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5.10.12

A descoberta do carma

Texto de Mircea Eliade em "História das crenças e das ideias religiosas, vol. I” (Ed. Zahar) – trechos das pgs. 229 a 231. Tradução de Roberto Cortes de Lacerda. As notas ao final são minhas.

Nos Bramanas [1], os deuses védicos foram radicalmente desvalorizados em benefício de Prajapati [2]. Os autores dos Upanixades prolongaram e encerraram esse processo [3]. Vão, porém, mais longe: não hesitam em desvalorizar o todo-poderoso sacrifício. [...] Segundo a Maitri Up [4], aqueles que nutrem ilusões sobre a importância dos sacrifício são dignos de lástima; porque, depois de terem desfrutado no Céu o lugar de destaque conquistado com suas boas ações, voltarão à Terra ou descerão a um mundo inferior. Nem os deuses nem os ritos contam mais para um verdadeiro rishi [5]. Seu ideal está admiravelmente formulado na prece transmitida pelo mais antigo Upanixade, o Brhadaranyaka: “Do não ser (asat) conduz-me ao ser (sat), da escuridão conduz-me à luz, da morte conduz-me à imortalidade!”

A crise espiritual que explode nos Upanixades parece ter sido provocada pela meditação sobre os “poderes” do sacrifício. [...] Nos Bramanas, o termo karman (karma, carma) denota a atividade ritual e suas consequências benéficas (já que, depois da morte, o sacrificante alcançava o mundo dos deuses). Mas, refletindo sobre o processo ritual de “causa e efeito”, era inevitável que se descobrisse que toda ação, pelo simples fato de obter um resultado, integrava-se numa série ilimitada de causas e efeitos. Uma vez reconhecida a lei da causalidade universal no karman, desfazia-se a certeza fundamentada nos efeitos salutares do sacrifício [6].

Porque a pós-existência da “alma” no Céu era a meta da atividade ritual do sacrificante; mas onde se “realizavam” os produtos de todos os seus outros atos, efetuados durante sua vida inteira? A pós-existência beatífica, recompensa de uma atividade ritual correta, devia portanto ter um fim. Mas, então, o que acontecia com a “alma” (atman) desencarnada? Em hipótese alguma ela poderia desaparecer definitivamente. Restava um número ilimitado de atos efetuados durante a vida, e estes constituíam outras tantas “causas” que deviam ter “efeitos”; em outras palavras, deviam “realizar-se” numa nova existência, aqui na Terra, ou num outro mundo. A conclusão impunha-se por si mesma: depois de haver desfrutado uma pós-existência beatífica ou infeliz num mundo extraterrestre, a alma era obrigada a reencarnar-se. Foi a lei da transmigração, samsara, que, uma vez descoberta, dominou o pensamento religioso e filosófico indiano, não só “ortodoxo” como também heterodoxo (o budismo e o jainismo) [7].

O termo samsara aparece somente nos Upanixades. Quanto à doutrina, ignora-se a sua “origem”. Tentou-se inutilmente explicar a crença na transmigração de alma pela influência de elementos não arianos [8]. Seja como for, essa descoberta impôs uma visão pessimista da existência. O ideal do homem védico – viver 100 anos, etc. – mostra-se ultrapassado. Em si mesma, a vida não representa necessariamente o “mal”, desde que a utilize como meio de livrar-se dos laços do karman. O único objetivo digno de um sábio é a obtenção da libertação, moksha – outro termo que se alinha entre as palavras-chave do pensamento indiano [9].

Uma vez que todo o ato (karman), religioso ou profano, revigora e perpetua a transmigração (samsara), a libertação não pode ser alcançada pelo sacrifício nem por meio de íntimos relacionamentos com os deueses, nem através da ascese ou da caridade [10]. Em seus ermitérios, os rishis procuravam outros meios para se libertar. Uma descoberta importante foi realizada ao se meditar sobre o valor soteriológico (soteriologia – “estudo da salvação”) do conhecimento, já exaltado nos Vedas e nos Bramanas. Evidentemente, os autores dos Bramanas referiam-se ao conhecimento (esotérico) das homologias implícitas na operação ritual. Era a ignorância dos mistérios sacrificais que, segundo os Bramanas, condenava os homens a uma “segunda morte”.

Mas os rishis foram mais longe; dissociaram o “conhecimento esotérico” do seu contexto ritual e teológico; a gnose é agora tida como capaz de apreender a verdade absoluta, revelando as estruturas profundas do real. Tal “ciência” acaba por eliminar literalmente a “ignorância” (avidya), que parece ser o quinhão dos seres humanos (os “não iniciados” dos Bramanas). Trata-se, certamente, de uma “ignorância” de ordem metafísica, pois ela se refere à realidade última, e não às realidades empíricas da experiência cotidiana [11].

[...] Depois de apaixonantes pesquisas e de hesitações, por vezes desfeitas por repentinas iluminações, os rishis identificaram na avidaya (ignorância de ordem metafísica) a “causa primeira” do karman, e por conseguinte a origem e o dinamismo da transmigração. O círculo estava completo: a ignorância (avidaya) “criava” ou reforçava a lei de “causa e efeito” (karman) que, por sua vez, infligia a série ininterrupta de reencarnações (samsara). Felizmente, a libertação (moksha) desse círculo infernal era possível graças à gnose (jñana, vidya) [12].

