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10.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 1)

Este artigo pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. A análise pretende ser imparcial (apesar de eu ser um espiritualista), se não acredita, leia até o fim antes de julgar. Se você ainda não conhece o espiritismo a fundo, recomendo primeiramente que leia esta série de artigos onde resumo a essência da doutrina, e depois retorne...

A crítica quanto à tendência racista de Allan Kardec se baseia principalmente em trechos do Capítulo XI de “A Gênese”, mais precisamente onde ele analisa a hipótese sobre a origem dos corpos humanos, e sobre como o espírito poderia, hipoteticamente, exercer influência em sua formação de acordo com sua “antiguidade ou adiantamento espiritual”.

A primeira análise que devemos fazer é em relação à validade desse tipo de crítica, e para tal nada melhor que primeiramente ler o trecho citado (Cap. IX, 30 a 32, os grifos em negrito são do texto original):

“Se bem que os primeiros homens devessem ser pouco adiantados, pela mesma razão que os fazia encarnarem-se em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis, nos seus caracteres e aptidões. Os Espíritos semelhantes naturalmente se agruparam pela analogia e pela simpatia. A Terra achou-se assim povoada por diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes no progresso. Os corpos recebem a característica do Espírito, e esses corpos se procriam segundo seu tipo respectivo; daí resultam diferentes raças, no físico como no moral [1]. Os Espíritos semelhantes, continuando a se encarnar de preferência no meio de seus semelhantes, perpetuam o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, o qual não se perde após muito tempo, pela sua fusão e pelo progresso dos Espíritos.

Podem-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a grupos de imigrantes de origens diversas, que vão se estabelecer numa terra virgem [2]. Ali encontram a madeira e a pedra para fazer suas habitações, e cada uma dá à sua um feitio diferente, conforme seu grau de saber, e seu gênio particular. Ali se agrupam pela analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, cada um com seus costumes e caráter próprio.

O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os Espíritos, recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados.

Esses Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; atingirão um dia o nível de seus irmãos mais velhos, mas certamente isso não se dará no corpo da mesma raça física, impróprio a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não estiver mais em relação ao desenvolvimento, emigrarão de tal ambiente para se encarnar num grau superior, e assim por diante até que hajam conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra para passar a mundos mais e mais adiantados.”

Agora passemos a análise do trecho citado tendo em mente a crítica mencionada:

Podemos afirmar que Kardec era racista?
Sim, sem dúvida. Inclusive pelo trecho que consta grafado em negrito desde o original. Está muito claro que, apesar de Kardec não ser nem de longe racista no sentido espiritual – pois que considerava que todos os espíritos, desde bactérias e animais irracionais, até os primatas e “selvagens”, poderiam eventualmente alcançar o estágio de “adiantamento moral e intelectual” do “ser humano moderno” –, no sentido corpóreo (físico), que é afinal de contas onde se efetua a crítica, ele era claramente racista a partir do pressuposto de que existiam “raças físicas” diversas, o que fica muito claro tanto no texto em geral quanto na frase grafada.

Hoje sabemos que racismo é ignorância. A ciência comprovou que não existem raças humanas (derradeiramente através do Projeto Genoma). O que chamamos de “raça” se resume a uma diferença da tonalidade da cor de nossa pele: em comparação com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. A cor do pelo e da pele é determinada pela presença de pigmentos, chamados melaninas. A maioria dos autores acredita que o escurecimento da pele foi uma adaptação que evoluiu como uma defesa contra a radiação solar ultravioleta (UV); a melanina é uma substância eficaz contra esta radiação. A cor da pele, em humanos atuais, pode variar desde o castanho escuro até ao rosa pálido [3].

Podemos condenar Kardec por ser racista?
Talvez... Tanto quanto poderíamos condenar um filósofo da Grécia antiga por não se revoltar contra a escravatura, tanto quanto poderíamos condenar o grande pensador alemão, Schopenhauer, por ser um machista convicto que relegava o papel das mulheres na sociedade a um “segundo plano”, tanto quanto poderíamos condenar praticamente qualquer francês de sua época por ser igualmente racista, visto que ainda durante sua geração a escravidão ainda era legal em inúmeros países e colônias. E, de fato, era ainda muito comum que as crianças europeias da época fossem educadas para pensar que os escravos (em sua maioria negros descendentes de partes “supostamente selvagens” da África) possuíam intelecto notadamente inferior.

Em suma, Kardec parecia realmente convicto que povos selvagens do continente africano, da China e da Austrália, dentre outros, possuíam capacidade intelectual e moral inferior a dos europeus e suas colônias mais ricas, mas isso era não obstante um pensamento difundido em toda a França e Europa, mesmo entre os intelectuais, como era o caso de Kardec. Prova de que nem sempre, ou quase nunca, podemos nos colocar em posição de julgar qual povo é mais ou menos adiantado.

» Na segunda e última parte, analisaremos se o espiritismo pode ser considerado uma doutrina racista, e também se os povos "selvagens" seriam realmente intelectualmente inferiores...

***

[1] Aqui Kardec faz referência ao item #11 do mesmo capítulo, que resumidamente afirma que são os próprios espíritos quem auxiliam na fabricação de seus corpos, de acordo com o adiantamento de seu intelecto para tal. De modo que, segundo a hipótese de Kardec, espíritos de elevado intelecto tendem a conceber (ou auxiliar na concepção) corpos mais “aperfeiçoados e belos”.

[2] Muitos não sabem, mas o espiritismo não fala apenas da reencarnação de homo sapiens na Terra, como da evolução espiritual de bactérias até espécies hipoteticamente muito mais avançadas que o homo sapiens, assim como em transmigrações de espíritos entre planetas, de modo que o ciclo de reencarnação não está limitado a uma única espécie, e tampouco a um mesmo planeta. Nota-se, entretanto, que a transmigração entre planetas é espiritual e não corpórea (física).

[3] Os zoólogos geralmente consideram a raça um sinônimo das subespécies, caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. Na espécie homo sapiens - a espécie humana - a variabilidade genética representa 3 a 5% da variabilidade total, nos sub-grupos continentais, o que caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas do ponto de vista biopolítico matematicamente convencionado pela maioria.

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Crédito da imagem: Divulgação (FEB/Domínio público)

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7.10.11

A little moonwalk

Era uma manhã mais fria que o habitual de Janeiro de 2008, e Idoya, uma macaquinha de não mais que 5,5kg e 80cm de altura, era o primata no centro das atenções de um enorme grupo de outros primatas espremidos num laboratório da Universidade de Duke, em Durham (Carolina do Norte/EUA). Com fotógrafos e repórteres do New York Times documentando cada momento da preparação, Idoya foi gentilmente colocada pelos pesquisadores numa esteira hidráulica. Vários cabos conectavam neurochips implantados meses antes em seu cérebro a um eletroencéfalograma e inúmeros computadores. Na parede imediatamente a sua frente, a simpática macaquinha já podia ver imagens de alta definição das pernas de um CB-1, um robô humanoide de 90kg e 1,5m suspenso no ar em um outro laboratório científico do outro lado do planeta – mais precisamente em Kyoto (Japão).

Era um momento histórico, ou pelo menos era o que torcia Miguel Nicolelis, neurocientista brasileiro pioneiro nos estudos mais aprofundados das interfaces cérebro máquina (ICMs). Nas últimas décadas, Nicolelis havia passado por um longo e penoso caminho, bem ao modo dos grandes pioneiros da ciência: com muitos e muitos erros, muitas e muitas tentativas, e apenas alguns acertos aqui e ali... Mas, felizmente, a qualidade dos acertos suplantaram em muito a quantidade de erros.

Desde os primórdios do estudo do cérebro – em roedores, primatas e humanos – os cientistas tenderam a crer que o cérebro possuía regiões e neurônios específicos para cada uma das atividades do corpo físico: havia então a região dos neurônios relacionados ao equilíbrio, outra aos responsáveis por codificar informações sensoriais, ainda outros neurônios para cuidar do movimento de um dedo, uma mão, um braço, uma perna, etc. Mas Nicolelis muito cedo percebeu que o cérebro era muito mais incrível do que uma empresa dividida em setores e departamentos responsáveis por cada uma dessas tarefas – ele era maleável, adaptável, uma verdadeira máquina miraculosa!

Somente estudando grupos de centenas e milhares de neurônios simultaneamente que Nicolelis, paulistano e torcedor do Palmeiras, pôde finalmente avançar em suas leituras cada vez mais precisas do código elétrico gerado pelo cérebro: como numa final de campeonato de futebol, quando todos os torcedores de um time cantam como se fossem um só, assim também operavam os neurônios...

A esteira começou a rodar, e Idoya prontamente começou a caminhar. Não se tratava de trabalho escravo: a macaquinha adorava caminhar um pouco, pois sabia que os outros primatas sempre a recompensavam com deliciosas uvas-passas e biscoitos, de modo que nem os flashes dos fotógrafos a deixaram tímida naquele dia. Nos computadores, um programa de computador com um algoritmo especialmente criado para tal experiência começava a extrair os comandos motores específicos do movimento das pernas de Idoya, filtrados de uma verdadeira avalanche cerebral.

