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18.1.12

A singularidade filosófica

Há um conto zen muito conhecido, mesmo que indiretamente, em que um monge é acordado abruptamente em meio a um maravilhoso sonho onde ele era uma borboleta voando pelo campo, e ao acordar ele fica momentaneamente confuso: Seria ele quem sempre achou que fora, ou uma borboleta? Seria o sonho com a borboleta irreal, ou seria a realidade ela própria uma ilusão? Seria ele quem sonhara com a borboleta, ou seria ele parte do sonho de outro alguém, talvez até uma borboleta? [1]

Muitos ocidentais não veem nada de muito profundo nesse conto, mas é interessante como a própria história do ceticismo filosófico no Ocidente se alinha bastante com ele... O ceticismo filosófico é a ideia que, embora possamos ter um grande número de crenças, de fato sabemos muito pouco, ou nada – certamente bem menos do que supomos que sabemos. Uma dúvida razoável é sempre bem vinda, mas alguns céticos entraram em verdadeiros extremos de sua própria lógica cética.

A conclusão mais radical do ceticismo afirma que “não podemos ter certeza de nossos juízos cotidianos, de modo que não temos nenhuma boa razão para supor que existe uma chance consideravelmente maior de nosso mundo ser real, do que dele ser mera ilusão sensorial”. Se formos nos aprofundar nessa reflexão, chegaremos a um ponto onde poderemos mesmo afirmar que o mundo pode ser uma grande ilusão, e que tudo o que nos chega à mente através dos sentidos pode ser uma encenação teatral persistente orquestrada por algum deus, demônio, ou mesmo uma simulação virtual de um supercomputador – o que foi tema do aclamado filme Matrix.

O filósofo britânico Gilbert Ryle tentou resolver tal situação bizarra. Segundo ele, a própria ideia de “erro” levantada pelo ceticismo pressupõe que por vezes “acertamos”. Por exemplo: sem cédulas de dinheiro reais, as cédulas falsas não poderiam existir – temos de ter algum conhecimento da verdade e da realidade para que estar errado ou iludido faça algum sentido. Porém, os céticos podem derrubar facilmente tal alegação, afirmando que não sabemos exatamente o que é “perfeito”, e que, portanto, não podemos dizer o que é “imperfeito” – dessa forma não temos nunca certeza nem de estar certos nem errados, e o mundo pode ser mesmo uma ilusão, tanto quanto pode ser real.

Já outros pensadores podem afirmar que a única visão de realidade absolutamente irrefutável é a solipsista. O solipsismo é a ideia de que a única realidade é o próprio “eu”, e que tudo o mais não tem existência em si própria, ou não se pode comprovar tal existência. A ilusão do mundo então, incluindo as outras pessoas, seria uma projeção da mente. Um ser humano pode duvidar de tudo, mesmo das impressões que lhe chegam aos sentidos. Pode supor que tudo o que ouve, vê, sente e etc. seja uma ilusão, um sonho. Talvez o mundo não exista e ele nem sequer tenha corpo, talvez nem mesmo cérebro, mas com certeza há pelo menos uma "substância" que sente e pensa. Seria muito estranho alguém duvidar de que é um ser pensante e sensível, ele pode até achar que num dado momento deixará de existir e logo de pensar ou de sentir, ou que num certo momento do passado não existisse. Mas é fato, me parece inquestionável, que no momento presente ele existe... O grande contribuidor para esse pensamento foi o matemático e filósofo francês, René Descartes, que o resumiu no já lendário “penso, logo existo”.

Supreendentemente, mesmo a conclusão solipsista foi negada de forma absoluta pelos materialistas eliminativos. Esta é uma corrente radical da filosofia da mente que simplesmente nega que existam mentes. Segundo tais materialistas, à medida que a ciência avança, pode-se revelar que mentes nada mais são que ilusões subjetivas. A explicação mais apropriada, “científica”, do comportamento humano, não precisa fazer referência a pensamentos, sentimentos, ou nada do que corriqueiramente associamos a alguma mente – apenas o tilintar neuronal pode explicar tudo. A ideia do “eu”, a consciência de si, seriam ilusões do cérebro. Não haveria mente, nem livre-arbítrio, nem vontade, nem tampouco liberdade alguma.

O arqueólogo Peter Watson resumiu bem o “sentimento” dos materialistas eliminativos em uma “queixa” publicada na revista New Scientist: “As ciências sociais, psicológicas e cognitivas permanecem enlatadas em palavras e conceitos pré-científicos. Para muitos de nós, a palavra “alma” é tão obsoleta quanto “flogístico”, mas os cientistas ainda usam palavras imprecisas como “consciência”, “personalidade” e “ego”, para não falar em “mente”. Talvez seja hora de, pelo menos na ciência, remodelar “imaginação” e “introspecção”, ou, de preferência, retirá-las. Os artistas ainda podem divertir-se com esses conceitos, mas os assuntos mundiais sérios já seguiram em frente” [2].

