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21.3.13

Campos de informação

Eis um vídeo magnífico. Contemple isto por 4 minutos, e a Natureza certamente lhe parecerá ainda mais misteriosa do que antes:

Nesta bela revoada de pássaros em sincronia, podemos ver o que acontece quando um grupo consideravelmente grande de animais se movem de forma tão organizada, que chegam a se comportar como um só corpo. Isto evidencia que deve haver algo que faz a conexão e a unificação de todos os animais do grupo, de forma a que cada um deles se sincronize de acordo com o restante. Todos os pássaros são "governados" de tal forma que a velocidade e a direção em que voam são tão sincronizadas que nenhum deles se choca ou se perde do grupo. Isto só pode ser explicado por algum tipo de "consciência coletiva" do grupo, que é capaz de influenciar a todos, simultaneamente, e de forma unificada.

Segundo o biólogo britânico Rupert Sheldrake, esta sincronia pode ser explicada através dos campos mórficos ou morfogenéticos, espécies de campos hipotéticos de informação, que preenchem o universo de forma análoga ao badalado campo de Higgs (formado pelos bósons de Higgs, as "partículas de Deus", que conferem massa as demais partículas, de acordo com o Modelo Padrão). Sheldrake também os compara aos campos eletromagnéticos. Vejamos um breve resumo desta teoria:

Átomos, moléculas, cristais, organelas, células, tecidos, órgãos, organismos, sociedades, ecossistemas, sistemas planetários, sistemas solares, galáxias: cada uma dessas entidades estaria associada a um campo mórfico específico. São eles que fazem com que um sistema seja um sistema, isto é, uma totalidade articulada e não um mero ajuntamento de partes.

Sua atuação é semelhante à dos campos eletromagnéticos. Quando colocamos uma folha de papel sobre um ímã e espalhamos pó de ferro em cima dela, os grânulos metálicos distribuem-se ao longo de linhas geometricamente precisas. Isso acontece porque o campo magnético do ímã afeta toda a região à sua volta. Não podemos percebê-lo diretamente, mas somos capazes de detectar sua presença por meio do efeito que ele produz, direcionando as partículas de ferro. De modo parecido, os campos mórficos distribuem-se imperceptivelmente pelo espaço-tempo, conectando todos os sistemas individuais que a eles estão associados.

A analogia termina aqui, porém. Porque, ao contrário dos campos físicos, os campos mórficos de Sheldrake não envolvem transmissão de energia. Por isso, sua intensidade não decai com o quadrado da distância, como ocorre, por exemplo, com os campos gravitacional e eletromagnético. O que se transmite através deles é pura informação.

Neste trecho de um episódio da série "Grandes mistérios do universo", do Discovery Channel, Sheldrake fala mais sobre o assunto, e ainda postula que os campos mórficos podem ser a maneira pela qual exercemos o chamado "sexto sentido":

Veja também:

» Cardumes de peixes nadando em sincronia (vídeo)

» O pensamento analógico

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Crédito da foto: Michael Buholzer/Reuters

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21.11.12

Abrindo portas na mente, parte 1

Conto pessoal, da série “Festa estranha”, com depoimentos de Rafael Arrais acerca de suas experiências espiritualistas. Baseado (ou não) em fatos reais. Os nomes usados são fictícios (exceto para pessoas públicas).

Até hoje me lembro de quando finalmente me dei conta do que havia se passado realmente. Estava então no meio da viagem entre Copacabana e a Gávea, onde morava, no Rio de Janeiro, e meditando sobre aquilo tudo. Até aquele momento, tudo o que se passou na minha primeira regressão a vidas passadas, nesta vida, havia sido assimilado como algo corriqueiro – não havia nada para se temer, nem duvidar, ou causar qualquer espanto... Foi ali, naquele ônibus, que minha razão finalmente alcançou e abarcou toda aquela experiência, tentando racionalizar o que talvez estivesse para sempre além da racionalização, e da linguagem.

Regredir, viajar pelos portais do tempo e do espaço, certamente foi minha maior experiência espiritual, e a mais estranha das festas estranhas. Até então, havia relutado em aborda-la aqui, mas acredito que esta série não estaria completa sem este relato [1].

Não é mesmo recomendado regredir sem ter uma excelente razão, e eu talvez tivesse as minhas... Havia finalmente concordado em fazer terapia, pela insistência de meu pai, que sempre me conheceu muito bem. Estava há cerca de um mês gripado, e não me lembro de ter ficado doente por tanto tempo em outra fase desta vida [2]. Alguma coisa, de fato, estava errada comigo, mas nem eu mesmo sabia o que. Aceitei, dessa forma, iniciar uma terapia com a Kátia, uma terapeuta holística e espiritualista, que se não me engano me foi indicada por alguém da minha família. Eu só não imaginava que já iria passar por uma experiência de regressão de memória a vidas passadas já na primeira sessão [3]...

Antes de prosseguir, gostaria de passar brevemente sobre o problema psicológico que eu acreditava estar tratando, e o problema que eu tinha realmente. Não irei entrar em maiores detalhes, pois este relato não é sobre mim, e sim sobre a experiência em si:

Muito bem, em suma, eu tinha um problema que hoje costumo chamar de “complexo de santo”. Acreditava que devia me sacrificar para ser um “menino santinho”, sem namorar, sem muita vida boêmia (em pleno Rio de Janeiro!), e me dedicando com afinco a espiritualidade (foi pouco antes desta época que comecei a escrever sobe o tema [4]). No final das contas, e após as regressões, descobri duas coisas que guardei fundo na memória e na alma, até hoje: (a) Que na verdade meu “problema” com namoros advinha de traumas antigos, de outras vidas, com certas falhas minhas na formação de famílias e cuidado com meus filhos; e (b) Que em realidade toda aquela história de “ser santinho” era somente o meu ego tentando construir para si mesmo um “patamar de santidade” – em outras palavras, estava querendo “ser santinho” por mim, e não pelos outros. Essas lições foram (espero) assimiladas, mas são problemas que, decerto, ainda permearão esta e muitas outras vidas.

Agora podemos voltar à terapia em si. O consultório da Dra. Kátia parecia bastante comum, com um sofá para ela, um sofá maior, ou divã, para o paciente se deitar confortavelmente, um tapete felpudo, e baixa luminosidade. Devo dizer que a experiência em si foi tão impactante, que hoje mal me lembro das feições da Kátia, e por isso nem vou descrevê-las aqui [5].

O procedimento padrão do início da regressão era uma espécie de meditação “guiada” pela terapeuta, que me dava indicações sobre o que procurar imaginar, tentando “destravar” minha mente e alça-la em estados alterados de consciência. Uma das coisas extraordinárias da experiência é que eu permaneci consciente o tempo todo, embora certamente não num estado normal, desses do dia a dia. Somente muitos anos depois dessa experiência que fui chegar a estados similares, quando comecei a desenvolver minha mediunidade. Infelizmente, não tenho mais contato com a Kátia, e não faço ideia de qual “ramo” ou “técnica” terapêutica ela utilizou.

Mas fato é que funcionou muito bem... Após me imaginar voando pelos céus num grande balão, e deixando o solo cada vez mais distante de mim, entrei nalgum estado estranho, onde meu corpo inteiro parecia “ondular”, quase como se fosse feito de luz, e não mais de átomos com massa. Foi então que as lembranças iniciaram. Isto aqui faz parte de algumas anotações que fiz na época, dias depois das regressões:

Assim que ela indicou a idealização de um longo corredor de diversas portas, e me mandou abrir uma delas, eu comecei a regredir... Após um certo clarão de luz, me vi num monte, a grama era bem verde e a frente havia uma depressão que revelava uma extenso rio e algumas árvores. Sempre sendo guiado pelas perguntas da terapeuta, vi perto do rio uma pessoa, provavelmente um guia espiritual, que me esperava. Eu sabia que ele tinha a resposta que eu procurava, mas eu não podia andar até lá porque alguma coisa no meu peito me impedia, uma dor física mesmo, um mal estar tremendo que me fixava onde estava. Mesmo assim pude ver que usava sandálias de couro amarradas até a canela e uma túnica de cinza bem claro. Meu cabelo era castanho e dava até os ombros. Devia ter por volta de 30 anos... De resto não consegui ver mais nada.