Em Kyoto, o CB-1 começava a caminhar em pleno ar, seguindo os comandos elétricos do cérebro da macaquinha, que precisavam atravessar o planeta até o Japão e retornar como um feedback visual em cerca de 250ms (pois as reações conscientes operam numa janela de até meio segundo, ou 500ms). Uma etapa importante da experiência era a certificação de que a troca de informações entre Durham e Kyoto ficasse abaixo da casa de 250ms, e o cientista Gordon Cheng estava radiante: ele havia cumprido o prometido, estavam na casa dos 230ms!

Mas isso não era tudo. Chegava a vez da simpática macaquinha fazer o seu “pequeno passeio pela lua” (a little moonwalk), uma alusão de Nicolelis a importância do experimento – um pequeno passo para Idoya, um grande passo para todos os primatas... “Ao meu sinal, desligue a esteira... Ok, agora!”

Enquanto a esteira parava, fazendo com que a macaquinha assumisse uma postura semiereta e imóvel, todos os primatas em Durham fixaram os olhos no monitor que exibia o robô em Kyoto. Até Idoya parecia intrigada, pois continuou a olhar atentamente para as imagens à sua frente. Talvez ela realmente quisesse provar algo, pois tudo o que puderam observar do Japão era aquele distinto robô humanoide andando e andando, suspenso no ar, seguindo as instruções detalhadas que continuavam a brotar de algum canto do cérebro de Idoya. Conforme o próprio Nicolelis relatou em seu livro [1]: “Cada passo finamente esculpido, apenas algumas centenas de milisegundos antes, pelo sopro de vida elétrico que emergia, quase como presente divino, de um radiante, embora agora liberto, cérebro de primata.”

Foi, sem dúvida, um grande passo para o conhecimento humano. Aqueles que hoje não se dão conta disso, certamente um dia se darão – nem que seja apenas quando Nicolelis ganhar o prêmio Nobel, algo que muitos dão por quase certo... Pelo fato de nenhuma parte do corpo físico de Idoya ter sido envolvida na operação desta ICM, pelo menos a partir do momento onde a esteira foi desligada, esse e outros experimentos [2] sugerem que, no futuro, pacientes severamente paralisados devido a uma lesão da medula espinhal poderão tirar proveito desta tecnologia. E isso seria, é claro, só o começo...

Desde o advento do eletroencéfalograma (EEG) e tecnologias similares, os cientistas tem conseguido observar, maravilhados, o tráfego eletromagnético que se opera incessantemente nos cérebros dos seres vivos. Postularem eles, não sem razão, que todo nosso corpo físico é mera ferramenta do cérebro, comandado por esse divino condutor da mesma forma que robôs humanoides passam a ser comandados, à distância, por cérebros de pequenos primatas. Porém, como garantir que o cérebro não é, ele também, apenas mais uma ferramenta no meio do processo?

Hoje sabemos como fazer com que macaquinhas caminhem em esteiras, oferecendo frutas e biscoitos como recompensa. Mas, saberemos um dia porque alguém decide se suicidar de um penhasco? Ou porque bombeiros arriscam a própria vida para salvar vidas alheias em grandes acidentes? Ou porque alguém algum dia resolveu pintar um quadro ou escrever poesia? Ou, finalmente, o que alguém compreende exatamente por “vermelho”? O maior paradoxo da ciência moderna consiste no fato da consciência ter sido reconhecida como um processo evidente dos seres racionais (e até irracionais), para então ter sido reduzida ao mero tilintar dos neurônios, num processo que até hoje tende a ser descrito como ocorre no experimento de Nicolelis: como se tudo o que buscássemos na vida fossem uvas-passa e pedaços de biscoito...

Um dos títulos mais inspirados de uma teoria científica se chama “o problema difícil da consciência” – através dela, diversos cientistas de bom senso continuam a debater sobre o que vem a ser exatamente a consciência e, sobretudo, a vontade. Talvez ainda levem anos, séculos, nessa discussão, mas ninguém disse que seria simples – de fato, é este um dos grandes mistérios de nossa existência.

Observar o baile elétrico dos neurônios e dizer que se chegou à origem da vontade é o mesmo que observar um curto-circuito em um poste de energia e afirmar: “é dali, é dali que vem toda a energia da cidade!”. Mas, fato é que ainda não sabemos onde fica a usina de nossa própria vontade. Pode ser um tilintar “meio aleatório” dos neurônios, pode ser um “fantasminha camarada” a pilotar um cérebro, ou pode ser algo ainda mais sutil, elegante, maleável, além do alcance de nossa ciência e racionalidade, de nossa filosofia e espiritualidade atuais... Pode ser algo que esteve profundamente oculto por toda a história da humanidade, mas que no fim termine por se comprovar como a única coisa que realmente somos, a nossa essência liberta, como um cérebro com asas de águia a planar pelo Cosmos, como uma macaquinha esperta e ágil, que insiste em escapar a nossa detecção, mas que pode muito bem estar agora mesmo incorporando primatas... ou robôs.

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[1] Fiz o que pude para resumir da melhor forma possível a descrição do experimento de Idoya conforme consta em “Muito além do nosso eu” (Cia. das Letras). Se quer um estudo mais minucioso (e abrangente) do assunto abordado, não deixe de ler o livro!

[2] Dias atrás Nicolelis e sua equipe anunciaram outro estudo surpreendente que envolve um feedback não apenas visual, mas que incluí também o sentido do tato. Ele foi largamente anunciado na mídia, e ganhou a capa da revista Science, assim como a publicação na conceituada revista Nature.

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Crédito das fotos: [topo] treklens.com; [ao longo] Fábio Barriel (foto de Miguel Nicolelis)

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20.9.11

Um caso sugestivo de psicopictografia

No vídeo abaixo, temos a inauguração do quadro “Dom Especial” na TV Xuxa, da Rede Globo, apresentando um caso sugestivo de psicopictografia, através da mediunidade de Lívio Barbosa. Uma das obras, atribuída a Monet, é depois analisada no palco por um crítico de arte, uma estudante da doutrina espírita, e um cientista cético.

O vídeo pode demorar um pouco a abrir:

Para quem não se interessar pela história de vida do médium, pode pular para o minuto 14:00, aproximadamente, que é quando ele começa a pintar.

Há muitos que evitarão sequer ver o vídeo, ou ler este texto, assim que se depararem com alguns termos – como “mediunidade” ou “psico...grafia” por exemplo –; Mas se você permaneceu conosco até aqui, o convido para refletir sobre algumas teorias que foram elaboradas para explicar esse tipo de fenômeno.

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Primeiro, é preciso lembrar que esse tipo de mediunidade não é assim tão raro, embora até hoje tenha encontrado poucos médiuns com tal capacidade e qualidade na pintura mediúnica. Eu colocaria Lívio par a par com Luiz Gasparetto, por exemplo, que também realizou fenômenos impressionantes nessa área (hoje, por alguma razão, ele não pinta mais).

Segundo, é preciso destacar que a grande maioria desses médiuns (pelo menos os que seguem a doutrina espírita) não teve estudo artístico específico (como pintura ou escultura, por exemplo), e tampouco fica com os ganhos das vendas de suas pinturas mediúnicas – elas quase que sempre servem para financiar as próprias instituições de caridade em que foram produzidas. Leia-se: instituições em torno do país todo (e às vezes até fora dele), não apenas aquelas que frequentam regularmente.

Com tais informações, fica claro que esse tipo de fenômeno ocorre com a frequência necessária para que mereçam estudos mais aprofundados da parapsicologia, e é isso o que ocorre. Vale lembrar que segundo o próprio Alan Kardec, o espiritismo enquanto ciência é uma ciência muito mais próxima da psicologia do que da física e da química, por exemplo. Afinal, “não é possível fazer experimentos com espíritos conforme se faz experimentos com uma pilha voltaica”. Se esses estudos caem no ramo da parapsicologia, e não da psicologia, é mera formalidade – afinal a Academia ficaria “de cabelo em pé” se fosse forçada a admitir o fato de que tais fenômenos são psicológicos (no mínimo) e que, portanto, efetivamente existem.

