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2.9.12

Monismos e dualismos

Assim como no caso dos teísmos e ateísmos, referentes a crença ou descrença numa divindade, e também ao que compreendemos pelo próprio conceito de “divindade”, há muitas confusões desnecessárias criadas em torno do mal entendimento do que cada um compreende pelo que quer que seja a mente, e da sua relação com o cérebro. Seria a mente gerada pelo cérebro, ou aquela quem tecla as teclas cerebrais, comandando o corpo? O que seria exatamente a subjetividade, algo real, ou uma ilusão persistente?

Tais questões residem no âmago da filosofia da mente e, apesar dos esforços de alguns dos maiores filósofos e cientistas do mundo, continuam sendo profundamente desconcertantes. Em geral os filósofos da mente não buscam fatos cientificamente investigáveis sobre ela [1], mas o que o conceito de mente em si envolve. Seu método inclui a exploração de conexões lógicas e conceituais existentes entre mente, comportamento e nossas várias capacidades mentais.

Para tentar auxiliar em classificar as definições e/ou visões distintas acerca da mente, os monismos, dualismos e suas variações conceituais, elaborei um pequeno glossário de termos abaixo, que é propositadamente curto – e, obviamente, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mas apenas de ajudar a resolver melhor alguns debates:

Monismo
Há várias doutrinas filosóficas que defendem o monismo. Embora elas tenham inúmeras diferenças entre si, o que nos interessa aqui é que todas elas concordam que existe apenas uma única substância responsável tanto pelo corpo quanto pela mente.
Seria muito simples dizer que todo monista crê que a mente e o corpo são inseparáveis, e não podem existir dissociados – no caso, a mente não existiria dissociada de um corpo. Poderíamos complementar a tese afirmando que todos os monistas são materialistas. Mas mesmo tais classificações poderiam ser apressadas...
Por exemplo, embora o grande Benedito Espinosa seja um monista, que crê que todas as substâncias do Cosmos derivam de uma única substância incriada, seu pensamento possuí alguns aspectos do dualismo de propriedade (que veremos abaixo), e pode se enquadrar mais definitivamente naquele caso. Além disso, por incrível que pareça, existe um polêmico cientista chamado Amit Goswami que consegue ser um monista materialista e ao mesmo tempo crer na possibilidade da mente sobreviver mesmo após a morte do corpo.
Para evitar maiores confusões, bastará aqui concluirmos que o monista crê que só existe uma substância no Cosmos, e que tanto a mente quanto o corpo são formados por ela.

Acreditam na existência da mente? Quase sempre sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Algumas vezes sim (ver dualismo de propriedade).
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Não, exceto no caso do “monismo quântico”.

“Monismo quântico”
Embora esta definição se refira exclusivamente as teorias do cientista indiano Amit Goswami, devo dizer que certos autores a classificariam dentro do chamado monismo idealista. Eu preferi falar do monismo idealista no dualismo de propriedade (que veremos abaixo), por achar que se enquadraria melhor naquela outra definição mais ampla.
Pois bem, como cientista a materialista, Goswami crê que a mente e o corpo são formados pela mesma substância, com a mesma propriedade material. Para Goswami, no entanto, nossa capacidade consciente de escolha, e a interferência fundamental que a consciência exerce nos processos da mecânica quântica, denotam que é a consciência quem “molda” o cérebro (e não o contrário). Além disso, suas teorias também abarcam a possibilidade da reencarnação e da imortalidade da consciência (alma), ao postularem que após a morte do corpo a consciência não é perdida, mas tampouco “vaga pelo ar”, e sim dá um “salto quântico” pelo espaço-tempo até a próxima possibilidade que seja criada para que uma consciência habite um cérebro – ou seja, a concepção de outro ser humano.
Esta teoria é obviamente muito controversa no meio acadêmico, e nem sequer podemos dizer aqui que o próprio Goswami a compreende inteiramente. Para maiores detalhes, recomendamos a leitura de seu livro A física da alma (publicado no Brasil pela Editora Aleph).

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Não, porém a consciência molda o cérebro.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? De certa forma sim, embora ela só se “manifeste” a partir do momento que encontra uma nova possibilidade para “habitar um corpo”.

