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10.10.11

Allan Kardec: racista? (parte 1)

Este artigo pretende analisar a costumeira crítica a Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, onde se afirma que ele era racista, baseando-se principalmente em trechos de A Gênese, a quinta e última obra fundamental do espiritismo. A análise pretende ser imparcial (apesar de eu ser um espiritualista), se não acredita, leia até o fim antes de julgar. Se você ainda não conhece o espiritismo a fundo, recomendo primeiramente que leia esta série de artigos onde resumo a essência da doutrina, e depois retorne...

A crítica quanto à tendência racista de Allan Kardec se baseia principalmente em trechos do Capítulo XI de “A Gênese”, mais precisamente onde ele analisa a hipótese sobre a origem dos corpos humanos, e sobre como o espírito poderia, hipoteticamente, exercer influência em sua formação de acordo com sua “antiguidade ou adiantamento espiritual”.

A primeira análise que devemos fazer é em relação à validade desse tipo de crítica, e para tal nada melhor que primeiramente ler o trecho citado (Cap. IX, 30 a 32, os grifos em negrito são do texto original):

“Se bem que os primeiros homens devessem ser pouco adiantados, pela mesma razão que os fazia encarnarem-se em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis, nos seus caracteres e aptidões. Os Espíritos semelhantes naturalmente se agruparam pela analogia e pela simpatia. A Terra achou-se assim povoada por diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes no progresso. Os corpos recebem a característica do Espírito, e esses corpos se procriam segundo seu tipo respectivo; daí resultam diferentes raças, no físico como no moral [1]. Os Espíritos semelhantes, continuando a se encarnar de preferência no meio de seus semelhantes, perpetuam o caráter distintivo físico e moral das raças e dos povos, o qual não se perde após muito tempo, pela sua fusão e pelo progresso dos Espíritos.

Podem-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra a grupos de imigrantes de origens diversas, que vão se estabelecer numa terra virgem [2]. Ali encontram a madeira e a pedra para fazer suas habitações, e cada uma dá à sua um feitio diferente, conforme seu grau de saber, e seu gênio particular. Ali se agrupam pela analogia de origens e de gostos; esses grupos acabam por formar tribos, depois povos, cada um com seus costumes e caráter próprio.

O progresso não foi, pois, uniforme em toda a espécie humana; as raças mais inteligentes naturalmente progrediram mais que as outras, sem contar que os Espíritos, recentemente nascidos na vida espiritual, vindo a se encarnar sobre a Terra desde que chegaram em primeiro lugar, tornam mais sensíveis a diferença do progresso. Com efeito, seria impossível atribuir a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos macacos, que aos chineses, e ainda menos aos europeus civilizados.

Esses Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; atingirão um dia o nível de seus irmãos mais velhos, mas certamente isso não se dará no corpo da mesma raça física, impróprio a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não estiver mais em relação ao desenvolvimento, emigrarão de tal ambiente para se encarnar num grau superior, e assim por diante até que hajam conquistado todos os graus terrestres, depois do que deixarão a Terra para passar a mundos mais e mais adiantados.”

Agora passemos a análise do trecho citado tendo em mente a crítica mencionada:

Podemos afirmar que Kardec era racista?
Sim, sem dúvida. Inclusive pelo trecho que consta grafado em negrito desde o original. Está muito claro que, apesar de Kardec não ser nem de longe racista no sentido espiritual – pois que considerava que todos os espíritos, desde bactérias e animais irracionais, até os primatas e “selvagens”, poderiam eventualmente alcançar o estágio de “adiantamento moral e intelectual” do “ser humano moderno” –, no sentido corpóreo (físico), que é afinal de contas onde se efetua a crítica, ele era claramente racista a partir do pressuposto de que existiam “raças físicas” diversas, o que fica muito claro tanto no texto em geral quanto na frase grafada.

Hoje sabemos que racismo é ignorância. A ciência comprovou que não existem raças humanas (derradeiramente através do Projeto Genoma). O que chamamos de “raça” se resume a uma diferença da tonalidade da cor de nossa pele: em comparação com a pele de outros primatas, a pele humana possui menor pelagem. A cor do pelo e da pele é determinada pela presença de pigmentos, chamados melaninas. A maioria dos autores acredita que o escurecimento da pele foi uma adaptação que evoluiu como uma defesa contra a radiação solar ultravioleta (UV); a melanina é uma substância eficaz contra esta radiação. A cor da pele, em humanos atuais, pode variar desde o castanho escuro até ao rosa pálido [3].