Caso exista um demônio de Laplace, um intelecto capaz de conhecer exatamente a posição e movimento de todas as partículas do Cosmos, o futuro lhe seria totalmente determinado, pois ele saberia do movimento futuro de todos os objetos inanimados do universo e, igualmente, do pensamento de todos os seres vivos, pelo menos segundo a visão estritamente materialista, que reduz os “seres” a nada mais que “máquinas complexas”, e os “pensamentos” a nada mais que “reações de partículas dentro do cérebro” [3].

Tais ideias nos levam a um estado de determinismo total, onde não há realmente nenhuma opção de mudarmos o futuro – inclusive porque sequer temos vontade, somos apenas fantoches de um turbilhão de partículas universal, que ocorreu sabe-se lá como ou por que... O fim da estrada do materialismo eliminativo em realidade nos coloca na mesma posição em que fundamentalistas religiosos nos colocam quando afirmam que “tudo é determinado por Deus”. Sim, acreditem, eu já debati com um fundamentalista que me disse assim a certa altura: “eu não concordo contigo, mas te perdoo, porque você é apenas a forma com que Deus me mostra o que é errado, para que eu compreenda melhor o que é certo”... Eu tive de lhe perguntar se ele realmente acreditava que não era eu quem digitava o meu teclado, mas Deus que me fazia digitar, e ele me respondeu que era “exatamente isso”. Aparentemente, ele se esqueceu que ele mesmo era somente mais um fantoche nas mãos de tal deus – não tinha fé nele por si próprio, mas porque deus assim determinava.

Numa abordagem puramente lógica e filosófica, tais ramos de pensamento expostos acima são muito mais próximos do que a “rixa” entre céticos e crentes pode nos dar a entender: seja crendo num deus todo-poderoso sobrenatural, seja crendo no tilintar aleatório de partículas, seja crendo no demônio de Laplace, estão todos em realidade crendo num determinismo absoluto.

Uma singularidade matemática é definida como o ponto onde uma função matemática assume valores infinitos ou, de certa maneira, tem um comportamento não definido. É quando a matemática deixa de fazer sentido, em suma...

Ora, eu penso que o determinismo absoluto é uma espécie de singularidade filosófica, ou singularidade lógica: de que adianta debatermos sobre o assunto filosoficamente, se em realidade não somos nós a debater coisa alguma, apenas o “filme do universo” a rodar, do passado ao futuro, passando por nosso presente de fantoches a encenar alguma espécie bizarra de existência? E se você não concorda com isso, me desculpe, pois não sou eu quem discorda de você, eu na verdade sequer existo – sou apenas fruto da encenação orquestrada de algum deus, demônio, ou de partículas “soltas por aí”... Mas saiba que você mesmo não deveria se incomodar com isso, já que você também não existe enquanto “você”, assim como eu não existo enquanto “eu”.

Para nossa sorte, coube a um matemático nos tirar dessa singularidade bizarra. Podemos criticar diversos aspectos da filosofia de Descartes, ou do solipsismo, podemos inclusive exercer nossa liberdade, nossa vontade, de não concordar com quase nada do que dizem – mas pelo menos quanto ao fato de existir alguma liberdade, alguma vontade, algum “eu”, haveremos de concordar. Pois não somos, afinal, máquinas a computar informações, mas sim seres a interpretar um Cosmos infinito, vencendo uma singularidade inefável de cada vez, sem jamais desistir!

***

[1] Uma interpretação mais aprofundada desse tipo de conto provavelmente nos levará a conclusão de que a realidade está em constante mutação, e que embora não sejamos os mesmos de 15 anos atrás, talvez nem os mesmos de ontem à noite, certamente existimos.
Obs: há muitos sites (como este do link acima) que falam sobre este conto sem determinar ao certo sua origem. Embora ele certamente possa ter sido passado adiante (oralmente) pelos zen-budistas, tudo indica que sua origem remete ao sábio taoista Chuang Tzu.

[2] Peter Watson: “Not Written in Stone”, New Scientist, 29/08/2005.

[3] Desde as descobertas científicas que descrevem a Mecânica Quântica e a existência de Buracos Negros, este experimento mental caiu por terra: não temos como saber ao mesmo tempo a posição e a velocidade de uma única partícula, como um elétron; já os buracos negros teoricamente “sugam informação”, incluindo a própria luz, para “sabe-se lá onde”, de modo que não há como ter certeza que a informação “permanece neste universo”.

