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10.3.12

Sem Deus, tudo é permitido?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] O jainismo é uma das mais antigas e rigorosas doutrinas religiosas de nossa história. As histórias que falam em monges jainistas retirando pequenas larvas do solo antes de cavá-lo para plantar, de modo a não causar dano sequer aos menores seres visíveis da natureza, são, acreditem, bem mais reais do que anedóticas. Apesar de seu ascetismo extremo, e sua busca constante pela não violência, é perfeitamente possível ser um jainista sem crer em Deus ou quaisquer deuses.

Alguns defensores da ética religiosa afirmam que sem o devido temor a Deus, e/ou a promessa de um Céu Eterno, não haveria razão para que os homens fossem éticos e amorosos uns com os outros. O humanismo, pelo contrário, em todas as suas vertentes coloca o respeito ao próximo, e a sua liberdade de pensamento e ação, como a ética mais elevada e que, por si só, é sua própria recompensa, já que num sistema onde todos são humanistas, um Céu Eterno talvez nem fosse mais necessário – já estaria instaurado na própria Terra.

Mas, será que o humanismo e o jainismo são quase utopias, sistemas por demais rigorosos para que todos os seres humanos um dia se incluam neles? Ainda há espaço para ser otimista ante um mundo em intenso conflito, ou a intolerância, em todas as suas mais nefastas manifestações, tem vencido a batalha? Em suma: se Deus não existe, tudo é permitido? [1]

[Del Debbio] A ideia da Religião como ferramenta para o domínio dos povos é muito antiga. Os faraós se utilizavam destes artifícios para criar normas de conduta e moral para toda a população do Egito. Os judeus, através de Moisés, reorganizaram estes preceitos nos chamados “dez mandamentos”, que por sua vez, tornaram-se a base canônica para o grande pilar de dominação do ocidente, a Igreja Católica Apostólica Romana.

O medo de um Deus vingativo ou a punição eterna em um Inferno escaldante fazia com que as pessoas andassem na linha. Nem todos os Infernos eram iguais... Para os nórdicos, Hel era uma caverna de gelo onde os condenados passariam a eternidade no frio e com fome. Faz sentido. Se o inferno Nórdico fosse quente, todos iriam querer ir para lá. Assim, a idéia do símbolo do Inferno sempre foi “um lugar onde não gostaríamos de estar”.

Para os ocultistas, a idéia do Inferno nunca passou de um símbolo abstrato, porém, para a população geral, vigora até os dias de hoje a ideia de uma troca no estilo Pavlov, onde as pessoas deveriam ser boas para irem para o céu e se forem contra os preceitos de algum dos livros sagrados, irão para o colo do capeta ou algo parecido.

Mas e quando esta ideia parece cada vez menos coerente com o mundo ao nosso redor? Símbolos podem se dar ao luxo de serem monstruosos, angelicais, fantásticos e impressionantes pois são, afinal de contas, símbolos. Mas quando religiosos fanáticos utilizam-se destes símbolos como se fossem coisas literais, esta visão começa cada vez mais a não fazer sentido em confronto com a realidade.

E quando não existe mais uma cadeia? Observamos recentemente em Salvador-BA o que acontece com a nossa civilização quando a polícia entra em greve por uma semana. O que aconteceria com o mundo se as pessoas, no grau de evolução mental que estão, soubessem que não há inferno ou punição para elas aguardando no final de suas vidas?

Creio que as religiões, mesmo as dogmáticas, servem como um freio enquanto a humanidade evolui lentamente e um dia não precisaremos mais de nenhuma delas. O estudo da espiritualidade em conjunto com o Humanismo e o respeito à natureza, livre de qualquer dogma ou preceito religioso ou materialista, será o caminho evolutivo natural para a espécie humana.

Para o alquimista, não faz a menor diferença se existe um Deus ou não. As ciências herméticas são a busca pelo autoconhecimento – descobrir qual é a própria Verdadeira Vontade e exercê-la em prol da evolução da humanidade como um todo. Vejamos o ateu: se é sincero em seu coração, não há diferença para um alquimista senão a dos símbolos e metáforas utilizados.

O trabalho de um magista é aperfeiçoar-se até o máximo que puder. A interação perfeita da ciência com a religiosidade. Todos já ouvimos diversas destas alegorias: “Transformar o chumbo (do ego) no ouro (da Essência)”, “Desbastar a Pedra Bruta”, “Transformar Carvão em Diamante”, “Encontrar a Pedra Filosofal”, “Tirar as ervas daninhas para que as rosas floresçam no Jardim”, e outras.

Através da Alquimia, uma vez que cada pessoa trabalhe seus Vícios e os transforme em Virtudes, chega-se ao exato mesmo princípio do Humanismo ou do Jainismo (que nada mais são do que vertentes da mesma filosofia do “ama ao próximo como a ti mesmo”). Se existir um céu e um inferno, os alquimistas estarão preparados. Se não existir, fizeram o melhor que puderam dentro do espaço de suas vidas; se existir uma vida após a morte, continuarão da onde pararam aqui...

[Mori] Há alguns anos traduzi um fabuloso ensaio de Eric Raymond sobre “o mito do homem assassino”, que resumo em seguida. É a crença de que os seres humanos são animais unicamente violentos, escassamente contidos de cometer atrocidades uns aos outros pelas restrições da ética, da religião e do estado. Parece estranho questioná-lo, com as trágicas notícias com as quais somos bombardeados, mas basta analisar o animal humano com os olhos um tanto mais distantes de um observador do mundo natural para chegar à constatação de que não somos seres especialmente violentos.

O estilo de luta instintivo que desenvolvemos, por exemplo, nos impede de ferir seriamente uns aos outros, direcionado especialmente a empurrões e socos em áreas duras como cabeça ou tórax. Eles podem deixar o oponente inconsciente, mas as chances de que o matem são muito menores do que se mirássemos em partes moles e vitais, como artistas marciais aprendem a desenvolver mesmo em um único golpe fatal. É preciso treinamento para transformar um homem comum em um assassino, e isto mesmo quando este homem é equipado com uma arma de fogo: ao redor de 70% das tropas em sua primeira situação de combate é incapaz de disparar contra o inimigo. É preciso treinamento e intensa ressocialização para suprimir nossos instintos e criar soldados capazes de matar sob comando.

E comando é justamente o alerta de Raymond. O mito do homem assassino é promovido justamente por aqueles em comando, segundo os quais precisamos ser salvos de nós mesmos através da uma disciplina rígida com punições rigorosas que nos separaria da selvageria, quando a evidência histórica e comportamental indica que as maiores selvagerias são praticadas justamente sob comando e disciplina rígidas de um grupo contra outro. Nosso maior medo não deveria ser nosso suposto instinto assassino latente, aquele que é visto na prática apenas em uma pequena parcela da população, comumente surgida como parte, ainda assim minoritária, de grupos intensamente oprimidos. E que, não por coincidência, criam suas cadeias de comando e controle social próprias, e ainda mais rígidas.

Nosso maior medo deveria ser justamente o controle e manutenção de uma hierarquia e controle social estritos que exploram um instinto que a maioria de nós realmente possui: a obediência cega a figuras de autoridade. Sejam elas presentes na terra, sejam elas aquelas fictícias no céu, que podem ser ainda mais perniciosas. Em nome de deus, a autoridade última, tudo é permitido.

Tememos os perigos errados. Apesar disso, há motivo para otimismo porque a ignorância, a intolerância e a violência não estão vencendo a batalha. Somos hoje sete bilhões de seres humanos. Nunca tantas vidas viveram ao mesmo tempo, tanto tempo, aproveitando tão bem o seu tempo. Em particular no Brasil, e mais especificamente sobre os leitores deste texto, podemos dizer que somos privilegiados com um padrão de vida superior aos dos mais abastados reis e conquistadores, dos mais bárbaros e selvagens, de apenas alguns séculos atrás. E não precisamos oprimir ou assassinar ninguém para tal – bem, ao menos não tão diretamente quanto eles, espero. Por gerações grandes pensadores sonharam com enormes arquivos de conhecimento, e grandes visionários imaginaram fóruns livres para a difusão e discussão de conhecimento. Você está em frente a esse sonho neste exato momento.