Monismo eliminativo
Um materialista crê que tudo é formado por substância material, muito embora, caso seja bem informado, saberá que atualmente a ciência postula que apenas cerca de 4% da matéria do universo foi detectada, pois interage com a luz – enquanto os outros 96% são Matéria Escura e Energia Escura, e até hoje não foram detectadas em experimentos, nem uma partícula sequer.
Já os materialistas eliminativos, que sempre serão monistas por definição, são um tanto mais radicais que os materialistas: eles negam que sequer exista uma mente! Eles dizem que a mente poderia parecer óbvia para nós, mas, segundo o eliminativista, à medida que a ciência avança, pode-se revelar que mentes “não são mais reais do que seres mitológicos” [2].
Segundo eles, a explicação apropriada para o comportamento humano não envolve nada semelhante a mentes ou ao que supostamente se passa nelas, como pensamentos e sentimentos. A explicação correta de nossas “vontades” envolve apenas referências a eventos naturais, sem nenhuma relação ao que chamamos de mente – que pode ser nada mais do que uma ilusão persistente do cérebro.
Os monistas eliminativistas resolveram o problema difícil da consciência, que envolve a questão da subjetividade e do “eu” (por exemplo, a interpretação subjetiva da “vermelhidão” do vermelho; ou da “profundidade” com a qual um filho ama sua mãe), da forma mais simples e reducionista: negando que exista uma consciência subjetiva... Talvez o maior representante do monismo eliminativo seja o filósofo americano Daniel Dennet.

Acreditam na existência da mente? Não. Ou seja, não existe o que chamamos de subjetividade, e nossas escolhas são eventos naturais, das quais somos em realidade apenas “espectadores”, ou nem isso.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Não.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Não.

Dualismo (de substância)
O dualismo é uma concepção filosófica ou teológica do mundo baseada na presença de dois princípios ou duas substâncias ou duas realidades opostas e inconciliáveis, irredutíveis entre si e incapazes de uma síntese final ou de recíproca subordinação. É dualista por excelência qualquer explicação metafísica do universo que suponha a existência de dois princípios ou realidades não subordináveis e irredutíveis entre si.
A ideia aparece na filosofia ocidental já nos escritos de Platão e Aristóteles, que afirmam, por diferentes razões, que a inteligência do homem (uma faculdade do espírito ou da alma) não pode ser assimilada ao seu corpo, nem entendida como uma realidade física.
Descartes foi o primeiro a assimilar claramente o espírito (substância imaterial) à consciência e distingui-lo do cérebro, que seria o suporte da inteligência. Chamou a mente de res cogitans ("coisa pensante") e o corpo de res extensa ("coisa extensa", isto é, que ocupa lugar no espaço). A ligação entre a mente e o corpo, segundo ele, seria feita através do tálamo, uma pequenina parte do cérebro [3]. Foi Descartes, portanto, quem primeiro formulou o problema do corpo-espírito do modo como se apresenta modernamente.
A maior parte dos dualistas é dualista de substância, o que se opõe em parte ao dualismo de propriedade, do qual falaremos na sequência.

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Sim.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Quase sempre sim, particularmente entre os religiosos.

Dualismo de propriedade
Uma das posições mais sutis sobre a relação entre a mente consciente e o mundo material é o dualismo de propriedade, que também englobaria o chamado monismo idealista. Ele admite que os materialistas estão corretos ao supor que há apenas um tipo de substância – a substância física. Mas, a seu ver, as substâncias materiais podem ter propriedades físicas e mentais. Estas últimas seriam distintas das primeiras e não poderiam ser reduzidas a elas.
Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Ele dizia: "Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'".
Os dualistas de propriedade crêem que a matéria possa explicar o problema difícil da consciência, porém também acreditam que o mecanismo da subjetividade não possa ser explicado apenas com a matéria detectada no cérebro. Ou seja, na sua opinião, o entendimento atual da neurociência parece ser incapaz de nos descrever como seres que interpretam informações, e não somente como máquinas que se limitam a computar informações – neste sentido, eles se opõe diretamente a explicação do materialismo eliminativo, que basicamente compreende a mente como “a ilusão de uma máquina biológica”.
Até anos atrás poderiam ser chamados de lunáticos pelos acadêmicos, porém desde a descoberta científica de que provavelmente 96% da matéria do universo não foi detectada, pois não interage com a luz, fica um tanto complicado afirmar que “estão delirando”.
Conforme dissemos, mesmo Espinosa e os demais monistas idealistas podem se enquadrar nesta classificação, pois embora acreditem que exista somente uma substância, sua concepção leva a crer que ela tenha ao menos duas propriedades muito distintas – as propriedades físicas, e as mentais.
Note que o dualista de propriedade, embora concorde com o materialista que há apenas um tipo de substância (a material, o que faz dele também um materialista, porém não um materialista eliminativo), concorda com o dualista substancial que os fatos relativos às nossas mentes estão além da compreensão atual que temos dos fatos meramente físicos.