Vejamos então algumas teorias para a psicopictografia:

Criptomnésia
Segundo muitos céticos, cientistas e neurologistas, tudo o que ocorre na pintura mediúnica pode ser compreendido se considerarmos que nosso inconsciente é ainda um grande desconhecido. Ele não só é capaz de captar e armazenar muito mais informações do que nosso processo consciente nos deixa “a par”, como também pode ocorrer de que grandes aglomerados de informação se encontrem ocultos a consciência por toda a vida. Em suma, é como se os médiuns tivessem tido acesso a esse tipo de informação ao longo da vida, desde a infância, sem que tenham se dado conta disso, pelo menos não de forma consciente.
Então, nos chamados estados alterados de consciência, que ocorrem usualmente no sono e sonambulismo, mas também podem ser “acessados” através do uso de certas drogas, da meditação transcendental, ou da mediunidade (dentre outros métodos mais “ocultos”), a consciência consegue acessar todas essas informações, produzindo fenômenos extraordinários – e que, na maior parte das vezes, são chamados paranormais.
É essa a explicação dada pelo cientista no final do vídeo acima. De acordo com ele, Lívio teve acesso aos quadros de todos esses pintores em algum momento da vida, e os guardou na inconsciência, ainda que aparentemente não se lembre disso. Falta explicar como esse tipo de informação é “acessada” de forma tão extraordinária, como consegue desenvolver a habilidade de pintar com pincéis, dedos, ao bater das mãos, e até mesmo com os pés, e apenas durante o transe. Em suma: há muito o que se estudar mesmo assim!

Inconsciente coletivo
O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão.
Richard Dawkins, quando estava mais preocupado com o estudo da natureza do que com a difusão do ateísmo, desenvolveu o curioso conceito dos memes, que seriam as tais unidades de informação responsáveis pela transmissão desse tipo de conhecimento de forma não-física (pois que genes transmitem apenas características físicas), através das gerações humanas.
Segundo essa teoria, o fato de Lívio pintar com tal habilidade pode ser explicado pelo seu “acesso” as informações ancestrais do inconsciente coletivo da espécie, durante o estado alterado de consciência.

Imatéria
Na grandiosa série de quadrinhos Promethea, o escritor e ocultista Alan Moore nos apresenta o conceito de imatéria: uma espécie de “reino das ideais”, um tanto quanto similar ao platônico, por onde todos os pensamentos da humanidade “flutuam” como poeira ao vento, e onde alguns de nós – particularmente os artistas – conseguem acessar informações durante os momentos de inspiração.
Interessante que é essa mais ou menos a explicação dada pelo crítico de arte no final do vídeo acima. Provavelmente ele nunca leu Promethea, mas quando diz que “o Lívio acessou o imaginário de Monet, e pintou de forma genuinamente impressionista”, ele está em essência se alinhando com a teoria de Moore.

Espiritualismo
Segundo as diversas teorias espiritualistas, espíritos são seres como nós, com processos conscientes tão ativos quanto os nossos, mas que vivem fora do que compreendemos como corpo físico – muito embora a grande maioria dessas teorias também concorde que espíritos têm corpos, são formados por matéria, apenas esta matéria não interage com fótons (luz), é uma matéria mais fluida, por assim dizer, e por isso nunca foi detectada diretamente em experimentos científicos.
Segundo a estudante espírita do vídeo acima, Lívio deixa de ter “vontade própria” no momento da pintura, e passa a ser mero canal passivo para a mensagem do espírito que age sobre o seu cérebro, comandando certas partes do seu corpo físico como alguém que opera um robô humanoide – salvo as devidas proporções.
Ela vai ainda mais além e afirma que “os espíritos já haviam pintado o quadro, e o que ocorre é um fenômeno parecido com o de uma fotografia sendo revelada”. Essa informação adicional é interessante porque remete a possibilidade de que todas as teorias acima possam ser também parte da totalidade da explicação desse tipo de fenômeno.

***

Resta-nos saber, é claro, se os artistas mencionados são realmente os mesmos espíritos quando em sua última encarnação terrena. Conforme o objetivo final das pinturas é a caridade, talvez essa questão nem seja assim tão importante.

Há espíritas que se digladiam com céticos afirmando que tais fenômenos podem ser descritos de forma exata, e que os pintores são realmente os grandes artistas de outrora, e que existe sem dúvida um mundo espiritual exatamente desta ou daquela forma – mas estes não nos auxiliam em quase nada na busca pela real compreensão desses fenômenos.

Nesse sentido, nem o pseudo-ceticismo (ou ceticismo de negação a priori, como gosto de chamar) nem a crença exaltada nos servirão. Se quisermos um dia saber efetivamente o que ocorre nos arcabouços do inconsciente, e se existe realmente a possibilidade de processos conscientes ocorrerem sem um cérebro físico como casa, precisaremos igualmente da ciência e da imaginação, da dúvida e do bom senso, enfim, de um certo deslumbramento perante a existência – e de uma certa humildade em admitir o quão pouco sabemos sobre a natureza do Cosmos.

Até lá, continuemos pelo menos a admirar a arte, seja por onde ela chegue a este mundo...

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Crédito da foto: Arianna Ramella

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15.9.11

O ritual das gotas

Esta é a história de como uma poesia virou ritual...

Em 1999 tive a inspiração de uma poesia não usual, um tanto quanto fora do meu estilo na época. A começar pelo fato de ela repetir algumas palavras como numa espécie de mantra, o que só fui me valer em uma ou outra poesia escrita desde então.

Ocorre que, mais de uma década após, durante meu estudo da mediunidade em um centro espírita ecumênico, esta poesia – então já meio esquecida – retornou a minha mente como um visitante que insiste em bater na porta até que ela seja finalmente aberta... Era como se alguém estivesse me pedindo para recitá-la durante o período em que todos estavam em meditação, mas não como uma poesia apenas, antes como uma espécie de oração, ou ritual...

Devido a enorme comoção que ela causou quando recitada a primeira vez, achei por bem divulgá-la para quem tiver interesse em recitá-la também. Antes, porém, gostaria de deixar bem claro o que quero dizer pelos seguintes termos:

- Por ritual entendo, em última instância, uma série de procedimentos mentais que, de acordo com a definição de magia dada por Alan Moore (e outros) – "a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência" – visa à indução de nossa própria consciência a um estado alterado. Não é estritamente necessário o uso de indumentárias (físicas) como mantos, velas, imagens de santos, etc. No ritual abaixo é apenas necessário recitar uma poesia e pedir que os presentes imaginem certos símbolos.

- Por irradiação mental entendo uma espécie de mentalização de certos símbolos, em certos contextos, e em certos graus de foco mental (quanto maior o foco, maior a eficácia, mas isso requer obviamente maior disciplina e experiência com a prática). Não se trata, certamente, de nenhuma irradiação no sentido físico-científico do termo. No ritual abaixo, a irradiação mental será realizada pela imaginação dos próprios participantes.

Finalmente, o ritual possui um forte componente simbólico para quem o imagina pela primeira vez. Deste modo, as recomendações de irradiações mentais servem mais para quem o está a repetir. Quem recita o ritual deve se lembrar de dar tempo para que aqueles que participam pela primeira vez o possam imaginar e decifrar devidamente. Ou seja: recitar lentamente e, quando possível, de forma sincronizada (com as irradiações).

O ritual deve ser realizado de preferência com luz baixa no ambiente, exceto para quem o recita, no caso de precisar ler o texto (pode-se até usar uma pequena lanterna, por exemplo)...

***

O ritual
(em itálico o que deve ser pronunciado)

Irradiação mental inicial: Imaginem uma cachoeira distante, e a natureza ao redor (livre desenvolvimento). A água (elemento) que cai a distância termina por escorrer até nossos tornozelos, talvez até as canelas, de modo que estamos cercados de água por todos os lados. Um pequeno oceano local se faz presente neste recinto, ele alcança nossos pés.

Gotas

Irradiação mental: Nós somos as gotas.

Gotas
que caem

Gotas
que caem
no oceano.

Irradiação mental: Uma leve chuva de gotas a respingar pelo ambiente, a escorar pela face, a escorrer pelo corpo, a agitar a superfície das águas como estrelas a cintilar pelo oceano da noite.

Gotas...
Límpidas, porém cálidas.
Caem...
Em infinitos oceanos.

Irradiação mental: Todos nós somos gotas. Todo mundo é um oceano. Hoje caímos neste oceano. Ontem caímos noutros oceanos. Amanhã cairemos em ainda outros oceanos...

Muitas gotas.
Gotas sem rumo.
Caem ao acaso
em um lindo vaso
que guarda o ser humano.

Irradiação mental: Nós estávamos perdidos, sem rumo, mas despertamos em nossos corpos. Nossos corpos são nossos templos. Nossos templos são os vasos que abrigam as gotas. Todos nós somos gotas.

Quantas gotas
hão de cair
para ante a verdade,
evaporarem de volta aos céus,
e finalmente encontrarem
um caminho a seguir?

Irradiação mental: Há uma luz, um fogo que se irradia do alto. Ele incide sobre o oceano até que algumas gotas evaporem, etéreas, de volta para o alto, em direção a luz. Teremos temor deste fogo? Teremos receio desta luz? Em vão, pois a luz é o amor. A luz é o amor. A luz é o amor, e nós somos as gotas.