Este privilégio não foi alcançado por acidente. Nossos ancestrais não tão distantes talvez achassem que uma mulher, um negro, homossexual ou membro de uma minoria qualquer tendo acesso a esta rede de conhecimento hoje fosse um absurdo. A religião, o Estado, a sociedade, a tradição e os bons costumes ditavam tal. Do contrário, seria a selvageria. Hoje vemos que eles é que viviam em um mundo um tanto mais selvagem que o nosso, e se estudarmos um tanto da história recente descobriremos como essas conquistas valorizando cada vida humana foram resultado de longas batalhas. Muitas destas batalhas foram vencidas e, sim, vivemos em um mundo melhor. O mundo pode ser transformado para melhor, ele foi transformado para melhor, e ele deve ser transformado para muito melhor.

Há muitas outras batalhas a vencer. Não há nada muito rigoroso no humanismo – há vertentes específicas do humanismo com algumas definições mais rigorosas, mas valorizar a vida humana é um instinto natural do animal humano. Se você ri de um bebê gargalhando, se compartilha a dor da mera imagem de alguém se cortando, se em seus momentos mais irados pensa em dar um murro no rosto de um desafeto – e não em planejar como assassiná-lo com crueldade de fato – parabéns, você faz parte da maior parcela da espécie humana. Somos sete bilhões.


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Esta foi a sétima e última pergunta da série. Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

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[1] Eu estou, propositadamente, usando esta frase de Fiódor Dostoiévski fora de contexto, pois ela acabou se tornando uma frase relativamente conhecida na cultura popular, exatamente desta forma, e não na forma original, conforme consta em mais de um trecho da obra Os Irmãos Karamazov. Ironicamente, considerando-se o desenvolvimento da questão ao longo do livro, por fim temos uma consideração que tende claramente ao humanismo. Finalmente, é justo lembrar que o Deus em questão seria, muito provavelmente (ou aproximadamente), o Deus do Antigo Testamento da Bíblia.

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Crédito da foto: moodboard/Corbis

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13.2.12

Que é o efeito placebo?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Hipócrates, “pai da medicina”, dizia que “nossas forças naturais, as que estão dentro de nós, serão as que curarão nossas doenças”. Ele acreditava que a cura estava ligada ao tempo e ao tratamento, mas não se podia prometê-la: nossa saúde dependia muito de nossa vontade de melhora.

Muitos tratamentos “alternativos”, como a acupuntura, despertam polêmica por não se saber exatamente como funcionam, ao menos no Ocidente. A melhora aparentemente inexplicável conquistada através de tratamentos complementares à medicina tradicional muitas vezes é creditada a “crença da melhora”, por vezes chamada de efeito placebo [1].

Não conhecemos muito acerca do efeito placebo, mas os cientistas dizem ser quase certo que passe pela mente humana. Nesse caso, falta explicar como a acupuntura veterinária obteve tanto sucesso nos últimos anos, mesmo no Ocidente [2]. Em suma: se mesmo os animais parecem se beneficiar do efeito placebo, o que seria este efeito exatamente?

[Mori] Já dizia o filósofo alemão Rolf que “todos os animais têm almas, [basta] olhar em seus olhos”. Ele se referia ao Urseele, a alma primeval, “o melhor que há em nós”. Há que se notar a propriedade e relevância dos pensamentos de Rolf, dado que ele era um cachorro, especificamente um terrier Airedale de dois anos de idade.

Ao contar esta história, não pretendo ridicularizar a acupuntura veterinária, pelo contrário, convido todos sim a conhecer melhor a saga de Rolf – Jan Bodeson publicou um livro recente sobre o tema, do qual há um excerto disponível em inglês mas, ainda mais relevante pelo contexto histórico é a obra de Henny Kindermann, publicada em 1922 sobre “O Pensamento a Fala dos Animais”, ou especificamente sobre Lola, filha de Rolf e também um prodígio. Uma tradução ao inglês está disponível completa pelo Projeto Gutenberg.

Logo no início, Kindermann comenta o então recente caso do cavalo Hans. Antes do canino Rolf, o equino Hans demonstrou impressionante capacidade matemática, até que em uma investigação histórica o psicólogo Carl Stumpf demonstrou que o cavalo só acertava a maior parte das respostas quando aqueles que faziam as perguntas sabiam quais seriam as respostas corretas e podiam ser vistos.

O cavalo não sabia aritmética de fato. Para comunicar as respostas ele batia seu casco no chão e apenas observava a pessoa fazendo as perguntas [3]. Pfungst, um perspicaz assistente de Stumpf, notou que pouco antes do número de batidas correto as pessoas exibiam – involuntariamente – maior tensão, até que no número exato de batidas a tensão era aliviada. O Esperto Hans percebia os sinais involuntários de linguagem corporal e parava de bater o casco, tornando-se um gênio que parecia saber tanto quanto os humanos que lhes faziam perguntas. Mas não mais.

A maior lição do que se tornou conhecido como “efeito Hans Esperto” é que os sinais corporais são exibidos involuntariamente. Mesmo após Pfungst descobrir como o cavalo conseguia fazer seu espetáculo, e mesmo ciente de que poderia estar sinalizando ao animal, ainda assim a linguagem corporal podia denunciar suas expectativas. O experimentador pode afetar o experimento das formas mais inesperadas e que devem ser levadas em consideração.

Isolar e controlar melhor estes fatores é sempre um desafio em qualquer experimento científico. Se ele é um problema com animais, é um ainda maior com humanos. Para lidar com isso, duas técnicas são especialmente importantes: a randomização, para impedir que dados sofram uma seleção involuntária, por exemplo; e os testes duplo-cego, onde tanto experimentadores quanto sujeitos desconhecem se são parte do grupo de controle ou não.

Assim, e finalmente chegamos ao ponto, para saber se a homeopatia ou a acupuntura realmente funcionam, pode-se imaginar que testes com animais sejam os mais seguros, mas como Rolf e Hans demonstram, não é o caso. O que sabemos sobre os animais geralmente passa pela interpretação de um ser humano. Mais importante que animais são protocolos rigorosos, randomizados, duplo-cegos, com amostras apropriadas.

Uma das mais extensas e recentes meta-análises sobre a homeopatia, levando em conta este rigor, concluiu justamente que os efeitos clínicos da homeopatia são compatíveis com efeitos placebo. Outro estudo especialmente revelador sobre a acupuntura demonstrou que não é preciso usar agulhas penetrando a pele, tampouco seguir as supostas linhas de energia no corpo que acupunturistas se orgulham em aprender: “acupuntura de faz-de-conta” com palitos de dente cutucando pontos aleatórios do corpo mostrou os mesmos efeitos benéficos. Efeitos placebo, por definição.

Há mesmo discussão sobre se o efeito placebo em geral seria tão poderoso: seu efeito seria maior justamente nas moléstias físicas relatadas subjetivamente pelos pacientes. Mudanças bioquímicas mais objetivas seriam menos acentuadas, sugerindo o efeito placebo como conhecido na literatura científica pode estar ainda sujeito a nuances experimentais tão básicas como o efeito Hans Esperto.

Neste contexto, não é surpresa que exista confusão e um ou outro estudo pretendendo demonstrar a validade desta ou daquela prática “alternativa”. E para quem ria do cão filósofo, bem, ninguém menos que Carl Sagan dedicou longas linhas às impressionantes habilidade lingüísticas de chimpanzés, no que hoje é uma linha de pesquisa vista com mais ceticismo – interpretada como resultado de efeitos não tão diferentes do Esperto Hans.

E Sagan ganhou um Pulitzer por tal livro. Enquanto cachorros, cavalos ou chimpanzés não escreverem livros sem a ajuda de nenhum facilitador humano e a homeopatia ou acupuntura não fornecerem cura comprovada para uma única doença que não possua remissão espontânea, eu recomendaria cautela.

[Del Debbio] A questão do Efeito Placebo é um dos assuntos que mais fascinam e, ao mesmo tempo, mais causam controvérsias entre a classe científica. Apesar de todo o conhecimento que a ciência hoje possui, o efeito placebo ainda permanece um mistério e todo artigo sobre ele ainda é bastante incompleto e controverso. Seu bom ou mau uso pode significar uma vida, principalmente enquanto seus efeitos são pouco conhecidos a fundo e seu funcionamento, isto é, como realmente age o caminho da cura, ainda é alvo de muitas especulações, especialmente se quisermos reduzi-lo apenas ao Plano Físico.

Hoje, a definição oficial é que o Placebo é uma substância inerte ou inativa, a que se atribuí certas propriedades (como as de cura de uma doença) e que, ingerida, pode produzir um efeito que suas propriedades não possuem. Muitas pessoas que ingerem, por exemplo, um pedaço de papel dobrado meticulosamente e contendo uma oração, revelam melhoras de uma doença, imaginando ter tomado um remédio feito especialmente para essa doença. No plano físico, não há explicação aparente. Pela lógica, a cura não deveria ter se realizado. Para os hermetistas, diz-se que a cura ocorreu no Plano Mental e Emocional, e se propagou até materializar-se no Plano Físico, resultando na cura.