Acreditam na existência da mente? Sim.
Acreditam que a mente possa existir independente do cérebro? Sim.
Acreditam que a mente possa existir sem um corpo físico? Muitas vezes sim, particularmente entre os espiritualistas e ocultistas. Mas Espinosa, por exemplo, não acreditava nisso.

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Bibliografia recomendada
Wikipedia; Guia Zahar de Filosofia (Stephen Law); A física da alma (Amit Goswami); Ética (Espinosa); 25 Grandes Ideias (Robert Matthews – há um capítulo sobre a consciência); O cérebro espiritual (Dr. Mario Beauregard e Denyse O’Leary); O erro de Descartes (Antônio Damásio).

Observação (1): É preciso sempre lembrar que a ciência não é ideologia ou doutrina, não é materialista nem espiritualista, monista ou dualista, teísta ou ateísta. A ciência é tão somente o conhecimento da natureza detectável, e o estudo de seus mecanismos. Há muitos grandes cientistas da história que eram monistas ou dualistas.

Observação (2): Embora nem sempre fique claro em meus textos, como um dualista de propriedade, costumo defender este tipo de visão aqui no blog. Me coloco, portanto, em oposição total ao monismo (ou materialismo) eliminativo, embora isso não signifique que deixe de admirar a paixão com que alguns filósofos defendem tal visão, particularmente Daniel Dennet. Finalmente, embora sempre afirme ser um espiritualista, em realidade também não deixo de ser um materialista – se me entenderam bem até aqui, verão que tais conceitos não necessariamente se opõe entre si.

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[1] Embora a neurociência esteja avançando a passos largos na compreensão do processo de consciência, ao ponto de já sermos capazes de “decodificar” os comandos motores do cérebro, abrindo a possibilidade para que tetraplégicos voltem a caminhar (comandando exoesqueletos robóticos apenas por ondas celebrais), ainda estamos muito distantes de resolver o chamado problema difícil da consciência, que envolve a questão em torno da própria subjetividade e do “eu”.

[2] Notem que, ainda que seres mitológicos “existam apenas na mente”, isso nada tem a ver com a ideia de que a própria mente seja um mito!

[3] Hoje este conceito foi desacreditado, com os avanços da neurociência. Porém, é possível que o tálamo também seja, na realidade, uma espécie de “sensor” de ondas eletromagnéticas, o que supostamente explicaria a mediunidade.

Crédito da foto: Oliver Killig/dpa/Corbis (My Soul, Escultura de Katharine Dowson)

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29.12.11

Vírus e memes

Nesta palestra sensacional do TED, apresentada apenas alguns meses após os atentados de 11/9/2001, o filósofo Daniel Dennett explica de forma incrivelmente simples e didática o conceito dos memes - que não são geralmente tão simples de serem entendidos, pelo menos não neste contexto "mais amplo" em que Dennett os coloca. Essencialmente, Dennett associa os memes a ideias, a informação, e exatamente por isso o fato de nunca terem sido detectados em laboratório perca um pouco a importância - afinal, como ele diz a certa altura: "palavras são memes que podem ser pronunciados, mas a maior parte dos memes não pode".

Como os leitores mais antigos do meu blog devem saber, o Dennett representa ramos da filosofia que são diametralmente opostos aqueles aos quais eu simpatizo (por exemplo, o fato de associar a consciência a uma "ilusão de subjetividade"). Mas a beleza da filosofia é que podemos discordar de um pensador e, ainda assim, admirar sua capacidade de pensar:

Daniel Dennet - O fantástico poder dos memes (parte 1)

Daniel Dennet - O fantástico poder dos memes (parte 2)

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Veja também: Onde estarão os memes?


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6.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 3

Continuando da parte 2

A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Através da nossa subjetividade construímos um espaço relacional, ou seja, nos relacionamos com o "outro".

