23.9.10

Ciência e religião

Texto de James Gardner em "O universo inteligente" (Ed. Cultrix) – Trechos das pgs.164 a 167. Tradução de Aleph Eichemberg e Newton Eichemberg. As notas ao final são minhas.

As ferramentas da ciência devem ser usadas para estudar o fenômeno da religião? Ou será que domínio do sagrado deve continuar sendo um enclave escondido, protegido dos olhos curiosos e das cutucadas profanas de antropólogos, sociólogos, economistas e biólogos evolutivos?

[...] A religião, é claro, já foi estudada antes, tanto de dentro (por estudiosos teológicos com pontos de vista diversos, como Santo Agostinho, Émile Durkheim e Mircea Eliade) como de fora, por investigadores pioneiros (como William James [1]). Mas só recentemente as técnicas sofisticadas da ciência moderna – análise estatística, metodologias de investigação desenvolvidas nos campos da sociobiologia e da psicologia evolutiva, e métodos para associar padrões genéticos a categorias de comportamento – passaram a ser usadas para pôr a religião sob o microscópio da análise científica objetiva e imparcial. Só agora, na verdade, temos o kit de ferramentas – especialmente as técnicas computacionais – que permitirão aos cientistas desenvolver modelos sofisticados da evolução da cultura religiosa, análogos aos modelos de software dinâmicos usados no estudo da evolução linguística e da mutação viral.

A abordagem defendida por Daniel Dennett em Breaking the Spell [Quebrando o Feitiço] tem provocado oposições previsíveis, algumas em fontes inusitadas. Numa resenha de Breaking the Spell publicada no New York Review of Books, o físico de Priceton Freeman Dyson repreende Dennett por esconder seus preconceitos ateus embaixo da manga:

“Meu próprio preconceito, ao olhar a religião de dentro, me leva a concluir que o bem supera de longe o mal... Sem a religião, a vida no país seria enormemente empobrecida... Dennett, olhando para a religião de fora, chega à conclusão oposta. Ele vê as seitas religiosas extremistas, que estão criando terreno para gangues de jovens terroristas e assassinos, com a massa de fiéis comuns que lhes dão apoio moral ao deixar de entregá-los à polícia [2]. Ele vê a religião como um estorvo atraente no sentido legal, ou seja, uma estrutura que atrai crianças e jovens e os expõe a ideias perigosas e tentações criminosas, como uma piscina sem cerca ou uma sala de armas destrancada.”

Mas o ponto crucial do cuidadoso livro de Dennett é precisamente que as origens, os caminhos de desenvolvimento e dinâmica interna das comunidades religiosas e dos sistemas de crença deveriam ser submetidos a uma intensa investigação científica e não descartados irrefletidamente como patologias associadas ao consumo de narcóticos culturais perigosos e obsoletos. [...] Como apontei em meu livro Biocosm [Biocosmos]:

“Os domínios sobrepostos da ciência, da religião e da filosofia devem ser considerados como florestas tropicais virtuais de ideias que se polinizam – reservas preciosas de memes continuamente fecundos [3] que são os ingredientes brutos da consciência em todas as suas diversas manifestações. A confusa interface ciência/religião/filosofia deve ser valorizada como uma cornucópia incrivelmente frutífera de ideias criativas: uma hélice cultural tripla – em constante coevolução – de ideias e crenças interagindo, que é o mais precioso de todos os tesouros produzidos pela história da evolução na Terra.”

Nas clássicas palestras de Lowell, feitas em Harvard em 1925, o filósofo britânico Alfred North Whitehead apresentou uma intrigante explicação para o curioso fato de que a civilização europeia produzira sozinha o fenômeno cultural que conhecemos como investigação científica [4]. A teoria de Whitehead é que “ a fé na possibilidade da ciência, gerada antes do desenvolvimento da moderna teoria científica, é um derivado inconsciente da teologia medieval [5]”. Mais especificamente, ele afirma:

“A maior contribuição do medievalismo para a formação do movimento científico [foi] a crença inexpugnável no fato de que cada ocorrência detalhada pode estar correlacionada com seus antecedentes de maneira perfeitamente definida, exemplificando princípios gerais [6]. Sem essa crença, não haveria esperança para o incrível trabalho dos cientistas. É essa convicção instintiva, suspensa vividamente diante da imaginação, que á força motriz da pesquisa – a de que existe um segredo, um segredo que pode ser revelado.”

