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17.1.12

Neuroteologia, parte 4

« continuando da parte 3

O eletromagnetismo é o nome da teoria unificada desenvolvida por James Maxwell para explicar a relação entre a eletricidade e o magnetismo. A variação do fluxo magnético resulta em um campo elétrico. Já a variação de um campo elétrico gera um campo magnético. Devido a essa interdependência entre campo elétrico e campo magnético, faz sentido falar em uma única entidade chamada campo eletromagnético.

Campos de pensamento

Você pode estar achando agora que após toda essa exposição, a carreira científica do Dr. Parsinger mereceria cair num ostracismo sem volta, e principalmente: que eu mesmo concordaria com isso. Mas não, na verdade o estudo sistemático da filosofia nos lembra que em exposições de ideias, devemos criticar ou reafirmar ou complementar ideais alheias, e apenas ideias. Na ciência isso é até mesmo mais evidente, pois todo o mérito de uma teoria científica deve ficar a cargo de sua falsificabilidade – se pode ou não ser testada –, sua plausibilidade – se faz sentido crer nela baseando-se em tudo que foi descoberto até agora –, e sua simplicidade – se não traz variáveis adicionais inúteis às teorias prévias... Ou seja, tanto em filosofia quanto ciência, o que importa são as ideias, as teorias elaboradas, e não quem as elaborou – e se concordamos ou discordamos de suas crenças.

A despeito do que a mídia “especializada” fez da “neuroteologia”, ela é genuinamente uma ideia fora da caixa na ciência, e Parsinger foi um dos pioneiros dela, ainda na década de 80. Encontrar no cérebro, ou na mente, os elementos físicos que podem explicar nossa experiência mística e religiosa é uma grande ideia, uma ideia que deveria suscitar o entusiasmo tanto de céticos quanto de espiritualistas – pois nos parece que essas experiências de fato existem, e de fato fazem parte das experiências subjetivas mais intensas registradas pela história religiosa. Portanto, independentemente de existir ou não um “deus”, um “espírito santo”, a provocá-las, ou se são fruto de nossos próprios processos mentais, o estudo é válido, é interessante, é promissor!

O grande problema com a ideia inicial de Parsinger foi tentar reduzir tais experiências a efeitos aleatórios periféricos do ambiente, como se a mente fosse uma mesa de bilhar e a “experiência mística” fosse somente um campo magnético a lançar as bolas umas contra as outras, provocando algum “efeito estranho” que supostamente poderia ser explicado como algum “efeito neuronal aleatório”... Mas dá para entender porque Parsinger inicialmente pensou assim: os cientistas são reducionistas por natureza, eles pretendem esquadrinhar a natureza um pedaço de cada vez, e seria tentador supor que a mente se resume a esse tilintar neuronal, que o “eu” é uma ilusão, que a consciência provavelmente não existe da forma como acreditamos que exista, e que tanto a liberdade de escolha quanto a subjetividade são equívocos de um cérebro grandioso e complexo. Infelizmente para Parsinger, e felizmente para os grandes aventureiros do desconhecido, a Natureza não nos deixará relaxar: sua imaginação suplanta em muito a nossa, e o problema difícil da consciência ainda é um mistério que levará muito, muito tempo para ser desvelado...

A falácia do argumento ad hominem é bastante fácil de reconhecer, mas às vezes difícil de evitar... Consiste simplesmente em atacar uma pessoa em vez dos argumentos e ideias que ela expõe, usando um traço de seu caráter como pretexto para desqualificar ou ignorar o que ela diz. Pode ser usado quando não se sabe como refutar o que o oponente diz ou simplesmente por excesso de preconceito, sendo um meio muito cômodo (e desonesto) de fugir do debate. Poderíamos citar alguns exemplos: “O que Fulano diz sobre o balanço da empresa não pode ser levado a sério, afinal ele traiu a mulher”; ou “O senhor não tem autoridade para criticar nossa política educacional, pois nunca concluiu uma faculdade”; ou ainda, no caso de uma análise do capacete de Parsinger: “Este experimento é ridículo, afinal o Dr. Parsinger provavelmente é ateu e materialista, e não entende nada de Deus”... E todos eles estariam igualmente dentro dos argumentos ad hominem, já que o que importa é analisar a ideia de Parsinger no campo filosófico, e sua teoria e experimentação no campo científico. Foi somente nesse sentido que o critiquei nos artigos anteriores.

Uma outra vantagem de se pensar assim é que não somos obrigados a ignorar todo o pensamento de alguém somente porque ele tem uma ou outra teoria para a qual torcemos o nariz. No caso de Richard Dawkins, já citado e elogiado por seu ceticismo em relação ao capacete de Parsinger (ver parte 1), mas do qual discordo veementemente da sua crítica feroz as crenças alheias, posso citar sua brilhante teoria dos memes, que sob inúmeros aspectos se trata de uma teoria que aborda questões espiritualistas, e não somente científicas ou psicológicas. Do mesmo modo, há inúmeros cientistas e céticos que admiro, e que de modo algum acreditam em espíritos, mas que propuseram ideias e teorias fantásticas, ou simplesmente me auxiliaram enormemente na compreensão da ciência atual, através de sua divulgação científica. De Carl Sagan a Marcelo Gleiser, eu poderia citar inúmeros deles, cujas ideias e textos já passaram aqui pelo blog...