Tantas quantas lágrimas
o Criador puder chorar... [1]

Irradiação mental final: Irmãos e irmãs, nós somos as gotas. Irmãos e irmãs, nós somos as lágrimas. O Criador nos cria através de um ato de amor. Suas lágrimas são de puro amor. Nós somos parte deste amor. Nós somos as lágrimas. Nós somos as gotas. O mundo é um oceano. O mundo está repleto de gotas por todos os lados e todas as direções e todos os pensamentos. O mundo está repleto de amor. Pensemos na luz, e nas gotas que ficam, e nas gotas que se vão ao seu encontro...

Abramos os olhos.

***

[1] Dependendo da crença de quem participa do ritual, podem-se usar outros termos no lugar de Criador: Universo, Vida, Cosmos, Deus, etc. Só não recomendo que se usem nomes de profetas ou santos, nem de deuses menores.

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Crédito da imagem: [topo] Akiane Kramarik; [ao longo] Micha Pawlitzki/Corbis

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26.8.11

Levítico: pedras não faltarão

Em agosto de 2011, na véspera da Parada do Orgulho Gay de Ribeirão Preto, a Justiça mandou retirar da rua um outdoor considerado homofóbico. O outdoor foi feito pela Casa de Oração de Ribeirão Preto e continha citações bíblicas, entre elas uma do livro de Levítico: "se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável...".

Em sua decisão, o juiz que julgou o caso afirmou que "a Constituição Federal protege a conduta do réu de expor suas opiniões pessoais, mas, ao mesmo tempo, também protege a intimidade, honra e imagem das pessoas quando violadas". Um dia antes da realização da parada gay em Ribeirão Preto, o outdoor foi retirado.

Nos diversos portais de notícias onde essa informação foi divulgada, podemos observar a habitual animosidade entre os defensores dos homossexuais e os pretensos “defensores da liberdade de expressão”. Esses últimos costumam afirmar algo mais ou menos assim – o que pode se estender não somente para este caso, como para inúmeros outros:

Da mesma maneira que o homossexual tem o direito de viver sua vida como lhe apraz e os simpatizantes dessa conduta demonstrarem sua simpatia, também aqueles que não apoiam esse comportamento devem ter direito a voz e opinião, é simples assim, um peso e uma medida para todos. Parada gay pode, mensagem bíblica em outdoor não pode?

Costumam simpatizar com esse ponto de vista todos aqueles que pensam que “está na moda ser gay”, ou que “defender os gays agora é o politicamente correto”; ou ainda que “precisamos agora é de uma Parada do Orgulho Hetero!”. Se você por acaso também pensa assim, me desculpe, mas acho que precisará rever um pouco os seus conceitos...

Abra a bíblia, e leia
O Levítico é o terceiro livro do Antigo Testamento, cujo autor supostamente é Moisés, inspirado diretamente por Javé (Deus). Basicamente é um livro teocrático, isto é, seu caráter é legislativo; possuí ainda o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário litúrgico entre outras normas e legislações que regulariam a religião. Obviamente, se trata de uma legislação compatível com um povo parcialmente nômade que sobrevivia nos desertos do Oriente Médio há mais de 2 mil anos atrás.

Se reparar bem, a mensagem do outdoor de Ribeirão Preto está incompleta, o versículo completo se lê assim: Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles (Le 20:13).

Como podem ver, no deserto não haviam prisões e, infelizmente, o Deus de Moisés determinava que essas e outras “faltas” fossem punidas com a morte – não se sabe ao certo se pela mão dos homens, ou do próprio Deus.

Ocorre que, esta não é a única “falta” passível de tal punição. Existem muitas, muitas outras...

Algumas “faltas”, segundo o Levítico
- Tatuagens, nem pensar... Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós (Le 19:28).
- É preciso muito cuidado com a forma que cortamos o cabelo... Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem danificareis as extremidades da tua barba (Le 19:27).
- A cada menstruação, passados 8 dias será necessário sacrificar dois pombos para a purificação da mulher... Quando, pois, o que tem o fluxo, estiver limpo do seu fluxo, contar-se-ão sete dias para a sua purificação [...] E ao oitavo dia tomará duas rolas ou dois pombinhos, e virá perante o SENHOR, à porta da tenda da congregação e os dará ao sacerdote (Le 15:13-14).
- Comer carne de porco? Deus me livre... Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina; este vos será imundo (Le 11:7).
- Muito cuidado antes de consultar um “feiticeiro” [1]... Quando alguém se virar para os necromantes e feiticeiros, para se prostituir com eles, eu porei a minha face contra ele, e o extirparei do meio do seu povo (Le 20:6).
- Mulher casada? Sai fora... Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera (Le 20:10).
- Se por acaso acha sua sogra bonitinha, tire imediatamente este pensamento da cabeça... E, quando um homem tomar uma mulher e a sua mãe, maldade é; a ele e a elas queimarão com fogo, para que não haja maldade no meio de vós (Le 20:14).

Bem, acho que já deu para ter uma ideia do “problema” não? Repare, inclusive, que as 3 últimas “faltas” da lista acima foram retiradas praticamente da mesma página onde se encontra o versículo do outdoor.

Você pode dizer que eu estou apenas citando versículos fora de contexto, que não tenho “a exegese necessária para a interpretação da bíblia”, mas então eu lhe pergunto: e por acaso os versículos do outdoor não estavam mais fora de contexto ainda?

Pois, me parece que numa interpretação mais aprofundada, não seriam somente os homossexuais que mereceriam a morte, mas no mínimo também os adúlteros, os que se consultam com “feiticeiros” e, quem sabe, até mesmo aqueles que comem carne de porco na churrascaria...

Atire a primeira pedra...
No entanto, estranho de se pensar, no mesmo Levítico encontramos ensinamentos do tipo: “Não oprimir os estrangeiros” (Le 19:33); “Não amaldiçoar os deficientes” (Le 19:14); “Não se vingar” e “Amar o próximo como a si mesmo” (Le 19:18).

Não quero aqui discutir se Moisés conseguiu ou não receber as leis de Javé na forma correta, ou ainda se era o próprio Javé quem parecia ter algum problema em elaborar leis que fizessem algum sentido, mas, antes, lembrar do doce Rabi da Galiléia, que nos disse:

Atire a primeira pedra quem não houver pecado.

Será mesmo que o temos escutado? Será mesmo que temos sido cristãos, ou ainda estamos perambulando pelas tribos de Israel, ainda mais no “olho por olho, e dente por dente”, do que no “ama ao próximo de todo o teu coração”?

Errar o alvo
Podemos interpretar as “faltas” mencionadas acima como pecados, sem dúvida.

A origem etimológica da palavra “pecado” remete a um conceito até mesmo bastante simples: errar o alvo. Errar o alvo! Sim, como quem gostaria muito de estar agindo acertadamente mas, seja por ignorância do bem, ou do que quer que seja “o certo”, ainda tem errado o alvo...

Agora, eu te pergunto: quem será que tem errado o alvo por uma distância maior? Aqueles que se dizem cristãos, mas que se aventuram em cruzadas e guerras santas, esquartejando infiéis e fendendo grávidas, ou os pacíficos que atendem a “feiticeiros”? Aqueles que se dizem cristãos, mas traem as esposas, e às vezes até humilham e batem nas esposas, ou os pacíficos que, embora em relações homossexuais, procuram adotar crianças necessitadas? Aqueles que se dizem cristãos, mas julgam “pecadores e condenados a queimar eternamente num lago de enxofre” todos aqueles que cometem às menores faltas, embora não vejam as inúmeras traves a obstruir a própria visão, ou os pacíficos que valorizam a liberdade acima de tudo, e deixam que cada um leve sua própria vida da forma que achar melhor?

Antes de atirar a primeira pedra, cerifique-se de que você mesmo não esteja a errar o alvo – ainda mais do que aqueles a quem as pedras estão endereçadas... Pode ser que mude de ideia, e opte por deixar a pedra cair ao chão, inofensiva. Se, no entanto, não mudar, que Deus tenha piedade de nós, pois pedras não faltarão, e nem alvos.

Você não precisa viver pensando nas “faltas alheias”
Sobretudo, ao encontrar com um homossexual, lembre-se que ele não passa metade da vida fazendo sexo... Mas, ainda que fosse o caso, isso não o impediria de lidar com ele de forma civilizada (supondo, é claro, que ele também seja civilizado): você não precisa apertar a mão de um homossexual imaginando onde ele a tem colocado; você não precisa sentar ao lado de um homossexual imaginando onde ele tem sentado; você não precisa abraçar um homossexual imaginando quaisquer espécies de práticas sexuais “heterodoxas”, pois um abraço é um ato amoroso, e não sexual; e, sobretudo, você não precisa passear na rua próxima a uma Parada Gay – haverão inúmeras outras oportunidades no ano para tal.

Os estrangeiros
Voltando ao Levítico: não oprimais os estrangeiros. Sejam os estrangeiros de sua terra, sejam os estrangeiros de sua cultura, sejam os estrangeiros de sua raça, sejam os estrangeiros de sua crença, sejam os estrangeiros de sua opção sexual.

