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17.5.12

Comentário: sem Deus, tudo é permitido?

Comentário das respostas da pergunta “sem Deus, tudo é permitido?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos mais acostumados a presenciar casos de preconceito dos religiosos para com os ateus. Normalmente as explicações incluem “ora, mas ele não tem Deus no coração” e coisas do tipo; acho que todos aqui já sabem do que estou falando...

Pois bem, comigo ocorreu algo como o oposto disso, de certa forma: durante os meses em que esta série se estendeu, eu tive a felicidade de ler o mais novo livro do filósofo suíço Alain de Botton, Religião para ateus [1]. Ora, eu sempre adorei os livros de Botton, e nunca me preocupei em saber se ele era ou não ateu... Da mesma forma, nunca me preocupei em saber se o funcionário de uma livraria que frequento era ou não ateu. Ele sempre me atendeu bem, mas era impossível não notar a forma meio “distante” com a qual ele lidava comigo, particularmente quanto estava folheando livros das estantes de espiritismo e ocultismo. Eu pensava que ele era evangélico ou coisa do tipo, sabe como é: nós espiritualistas estamos mais do que acostumados com esse tipo de preconceito. Normal.

Pois é, tal funcionário por acaso era agnóstico, e seu “distanciamento” não tinha nada a ver com o preconceito por eu ser espiritualista, mas sim por uma pura pressuposição de que era eu quem devia ter preconceito para com ele... Engraçado como são as relações humanas: bastaram cinco minutos de conversa sobre o livro de Botton, e ambos percebemos que nenhum dos dois tinha a menor necessidade de “temer” o preconceito do outro. Na verdade, nenhum dos dois tinha preconceito algum, pelo contrário: tinham certo cuidado, certo “distanciamento”, exatamente por considerar a possibilidade do outro ser preconceituoso. Cinco minutos de conversa: quem dera fosse tão simples resolver o preconceito do mundo assim...

O problema é que a maior parte das pessoas infelizmente não costuma frequentar muito a livraria, elas preferem que alguma autoridade leia os livros para elas, e resuma o que achou. Mas livros são apenas conjuntos de palavras, o que importa é o que conseguem fazer com aqueles que os leem. Livros não mudam o mundo, as pessoas que os leem é que mudam o mundo.

***

Você pode achar que um espiritualista ou ocultista não tem muito sobre o que conversar com um cientista ou cético. Pior ainda seria ambos dialogarem sobre Deus: “perda de tempo total”... Se este é o seu pensamento sobre a questão, permita-me trazer-lhe aqui um diálogo meu com um amigo que foi professor universitário de física e matemática (hoje está aposentado, mas é vice-diretor de um colégio de Viçosa/MG). Este amigo se autointitula “livre pensador, cético, racionalista, humanista, estóico, epicurista, anarquista e ateísta” – você acha que eu não teria nada a falar com ele sobre Deus?

O diálogo começou quando eu comentei sobe um post seu numa rede social. No post ele mostrava parte da resposta para uma pergunta de uma provável jovem estudante: “Acho que estou apaixonada de novo, o quão estou fodida?”. Para essa pergunta, tão corriqueira da juventude (com fodida e tudo), meu amigo me trouxe uma belíssima resposta do qual destaco apenas um trecho: “Você ganhou o prêmio de estar experimentando a sensação mais maravilhosa que a vida pode propiciar. Você já está no céu sem ter morrido. O resto não importa”.

Foi a partir daí que comecei a dialogar com meu amigo, que vou chamar aqui de Wolf:

Raph – Se Deus for o nosso amor, não será preciso esperar a morte para chegar ao céu, nem temer inferno algum.

Wolf – O amor a Deus é um amor platônico. O amor completo, além dos aspectos agape e philia, também envolve o eros, que, em geral, não se devota a Deus. Além disso, o amor a Deus não é sensivelmente correspondido. Você pode ter a intelecção de que Deus o ama, mas você não tem essa sensação, como você pode ter do amor de outra pessoa. Assim, o céu que o amor de Deus pode propiciar é um céu intelectual. O céu que uma paixão amorosa humana propicia, além de intelectual, é também sensorial.

Raph – Pois é eu quis dizer literalmente isso: se Deus for o nosso amor, se tudo o que associamos ao amor, ao amor puro, mesmo que sexual, seja Deus. É mais um jogo de palavras, cada um entende a palavra "Deus" do seu modo, para o bem ou para o mal (poderia dizer, talvez, "se o Sagrado for nosso amor")... Mas eu toquei nisso porque achei bonito o que disse: "Você já está no céu sem ter morrido".

Wolf – Sim, se considerarmos que Deus significa, simplesmente, "amor", então quem está apaixonado está com Deus no coração. Nesse caso, Deus não é um ser. Essa é uma concepção que me agrada. Quando alguém diz "fica com Deus" ou "vai com Deus", está dizendo "fica com amor" ou "vai com amor". Realmente, é disso que a humanidade precisa. Para tal vale ler o "Tao Te Ching" de Lao Tsé.

Raph – Exato, quem sabe o Tao não seja o Amor: Deus em movimento... Mas vamos aprofundar um pouco mais: quem sabe se o motivo de tantos terem medo de se apaixonar não tenha algo a ver com esse entendimento de Deus como agente de barganha: "eu Te amo, Pai, e em troca ganho isto ou aquilo" (por ex: "a salvação").

Nas relações amorosas, às vezes as pessoas parecem pensar assim, só que quando percebem que nem sempre recebem "amor de volta", ficam com medo de amar. Mas, se o amor for sua própria recompensa, não deveriam se preocupar com barganhas, mas simplesmente com o exercício do amor.

Lao Tsé não espera nada em troca, o simples fato de refletir sobre o Tao o faz feliz. É como contemplar as estrelas: ninguém espera uma estrela cadente de presente, para guardar em casa - apenas as admira.

Wolf – Gosto dessa linha. A questão é a seguinte: o esquema da natureza fez com que a vida tenha surgido e, para que ela continue, desenvolveu-se o sexo, do qual o amor, qualquer amor, é uma sublimação. Então o amor é, assim considerando, o supremo objetivo da natureza. Ele é o caminho para que o esquema funcione e a evolução progrida, pois não há evolução sem reprodução. Note que não falo "projeto" e sim "esquema", pois não há plano nenhum nisso, por parte de ninguém. É o que aconteceu de acontecer. E se o que podemos chamar de "Deus" seja, simplesmente, uma personalização abstrata desse esquema, como o concebia Einstein e Espinosa, que não viam em Deus uma pessoa, e, nem mesmo, um ser, então crer em Deus e amá-lo nada mais é do que se amoldar a esse esquema. Como portadores do livre arbítrio, que nos retirou, em parte, do esquema cego e nos concedeu a liberdade de escolha, podemos escolher a salvação, que é, justamente, aderir ao amor, ou a perdição, que é negá-lo. Esse tipo de exegese eu aceito.

***

Claro que isso não quer dizer que estamos totalmente de acordo acerca do que seja Deus, ou o Amor, mas pelo menos deixou de haver este “distanciamento”, este “deus-barreira”, entre nós. Mas, talvez ainda falte uma explicação mais profunda acerca do que quero dizer aqui:

Se Deus é pensado como um Ser, ou apenas como um Ser, racionalmente e intuitivamente chegaremos a dilemas sem volta, a paradoxos irreconciliáveis, e invariavelmente dia chegaremos numa certa descrença. Mas, então, será o início, e não o fim... Pois quando finalmente percebermos que Deus é Substância, a Substância que não pode criar a si mesma [2], o Uno que formou tudo o que há através do Movimento, então teremos a genuína experiência de estarmos encharcados por seu Oceano onde quer que cheguemos, em todos os momentos da existência...

