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8.6.09

Uma breve história da magia, parte 1

O que diabos é magia?

No mundo atual, quando crianças aprendemos que magia é basicamente um poder sobrenatural que somente magos e seres fantásticos possuem. Há algumas décadas Tolkien nos trouxe o grande mago Gandalf, em seus livros épicos O Hobbit e a trilogia Senhor dos Anéis - de lá para cá nem sempre temos tido a sorte de encontrar personagens tão interessantes na ficção. Hoje em dia os livros e filmes do estudante de magia Harry Potter dão a esperança de que toda criança pode aprender magia: se estudar no lugar certo e, principalmente, se não perder sua varinha mágica em algum lugar.

Há também quem confunda magia com truques de mágica, para esses gente como Houdini e, mais atualmente, David Blaine e Chris Angel, são os grandes magos de nossa época... Para muitos magia nada mais é do que o fruto do chamado pensamento mágico, que basicamente é um nome mais bonito para superstição - prática ritual de religiosos que perderam o compromisso com a realidade das leis naturais, e creem piamente no sobrenatural; ou de loucos que caminham na contra-mão da ciência, por exemplo: alquimistas que ainda tentam transformar chumbo em ouro (literalmente, é claro).

Com tanta ignorância espalhada aos sete ventos, não é de se admirar que o verdadeiro significado da magia tenha se perdido há muito dentre o chamado conhecimento popular. Na falta de um nome melhor, vou chamar a definição dada nos dois parágrafos acima de magia fantástica. Não quero no entanto induzi-los ao erro: decerto Tolkien sabia muito bem o que pertencia a mitologia e suas metáforas profundas, e o que era criação de sua mente, quando compôs Gandalf e outros seres fantásticos da terra média; assim como, mesmo no conhecimento popular sabe-se muito bem que os truques e ilusionismos de mágicos como Houdini e Blaine nada tem a ver com rituais de magia (ainda que não se saiba exatamente o que diabos é magia).

Pois bem, se quer saber o que é magia, se quer saber se já participou inadvertidamente de alguma espécie obscura de ritual mágico, eu lhe digo que não somente certamente participou, como certamente é um mago, ou magista, em maior ou menor grau, ainda que nunca tenha percebido... Todo ser dotado de mente pensante é um mago, e pratica magia, em maior ou menor grau. A magia não é privilégio de sociedades secretas, de ocultistas ou escritores de auto-ajuda: um ator de teatro que consegue levar a platéia as lágrimas atuando em um drama, é um mago mediano; um poeta que consegue passar inúmeras imagens e pensamentos através de símbolos escritos em versos, é um bom mago; até mesmo uma pastor evangélico que, através de sua interpretação fervorosa da leitura bíblica, consegue incitar grande fé em multidões de seguidores fascinados por sua oratória, é um grande mago!

No documentário "The mindscape of Alan Moore", o célebre escritor e magista inglês resumiu de forma contundente o que é magia (e não é necessário chama-la de outro nome senão o original): "Magia é a arte (a arte original), a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência". Aí está resumido todo o real significado de magia. Não se trata de rituais que pretendem criar efeitos sobrenaturais na natureza, mas da cuidadosa manipulação da simbologia compreendida pela cognição humana no intuito de incitar na consciência um estado alterado, onde se pode compreender a realidade de uma forma mais direta, talvez pudesse se dizer: menos racional e mais espiritual ou sentimental. [1]

A maioria dos alquimistas nunca pretendeu um dia realmente transformar, literalmente, chumbo em ouro. Porém, mentalmente e metaforicamente, essa é a mesma transformação que um budista talvez procure em suas meditações transcendentais, ou um católico fervoroso procure em sua comunhão com Deus, ou mesmo um xamã ou pajé em sua relação direta com a natureza e seus espíritos - tranformar chumbo em ouro é transformar uma mente fechada em aberta, uma consciência restrita em abrangente, um conhecimento limitado em virtualmente infinito. Nesse e em muitos outros sentidos, a magia sempre foi o mecanismo pelo qual se realizou o religare, a religação a Deus, ou simplesmente a religião.