Se Javé é mesmo o Senhor, ele é o Senhor de todos nós.


Eu sou heterossexual, casado há quase uma década... Não me preocupo nem um pouco com o que homossexuais fazem ou deixam de fazer em suas camas, mas me preocupo com as pessoas que os acham "abomináveis", verdadeiros estrangeiros de si próprias, quase como se fossem demônios ou seres a parte... Como deve ser complicado viver cruzando com demônios imaginários em todos os cantos!

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Obs (1): Você pode conferir facilmente todas as citações de versículos do Levítico na Bíblia Online.

Obs (2): Há um consenso atual, mesmo entre os defensores dos direitos homossexuais, de que a Parada Gay se tornou uma espécie de "micareta de carnaval" no Brasil (e provavelmente em boa parte do Ocidente), que retrata os homossexuais como "fanáticos sexuais em busca de sexo fácil e go-go-boys", não exatamente como a maioria deles realmente é: casais como quaisquer outros, que as vezes até criam crianças adotadas, e a noite vão a restaurantes e não a casas de swing. Porém, ainda assim na Parada Gay não há violência, e qualquer manifestação popular onde não haja violência ou depredação do patrimônio público deve ser respeitada em um estado democrático. Ou, em outras palavras, as mesmas críticas que cabem a promiscuidade em uma Parada Gay, cabem igualmente a promiscuidade dos bailes de Carnaval e afins (onde a maioria é heterossexual).

[1] Existem inúmeras discussões acerca do que “feiticeiros e necromantes” significavam exatamente no contexto da época. Em todo caso, é bastante conveniente para os que interpretam a bíblia ao pé da letra considerar “feiticeiros” praticamente qualquer praticante de uma religião situada (teoricamente) fora do cristianismo.

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Crédito das imagens: [topo] Agência O Globo (este é o outdoor vetado pela Justiça em Ribeirão Preto); [ao longo] Ted Horowitz/Corbis.

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19.8.11

A medida de todas as coisas

Desde que a pitonisa do templo de Apolo afirmou que Sócrates era o homem mais sábio da Grécia, ele se dedicou a procurar saber quem era realmente sábio, e quem se julgava sábio, mas não era. A suspeita de Sócrates era simples: ele mesmo não se julgava sábio, portanto se os deuses afirmavam que o era, a única explicação era a de que a sua parca sabedoria advinha do fato de reconhecer a própria ignorância. O mundo era muito vasto, e o grande sábio da Grécia era sábio exatamente por perceber que ainda havia muito por ser descoberto – não era possível julgar-se coisa alguma no ramo da sabedoria, ou pelo menos não no sentido de estarmos numa posição superior aos demais.

Era uma época privilegiada da civilização Grega, por todo o lado surgiam grandes pensadores e, como não poderia deixar de ser, diversas teorias diferentes que tentavam explicar o mundo. Talvez o pensamento mais revolucionário da época – para o bem ou para o mal – tenha sido o sofismo. Até o surgimento dos sofistas, a educação grega (paideia) não fazia distinções entre religião e cultura – estava profundamente enraizada na religiosidade. Mas eis que surge o sofismo, e com ela uma nova forma de se pensar a educação: não mais um conceito de formação moral, enraizado nos valores absolutos transmitidos pelos deuses, mas um método de conhecimento do mundo, de organização dos diversos “saberes”, relativo em seus valores morais, assim como cada grupo de homens e, em última instância, cada indivíduo, traz consigo a sua própria visão de mundo – sua própria moral, independente dos deuses.

Sócrates se dedicou a demolir os argumentos de cada sofista que passou por seu caminho em Atenas. Perante sua sabedoria enraizada em campos elevados, seus argumentos eram como bodes mancos incapazes de subir as encostas de uma colina... Ante a máxima de Protágoras, um dos grandes dentre a escola sofística – o homem é a medida de todas as coisas –, Sócrates sai-se com uma outra máxima, que segundo muitos lhe é amplamente superior – a medida de todas as coisas é Deus.

É muito fácil, hoje em dia, interpretar tais afirmações de forma superficial, e fora de seu contexto. Pode-se, dessa forma, até mesmo imaginar que Protágoras e os sofistas eram prepotentes e ateístas, enquanto que Sócrates era o grande sábio temente a Deus... Porém, ambos, tanto Sócrates quanto Protágoras, foram acusados de ateísmo. A diferença é que Protágoras fugiu para a Sicília, impondo-se um auto-exílio, enquanto que Sócrates preferiu aceitar a punição máxima da morte por ingestão de veneno, embora tenha lhe sido ofertada a opção do exílio...

Não se discute que Sócrates foi um homem muito mais sábio, nobre, e relevante para a história da cultura ocidental, do que Protágoras – ele obviamente o foi. Porém, não se deve julgar todos os sofistas apenas por aquilo que se mostra deles nos livros de Platão. Em realidade, aqueles não eram sofistas na real acepção de seu lema (humanistas em essência), do contrário seriam grandes amigos de Sócrates, e não aqueles que ele caça em meio às ruas de Atenas, ansioso por demonstrar-lhes os equívocos de suas “suposições do grande saber”.

Com o sofismo surgiram os primeiros pedagogos e os primeiros advogados de que se tem notícia na história. Tratavam-se de homens que dedicavam a vida a estudar o conjunto dos conhecimentos e saberes, e então vendiam seus ensinamentos aos homens abastados, particularmente aqueles que se interessavam pela oratória ou pela política. Ora, Sócrates não cobrava por seus ensinamentos, mais consta que sobrevivia do auxílio de seus discípulos. Pode-se então imaginar Sócrates como um “mendigo sábio”, e os sofistas como enganadores e quem sabe até ladrões... Mas em realidade todos tiveram seu devido papel na história.

É sabido que Sócrates não confiava muito na “sabedoria escrita”. Acreditava que os discursos escritos não tinham como defender a si próprios da argumentação alheia, eram demasiadamente estáticos e, portanto, impróprios para uma reflexão aprofundada do Cosmos. Ora, é claro que Sócrates tinha razão, mas o problema é que o mundo vinha já crescendo, e os conhecimentos humanos com ele; Também se fazia necessária à devida “catalogação” dos saberes, a organização dos processos de ensino, enfim, o surgimento da pedagogia.

Se hoje existem mestrados, doutorados e áreas de especialização nas mais diversas disciplinas, não se enganem: também devemos isso aos sofistas, e bem mais do que a Sócrates. Entretanto, a questão parece estar em não abandonar a sabedoria, em não esquecer da espiritualidade, nos afogando em meio à pura racionalidade dos sistemas de conhecimento humanos. No fundo, Sócrates também tinha razão numa coisa: existem coisas que os livros jamais poderão nos ensinar.

Sim, o homem pode mesmo ser a medida de todas as coisas, mas tão somente no sentido de que é o homem quem interpreta todas as coisas, e é através dele que elas são efetivamente medidas. Mas sabemos que no mundo existem muitas e muitas coisas que estão além da medida, que não se equacionam, e que tampouco puderam nalgum dia serem medidas. Coisas como o amor, a ética e a poesia parecem pertencer a um outro reino, muito no alto das montanhas, além de nossa capacidade de catalogação – eis as coisas que residem no mundo das idéias, na terra da essência e não da transitoriedade. As coisas medidas por Deus.

O homem, porém, está no mundo, vive no mundo, lida com o mundo. Se ele consegue perceber a essência divina das coisas, da mesma forma parece conseguir organizar o próprio conhecimento dessa percepção, e medir o infinito por sua própria medida – humana!

Existem, portanto, essas duas lentes para se enxergar o Cosmos: uma lente que enxerga os sentidos e essências e outra lente capaz de observar os mecanismos e conhecimentos. Para muitos seres a vida sem a primeira lente pode ser insuportável e cinzenta; Mas há ainda outros que parecem ignorar a falta desta primeira lente por completo, e se dedicar apenas a uma imensa “catalogação” das cores do Cosmos. Seja como for, embora a segunda lente se faça até mesmo mais necessária quando consideramos uma vida em sociedades de conhecimento, o ideal me parece ser podermos contar com ambas. Contar com o humanismo dos sofistas e a espiritualidade dos sábios – ver tudo o que há para ver na imensidão infinita. E medir...

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Crédito da foto: Louie Psihoyos/Science Faction/Corbis

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3.8.11

4 amores, parte 4

« continuando da parte 3

Uma mente não pode ser modificada pelo local ou pelo tempo, a mente é seu próprio local, e em si própria pode fazer um paraíso do inferno e um inferno do paraíso. (John Milton)

Ágape: a iluminação

Em alguma região remota da Rússia, num hospital público de alguma pequena cidade, uma criança acorda chorando. Sua mãe está ao seu lado, como tem estado nos últimos dias, semanas, meses... Mas a criança continua a chorar. Ela tem um câncer em estágio terminal, metástase, e o hospital não tem verbas para comprar o medicamento adequado para ao menos anestesiar parte da dor. A criança tem chorado por todos os dias dos últimos 3 meses, sentindo em seus ossos, em suas terminações nervosas, uma das piores dores que o ser humano é capaz de suportar sem desfalecer. A porta do quarto se abre, e um palhaço entra sorrindo. Ele a olha direto nos olhos, bem fundo, ele ri para sua alma, ele faz piada com o sofrimento e a morte, ele dança junto ao amor. A criança para de chorar...