O que acho interessante complementar aqui, sobre esta experiência inicial: (a) As lembranças eram lembranças mesmo, e não visões, ou algo como vídeo ou trechos de cinema. O que conseguia observar, era através dos meus próprios olhos (na época, sabe-se lá qual), e isto significa que não podia me ver realmente, ou seja: via apenas parte do meu vestuário, as mechas de cabelo que caiam sobre a face, meus pés e mãos, etc; (b) O registro desse tipo de memória é icônico, simbólico [6], e me parece que as lembranças mais profundas e facilmente acessáveis são aquelas revestidas de alta carga emocional – sejam lembranças boas, felizes, ou traumáticas; (c) Aquele que achei ser meu guia espiritual era, em realidade, eu mesmo, ou melhor, o meu Eu Superior, aquela entidade que parece ser capaz de lembrar perfeitamente de todas as minhas vidas e, portanto, de todas as minhas escolhas, boas ou ruins. Até hoje, se me lembro bem, esta “sensação” que me impedia de me aproximar desta entidade foi, em realidade, o maior medo que já senti nesta vida. Mas só fui compreender isso tudo anos depois, quando consegui me aproximar um pouco mais deste Eu divino [7].

Então “pulei” a uma época em que devia ter uns 8 para 10 anos...

» Na continuação, um escriba na antiga Atenas...

***

[1] Em todo caso, devo revelar muito pouco acerca de minhas vidas passadas, já que devem (ou deveriam) interessar somente a mim. Este relato está totalmente focado na experiência de regressão em si.

[2] E nunca mais fiquei mais do que alguns dias gripado, após a regressão.

[3] Decerto não seria algo indicado, mas talvez a Kátia tenha “sentido” que seria algo seguro naquele momento, e no contexto do meu tipo de problema psicológico (falo dele na sequencia do texto).

[4] Ver o conto O mensageiro dos céus, para ter uma ideia de como tudo começou...

[5] Muito do que experienciei nas regressões foi lembrado perfeitamente por muitos anos, mas nalgum momento comecei a esquecer, aos poucos, de fatos e imagens isoladas. Hoje este relato só é possível por que deixei algumas coisas anotadas na época, em 1999 (alguns trechos do texto acima foram retirados diretamente dessas anotações, geralmente estarão em itálico).

[6] Sir Charles Scott Sherrington traz uma definição muito precisa dessa questão, em seu livro Man on his nature, onde ele imagina a mente como um “tear encantado” a tecer padrões mutáveis porém sempre significativos – tecendo padrões de sentido: “Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais. [...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. ‘O registro cerebral’ de tudo – tudo o que é vivo – tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a ‘arte’ – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação.”

[7] Alguns ocultistas chamam a isto de S.A.G.

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Crédito da imagem: Paul Anderson/Images.com/Corbis

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29.10.12

O homem que aprendeu a sentir a luz

Alexander Levit é um jovem russo que, a despeito de ter nascido praticamente cego, aprendeu a "ver com a mente". Este "super humano", analisado pelo já célebre programa apresentado por Stan Lee no canal History, pode ser um dos casos paranormais mais impressionantes e consistentes da história. Mesmo em total escuridão, e com venda de couro grosso nos olhos, Levit consegue achar objetos (vasos em pedestais) e destruí-los com um golpe de taco de baseball. Mais impressionante ainda, a meu ver, é o fato de ter quase apanhado no ar um objeto que foi arremessado ao seu lado, sem aviso algum, enquanto ele estava vendado.

Como explicar este "supersentido"? Ao que me parece, para além das informações filtradas por nossa consciência, captadas pelos sentidos conhecidos, o mundo está constantemente nos bombardeando com muitas outras informações... Dessa forma, a luz que Levit percebe sem usar os olhos, pode ser a mesma luz que somente a tecnologia moderna consegue detectar, por estar além do espectro visível; Mas, pode ser também alguma energia extra, não detectada, escura. Quem vai saber?


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11.9.12

Arquivo Especial: o que a ciência (ainda) não explica

Neste Arquivo Especial falaremos sobre o que a ciência não explica e nem comprova fraude:

Há mais de uma década, cientistas da Universidade de Princeton, nos EUA, capitaneiam um curioso experimento que envolve a análise dos dados de geradores aleatórios de números espalhados por dúzias de locais ao redor do globo. O Projeto Consciência Global basicamente analisa os padrões de máquinas que jogam, virtualmente, milhares de moedas por segundo, e anotam o resultado: “cara” ou “coroa” (em bits, “0” ou “1”).

Os pesquisadores postulam que há uma relação direta entre eventos globais, como a morte da princesa Diana ou o tsunami da Indonésia, e os “desvios de padrão” ocorridos em tais geradores aleatórios. A despeito disto, eles não fazem muita ideia do porque isso parece ocorrer. Na realidade, somente no atentado de 11/9 nos EUA é que obtiveram um resultado “sobrenatural”: um desvio que se estendeu desde horas antes do primeiro avião atingir uma das torres de Nova York a até cerca de 72 horas depois...

Os céticos elogiam a metodologia do experimento, “realmente científico”, mas sentem-se confortáveis quanto aos resultados: há sempre a explicação de que em padrões aleatórios, há uma chance de “coisas assim ocorrerem, mesmo que as chances sejam de um em um milhão”. Mas, ainda que de fato o “grande desvio” de 11/9 se repita próximo de outro acontecimento de grande atenção da mídia global, há sempre a questão: “e daí, e o que isso prova?”. Este tipo de experimento agrada a Academia, pois não envolve diretamente explicações espiritualistas, e mesmo as explicações paranormais são tão vagas, que não despertam grandes preocupações nos céticos com certo asco do espiritualismo.

Há muitos céticos que negam uma hipótese espiritualista a priori. Eles afirmam (com razão) que afirmações extraordinárias, como a existência de espíritos, requerem comprovações extraordinárias, provas cabais, em laboratório, certificadas pelo “papado acadêmico”. Mas isso, como bem sabem os espiritualistas que ouviram Kardec, pode demorar a ocorrer – afinal não se experimenta com espíritos como se experimenta com pilhas voltaicas.

De fato, talvez nunca ocorra, talvez espíritos não existam afinal... No entanto, engana-se o cético que crê que a Academia têm comprovado que todas as alegações espiritualistas são fraudes ou devaneios. Não estou falando da prova de que espíritos não existem, pois isto é basicamente impossível: provar que algo não existe. Mas falo, isso sim, de diversos fenômenos paranormais relacionados à espiritualidade que não foram comprovados como fraude, e tampouco explicados pela ciência. Bem vindos ao reino da dúvida, só que agora, a dúvida de verdade:

Artigos:

Caso Parmod 05.04.11
Nesta série de artigos falamos sobre as pesquisas de uma vida inteira do parapsicólogo Ian Stevensson, que graças à herança deixada pelo fundador da Xerox, pôde rodar o mundo estudando os casos de crianças que lembram vidas passadas. Sua metodologia é tão meticulosa que até mesmo Carl Sagan citou seu trabalho em O mundo assombrado pelos demônios – embora Sagan acreditasse que devesse haver “outro tipo de explicação para os fenômenos”. O que você diria de crianças que lembram do endereço e de detalhes familiares íntimos de parentes de supostas vidas passadas? Qual seria a explicação? Fraude? Erro de metodologia de pesquisa? Memes? Inconsciente coletivo? Reencarnação? Todas estas hipóteses continuam muito válidas até hoje, e há inúmeros parapsicólogos seguindo com a pesquisa de Stevensson.

Reflexões sobre a consciência 16.04.09
Os dualistas acreditam na separação mente-corpo como duas entidades separadas. Na realidade essa separação, com o avanço da neurologia, hoje é compreendida como mente (ou consciência) e cérebro. Apesar da ciência ter conquistado avanços no estudo da mente humana, ao ponto de conseguir decodificar sinais motores e fazer macacos "pilotarem" membros robóticos a meio mundo de distância, ainda não se sabe onde está a "usina cerebral", o que exatamente ativa as correntes elétricas em questões mais complexas como decisões morais ou emoções como o amor. Este é o famoso problema difícil da consciência, mas engana-se quem pensa que todos os neurologistas sejam contrários a noção do dualismo. Nesta série de artigos falamos mais sobre este tema.

Quase morte 03.08.10
Mais uma série de artigos, desta vez focada nas experiências de morte, ou de quase morte. Tanto crianças como idosos, tanto ateus quanto crentes, têm relatado experiências muito parecidas que supostamente ocorreram enquanto seus cérebros estavam em “atividade zero”, normalmente enquanto estavam passando por cirurgias complexas em hospitais, quando “morreram, e depois retornaram”. O Dr. Sam Parnia é um neurologista que tem dedicado a vida ao estudo genuinamente científico desse tipo de fenômeno, tão conhecido de qualquer cirurgião geral (que “oficialmente” muito pouco falam sobre o assunto).

Um médium notável 09.04.10
Existam ou não espíritos, a ciência parece um tanto distante de chegar a uma explicação plausível para a fenomenal produção literária do maior médium brasileiro, que psicografou sobre assuntos tão diversos quanto a história da época de Cristo e a física moderna, em estilos literários e poéticos tão variados que um dia Monteiro Lobato declarou: “Se Chico Xavier produziu tudo aquilo por conta própria, merece quantas cadeiras quiser na Academia Brasileira de Letras”. Como explicar? Criptomnésia (esquecer-se de algo que já sabia, e escrever como se fosse vindo de um espírito)? Mas como ele teria psicografado livros junto com Waldo Vieira, numa parceria em que um “trazia” os capítulos pares, enquanto outro “trazia” os ímpares, separados por cidades de distância? Vale a sua dúvida...