[...] Se Whitehead estiver correto, a religião não é estranha ao pensamento científico, mas mantém uma relação ancestral [7] com o conjunto de disciplinas intelectuais que definem nosso conceito de modernidade. A religião ocidental é em suma o pai da ciência ocidental. Então, o que pode ser mais apropriado para a ciência do que focalizar a lente da investigação cética em questões relativas à própria paternidade vagamente entendida – ou seja, na crença religiosa, na fonte histórica da ilimitada fé dos cientistas na racionalidade descobrível do cosmos [8]?

***

[1] Não concordo que James tenha analisado a religião “de fora”. Um dos fundadores da psicologia e grande filósofo conhecedor das peculiaridades da experiência religiosa (ler, por exemplo, Variedades da Experiência Religiosa), acredito que era até muito mais religioso do que muitos expoentes religiosos de sua época – apenas não era um eclesiástico.

[2] A mesma confusão comum entre religião e igreja que fez com que o autor julgasse James como um estudioso “de fora” reflete-se aqui na análise de que o fundamentalismo terrorista é fruto da religião. Ora, religião significa “religação a Deus ou ao Cosmos”, e o terrorismo é exatamente o oposto disso! Seria muito mais correto classificar os fundamentalistas terroristas como féis de doutrinas fundamentalistas, ou seja, seguidores de igrejas que bem ou mal acabam permitindo esse tipo de visão distorcida de suas doutrinas. Mas igreja não é o mesmo que religião, e essa compreensão é fundamental para que consigamos enxergar a religião sob a ótica correta.

[3] Como os cientistas não gostam de usar conceitos como formas-pensamento, egrégoras ou até inconsciente coletivo (ou simplesmente sequer ouviram falar deles), eles referenciam os memes para explicar essa transmissão não física de informações na evolução. Os memes, jamais detectados, são tão ou mais místicos quanto esses outros termos, mas soam como uma doce melodia no jargão científico.

[4] Na verdade há registros de experimentações científicas mesmo antes de Cristo, mais especificamente na ilha de Samos no Mar Mediterrâneo e em partes do Egito antigo. Ocorre que esse conhecimento acabou se perdendo (a destruição da Biblioteca de Alexandria é um bom exemplo).

[5] Lembrem-se que nem todos os religiosos medievais europeus foram inquisidores irracionais... Na verdade, os grandes expoentes da aurora da ciência medieval eram profundamente religiosos.

[6] Somente o pensamento mágico admite efeitos sem causa. Toda a história da ciência remete ao estudo das causas por trás dos efeitos físicos e não físicos (embora esses últimos não sejam considerados ciência “oficial”). Um dos motivos da teoria do Big Bang ter alarmado cientistas da época em que foi elaborada (e até hoje, apesar das evidências acachapantes) é que ele seria uma espécie de “grande passe de mágica cósmico”, ao sugerir que o universo surgiu “do nada” sem ter uma boa teoria para a causa (ou sem admitir uma, pelo menos).

[7] Sábios do Egito antigo já diziam que “tudo vibra, nada está parado” muito antes do advento da física de partículas. Niels Bohr encontrou inspiração nos preceitos do I Ching para elaborar as teorias que edificaram a Mecânica Quântica. A química é filha da alquimia e a astronomia, da astrologia... E por aí vai...

[8] Sim, é praticamente irresistível cutucar: “e depois dizem que cientistas não tem fé”. Por outro lado, essa fé dos cientistas na Teoria do Tudo ou Teoria Final também é alvo de duras críticas de seus colegas como, por exemplo, as de Marcelo Gleiser em Criação imperfeita (embora não direcionadas a crença religiosa em si). No entanto, alguém poderia supor que a ciência moderna chegaria onde chegou sem a fé arraigada no âmago dos grandes gênios como Galieleu, Newton e até mesmo Einstein?

***

Crédito da imagem: Pascal Deloche/Godong/Corbis (detalhe de um mosaico presente na cripta de Pasteur, autoria de Auguste Guilbert-Martin)

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