Então começaremos a compreender que todos somos parte dele, e todos estamos conectados numa longa teia de luz. E saberemos que é o Amor, só o Amor, a essência de seu Movimento. Então passaremos a amar, pelo prazer de amar, pois o Amor é sua própria recompensa, e quanto mais arde em nossa alma, mais combustível há para que o fogo cresça ainda mais, cada vez mais...

E não teremos nada pelo que crer ou descrer, nem nada a temer. Teremos dado o primeiro passo no caminho, e depois do primeiro já saberemos que a época da escuridão da alma ficou para trás. Será o início da vida, e o fim da sobrevivência.

Mas nada disso se aprende lendo palavras - o Amor não é uma palavra, tampouco Deus.


Se esse conhecimento pudesse ser obtido simplesmente pelo que dizem outros homens, não seria necessário entregar-se a tanto trabalho e esforço, e ninguém se sacrificaria tanto nessa busca. Alguém vai à beira do mar e só vê água salgada, tubarões e peixes. Ele diz: "onde está essa pérola de que falam? Talvez não haja pérola alguma". Como seria possível obter a pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tivesse de esvaziar o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada.

É preciso um mergulhador para encontrá-la...

(...)

Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.

Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.

Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol.

(Jalal ad-Din Rumi)

***

[1] Neste livro provocativo (e muito corajoso), Botton defende que à sociedade secular têm muito o quê aprender com os aspectos positivos das grandes instituições religiosas. Ele praticamente inaugura o ateísmo 2.0: uma forma mais tolerante, mais filosófica que eclesiástica (ou antieclesiástica, o que no fundo não é tão diferente, tal como o ódio não é o oposto do amor), de ateísmo.

[2] Espinosa foi quem melhor elaborou a questão para a modernidade, em sua monumental Ética. Porém, tais ideias acerca do Uno, da Substância-Primeira, datam de épocas muito mais antigas, tendo aparecido no hermetismo, na filosofia pré-socrática (particularmente em Parmênides), nos estoicismo e no neoplatonismo. Mesmo no taoismo, não é possível ignorar a abordagem da questão, ainda que de forma poética.

***

E aqui terminam, finalmente, as reflexões sobre a espiritualidade e a ciência. Não esqueçam: a luz que reflete numa alma jamais será a mesma luz, por isso é tão importante que sejamos como uma teia de luz. Para que nenhuma ideia de amor, nem mesmo a mais pequenina, se perca...


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Crédito das imagens: todas foram vistas nas redes sociais, portanto não sei dos autores (será que algum deles ficaria chateado?)

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4.5.12

Comentário: que é o efeito placebo?

Comentário das respostas da pergunta “que é o efeito placebo?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Há muitos anos, diariamente, dezenas de pessoas chegam a outrora desconhecida cidade de Abadiânia, uma pequena cidade com cerca de 13mil habitantes, fincada bem no meio do Brasil, no interior de Goiás. Já seria interessante saber o que tantos brasileiros vão fazer nesse “fim de mundo”, mas a grande maioria dos que chegam vêm na realidade de outras partes do mundo – principalmente dos EUA e Europa. Abadiânia é a cidade onde o médium brasileiro João de Deus realiza seus atendimentos com cirurgias espirituais (e, nalguns casos, físicas) que visam o auxílio na cura de doenças variadas, muitas das quais não têm tratamento conhecido na medicina convencional.

Discovery Channel, National Geographic e BBC foram alguns dos canais de TV estrangeiros, bastante conceituados, que já realizaram filmagens e documentários acerca de João de Deus. Apesar de ser relativamente conhecido no próprio país, ao ponto de ter sido chamado para auxiliar no tratamento de câncer do ex-presidente Lula, e também do ator Reynaldo Gianecchini, o médium é muito mais famoso fora do país, tanto que mereceu uma visita exclusiva de Oprah Winfrey, provavelmente a apresentadora de TV mais famosa do mundo.

Filmadas por todos os ângulos, as cirurgias físicas de João de Deus causam um misto de espanto e certa repudia. Certamente não é todo dia que vemos uma pessoa sem qualquer formação médica fazer incisões profundas na pele das pessoas com facas de cozinha, “raspagem” de catarata em olhos abertos (com o mesmo instrumento, tudo filmado), e inserções de tesouras pelo orifício nasal. Em estudo da Associação Médica Brasileira, ficou comprovado que tais cirurgias são reais, e que os tecidos extraídos e “raspados” dos olhos são inteiramente compatíveis com a fisiologia dos pacientes. Mas, a pergunta que fica é: tais cirurgias curam alguma coisa?

Um dos espíritos que supostamente incorpora o médium, parte da “equipe de médicos espirituais” que o auxilia nas cirurgias, já respondeu que “as cirurgias físicas não servem para mais nada que não para que o paciente efetivamente creia que está sendo tratado”. Para os pacientes que já tinham fé no tratamento, nenhuma cirurgia física era necessária [1]... Ou seja: o próprio espírito admite que se trata de uma “encenação” criada para que a mente tenha fé no tratamento. A mente, sem dúvida, parece ser o agente que mais importa, o catalisador dos efeitos placebo – e, dessa forma, da cura.

E esta parece ser a questão chave para nosso entendimento do que vem a ser o efeito placebo. Não adiante associá-lo a processos inconscientes do cérebro que terminam por auxiliar e efetivar a cura de doenças: isso é apenas o processo de cura natural, não o efeito placebo. O efeito placebo, exatamente por se tratar de um efeito, tem de ter uma causa, e acredito que quase todos concordem que essa causa passa pela mente quando esta possui a crença consciente de que um tratamento lhe fará bem. Mas, ainda neste caso, o mistério permanece: se é a mente que catalisa o efeito placebo de acordo com sua crença na própria melhora, o que exatamente catalisa a crença?

Essa última pergunta pode ter uma resposta um tanto quanto óbvia para os espiritualistas, mas para muitos materialistas (alguns dos quais que sequer creem que exista a mente) ela é uma questão muito estranha. Mas isso não os impede de continuar estudando objetivamente a questão...

Na UFRJ, a bióloga Rafaela Campagnolli, doutora em neurofisiologia, concluiu um estudo de como o cérebro processa imagens de interações sociais positivas. Na pesquisa, um grupo de 36 universitários saudáveis observou 60 fotos, sendo 30 de adultos e crianças interagindo e 30 de pessoas alheias umas as outras, embora estivessem próximas. Enquanto observavam, suas reações cerebrais e faciais eram medidas por eletroencefalograma (mede atividade elétrica neuronal) e eletromiograma (mede a atividade elétrica dos músculos):

“É fato que os cérebros dos voluntários reagiram diferentemente às imagens de cada grupo. Diante das fotografias com interações sociais positivas, ocorreu aumento da atividade neuronal associada às emoções, e do músculo do sorriso espontâneo (zigomático). Isso quer dizer que elas impactaram mais os voluntários, foram mais relevantes emocionalmente” – explicou Rafaela [2].

Esse tipo de estudo visa reforçar uma crença já ancestral: a de que as emoções positivas auxiliam na cura de doenças e reestabelecimento da saúde, ao passo que as emoções negativas podem facilitar enormemente a morte, mesmo que de forma indireta. Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med Rio Check Up, do alto de sua experiência de mais de 60mil check ups de saúde, declara: “A prática demonstra que um quadro de emoções negativas conduz à depressão e a outros males. Um dos grandes avanços da psiquiatria foi identificar que o cortisol (hormônio relacionado ao estresse) elevado e crônico é um caminho natural para a morte. Por outro lado, a emoção positiva é a mola da vida” [3].