Patch Adams é um médico curioso: ele acredita que um médico não pode prometer cura, e sim um tratamento adequado para cada doença. E o melhor tratamento sempre envolve o amor. Você pode dispor dos melhores remédios e da tecnologia mais avançada do mundo – sem o amor, todo tratamento é incompleto, e toda a cura passageira. Por toda sua vida o palhaço tem se dedicado a melhor das palhaçadas: cuidar das pessoas, irradiar amor pelo mundo. Seja no entorno de zonas de guerra, seja nos hospitais mais remotos do mundo, ele sempre pede pelo pior: pelos queimados, pelos quebrados, pelos depressivos, pelos que estão à beira da morte. Nem que seja para que morram felizes:

“Já fiz mais de 20 mil horas de palhaçadas com pacientes. Tenho 1 milhão de coisas para levar em cada contato. Primeiro, o meu olhar vai direto para os olhos deles, olhar de amor. ZAP! Tenho minibrinquedos, 20, 25 kg de brinquedos, todos dentro da minha calça de palhaço. Tenho um capacete em forma de pato na cabeça, e carrego um peixe. O meu personagem de palhaço é um adulto com síndrome de Down, porque seu estilo é amor incondicional e engraçado. Entro ali, você pode estar coberto por queimaduras do pior tipo, eu não vejo... Vejo os seus lindos olhos. Você vê que eu não vejo. Em qualquer que seja o caso, pode estar a beira da morte, eu estou ao seu lado. Não imagino que vou curar as pessoas, nem mesmo que vou ajudá-las, imagino que sei que vou criar um relacionamento com elas, e esse relacionamento vai tornar mais fácil o que quer que seja.”

Por incrível que pareça, ainda existem santos na era moderna. O médico palhaço é um deles; Embora não seja religioso (no sentido eclesiástico), acredita acima de tudo no que mais importa, naquilo que ninguém conseguiu até hoje medir ou pesar, nem mesmo provar em algum experimento, mas que quase todos têm a plena fé de que efetivamente existe. Patch Adams é um santo do amor, um profeta que prega a maior das revoluções: a renovação pelo amor, a busca por uma estratégia para se amar, amar da melhor forma possível, amar em qualquer momento e em todos os lugares. Amar da maneira que hoje é possível amar, para que amanhã amemos cada vez mais, até que não precisemos mais da promessa incerta de um céu distante – ele já estará instaurado em plena Terra.

Certamente os gregos antigos já haviam dado diversos nomes ao amor, mas nenhum parece ter sido mais sublime do que ágape. Tal sentimento significa o amor incondicional, o amor que não espera nada em troca, nem mesmo mais amor. O fogo que, apesar de arder invisível, ergue-se em uma pira tão bela e poderosa, que encanta aqueles que a podem admirar para o resto de suas existências. Aquilo que não se vê com os olhos do corpo, mas que ainda antes se enxerga com a própria alma. A bênção prometida a todos aqueles que se aventuraram no caminho infinito, de religação com nossas origens, de busca ao que quer que tenha iniciado todo esse turbilhão de substâncias catapultadas a imensidão do Cosmos, e unidas numa sutil e inquebrantável teia com filamentos de luz que se estendem até além do horizonte cósmico, até além da razão, até onde só o amor poderá estar...

Como uma estrela cadente em meio a um vazio pleno de paz, como uma memória, uma imagem daquilo que será lembrado para sempre, uma vez que sempre esteve em nossa volta. O amor de todos os seres, conscientes e a beira da consciência. O amor de todos os cânticos, de todas as orações, de todas as poesias, de todos os pensamentos, colocado aos pés de uma fonte de água cristalina, que jorra em cascata preenchendo todos os átomos e todas as galáxias do Cosmos. O amor em movimento, a ponte entre um mundo de morte e um mundo de vida.

Mas não é fácil abandonar as amarras de nosso próprio ego, não é fácil atingir tal iluminação plena da alma... E ninguém disse que seria, esta é a nossa odisseia, a nossa jornada, a nossa aventura!

Há 2 mil anos um homem também realizou tal jornada. Caminhando pelas planícies em direção a Samaria com seus seguidores, Jesus disse a Judas: “Veja os aleijados, os cegos, os pobres... Este é o nosso exército, eles gritarão e Jerusalém cairá.”; Mas Judas parecia não compreender: “Nós precisamos de mais homens.”; Ao que Jesus respondeu: “Deus nos fornecerá os homens que precisamos, nós iremos construir uma nova Jerusalém.”; Nesse momento ambos foram interrompidos...

Maria, a mãe de Jesus, não o via há muito tempo, e o queria de volta para casa. Ela o segurou o braço de seu filho e lhe disse, da forma mais amável que conseguiu: “Filho! Por favor, volte para casa comigo.”; Jesus a olhou bem fundo nos olhos e perguntou: “Mulher, quem é você?”; Angustiada, sua mãe lhe respondeu: “Você sabe quem eu sou. Não me reconhece? Eu sou sua mãe!”; Jesus então encerrou a conversa, se afastando dela: “Eu não tenho mãe. Apenas meu Pai que está no Céu. Deixe-me ir.”

Então, uma amiga de Maria, que a estava fazendo companhia, lhe perguntou: “Maria... Porque você chora? Você não os viu?”; Maria lhe respondeu: “Não vi quem?”; A amiga explicou, entusiasmada: “Quando ele falou com você, havia milhares de asas azuis, atrás dele... Eu juro, Maria, eu vi exércitos de anjos...”; Mas Maria não pareceu impressionada: “Eu não vi nada disso. De que me ajuda são os anjos atrás dele? Eu gostaria de ver filhos e netos caminhando atrás dele, e não anjos”.

Este diálogo é, talvez, uma ficção [1], mas o que nos importa aqui é que ele toca no cerne de ágape: não mais amar apenas a si próprio, ou sua família, ou seus amigos, ou quem sabe sua comunidade mais próxima, mas amar a absolutamente todos os seres, todos os animais, todas as coisas, todo o Cosmos... Somente assim, reconhecendo o parentesco de nossos genes e átomos como toda a vida na Terra, fruto do crepitar do fogo estelar em fornalhas cósmicas, é que seremos capazes de não mais viver arraigados ao próprio ego, mas deixar que a própria vida viva em nós. Só assim nos tornaremos efetivamente uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo, um espelho plano e límpido voltado para o infinito, um canal por onde a luz divina poderá passar sem mais ser corrompida e distorcida.

Nós temos flutuado no córrego que flui da fonte, no coração do tempo do amor de um pelo outro. Nós temos brincado ao lado de milhões de amantes, partilhado a mesma doce timidez do encontro, e as mesmas lágrimas doloridas de despedida. Um amor antigo, mas que se manifesta em formas que se renovam, e renovam, ad infinitum!

Como bactérias dispersas no rio do mundo, tudo o que nos resta é tecer a tal substância capaz de nos manter unidos, para que possamos flutuar e flutuar, cada vez mais, em direção à superfície, e ao que quer que exista do outro lado do véu.

E, quem sabe, quando chegarmos à festa que se faz para os iniciados no caminho do amor, sequer queiramos comemorar por muito tempo... Pois que teremos nos lembrado daqueles que ficaram para trás, perdidos em meio ao córrego, sem contato com a substância viscosa, ignorantes do amor. Faremos isso, então, não em busca de algum céu ainda superior aquele outro, ou para que Deus nos congratule e nos sorria, mas o faremos porque seremos seres plenos de amor, porque agiremos naturalmente no amor, sem racionalizar, sem equacionar, sem querer provar nada para os outros, e nem mesmo para si mesmo – Amar! Amar, por amar... Eis a última e mais grandiosa das realizações de nossa jornada. Eis todas as bênçãos e toda a felicidade que poderíamos almejar.

Hoje ele está guardado à seus pés, ele achou o seu fim em você,
O amor de todos os dias dos homens, tanto passados quanto eternos:
Alegria universal, tristeza universal, vida universal,
As memórias de todos os amores mesclando-se com esse nosso amor único -
E as canções de cada poeta, tanto passados quanto eternos.

(trecho do poema “Amor sem Fim”, de Rabindranath Tagore)

***

[1] Retirado do roteiro do filme “A última tentação de Cristo”, de Paul Schrader, baseado no livro homônimo, do escritor Nikos Kazantzakis. Por sua vez, este livro foi baseado nos evangelhos apócrifos (tanto quanto nos oficiais), e numa visão gnóstica de Jesus. Cabe a cada um julgar qual visão é mais profunda e espiritual, a que nos traz um Deus feito homem, ou a que nos mostra o árduo caminho de um homem caminhando rumo a Deus.