João de Deus: charlatão? 19.02.09
Operando à décadas em Abadiânia, valendo-se (literalmente) de uma faca de cozinha não esterilizada, o médium João de Deus tem tratado de pacientes “desenganados” pelos médicos ao redor do globo, sendo hoje famoso no mundo todo. Neste artigo eu comparo a suposta “análise embasada” do desmistificador James Randi (que nunca visitou Abadiânia, e apenas “viu um vídeo” de João operando) com o estudo presencial da Associação Médica Brasileira acerca das cirurgias. E a AMB atesta: elas são reais, embora não esteja comprovada nenhuma relação com a cura dos males em si. O que se passa, afinal, no interior de Goiás?

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Vídeos e documentários:

Alma sobrevivente 17.06.09
Há muitos críticos ocidentais que afiram que os estudos de crianças que lembram vidas passadas se resumem a regiões do globo onde a crença na reencarnação é fortemente arraigada. Isto não é verdade, pois o próprio Ian Stevensson estudou casos na Europa e em muitos outros lugares onde a maioria das pessoas não crê em reencarnação. Em todo caso, parece que o garoto americano, James Leininger, filho de pais que mal tinham ouvido falar no termo “reencarnação”, nos serve como um belo exemplo de caso sugestivo. E ele não se lembrou apenas dos parentes ou dos companheiros que lutaram ao seu lado na Segunda Guerra de uma outra vida, ele foi até o local onde seu avião havia sido abatido, e chorou... Pena que Stevensson já não vivia mais para ver tal cena.

Um caso sugestivo de psicopictografia 20.09.11
Neste trecho do programa da Xuxa, na TV Globo, temos a história de Lívio Barbosa, médium que afirma pintar com o “auxílio” de espíritos. Há demonstrações de pinturas mediúnicas e, no texto do artigo, trazemos o resumo de algumas das possíveis explicações para este tipo de fenômeno: criptomnésia (conforme no caso de Chico), inconsciente coletivo, imatéria (um conceito de Alan Moore) e espiritualismo.

Os mistérios de Abadiânia 19.08.12
João de Deus opera um tratamento que pode resultar em cura? É exatamente esta pergunta que o documentário Cura: Milagres e Mistérios de João de Deus procura responder. Ganhador de 3 prêmios no festival internacional de Mônaco, em 2008, é de longe o documentário mais bem produzido acerca do médium de Abadiânia. Ainda que não creiamos que espíritos estão a operar e curar valendo-se das mãos de João, o documentário é tocante em seu lado humano.

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» Veja também: Espiritualismo: o que a ciência pode estudar

Crédito da imagem: James Sebor (I am we)

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17.1.12

Neuroteologia, parte 4

« continuando da parte 3

O eletromagnetismo é o nome da teoria unificada desenvolvida por James Maxwell para explicar a relação entre a eletricidade e o magnetismo. A variação do fluxo magnético resulta em um campo elétrico. Já a variação de um campo elétrico gera um campo magnético. Devido a essa interdependência entre campo elétrico e campo magnético, faz sentido falar em uma única entidade chamada campo eletromagnético.

Campos de pensamento

Você pode estar achando agora que após toda essa exposição, a carreira científica do Dr. Parsinger mereceria cair num ostracismo sem volta, e principalmente: que eu mesmo concordaria com isso. Mas não, na verdade o estudo sistemático da filosofia nos lembra que em exposições de ideias, devemos criticar ou reafirmar ou complementar ideais alheias, e apenas ideias. Na ciência isso é até mesmo mais evidente, pois todo o mérito de uma teoria científica deve ficar a cargo de sua falsificabilidade – se pode ou não ser testada –, sua plausibilidade – se faz sentido crer nela baseando-se em tudo que foi descoberto até agora –, e sua simplicidade – se não traz variáveis adicionais inúteis às teorias prévias... Ou seja, tanto em filosofia quanto ciência, o que importa são as ideias, as teorias elaboradas, e não quem as elaborou – e se concordamos ou discordamos de suas crenças.

A despeito do que a mídia “especializada” fez da “neuroteologia”, ela é genuinamente uma ideia fora da caixa na ciência, e Parsinger foi um dos pioneiros dela, ainda na década de 80. Encontrar no cérebro, ou na mente, os elementos físicos que podem explicar nossa experiência mística e religiosa é uma grande ideia, uma ideia que deveria suscitar o entusiasmo tanto de céticos quanto de espiritualistas – pois nos parece que essas experiências de fato existem, e de fato fazem parte das experiências subjetivas mais intensas registradas pela história religiosa. Portanto, independentemente de existir ou não um “deus”, um “espírito santo”, a provocá-las, ou se são fruto de nossos próprios processos mentais, o estudo é válido, é interessante, é promissor!

O grande problema com a ideia inicial de Parsinger foi tentar reduzir tais experiências a efeitos aleatórios periféricos do ambiente, como se a mente fosse uma mesa de bilhar e a “experiência mística” fosse somente um campo magnético a lançar as bolas umas contra as outras, provocando algum “efeito estranho” que supostamente poderia ser explicado como algum “efeito neuronal aleatório”... Mas dá para entender porque Parsinger inicialmente pensou assim: os cientistas são reducionistas por natureza, eles pretendem esquadrinhar a natureza um pedaço de cada vez, e seria tentador supor que a mente se resume a esse tilintar neuronal, que o “eu” é uma ilusão, que a consciência provavelmente não existe da forma como acreditamos que exista, e que tanto a liberdade de escolha quanto a subjetividade são equívocos de um cérebro grandioso e complexo. Infelizmente para Parsinger, e felizmente para os grandes aventureiros do desconhecido, a Natureza não nos deixará relaxar: sua imaginação suplanta em muito a nossa, e o problema difícil da consciência ainda é um mistério que levará muito, muito tempo para ser desvelado...

A falácia do argumento ad hominem é bastante fácil de reconhecer, mas às vezes difícil de evitar... Consiste simplesmente em atacar uma pessoa em vez dos argumentos e ideias que ela expõe, usando um traço de seu caráter como pretexto para desqualificar ou ignorar o que ela diz. Pode ser usado quando não se sabe como refutar o que o oponente diz ou simplesmente por excesso de preconceito, sendo um meio muito cômodo (e desonesto) de fugir do debate. Poderíamos citar alguns exemplos: “O que Fulano diz sobre o balanço da empresa não pode ser levado a sério, afinal ele traiu a mulher”; ou “O senhor não tem autoridade para criticar nossa política educacional, pois nunca concluiu uma faculdade”; ou ainda, no caso de uma análise do capacete de Parsinger: “Este experimento é ridículo, afinal o Dr. Parsinger provavelmente é ateu e materialista, e não entende nada de Deus”... E todos eles estariam igualmente dentro dos argumentos ad hominem, já que o que importa é analisar a ideia de Parsinger no campo filosófico, e sua teoria e experimentação no campo científico. Foi somente nesse sentido que o critiquei nos artigos anteriores.

Uma outra vantagem de se pensar assim é que não somos obrigados a ignorar todo o pensamento de alguém somente porque ele tem uma ou outra teoria para a qual torcemos o nariz. No caso de Richard Dawkins, já citado e elogiado por seu ceticismo em relação ao capacete de Parsinger (ver parte 1), mas do qual discordo veementemente da sua crítica feroz as crenças alheias, posso citar sua brilhante teoria dos memes, que sob inúmeros aspectos se trata de uma teoria que aborda questões espiritualistas, e não somente científicas ou psicológicas. Do mesmo modo, há inúmeros cientistas e céticos que admiro, e que de modo algum acreditam em espíritos, mas que propuseram ideias e teorias fantásticas, ou simplesmente me auxiliaram enormemente na compreensão da ciência atual, através de sua divulgação científica. De Carl Sagan a Marcelo Gleiser, eu poderia citar inúmeros deles, cujas ideias e textos já passaram aqui pelo blog...