[...] O pensamento indiano cedo se dedicou a ratificar os diferentes “caminhos” (marga) que conduzem à libertação. O esforço resultou, alguns séculos mais tarde, na famosa síntese proclamada no Bhagavad Gita (séc. IV a.C.). Mas é importante assinalar que desde já [...] a descoberta efetuada, ainda que imperfeitamente sistematizada, nos tempos dos Upanixades, constitui o essencial da filosofia indiana posterior.

Quando Brahman perguntar ao recém-chegado: “Quem és tu?”; Que ele responda: “Eu sou o que tu és”; E quando Brahman perguntar: “Quem sou eu?”; Que ele responda: “A Verdade”; Dessa forma, Brahman lhe dirá: “Aquilo que foi o meu domínio é doravante o teu” (Kausitaki Up, Upanixades)

***

[1] Comentários em prosa, costumeiramente anexados aos Vedas (obras mais antigas do hinduísmo).

[2] Citando o próprio autor, algumas páginas antes: “Tal como é apresentado pelos Bramanas, Prajapati parece ser uma criação da especulação erudita, mas a sua estrutura é arcaica. Esse ‘senhor das criaturas’ aproxima-se dos grandes deuses cósmicos. Ele se assemelha de certa forma ao ‘Um’ do Rig Veda”.
Ou seja, conforme o Rig Veda é o texto mais antigo dos Vedas (c. 1500 a.C.), foi ainda nesta época que os sábios hindus chegaram a concepção do Uno, ideia que também encontrou ressonância no hermetismo (embora provavelmente muitos séculos mais tarde), em Parmênides, em Plotino, em Espinosa, etc.

[3] Os Upanixades também são comentários posteriores acerca dos Vedas. O Bhagavad Gita, o texto mais celebrado do hinduísmo, faz parte deles.

[4] Um dos livros dos Upanixades.

[5] Termo que denota um dos autores dos Vedas ou dos Upanixades. Também pode ser entendido simplesmente como “um sábio”.

[6] Ou, em outras palavras, os sábios hindus reconheceram que a barganha com os deuses (“eu te ofereço isto em troca disto”) não poderia ser uma solução para as questões da alma. Somente o ser em si poderia melhorar a si mesmo. Ser transportado ao Céu após a morte, para depois renascer de novo neste mesmo mundo (ou nalgum inferior a este), não solucionava a questão. Quero dizer é isto: apenas o próprio ser pode cuidar de sua gnosis dei, do conhecimento do Uno. Os deuses aos quais eram ofertados “sacrifícios” não podem lhes auxiliar neste caminho (ou, ainda que possam, não necessitariam de oferendas para tal).

[7] Se vamos considerar que a “descoberta do carma” se deu a partir dos Upanixades, podemos datá-la no início do chamado período bramânico (entre 900 e 500 a.C.). No entanto, a crença na existência de espíritos desencarnados, ou mesmo dos “espíritos dos ancestrais”, é pré-histórica, e surgiu junto com a religião primal e o xamanismo. Me parece que a ideia da reencarnação possa ser ainda mais antiga do que a ideia do carma, e que o carma surgiu como uma espécie de “desenvolvimento filosófico” acerca do tema da reencarnação. Segundo a visão do autor, entretanto, é possível que a ideia da reencarnação tenha surgido do “problema do carma” (portanto, o oposto). Em todo caso, ambas são ideias arcaicas que só encontraram um antagonismo claro na crença da ressurreição, surgida do zoroastrismo e judaísmo (em épocas posteriores).

[8] Os árias são um subgrupo étnico dos indo-europeus. Eles se estabeleceram no planalto iraniano no fim do terceiro milênio a.C., e a partir de 1.500 a.C. colonizaram a península indiana. Os árias foram o povo responsável pela composição dos Vedas. Note que, caso a ideia de reencarnação seja “não ariana”, isso significa que ela seria ainda mais arcaica que os Vedas (conforme eu postulo no comentário acima).

[9] O budismo chamou-o nirvana.

[10] No espiritismo se diz que “fora da caridade não há salvação”, mas segundo os rishis, nem mesmo a caridade garantiria a “salvação”.

[11] Porém, se estamos falando do Uno, todo o conhecimento, seja empírico (ciência) ou mental (religião) ou metafísico (filosofia), é um conhecimento do Cosmos – de seu Mecanismo ou de seu Sentido. É assim que todo conhecimento, esotérico ou exotérico, sempre irá nos auxiliar no samsara, ainda que tenhamos de voltar a este mundo muitas vezes.

[12] E o que aqueles que “se libertaram” fazem após a libertação? Buda foi um excelente exemplo: sua peregrinação e “evangelização” se iniciou após (e não antes) ele ter atingido o nirvana.

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Crédito da imagem: The Bhaktivedanta Book Trust International

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