sua época, por outro qualquer um com certo discernimento compreenderá que a acusação se referia ao fato de ele ter contrariado diretamente os dogmas das doutrinas religiosas vigentes, particularmente negando milagres e a autoridade dos eclesiásticos. Mesmo sua crítica a Bíblia se focava exclusivamente na interpretação literal, e ainda que negasse os milagres enquanto eventos sobrenaturais, o próprio Espinosa buscou explicações naturais para alguns deles, como, por exemplo, o da “divisão” do Mar Vermelho, que parecia a Espinosa que fosse um evento natural, explicado pelo vento.
O grande pensador holandês não poderia, entretanto, ser menos ateu no sentido de negação a priori da existência de um Criador. Não só toda sua filosofia se sustenta em Deus, o próprio sentido de virtude e de ética que sempre defendeu consistia em, a todo momento, saber diferenciar as paixões mundanas dos desígnios sagrados da Natureza, e somente assim, seguindo a Natureza e não as próprias paixões, ser verdadeiramente livre e feliz.

Na preposição final da “Ética”, Espinosa inaugura quase que uma nova religião filosófica universal: “o estado de bênção não é a recompensa da virtude, mas a própria virtude; também não usufruímos desse estado por restringir nossas luxúrias; ao contrário, justamente porque usufruímos dele é que somos capazes de restringir nossas paixões”. A salvação, apesar de árdua e rara, não precisava ser postergada para depois da morte. A filosofia de Espinosa era uma reflexão sobre a vida, e de como, talvez um dia, alcançar a salvação dentro deste mundo – um mundo tão divino quanto mundano.

O monumento feito em homenagem a Espinosa, em Haia (na Holanda) foi assim comentado por Ernest Renan em 1882:

"Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas – pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus".

Maldito Benedito Espinosa! Maldito, na boca dos de alma pequena, somente Benedito nas demais...

***

Crédito da imagem: Wikipedia (estátua de Espinosa em Haia).

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6.4.11

Frases (5)

Mais algumas frases e pensamentos que perambularam por minha mente e meu twitter:

"Hoje melhor do que ontém. Amanhã, eu posso esperar. Há tanto para conhecer aqui dentro, lá fora... Meus passos são curtos, eu mal comecei."

"A saudade nunca passa, mas só tem saudade quem realmente vive... A melhor saudade ainda é a saudade do futuro."

"Pior do que amar e perder, é nunca haver sequer amado. Quem ama, e perde, perde muito, mas não perde o amor."

"Que a sina das coisas é se transformar e decompor, mas o amor se tranforma apenas, jamais se decompõe."


"A Terra não gira em torno do Sol. Tudo gira em torno de tudo, inclusive o Sol, os outros sóis e todas as galáxias do Cosmos."

"O Sol nunca deixa de nascer, as núvens ciumentas é que as vezes querem ele todo só para elas. Ainda que mesmo nesses dias, seu calor continue invicto. Não há núvem passageira capaz de impedir sua irradiação."


"Informação é qualquer forma de evento que afeta o estado de um sistema dinâmico. Do latim informare: dar forma a mente. Então reflitamos: a quais espécies de informação nós temos dado forma?"

"Não são bombas nem tratados de paz que mudam o mundo, mas nosso interesse em uns e noutros."


"Não inicie um diálogo dizendo que Deus existe, ou que não existe, mas sim perguntando: o que é Deus para você?"

"É impossível crer na inexistência de um Criador e ser cético ao mesmo tempo."

"Entre o ateísmo e o agnosticismo existe um vão talvez maior do que, por exemplo, o que separa o agnosticismo do panteísmo."


"Não existe drama maior para um espiritualista do que saber que não está a altura do que ele próprio escreve. Mas ficar parado, jamais!"

***

Crédito da foto: César Gómez

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30.8.10

A ciência da inspiração, parte 3

Continuando da parte 2

Metáfora: Figura de linguagem em que há a substituição de um termo ou conceito por outro, criando-se uma dualidade de significado.

Devoradores de maçãs

Um dos mitos mais conhecidos da humanidade trata de jardim do Éden, onde os primeiros humanos criados por Deus, a sua imagem e semelhança, viviam imortais, ociosos e aparentemente felizes. Isso foi até que eles resolveram comer os frutos (o mito fala em maçãs) da árvore do conhecimento do bem e do mal, da qual Deus havia alertado que eles não deveriam comer, ou conheceriam a morte. E o resto todos já sabem: Deus ficou furioso e os expulsou do Éden apenas com alguns trapos feitos de couro de animais, pois que agora um se envergonhava da nudez do outro. E Adão e Eva povoaram o mundo, muito embora o pecado de Eva tenha nos amaldiçoado por muitos e muito anos, até que Jesus veio pagá-lo para nós.