Portanto, nossa ciência, moderna a objetiva, têm somente demonstrado o que já sabíamos, subjetivamente e filosoficamente, ao menos desde que Hipócrates fundou a medicina, milênios atrás. São mesmo as nossas forças naturais que curam nossas doenças, e até mesmo por isso nenhum médico sério jamais pôde prometer a cura, apenas o tratamento. É apenas a nossa mente, auxiliada pelos diversos tratamentos, quem poderá se livrar da doença, e retornar a saúde. Mas, há algo de subjetivo em nossa mente que incomoda profundamente os materialistas objetivos: algo que não pode ser devidamente catalogado de forma exata, tal qual se cataloga a porcentagem de sucesso dos tratamentos da última droga contra a depressão [4]... O que seria esse espírito, essa alma, esse “eu” que parece ter um ânimo próprio, essa vontade de melhora?

Tim Cridland, também conhecido como Zamora, o Rei da Tortura, é um americano com pinta de roqueiro que parece ter uma boa resposta para tal questão. Desde pequeno, Tim era fascinado pelas histórias de faquires e homens santos da Índia, que podiam se deitar em tábuas de pregos sem sentir dor alguma, e sem causar sangramentos na pele. Sabe-se lá onde ele encontrou “cursos de faquir”, mas o que se sabe é que hoje, após décadas de prática e disciplina inimagináveis para um ocidental, Tim se tornou provavelmente o maior faquir do Ocidente, com um controle da própria mente que beira o sobrenatural. Num episódio dos Superhumanos de Stan Lee, uma série do canal a cabo History que explora pessoas com “poderes sobre-humanos”, vemos Tim perfurar o braço de ponta a ponta com espetos de metal, um dos quais ele enfia através da boca aberta, saindo pelo pescoço [5]. O mais incrível não é nem o fato de ele não sentir dor (o que é comprovado por análise neuronal ao longo do programa), mas sim o fato de ele não sangrar, nem uma gota, nem mesmo na gengiva que, todos devem saber, é uma das partes do corpo que sangram mais facilmente.

O que isso tudo quer dizer? Que devemos abandonar a objetividade da medicina moderna, junto com nosso ceticismo, e admitir que existem homens santos, espíritos e deuses? Não exatamente. Uma coisa não necessariamente leva a outra, e as crenças e descrenças não deveriam vir em “pacotes fechados” – ou cremos em todo tipo de espírito e na eficácia dos tratamentos espirituais e alternativos, ou não cremos em nada disso. Não! Você pode muito bem continuar ateu ou agnóstico em relação ao chamado mundo espiritual, e ainda assim admitir que certas coisas estranhas que provêm dele são, de fato, reais.

Na conclusão final do estudo da AMB sobre João de Deus, é dito que “nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina”, e eu acredito que devemos refletir com muita seriedade sobre isso. Que importa se céticos como James Randi oferecem milhões para qualquer um que prove que é efetivamente um paranormal? Gente como Tim Cridland e João de Deus parece não conhecer ou não estar interessada no dinheiro dos “céticos a priori”, que fazem esse tipo de “show” exatamente por já crer que não existam paranormais [6]. Randi foi certamente útil em desmascarar dezenas de charlatões pelo mundo todo, mas há que se ter em mente que nem todos são charlatões, por mais estanho que isso possa parecer para uma mente racional.

Você pode achar que os fenômenos realizados por tais paranormais – o cirurgião espiritual e o homem imune à dor – é suficientemente raro e extraordinário, e que dificilmente acharemos coisa parecida no resto do mundo, de modo que a “raridade” não permite um estudo objetivo... Mas, não, eles não são assim tão raros quanto possa parecer a priori: para cada cirurgia realizada por João de Deus, milhares de outras são realizadas com igual ou maior eficácia (independentemente de serem cirurgias físicas, e a maioria não é), somente no Brasil, por médiuns que não se interessaram em se tornar fenômenos de mídia; para cada “agulhada” que Tim Cridland dá no próprio corpo, há centenas de faquires indianos praticando algo muito parecido, todo santo dia, e ainda não se viu sangue algum.

E, ainda assim, perto dos fenômenos da mente, tais fenômenos físicos são como a brisa que antecede a tempestade. No fundo, talvez tudo se origine de alguma mente, afinal: jamais poderemos conhecer a realidade ignorando tudo aquilo o que se passa, se passou, e que poderá passar, bem atrás de nossos olhos abertos... O efeito placebo, que diabo seria ele senão um efeito da mente, esta grande desconhecida?

***

[1] A imensa maioria dos pacientes de João de Deus não passam por cirurgias físicas, e espera-se que elas sejam cada vez mais raras, já que apenas alguns dos espíritos que supostamente o incorporam defendem sua continuidade. Entretanto, não deixa de ser um fenômeno bastante estranho.

[2] O depoimento da Dra. Campagnolli foi retirado de uma matéria do O Globo de 25/12/2011 (O poder das emoções positivas – Caderno Saúde).

[3] Depoimento também retirado da matéria citada na nota acima.

[4] O que, em muitos casos, não nos traz resultados muito diferentes do tratamento com placebos.

[5] Não é tão horrível quanto parece, principalmente por não haver sangue, nem dor. Infelizmente só achei o episódio com áudio em inglês:

Poderíamos, quem sabe, inserir a legenda: Tim Cridland catalisando um efeito placebo em si mesmo, de modo que não sangre nem sinta dor. É óbvio que existem limites para a "magia" de Tim: uma agulha através do seu coração provavelmente o mataria na hora; Mas isso de forma alguma deveria diminuir nosso espanto em relação ao fenômeno, assim como nossa curiosidade genuína em procurar compreendê-lo.

[6] Neste meu artigo já relativamente conhecido, faço um contraponto entre as alegações de James Randi acerca do suposto “charlatanismo” do médium João de Deus, e o estudo estritamente científico da AMB sobre as cirurgias em si. Que cada um decida por si mesmo quem parece ter maior razão.


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Crédito das imagens: [topo] Heritage Images/Corbis (poster do século XIX anunciando as famosas pílulas da vida, supostamente criadas por Thomas Parr, que supostamente viveu até os 152 anos porque supostamente as tomava - um exemplo da extensão do efeito placebo na história recente); [ao longo] History Channel (trecho do programa sobre Tim Cridland)

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18.4.12

Comentário: os memes existem?

Comentário das respostas da pergunta “os memes existem?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Muito já foi dito em meu blog sobre os memes de Dawkins (ver, por exemplo, a série Onde estarão os memes?), e, do ponto de vista espiritualista, eu tenho sempre me indagado se os memes diferem tanto assim dos muwakkals dos sufis, ou das teorias ocultistas acerca do “nascimento, vida e morte dos pensamentos”, ou seja: seriam os memes os genes místicos ou metafísicos?

Para não me repetir sobre assuntos já abordados no blog, eu gostaria aqui de falar exatamente sobre a natureza do pensamento. Sabemos que o pensamento sem dúvida passa pela mente, independentemente de ter se originado apenas no cérebro, ou de ter vindo de algum outro centro oculto, de alguma usina espiritual. Isto pois, com os eletroencéfalogramas (EEGs) e outras tecnologias de observação objetiva das fagulhas elétricas a navegar pelo espaço neuronal do cérebro, tudo o que vemos é o resultado da vontade de agir, dos comandos cerebrais; Ou pelo menos nada que temos visto na neurociência de ponta indica que tal fagulha se originou apenas no cérebro, e não está somente trafegando por ele, ativando as teclas do piano que controla nosso corpo. Observamos, portanto, luzes a passar por extensos e intrincados postes de luz, que iluminam toda a metrópole cerebral, e fazem a cidade funcionar – porém, jamais encontramos algo no cérebro que possamos indicar, com boa convicção, como sendo a usina elétrica dessas luzes, o centro da vontade.