Podemos condenar Kardec por ser racista?
Talvez... Tanto quanto poderíamos condenar um filósofo da Grécia antiga por não se revoltar contra a escravatura, tanto quanto poderíamos condenar o grande pensador alemão, Schopenhauer, por ser um machista convicto que relegava o papel das mulheres na sociedade a um “segundo plano”, tanto quanto poderíamos condenar praticamente qualquer francês de sua época por ser igualmente racista, visto que ainda durante sua geração a escravidão ainda era legal em inúmeros países e colônias. E, de fato, era ainda muito comum que as crianças europeias da época fossem educadas para pensar que os escravos (em sua maioria negros descendentes de partes “supostamente selvagens” da África) possuíam intelecto notadamente inferior.

Em suma, Kardec parecia realmente convicto que povos selvagens do continente africano, da China e da Austrália, dentre outros, possuíam capacidade intelectual e moral inferior a dos europeus e suas colônias mais ricas, mas isso era não obstante um pensamento difundido em toda a França e Europa, mesmo entre os intelectuais, como era o caso de Kardec. Prova de que nem sempre, ou quase nunca, podemos nos colocar em posição de julgar qual povo é mais ou menos adiantado.

» Na segunda e última parte, analisaremos se o espiritismo pode ser considerado uma doutrina racista, e também se os povos "selvagens" seriam realmente intelectualmente inferiores...

***

[1] Aqui Kardec faz referência ao item #11 do mesmo capítulo, que resumidamente afirma que são os próprios espíritos quem auxiliam na fabricação de seus corpos, de acordo com o adiantamento de seu intelecto para tal. De modo que, segundo a hipótese de Kardec, espíritos de elevado intelecto tendem a conceber (ou auxiliar na concepção) corpos mais “aperfeiçoados e belos”.

[2] Muitos não sabem, mas o espiritismo não fala apenas da reencarnação de homo sapiens na Terra, como da evolução espiritual de bactérias até espécies hipoteticamente muito mais avançadas que o homo sapiens, assim como em transmigrações de espíritos entre planetas, de modo que o ciclo de reencarnação não está limitado a uma única espécie, e tampouco a um mesmo planeta. Nota-se, entretanto, que a transmigração entre planetas é espiritual e não corpórea (física).

[3] Os zoólogos geralmente consideram a raça um sinônimo das subespécies, caracterizada pela comprovada existência de linhagens distintas dentro das espécies, portanto, para a delimitação de subespécies ou raças a diferenciação genética é uma condição essencial, ainda que não suficiente. Na espécie homo sapiens - a espécie humana - a variabilidade genética representa 3 a 5% da variabilidade total, nos sub-grupos continentais, o que caracteriza, definitivamente, a ausência de diferenciação genética. Portanto, inexistem raças humanas do ponto de vista biopolítico matematicamente convencionado pela maioria.

***

Crédito da imagem: Divulgação (FEB/Domínio público)

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19 comentários:

Blogger Silvio S. Santos disse...

O texto está bem claro, e a análise consequentemete também. Quanto ao julgar, também concordo que se tem que primar pelo olhar da época, mesmo Aristóteles, o criador da ética sistêmica, defendia a escravidão grega, e assim como no início do protestantismo, e depois com o evento da filosofia de John Locke, se considerou a pobreza como má uso da liberdade natural, colocando os pobres como responsáveis por sua situação e em consequência, naturalizando sua exclusão social... O que nos assusta no entanto é pensar como a época e a cultura influência tanto os critérios da "verdade". Qual será na atualidade a posição absurda que tomamos por correta, quando pode estar completamente errada? Reflitamos!!

10/10/11 18:41  
Blogger raph disse...

Oi Silvio, quando li o comentário sabia que provavelmente era coisa do "Sir Hegel" hehe, Abs!

11/10/11 10:09  
Anonymous Anônimo disse...

Allan Kardec jamis queis defender o racismo e provocar qualquer cisma entre os povos. Quem nasce com epiderme negre tem suas razões que vão além das biológicas. Já pensou se todo mundo fosse rico? Que horror! Que lastima seria se todos fóssemos pobres? Mendingos? Os homens assim como você lêem os fatos Deus lê a intenção dos fatos. Isto para mim é tudo.

21/10/11 21:37  
Anonymous raph disse...

Pode-se até argumentar que Kardec não defendia uma "divisão" dos povos baseada em raças, castas, cor de pele, ou o que quer que seja... E nisso eu concordo plenamente.