Joseph Campbell, grande estudioso do assunto, dizia que “o mito é algo que nunca existiu, mas que existe sempre”. Ele provavelmente queria dizer que os mitos tratam de verdades que existem fora do tempo, ou seja, que existem sempre. Todo grande mito da humanidade fundamenta-se em uma ou mais dessas verdades, dessa partícula de essência que emana da eternidade. Foi exatamente por isso que os sábios antigos tiveram o cuidado de popular suas histórias com vários desses mitos. Eles sabiam, certamente, que muitos aldeãos e camponeses ignorantes de sua época iriam interpretar tais histórias ao pé de letra, de forma literal – mas sem dúvida também tinham a esperança de tocar a alma dos outros sábios que viriam a Terra em épocas posteriores.

O mito do Éden é repleto de metáforas. Talvez a mais interessante delas seja exatamente o paradoxo do pecado pelo qual Eva foi condenada. Ora, antes de devorar a maçã, ela era sem dúvida ignorante do conhecimento (seja do bem, seja do mal). Se nunca houvesse comido o fruto proibido, estaria ociosa e imortal, por toda eternidade, em um jardim onde poucas coisas interessantes acontecem – mas seria feliz, acredita-se. Animais ignorantes também são "felizes" vivendo no meio selvagem; Entretanto, as pressões do meio-ambiente nunca os deixaram relaxar: na guerra do sofrimento e da fome, mesmo em meio a sua “felicidade”, presas e predadores lutaram pela sobrevivência por longos e longos anos. Não fosse por essa pressão da natureza, talvez a Terra estivesse até hoje populada por hominídios, ou nem mesmo isso, por roedores e outros pequenos mamíferos...

Pois foi exatamente quando adquiriu à consciência e o conhecimento do bem e do mal que o ser humano se tornou quem é. Por um lado, portanto, a metáfora do fruto proibido é apenas uma história fantasiosa, por outro, é uma explicação surpreendentemente avançada para a época em que foi escrita. Será que os rabinos judeus tinham ideia de que estavam a antecipar um dos grandes mistérios da evolução das espécies? Será que tinham pleno conhecimento daquilo que escreviam talvez guiados pela pura intuição? Acredito que a resposta não esteja nem tanto lá, nem tanto cá. Certamente os sábios antigos tinham noção de que lidavam com assuntos sagrados, e que os estavam passando adiante “cifrados” em metáforas dentro de mitos. Mas da mesma forma eles certamente tinham consciência de que não tinham como saber tudo, e é exatamente por isso que passavam tais símbolos para as gerações futuras – como uma mensagem numa garrafa arremessada no oceano, a espera de alguma praia onde existam seres mais sábios para decifrar seus enigmas.

Nós já ficamos com nós na cabeça ao abordarmos o conceito de programação genética. E, da mesma forma, já consideramos com carinho a possibilidade da mente humana ser o resultado da interseção de módulos mentais (naturalista, técnico e social). Além disso, também falamos sobre como a neurologia compreende a criatividade: o foco mental em novos estímulos e ideias, em fluxo e trocas constantes com as ideias que já dominamos em nossas respectivas artes ou disciplinas... Ora, em posse dessas informações, talvez o processo misterioso dos algoritmos genéticos não seja mais tão insondável.

Vamos falar, por exemplo, de poesia: da mesma forma que gerações de algoritmos se digladiam no meio-ambiente do problema a ser resolvido, todos os estímulos que os poetas enviam para suas mentes – através de seus olhares sempre atentos aos menores detalhes da natureza à volta – nada mais são do que algoritmos em busca da solução de sua próxima poesia. A grande diferença é que, ao contrário dos programadores, os poetas geralmente sequer tem ideia de qual é o problema a ser resolvido – de certa forma, para eles, as soluções chegam junto com os problemas, embora nenhuma solução seja realmente a derradeira, e todos os problemas sejam quase sempre infinitos. Nessa batalha mental travada por estímulos ambíguos e aparentemente sem relação uns com os outros, ninguém sai derrotado, pois o fruto é sempre uma nova legião de metáforas. E estas maçãs são divinas, jamais proibidas... Os poetas são verdadeiros devoradores de maçãs!