Portanto, ainda que hoje saibamos que a consciência é um processo que simula e elabora realidades para que nosso eu possa decidir o que fazer a seguir; E ainda que a atividade consciente na verdade seja apenas reflexo de inputs de informação sensorial e decisões muitas vezes inconscientes que ocorreram a até meio segundo atrás, antes de terem sido percebidas conscientemente [1]; Ainda assim, a despeito de todo o ceticismo envolvido com as questões espirituais, podemos dizer pelo menos isto aqui: enquanto vivos, encarnados, todos nós concordamos que somos um ser que tem uma mente e é capaz de elaborar e interagir com pensamentos, ainda que tão somente dentro de nossa própria mente [2].

Ora, se postulamos que memes são as unidades fundamentais do registro de informações de nossas ideias e pensamentos, e que da interação entre pensamentos, eles podem se desenvolver e replicar, conforme os mecanismos de evolução e seleção natural da teoria da Darwin-Wallace, ainda que eles jamais tenham sido detectados em experimentos, podemos os considerar também como uma teoria puramente lógica e filosófica de eventos observados na natureza. Dessa forma, conforme os antigos filósofos naturalistas, que não estavam tão distantes dos sufis (que conceberam os muwakkals), poderemos examinar de que forma, exatamente, tais memes adentram em nossa mente, e se desenvolvem, até que se repliquem para outras mentes, geralmente através da linguagem [3].

Conforme vínhamos dizendo no comentário da segunda pergunta (que é, afinal, a vida?), John Wheeler e outras físicos postulam que as unidades fundamentais da realidade, tanto quanto ocorre com os memes, também são puramente informação. Bits de informação: “0s” ou “1s” que, repetidos ad infinitum, estruturam tudo o que há no Cosmos, do neutrino aos maiores agrupamentos de galáxias. Crendo ou não nessa teoria científica, muitos neurocientistas, ainda assim, creem que o registro de informações no cérebro é computacional e que, em essência, somos mais como uma máquina celular. Ainda que fosse este o caso, não sabemos exatamente como o cérebro gera a subjetividade, como nos permite interpretar – e não apenas computar – informações, de modo que falamos em “vermelhidão” do vermelho, e podemos apreciar as mais belas metáforas poéticas.

Sir Charles Scott Sherrington, neurofisiologista britânico, talvez tenha sido um dos pensadores que mais profundamente adentrou neste problema do registro de informações subjetivas em nossa mente, ao compará-la, metaforicamente [4], a um tear encantado, sempre tecendo padrões de sentido, através da simbologia: “Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. [...] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais. [...] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. ‘O registro cerebral’ de tudo – tudo o que é vivo – tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a ‘arte’ – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação [5]”.

Dessa forma, surpreendentemente, quando falamos em pensamento, embora o conceito de “informação” ainda faça sentido (pois no fundo tudo é informação, até mesmo o próprio pensamento [4]), provavelmente o conceito de “símbolo” traga um sentido mais prático se queremos abordar a questão de forma lógica. Ora, apesar de mesmo os símbolos não serem de todo capazes de encerrar o que se dá na experiência subjetiva, na sensação, na intuição, no sentimento, eles pelo menos são as melhores cascas de sentimento que encontramos até hoje, as melhores palavras e imagens capazes de indicar o que é exatamente um pensamento: não somente um conjunto “frio” de “0s” e “1s”, mas toda uma rede intrincada de sentidos que, efetivamente, podem ter seu nascimento, sua vida, e sua morte. E, mais do que isso: podem se replicar, se desenvolver, tal qual a teia da vida.

Portanto, se pensamentos nada mais são do que informações vivas a trafegar pelas mentes, ainda que antigamente fosse difícil crer que alguém poderia influenciar o pensamento de outro alguém a distância, através de algum plano mental, hoje nem é preciso considerarmos se isto é ou não uma possibilidade real. Pois que hoje a transmissão de pensamentos se dá também quase a velocidade da luz, através do hipertexto da internet, das redes sociais, e de um mundo cada vez mais globalizado. Estamos sim, cada vez mais, formando uma teia de pensamento através do mundo todo. Cuidado, portanto, como a informação, com os símbolos que saem, e também com os que entram: eles serão a sua realidade.

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[1] Exceto em ações puramente reflexivas, como proteger os olhos com as mãos de algum objeto arremessado em sua direção, que não passam por esse intervalo de meio segundo, e são efetivamente “automáticas”, ou pelo menos na grande maioria dos casos não teremos escolha entre proteger os olhos ou não: nós os protegeremos.

[2] Bem, os materialistas eliminativos (dentre os quais, ironicamente talvez pudéssemos incluir o próprio Dawkins) não creem que exista uma mente, pois eles tampouco creem que exista uma subjetividade, ou a liberdade, mesmo uma liberdade parcial e limitada, da vontade. A subjetividade seria uma ilusão persistente do cérebro, e todas as nossas escolhas (veja bem: todas) na verdade se reduziriam ao tilintar neuronal de partículas já descobertas pela ciência (veja bem: apenas 4% da matéria e energia do universo, segundo a teoria da Matéria Escura).

[3] Ou seja, da interação humana, também conhecida como fofoca, notícia, moda, etc. Muitos espiritualistas postulam que o pensamento pode, por si só, se projetar e habitar um plano mental, um inconsciente coletivo, etc., mas nem será preciso considerarmos esta hipótese aqui.

[4] Ah, a ironia...

[5] Trecho de Man on his nature, conforme citado num dos livros de Oliver Sacks.


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Crédito das imagens: [topo] Mario Martinez (representando uma tulpa, a forma-pensamento para os budistas tibetanos); [ao longo] neurosupply.com (na verdade isto é apenas um EEG, apesar de trazer o mesmo título que o neurocientista Miguel Nicolelis deu para o que ele acredita ser a internet do futuro, onde os cérebros estarão conectados entre si: a Brainet)

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13.4.12

Comentário: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

Comentário das respostas da pergunta “o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Primeiramente, é oportuno deixar claro: a pergunta “curta”, que serviu como título do post original (e deste comentário) deve ser analisada dentro do contexto em que foi colocada, considerando-se todos os 4 parágrafos – ou seja, a pergunta completa (“longa”). Estritamente falando, a ciência não têm absolutamente nada a ganhar, nem a perder, com a espiritualidade. Isto porque a ciência é tão somente o conhecimento da realidade detectável, um instrumento do pensar, com o qual analisamos os mecanismos da natureza. Embora possamos debater o que significou a palavra “ciência” em seus primórdios, acredito que hoje não há como fugir desse conceito moderno. A ciência não é, portanto, ideologia: não é teísta nem ateísta, materialista ou espiritualista, monista ou dualista, a ciência não é nem mesmo moral ou imoral. No entanto, os cientistas, eles sim, podem ser tudo isso... E é exatamente nesse contexto que eu coloquei a pergunta final, que talvez tivesse ficado melhor como “o que os cientistas têm a ganhar com a espiritualidade”, mas eu não queria separar os dois conceitos. Isto, pois, realmente existiram, e existem, grandes cientistas plenos de espiritualidade:

“O Cosmos é tudo o que é, ou foi, ou nalgum dia será. A nossa contemplação do Cosmos mexe conosco. Dá um calafrio na espinha, um bolo na voz. Uma sensação de desmaio, como uma lembrança distante de cair de uma grande altura. Sabemos que estamos abordando o maior de todos os mistérios... O tamanho e a idade do Cosmos estão além do entendimento humano comum. Perdido em algum lugar entre a imensidão e a eternidade está nosso minúsculo lar planetário, a Terra. Pela primeira vez temos o poder de decidir o destino de nosso planeta, e de nós mesmos. É um momento de grande perigo, mas a nossa espécie é jovem, curiosa e corajosa, e demonstra muito potencial... Nos últimos milênios nós fizemos as descobertas mais surpreendentes e inesperadas sobre o Cosmos e sobre o nosso lugar nele. Eu acredito que nosso futuro depende, e muito, de nós entendermos bem esse Cosmos, no qual flutuamos como um grão de poeira no céu matinal.