Porém, fica muito complicado crer que Kardec não era racista - no sentido de crer na existência de "raças humanas distintas umas das outras" - em se analisando este e outros trechos de A Gênese.

E, infelizmente, tudo leva a crer que ele realmente acrediava que "raças selvagens" eram incorporadas por espíritos de "capacidade intelectual inferior". Este foi seu grande erro, embora, como saibamos, Kardec também era um homem de seu tempo...

Abs
raph

22/10/11 11:39  
Blogger Valdo Mala mas não Faia disse...

Uma vez fui a um centro de umbamba, para ver como funcionava.
Fui recepcionado com muito carinho e respeito por todos, foram atenciosos tomamos café enfim pessoas agradáveis.
Porém não vi espiritualidade onde o desejo carnal é tão evidente (falando do cigarro e bebidas).
Da mesma forma agora falando do Alan, que sendo espiritualizado deveria ter a guia espiritual para entender ou se calar diante da ignorância.
Pois independente do que ele supostamente quis dizer, o que está escrito foge à compreensão espírita e remete somente a um conhecimento humano e limitado da época.

8/9/12 08:31  
Blogger raph disse...

Pois é, Valdo, conforme o próprio Kardec disse: "os espíritos falam somente do que sabem".

E, de fato, todos nós somos espíritos :)

Abs
raph

10/9/12 12:21  
Anonymous Anônimo disse...

Pelos cometários, KARDEC errou quanto ao RACISMO porque era um homem, pelo que entendo, era ele quem escrevia, mas sempre orientado pelos ditos "espiritos de luz". Como pode então espiritos de luz que se apresentam como avançados cometerem tal erro? Quando é de DEUS, não há erro!!!!!

24/9/12 10:32  
Anonymous Anônimo disse...

Não entendo como seja possível um homem questionar a Bliblia, KADEC simplesmente não tem argumentos!!! ele recorta partes da Biblia e faz comentários sobre estar partes ou sobre palavras, não analisa o contexto. Experimentar Ler a Biblia e verão que o ensinamentos de KARDEC caem por terra!!! Se depois de lerem Biblia qeuiserem continuar no espiritismo, tudo bem.

24/9/12 10:42  
Blogger raph disse...

1 - Kardec errou e os espíritos podem errar, pois "falam apenas do que sabem". Dito isso, toda a questão do racismo se encontrar exclusivamente nos comentários de Kardec.

2 - O espírita não somente lê a bíblia, mas é ensinado a interpretá-la e questioná-la, pois esta é a única forma de se alcançar uma fé racional. O espiritismo considera somente o Novo Testamento, pois não compactua com certas ideias pagãs do Antigo Testamento (*), embora as respeite. Vale notar que o AT está cheio de ideias racistas e machistas, pois era um retrato do pensamento da época (onde havia escravidão, as mulheres "não tinham alma", etc.)

(*) Um exemplo de como o AT está estruturado em bases mitológicas ancestrais e pagãs (embora eu deva dizer que nada tenho a priori contra o paganismo em si): Quando Israel era menino

24/9/12 14:24  
Anonymous Anônimo disse...

Se pararmos pra analisar, qualquer obra religiosa contém erros como o destas obras do kardec. Acredito que é nossa respnsabilidade buscar a verdade para evoluirmos.

4/10/12 16:32  
Anonymous Anônimo disse...

QUER EVOLUIR? SIGA OS ENSINAMENTO DE JESUS CRISTO, LEIA E ENTENDA A BIBLIA!!!!! JESUS CRISTO É INFINITAMENTE MAIOR DO QUE QUALQUER ESPIRITO DE LUZ QUE OS ESPIRITAS ADOREM.

16/10/12 16:52  
Anonymous Anônimo disse...

SE OS CENTROS ESPIRITAS PREGASSEM O QUE ESTÁ ESCRITO NOS LIVROS ESPIRITAS NINGUÉM FICARIA NAQUELE LOCAL. FALAM EM DEUS MAS CONTRARIAM A BÍBLIA E REJEITAM JESUS CRISTO COMO SALVADOR. OS EVANGÉLICOS NÃO TENTAM ARGUMENTAR A DOUTRINA ESPIRITA, APENAS SEGUEM A BIBLIA. KARDEC É QUEM TENTOU REFUTAR A BIBLIA COM FALSOS ARGUMENTOS.

16/10/12 17:18  
Blogger raph disse...