Hoje em dia o Dr. Parsinger acena com um experimento bem mais interessante e “humilde”, que não pretende reduzir o encontro com Deus aos campos magnéticos de um capacete, mas sim demonstrar a possibilidade de duas mentes transmitirem informação entre si não de forma “física”, mas através de campos de pensamento que teoricamente se formariam em um circuito eletromagnético fechado entre ambas. Ironicamente, este é um experimento para o qual muitos antigos entusiastas de Parsinger torceram o nariz... Desta vez, é Parsinger quem – querendo ou não – se aproximou das teorias espiritualistas, ou no mínimo das teorias parapsicológicas, como telepatia e percepção extrassensorial (PES):

“O que nós descobrimos é que se você colocar duas pessoas diferentes em câmaras separadas e distantes, e incluir um campo magnético circular entre seus cérebros [lembrem-se do capacete de deus, agora são dois deles], e então se certificar de que estão conectados ao mesmo computador e recebendo a mesma estimulação magnética, desta forma se você irradia um flash de luz no olho de uma pessoa, a sua parceira na outra câmara, recebendo apenas o campo magnético, terá alterações cerebrais compatíveis com o evento de vermos um flash de luz. Nós pensamos que isso é extraordinário porque esta pode ser a primeira demonstração macro de uma conexão quântica, o tão conhecido emaranhamento quântico. Se for verdade, então teremos uma nova forma potencial de comunicação que pode ter aplicações úteis, por exemplo, em viagens espaciais.”

Bem, esta nova pesquisa de Parsinger certamente não teve a mesma exposição na mídia do que o capacete de deus, talvez porque não tenha sido intitulada como “o incrível campo da telepatia quântica”, ou qualquer coisa do tipo, de preferência com “quântico” (ou “quântica”) incluso. Desta vez Parsinger parece mais interessado em sua ciência do que na “midiatização” da ciência, e isso por si só já demonstra que ele deve ter aprendido alguma lição nesses anos todos...

Mas, será que desta vez seu experimento poderá ser replicado com sucesso? Tudo indica que este novo experimento se baseia muito mais em informações objetivas do que subjetivas – o paciente não precisa descrever que “viu uma luz ali”, há tecnologias disponíveis para se “ver” o seu cérebro nos dizendo: “vi uma luz ali”. Isto é objetivo, isto é replicável, esta é uma experiência (e uma teoria) muito mais promissora do que a anterior. Ainda assim, o Dr. Parsinger parece bem realista acerca de sua possível aceitação na Academia:

“Eu penso que um aspecto vital acerca da ciência é que ela precisa ser mente aberta. É importante reconhecer que o objetivo principal da ciência é a busca do desconhecido. Infelizmente cientistas têm se tornado extraordinariamente orientados por seus próprios grupos fechados. Nossos críticos mais típicos não são do tipo que creem em coisas místicas. Eles são cientistas que tem uma visão bastante estreita de como o mundo é, ou deve ser.” [1]

E eu mesmo não tenho nada a acrescentar. O que há são ideias, campos de pensamento. Ideias foram à origem de todos os campos do conhecimento humano, e as ideias que deixaremos para trás serão toda a nossa herança para a ciência do amanhã – que permaneçamos abertos, portanto, a novas ideias.

***

[1] Todas as citações do Dr. Michael Parsinger foram retiradas do podcast do site Skeptiko (em inglês). A experiência descrita acima também foi recentemente noticiada no programa da Discovery Channel, Grandes Mistérios do Universo com Morgan Freeman, onde se falava sobre teorias científicas acerca do “sexto sentido”.

***

Crédito da imagem: Joe Jusko/Marvel (Uma ilustração do Professor Charles Xavier, telepata supremo da Terra - pelo menos no Universo Marvel. Agora, a grande questão é: o fato de eu ter usado essa imagem fez você desacreditar na teoria do Dr. Parsinger a priori?)

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13.1.12

Neuroteologia, parte 3

« continuando da parte 2

A parapsicologia (“além da psique”) é o estudo dos fenômenos paranormais, que em sua imensa maioria não são compreendidos e tampouco aceitos pela Academia. A maioria das “pesquisas psi” se concentram na possibilidade da mente poder trocar informações com outras mentes fora do corpo, ou até mesmo de afetar fisicamente a natureza a volta.

Além do cérebro

A despeito do ceticismo unidirecional de uma parcela dos cientistas, sobretudo do chamado “mundo acadêmico”, há muitas décadas existem inúmeros estudos genuinamente científicos que tratam das mais diversas teorias suscitadas pela espiritualidade. O fato de um ou vários destes estudos comprovar alguma coisa experimentalmente não necessariamente significará que “existe um velho barbudo senhor dos exércitos flutuando no céu”, nem tampouco que “nossa alma é imortal e se formos bonzinhos ganharemos uma fazenda nas nuvens após a morte”, mas esta parecer ser, infelizmente, a lógica dos céticos unidirecionais que se escandalizam com a possibilidade de tais pesquisas serem levadas mais a sério pela Academia.

Entretanto, é exatamente o que tem ocorrido... Uma outra crítica costumeira ao capacete de Parsinger é que ele não incorporou em seus experimentos as novas tecnologias de “escaneamento” cerebral, como o eletroencefalograma (EEG) que mede a atividade elétrica neuronal ou a ressonância magnética por imagem cerebral (FMRI), capaz de medir o fluxo sanguíneo e efetivamente “ver o cérebro em ação”. A maior vantagem do uso dessas tecnologias é que podemos ter uma “materialidade” objetiva da atividade cerebral dos pacientes, a despeito de seus relatos subjetivos, ou até mesmo de seus “devaneios” ou, quem sabe, apenas mentiras mesmo.

Porque não medir, por exemplo, a atividade cerebral de monges budistas durante sua meditação? É exatamente esse o “passatempo” predileto do Dr. Zoran Josipovic, da Universidade de Nova Iorque, nos últimos tempos... O objeto das pesquisas de Zoran é principalmente a sensação de “unicidade” atingida pelos monges e praticantes mais aprofundados de meditação. Segundo as conclusões prévias de sua pesquisa, ainda em andamento, as técnicas de “dobrar a mente sobre si mesma” dos monges são precisamente o que desprende a sensação de “unificação” do ser com o todo, comumente conhecida pelos religiosos e místicos como uma experiência de unicidade, não-dual, que se dissipa após a meditação. Este é apenas um de diversos exemplos de cientistas que tratam as experiências religiosas com maior seriedade, reconhecendo sua complexidade, e se abstendo se tentar reduzi-las e “efeitos de campos magnéticos, que nos fazem encontrar Deus”... Até mesmo a definição de “encontro com Deus” de Zoran, e dos budistas, já é consideravelmente mais profunda do que a do Dr. Parsinger.

Enquanto aqui no Brasil muitos céticos acham uma “total futilidade” estudos com “escaneamento” cerebral de médiuns em atividade, no hemisfério norte a história da relação entre ciência e espiritualidade é outra: Embora tenha despertado indignação semelhante de céticos unidirecionais (mas não de um cético de verdade, como Carl Sagan), o parapsicólogo Ian Stevenson teve a sorte de ter tido toda uma vida de pesquisas “além do cérebro” custeadas por um amigo abastado, o inventor da fotocopiadora – Chester Carlson. Graças e ele Stevenson pôde viajar boa parte do mundo atrás de casos sugestivos de crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas. Seus relatos detalhadíssimos, que se iniciaram no célebre livro intitulado 20 Casos Sugestivos de Reencarnação, publicado em 1974, se estenderam por décadas [1].

Em 2007, quando morreu, ele havia documentado meticulosamente quase 3 mil casos, a maioria na Ásia. Cerca de 700 dessas crianças, geralmente com menos de 5 anos, tinham recordações tão claras de supostas vidas anteriores que se lembravam de seu antigo nome, do endereço onde tinham vivido, do nome de parentes, e de detalhes muito específicos, porém triviais, de destas vidas – detalhes que Stevenson muitas vezes deixa claro que não poderiam se lembrar, ou conhecer, por “vias usuais”... No entanto, uma das críticas mais costumeiras acerca de seu extenso trabalho é que a grande maioria dos casos ocorreu em países onde a crença na reencarnação é comum. Apesar de isso de forma alguma negar a totalidade da “materialidade” dos registros de Stevenson, para muitos céticos e leigos pareceu um argumento (na verdade, mais uma falácia) forte o suficiente para que classificassem a pesquisa de uma vida toda como pseudociência.

Felizmente, outros parapsicólogos continuaram o trabalho de Stevenson, como o Dr. Jim Tucker, da Universidade de Virgínia, e Carol Bowman. Autora de livros sobre o assunto, Carol teve a oportunidade de acompanhar de perto um dos casos mais “fortes” de reencarnação ocorrido no Ocidente: O caso do garoto James Leininger, filho de pais que não acreditavam na reencarnação, mas foram obrigados a mudar sua crença devido aos detalhes assombrosos citados por seu filho desde ainda muito jovem, quando afirmava ter sido um piloto americano da Segunda Guerra Mundial, que teve seu avião abatido no Japão (esta história é tão impressionante que o garoto chegou a identificar sozinho o local onde seu avião havia caído, quando viajou pela primeira vez ao local da tragédia de uma suposta vida passada – e este momento foi filmado em um documentário) [2]. A despeito da posterior “midiatização” do caso de Leininger, de início tudo foi registrado apenas por seu pai (que por anos permaneceu cético), e era inteiramente desconhecido da mídia “especializada” (claro, a crítica vale tanto lá quanto cá).