Mas o placebo não existe apenas em forma de uma substância. Uma cirurgia espiritual kardecista ou a intervenção de uma entidade da Umbanda, por não poder ser testada pelos métodos científicos atuais, pode ser chamada de placebo. A pessoa operada sente o corte, sente a sutura e fica curada do mal que a afligia sem passar por uma cirurgia convencional. Tais casos, no entanto, são raros demais para serem exaustivamente testados em laboratório, mas temos muitos casos documentados como, por exemplo, o médium João de Deus.

Uma terapia também faz às vezes de um placebo, onde às técnicas dessa terapia se atribui um tipo de cura e isso realmente acaba acontecendo. As chamadas terapias alternativas, como os florais, os cristais, a radiestesia e muitas vezes a própria psicoterapia ainda são consideradas por uma grande parte da ala científica como um placebo, embora a cada dia existam mais e mais trabalhos científicos demonstrando a eficácia de técnicas como florais, acupuntura e Reiki, especialmente em animais.

A resposta placebo é uma pedra fundamental, infelizmente rejeitada na cura mente-corpo. Histórias de cura espontânea ou consideradas “milagrosas” são menosprezadas pela ciência, devido à nossa mente racional, como resultados não confiáveis, quando deveriam ser estudadas a fundo.

Em seu livro “A Psicobiologia de Cura Mente-Corpo”, Dr. Ernest Rossi diz que a premissa da ciência, neste caso, se aproxima de algo como "não é confiável, portanto não é real". Ele explica que, para uma parte da ciência, que tem uma abordagem focada na “venda de alopatia”, o efeito placebo é simplesmente um "fator aborrecido", quando o bem estar mental e emocional do paciente é tão importante quanto matar bactérias.

Se o chamado efeito Placebo realmente tem um papel fundamental no desempenho dos sistemas simpático, parassimpático e nos outros sistemas do organismo, a expectativa de cura pode ser considerada como uma espécie de “certificado de garantia” para o funcionamento do corpo como algo completo (como estudam os hermetistas). De acordo com a teoria espiritualista, o locus de cura está dentro do organismo do próprio indivíduo, bastando ver que algumas doenças, mesmo sem remédio, também se curam espontaneamente. Para outras, mais graves e que já estão plenamente manifestadas no Plano Físico, a cura só será atingida através de alopatia (a solução para este problema, infelizmente, deveria ter sido a prevenção e uma vida mais saudável e a doença é o karma que se adquire por estragar o corpo com maus hábitos, nesse caso). É importante salientar que não se pode generalizar de maneira nenhuma nessa questão, sendo cada caso um caso específico (o que, infelizmente, dificulta a avaliação em laboratórios, causando um círculo vicioso do qual estamos emergindo somente agora).


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[1] Gostaria de deixar claro que não defendo os tratamentos alternativos em substituição aos tradicionais, mas não vejo nenhum problema em usá-los como tratamento complementar, dependendo de cada caso específico.

[2] Sobre o assunto, gostaria de citar o estudo da Associação Médica Brasileira - Acupuntura: bases científicas e aplicações; Assim como esta reportagem do Globo Repórter (30/06/2006), da TV Globo.

[3] No caso dos cachorros citados acima, eles “escreviam” através de batidas de uma das patas dianteiras, de onde seus donos associavam letras do alfabeto – de acordo com o número de batidas em sequencia.

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Crédito da foto: Portal ANDA/Globoesporte (retirada deste artigo da CRMV-AL)

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27.1.12

Os memes existem?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Os sufis dizem que assim como muitos germes nascem e se desenvolvem como seres vivos, de forma análoga, existem também muitos seres no plano mental, chamados ‘muwakkals’ ou elementais [1]. Estes são entidades ainda mais etéreas nascidas do pensamento humano, e assim como os germes vivem no corpo humano, tais elementais sobrevivem de seus pensamentos. Segundo os místicos do Islã, os pensamentos também passam por nascimento, juventude, velhice e morte. Eles trabalham contra ou a favor dos homens de acordo com sua natureza. Os sufis afirmam que os criam, elaboram e controlam.

Um meme – conceito proposto pelo biólogo britânico Richard Dawkins – é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, etc. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação é conhecido como memética.

Há uma clara correspondência, no mínimo conceitual, entre os ‘muwakkals’ e os memes. Porém, afinal: os memes existem mesmo?

[Mori] Para Dawkins, o ser humano é originalmente um autômato, uma máquina servindo cegamente aos desmandos dos genes egoístas, interessados unicamente em replicar-se. O que transmitimos aos nossos descendentes não é nosso suor, não são nossas cicatrizes, e sim nossos genes. Do ponto de vista dos genes, toda a evolução serve a seus propósitos – nós, os organismos, somos apenas veículos para sua replicação e quando há um conflito entre o bem do organismo e o bem dos genes que carregamos, os genes sempre ganham, porque afinal, são apenas eles que permanecem na evolução, enquanto organismos vêm e vão.

É nesse contexto que ele introduz também a ideia de meme. Seu conceito-chave não é apenas o de um ser vivo de pensamentos, que nasça, cresça e morra, em um ciclo de vida completo. Essa é uma ideia fascinante, mas uma que de fato não é nova. A ideia chave dos memes é a de um pensamento que se *reproduz* e como tal apresentará os mesmos aspectos que os genes egoístas: seu subtrato serve como mero autômato para sua replicação. Pouco importa se o hit “Ai se eu te quero” é uma melodia sofisticada ou uma letra tocante que beneficiará o ouvinte, o que importa é que é uma melodia grudenta que se fixa em sua mente, ecoa e se replica.

Tanto o gene egoísta quanto o meme são conceitos derivados diretamente da Teoria da Evolução de Charles Darwin, e o crédito pela sacada genial de que *toda* unidade de informação que se replica com variação em um ambiente de recursos limitados irá evoluir e se sofisticar em seu “egoísmo”, encontrando formas cada vez mais eficientes e surpreendentes de se replicar, é todo de Darwin. Os muwakkals são criados pelos sufi, as egrégoras são criadas por grupos de pessoas; já os memes são unidades que foram criadas em algum ponto por uma mente, mas a partir daí, se reproduzem e evoluem por si mesmas e sua ideia central é justamente a de que não são controladas pelas mentes, mas as controlam para replicar-se. Antes de Darwin, nenhum pensador havia entendido a importância da auto-replicação e o poder da evolução que emerge inevitavelmente a partir dela. Depois de Darwin, Dawkins tomou a replicação como conceito central para interpretar a evolução, não só na biologia, com os genes, como na própria cultura, com os memes.

Dito isso, Dawkins está certo? Os memes existem, os genes são “egoístas”, seríamos meros autômatos à mercê de genes e memes? Isso me lembra o meme do cachorro que, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que ele deve ser um deus muito generoso. Já o gato, ao receber todo dia comida e abrigo do ser humano, conclui que deve ser um deus para receber tanta reverência da criatura de duas pernas.

Ultimamente, e mesmo cientificamente, os conceitos do gene egoísta e dos memes e memeplexos de Dawkins são apenas metáforas e mesmo, por que não, mitologias que buscam interpretar a evolução de seres vivos e da cultura. Não estão propriamente corretos ou errados, são apenas interpretações. Eles têm sua utilidade, mas não devem ser encarados como algo tão rigoroso, estabelecido ou mesmo relevante quanto a ideia da própria evolução através da seleção natural. Genes e memes são unidades de replicação, mas o genótipo em verdade não é o único determinante do fenótipo, nem a única informação que é transmitida no tortuoso caminho evolutivo. Quanto aos memes, é ainda mais complicado isolar unidades de cultura em replicação. Sem dúvida existem modas, existem músicas grudentas, existem piadas na internet que até a Luíza, que está no Canadá, deve conhecer como memes. O conceito é uma ideia poderosa, mas vaga [2].

Dawkins promoveu os conceitos dos genes egoístas e dos memes, e de nós como meros veículos autômatos para sua replicação, justamente para que pudéssemos, ao nos tornarmos conscientes destes programas cegos, tomar as rédeas da situação e buscar valores maiores. Aqui, sim, os memes se reencontram com os muwakkals e as egrégoras, à medida em que Dawkins defende que sejamos nós a criar e controlar os memeplexos, atentos ao seu poder e tendência de que adquiram vida própria, repliquem-se e transformem-se em criaturas além e maiores que seus criadores.

