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10.9.10

Biocosmos

Texto de James Gardner em "O universo inteligente" (Ed. Cultrix) – Trechos das pgs.138, 139, 142, 143, 146 e 147. Tradução de Aleph Eichemberg e Newton Eichemberg. As notas ao final são minhas.

Originalmente apresentada em artigos científicos [...], minha hipótese do Biocosmo Egoísta [1] sugere que, ao tentar explicar a ligação entre a vida, a inteligência e as qualidades antrópicas do cosmos, a maioria dos cientistas convencionais tem olhado, em essência, pela ponta errada do telescópio. A hipótese afirma que a vida e a inteligência são, de fato, os fenômenos cosmológicos fundamentais, e que todas as outras coisas – as constantes da natureza, a dimensionalidade do universo, a origem do carbono e de outros elementos no coração das supernovas gigantes, o caminho traçado pela evolução biológica – são secundárias e derivadas. Nas palavras de Martin Rees, minha abordagem se baseia na proposição de que “o que chamamos de constantes fundamentais – os números que importam para os físicos – podem ser consequências secundárias da teoria final, em vez de manifestações diretas do seu nível mais profundo e fundamental.”

Comecei a desenvolver a hipótese do Biocosmos Egoísta como uma tentativa de prover dois elementos essenciais que faltavam no novo modelo de evolução cosmológica introduzido pelo astrofísico Lee Smolin. Smolin tinha apresentado a intrigante sugestão de que os buracos negros seriam portais para novos “universos bebês”, e que uma espécie de dinâmica populacional darwinista recompensa os universos mais aptos a produzir buracos negros com a descendência mais numerosa. A proliferação de populações de universos bebês emergindo do ventre (metaforicamente falando) de “universos mães” chega assim a dominar a população total do multiverso – um conjunto teórico de todos os universos, mães e bebês. Além disso, os universos propensos a produzir buracos negros exibem, coincidentemente, qualidades antrópicas, segundo Smolin, respondendo assim pela natureza bioamigável do cosmos “médio”, mais ou menos como um efeito colateral incidental [2].

[...] À primeira vista, a hipótese do Biocosmo Egoísta pode parecer incorrigivelmente antropocêntrica. Certa vez, Freeman Dyson, comentando as coincidências aparentemente milagrosas exibidas pelas leis e constantes físicas da natureza inanimada – fatores que tornam o universo tão estranhamente favorável a vida –, disse: “Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, mais evidências encontro de que o universo devia saber, em certo sentido, que estávamos chegando”.

[...] Ver o cenário da origem e da evolução da vida na Terra como uma sub-rotina menor num processo ontogenético inconcebivelmente amplo [3], por meio do qual o universo se prepara para a replicação, é diferente de pôr a humanidade no epicentro da criação. Longe de oferecer uma visão antropocêntrica do cosmos, a nova perspectiva relega a humanidade e sua provável descendência (biológica ou mecânica) a equivalentes funcionais das mitocôndrias – que antes eram bactérias de vida livre, cujos talentos especiais foram explorados no passado distante, quando foram ingeridas e depois forçadas a atuar como organelas no interior de células eucarióticas.

A essência da hipótese do Biocosmos Egoísta é que o universo que habitamos está no processo de ficar impregnado de vida cada vez mais inteligente – mas não necessariamente vida humana ou sua sucessora. Nessa teoria, a emergência da vida e da inteligência cada vez mais competente não é um acidente sem significado num cosmos hostil, em grande parte isento de vida, mas está no próprio âmago da vasta maquinaria da criação, da evolução cosmológica e da replicação cósmica.

[...] Ao avaliar o aparente milagre de um universo favorável a vida, devemos obviamente ficar céticos diante do pensamento ingenuamente otimista e das histórias “fantásticas”. Mas não devemos ser tão arredios às novas abordagens a ponto de deixar de saborear o espanto diante da capacidade quase miraculosa da ciência de penetrar mistérios que antes pareciam impenetráveis – o que foi perfeitamente captado pelo grande inovador britânico Michael Faraday ao repudiar o ceticismo a respeito de sua capacidade quase mágica de evocar o gênio da eletricidade introduzindo um imã numa bobina. Como disse Faraday: “Nada é maravilhoso demais para ser verdadeiro se for consistente com as leis da natureza [4]”.