Estudos como estes, apesar de trazerem “materialidade” muito mais “paupável” do que a do capacete de deus, são efusivamente ignorados pela Academia, que geralmente se limita a informar “que não provam nada”... Ora, mas é claro que não provam nada, assim como o capacete de deus tampouco prova, assim como a Teoria das Cordas, o materialismo ou o dualismo são apenas teorias. Embora sejam paupáveis, tais estudos não chegam nem perto do número de evidências exigido para mudar o paradigma do pensamento científico mundial, tal como ocorreu com a Teoria de Darwin-Wallace... Não estou querendo dizer que provam algo, apenas que parecem mais paupáveis do que o “conto do capacete”; E, no entanto, o capacete de deus mereceu dúzias de holofotes da mídia “especializada”, enquanto que o estudo de Stvenson (e seus continuadores) até hoje se limitou a receber uma luz de 60 watts – ainda assim, talvez porque Sagan tenha se lembrado de citá-lo em sua “bíblia do ceticismo”, O mundo assombrado pelos demônios.

É claro que ninguém é 100% cético, a questão filosófica de que nada garante que o que a mente percebe do mundo é realidade ou ilusão, ou mesmo a questão científica de que nada garante que a gravidade continuará a funcionar, estável, pelas próximas 24 horas, são apenas questões que “pensadores” fazem dentro das quatro paredes de suas salas acadêmicas (ou talvez em algum pub, regados à cerveja), mas que não são levadas a cabo no restante das horas de seus dias... Mas o ceticismo deve ao menos tentar ser multidirecional, apostar igualmente em teorias monistas ou dualistas, reducionistas ou metafísicas, espiritualistas ou materialistas, afinal a ciência não é e nunca foi ideologia – e esperamos que não se torne uma no futuro.

Nos estudos de experiências de morte, ou quase morte (EQMs), do Dr. Sam Parnia [3], há relatos de experiências “estranhas” ocorridas supostamente enquanto o cérebro dos pacientes estava em “atividade zero”. Tais pacientes eram crianças, jovens e idosos; eram crentes e descrentes, cientistas e não cientistas, espiritualistas e materialistas, etc. Mas quase todos afirmaram ter passado por experiências únicas, das quais irão se lembrar pelo restante de seus dias [3]. Acredito que seja mais sábio não esperarmos por um evento de quase morte, nem por um “capacete miraculoso”, para podermos nos iniciar nesse tipo de experiência. O amor, pelo menos, está ao alcance de todos nós – se vamos ser céticos quanto a Deus ou ao espírito (sejam o que forem exatamente, seja o que cada um acha que são), que pelo menos creiamos no amor. Apesar de ser fogo que queima sem se ver, ele parece existir, ele parece arder, e esperamos que não seja mais uma ilusão.

» Na continuação, uma última palavra sobre os novos estudos do Dr. Parsinger – e sobre como devemos criticar ideias, e não pessoas.

***

[1] Um dos 20 casos do livro está transcrito (de forma bastante resumida, entretanto) no meu blog: “Caso Parmod”.

[2] Para saber mais sobre esse caso extraordinário, recomendo ler A volta, por Bruce e Andrea Leninger, com auxílio de Ken Gross. Editora Bestseller. Ainda é relativamente simples achá-lo na sessão “espiritismo” de grandes livrarias, como a Saraiva.

[3] Parece que recentemente deletaram a entrada do Dr. Sam Parnia na Wikipedia... Talvez mais uma influência dos céticos unidirecionais, e de seu julgamento sobre o que é e o que não é relevante sabermos. Entretanto, felizmente ainda é possível buscar por seu nome e encontrar vários resultados.

[4] Ver também minha série de artigos: “Quase morte”.

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Crédito da foto: Mirropix (família Leninger)

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10.1.12

Neuroteologia, parte 1

Experiências místicas e religiosas (EMeRs) são experiências subjetivas em que um indivíduo diz ter tido um encontro ou uma união com uma entidade divina, ou ter tido contato com uma realidade transcendental.

O incrível caso do capacete de deus

Em 2003, o celebrado biólogo e ativista Richard Dawkins concordou em participar de uma experiência pretensamente científica na qual ele teoricamente teria finalmente contato com uma “realidade transcendente”. Não faltaram chamadas “de efeito” nos intervalos da BBC, anunciando o programa Horizon, onde esta experiência seria registrada: “Será que Dr. Parsinger terá êxito onde o papa, o arcebispo de Cantuária e o Dalai Lama fracassaram?”.

O Dr. Michael Parsinger é um neurocientista cognitivo com “um pé na parapsicologia”. O experimento em questão consistia em expor Dawkins a fraquíssimos estímulos de campos magnéticos direcionados aos seus lobos temporais por um “artefato” que foi chamado de capacete de deus. A sessão duraria exatos 40 minutos, em uma câmara (quarto) fechada com luz fraca, totalmente silenciosa... Muitos outros “pacientes” já haviam se submetido a tal sessão, com alguns resultados surpreendentes, pelo menos se formos considerar alguns relatos subjetivos e as manchetes da “mídia especializada”:

“Coisas espantosas aconteceram nesta câmara. Uma mulher acreditou que sua mãe morta se materializara ao lado dela. Outra sentiu uma presença tão forte e benigna que chorou quando ela desapareceu.” – Robert Hercz, Saturday Night [1].

“Minha mente iniciou toda uma nova excursão, dessa vez com um visível toque oriental, tibetano. [...] Vi-me de fato em um templo, numa fila de solenes monges tibetanos. [...] Tive a certeza de que era um deles.” – Ian Cotton [2].

Até mesmo a parapsicóloga Susan Blackmore, membro do CSICOP e celebrada entre muitos céticos, além de grande contribuidora da teoria dos memes de Dawkins (autora de The Meme Machine), se rendeu a extraordinária experiência do capacete de deus:

“De modo inesperado, mas intensa e vividamente, senti-me de repente furiosa, só que não havia nada nem ninguém sobre o que agir. [...] Depois [a sensação] foi substituída por um igual ataque de medo. Fiquei subitamente aterrorizada – com nada em particular. Jamais em minha vida tivera sensações tão fortes” [3].

Há muitos espiritualistas que julgam o ceticismo e/ou o materialismo científicos barreiras para as experiências místicas. Talvez pelo fato de o capacete de deus prometer uma explicação reducionista e totalmente materialista para tal fenômeno, os céticos “baixariam as barreiras de suas mentes para novas possibilidades”, e poderiam efetivamente vivenciar uma EMeR.

Para muitos simpatizantes do materialismo científico, reduzir as EMeRs a estímulos de um capacete não era somente algo perfeitamente plausível, como quase inevitável – um confirmação de sua crença [4]. Vejamos o que Jack Hitt, jornalista da revista Wired, teve a dizer sobre o assunto:

“Talvez pareça sacrilégio e presunção reduzir Deus a algumas sinapses vulgares, mas a neurociência moderna não se inibe em definir nossas mais sagradas ideias – amor, alegria, altruísmo, piedade – como nada mais que estática de nosso cérebro impressionante e grandioso.

Persinger vai um passo além. Sua obra quase constitui uma Grande Teoria Unificada do Outro Mundo: ele acredita que o emperramento de nosso cérebro é responsável por qualquer coisa que se pode descrever como paranormal – alienígenas, aparições celestiais, sensações de vidas passadas, experiências de quase morte, consciência da alma, é só especificar” [5].

Parece simples não? Toda a aparentemente insondável complexidade da mente humana, todas as nossas crenças, sensações, sentimentos, experiências, nosso próprio senso de um “eu”, sendo finalmente explicadas pelo mero tilintar neuronal, estimulado aqui e ali em nosso cérebro por um quase miraculoso capacete... Seria o sonho de muitos materialistas e jornalistas “especializados” sedentos por “furos de reportagem” finalmente realizado... Seria?

Claro, ninguém esperava convencer todos os religiosos e espiritualistas do mundo do dia para a noite, passando por cima de “milênios de lendas e devaneios místicos”... Mas provavelmente seria um belo começo se o ícone dos ativistas antiteístas relatasse que finalmente experimentou o mundo transcendental, e que ele nada mais era do que outro delírio do cérebro, como Deus. Faltava o próprio Dawkins passar os 40 minutos com o capacete bem afivelado na cabeça. A transcrição de “Deus no Cérebro” diz [6]:

[Dawkins] Se eu me tornasse um religioso e crente devoto, minha esposa ameaçaria me deixar. Sempre tive curiosidade de saber como seria ter uma experiência mística. Estou ansioso para tentar essa tarde [...]

[Dawkins] Eu me sinto meio tonto.

[Narrador] Inicialmente, o Dr. Parsinger aplicou um campo [magnético] ao lado direito da cabeça de Richard Dawkins.

