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15.9.11

O ritual das gotas

Esta é a história de como uma poesia virou ritual...

Em 1999 tive a inspiração de uma poesia não usual, um tanto quanto fora do meu estilo na época. A começar pelo fato de ela repetir algumas palavras como numa espécie de mantra, o que só fui me valer em uma ou outra poesia escrita desde então.

Ocorre que, mais de uma década após, durante meu estudo da mediunidade em um centro espírita ecumênico, esta poesia – então já meio esquecida – retornou a minha mente como um visitante que insiste em bater na porta até que ela seja finalmente aberta... Era como se alguém estivesse me pedindo para recitá-la durante o período em que todos estavam em meditação, mas não como uma poesia apenas, antes como uma espécie de oração, ou ritual...

Devido a enorme comoção que ela causou quando recitada a primeira vez, achei por bem divulgá-la para quem tiver interesse em recitá-la também. Antes, porém, gostaria de deixar bem claro o que quero dizer pelos seguintes termos:

- Por ritual entendo, em última instância, uma série de procedimentos mentais que, de acordo com a definição de magia dada por Alan Moore (e outros) – "a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" – visa à indução de nossa própria consciência a um estado alterado. Não é estritamente necessário o uso de indumentárias (físicas) como mantos, velas, imagens de santos, etc. No ritual abaixo é apenas necessário recitar uma poesia e pedir que os presentes imaginem certos símbolos.

- Por irradiação mental entendo uma espécie de mentalização de certos símbolos, em certos contextos, e em certos graus de foco mental (quanto maior o foco, maior a eficácia, mas isso requer obviamente maior disciplina e experiência com a prática). Não se trata, certamente, de nenhuma irradiação no sentido físico-científico do termo. No ritual abaixo, a irradiação mental será realizada pela imaginação dos próprios participantes.

Finalmente, o ritual possui um forte componente simbólico para quem o imagina pela primeira vez. Deste modo, as recomendações de irradiações mentais servem mais para quem o está a repetir. Quem recita o ritual deve se lembrar de dar tempo para que aqueles que participam pela primeira vez o possam imaginar e decifrar devidamente. Ou seja: recitar lentamente e, quando possível, de forma sincronizada (com as irradiações).

O ritual deve ser realizado de preferência com luz baixa no ambiente, exceto para quem o recita, no caso de precisar ler o texto (pode-se até usar uma pequena lanterna, por exemplo)...

***

O ritual
(em itálico o que deve ser pronunciado)

Irradiação mental inicial: Imaginem uma cachoeira distante, e a natureza ao redor (livre desenvolvimento). A água (elemento) que cai a distância termina por escorrer até nossos tornozelos, talvez até as canelas, de modo que estamos cercados de água por todos os lados. Um pequeno oceano local se faz presente neste recinto, ele alcança nossos pés.

Gotas

Irradiação mental: Nós somos as gotas.

Gotas
que caem

Gotas
que caem
no oceano.

Irradiação mental: Uma leve chuva de gotas a respingar pelo ambiente, a escorar pela face, a escorrer pelo corpo, a agitar a superfície das águas como estrelas a cintilar pelo oceano da noite.

Gotas...
Límpidas, porém cálidas.
Caem...
Em infinitos oceanos.

Irradiação mental: Todos nós somos gotas. Todo mundo é um oceano. Hoje caímos neste oceano. Ontem caímos noutros oceanos. Amanhã cairemos em ainda outros oceanos...

Muitas gotas.
Gotas sem rumo.
Caem ao acaso
em um lindo vaso
que guarda o ser humano.

Irradiação mental: Nós estávamos perdidos, sem rumo, mas despertamos em nossos corpos. Nossos corpos são nossos templos. Nossos templos são os vasos que abrigam as gotas. Todos nós somos gotas.

Quantas gotas
hão de cair
para ante a verdade,
evaporarem de volta aos céus,
e finalmente encontrarem
um caminho a seguir?

Irradiação mental: Há uma luz, um fogo que se irradia do alto. Ele incide sobre o oceano até que algumas gotas evaporem, etéreas, de volta para o alto, em direção a luz. Teremos temor deste fogo? Teremos receio desta luz? Em vão, pois a luz é o amor. A luz é o amor. A luz é o amor, e nós somos as gotas.

Tantas quantas lágrimas
o Criador puder chorar... [1]

Irradiação mental final: Irmãos e irmãs, nós somos as gotas. Irmãos e irmãs, nós somos as lágrimas. O Criador nos cria através de um ato de amor. Suas lágrimas são de puro amor. Nós somos parte deste amor. Nós somos as lágrimas. Nós somos as gotas. O mundo é um oceano. O mundo está repleto de gotas por todos os lados e todas as direções e todos os pensamentos. O mundo está repleto de amor. Pensemos na luz, e nas gotas que ficam, e nas gotas que se vão ao seu encontro...

Abramos os olhos.

***

[1] Dependendo da crença de quem participa do ritual, podem-se usar outros termos no lugar de Criador: Universo, Vida, Cosmos, Deus, etc. Só não recomendo que se usem nomes de profetas ou santos, nem de deuses menores.

***

Crédito da imagem: [topo] Akiane Kramarik; [ao longo] Micha Pawlitzki/Corbis

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