[...] Nós queremos perseguir a verdade, não importa onde ela nos leve. Mas, para achar a verdade, precisamos tanto de imaginação quanto de ceticismo. Não vamos ter medo de especular, mas vamos ter cuidado para distinguir a especulação do fato. O Cosmos é ilimitado de verdades elegantes, de inter-relacionamentos delicados do incrível mecanismo da natureza. A superfície da Terra é o litoral do oceano cósmico... Neste litoral, nós aprendemos a maior parte do que sabemos. Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso, talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo”.

Assim, com esses dois parágrafos (eu pulei uma parte não tão importante), Carl Sagan, grande cientista e astrônomo americano, celebrado tanto por seu ceticismo quanto por seu humanismo, iniciou o primeiro capítulo da já lendária série de TV Cosmos, provavelmente o mais grandioso material em vídeo de divulgação científica, assim como um grande documentário acerca da história, da mitologia e das religiões humanas. Apesar de ter sido cético, agnóstico, e avesso às teorias espiritualistas em geral, Sagan jamais se absteve de estudar profundamente as religiões, a espiritualidade humana... E, em as tendo conhecido tão profundamente (ao menos na teoria, embora obviamente não na experiência religiosa em si), Sagan não somente as criticava com propriedade, onde era devido, como se abstinha de condenar a priori aos próprios religiosos. Sagan não era um simpatizante de religiosos por medo de sua ira (ou da “ira divina”), mas porque efetivamente os respeitava, apesar de discordar deles em inúmeros pontos.

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Recentemente o Superior Tribunal Federal (STF) no Brasil votou publicamente acerca da proposta de lei que legaliza o aborto de fetos anencéfalos. O que era para ser um debate estritamente jurídico, e de interpretação da Constituição Federal, acabou ganhando as manchetes, como era de se esperar, como uma espécie de “embate feroz” entre eclesiásticos e antieclesiásticos, como se a decisão final fosse uma espécie de “vitória” para um ou ouro lado.

Uma rápida pesquisa online nos traz alguns pontos fundamentais da questão: anencéfalo não é um feto que nascerá sem cérebro, mas com a má formação do mesmo, muitas vezes decorrente de acrania, que é a má formação do crânio. Em muitos casos o anencéfalo nasce realmente sem cérebro algum, mas em tantos outros há um cérebro presente, embora mal formado. Em todo caso, a imensa maioria dos anencéfalos têm vida curta, de algumas horas ou minutos, isto quando já não nascem mortos. Apesar disso, em alguns casos raríssimos, alguns no Brasil, anencéfalos sobreviveram por 20 meses e até mais.

Esse tipo de debate é polêmico, mas necessário. Não há “saídas simples” para ele. O aborto de um anencéfalo é assassinato? Sim, sem dúvida. O risco de saúde que a gestação de um anencéfalo gera para a mãe vale o prolongamento da gestação natural, sem aborto? Se a mãe se sente ameaçada, e se não quer seguir com a gestação, provavelmente não. As mães que se comprometem a arriscar-se para parir um bebê que irá requerer cuidados especiais, e que provavelmente não irá sobreviver por muito tempo, são “loucas”? Claro que não, são dignas de palmas, na realidade. Porém, será que tais “mães santas” são a maioria, ou a esmagadora minoria?

Todas essas questões entraram na pauta, e não eram propriamente questões religiosas ou científicas, mas questões morais, questões que tangem a ética de toda uma sociedade. Por isso o debate é importante, para que tais decisões polêmicas não se restrinjam a dados técnicos de um cientista, mas que tampouco se restrinjam ao dogma de uma doutrina religiosa em vigor. Isso, pois o Estado pode até ser laico, mas nós não somos. A ciência pode ser amoral, mas os cientistas, e os não cientistas, jamais. Mesmo aqueles que não gostam de admitir sempre tomarão algum partido, mesmo que guardem para si, mesmo que se abstenham de opinar. Ou ainda mesmo que optem por simplesmente ignorar a questão – isso não seria amoralidade, mas talvez pura ignorância, pois queiramos ou não, somos animais sociais, e essas questões devem sim entrar em pauta, na nossa pauta.

Mas é então que a educação entra em questão. Um povo sem educação, sem conhecimento, terá enormes dificuldades em debater, em opinar, sobre o que ignoram e não sabem o mínimo (nem uma pesquisa online de 15 minutos). E, ao contrário do que muitos antieclesiásticos defendem, nem sempre a ignorância cabe apenas aos eclesiásticos, teoricamente os “pobres e de educação inferior”. É exatamente por isso que o radical eclesiástico que acusa um ministro do STF, que votou a favor da legalização, de ser “um assassino maldito”, não está muito distante da radical “feminista” e antieclesiástica que acusa os críticos da legalização de serem “ovelhas de uma doutrina religiosa machista que impede a mulher de ter liberdade total sobre o que faz ou deixa de fazer com seu próprio corpo”... Ora, ambos são ignorantes não somente das leis, da vida em sociedade, como da própria ciência, e da própria espiritualidade.

Pois uma das coisas que a ciência nos ensina é que devemos conhecer ao máximo o mecanismo da natureza, antes que possamos elaborar teorias acerca de como devemos ou não lidar com ela. E a espiritualidade, talvez acima de tudo, nos ensina a respeitar e considerar a opinião dos outros. Nesse caso, a opinião dos outros é o que ajuda a formar as próprias leis de nossa sociedade, pois não moramos sós neste país ou neste globo, e nem está escrito em lugar algum na natureza que uns são “mais especiais” do que outros. E, se algum Manual de Verdades Absolutas disse isso, há que se perguntar se não fomos nós que o interpretamos da maneira errada.

Muitas vezes, o eclesiástico radical que luta contra a legalização do aborto de anencéfalos é o mesmo que, muito naturalmente, recomenda um “bombardeio as cracolândias” para que nos livremos de uma vez dos “malditos viciados”. É preciso ter muito cuidado quando verificamos que, para alguém, uma alma têm um certo valor numa ocasião, e outro valor completamente diverso, noutra... Enfim, esperemos com fé que os moderados, os de bom senso, os amistosos, os amigáveis e amorosos, herdem esta terra.

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Como vários autores relatam benefícios com os tratamentos espirituais, é fundamental um melhor conhecimento dos mecanismos e eficácia das curas espirituais. Isso possibilitaria a adaptação das formas úteis como terapias complementares à medicina ocidental, bem como desencorajaria os procedimentos danosos ou inúteis. A discussão séria de um tema não requer que compartilhemos as crenças envolvidas, mas que tomemos suas implicações seriamente e não subestimemos as razões pelas quais tantas pessoas se envolvem. Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina. (Trecho do relatório final do estudo da Associação Médica Brasileira sobre as cirurgias espirituais do médium João de Deus)

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas. (Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios)


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Crédito da imagem: Martin Puddy/Corbis

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10.4.12

Comentário: que é a fé?

Comentário das respostas da pergunta “que é a fé?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Estamos em alguma parte relativamente gélida do globo, e existe um lago aquecido pelo calor que brota do solo, para onde alguns se dirigem e mergulham durante as tardes de vento mais frio. Lá, os nadadores dizem que são mais felizes do que aqueles que estão de fora, pois não são obrigados a suportar todo o rigor do inverno... Os que ficam de fora, porém, alegam ter uma excelente razão para tal: dizem que os vapores que brotam das águas do lago também são psicoativos, e provocam alucinações que, com o tempo, terminam por minar a racionalidade dos nadadores. Já os nadadores se defendem: na realidade, é o frio intenso que acabou por congelar o coração daqueles que se abstiveram do mergulho, e por isso mesmo não foram escolhidos pelo “espírito do lago” para essa tal benção consoladora.