Vejamos uma dessas “soluções”, pelo grande poeta místico, Gibran Khalil Gibran: “Na floresta só existe lembrança dos amorosos / Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, / seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos / Conquistador entre nós é aquele que sabe amar / Dá-me a flauta e canta! / E esquece a injustiça do opressor / Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue”. Neste belo trecho do poema “A floresta”, é impossível chegar a uma compreensão efetiva do que o poeta quis dizer sem usar ao menos parte de nossa emoção e nossa intuição juntamente com nossa razão... Mesmo assim, ficará sempre aquela dúvida se realmente compreendemos todo o bem e todo o mal deste belo fruto da inspiração de Gibran. O lírio é uma taça para o orvalho, e não para o sangue – quantas e quantas interpretações e conceitos contidos em apenas uma frase.

Há ainda outros poetas que conseguem inserir metáforas dentro de metáforas dentro de ainda outras metáforas... Quando Fernando Pessoa diz que “o poeta é um fingidor, finge ser dor a dor que deveras sente”, ele está nos trazendo para uma análise existencial da qual a solução jamais será algo racional, objetivo, tal qual 2+2=4. Nesse sentido, é possível que os algoritmos genéticos sejam extensões de nossa racionalidade, aplicadas a problemas descobertos por nossos cientistas e matemáticos, e que tudo o que fazem é poupar seus cérebros de rodar trilhões de cálculos, antecipando uma solução que em séculos passados seria inviável. Entretanto, na poesia pode ser mais depressa ainda: a solução chega junto com o problema. A diferença é que na poesia a solução jamais será final, e após termos devorado todas as maçãs do Éden, teremos de sair nós mesmos em busca de mais conhecimento – ainda que o velho barbudo tenha se esquecido de nos expulsar...

Muito do debate acerca da existência de Deus se resume ao ancião das metáforas do antigo testamento bíblico – sim, pois o Deus de Jesus é sempre um coadjuvante, que intervém apenas por emanação de pensamentos, e não de forma “direta”. Esses debates se parecem mais com debates entre crianças que brincam em uma praia – uma delas constrói um castelo de areia e diz que “esta é a cidade de deus”... Enquanto outras crianças com senso crítico mais desenvolvido esperam as ondas da maré chegar e destruir os castelos, e então bradam convictas: “Viram! Não lhes disse que este deus tinha pés de barro?”.

Ora, mas e se o reino de Deus estiver em sua volta? E se ele abarcar não só os castelos de areia, como cada grão de areia da praia, e cada gota de água do mar, e cada nuvem e cada pássaro a planar pelo céu, e cada sol a flutuar pelo Cosmos, e cada partícula a bailar por nosso cérebro e nossa alma?

Einstein dizia que “a ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”. Ora, um dos grandes cientistas de nosso tempo, em sua maturidade, defendia uma “religiosidade cósmica”, baseada na presença de um poder racional superior, revelado no universo ainda oculto ao conhecimento da ciência. Muitos outros cientistas e filósofos foram teístas, deístas, panteístas, agnósticos, etc. Para quem possuí muita ciência, fica muito difícil apostar que tudo o que há surgiu do nada como numa “passe de mágica cósmico”. No mínimo, é preciso admitir que tal questão não pode ser compreendida hoje, e talvez jamais possa... De qualquer forma, pela lógica, também se faz necessário concordar com Espinosa (como Einstein, aliás, concordou) quando este afirma em sua “Ética” que “uma substância não pode criar a si mesma”...

E se Deus for um grande programador cósmico? E se nós formos parte dos algoritmos divinos que ele inseriu em sua criação? E se no núcleo de cada átomo, nos filamentos de cada DNA, em cada um de nosso neurônios, nas partículas etéreas de nossa alma, não estiverem inscritos códigos sagrados que ditam que este Cosmos nada mais é do que um problema em solução? E se formos nós mesmos os personagens e co-criadores desta poesia infinita? Navegando dentre raios cósmicos e poeira de estrelas, é impossível participar deste problema sem estarmos encharcados de Deus por todos os lados e a todos os momentos...

O reino de Deus sempre esteve a nossa volta. Nós jamais fomos expulsos do Éden. Tudo o que falta é compreendermos isso – que o Éden jaz, antes de mais nada, em nossa consciência... E que Deus ou o Cosmos jamais foram uma solução, jamais uma muleta na qual pudéssemos nos acomodar, mas sim um grandioso problema que vem sendo solucionado passo a passo, inspiração por inspiração. Nós devoramos uma maçã de cada vez...


Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes,
e o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor

Gibran Khalil Gibran, trecho de “A floresta”.

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Crédito das fotos: [topo] Guto Lacaz (exposição "Einstein no Brasil"); [ao longo] Marcos Homem

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