Entretanto, obviamente nem toda magia é boa, assim como nem todo pensamento ou estado de consciência é construtivo. Da mesma forma que pensamentos sombrios brotam nas mentes presas em sentimentos de culpa, ódio e vingança, a forma pela qual tais pensamentos são guiados através de manipulações da simbologia mágica é igualmente sombria, ou o que muitos conhecem popularmente como magia negra. Mas aqui, novamente, não é a cor que importa: é a intenção.

Magia é essencialmente vontade. Não há como realizar boa magia sem ter o controle e a compreensão da própria vontade. A vontade no entanto nem sempre é construtiva ou visa a evolução espiritual dos seres. Por isso também se diz que o amor é a lei, o amor sob a vontade... Que isso seja levado sempre em conta a todo aspirante a magista.

Na continuação, falarei brevemente da história da prática de magia, dos xamãs da Sibéria aos umbandistas do Brasil...

***

[1] O termo "racional" se refere a razão destituída de qualquer espiritualidade, como é compreendida no meio acadêmico moderno. Acostumamos a interpretar esse termo como uma analogia a racionalidade e inteligência do ser humano, porém em sua origem, no logos grego, ele significava algo a mais (retirado da Wikipedia): "significava inicialmente a palavra escrita ou falada - o Verbo. Mas a partir de filósofos gregos como Heráclito passou a ter um significado mais amplo. Logos passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, tanto como a capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da Ordem e da Beleza". Essa interpretação do logos como "uma razão conectada ao Cosmos" atinge seu ápice na filosofia estóica. Nesse sentido de logos, a compreensão seria ao mesmo tempo racional e espiritual, e portanto adequada ao contexto utilizado em nosso pequeno estudo.

***

Crédito da pintura: Wikipedia (John William Waterhouse)

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6 comentários:

Anonymous Rayom disse...

Raph:

Interessante sua resenha.

Realmente a natureza é mágica - toda ela, e nós os pretendentes a manipuladores.

A dificuldade está em definir corretamente as várias faces da magia e as categorias de seus praticantes.

De todas e nos patamares do conhecimento hermético, a magia mental, creio eu, é a mais difícil de dominar porque envolve muitos fatores que demandam práticas internas ferrenhamente sistemáticas. Além do conhecimento das leis da natureza que possibilitem o controle ou domínio do carma, o que implica num processo evolutivo de mestrado em campos diversos.

No entanto, a mais largamente praticada é a magia astral, que envolve elementos, espíritos, almas, elementais, rituais, etc., e um conhecimento bem dosado e corajoso da arte invocatória.

É também a mais perigosa pelo fato de trabalhar permanentemente com as duas polaridades, tornando-se necessário saber como compensá-las para não provocar refluxos e rebentações, o que é mais comum do que se pensa.

Mas passando tudo pelo coador, magia também é trabalhar com o magnetismo, conforme você abordou.

E quem não gosta de se passar por magista de vez em quando?

Abs.

8/6/09 19:55  
Blogger raph disse...

"Realmente a natureza é mágica - toda ela, e nós os pretendentes a manipuladores.

A dificuldade está em definir corretamente as várias faces da magia e as categorias de seus praticantes."

Cada palavra tem diversos conceitos, a palavra teoricamente veio do persa "magus" ou "magi" - que significa "imagem" ou "um homem sábio" - mas obviamente atrelamos ela a conceitos bem diversos.

Por isso tentei deixar o mais claro possível nessa primeira parte que estou falando da "arte ou ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" - ou seja, essencialmente magia mental mesmo.

***

"No entanto, a mais largamente praticada é a magia astral, que envolve elementos, espíritos, almas, elementais, rituais, etc."

A gente fala isso e os evangélicos ficam de cabelo em pé... Por isso também quis trazer uma visão mais abrangente de magia, para que não pensem que todos os rituais mágicos envolvam evocações (embora "evocar Jesus Cristo" certamente seja uma forma muito utilizada no meio evangélico - e sabemos que, de certa forma, não é o próprio que atende muitas vezes, mas seus auxiliares).