Se a hipótese do Biocosmos Egoísta estiver correta, isso significa que não somos apenas a prole de poeira das estrelas, mas também os arquitetos de universos apinhados de estrelas que ainda virão. Isso significa que a física e a química prenunciam misteriosamente os detalhes da biologia de maneira muito específica e que a emergência a vida e da inteligência é um clímax previsível da impressionante, mas sem vida, sinfonia da natureza. Isso significa que, contra todas as expectativas, as leis impessoais da natureza forjaram de alguma forma – de maneira surpreendente e miraculosa – sua própria compreensão [5]. E, o que é ainda mais estranho, fizeram isso catalisando a evolução de um primata consciente num planeta obscuro que ousa sonhar que desvelará os segredos supremos de todo o universo.

***

[1] Eu particularmente não acho que o termo “egoísta” se enquadre bem dentro do conceito da teoria – até mesmo porque, como muitos biólogos hoje concordam, o altruísmo pode ser uma evolução das espécies –, mas como quem deu o título foi o autor, preferi mantê-lo assim mesmo.

[2] Ou seja, você não está enganado, essa teoria postula que todos nós somos literalmente “criadores de universos”, “universos em formação”, ou parte de uma inteligência que, quando plenamente evoluída, será capaz de gerar novos universos “bebês”. O curioso é que essa possibilidade teórica, que certamente soa como uma heresia para muitos espiritualistas – principalmente os mais ortodoxos –, para a cosmologia é tão somente uma possibilidade a ser considerada frente às evidências da natureza, como qualquer outra.
Certamente Gardner tem consciência de que tão cedo não poderemos saber se universos “bebês” podem mesmo ser criados ou não, mas é revigorante observar como o pensamento científico livre de dogmas pode operar quando aliado a nossa peculiar capacidade de imaginação.
Vale notar também que o autor da hipótese – cientista materialista – aposta numa evolução futura através da vida mecânica e da inteligência artificial... Mas, para quem compreende as possibilidades evolutivas da reencarnação através de todo o cosmos, é desnecessário recorrer às máquinas – nós mesmos já somos uma fornalha cósmica de potencialidades ainda insondáveis.

[3] A teoria de Gardner retira não somente o ser humano e o planeta Terra do centro do cosmos, mas postula que o próprio universo é apenas mais um universo dentre infinitos universos a “flutuar” num multiverso hipotético. Geralmente nossa cabeça entra em pane quando consideramos a imensidão de um universo, imagine se considerarmos infinitos universos em um cosmos infinito... Em todo caso, é tudo uma questão de escala, pois no fim o infinito é infinito – não faz sentido nos preocuparmos com suas dimensões.

[4] Ou, em outras palavras, o sobrenatural muitas vezes é apenas o natural ainda incompreendido pela ciência – embora em tantas outras seja apenas algo inexistente mesmo. Por isso é sempre válido utilizarmos o pensamento lógico e nos basearmos nas lições da natureza quando vamos avaliar áreas de conhecimento em que a ciência ainda não pode adentrar totalmente, ou não pode sequer começar a explicar seu mecanismo.

[5] Esse trecho me remeteu a célebre frase de Carl Sagan: “nós somos uma forma do cosmos conhecer a si mesmo”. De qualquer forma, é sempre curioso como os cientistas tem uma implicância com o termo “pessoal”. Muitas vezes, um ser pessoal pode ser classificado apenas como um ser consciente, ou um superintelecto consciente, que nada tem a ver com os deuses antropomórficos de inúmeras religiões... Talvez, todas elas tenham apreendido um pedacinho deste superintelecto, e onde não encontraram explicações para seus atributos, atribuíram-lhe características humanas.
Entretanto, afirmar que é a própria vida superevoluída do cosmos que tem o potencial de arquitetar e gerar novos universos “bebês” não resolve a questão primordial até mesmo óbvia: “e quem ou o que diabos arquitetou o multiverso?”