O paradoxo é que se apegar demais a essa ideia é se apegar a um meme dominante.

[Del Debbio] William S. Burroughs nos alertou, em 1959, em seu livro Naked Lunch, que a “Linguagem é um Vírus”.

Para os Cabalistas e Hermetistas, existem quatro Mundos ou Planos de Existência, correspondentes simbólicos aos quatro elementos tradicionais. São eles o Plano Material (Terra), o Plano Mental (Ar), o Plano Emocional (Água) e o Plano Espiritual ou Filosófico (Fogo ou Luz).

Todos os objetos existentes no Plano Material um dia existiram no Plano Mental e Emocional. Uma pintura, antes de se tornar uma imagem, existiu como uma idéia na mente do pintor. Uma dança, um jantar, uma casa, uma cerimônia de casamento, um produto manufaturado... todas as ações e objetos físicos possuem sua  origem em algum ponto do Plano Mental, onde existem em uma realidade própria.

Estas idéias nascem, crescem, reproduzem, sofrem mutações e eventualmente morrem, seguindo os mesmos passos de toda a Teoria da Evolução. A única diferença é que não possuem corpos físicos, sendo percebidos e armazenados em invólucros materiais (cérebros, livros, filmes, áudios, textos, imagens...) onde podem saltar de uma mente para outra e interagir com outras idéias que tenham contato com aquele invólucro.

Estes pensamentos podem formar grupos semelhantes, chamados pelos cientistas de Memeplexes e pelos ocultistas de Egrégoras. Pelo ponto de vista filosófico, eles não apenas existem, mas possuem um poder tremendo de realização no Plano Material.

Uma idéia, por si só, não é capaz de realizar nada no mundo físico mas, através de seus portadores, consegue se materializar em grandes escalas e com grandes alcances. Toda marca, símbolo ou logo é uma presença física de um objeto mental. Pessoas que defendem uma determinada idéia tornam-se veículos de propagação desta Egrégora e, portanto, definem o poder de alcance desta entidade. Vemos isso em religiões (ou ateísmo), em posições políticas, sociais, times de futebol, hobbies e até na escolha de marcas de produtos que levaremos para casa. Sua mente é uma selva onde uma fauna gigantesca de idéias batalham pela sobrevivência do mais adaptado!

Na Árvore da Vida, estas esferas de consciência estão representadas por Chesed (A Misericórdia) e Geburah (o Rigor). Chesed representa a expansão e o avanço de uma idéia, tomando tudo e todos ao redor até que ela seja onipresente; nas mitologias, é representada pelos deuses-pais e conselheiros, como Zeus, Odin, Wotan, Poseidon ou Oxossi; na literatura são representados pelos conselheiros como Merlin, Gandalf, Yoda e Dumbledore. Chesed representa o rei; a proteção da tradição, a biblioteca do castelo e todas as folhas da floresta de idéias.

Geburah, por sua vez, representa o fogo que destruirá qualquer idéia que não se adapte ao processo de evolução daquela entidade mental. Representa o exército, os deuses da guerra como Ares, Marte, Kali, Thor ou Ogun; responsáveis pela destruição do ego e considerados os defensores do Reino. Podemos ver esta energia se manifestando todas as vezes que alguém defender seu ponto de vista (intelectualmente, logicamente, passionalmente ou mesmo através da violência, truculência ou medo... são apenas escalas de manifestação).

Do equilíbrio entre Chesed e Geburah surge a Força (cuja representação pictográfica é o Arcano 8 do Tarot), as condições ideais para que os mais adaptados sobrevivam e prosperem, sabendo quando expandir e quando restringir seus passos. A defesa e o ataque; recrutar e selecionar; expandir e proteger...

Embora a ciência e o método científico estejam atualmente restritos ao Plano Material e alguns filósofos, como John N Gray e Luis Benitez-Bribiesca, considerem as teorias de memes como sendo pseudo-ciência, os memes foram o maior avanço fora da filosofia para se tentar estudar o conceito de Egrégora até agora.


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[1] Saiba mais sobre o muwakkals neste texto em inglês: “The mysticism of sound” (O misticismo do som).

[2] Nota do Mori: O episódio final da série mais recente de documentários de Adam Curtis, na BBC, é uma crítica severa ao gene egoísta e tangencialmente aos memes.

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Crédito da imagem: Rafael Arrais (ali temos o Richard Dawkins a esquerda, e Rumi - grande sábio sufi - a direita [pintura antiga]; também temos uma ilustração de Sam Spratt no centro [meme face])

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17.1.12

O que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Na mitologia grega, Prometeu foi um titã defensor da humanidade, conhecido por sua astúcia e inteligência. Ele foi responsável por roubar o segredo do fogo divino e dar aos mortais, ato que foi severamente punido pelos deuses...

Há muito tempo o homem tem sondado os segredos da natureza, e desde cedo houveram muitos que afirmavam que era inútil seguir adiante: não se podia desafiar aos deuses. Mas outros, tal qual Prometeu, não esmoreceram ante o desconhecido, e é precisamente graças a esses últimos que devemos boa parte de nossa filosofia, ciência e – porque não dizer – espiritualidade.

Este paradoxo entre a inconcebível natureza da Natureza – parafraseando Feynman – e o nosso esforço para compreendê-la e domá-la, tal qual um tigre feroz, é algo que permeia toda a história de nossa cultura. Os avanços científicos, no entanto, têm espantado e assustado a muitos: a mesma energia (nuclear) que abastece um hospital pode dizimar cidades inteiras em segundos; os cientistas não só mapearam o genoma humano como prometem um dia “reprogramar” os corpos de nossas crianças ainda na gestação; etc. Tudo isso levanta profundas questões éticas.

Nesse contexto: estaria tal conhecimento relegado as trevas (como querem os fundamentalistas)? Ou ainda é possível unir os avanços científicos com o debate ético que permeou nossa cultura desde o advento das primeiras religiões? Em suma: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?

[Del Debbio] Antes de responder a esta pergunta, é necessário que se faça uma separação e explicação da diferença gritante entre Religião e Espiritualidade. No mundo de hoje, infelizmente, estas duas palavras estão misturadas no meio de muita ignorância e fundamentalismo dogmático.

Espírito, para os ocultistas, representa o sopro de realização divina que habita em todos os homens, que conhecemos como “Inspiração”. Espírito é definido pelo conjunto total das faculdades intelectuais. Ele é freqüentemente considerado como um princípio ou essência da vida incorpórea (religião e tradição espiritualista da filosofia), mas pode também concebida como um princípio material (conjunto de leis da física que geram nosso sistema nervoso).

Na Antiguidade, o sopro e o que ele portava (Alef, o som, a voz, a palavra, o nome) continha a vida, seja em protótipo, em essência ou em potência (mítica). No tronco judaico-cristão das religiões diz-se que “Deus soprou o barro para gerar o (ser no) homem”. Simbolicamente, a terra representa à parte material do corpo e o sopro a parte de nossa consciência que até hoje não foi reproduzida em laboratório; estando, portanto, além dos domínios do método científico atual.

Religiões, por outro lado, são invenções humanas. Grilhões da vontade moldados por pessoas que se utilizam da falta de conhecimento e estudos de outras para obter poder e dinheiro sobre elas. Um verdadeiro veneno da humanidade.

Sendo a Espiritualidade a busca constante pelo conhecimento e pela pesquisa dentro da Ética, a Ciência pode ser considerada a irmã mais nova da espiritualidade, ao lado das Artes e da Filosofia. Porém, a ciência, tal qual a arte e a filosofia, são amorais.

Desta maneira, a espiritualidade deve sempre guiar a utilização do conhecimento em busca do bem maior e do desenvolvimento da humanidade. Os Iluministas e alquimistas chamaram este movimento de “Humanismo”. O humanismo, da maneira como os alquimistas o vêem, propõe ao ser humano a realização de um processo de evolução que o leve a superar suas qualidades até alcançar a excelência de sua condição humana. González Pecotche afirma que o humanismo é "parte do próprio ser sensível e pensante, que busca consumar dentro de si o processo evolutivo que toda a humanidade deve seguir. Sua realização nesse sentido haverá, depois, de fazer dele um exemplo real daquilo que cada integrante da grande família humana pode alcançar".

Não é de se espantar que, em sociedades nas quais as casas e barcos eram construídos com madeira e pedra, seus deuses possuíam como principal arma um martelo. O Martelo, simbolicamente, representa a vontade e o conhecimento técnico que pode ser usado tanto para construir quanto para esmagar a cabeça de um inimigo. Só depende de quem o estiver utilizando.