***

» Ver também a aprsentação criada com base nesta série de artigos.

Crédito das imagens: [topo] Divulgação/Gesundheit! Institute (Patch Adams); [ao longo] J. H. Williams III (Promethea de Alan Moore).

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29.7.11

4 amores, parte 3

« continuando da parte 2

Nós mesmos seremos amados por pouco tempo e depois esquecidos. Mas o amor terá sido suficiente; todos aqueles impulsos do amor retornam ao amor que os produziu. Mesmo a memória não é necessária no amor. Existe uma terra da vida e uma terra da morte e a ponte é o amor, a única sobrevivência, o único significado. (Thornton Wilder)

Filia: a felicidade

Em algum canto de 1969, um homem começa a falar do amor. É a primeira aula de um curso sem direito a créditos da Universidade da Califórnia do Sul (USC), nos EUA. O nome do curso é Love 1A, e quando Leo Buscaglia o propôs a reitoria, nem o seu prestígio como professor adorado pela grande maioria dos alunos evitou que tentassem dissuadi-lo da ideia. “Vai ser ridículo, qual aluno vai querer passar o semestre inteiro estudando sobre o amor?”.

No entanto, a primeira aula já conta com mais de 20 alunos. Em realidade, nos anos seguintes, o Love 1A se tornaria um sucesso estrondoso, com até 200 inscritos todo ano, e cerca de 600 na lista de espera (o que era, em todo caso, o máximo). Por todos os cantos do mundo dito civilizado, as pessoas suplicam por amor, por senti-lo, por compreendê-lo, por viver em seu nome... Mas quão poucas efetivamente dão ao menos um passo em sua direção. A aula do professor Buscaglia talvez fosse à maneira mais simples de começar a caminhada.

O Dr. Amor, como eventualmente chegou a ser conhecido, já como famoso palestrante da televisão americana, e tendo seus livros vendidos no mundo todo, nos contou sobre o principal motivo pelo qual tomou coragem para propor uma aula sobre o amor: “No inverno de 1969, uma de minhas alunas, inteligente e sensível, suicidou-se. Pertencia a uma distinta família de classe média alta. Seu aproveitamento escolar era excelente. Era muito querida por todos e tinha sempre programas para fazer. Num determinado dia de janeiro, foi de carro para os penhascos de Pacific Paradises, em Los Angeles, deixou o carro ligado, caminhou até a beira de um rochedo íngreme que se debruçava sobre o mar e pulou para a morte. Não deixou qualquer bilhete, nem uma palavra de explicação. Tinhas apenas 20 anos.”

Há muitos que dizem que o pós-modernismo comprovou a falência das ideologias racionalistas, que prometiam que a idade da razão, da ciência e da tecnologia, nos elevaria a um novo patamar de saúde, progressos e realizações. Na verdade o que aumentou foi nossa expectativa de vida e nosso índice de desenvolvimento humano, mas as questões profundas, espirituais, permaneceram sem solução... Buscaglia descobriu, talvez após passar dois anos viajando pelo Oriente, que não seriam os intelectuais, os cientistas, os padres e pastores, e muito menos o governo, quem resolveriam nossa questão com o amor – teríamos de buscá-lo por nós mesmos. Não são vacinas, comprimidos, carros do ano, livros de auto-ajuda, livros sagrados, sermões religiosos ou científicos, nem mesmo homens pregados em cruzes para morrer, quem nos salvam... Apenas o amor nos salva, e por isso era vital aprender a amar.

Após muito debater com os próprios alunos acerca do amor, e também se baseando na extensa obra de mais de 400 autores, Buscaglia chegou a algumas premissas básicas acerca do tema:

(a) Ninguém pode dar aquilo que não possui. Para dar amor, você deve ter o amor; (b) Ninguém pode ensinar aquilo que não sabe. Para ensinar o amor, você precisa compreendê-lo; (c) Ninguém pode conhecer aquilo que não estuda. Para estudar o amor, você precisa viver no amor; (d) Ninguém pode apreciar aquilo que não aceita. Para aceitar o amor, você deve tornar-se receptivo a ele; (e) Ninguém pode ter dúvida daquilo em que deseja acreditar. Para acreditar no amor, você deve estar convencido do amor; (f) Ninguém admite aquilo a que não se entrega. Para se entregar ao amor, você deve ser vulnerável a ele; e finalmente: (g) Ninguém vive aquilo a que não se dedica. Para se dedicar ao amor, você deve estar sempre crescendo no amor.

Ora, e o que seria exatamente crescer no amor? Em sua tentativa de equacionar o amor, os cientistas o chamaram de “uma relação de troca onde há benefícios mútuos”, e o colocaram como alguma espécie de atividade onde o produto final é, coletivamente, sempre superior ao estado inicial, individualmente. E os cientistas tinham razão. Mas aí está o estranho paradoxo: quem doa amor, nada perde, apenas ganha ainda mais amor. Eis que o amor empresta sua essência do infinito, e a matemática do infinito está além de qualquer razão, de qualquer equação...

Após ter passado pelos outros amores – porno, onde seres são utilizados como coisas; e eros, onde há um troca genuína, porém fugaz, de prazer –, acredito que finalmente tenhamos chegado a um patamar mais profundo: filia (ou philia) é a palavra grega para amizade e irmandade. Todos sabemos que o ato sexual tem sua duração, que apesar de poder ser prolongada por até mesmo por várias horas através de técnicas orientais pouco conhecidas da maioria, certamente não irá durar por semanas, muito menos por anos. Numa analogia, podemos afirmar que a paixão que se baseia na atração sexual também terá seus dias contados. Por muitos séculos, e através de muitas sociedades distintas, a principal função do amor era a reprodução e, quem sabe, a educação dos filhos. No final das contas, os casamentos serviam mais para que a continuidade do sangue familiar fosse garantida, do que para que houvesse efetivamente uma relação de amor entre os seres. Se não acreditam nisso, pesquisem sobre a história das monarquias europeias, e todos os seus reis e rainhas, e todos os seus casamentos “sagrados”.

Mesmo nas formas de poligamia, há muito das questões da reprodução e proteção mútua envolvidas. Nas épocas de escassez de alimentos e, sobretudo, nas épocas de guerras, eram as grandes famílias que sobreviviam, e muitas culturas optaram por não se limitar pela monogamia. Mas a monogamia existe, certamente que existe: temos raros e belos exemplos de homens e mulheres que permaneceram companheiros de outros homens ou mulheres por anos a fio; por vezes, por toda uma vida...

Ora, mas se formos analisar do ponto de vista pura e simplesmente evolucionista, mecanicista, animal, a monogamia é antes um grande desperdício: para que desperdiçar uma vida se reproduzindo apenas com uma outra pessoa, se teremos maiores chances de propagar nossos genes nos reproduzindo com o maior número de pessoas, e as mais saudáveis possíveis? Porque, enfim, sermos homossexuais, e, quando muito, adotarmos e criarmos os filhos dos outros, nos abstendo de propagar nossos próprios genes? Talvez, porque no fundo, aqueles que conseguiram chegar a esse patamar de amor são antes companheiros do que amantes, antes seres que buscam a fecundação de amizades, e não de óvulos.

Também no campo religioso, quem chega a essa distinta concepção do amor, não trata a Deus como um agente de barganhas ou um simples mantenedor de rituais sagrados. Antes o entendem como um amigo, aquele amigo que podem sempre contar, pois que hoje sabem que nunca os abandonou, e tampouco poderia abandonar – sua essência nos preenche a todos, ele está em tudo o que existe.

E é aqui, nessa distinta passada no caminho do infinito, que percebemos pela primeira vez o êxtase que se sinaliza no horizonte à frente... Pela primeira vez sentimos um facho de luz da felicidade pura a nos ricochetear pela alma – não aquela alegria que sempre esteve fadada a ser, brevemente, substituída por alguma tristeza, para logo após virar alegria novamente; mas antes aquele contentamento interno, aquela paz de espírito, aquela felicidade que permanece.

Todos somos ainda alunos do curso Love 1A, e foi exatamente um dos alunos de Buscaglia quem nos trouxe uma definição que talvez resuma da melhor forma essa espécie de amor de que estive falando:

“Acho que o amor é muito parecido com o espelho. Quando amo alguém, essa pessoa torna-se meu espelho e eu me torno o dela; e refletindo-se um no amor do outro, vemos o infinito”.

» Na continuação, o amor derradeiro: ágape... Antes, porém, trarei 3 posts que serão um interlúdio nesta série.

***

Nota: Todas as citações de Leo Buscaglia (e de seu aluno) foram retiradas de seu best-seller: “Amor” (Ed. Nova Era).

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Crédito das fotos: [topo] Kate Mitchell/Corbis; [ao longo] Roger Ressmeyer/Corbis (Buscaglia em palestra ao ar livre).