O limite do subjetivo

Há uma outra espécie de materialismo, definida por alguns como materialismo científico ou eliminativo, mas que eu opto por definir aqui como materialismo anti-subjetivo [1] – pois se trata de uma teoria que afirma que somente a matéria já conhecida explica o funcionamento da consciência humana. Trata-se de uma aposta e de um enorme paradoxo:

A aposta
Hoje se sabe que a consciência se parece mais com um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina há pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a frequência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia, dizia que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Eis a aposta dos materialistas anti-subjetivos: a de que a consciência e seus fenômenos complexos, que exigem não apenas a computação de informações, mas, sobretudo, a interpretação das mesmas, pode ser compreendida apenas levando-se em consideração a matéria já detectada pela ciência.

O paradoxo
Primeiro a ciência moderna, através da neurologia, foi obrigada a aceitar o conceito e a existência da mente subjetiva, para só então tentar reduzi-la a atividades elétricas, efeitos bioquímicos, um mero agitar de partículas no cérebro... Em suma, tentar negar a existência dos qualia.

Qualia são tratados na Filosofia da Mente como sinônimos de subjetividade. Eles significam uma barreira intransponível entre objetivo e subjetivo, entre vivo e não vivo, entre humanos e máquinas. Não sabemos como o cérebro gera a subjetividade, nem se ela pode ser replicada artificialmente. Tentamos padronizar as sensações usando a linguagem, mas as características subjetivas, únicas, de cada sensação, parecem sempre escapar. Quando falamos de algo “amarelo”, por exemplo, não sabemos se essa cor é mais ou menos intensa para nós ou para o “outro”.

Essa inconveniência dos qualia levou filósofos como Daniel Dennet a tentarem negar sua importância ou até mesmo sua existência... Segundo Dennet, a subjetividade é uma ilusão persistente gerada por nosso cérebro, e não existem escolhas, nem morais nem imorais, apenas o resultado do fluxo de partículas no cérebro, de átomos dançando conforme alguma música aleatória definida por nosso meio-ambiente.

Eis o paradoxo: Dennet, ao contrário do que possam pensar, não é alguém que eu condene. De fato, ele é um dos poucos materialistas anti-subjetivos que realmente assumem sua posição enquanto materialistas – a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.

Até onde a luz pode chegar
Não há nada de errado com a ciência objetiva, o problema é quando cientistas creem que podem utilizar ciência para adentrar no campo da subjetividade... Da mesma forma que a psicologia não poderá provar que “esta pessoa está sentindo duas vezes mais dor do que aquela outra”, ou que “aquela pessoa ama aquela outra cinco vezes mais do que você ama seu cachorro”, dificilmente a ciência moderna terá sucesso nessa tentativa de equacionar a mente humana, e tratá-la como uma espécie de máquina que programou a si própria.

Já dissemos que toda a matéria é intangível, mas faltou dizer que ela é igualmente invisível em sua maior parte – pois tudo o que vemos com os olhos ou detectamos com instrumentos avançados são frequências de ondas eletromagnéticas, quantas de luz a refletir pelos átomos a dançar no vazio. Nós não vemos a lua, nem a árvore do outro lado da rua, nem mesmo nossas mãos ou as bactérias no microscópio, vemos apenas os quantas de luz, vindos da luz do Sol ou de alguma fonte de luz (tal qual lâmpadas ou vagalumes), a refletir os átomos que constituem as coisas vistas ou detectadas.

Mas mesmo esta matéria que reflete e interage com a luz é apenas uma ínfima minoria – cerca de 4% – de toda a matéria existente em nosso horizonte observável do Cosmos. Todo os resto – 96% – é composto por Matéria Escura e Energia Escura, e só pôde ser descoberto pelos cientistas através de seu efeito gravitacional no movimento das galáxias (assim como nas interações com a força eletrofraca, mas isso já daria outro artigo).

Aí está o limite do subjetivo, segundo os materialistas: 4% da matéria existente no pedaço do universo onde nossa observação alcança. É uma tremenda aposta esta que afirma que o problema difícil da consciência, que o próprio conceito de subjetividade, pode ser explicado e compreendido apenas com o tilintar dos átomos conhecidos. Para sermos materialistas anti-subjetivos, temos de ter muita fé no ínfimo que conseguimos desvelar objetivamente deste Cosmos infinito. Há que se reconhecer sua convicção.

Em breve, o materialismo religioso e a espiritualidade materialista...