[Mori] Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que iremos resolvê-los, definiu melhor do que ninguém Isaac Asimov. Nossas mitologias de certa forma refletem esta sabedoria. Na mitologia grega em Hesíodo, o conhecimento concedido à humanidade representado pelo fogo de Prometeu é punido por Zeus através de Pandora e sua caixa. Todos os males do mundo são uma punição pelo conhecimento roubado dos deuses, e eles não podem ser contidos novamente. Mesmo no mito do Jardim do Éden, é curiosamente também uma mulher a levar ao pecado original do fruto do conhecimento, que uma vez provado leva à expulsão sem volta de Adão e Eva do Paraíso. Conhecimento é um atributo divino, mas todos os problemas que ele causa são um caminho do qual não há retorno.

Seria então o conhecimento uma maldição? Tanto na mitologia grega quanto na cristã, entende-se que éramos imortais antes do conhecimento, mas Carl Sagan em Os Dragões do Éden fornece uma interpretação profunda a estas mitologias ocidentais: não é que fôssemos realmente imortais, é que simplesmente não possuíamos conhecimento sobre a morte. Um papagaio pode ser imortal simplesmente porque jamais entenderá que um dia irá morrer. Ele é imortal enquanto vive. A ignorância pode ser uma benção, mas é uma que ultimamente nos iguala aos animais, e neste sentido, mais do que benção a ignorância é, ela sim, uma maldição. É justamente no desafio aos deuses na busca do conhecimento que nos aproximamos de algo divino.

Depois de milênios, e indo muito além dos antigos gregos, sistematizamos a aquisição de conhecimento sobre o mundo natural através daquilo que chamamos de ciência. E avançamos incrivelmente, o que antes os gregos especulavam, como os átomos, hoje conhecemos e manipulamos em seus componentes, dos elétrons à tecnologia nuclear, um tipo de fogo fundamentalmente diferente, com poder e ordens de magnitude maior. É um novo fogo de Prometeu. Seria uma nova maldição?

O problema não é o conhecimento, é a sabedoria, ou a falta dela. Não conseguimos sistematizar a aquisição de sabedoria. A filosofia tenta promovê-la e muitas religiões tentam se apropriar dela, mas nenhuma delas é tão bem sucedida na aquisição de sabedoria quanto à ciência o é na aquisição de conhecimento. Em efeito, pode-se dizer que parte das religiões e filosofias é contrária à busca tanto por sabedoria quanto por conhecimento, retraindo-se ao invés no dogma e na ignorância. São tudo aquilo de que não precisamos.

É neste desequilíbrio entre o sucesso espetacular da ciência na busca por conhecimento e o fracasso em termos da filosofia e da religião na busca por sabedoria que nos encontramos hoje. Muitos percebem esta preocupante situação, e apelar à espiritualidade, como um conceito anterior à religião, é uma resposta buscada assim como aqueles que buscam a religiosidade ao invés da religião.

São tentativas, embora fundamentalmente estas abordagens difiram apenas em seu escopo, ao promover uma busca por sabedoria individual ao invés daquela ditada coletivamente. No ponto em que promovem o livre arbítrio e o questionamento são positivas, mas deixam de lado algo da sabedoria que a coletividade também pode oferecer.

Acredito que além da espiritualidade e da religiosidade, como sentimentos individuais; além da filosofia e da religião como práticas coletivas, há algo mais promissor na busca por sabedoria tão necessária para lidar com os desafios impostos pelo conhecimento: o livre debate fundamentado nesse mesmo conhecimento.

Temos hoje as ferramentas tecnológicas para o livre debate como nunca antes tivemos, porém nos falta um conhecimento compartilhado sobre as questões que precisamos debater. Temos espiritualidade, temos religiosidade, temos conhecimento acumulado em livros, computadores, cientistas, mas falta conhecimento democratizado, popularizado. De pouco adianta querer o bem de todos se ao discutir sobre a energia nuclear, não se sabe realmente o que é um átomo. Não há sabedoria sem conhecimento.

Se o conhecimento pode criar problemas a todos nós, é compreendendo-os coletivamente que iremos resolvê-los.


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Crédito da imagem: Jean-Pierre Lescourret/Corbis (estátua de Prometeu, com Rockfeller Center ao fundo)

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1.1.12

Que é a fé?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Por muitos anos a física experimental esteve sempre a anteceder a teórica: primeiro a natureza era observada, ocorriam experimentos, e somente depois os cientistas elaboravam teorias para os resultados. Recentemente, no entanto, a física têm também considerado teorias que se sustentam apenas em modelos puramente matemáticos, e ainda não puderam ser testadas – como a Teoria das Supercordas. Há físicos que dedicam suas carreiras a tais estudos, na esperança de que um dia possam se comprovar.

Há fundamentalistas que creem que a fé é “a única salvação”. Há também anti-teístas que consideram toda a fé praticamente um “veneno para a mente”. Todavia, parecem haver vários tipos e gradações de fé. Sto. Agostinho defendia o “crer para compreender, compreender para crer”. A fé raciocinada, conectada ao que podemos observar na natureza, e sem se aventurar desprevenida pela imaginação pura, parece ser a fé dos religiosos mais moderados.

Portanto: o que são esses vários tipos de esperança, de convicção, de fé?

[Del Debbio] A Fé, do latim Fides (Fidelidade) e do grego Pistia, é definido como a opinião de que algo é verdade sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão. A maioria dos anti-teístas possuem uma visão muito deturpada do que seja a palavra fé, associando-a à religiões dogmáticas ou à crença em seres ditos sobrenaturais, mas todas as pessoas possuem em maior ou menor grau este atributo, já que ele é vital para a manifestação de nossas vontades.

Na Kabbalah, a Fé é um atributo da esfera de Netzach, associado às Emoções. Ela se manifesta ao lado de Hod (a Razão, cujo atributo associado é a Vontade/Thelema) e Yesod (o Subconsciente, cujo atributo relacionado é a Imaginação/Imago). Esta tríade de sensações, aliada aos recursos materiais (Malkuth), define nossa capacidade de realização de uma ideia.

No diagrama simbólico da Árvore da Vida, sempre que pensamos em algum projeto, seja ele qual for, em primeiro lugar precisamos imaginar o que queremos. Quando maiores nossos conhecimentos, imagens, sensações e experiências, maior o leque de opções que temos para nossas escolhas. Este é o primeiro passo.

Em segundo lugar, temos de ter a Vontade para realizar nosso desejo, caso contrário ele deixa de ser um desejo e se torna um devaneio etéreo. Este é um atributo da esfera da Razão (Hod). A razão vai nos guiar através de dezenas ou centenas de trajetos possíveis, de desvios e possibilidades, mantendo-nos firmes em nossas escolhas racionais. De nada adianta desejarmos alguma coisa se não for feito um esforço ativo de vontade para conseguí-la.

Finalmente, entra a fé. Temos todos os ingredientes e indicativos de que iremos realizar nosso projeto, mas ainda não o realizamos. Isso só sairá do reino das probabilidades até o reino das certezas quando efetivamente ocorrer. Até lá, mesmo o ateu anti-teísta mais fanático precisa deste elemento imaterial chamado fé, em maior ou menor grau, que irá propulsionar sua vontade. Nem que seja a fé em si mesmo.

E aqui entra o ponto chave desta questão. A Fé, por si só, não realiza nada sozinha. Ela é o caminho até a finalização do desejo, passando pela Vontade e pela Imaginação. Quando estas três esferas de pensamento estão desequilibradas, a ação idealizada no Plano Mental não se manifesta no Plano Físico (Malkuth), perdendo-se em algum ponto do caminho.

Uma pessoa com Vontade e Fé, mas sem Imaginação não terá muitas opções de escolha. Uma pessoa com Vontade e Imaginação, mas sem Fé, desiste no meio do caminho por achar que não conseguirá fazer. Uma pessoa com Imaginação e Fé, mas sem Vontade, ficará aguardando um milagre acontecer.

Infelizmente, nesta cruzada ateísta-religiosa atual, o termo “fé” tem sido confundido com “crendice dogmática”, talvez propositadamente, de modo a separar os dois grupos ainda mais, talvez por ignorância do que o termo realmente signifique. Do outro lado, lideranças religiosas-dogmáticas transformaram o termo em “fazedora de milagres” para angariar incautos para suas causas. A resposta está no meio termo entre a Razão e a Emoção.