[Dawkins] Muito estranho.

[Narrador] Depois, para aumentar as chances da sensação de uma presença sentida, o Dr. Persinger começou a aplicar o campo magnético nos dois lados da cabeça.

[Dawkins] É uma espécie de torção em minha respiração. Não sei o que é. Sinto a perna esquerda se mexendo e a direita, se contraindo [...]

[Narrador] Assim, após 40 minutos, Richard Dawkins havia chegado mais perto de Deus?

Ao que parece, não. Ele nada sentiu de extraordinariamente incomum, e descreveu-se como “bastante decepcionado”. Na realidade, Dawkins gostaria de sentir o que os religiosos dizem sentir. Persinger deu uma explicação para a insensibilidade de Dawkins ao capacete de deus. Segundo ele, o biólogo britânico estava “muito abaixo da média” em sensibilidade lobo-temporal a campos magnéticos – Isto é, segundo um “questionário” chamado sensibilidade ao lobo temporal, desenvolvido pelo próprio Persinger e utilizado apenas por ele mesmo...

Ao que parece, como espiritualistas podemos ser antipáticos a Richard Dawkins e todo o seu ativismo antiteísta, mas pelo menos nesse episódio em específico devemos parabeniza-lo por seu ceticismo... Talvez Dawkins também estivesse muito interessado em poder se convencer de que as EMeRs se resumem a “estados neuronais alterados”, e que toda a religiosidade e espiritualidade humanas poderiam ser explicadas pela “neuroteologia” da qual o Dr. Parsinger era um dos maiores entusiastas. Mas no fim o seu bom senso, o seu ceticismo, falaram mais alto.

» Na continuação, o ceticismo unidirecional e o duplo-cego no caminho do Dr. Parsinger.

***

Leitura recomendada: O cérebro espiritual, por Mario Beauregard (Ph. D.) e Denyse O’Leary. Editora Bestseller. Particularmente o Cap.4.

[1] O artigo foi intitulado God Helmet.

[2] Ian Cotton descreveu suas experiências no livro Hallelujah Revolution.

[3] Relatado por Susan no artigo Alien Abduction da revista New Scientist, em 19/11/94.

[4] O materialismo, o materialismo científico (ver minha série de artigos sobre o tema), assim como o espiritualismo, o monismo, o dualismo, etc., são todos apenas teorias, sem a devida comprovação científica em experimentos objetivos e replicáveis.

[5] O artigo de Hitt se chama This is Your Brain on God, publicado na revista Wired em Novembro/99.

[6] God on the Brain, episódio de Horizon, foi transmitido pela BBC em 17/04/03.

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Crédito das imagens: [topo] Corbis (gravura em cobre ilustrando o pensamento humano, sec. XVII. Sudhoff-Institut/Alemanha); [ao longo] BBC/Divulgação (God on the Brain).

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20.9.11

Um caso sugestivo de psicopictografia

No vídeo abaixo, temos a inauguração do quadro “Dom Especial” na TV Xuxa, da Rede Globo, apresentando um caso sugestivo de psicopictografia, através da mediunidade de Lívio Barbosa. Uma das obras, atribuída a Monet, é depois analisada no palco por um crítico de arte, uma estudante da doutrina espírita, e um cientista cético.

O vídeo pode demorar um pouco a abrir:

Para quem não se interessar pela história de vida do médium, pode pular para o minuto 14:00, aproximadamente, que é quando ele começa a pintar.

Há muitos que evitarão sequer ver o vídeo, ou ler este texto, assim que se depararem com alguns termos – como “mediunidade” ou “psico...grafia” por exemplo –; Mas se você permaneceu conosco até aqui, o convido para refletir sobre algumas teorias que foram elaboradas para explicar esse tipo de fenômeno.

***

Primeiro, é preciso lembrar que esse tipo de mediunidade não é assim tão raro, embora até hoje tenha encontrado poucos médiuns com tal capacidade e qualidade na pintura mediúnica. Eu colocaria Lívio par a par com Luiz Gasparetto, por exemplo, que também realizou fenômenos impressionantes nessa área (hoje, por alguma razão, ele não pinta mais).

Segundo, é preciso destacar que a grande maioria desses médiuns (pelo menos os que seguem a doutrina espírita) não teve estudo artístico específico (como pintura ou escultura, por exemplo), e tampouco fica com os ganhos das vendas de suas pinturas mediúnicas – elas quase que sempre servem para financiar as próprias instituições de caridade em que foram produzidas. Leia-se: instituições em torno do país todo (e às vezes até fora dele), não apenas aquelas que frequentam regularmente.

Com tais informações, fica claro que esse tipo de fenômeno ocorre com a frequência necessária para que mereçam estudos mais aprofundados da parapsicologia, e é isso o que ocorre. Vale lembrar que segundo o próprio Alan Kardec, o espiritismo enquanto ciência é uma ciência muito mais próxima da psicologia do que da física e da química, por exemplo. Afinal, “não é possível fazer experimentos com espíritos conforme se faz experimentos com uma pilha voltaica”. Se esses estudos caem no ramo da parapsicologia, e não da psicologia, é mera formalidade – afinal a Academia ficaria “de cabelo em pé” se fosse forçada a admitir o fato de que tais fenômenos são psicológicos (no mínimo) e que, portanto, efetivamente existem.

Vejamos então algumas teorias para a psicopictografia:

Criptomnésia
Segundo muitos céticos, cientistas e neurologistas, tudo o que ocorre na pintura mediúnica pode ser compreendido se considerarmos que nosso inconsciente é ainda um grande desconhecido. Ele não só é capaz de captar e armazenar muito mais informações do que nosso processo consciente nos deixa “a par”, como também pode ocorrer de que grandes aglomerados de informação se encontrem ocultos a consciência por toda a vida. Em suma, é como se os médiuns tivessem tido acesso a esse tipo de informação ao longo da vida, desde a infância, sem que tenham se dado conta disso, pelo menos não de forma consciente.
Então, nos chamados estados alterados de consciência, que ocorrem usualmente no sono e sonambulismo, mas também podem ser “acessados” através do uso de certas drogas, da meditação transcendental, ou da mediunidade (dentre outros métodos mais “ocultos”), a consciência consegue acessar todas essas informações, produzindo fenômenos extraordinários – e que, na maior parte das vezes, são chamados paranormais.
É essa a explicação dada pelo cientista no final do vídeo acima. De acordo com ele, Lívio teve acesso aos quadros de todos esses pintores em algum momento da vida, e os guardou na inconsciência, ainda que aparentemente não se lembre disso. Falta explicar como esse tipo de informação é “acessada” de forma tão extraordinária, como consegue desenvolver a habilidade de pintar com pincéis, dedos, ao bater das mãos, e até mesmo com os pés, e apenas durante o transe. Em suma: há muito o que se estudar mesmo assim!

Inconsciente coletivo
O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão.
Richard Dawkins, quando estava mais preocupado com o estudo da natureza do que com a difusão do ateísmo, desenvolveu o curioso conceito dos memes, que seriam as tais unidades de informação responsáveis pela transmissão desse tipo de conhecimento de forma não-física (pois que genes transmitem apenas características físicas), através das gerações humanas.
Segundo essa teoria, o fato de Lívio pintar com tal habilidade pode ser explicado pelo seu “acesso” as informações ancestrais do inconsciente coletivo da espécie, durante o estado alterado de consciência.

Imatéria
Na grandiosa série de quadrinhos Promethea, o escritor e ocultista Alan Moore nos apresenta o conceito de imatéria: uma espécie de “reino das ideais”, um tanto quanto similar ao platônico, por onde todos os pensamentos da humanidade “flutuam” como poeira ao vento, e onde alguns de nós – particularmente os artistas – conseguem acessar informações durante os momentos de inspiração.
Interessante que é essa mais ou menos a explicação dada pelo crítico de arte no final do vídeo acima. Provavelmente ele nunca leu Promethea, mas quando diz que “o Lívio acessou o imaginário de Monet, e pintou de forma genuinamente impressionista”, ele está em essência se alinhando com a teoria de Moore.

Espiritualismo
Segundo as diversas teorias espiritualistas, espíritos são seres como nós, com processos conscientes tão ativos quanto os nossos, mas que vivem fora do que compreendemos como corpo físico – muito embora a grande maioria dessas teorias também concorde que espíritos têm corpos, são formados por matéria, apenas esta matéria não interage com fótons (luz), é uma matéria mais fluida, por assim dizer, e por isso nunca foi detectada diretamente em experimentos científicos.
Segundo a estudante espírita do vídeo acima, Lívio deixa de ter “vontade própria” no momento da pintura, e passa a ser mero canal passivo para a mensagem do espírito que age sobre o seu cérebro, comandando certas partes do seu corpo físico como alguém que opera um robô humanoide – salvo as devidas proporções.
Ela vai ainda mais além e afirma que “os espíritos já haviam pintado o quadro, e o que ocorre é um fenômeno parecido com o de uma fotografia sendo revelada”. Essa informação adicional é interessante porque remete a possibilidade de que todas as teorias acima possam ser também parte da totalidade da explicação desse tipo de fenômeno.