1 - O espiritismo não refuta a Bíblia, mas a questiona e complementa, ou seja, a interpreta a luz de uma nova visão, conforme tantas outras religiões derivadas do cristianismo, inclusive o próprio protestantismo, que deu origem as doutrinas evangélicas como batista e adventista, etc., que são interpretações próprias da Bíblia.

2 - Não é possível uma doutrina refutar outra que ainda não existia quando foi criada. Cabe aos evangélicos apenas defender sua visão, como já bem o fazem, pois quando surgiu a Reforma, o espiritismo não havia. Dessa forma, coube a Reforma questionar e reinterpretar a visão católica, e não a espírita, o que é muito natural.

17/10/12 09:11  
Blogger Magnus Ulysses disse...

Ele era racista. Se dizia inspirado por seres divinos superiores que também eram racistas. Seres superiores que emanavam de um Criador Supremo, que também deveria ser racista para permitir que tamanhas asneiras fossem colocadas como inspiração divina. Creditar à época em que ele vivia este pensar racista é ignorar que do outro lado do Atlântico, Abraham Lincoln que não se propôs a criar seita nenhuma, propunha o fim da escravidão por considerar a diferença entre raças incompatível com a ordem natural das coisas e com o que disse Jesus. Esta macumba de branco classe média me dá asco!

20/1/14 19:42  
Blogger raph disse...

Eu sempre acho formidável quando reclamam do preconceito alheio, enquanto ignoram o próprio preconceito, ao ponto de sequer evitar inseri-lo em meio ao comentário :)

20/1/14 19:53  
Anonymous Anônimo disse...

Querem evoluir? Aprendam a escrever português.

14/3/14 09:24  
Blogger N.boy disse...

belo malabarismo com o texto, mas no fim das contas Kardec era só um racista, e esse racismo é prova suficiente pra mostrar que esses espiritos superiores só existiam na cabeça dele, monte de balela!

28/3/14 06:59  
Blogger raph disse...

Sim N.boy, da mesma forma podemos desconsiderar qualquer ideia, filosofia ou ciência de qualquer um que tenha sido dono de escravos... Precisamos reformular a civilização ocidental inteira!

Somos todos, afinal, mestres do malabarismo :)

28/3/14 09:47  
Blogger Mauro Cesar Freitas disse...


Se partíssemos do pressuposto que Kardec era racista, o que dizer então dos textos de personagens bíblicos hebreus ("povo de deus"), que não apenas tinham cunho racista, mas de fato e constantemente subjugavam outras "raças", mantendo-as como escravos? Isso sem falar no evidente machismo, poligamia, intolerância religiosa, violência contra as mulheres e crianças, canibalismo, pedofilia, incesto etc. Isso tudo na suposta palavra única e inerrante de deus (Bíblia). O que comprova que tudo fora de um contexto é muito fácil de deturpar. É evidente o que falta para maioria é instrução e discernimento. Infelizmente ainda estamos muito longe de equacionar estes problemas. Muitos textos atribuídos a Kardec são meras citações que ele fez de outros autores. Vale ainda ressaltar que o Espiritismo não sustenta e nem deve, que as conclusões de Kardec são inerrantes (espírita não pode ser um alienado ou fanático religioso). Deve-se levar em conta com maior ênfase, as mensagens de Espíritos Superiores, que ainda sim não são totalmente infalíveis, principalmente devido o nosso ainda frágil poder de compreensão sobre alguns assuntos. Na história da humanidade, todas as revelações ditas como divinas ocorreram através de nós mesmos e inquestionavelmente, somos falhos. Todavia, com a própria evolução da humanidade e tendo esta suposição como fato, consideremos a própria afirmação de Kardec: […] Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará. (KARDEC, 2007, p. 54). Ou seja, Kardec ao codificar a Doutrina Espírita oferece uma nova base de estudo bem mais moderna e plausível para época, tentando livrar-nos de crendices e superstições inócuas e até tribais. Não obstante, não atribui ao Espiritismo, menos ainda a si mesmo, a infalibilidade, tão presente de forma arrogante na maioria das religiões. Os espíritas não consideram kardec "um deus encarnado e salvador da humanidade". Ele apenas foi mais um homem na busca pela verdade sobre a vida e suas "facetas". Os questionamentos e opiniões divergentes são salutares, mas não invalida a obra do Prof. Rivail. E por fim, deve-se aos opositores à Doutrina Espírita, apenas o cuidado com a soberba e deboche, pois denotam a inferioridade moral e espiritual dos que a praticam. Saudações fraternas...

4/9/16 12:37  

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