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26.7.11

4 amores, parte 2

« continuando da parte 1

Quem já bebeu, beberá; quem já sonhou, sonhará. Nunca desistirá desses abismos atraentes, que soam insondáveis, que penetram no proibido, que se esforçam por segurar o impalpável e ver o invisível; volta-se para eles, debruça-se sobre eles, dá-se um passo na direção deles, depois dois; e é então que se penetra no impenetrável e é então que se encontra o alívio ilimitado... (Victor Hugo)

Eros: a convivência

Susana Queiroz está visitando o Butão, um dos menores e mais isolados países do mundo, fincado nos Himalaias, entre a China e a Índia. Ela entra em uma loja de artesanato local, mas não consegue se comunicar com a vendedora, que não fala inglês – e muito menos o português, idioma da brasileira que apresenta o programa “No Caminho” para o canal de TV a cabo Multishow... Susana chama por seu guia de viagem, um simpático butanês que fala o idioma local e o inglês, mas ele não responde. Fora da loja, a bela apresentadora encontra o guia falando apressadamente no celular – até muito recentemente o Butão esteve fechado à modernidade, e faz poucos anos que o celular surgiu no país.

O guia desliga o celular e tenta ignorar o assunto, mas Susana já suspeita do que se tratava: era a “nova febre” entre quase todos os jovens butaneses, as pessoas falavam ao celular para marcar encontros amorosos. A questão peculiar, nesse caso em específico, é que o guia já era casado com duas mulheres, e ainda assim procurava conhecer mais parceiras amorosas.

Desde o final de 2006, o Butão é uma monarquia constitucional, mas o chefe religioso do reino goza de uma importância quase idêntica a do rei. O Butão é um dos últimos reinos budistas do mundo...

No reino animal, a poligamia se refere à relação onde os animais mantém mais de um vínculo sexual no período de reprodução. Nos humanos, a poligamia é o casamento entre mais de duas pessoas. Os casos mais típicos são a poliginia, em que um homem é casado com várias mulheres, e a poliandria, em que uma mulher vive casada com vários homens.

Diz-se que a poliginia já foi regra nos grupos humanos em estado natural. Durante a história, ela foi amplamente usada, tendo como principal causa a grande diferença numérica entre homens e mulheres ocasionada pelas guerras. A questão sempre esteve também no centro do debate religioso. O Velho Testamento fala de um personagem como Jacó, que teve duas mulheres e doze filhos (vários deles com servas). Essa prole viria a dar origem às doze tribos de Israel.

No Islã, por outro lado, ela tem sido praticada desde sempre (o próprio profeta Maomé teve 16 casamentos simultâneos). Hoje, continua a ser adotada em alguns países muçulmanos e em processo de adoção em outros. O costume é regulamentado pelo Alcorão, que tolera a poliginia e permite um máximo de 4 esposas. Em realidade, a poliginia certamente sempre foi bem mais comum do que a poliandria. As razões são até mesmo óbvias: além do mundo ter sido por muito tempo, e em muitas sociedades, dominado pelos homens, é extremamente custoso para uma mulher manter vários casamentos, pelo menos se levarmos em consideração que ela irá gerar filhos de cada um de seus maridos.

Eu costumo dizer que não acredito em casamento. Não quero, com isso, ofender a crença e a tradição cultural dos outros, mas apenas manifestar a minha própria crença... Tampouco estou querendo dizer que não acredito no amor, na fidelidade, na possibilidade de uma união realmente estável e duradoura entre dois indivíduos. Quero apenas ressaltar que o fato de estarem casados perante Deus, perante as leis ou perante a sociedade nada tem a ver com a garantia da manutenção do seu amor. Em suma: no fundo, o que quero dizer é que acredito sim no “casamento”, mas para mim ele se chama amor. É muito simples entender: qualquer casamento durará apenas enquanto o amor durar. Vai-se o amor, vai-se o casamento, ainda que não haja divórcio, ainda que o casal continue a “viver as aparências sociais”.

Na cerimônia religiosa cristã diz-se que “o que Deus uniu o homem não separe”. Mas por vezes o homem parece viver a se dedicar exclusivamente a não seguir os mandamentos divinos. Ora, é para mim mais uma frase sem sentido algum. Melhor seria dizer, portanto: “saibam que têm nas mãos a responsabilidade de manter e edificar, todos os dias de suas vidas, esse dom divino, esse amor que sentem um pelo outro, este milagre!”.

Também se costuma encerrar com um “até que a morte os separe”. Mas, se a morte separa alguma coisa, não é o amor. O amor não é um corpo e nem mesmo um cérebro, mas uma união de almas. Mesmo Carl Sagan, que era agnóstico e não acreditava em vida após a morte, dizia que “viver na memória daqueles que nos amam, é viver para sempre”. Ora, e o que diabos a morte separa? Se ela separa alguma coisa, é porque não era amor.

Claro, existe muita confusão acerca do que vem exatamente a ser amor. Me parece que aqui estamos nos referindo ao que os gregos antigos chamavam de eros: não o deus, mas o conceito de troca de prazer entre os seres. Nesse estágio do caminho do amor, os seres não mais usam os outros como mero objeto, ou como parte de uma transação comercial, mas efetivamente trocam carinho, se preocupam tanto em dar prazer quanto em receber. Fortalecem o elo com o seu próximo um pouco mais...

É preciso, no entanto, tomar cuidado com até que ponto estarão unidos. Duas árvores podem crescer a certa distância uma da outra, e podem até fazer sombra uma à outra, dependendo do momento do dia. Mas se estiverem por demais unidas, às próprias raízes no solo irão se entrelaçar, e disputar os nutrientes, até que uma aniquile a outra, ou por vezes, até que ambas se destruam mutuamente.

Foi o grande poeta do Líbano (Gibran) quem nos alertou: “Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão: Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho; Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia” (trecho de “O Profeta”).

Muitos ditos cristãos ao longo da história se declararam escandalizados com práticas como a poligamia por outros povos. Logo depois da descoberta de Colombo, os colonizadores portugueses e espanhóis que vieram da Europa colonizar o novo mundo concluíram que esses nativos eram “pouco mais do que animais”. Ao notar que muitos nativos praticavam uma ou ambas as formas de poligamia, um ministro calvinista afirmou que não possuíam nenhum senso moral. Um médico europeu, após examinar cinco nativas e perceber que não menstruavam, concluiu que “não pertenciam à raça humana”...

Não satisfeitos em despojá-los de sua humanidade, os espanhóis começaram a dizimá-los como animais. Por volta de 1534, 42 anos após a chegada de Colombo, os impérios inca e asteca haviam sido destruídos e seu povo escravizado ou assassinado. A hospitalidade inata dos nativos não comoveu os “seres morais do velho continente”: os colonizadores matavam crianças, rasgavam o ventre de mulheres grávidas, arrancavam olhos, queimavam vivas famílias inteiras e incendiavam aldeias à noite. Entre a poligamia e a matança, acredito que Deus tenha feito uma escolha já há muito tempo, quando ainda éramos hominídios.

Mas, retornando ao Butão: eis um exemplo de sociedade onde todos vivem efetivamente livres e não parecem se “escandalizar” tão facilmente com práticas como a poligamia ou até mesmo a homossexualidade. Ao contrário de muitas outras partes do mundo, de muitas sociedades atuais ou passadas, no Butão tanto homens quanto mulheres sentem-se livres para ter quantos parceiros amorosos quiserem. No Butão se construiu uma verdadeira rede de convivência, de troca de prazer, de troca de informações íntimas, de troca de compreensão. Nesse distinto e exótico microcosmo de sociedade humana, há tantos “casamentos” quanto possibilidades de convívio amoroso, e mesmo falos e símbolos genitais são entendidos como sagrados, como formas de proteção contra os “maus espíritos”.

E quem serão os maus espíritos senão os próprios homens e mulheres no topo de seu preconceito, de sua ignorância? Se as potências do homem na visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, nos pés; se todas essas potências foram dadas ao homem para a educação, para a evolução no convívio com o próximo, para a compreensão cada vez mais aprofundada do amor, mereceria o sexo, e as várias manifestações sexuais onde há respeito e carinho de ambas as partes, serem sentenciados às trevas [1]?

» Na continuação, o terceiro amor: filia...

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Nota: Este artigo não deveria ser entendido como uma exaltação da poligamia. Devemos sempre, isso sim, exaltar o amor: cada pequena possibilidade de amar, amar da melhor forma possível, amar da forma que hoje temos possibilidade de amar. Sejam quantos “casamentos” forem necessários, que não se desista do amor, jamais...

[1] Boa parte desse último parágrafo foi retirada (livre adaptação) de uma das respostas de Chico Xavier no lendário programa Pinga-Fogo, em que participou nos idos de 1971.

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Crédito das fotos: [topo] Divulgação/Multishow ("No Caminho"); [ao longo] riisli

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