É assim que muitos dos que se alistaram em guerras entre a fé e a razão, o ceticismo e a crença, a espiritualidade e a ciência, gostariam que você imaginasse tal cenário... E por acaso alguém não poderia simplesmente mergulhar no lago dia sim e dia não, para que não se acostumasse demasiadamente nem com o calor da fé, nem com o frio da razão, ao ponto de se esquecer de uma dessas potencialidades do ser? Não, é óbvio que não, dirão os radicais, os dogmáticos: ou você crê, e é salvo, ou estará condenado ao inferno gelado; ou você se abstém por completo de mergulhar, ou estará infectado pelo veneno dos vapores da fé... São apenas dois lados de uma mesma moeda. O caminho do meio, apesar de ser talvez o mais árduo de se seguir, é de longe o mais recompensador – ou, pelo menos, foi seguindo o caminho do meio que muitos de nossos grandes cientistas e espiritualistas entraram para nossa história como alicerces do nosso conhecimento.

Em seu curto e demolidor A vontade de crer [1], o filósofo americano William James, um dos fundadores da psicologia e do pragmatismo, nos traz uma explicação um tanto quanto “vulgar” para o real motivo de nossas crenças, mas que, não obstante, parece ser o caso na grande maioria das vezes: “Nossa razão estará perfeitamente satisfeita, em 999 em cada 1.000 de nós, se puder encontrar alguns argumentos para apresentar no caso de nossa credulidade ser criticada por alguém. Nossa fé é a fé na fé de outro e, nas maiores questões, esse é quase sempre o caso. Nossa crença na própria verdade, por exemplo, de que existe uma verdade e de que nossa mente e essa verdade são feitas uma para a outra – o que é isso senão uma afirmação apaixonada de desejo, em que nosso sistema social nos dá suporte? Queremos ter uma verdade; queremos acreditar que nossas experiências, nossos estudos e nossas discussões devem nos colocar numa posição continuamente melhor para isso [...] Mas, se um cético pirrônico [2] nos perguntar como sabemos tudo isso, será que nossa lógica poderá encontrar uma resposta? Não! Certamente não poderá. É apenas uma volição [vontade] contra a outra – nós, dispostos a encarar a vida com base em uma confiança ou pressuposição que ele, por seu lado, não acha importante adotar”.

Para os primeiros céticos, seguidores do pirronismo na antiga Grécia, o “caminho do sábio” consistia em refletirmos sobre três questões fundamentais: Primeiro devemos perguntar o que são as coisas e de que são constituídas. Segundo, como estamos relacionados a estas. Terceiro, perguntar qual deve ser nossa atitude em relação a elas. Os próprios pirrônicos respondiam: Sobre o que as coisas são, podemos apenas responder que não sabemos nada. Sabemos apenas de sua aparência, mas somos ignorantes de sua substância íntima. A mesma coisa aparece diferentemente a diferentes pessoas, e assim é impossível saber qual opinião é a correta. A diversidade de opiniões entre os sábios, como entre os leigos, prova isso. Podemos ter opiniões, mas certeza e conhecimento são impossíveis. Daí nossa atitude frente às coisas (a terceira pergunta) deve ser a completa suspensão do julgamento. Não podemos ter certeza de nada, mesmo as afirmações mais triviais.

Dessa conclusão radical, enraizada nos primórdios da própria filosofia, podemos retirar que a única certeza de que temos é a certeza de que existimos, de que somos um ser pensante, e assim o sendo, de que podemos tão somente refletir e filosofar acerca do mundo sem, no entanto, jamais termos certeza de qualquer outra coisa... Os empiristas, grandes entusiastas do método científico, jamais chegaram a um ceticismo tão radical: para eles, o fato de algo poder ser detectado por nossos sentidos já é alguma boa indicação de que efetivamente exista. E este algo, se puder ser visto por muitos outros de nós, e em todos concordando em que ele realmente é deste ou daquele jeito, podemos talvez afirmar, enfim: sim, isto existe!

Mas pode não ser tão simples. Digamos que os nadadores do lago tenham visto muitos cisnes nadando de uma margem à outra, até que saíssem para outros cantos. Ora, ao longo dos anos, centenas de cisnes passaram pelo lago, e todos eram brancos. Aqueles que estão fora do lago prontamente chegaram a uma conclusão inteiramente baseada na observação: “Interessante, cisnes existem, e todos os cisnes são brancos”. Mas uma criança que mergulhava no lago sempre insistia: “Não, uma vez eu vi um cisne negro, mas ele passou sorrateiro na margem oposta e ninguém mais o viu”. Ora, ocorre que apenas alguns poucos nadadores tinham fé na afirmação do menino, aqueles racionais encasacados do lado de fora somente davam de ombros, irônicos: “É, pode ser, quem vai saber? Ah, as crianças e a sua imaginação!”... Até o dia em que um cisne negro nadou em meio a todos no lago, e foram forçados a mudar de opinião, e de crença (ou descrença).

Karl Popper, um filósofo austríaco do século XX, tentou resolver tal problema através do falsificacionismo. Segundo ele, o que existem são teorias que podem ou não ser confirmadas em experimentação, e não conclusões finais e derradeiras. Por exemplo, no caso dos cisnes: para Popper o fato de todos os cisnes serem brancos seria tão somente uma teoria, incompleta no que tange aos cisnes, como sabemos... A partir do momento em que um único cisne negro é descoberto, a teoria se ajusta e adapta, e passa a afirmar: “A grande maioria dos cisnes é branca, mas existem alguns cisnes negros”. Se acaso um dia viessem centenas de cisnes negros, ou amarelos e azuis, nadando pelo lago, a teoria teria de ser novamente revista [3].

Ora, se estendermos essa ferramenta do pensar elaborada por Popper para a região da crença, e não somente da ciência, teremos algo muito parecido com um caminho do meio, um certo equilíbrio entre a fé e a razão: Podemos, sim, crer em muitas coisas que jamais foram detectadas, porém, na medida em que muitos de nós experienciam tais coisas subjetivamente, e trocam ideias entre si acerca delas, e muitas dessas ideias se assemelham umas com as outras, podemos dizer que chegamos a hipóteses, teorias lógicas acerca de tais experiências. E, naturalmente, umas serão mais embasadas do que outras, embora todas estejam ainda além da experimentação científica, além da “prova cabal” de que efetivamente existam nalgum lugar. No fundo, tudo o que existe é o que nossa própria mente é capaz de detectar, conceber, elaborar, interpretar, imaginar, e crer... Não há como realmente escapar do risco de crermos em algo que, no fim, jamais existiu. Decerto, na verdade, fazemos isso o tempo todo. A grande questão é que devemos sempre considerar que podemos estar errados, e que dogmas e textos infalíveis nunca foram saudáveis, nem para a espiritualidade, nem para a ciência.

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[1] Publicado no Brasil pelas Edições Loyola (coleção Leituras Filosóficas).

[2] Pirro de Élis foi um filósofo grego da antiguidade (360 - 270 a.C.), fundador do pirronismo, e considerado por muitos como o primeiro cético. Sim, o ceticismo nasceu da filosofia, e não da ciência.