***

Crédito das imagens: [topo] Silke Weinsheimer/Corbis; [ao longo] Bettmann/Corbis

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6 comentários:

Blogger Alfredo Carvalho disse...

De fato, como você disse, acho muito estranho duvidar de que sou um ser pensante e sensível. Eu experimento a individualidade e essa experiência me parece inquestionável.

Por outro lado, quando observo o mundo material (ou a ilusão sensorial) que existe (ou parece existir) ao meu redor, percebo uma regularidade impressionante, inclusive nas atitudes das pessoas. Tudo parece se repetir e se encaixar e cada evento se liga a uma cadeia de outros eventos em uma sequência lógica. Isso me faz perceber que eu também faço parte dessa cadeia e aí surge a confusão.

Eis, para mim, a verdadeira singularidade filosófica: as duas idéias parecem coesistir e são simultâneamente verdadeiras. Vejo-me impelido a pensar em termos de "eu" E "não-eu" ao mesmo tempo, algo absurdo, em vez de pensar em termos de "eu" OU "não-eu".

Abraço.

20/1/12 10:23  
Blogger raph disse...

Oi Alfredo,

Mas é bem por aí mesmo: somos "eus habitando não-eus", ou "eus lidando com não-eus" quase o tempo todo.

O problema não é duvidar do livre-arbítrio pleno: é claro que nossa liberdade é severamente limitada pelo ambiente e por nossa herança animal "irracional", mas há alguns milhares de anos finalmente despertamos o "eu dentro de nós", e embora ele esteja longe de ter "autonomia plena", a Natureza aos poucos vem nos relegando a responsabilidade por cuidar de "uma pequena parte de nossa própria Vontade".

Por exemplo, sabemos que a "máquina corporal" pode muito bem respirar sozinha, mesmo quando estamos inconscientes, mesmo quando estamos semiconscientes de nossa própria respiração... Mas há técnicas de meditação (nem todas religiosas) em que "tomamos a responsabilidade de respirar conscientemente"... Acho que é mais ou menos por aí.

Se cremos ser máquinas, provavelmente seremos máquinas mesmo - ou robôs, ou fantoches... Se cremos que é Deus quem tudo determina por nós, seremos algo muito parecido, pelo menos conceitualmente... Mas é somente assumindo que TEMOS uma alma, alguma coisa estranha que interpreta informações, e sente, e intui, e ama, e tem Vontade, que efetivamente caminharemos a frente.

Mas eu posso estar errado, e um demônio pode estar me forçando a digitar tudo isso :)

Abs
raph

20/1/12 16:35  
Blogger raph disse...

"Eis, para mim, a verdadeira singularidade filosófica: as duas idéias parecem coesistir e são simultaneamente verdadeiras."

Eu chamaria de um paradoxo, e não uma singularidade. Pelo menos no contexto que usei o termo "singularidade" no artigo, que quer dizer "quando deixa de fazer sentido"...

Isso que disse também me lembrou de uma lei hermética (do Caibalion):

Lei da Polaridade: "Tudo é duplo, tudo tem dois polos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados"

Abs!
raph

20/1/12 16:46  
Blogger TiagoW disse...

"Eu experimento a individualidade e essa experiência me parece inquestionável. Por outro lado, quando observo o mundo material ... ao meu redor, percebo uma regularidade impressionante, inclusive nas atitudes das pessoas."
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E será que essa regularidade observada é real mesmo? ou apenas "vemos o que queremos ver"? Conseguimos realmente ser objetivos quando coletamos dados para analise?
E o mais misterioso: Por que grupos de células, que existem apenas para sobreviver e passar seus genes adiante, um dia olharam para o céu e começaram a fazer perguntas?

13/4/12 11:08  
Anonymous Anônimo disse...

de que adianta debatermos sobre o assunto filosoficamente, se em realidade não somos nós a debater coisa alguma, apenas o “filme do universo” a rodar, do passado ao futuro, passando por nosso presente de fantoches a encenar alguma espécie bizarra de existência?

essa é a imersão total na ilusão, a coisa é tão bizarra que nem percebe

, nao existe isso de "do que adianta"

nós VAMOS debater sobre isso, cada peça está onde cada peça deve estar

3/7/14 19:17  
Blogger raph disse...

"E se você não concorda com isso, me desculpe, pois não sou eu quem discorda de você, eu na verdade sequer existo – sou apenas fruto da encenação orquestrada de algum deus, demônio, ou de partículas “soltas por aí”..."

6/7/14 21:13  

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