***

[1] Por muito tempo o termo utilizado nesta série foi "materalismo subjetivo", somente meses depois da publicação inicial eu achei melhor usar o termo "materalismo anti-subjetivo" no lugar. No blog em geral, passei a usar o termo "materialismo eliminativo", não porque goste mais dele, mas porque tem sido o termo mais utilizado na linguagem comum.

Crédito da imagem: neurollero

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23.9.10

Ciência e religião

Texto de James Gardner em "O universo inteligente" (Ed. Cultrix) – Trechos das pgs.164 a 167. Tradução de Aleph Eichemberg e Newton Eichemberg. As notas ao final são minhas.

As ferramentas da ciência devem ser usadas para estudar o fenômeno da religião? Ou será que domínio do sagrado deve continuar sendo um enclave escondido, protegido dos olhos curiosos e das cutucadas profanas de antropólogos, sociólogos, economistas e biólogos evolutivos?

[...] A religião, é claro, já foi estudada antes, tanto de dentro (por estudiosos teológicos com pontos de vista diversos, como Santo Agostinho, Émile Durkheim e Mircea Eliade) como de fora, por investigadores pioneiros (como William James [1]). Mas só recentemente as técnicas sofisticadas da ciência moderna – análise estatística, metodologias de investigação desenvolvidas nos campos da sociobiologia e da psicologia evolutiva, e métodos para associar padrões genéticos a categorias de comportamento – passaram a ser usadas para pôr a religião sob o microscópio da análise científica objetiva e imparcial. Só agora, na verdade, temos o kit de ferramentas – especialmente as técnicas computacionais – que permitirão aos cientistas desenvolver modelos sofisticados da evolução da cultura religiosa, análogos aos modelos de software dinâmicos usados no estudo da evolução linguística e da mutação viral.

A abordagem defendida por Daniel Dennett em Breaking the Spell [Quebrando o Feitiço] tem provocado oposições previsíveis, algumas em fontes inusitadas. Numa resenha de Breaking the Spell publicada no New York Review of Books, o físico de Priceton Freeman Dyson repreende Dennett por esconder seus preconceitos ateus embaixo da manga:

“Meu próprio preconceito, ao olhar a religião de dentro, me leva a concluir que o bem supera de longe o mal... Sem a religião, a vida no país seria enormemente empobrecida... Dennett, olhando para a religião de fora, chega à conclusão oposta. Ele vê as seitas religiosas extremistas, que estão criando terreno para gangues de jovens terroristas e assassinos, com a massa de fiéis comuns que lhes dão apoio moral ao deixar de entregá-los à polícia [2]. Ele vê a religião como um estorvo atraente no sentido legal, ou seja, uma estrutura que atrai crianças e jovens e os expõe a ideias perigosas e tentações criminosas, como uma piscina sem cerca ou uma sala de armas destrancada.”

Mas o ponto crucial do cuidadoso livro de Dennett é precisamente que as origens, os caminhos de desenvolvimento e dinâmica interna das comunidades religiosas e dos sistemas de crença deveriam ser submetidos a uma intensa investigação científica e não descartados irrefletidamente como patologias associadas ao consumo de narcóticos culturais perigosos e obsoletos. [...] Como apontei em meu livro Biocosm [Biocosmos]:

“Os domínios sobrepostos da ciência, da religião e da filosofia devem ser considerados como florestas tropicais virtuais de ideias que se polinizam – reservas preciosas de memes continuamente fecundos [3] que são os ingredientes brutos da consciência em todas as suas diversas manifestações. A confusa interface ciência/religião/filosofia deve ser valorizada como uma cornucópia incrivelmente frutífera de ideias criativas: uma hélice cultural tripla – em constante coevolução – de ideias e crenças interagindo, que é o mais precioso de todos os tesouros produzidos pela história da evolução na Terra.”

Nas clássicas palestras de Lowell, feitas em Harvard em 1925, o filósofo britânico Alfred North Whitehead apresentou uma intrigante explicação para o curioso fato de que a civilização europeia produzira sozinha o fenômeno cultural que conhecemos como investigação científica [4]. A teoria de Whitehead é que “ a fé na possibilidade da ciência, gerada antes do desenvolvimento da moderna teoria científica, é um derivado inconsciente da teologia medieval [5]”. Mais especificamente, ele afirma:

“A maior contribuição do medievalismo para a formação do movimento científico [foi] a crença inexpugnável no fato de que cada ocorrência detalhada pode estar correlacionada com seus antecedentes de maneira perfeitamente definida, exemplificando princípios gerais [6]. Sem essa crença, não haveria esperança para o incrível trabalho dos cientistas. É essa convicção instintiva, suspensa vividamente diante da imaginação, que á força motriz da pesquisa – a de que existe um segredo, um segredo que pode ser revelado.”