Hoje em dia o Dr. Parsinger acena com um experimento bem mais interessante e “humilde”, que não pretende reduzir o encontro com Deus aos campos magnéticos de um capacete, mas sim demonstrar a possibilidade de duas mentes transmitirem informação entre si não de forma “física”, mas através de campos de pensamento que teoricamente se formariam em um circuito eletromagnético fechado entre ambas. Ironicamente, este é um experimento para o qual muitos antigos entusiastas de Parsinger torceram o nariz... Desta vez, é Parsinger quem – querendo ou não – se aproximou das teorias espiritualistas, ou no mínimo das teorias parapsicológicas, como telepatia e percepção extrassensorial (PES):

“O que nós descobrimos é que se você colocar duas pessoas diferentes em câmaras separadas e distantes, e incluir um campo magnético circular entre seus cérebros [lembrem-se do capacete de deus, agora são dois deles], e então se certificar de que estão conectados ao mesmo computador e recebendo a mesma estimulação magnética, desta forma se você irradia um flash de luz no olho de uma pessoa, a sua parceira na outra câmara, recebendo apenas o campo magnético, terá alterações cerebrais compatíveis com o evento de vermos um flash de luz. Nós pensamos que isso é extraordinário porque esta pode ser a primeira demonstração macro de uma conexão quântica, o tão conhecido emaranhamento quântico. Se for verdade, então teremos uma nova forma potencial de comunicação que pode ter aplicações úteis, por exemplo, em viagens espaciais.”

Bem, esta nova pesquisa de Parsinger certamente não teve a mesma exposição na mídia do que o capacete de deus, talvez porque não tenha sido intitulada como “o incrível campo da telepatia quântica”, ou qualquer coisa do tipo, de preferência com “quântico” (ou “quântica”) incluso. Desta vez Parsinger parece mais interessado em sua ciência do que na “midiatização” da ciência, e isso por si só já demonstra que ele deve ter aprendido alguma lição nesses anos todos...

Mas, será que desta vez seu experimento poderá ser replicado com sucesso? Tudo indica que este novo experimento se baseia muito mais em informações objetivas do que subjetivas – o paciente não precisa descrever que “viu uma luz ali”, há tecnologias disponíveis para se “ver” o seu cérebro nos dizendo: “vi uma luz ali”. Isto é objetivo, isto é replicável, esta é uma experiência (e uma teoria) muito mais promissora do que a anterior. Ainda assim, o Dr. Parsinger parece bem realista acerca de sua possível aceitação na Academia:

“Eu penso que um aspecto vital acerca da ciência é que ela precisa ser mente aberta. É importante reconhecer que o objetivo principal da ciência é a busca do desconhecido. Infelizmente cientistas têm se tornado extraordinariamente orientados por seus próprios grupos fechados. Nossos críticos mais típicos não são do tipo que creem em coisas místicas. Eles são cientistas que tem uma visão bastante estreita de como o mundo é, ou deve ser.” [1]

E eu mesmo não tenho nada a acrescentar. O que há são ideias, campos de pensamento. Ideias foram à origem de todos os campos do conhecimento humano, e as ideias que deixaremos para trás serão toda a nossa herança para a ciência do amanhã – que permaneçamos abertos, portanto, a novas ideias.

***

[1] Todas as citações do Dr. Michael Parsinger foram retiradas do podcast do site Skeptiko (em inglês). A experiência descrita acima também foi recentemente noticiada no programa da Discovery Channel, Grandes Mistérios do Universo com Morgan Freeman, onde se falava sobre teorias científicas acerca do “sexto sentido”.

***

Crédito da imagem: Joe Jusko/Marvel (Uma ilustração do Professor Charles Xavier, telepata supremo da Terra - pelo menos no Universo Marvel. Agora, a grande questão é: o fato de eu ter usado essa imagem fez você desacreditar na teoria do Dr. Parsinger a priori?)

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3 comentários:

Anonymous Gustavo disse...

Muito legal essa série de Neuroteologia. Parabéns!

A série de perguntas a um ocultista e um cientista também é ótima. Já que você perguntou " o que é, afinal, a vida?", acho que ficaria bom perguntar também "o que é a morte?".

UM abraço.

19/1/12 14:29  
Blogger raph disse...

Oi Gustavo, obrigado...

Quanto a série com o Del Debbio e o Mori, estou tentando bolar perguntas que possam ser desenvolvidas mais profundamente por ambos... Embora perguntar diretamente "o que é a morte?" possa ser interessante, acho que não seria tão interessante quanto outras perguntas (serão apenas 7), mas dependendo das próximas respostas até poderia ser a 7a pergunta (eu pergunto mas não faço ideia do que irão responder exatamente).

Abs
raph

19/1/12 15:20  
Blogger Aislan Fernandes disse...

Gostei da série. Conheci agora.

14/6/14 08:32  

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