[Mori] A questão merece uma boa história que comemora neste início de ano exatos 100 anos. Em 1912, um meteorologista alemão propôs uma ideia absurda: a terra firme em que pisamos, de fato todos os continentes, estariam na verdade em movimento. Qualquer criança pode recortar um mapa-múndi e ver como a América do Sul e a África se encaixam quase perfeitamente, mas o alemão Alfred Wegener foi além e acumulou outras evidências, indo de formações rochosas a fósseis – animais há centenas de milhões de anos cruzavam o que hoje é o Brasil e a África sem um oceano Atlântico no caminho.

O que hoje é óbvio levou mais de meio século para ser aceito pela geologia, para nossos avós essas ideias ainda eram controversas, especialmente se um deles fosse geólogo. Não se sabia como os continentes poderiam ficar à “deriva”, literalmente como peças soltas, e Wegener sugeriu inicialmente que o movimento talvez se desse pela rotação da Terra, ou mesmo por uma precessão astronômica, no que estas ideias foram ecoadas pelo escritor HP Lovecraft. Cthulhu estava à frente da geologia da época.

Wegener morreu brava e prematuramente em busca de mais evidências, em uma duríssima expedição na Groenlândia. Jaz até hoje no local onde sucumbiu à exaustão em meio à neve. A despeito da veemente rejeição que encontrou, Wegener tinha convicção em sua teoria. Em certo sentido, podemos dizer que tinha fé, uma “fé raciocinada”, uma crença justificada.

É apenas a crença obstinada que pode levar uma pessoa a dedicar sua vida em esforços quase sobre-humanos em torno de uma ideia. Algumas das mais revolucionárias são justamente aquelas que em seu início podem não parecer muito razoáveis, e é a fé, por definição, que levará alguém a explorá-la a despeito da ausência de evidência ou mesmo do que aparente ser evidência contrária.

A fé, por outro lado, por si só não leva a nenhum lugar mais distante do que aqueles a que fomos nas épocas mais obscuras da Idade Média. Wegener não se resumiu a brincar com um mapa-múndi e a professar sua fé no movimento dos continentes; ele viveu e morreu observando o mundo e testando sua teoria. Morreu, de fato, sem nunca descobrir que também estava errado, pois o verdadeiro mecanismo que responde pelo movimento dos continentes foi aquele que finalmente levou à aceitação da “deriva”. Em verdade os continentes fazem parte de placas tectônicas, e os cientistas que rejeitaram a teoria de Wegener sobre continentes soltos pelo planeta em rotação não estavam completamente errados.

O equilíbrio entre a admiração e o ceticismo, entre a fé e a razão é o caminho do meio que é tão fácil de ser apontado, mas tão difícil de ser seguido. A ciência é, no entanto, e talvez surpreendentemente, uma das formas mais promissoras de trilhá-lo. O equilíbrio se pratica pela rejeição aos extremos, e poucas atitudes o demonstram melhor do que a humildade de reconhecer um erro. Isto é, se a fé pode nos guiar em momentos de pouca evidência a caminhos que apenas posteriormente confirmamos serem corretos, é a razão que pode nos levar a reconhecer que por vezes nossa fé pode estar simplesmente errada.

Há alguns meses escrevi sobre o professor Edward Nelson, que dedicou anos de sua carreira a uma ideia matemática revolucionária. Em 26 de setembro de 2011, ele a divulgou. Em alguns dias, sofreu enorme rejeição da comunidade acadêmica. Em 1 de outubro, Nelson escreveu a um de seus principais críticos: “Obrigado por apontar o meu erro”. Ele reconheceu seu erro e voltou atrás em sua ideia. Em ciência, é comum que isso ocorra. Mais comum do que em qualquer outra área do empreendimento humano.

Graças ao reconhecimento de seus erros fundamentando melhores acertos, graças a esta humildade fundamental, a ciência e a física em particular avançaram a passos tão largos que hoje podemos medir o movimento dos continentes em tempo real com a precisão de centímetros, vindicando a ideia central de Alfred Wegener à todo momento. E é justamente esse progresso vistoso que faz com que as teorias mais sofisticadas da física, como a das supercordas, sejam tão complexas e tão refinadas que mal se podem testá-las.

Sem testes, aceitá-las seria pura fé? Não exatamente, elas se fundamentam em uma série de outras teorias testadas à todo momento. Por outro lado, como toda ciência, elas sim envolvem tanto fé quanto razão, e o equilíbrio delicado entre elas arbitrado pelo mundo real mostrará onde estivemos certos – e onde estivemos errados.


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Crédito da imagem: Louie Psihoyos/Science Faction/Corbis (Giuseppe Leonardi é padre e paleontologista)

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23.11.11

Que é, afinal, a vida?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Em sua origem na pré-história, há enorme evidência de que as crenças religiosas antigas compreendiam a natureza como uma espécie de “teia viva”, onde cada elemento natural era animado por algum espírito. Com o advento das doutrinas monoteístas, tais crenças foram reprimidas, e houve época em que se acreditou que escravos e animais não tinham alma...

Também na ciência, o que “anima” a matéria é um mistério. O astrobiólogo Chris Impey (citando a microbiologista Lynn Margulis) diz que “certamente ir de uma bactéria a um chimpanzé é um passo menor do que ir de uma mistura de aminoácidos a uma bactéria” [1]. A vida parece desafiar a entropia universal, mas ao mesmo tempo sabemos que somos também formados por elementos inanimados, forjados em estrelas distantes.

Essa sem dúvida não é uma questão fácil: que é, afinal, a vida?

[Mori] Bem, levou menos de um bilhão de anos desde a formação do planeta para que surgisse vida em sua superfície, na forma das células mais simples. Passaram-se quase 3 bilhões de anos para que essas células ficassem mais complexas e formassem o primeiro organismo multicelular. É algo difícil de compreender, mas foi à parte mais longa da jornada da vida na Terra. Mais longa do que o caminho dos aminoácidos à primeira célula, e mais longa do que o caminho das bactérias até o chimpanzé.

A analogia mais poderosa – e provocadora – que eu poderia oferecer aqui é à própria vida de Jesus segundo o evangelho. Damos muita importância ao seu nascimento, bem como à sua trajetória depois que começou a pregar seus ensinamentos, já adulto, já como uma forma de vida multicelular desenvolvida. Porém a maior parte da vida de Jesus, cronologicamente, é algo como a maior parte da duração da vida na Terra. Não se passou em seu surgimento ou na sua espantosa evolução de bactérias a chimpanzés. Foi bilhão, bilhão, e mais um bilhão de anos como formas de vida muito simples evoluindo muito lentamente.

Então, sim, a distância de um chimpanzé a uma bactéria é um tanto menor do que a de uma bactéria, eucariota, a uma sopa de aminoácidos, mas nosso entendimento científico hoje fornece uma perspectiva inusitada. Vida simples, como a que surgiu em um piscar astronômico de tempo na Terra, pode ser muito comum por todo o Universo. O “mistério” do surgimento da vida pode ser em verdade um caminho natural da físico-química. O lampejo do aminoácido à célula se acende rápido. Vida elementar pode ser ubíqua pela Galáxia. Porém o monte improvável dessa vida simples até organismos multicelulares seria extremamente difícil de escalar, ainda que uma vez vencido, leve então a uma explosão de diversidade e complexidade biológica que possa levar, inclusive, a macacos que vislumbrem todo este processo.

No que eu deva parecer me desviar da pergunta principal e ater-me a detalhes, mas veja, aqui está uma das belezas da ciência. Dos detalhes observados e comprovados no mundo que nos cerca, do conhecimento direto do mundo natural, podemos extrair visões que dificilmente atingiríamos pela mera filosofia. A partir destes detalhes constatamos um aparente paradoxo profundo, pelo qual a maior dificuldade não é nem que a vida surja, nem que evolua de uma simples bactéria a um cientista que estude bactérias, mas que dê o salto de uma célula simples a um simples grupo de células com membranas.

Parece menos misterioso, e mais relacionado à entropia, probabilidades e seleção natural, não? Pois essa é a perspectiva factual que a ciência pode oferecer sobre a vida. E uma provisória, claro, sempre aberta a novas descobertas.

Mas afinal, o que é a vida? Dificilmente encontraremos muitos biólogos dedicando suas vidas em busca da definição última do que seja a vida. Trabalham sim com definições utilitárias, úteis dentro de seu campo, e que possam ser deixadas de lado tão pronto se altere o contexto da pesquisa. Não se confunde o mapa com o território, o mapa é apenas uma ferramenta para conhecer o território.