[...] Se Whitehead estiver correto, a religião não é estranha ao pensamento científico, mas mantém uma relação ancestral [7] com o conjunto de disciplinas intelectuais que definem nosso conceito de modernidade. A religião ocidental é em suma o pai da ciência ocidental. Então, o que pode ser mais apropriado para a ciência do que focalizar a lente da investigação cética em questões relativas à própria paternidade vagamente entendida – ou seja, na crença religiosa, na fonte histórica da ilimitada fé dos cientistas na racionalidade descobrível do cosmos [8]?

***

[1] Não concordo que James tenha analisado a religião “de fora”. Um dos fundadores da psicologia e grande filósofo conhecedor das peculiaridades da experiência religiosa (ler, por exemplo, Variedades da Experiência Religiosa), acredito que era até muito mais religioso do que muitos expoentes religiosos de sua época – apenas não era um eclesiástico.

[2] A mesma confusão comum entre religião e igreja que fez com que o autor julgasse James como um estudioso “de fora” reflete-se aqui na análise de que o fundamentalismo terrorista é fruto da religião. Ora, religião significa “religação a Deus ou ao Cosmos”, e o terrorismo é exatamente o oposto disso! Seria muito mais correto classificar os fundamentalistas terroristas como féis de doutrinas fundamentalistas, ou seja, seguidores de igrejas que bem ou mal acabam permitindo esse tipo de visão distorcida de suas doutrinas. Mas igreja não é o mesmo que religião, e essa compreensão é fundamental para que consigamos enxergar a religião sob a ótica correta.

[3] Como os cientistas não gostam de usar conceitos como formas-pensamento, egrégoras ou até inconsciente coletivo (ou simplesmente sequer ouviram falar deles), eles referenciam os memes para explicar essa transmissão não física de informações na evolução. Os memes, jamais detectados, são tão ou mais místicos quanto esses outros termos, mas soam como uma doce melodia no jargão científico.

[4] Na verdade há registros de experimentações científicas mesmo antes de Cristo, mais especificamente na ilha de Samos no Mar Mediterrâneo e em partes do Egito antigo. Ocorre que esse conhecimento acabou se perdendo (a destruição da Biblioteca de Alexandria é um bom exemplo).

[5] Lembrem-se que nem todos os religiosos medievais europeus foram inquisidores irracionais... Na verdade, os grandes expoentes da aurora da ciência medieval eram profundamente religiosos.

[6] Somente o pensamento mágico admite efeitos sem causa. Toda a história da ciência remete ao estudo das causas por trás dos efeitos físicos e não físicos (embora esses últimos não sejam considerados ciência “oficial”). Um dos motivos da teoria do Big Bang ter alarmado cientistas da época em que foi elaborada (e até hoje, apesar das evidências acachapantes) é que ele seria uma espécie de “grande passe de mágica cósmico”, ao sugerir que o universo surgiu “do nada” sem ter uma boa teoria para a causa (ou sem admitir uma, pelo menos).

[7] Sábios do Egito antigo já diziam que “tudo vibra, nada está parado” muito antes do advento da física de partículas. Niels Bohr encontrou inspiração nos preceitos do I Ching para elaborar as teorias que edificaram a Mecânica Quântica. A química é filha da alquimia e a astronomia, da astrologia... E por aí vai...

[8] Sim, é praticamente irresistível cutucar: “e depois dizem que cientistas não tem fé”. Por outro lado, essa fé dos cientistas na Teoria do Tudo ou Teoria Final também é alvo de duras críticas de seus colegas como, por exemplo, as de Marcelo Gleiser em Criação imperfeita (embora não direcionadas a crença religiosa em si). No entanto, alguém poderia supor que a ciência moderna chegaria onde chegou sem a fé arraigada no âmago dos grandes gênios como Galieleu, Newton e até mesmo Einstein?

***

Crédito da imagem: Pascal Deloche/Godong/Corbis (detalhe de um mosaico presente na cripta de Pasteur, autoria de Auguste Guilbert-Martin)

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