Além disso, prefito pessoalmente chamar a esse contato astral de mediunidade mesmo.

***

"E quem não gosta de se passar por magista de vez em quando?"

Paulo Coelho que o diga :)

Mas meu intuito é exatamente "dismistificar" o magista, pois assim como o conhecimento científico ou filosófico, o conhecimento oculto de nada vale sem o amor... E o amor é maior.

Abs
raph

9/6/09 09:58  
Anonymous Rayom disse...

"A gente fala isso e os evangélicos ficam de cabelo em pé... Por isso também quis trazer uma visão mais abrangente de magia, para que não pensem que todos os rituais mágicos envolvam evocações (embora "evocar Jesus Cristo" certamente seja uma forma muito utilizada no meio evangélico - e sabemos que, de certa forma, não é o próprio que atende muitas vezes, mas seus auxiliares)".

Raph, seus argumentos sobre consciência e magia estão bem colocados, pois você não trata a ambas como duas coisas separadas. Ok, fino trato.

Quanto aos evangélicos, eu diria que não é nem Jesus e nem seus auxiliares que atendem, mas uma imensa e secular egregóra de energia-forma astral que neles perpassa e os toma em seu mega-corpo plasmático. E cria ícones e imagens através da força da imaginação e das preces, o que os confunde com visões e vidências legítimas.

O principal papel das religiões é criar egrégoras com suas notas características a fim de contrapor aos avanços das energias negativas e do ceticismo manipulados por gênios invertidos, ou trazidos para a Terra por visitantes do mal. O que não exime de almas evoluídas, embora raramente, também se manifestar pela energias-formas artificialmente criadas, e nem seres inteligentes associados a magia malígna.

Além de, principalmente, as religiões manterem vivas nas almas a relação Deus-natureza-homem-obras-salvação. É um estágio de ativação de consciências para um futuro despertar maior, elaborado pelos mentores das raças, apesar de todas as dificuldades de tratar com a psique humana e suas rápidas tendências a devanear, condicionar-se e fanatizar-se.

Mas, olhe, conheço um pastor famoso que fala mal dos candomblés e de Umbanda ( e já foi filho de santo!) e até escreveu um livro metendo o pau, mas lá no seu sítio faz deitadas para os "santos" a fim de poder reunir forças e expulsar o demônio em nome de Jesus.

E outros menos famosos que vão em bom número a um centro de Umbanda num bairro do RJ para oferendas e "deitadas", a fim de permanecer "fiéis" em seus cargos. Verdade verídica,informação de cocheira, pode crêr.

Abraços Raph. Quero ler mais sobre o assunto.

Rayom.

9/6/09 11:05  
Blogger raph disse...

"E outros menos famosos que vão em bom número a um centro de Umbanda num bairro do RJ para oferendas e "deitadas", a fim de permanecer "fiéis" em seus cargos. Verdade verídica,informação de cocheira, pode crêr."

Parece que existe um padre de um igreja na Glória (Rio de Janeiro/RJ), católica, que oficialmente "foi umbandista mas não é mais", mas que na prática nunca deixou de o ser :)

Certamente, retirados os preconceitos e incluído o amor, toda forma de magia se conecta, assim como todos nós vivemos num mesmo sistema de ação e reação, causa e efeito.

***

"Quero ler mais sobre o assunto."

Eu também não sou nenhum especialista no assunto, mas li um livro que resume muito bem a história da magia, desde os primórdios, e devo usa-lo como base para a próxima parte.

Abs
raph

9/6/09 13:01  
Blogger raph disse...

Ao longo do tempo alguns amigos do Orkut me ajudaram a corrigir melhor certos erros nas 3 partes desse artigo.

Agradeço principalmente ao próprio Rayom (que comenta diretamente aqui) e ao Thiago (da comunidade do blog do Del Debbio).

12/6/09 17:40  
Blogger raph disse...

Encontrei um texto extraordinário sobre o assunto no blog do Del Debbio, é de autoria de alguém chamado "Prophecy":

A corrupção moderna da magia

Vale cada parágrafo de leitura!

29/6/09 12:27  

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