***

Crédito da imagem: Roger Johnston

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6 comentários:

Blogger Adriano Bello disse...

Oi Rafael!

Eu li justamente neste feriado sobre o quanto incríveis são as condições para a vida no nosso universo. Replico abaixo um trecho do livro "A linguagem de Deus" do médico geneticista americano Francis Collins sobre isso:

"Ao todo, existem quinze constantes físicas cujos valores a atual teoria não consegue predizer. São dadas: simplesmente têm o valor que têm. A lista inclui a velocidade da luz, a potência das forças nucleares forte e fraca, diversos parâmetros associados ao eletromagnetismo e a força da gravidade. A probabilidade de todas essas constantes terem os valores necessários para resultar em um universo estável, capaz de sustentar formas de vida complexas, quase tende ao ínfimo. E, no entanto, elas apresentam exatamente os parâmetros que observamos. Em resumo, nosso universo é extremamente improvável."

É isso aí. Tudo conspira em favor da vida. Ou será que é a vida que conspira em favor de tudo?

Forte abraço!
Adriano.

10/9/10 17:40  
Blogger raph disse...

Pois é, a teoria do Biocosmos Egoísta simplesmente vai além do que postula o Princípio Antrópico - basicamente, o Cosmos favorece a vida porque estamos aqui para contar a história - e não tem nenhuma cerimônia em contemplar a possibilidade de, ao longo de muito tempo de evolução, nós mesmos possamos ser deuses a criar vida.

Eu acho que, pela lógica, ela é mais completa e faz mais sentido, além é claro de casar muito bem com as teorias espiritualistas e espíritas em geral :)

Abs!
raph

10/9/10 18:09  
Blogger Sergio Junior disse...

Acho delicioso um texto despido de preconceitos, de forma que possamos englobar nossas próprias ideologias e interpretações. Adorei!

Raph... qual a correlação que faz sobre o microcosmos com o macrocosmos?

Abraços fraternos

Sergio

10/9/10 20:35  
Blogger raph disse...

Bem, um sábio da antiguidade já disse que "o que está em cima é como o que está em baixo"... Trata-se de uma analogia, de modo que cada substância tem sua peculiaridade, mas as leis naturais são simétricas e valem em qualquer tempo e qualquer espaço (até mesmo pq tempo e espaço são a mesma substância).

Ou, em outras palavras, a gravidade atua tanto em maças que caem de árvores quanto no núcleo das estrelas mais distantes...

Espero que tenha ajudado, não era uma resposta muito fácil :)

Abs
raph

11/9/10 00:23  
Blogger M. Sueli Gallacci disse...

Olá Amigo!

Achei muito interessante seu blog e seus textos. Realmente textos para reflexões.

Publiquei dois textos no meu blog similar aos seus (embora numa linguagem mais simples, mais compreensível, pelo menos pra mim rsrsr)
Se quiser dar uma espiadela, aqui estão os links na ordem, pois está em sequência.

1 - http://cronicasiagudas.blogspot.com/2010/10/o-endereco-certo.html

2 - http://cronicasiagudas.blogspot.com/2010/10/ciencia-verdades-e-mentiras.html

Um grande abraço!

21/10/10 10:37  
Blogger raph disse...

Oi Sueli,

Dei uma olhada nos seus textos, eu acho que são até mais complexos embora numa linguagem simples.

Mas eu prefiro não comentar a bíblia, pelo menos não numa relação direta com a ciência... Meus comentários geralmente se referem ao que a ciência descobriu e ao que ainda falta descobrir, e suas relações com a espiritualidade em geral (e não somente com a bíblia).

Abs!
raph

21/10/10 12:10  

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