Há um vasto território a se conhecer sobre a vida, muitas surpresas mais antes que possamos nos atrever a definir de uma vez por todas o que é, afinal, a vida. E a ciência não é, por certo, a única forma de explorar o que é, afinal, a vida. Não apenas pareço me desviar da pergunta principal, ela é mesmo difícil e eu realmente não posso respondê-la, afinal. Só espero que o desvio tenha valido a pena.

[Del Debbio] O maior problema em se definir “Vida” é que, para o Hermetismo, a vida não é um objeto ou substância, mas sim um processo contínuo.

A definição mais aceita de vida na biologia, segundo Paul Davidson (How to Define Life, University of Alabama), é que vida é definida por qualquer ser que apresente os seguintes fenômenos: Homeostase (regulação do ambiente interno para manter um estado constante); Organização (ser composto de células); Metabolismo (a transformação de energia em ingredientes essenciais para a sobrevivência das células); Crescimento; Adaptação; Resposta a Estímulos e Reprodução.

Para os Hermetistas, esta definição pode ser estendida também para Pensamentos e Emoções. Pensamentos (e emoções) nascem; crescem; desenvolvem-se; regulam-se para que continuem existindo; organizam-se em idéias, vontades e Egrégoras; utiliza-se de energia dos hospedeiros (as mentes); mutam; adaptam-se e eventualmente definham e morrem, seguindo as mesmas regras definidas pelas leis da Evolução de Darwin, apenas mais sutis.

O biólogo Richard Dawkins chamou estas unidades de Memes em seu trabalho de 1976, O Gene Egoísta. Um Meme é considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros ou armazenado na internet). No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma se autopropagar. Os memes podem ser idéias ou partes de idéias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autônoma. Foi o mais próximo que a ciência chegou do estudo das Egrégoras até agora.

Mesmo que o espiritualismo aceite a definição de vida como todo o processo de evolução, dentro ou fora dos corpos físicos, utilizamos o nome “Consciência” para isto, então foge um pouco do escopo específico da pergunta e me fixarei apenas na resposta para a palavra Vita (vital, em latim).

Na Kabbalah, a consciência vital está representada na letra Alef, que conecta simbolicamente as Esferas de Kether e Hochma e representa o “Sopro de Deus” (sem nenhuma conotação sobrenatural; apenas a essência, seja ela qual for, que anima cada ser vivente em particular) e o corpo que esta consciência habita está representado pela letra Beit, que conecta simbolicamente Kether e Binah e representa o “Templo de Deus”.

Quando realizamos nossa Verdadeira Vontade, diz-se que “o Sopro Divino habita o Templo do Ser” (quando nos tornamos pessoas éticas, verdadeiras e honradas, vivendo para um propósito construtivo), então, a partir daí, nos tornamos Alef e a letra Beit passa a representar o templo onde habitamos (nossa casa, nossa escola, nosso trabalho). Quando realizamos nosso dom e modificamos nossa casa, tornando-a um exemplo, a Casa torna-se Alef e a comunidade passa a ser Beit (o espírito da vontade inserido em um novo corpo, em um âmbito maior), e assim, sucessivamente, até que toda a humanidade se torne ética, nobre e honrada, tornando-se Alef, quando o “Templo Sagrado” será o próprio Planeta, modificado para melhor. Nesse simbolismo, podemos considerar o planeta como algo “que tem vida”.

Das letras Alef e Beit temos a origem do termo Alfa-Beta (alfabeto) que forma o conjunto de símbolos que cria e molda nosso entendimento da realidade, ou seja, o corpo total das idéias e pensamentos do Universo (ou memes, se preferir).


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[1] Em O universo vivo (Ed. Larousse). Gostaria também de homenagear a memória de Lynn Margulis com este post. De muitas formas, além da própria citação, ela tem a ver com esta série: casou-se ainda jovem com Carl Sagan, e teve com ele Dorian Sagan, que também é divulgador de ciência. Lynn também defendia ideias "fora da caixa" na ciência, e chegou por exemplo a defender a hipótese Gaia, que considera a própria Terra um ser vivo (o que o Del Debbio chega a citar, dentro do ocultismo, em sua resposta acima). Mas, talvez o mais supreendente é que Lynn faleceu ontém, no mesmo dia em que o Mori enviou sua resposta e me lembrou que o trecho do livro de Impey era baseado em uma citação dela. Vida, morte, e tudo se renova... Mas, citando um grande sujeito (e acho que pelo menos aqui todos iremos concordar): "viver na memória daqueles que nos amam, é viver para além da morte".

Crédito da imagem: Frans Lanting/Corbis

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17.11.11

O que é Deus?

Parte da série "Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência", onde o ocultista Marcelo Del Debbio e o cético Kentaro Mori respondem a uma mesma pergunta (a cada post). Para conhecer mais sobre esses dois distintos participantes, não deixe de ler sobre a premissa da série.

[Raph] Tanto na ciência quanto na religião, a humanidade têm se deparado com conceitos que lhes são transcendentes. Tantas foram às interpretações dos deuses ou das leis naturais, que às vezes parece que cada indivíduo tem sua própria visão deles. O que seria então, para você, o conceito de Deus ou de Cosmos?

[Mori] O Cosmos é tudo aquilo que há, para emprestar a definição de um grande sujeito que falou sobre ele na TV. Etimologicamente o conceito ainda carrega a ideia de ordem e harmonia, desde a Grécia Antiga. Acreditar no Cosmos é assim simplesmente aceitar sua definição englobando todo o Universo; e comprovar ordem e harmonia no mundo talvez só requeira uma olhada no céu noturno com estrelas nascendo e se pondo em uma regularidade que transcende a Humanidade, percebida mesmo por nossos ancestrais mais distantes.

Seria tentador e muito politicamente correto igualar este conceito de Cosmos a Deus, de fato o “Deus de Spinoza” a que Albert Einstein se referiu é muito próximo da ideia de Cosmos de que falamos aqui. O que é um pouco menos conhecido é que o Deus de Spinoza não é apenas mais um tipo de Deus, mas um tipo de Deus definido para rejeitar outros deuses, em particular o tipo de Deus mais popular pelo mundo, o Deus providencial das escrituras. Quando Einstein diz acreditar no Deus de Spinoza, ele não está se incluindo na turma das pessoas que acreditam em Deus, ele está se excluindo.

É preciso questionar conceitos tão abrangentes e flexíveis que acabam perdendo todo seu valor. Uma das primeiras coisas que o ser humano fez no Jardim do Éden, de acordo com a fábula, foi dar nomes aos animais, para diferenciá-los. Carl Sagan, em “Os Dragões do Éden”, interpretou esta fábula como refletindo a importância da linguagem, e é irônico que no pós-modernismo exista essa ideia de que todo significado seja relativo, promovendo um ecumenismo que é em verdade aquilo que George Orwell advertiu com o horror da Novilíngua.

A transcendência que a ciência natural busca, por exemplo, não é a mesma transcendência buscada pela religião – são em verdade conceitos mutuamente exclusivos. A transcendência religiosa está por definição além daquela perscrutável pela ciência natural, que sempre estará limitada por aquilo que possa ser comprovado e observado no mundo que nos cerca. Na religião, se acredita em algo porque é absurdo, do contrário se estará apenas constatando algo. São palavras iguais, mas com usos e definições muito diferentes. Forçar o entendimento de conceitos mesmo contraditórios como parte de uma única ideia é mesmo parte do Duplipensar de Orwell, o ponto cego onde o raciocínio pode ser extinto.

Um ecumenismo politicamente correto onde “todos acreditam em deus de sua própria forma” é um uso político e totalitário da linguagem. Não, quem acredita no deus das escrituras não pode, ao mesmo tempo, considerar que aquele que acredita em Shiva também acredita em deus, ou que aquele físico que diz acreditar no deus de Spinoza também seja teísta. São crenças explicitamente contraditórias.

A verdadeira tolerância é reconhecer estas contradições e respeitar o direito que cada um tem a suas próprias crenças – e descrenças. O Cosmos em que acredito, a ordem e harmonia no mundo que vejo e comprovo, não é deus. É um conceito que se afirma tanto em si mesmo, quanto pela exclusão de outras ideias, que conheço, mas não compartilho com outras pessoas quem, todavia, respeito.

Eu sou ateu.

[Del Debbio] Para os Hermetistas e Cabalistas, Deus é o Universo. A soma de tudo.

Nada de velhinhos barbudos preocupados com o que você faz com a sua genitália; nada de seres relampejantes ou divindades com múltiplos braços, mas a soma de tudo o que pode ser compreendido dentro deste Universo: galáxias, sóis, planetas, continentes, países, estados, cidades, comunidades, casas e, finalmente, cada indivíduo, que passa a ser o deus criador de suas próprias idéias e de todas as ações conscientes, em um fractal infinito de possibilidades.