***

Resta-nos saber, é claro, se os artistas mencionados são realmente os mesmos espíritos quando em sua última encarnação terrena. Conforme o objetivo final das pinturas é a caridade, talvez essa questão nem seja assim tão importante.

Há espíritas que se digladiam com céticos afirmando que tais fenômenos podem ser descritos de forma exata, e que os pintores são realmente os grandes artistas de outrora, e que existe sem dúvida um mundo espiritual exatamente desta ou daquela forma – mas estes não nos auxiliam em quase nada na busca pela real compreensão desses fenômenos.

Nesse sentido, nem o pseudo-ceticismo (ou ceticismo de negação a priori, como gosto de chamar) nem a crença exaltada nos servirão. Se quisermos um dia saber efetivamente o que ocorre nos arcabouços do inconsciente, e se existe realmente a possibilidade de processos conscientes ocorrerem sem um cérebro físico como casa, precisaremos igualmente da ciência e da imaginação, da dúvida e do bom senso, enfim, de um certo deslumbramento perante a existência – e de uma certa humildade em admitir o quão pouco sabemos sobre a natureza do Cosmos.

Até lá, continuemos pelo menos a admirar a arte, seja por onde ela chegue a este mundo...

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Crédito da foto: Arianna Ramella

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2.5.11

Caso Parmod, parte 5

« continuando da parte 4

A primeira coisa que se lê no livro de Ian Stevenson (publicado pela Editora Vida e Consciência) é uma citação atribuída a ele – que não sei se consta da edição original americana, mas não deixa de ser pertinente –, que diz assim:

“Se os hereges pudessem ser queimados vivos nos dias de hoje, os cientistas – sucessores dos teólogos, que queimavam qualquer um que negasse a existência das almas no século XVI – hoje queimariam aqueles que afirmam que elas existem”.

Exagero? Provavelmente que sim, mas nem tanto... A vantagem dos cientistas radicais sobre os eclesiásticos radicais é que, apesar de tudo, eles ainda são mais racionais, e não se esqueceram dos seus precursores que morreram na fogueira – embora estes não fossem tão radicais e tampouco apenas cientistas, muitos eram também religiosos e até mesmo frades, como o dominicano Giordano Bruno.

Ainda assim, a neutralidade da ciência Ocidental é um mito. A começar pelo fato de ser primordialmente a ciência de uma cultura. Não há espaço para trazer muitos detalhes, mas apenas gostaria de lembrar que Alfred Russel Wallace é tão autor da teoria da evolução quanto Darwin, mas a Academia optou por relegá-lo a um rodapé da história, pois que era um espiritualista com “ideias heterodoxas”; Também vale a pena citar a acupuntura, parte da ciência Oriental, largamente utilizada na medicina dita complementar e mesmo na veterinária, que é muito pouco estudada pela Academia, apesar de que admitem seus resultados – todos, sem exceção, caindo na conta do “misterioso” efeito placebo...

A Academia parece até abrir um certo precedente para doutrinas como a do catolicismo, onde todos os milagres ocorreram a muito tempo atrás, e os pouquíssimos admitidos pelo Vaticano atualmente servem muito mais para beatificações e santificações do que para qualquer espécie de estudo científico do assunto. Se almas existem, pouco importa cientificamente falando, pois só teremos contato com elas após a morte. A presença de um Espírito Santo imaterial em tudo que há tampouco pode ser detectada. E, se orações funcionam ou não, não parece aborrecer a Academia no sentido em que o Vaticano tampouco conduz experimentos sobre isso.

Porém, quando surge um sujeito sério como Ian Stevenson, pesquisando temas ditos esotéricos e místicos de forma científica e extremamente meticulosa, daí é um grande absurdo! Talvez não décadas atrás, quando ele iniciou os estudos com o patrocínio de Carlson, mas nos dias atuais vemos várias publicações científicas atacando seus métodos. Interessante como justamente Carl Sagan endossou sua seriedade... Ah, quantos céticos de negação a priori não devem se incomodar: “porque diabos o Sagan foi falar disso?”.

Há que se exaltar, finalmente, a coragem de Stevenson. Em nenhum momento ele diz ter certeza da reencarnação, mas a hipótese surge como uma explicação mais plausível e menos absurda para os fenômenos que ocorrem a crianças em todo mundo, embora relativamente raros. Alguns materialistas podem preferir a teoria dos Memes de Dawkins, outros parapsicólogos podem atribuir tudo ao Inconsciente Coletivo de Jung, mas apesar de serem mais bem aceitas pelos asseclas da Academia, tais teorias são consideravelmente mais místicas do que a da reencarnação, pelo menos vista pela visão científica de Stevenson.


Para terminar este estudo, gostaria de comentar sobre alguns dos padrões mais interessantes e relevantes observados no livro:

Da morte traumática
Muitos dos casos estudados relatam lembranças de uma morte traumática na vida anterior. Acidentes, assassinatos, suicídios, brigas, doenças fatais... Nesse sentido, o mecanismo da memória não parece ser muito diferente do que ocorre numa mesma vida. Ora, não é preciso nem se aprofundar muito na neurologia ou na psicologia para sabermos que são as memórias de maior carga emocional as mais duradouras, as que mantemos mais detalhes, muitas vezes as que nos traumatizam e se recusam a ir embora.
Muitas vezes é necessária uma imagem ou situação catalisadora dessas memórias “perdidas”... Uma garotinha da Europa medieval pode ter fugido da invasão de uma tribo de bárbaros a sua vila, apenas para morrer de fome em meio à área selvagem, sendo devorada por urubus ainda agonizante. Se a última imagem da vida anterior foi de um pássaro negro te devorando, não será de surpreender que numa outra vida esta mesma alma desenvolva uma estranha fobia a pássaros, sobretudo pássaros grandes.
Então muitos espiritualistas ficarão buscando um sentido para tais experiências, como se pudessem realmente compreender a consciência alheia, e seus “débitos” em relação ao Cosmos. Não podem: só o ser saberá dizer, quem sabe um dia, o porque de ter passado por tudo o que passou.
Mas fato é que, se a reencarnação existe, todos nós havemos de ter passado por alguma morte traumática, sendo que o importante é compreender que foi algo que já passou. Conforme Parmod ao reencontrar sua esposa da vida anterior – ele não se lamentou nem amaldiçoou a Deus por seu destino, apenas disse: “eu vim”.

Do esquecimento das vidas passadas
Interessante como o estudo de crianças que se lembram de vidas passadas também passe pelo seu esquecimento. É realmente quase que um padrão fixo: mais ou menos entre 1 a 3 anos as memórias se iniciam, mais ou menos entre 4 a 10 anos começam a desaparecer, mais ou menos na idade adulta foram completamente esquecidas, ou assimiladas e compreendidas, corretamente, como uma personalidade que já não está mais aqui.
Pois que drama há nisso tudo? Não é verdade que nenhum de nós sequer faz ideia de como éramos antes dos 3 a 4 anos (exceto alguns autistas, mas isso é uma outra história)? Ora, da mesma forma que as células de nosso corpo morrem e se renovam, de modo que ao morrermos não possuímos mais praticamente nenhuma célula daquelas que nasceram conosco, as memórias são muitas vezes apenas bruma e espuma, sustentáculos de nossas breves personalidades que estão em constante renovação e afloramento.
Você saberia dizer quem era você há 15, 20 anos atrás? E, mesmo que saiba dizer, tem mesmo certeza de que todo o seu relato é fiel a uma realidade que não existe mais? Pois, dessa forma, você já morreu – e continuará morrendo...
Apenas a potencialidade persiste. A capacidade de amar, o dom para as letras ou para a música, a lógica matemática, a intuição do caçador, a divina criatividade do poeta... Se é que existe mesmo uma alma primordial por detrás dessas máscaras de personalidade que usamos e trocamos inúmeras vezes, mesmo que em uma única vida, ela ainda parece estar muito distante de nossa compreensão. Portanto, quem acha que a reencarnação é apenas uma teoria para aplacar a angústia perante a morte, pense novamente – muitas vezes, esquecer é morrer. Mas será que esquecemos para sempre?