[3] Mas mesmo o falsificacionismo de Popper não está imune a erros graves. Se considerarmos, por exemplo, a teoria copernicana de que a Terra gira em torno do Sol, temos que quando ela foi inicialmente elaborada, críticos indicaram duas observações que poderiam falsificá-la:
Primeiro, se a Terra se move, um objeto derrubado de uma torre alta deveria cair em ângulo, não na vertical. Pois se a Terra se move um pouco enquanto o objeto está caindo, ele deveria cair a certa distância do ponto diretamente abaixo daquele em que foi solto. Mas, claro, quando objetos são soltos de torres, caem sempre na vertical. Essa observação parece falsificar a teoria de imediato.
Segundo, se a Terra gira em torno do Sol, as estrelas fixas deveriam parecer se mover de um lado para o outro do nosso campo de visão ao longo de um ano. No entanto, nenhum movimento aparente como esse, ou “paralaxe”, era observado. Alguns tentaram defender Copérnico insistindo que as estrelas deviam estar distantes demais para que a paralaxe fosse detectável pelos instrumentos da época (o que de fato é verdade). Mas essa era, é claro, uma resposta ad hoc (assim como ocorre atualmente com a Teoria das Cordas).
Ainda assim, apesar dessas e outras objeções, a teoria de Copérnico não foi rejeitada, e mais tarde cientistas provaram que estava correta. Se, entretanto, todos os cientistas seguissem a risca o falsificacionismo, a evolução da ciência se atrasaria por muitos e muitos anos, ao ignorar a teoria copernicana.

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Crédito da foto: Peter Johnson/Corbis

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29.3.12

Comentário: que é, afinal, a vida?

Comentário das respostas da pergunta “que é, afinal, a vida ?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] O maior evento da história da Terra ocorreu há bilhões de anos: ainda antes que o planeta completasse seu primeiro bilhão de anos, organismos unicelulares surgiram, de alguma forma, da matéria inorgânica, provavelmente em pequenos lagos aquecidos pelo calor do núcleo a vazar pela crosta... Mas, o tipo de matéria que formava esses organismos primordiais não foi forjado na Terra, mas sim no núcleo de estrelas como o nosso Sol. Na verdade, não sabemos nem se tal matéria já se encontrava no planeta desde a origem, ou se chegou até nós, literalmente, na cauda dos cometas.

Segundo a teoria da panspermia, boa parte ou mesmo a totalidade do tipo de matéria que possibilitou o surgimento das primeiras células vivas chegou a nós incrustada em asteroides que se chocaram com a Terra no período de centenas de milhões de anos após sua formação. Nós buscamos pelos alienígenas lá fora, mas de certa forma sempre fomos, nós mesmos, os próprios alienígenas: filhos das estrelas, parte dos elementos pesados que são somente formados, no universo conhecido, nas reações nucleares do núcleo dos sóis.

Chris Impey é um dos primeiros astrobiólogos, cientistas que se especializaram em estudar as possibilidades de vida alienígena que parece extremamente viável de ser encontrada pelo Cosmos afora: organismos simples, talvez mesmo unicelulares, podem realmente ser ubíquos pela imensidão da noite infestada de berçários de vida. Em seu excelente O universo vivo, ele explica [1]:

“A vida hoje não se parece com substâncias químicas flutuando em uma lagoa salgada, ou com moléculas complexas aprisionadas em uma superfície mineral. Todas as formas de vida, da menor bactéria até a sequóia mais imponente, são feitas de células. Depois que uma célula primitiva foi criada, o caminho para o alto ficou claro. Certamente ir de uma bactéria a um chimpanzé é um passo menor do que ir de uma mistura de aminoácidos a uma bactéria. Saber como se formaram às primeiras células é vital para que a ciência compreenda a origem da vida.

Mas essa questão ainda permanece em aberto. Apesar de nos dias atuais a ciência pelo menos fazer uma ideia básica de como o processo provavelmente se conduziu, nunca vimos moléculas se reproduzindo, nunca produzimos uma célula sequer a partir de elementos sem vida.”

Essa questão tem uma história longa e turbulenta, estimulando poetas e céticos, filósofos e mecânicos quânticos, biólogos e místicos, a oferecer uma gama de explicações radicalmente diferentes. “A vida é um fenômeno único e fundamentalmente diferente da não vida”, opinou o filósofo francês Henri Bergson. Bergson teorizou que a vida é irresistivelmente impelida a níveis cada vez mais altos de realização evolutiva por uma misteriosa força vital (élan vital), que é inteiramente ausente na matéria não viva.

Já para o cético Robert Morrison, a palavra vida é apenas uma convenção linguística que empregamos para descrever uma classe especial de objetos materiais: “A vida não é uma coisa ou um fluido mais do que o calor o é. O que observamos são alguns conjuntos incomuns de objetos separados do resto do mundo por certas propriedades peculiares, como crescimento, reprodução e maneiras especiais de lidar com a energia. Esses objetos, escolhemos chamar de coisas vivas.”

A arma secreta da vida, concluiu o pioneiro da física quântica Erwin Schrödinger num livro intitulado What Is Life? [O Que é a Vida?], é sua capacidade única de metabolizar: exportar desordem para o ambiente circundante em forma de calor irradiado e excrementos enquanto importa ordem desse ambiente em forma de alimento e energia. O livro de Schrödinger foi uma inspiração para toda uma geração de cientistas que criaram, basicamente a partir do zero, o enorme empreendimento científico hoje conhecido como biologia molecular.

James Watson, um dos descobridores do DNA, também caminhou nos ombros de um gigante: “Schrödinger argumentou que a vida pode ser pensada em termos de armazenamento e transmissão de informações biológicas. Os cromossomos seriam assim meros portadores de informação.” – Este conceito de pensar a vida como informação biológica teve impacto decisivo nas pesquisas de Watson, e quando este finalmente descobriu o DNA, pensou ter finalmente resolvido um dos grandes mistérios da ciência:

“Nossa descoberta põe fim a um debate tão antigo quanto à espécie humana: Será que a vida tem alguma essência mágica, mística, ou é, como qualquer reação química produzida numa aula de ciências, o produto de processos físicos e químicos normais? Haverá alguma coisa divina numa célula que a traga a vida? A dupla hélice respondeu a essa pergunta com um definitivo Não.”

Ironicamente, seu mentor intelectual (Schrödinger) chegou precisamente à conclusão oposta em What Is Life?, ao observar que a característica que define a vida – sua capacidade para produzir e prolongar a existência de uma ilha de ordem contínua, incessantemente fustigada por um mar de aleatoriedade e de desordem movida a entropia – é uma forte evidência da existência de um “novo tipo de lei física” que governa o comportamento da matéria viva.

Assim como o gelo formado a partir da água dentro de nossa geladeira é uma “ordenação” das moléculas de água ao custo de uma “desordem” ainda maior, causada pelo calor expelido de dentro para fora (pelo menos quando ela esta ligada na tomada), biologicamente a vida não desafia a segunda lei da termodinâmica, que afirma que o universo inteiro caminha sempre para a entropia, ou seja, para “a desordem das informações”. E, de fato, tudo parece ser constituído puramente de informação.

John Wheeler, um físico americano, cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.”

Esse tipo de consideração metafísica demonstra como alguns físicos modernos não têm um pensamento tão distante de certos filósofos e espiritualistas, embora usem outros termos. Se tudo que há é informação, e se tudo o que essa informação forma é matéria, ainda falta descobrirmos o que diabos são os outros 96% da matéria e energia do universo, que não interagem com a luz (não refletem fótons), segundo a novíssima “teoria quente” da cosmologia: a Matéria Escura. Se, assim como Dawkins teorizou, mesmo os nossos pensamentos seguem a lei da seleção natural, através dos memes (alguns diriam: os genes místicos), e têm nascimento, vida e morte, falta-nos desvendar se a vida é, afinal, apenas algo mais que moléculas de carbono, água e outros elementos em uma configuração fortuita, ou se nossa mente, nossa consciência, nosso élan vital, é formado por algum tipo de matéria ainda totalmente desconhecida, e profundamente invisível (exatamente por não interagir com a luz).