Para os hermetistas, “Deus” se divide primordialmente em Sabedoria e Entendimento: duas partes que interagem entre si.

Os antigos chineses chamavam estas partes de Yin e Yang; os gregos de Ordem e Caos; os nórdicos de Gelo e Fogo; os católicos de Anjos e Demônios e os cientistas chamam de Física/Matemática e Evolução. Os Cabalistas chamam estas Esferas de Hochma e Binah.

Hochma (a Evolução, Caos, Yang, Fogo, mutação, o Esperma) é compreendida pelos cabalistas como “Sabedoria” porque está associada à idéia de que a sabedoria vem de descobrir algo novo que não estava lá antes.

Como Deus se manifesta de maneira fractalizada, este conceito pode ser aplicado desde as regras de evolução de Darwin até os memeplexes de Dawkins; pode ser aplicado desde as mutações genéticas que desenvolveram toda a miríade de seres vivos diferentes no planeta (uma mutação faz com que algo novo surja dentro da repetição genética) até as variações físicas responsáveis pela gama de estrelas diferentes no universo e a maneira como as formas das galáxias evoluem dependendo da região do cosmos onde estejam. E pode ser aplicada também a uma criança de dois anos que aprende pela primeira vez uma palavra nova.

Binah (As regras, Ordem, Yin, Gelo, o Imutável, o Óvulo) é compreendida pelos cabalistas como “Entendimento” porque está associada à idéia de que somente entendemos o mundo através do processo científico, de escolha, teste e repetição controlados. Binah é a matemática, a física teórica, as regras rígidas e imutáveis que guiam nosso universo e nos permitem “prever” acontecimentos pela certeza de sua repetição (se nada for alterado). Binah é a escolha de UM universo para trabalharmos. Em outros universos, as regras são outras (em outras cabeças, outras idéias)...

A título de curiosidade, a intersecção simbólica entre estas duas Esferas, Hochma e Binah, é feita através da letra “Daleth” que quer dizer “Porta” (a porta de entrada de um universo maior/Hochma para um universo menor/Binah – do deserto para sua cabana, por exemplo) e representa a própria natureza (o Arcano da Imperatriz no tarot). A partir daí, quando Olhamos para cima, temos Kether (“Deus”), quando olhamos para baixo, temos Daath (“Conhecimento”).

Desta maneira, o conceito de “Deus” para os hermetistas depende da escala que você quer trabalhar. O Universo é Deus, mas eu também sou Deus, e o ato de escolher e preparar o meu jantar hoje de noite é Deus; e isso independe de qualquer crença ou descrença.

O problema começa quando as pessoas tentam compreender o que é esta grandiosidade de sensações e experiências através do artifício da antropomorfização (dar forma humana a fenômenos naturais) para tentar explicar o que não pode ser mensurável.

A partir deste momento, a definição e imagem de “Deus” varia de acordo com fatores culturais, temporais, artísticos e espaciais: africanos entendiam esta dicotomia Ordem/Caos como Xangô/Iansã e associavam isto à Montanha (imutável) e à tempestade (caótica), Babilônicos tinham Ea (céu azul e limpo) e Lillith (a tempestade), Egípcios tinham Maat (A Justiça) e Ptah (O escriba de todas as possibilidades), Gregos tinham Ouranos e Nix, Nórdicos tinham Ymir (gigante do gelo) e Surtur (gigante do fogo), católicos têm Adão (deu nome para todas as coisas vivas) e Eva (comeu o fruto da árvore proibida e fez com que fossem expulsos do Paraíso), hindus tem Vishnu e Shiva, os thelemitas têm Therion e Babalon... Dezenas de mitos diferentes; mesmas idéias.

O GRANDE problema acontece quando pessoas resolvem transformar Símbolos em Deuses Literais (que, sendo literais, permitem “crença” ou “descrença”) e os manipulam para impor e manter seus poderes econômicos e políticos sobre a população... Mas isto é uma outra história.


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Crédito da foto: APOD (NGC 7822 em Cepheus)

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Reflexões sobre a espiritualidade e a ciência

Há algum tempo li um excelente livro, chamado “Conversas sobre a fé e a ciência” (Ed. Agir), onde o cientista Marcelo Gleiser dialoga com o religioso Frei Betto sobre diversos assuntos pertinentes a quem costuma se indagar as questões primordiais da humanidade, que permeiam tanto a ciência quanto a religião e, claro, a filosofia. Nesse livro o diálogo deles é intermediado pelo espiritualista e músico Waldemar Falcão.

Ao terminar a leitura, tive a ideia de fazer uma série no meu blog onde faria uma mesma pergunta para um grande ocultista e um grande cético, e intermediaria uma espécie de “diálogo indireto” entre eles, conectando as respostas às próximas perguntas... O objetivo principal seria demonstrar que pessoas inteligentes e de pensamento livre usualmente se não chegam a um consenso sobre determinado assunto, pelo menos não precisam se desrespeitar mutuamente por conta disso: um respeita a crença ou a descrença do outro, embora não deixe de afirmar a sua própria na única arena onde há espaço para embates saudáveis – a arenas das ideias.

Além disso, como admirador tanto da religião (talvez fosse melhor dizer religiosidade), quanto da filosofia, quanto da ciência, acredito que em muitos casos o embate entre esses ramos do saber é motivado muito mais por desentendimentos etimológicos do que por qualquer outra coisa. Mas, talvez eu possa estar errado... Quem vai saber? Acho que caberá a cada um julgar, e o conteúdo desse diálogo será uma boa fonte de estudos, no mínimo.

Pois bem, esse dia chegou, a primeira pergunta já foi enviada e respondida por ambos os convidados ao diálogo nesta série, e em breve virão as demais. Eis, então, os convidados:


Marcelo Del Debbio é arquiteto com especializações em semiótica, história da arte e urbanismo, e também um grande pesquisador de mitologia, ordens iniciáticas, astrologia e ocultismo. É editor chefe da Daemon Editora, responsável pelo blog Teoria da Conspiração, membro fundador do Project Mayhem, colunista do blog Sedentário & Hiperativo, dentre outras atividades.

Kentaro Mori é analista de sistemas e um grande defensor do pensamento cético na web. É responsável pelo projeto Ceticismo Aberto, além de autor do blog 100nexos, um dos administradores da comunidade ScienceBlogs Brasil, colunista do blog Sedentário & Hiperativo, consultor do quadro Detetive Virtual, do Fantástico da Rede Globo, dentre outras atividades.

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Antes de prosseguir, gostaria de deixar claro que não pretendo comentar nenhuma resposta da série, ao menos até o seu final (serão 7 perguntas no total)... Depois pretendo publicar artigos onde comentarei as respostas uma a uma, e pelo andar da carruagem, acho que será um enorme prazer poder comentar.

Vocês, no entanto, não têm porque se abster de comentar, e pensar, e divulgar. Não há porque mantermos essa guerra inútil entre ciência e espiritualidade, que isso não interessa a quase ninguém, exceto talvez aqueles que ainda creem no dogma de que a espiritualidade é o oposto da ciência.


Perguntas respondidas (7 de 7)
» O que é Deus?
» Que é, afinal, a vida?
» Que é a fé?
» O que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?
» Os memes existem?
» Que é o efeito placebo?
» Sem Deus, tudo é permitido?


Respostas comentadas* (7 de 7)
» Comentário: o que é Deus?
» Comentário: que é, afinal, a vida?
» Comentário: que é a fé?
» Comentário: o que a ciência tem a ganhar com a espiritualidade?
» Comentário: os memes existem?
» Comentário: que é o efeito placebo?
» Comentário: sem Deus, tudo é permitido?

(*) Obs: Vocês vão notar que não estou necessariamente comentando exatamente sobre o que eles responderam, mas antes expandindo os horizontes das reflexões trazidas, as vezes me referindo apenas indiretamente ao que foi respondido. Me perdoem se não era o que esperavam, mas me pareceu que caberia a vocês, e não a mim, comentar as respostas diretamente e, quem sabe, julgar a sabedoria e conhecimento de cada um.


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Fica aqui um sincero agradecimento a generosidade e ao entusiasmo dos dois participantes... Espero que essas reflexões possam trazer luz a cientistas e espiritualistas, e a todos nós: humanos.

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Crédito das fotos: [topo] Martin Puddy/Corbis; [ao longo] Divulgação (Campari/Ceticismo Aberto)

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