Da mudança de sexo
Segundo Stevenson, os relatos de vidas passadas com sexo diverso comportam menos de 10% de todos os casos estudados. Entretanto, essas ocorrências raras (dentro das já raras crianças que podem ser estudadas), apontam para um outro aspecto muito pertinente destes casos: o comportamental.
Ora, se é verdade que muitos casos são investigados do ponto de vista das informações passadas adiante pelas crianças – como nome de familiares, endereços, descrições de eventos, identificação de objetos, etc. –, há ainda muitos outros que caem no campo do comportamento, e que são muitas vezes mais sutis. Por exemplo: se uma criança do gênero masculino tem um comportamento afeminado, isso pode ser fruto de uma vida passada no gênero feminino? Essa seria a resposta mais superficial, mas nos estudos de Stevenson muitas vezes a vida passada era a de uma mulher com comportamento dito masculino. É difícil julgar, pois as almas insistem em serem apenas almas: nem homens, nem mulheres.
Muitas vezes, um modo de caminhar, um modo de dirigir o olhar durante uma conversa, um modo de observar a natureza ao redor, são muito mais pertinentes do que uma mera tendência a este ou aquele gênero sexual. A reencarnação pode nos ensinar que ainda antes de sermos heterossexuais ou homossexuais, somos almas, ou, porque não dizer, apenas seres sexuais.

Do tempo “entre-vidas”
Deste assunto Stevenson praticamente não trata, pois é até curioso de se notar: não há nada mais raro do que uma criança que afirme se lembrar de um tempo entre encarnações. E mesmo dentre as que lembram, os relatos não fazem muito mais sentido do que um sonho. Parece que, particularmente neste caso, o estudo genuinamente científico ainda precisará transpor muitas barreiras técnicas...
Entretanto, vale a pena notar como na maioria dos casos do livro, talvez por se tratarem de casos de mortes por acidente, violência ou doenças, e não por idade avançada, resultem em tempos entre vida bastante curtos – desde reencarnações “automáticas”, quando uma alma reencarna imediatamente após a morte (se quiserem saber mais, comprem o livro, não é minha intenção prejudicar o mercado editorial, e sim auxiliar!), até períodos de não muito mais do que alguns poucos anos.
Nesse aspecto as observações de Stevenson parecem diferir bastante de inúmeros casos relatados na literatura espírita, particularmente em livros como “O Céu e o Inferno” (de Kardec) e “Nosso Lar” (psicografia de Chico Xavier). Há a possibilidade dos relatos espíritas serem feitos por espíritos desencarnados, e não por crianças encarnadas, e, portanto, incluírem a memória do tempo entre-vidas: este tempo pode ser semelhante ao tempo que percebemos nos sonhos, e que muitas vezes é bastante mais longo do que o tempo “normal”. Quantas vezes não acordamos 15 minutos antes do despertador, e ao voltamos a dormir, experienciamos toda uma epopeia narrativa em apenas 15 minutos, até sermos interrompidos pelo despertador?
Enfim, o mundo dos espíritos pode mesmo ainda estar fora do alcance de uma análise objetiva e racional. Mas, o mundo das crianças que afirmam se lembrar de vidas passadas ainda promete nos ensinar muito sobre o mecanismo da existência e, principalmente, sobre os mecanismos de nossa mente.

***

Crédito das imagens: [topo] Wikipedia (Ian Stevenson); [ao longo] Tim Pannell/Corbis.

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5.4.11

Caso Parmod, parte 1

Ian Stevenson foi um médico psiquiatra canadense e também o fundador da moderna pesquisa científica a respeito da reencarnação. Ele ficou conhecido por recolher e analisar meticulosamente casos de crianças as quais pareciam lembrar de vidas passadas sem o auxílio da hipnose. Após a publicação de seu primeiro ensaio sobre reencarnação em 1966, o inventor da fotocopiadora, Chester Carlson, custeou as suas primeiras visitas de campo à Índia e ao Sri Lanka. Quando Carlson faleceu (1968), legou um milhão de dólares para manter uma cadeira na Universidade da Virgínia, e mais um milhão de dólares para o próprio Stevenson, com o intuito de que a pesquisa sobre a reencarnação não parasse [1].

E, de fato, não parou: em 1974 Stevenson lançou sua obra mais relevante e conhecida, “20 casos sugestivos de reencarnação”, onde relata os 20 casos de evidência mais forte dentre as centenas que estudou em todas as partes do mundo (não apenas no Oriente, como também no Alasca e até mesmo no Brasil). Felizmente, esta obra se encontra hoje traduzida e lançada no país pela Editora Vida e Consciência, da família Gasparetto.

A despeito do interesse do tema entre os espíritas e reencarnacionistas em geral, esta obra é relevante para qualquer estudioso sério da parapsicologia. Mesmo Carl Sagan, em sua “bíblia do ceticismo”, o livro “O mundo assombrado pelos demônios”, menciona os estudos de Stevenson como o tipo de pesquisa heterodoxa que mereceria uma atenção mais cuidadosa da comunidade científica: “crianças pequenas às vezes reportam detalhes de uma vida anterior, detalhes que quando analisados revelam-se precisos, e um conjunto de informações que não poderiam saber de nenhuma outra forma que não a reencarnação”... Ainda que Sagan acreditasse numa explicação alternativa – ou seja, não necessariamente a espiritual – fato é que reconheceu a seriedade da pesquisa.

O próprio Stevenson reconhecia que seus estudos não eram inteiramente conclusivos, mas sem dúvida requeriam um aprofundamento maior. Simplesmente negar a tudo a priori, ou taxar todas as manifestações como fraudes, seria uma simplificação inteiramente não compatível com o ceticismo – primeiro, porque os relatos eram originários de crianças, segundo porque as famílias envolvidas não recebiam qualquer benefício financeiro ou vantagem pela divulgação dos casos (pelo contrário, a maior parte delas procurava evitar a exposição indesejada, e só seguia adiante devido à angústia das crianças), e finalmente, porque os relatos ocorrem em todas as partes do globo, não apenas nas regiões onde a cultura e a religião são favoráveis a explicação da reencarnação [2].

Stevenson aposentou-se em 2002, deixando o seu trabalho para sucessores, dirigidos pelo Dr. Bruce Greyson. Dr. Jim Tucker, um psiquiatra infantil, continua com trabalho de Ian Stevenson com crianças, concentrando-se em casos norte-americanos. Em 2007 Stevenson faleceu de pneumonia, aos 88 anos.

Uma das maiores vantagens que vejo na pesquisa genuinamente científica da reencarnação, é que ela opera livre de dogmas ou crenças fortemente arraigadas do passado. Não se trata, portanto, de ler o livro de Stevenson apenas para demonstrar para si mesmo “que a reencarnação está cientificamente comprovada”, conforme diz (erroneamente) o site onde o livro é vendido no Brasil. Pois já na introdução do livro é o próprio autor quem afirma que seus estudos são inconclusivos, comportamento de um cético genuíno... Ou seja, é preciso analisar como exatamente a reencarnação opera na natureza.

E, nesse aspecto, as descrições dos 20 casos de Stevenson acabam por identificar certos padrões que, por serem fruto de pesquisa científica, podem ser analisados de forma puramente racional [3]. Alguns destes padrões corroboram, é claro, muito do que tem sido afirmado sobre a reencarnação em literatura espiritualista. Outros, no entanto, podem fugir completamente das teorias mais aceitas, ou até mesmo aprofundar a explicação de aspectos que são tratados de forma superficial nos textos filosóficos e religiosos.

Acredito que a melhor forma de demonstrar isso seja trazendo a vocês o texto original de Stevenson, comentado onde encontrei os padrões mais relevantes... Como não posso e nem pretendo publicar todos os 20 casos do livro aqui, optei por trazer a versão resumida de apenas um dos casos.

» Na continuação, o caso de Parmod.

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[1] Num mundo acadêmico essencialmente materialista e avesso a estudos do gênero, seria uma surpresa que um cientista conseguisse custear suas pesquisas sem o auxílio de um patrocinador da área empresarial. O fato de Stevenson ter sido patrocinado por um empresário meramente curioso, ocidental, e que ainda por cima faleceu logo no início de suas pesquisas, retira de sua obra qualquer sombra de conivência com grupos religiosos. Não custa lembrar que isso é atestado por céticos do porte de Sagan.

[2] Ver, por exemplo, o caso extraordinário do garoto americano James Leninger. Apesar de ser um caso bem mais atual, uma pena não ter ocorrido na época dos estudos de Stevenson.

[3] Não que outros tipos de análise sejam inválidos, mas certamente precisamos encarar a realidade sob diversos aspectos. Analisar a reencarnação de forma puramente racional é uma ação que pode nos ajudar a desvelar muitos detalhes que são notoriamente ignorados em textos espiritualistas. Há muitos padrões que, numa análise filosófica ou religiosa são de pouca ou nenhuma importância, mas que numa análise detalhista e meticulosa, sobretudo do mecanismo e não do sentido da reencanação, se revestem de grande relevância – quantos anos em média uma alma demora para reencarnar, se há mudança de sexos e com que frequência, qual a importância de mortes traumáticas na lembrança em vida posterior, etc.

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Crédito da imagem: Editora Vida e Consciência (divulgação).

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