E, se acaso um dia esbarremos numa consciência formada por matéria sutil demais para que nossa tecnologia a houvesse descoberto anteriormente, tal evento, longe de invalidar mais de um século de desenvolvimento da biologia, apenas a elevará a um patamar ainda mais grandioso, ainda mais fantástico, ainda mais complexo... Será que um dia descobriremos, afinal, o que é que interpreta informações em nosso cérebro, o que é que percebe subjetivamente a “vermelhidão do vermelho”, o que é que se maravilha com uma música ou um poema, o que é que olha de volta para a imensidão do Cosmos e se pergunta: “para que, para que, afinal, tudo isso?”. E será que, mesmo isso, será apenas um sim contra um não?

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[1] Todas as citações deste artigo/comentário foram retiradas deste livro de Impey, publicado no Brasil pela Larousse, e também de O universo inteligente, de James Gardner, publicado pela Cultrix/Pensamento. Ambos são recomendados para quem se interessa por um debate genuinamente filosófico e científico sobre o assunto.

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Crédito da imagem: Tom Grill/Corbis

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22.3.12

Comentário: o que é Deus?

Comentário das respostas da pergunta “o que é Deus?”, parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori responderam a 7 perguntas sobre o tema. Para saber mais, leia a premissa da série.

[Raph] Alguns leitores se perguntaram qual seria a minha própria resposta para esta e outras perguntas da série, mas a minha intenção não era propriamente responde-las (até mesmo porque algumas delas não têm exatamente uma resposta), e sim iniciar uma reflexão, uma nova gama de pensamentos, um debate proveitoso e respeitoso sobre os temas que, por alguma estranha razão, volta e meia são taxados de polêmicos. Às vezes, até mesmo de tabus.

Com o tempo, eu passei a compreender em parte o motivo pelo qual a maioria das pessoas se sente desconfortável quando alguém chega para elas e diz: “Deus é assim”; ou “Deus é desse jeito”; ou “Aceite Deus como dizemos que é, e será salvo”; ou até mesmo “Não existe Deus, não creia nessa grande bobagem”... Talvez seja mais simples me fazer entender evocando a própria linguagem, pois é afinal apenas através dessas cascas de sentimentos, as palavras, que tentamos compreender e nos comunicar uns com os outros. E a linguagem é muito proveitosa e útil em inúmeros casos – é sempre bom falarmos em “rua” e “avenida” quando queremos saber de algum endereço; ou em “comida” e “restaurante” quando estamos famintos no meio da cidade. Em outros casos, entretanto, a linguagem nem sempre é o suficiente – falamos em “liberdade”, “disciplina”, “justiça”, “Deus”, etc., e as pessoas prontamente pensarão nos conceitos (subjetivos) mais distintos, em alguns casos até mesmo opostos uns dos outros.

Substituamos, então, a palavra “Deus” por “amor”, e temos afirmações desse tipo: “O amor é assim”; ou “O amor é desse jeito”; ou “Aceite o amor como dizemos que é, e será salvo”; ou até mesmo “Não existe o amor, não creia nessa grande bobagem”... Sim, é um exercício proveitoso, mas devemos tomar cuidado com esse jogo de linguagem. Se, por um lado, cada um tem sua própria visão de Deus, e do amor, e do Cosmos, e da vida, e da natureza, etc., há uma boa razão para todas essas palavras terem sido nalgum dia criadas, e não serem uma mesma ideia, um mesmo conceito. Não são. O que eu queria dizer ao associar Deus com o Cosmos ou, agora, com o amor, não é que tais conceitos são a mesma coisa, mas pelo contrário: que assim como cada um tem sua própria visão deles, mesmo quando falamos em uma só palavra – “Deus” –, ainda assim essa divergência, essa interpretação subjetiva, própria de cada um, persiste.

É exatamente por isso, por não existir um único Deus enquanto conceito, mas sim o Deus de cada um, que eu aprendi que é bem melhor iniciar uma conversa sobre este assunto com uma pergunta, e jamais com uma afirmação: pergunte “o que é Deus para você?”, mas jamais diga “Deus é desse jeito” ou “Deus existe” ou “Deus não existe”... Depende de cada um, de cada visão específica do Cosmos sobre si mesmo – nenhuma digital em 7 bilhões é igual, nenhuma mente é igual, nenhuma crença (subjetiva) é igual. Os radicais e dogmáticos são aqueles que pretendem que acreditemos que todos podem efetivamente pensar igual, num mesmo conjunto de regras morais infalíveis, seguindo manuais de verdades absolutas – mas a única verdade absoluta que existe é que existe algo, e não nada. O resto, todo o resto, é apenas derivado desse fato extraordinário, desse mistério inefável, infinito: existe algo, isto tudo a nossa volta, isto tudo dentro de nossa mente, é parte disso, é parte do Cosmos, é parte de Deus, não é nada, jamais foi ou será nada...

Mas, então, não estamos realmente falando do Deus antropomorfizado, reduzido a nossa semelhança, que parece ter personalidade e desejos específicos, que parece ser um ser, um deus pessoal. Estamos nos aventurando a um infinito maior, a origem de todas as coisas, ao que mantém a ordem e harmonia de todo o Cosmos, da mais ínfima informação subatômica ao mais vasto agrupamento de galáxias a vagar pelo tecido do espaço-tempo. Estamos falando de uma força, ou de várias forças irradiadas de uma só. Estamos falando de um Deus que parece ser um Todo, um deus impessoal, incriado, mas que tudo mais irradiou a partir de si.

E, se ao engendrar o conceito de tal Deus substância, a substância que não pode criar a si mesma, Espinosa se preocupou em estabelecer um Deus em oposição aos demais, isso até tem sua relevância, mas é muito pequeno perto da magnitude de nos aventurarmos nessa viagem, nesse caminho de horizonte sem fim, dessa tentativa de sondar a mente do Cosmos. Podemos dizer, sem dúvida, que aqueles que creem nesse Deus-Substância são em realidade ateístas, pois o próprio termo “ateísmo” admite inúmeras interpretações. Mas não podemos imaginar que apenas um rótulo incerto como esse (“ateísta”, “espinosista”, “panteísta”, que seja!) sirva para que ignoremos o assunto, evitando ter de nos aproximar do pensamento alheio, como se o pensamento alheio fosse alguma espécie de vírus capaz de nos afetar as ideias e nos fazer abandonar nossas próprias crenças ou descrenças.

Quem sabe, afinal, o que é Deus? Seja uma entidade descrita por livros infalíveis, seja um conceito filosófico além de nossa atual compreensão, seja um grande acaso cósmico, nada disso é definitivo, pois nada disso encerra a ideia. A única coisa de que sabemos é que ainda não sabemos responder a tal pergunta e, segundo os agnósticos, talvez jamais possamos respondê-la. Mas, alguns de nós também sabem de outra coisa, que passa desapercebida da maioria: que quem têm de responder somos nós, juntos!

Se vamos usar a Deus como um Deus-Barreira, se interpondo entre aqueles que pensam como a gente, e aqueles que discordam de nós, estaremos fazendo, talvez, o uso mais vil e pernicioso deste conceito tão abrangente, infinito, iluminado... Melhor seria aprender com Espinosa (e Einstein, e os estóicos) e imaginar um Deus-Substância a irradiar-se por tudo o que há, que foi, e será. Um Cosmos que talvez tenha mesmo possibilitado a vida consciente para que a própria consciência pudesse visualizar esta luz, esta beleza, esta harmonia infindável. É pensando nisso que nos conectamos a eternidade. É pensando nisso que despertamos, passo a passo, nossa intuição, nossa consciência, nosso amor... É pensando nisso, enfim, que percebemos quanta felicidade, quanta alegria, quanta sabedoria, nos esperam no caminho de volta.

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» Veja também o artigo "Teísmos e ateísmos", que foi escrito inspirado por esse debate.

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Crédito da foto: APOD

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10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


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Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

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[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

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Crédito da foto: moodboard/Corbis

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