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12.9.23

Deuses endemoniados

Incertos os locais e os tempos em que viveram. Os tempos: mais de três mil anos atrás. [...] A área: o norte do subcontinente indiano, mas sem fronteiras precisas. Não deixaram objetos nem imagens. Deixaram somente palavras. Versos e fórmulas que marcavam rituais. Meticulosos tratados que descreviam e explicavam esses mesmos rituais. [1]

O Rigveda é um dos textos mais antigos da humanidade. Escrito em sânscrito, a ancestral língua sagrada dos hindus, ele detalha em minúcias os rituais e sacrifícios endereçados aos seus deuses primordiais, ou devas. Agni, deva do fogo, era tão importante que é o seu nome que inaugura a primeira linha do Rigveda. Depois dele, vieram muitos, muitos outros: Indra, Mitra, Varuna, Krishna, Shiva, Ganesha, a lista chegaria literalmente aos milhares.

Hoje o sânscrito é considerado uma língua morta, isto é, sem falantes nativos. Entretanto ele faz parte do conjunto de línguas oficiais da Índia, pois é até hoje extensivamente utilizado nos rituais religiosos, incluindo o canto de mantras. Mas, se hoje o sânscrito está longe de estar morto de fato, há milhares de anos ele serviu com base para a escrita de tantos documentos que pesquisadores estimam que há mais escritos antigos em sânscrito do que em latim e em grego antigo, somados.

Ao longo dos Vedas, os textos sagrados hindus, do qual o Rigveda foi o primeiro, os deuses são chamados de devas desde sempre. A palavra sânscrita deriva da raiz div, que significa “resplandecente, fonte de luz, luminoso”, e cujo uso como adjetivo remonta a algo “celeste, divino”. De vez em quando, os Vedas mais antigos associavam os devas a um outro nome, asura. Como veremos, este termo sânscrito foi consideravelmente ressignificado ao longo dos séculos, mas lá no início ele parecia se referir a uma qualidade: “poderoso”. Portanto, inicialmente muitos devas tinham a qualidade asura, e até mesmo alguns reis védicos eram associados ao termo. 

Com o passar do tempo, no entanto, asura veio a significar coisa muito diferente: primeiro, semideuses sobre-humanos com boas e más qualidades; e, eventualmente, algo que se assemelha em muito ao que chamamos de demônios no Ocidente cristão. Ao que parece, os asura se tornaram deuses endemoniados, mas por que será que o termo passou por uma ressignificação tão radical?

uma teoria muito interessante que conecta o termo sânscrito a um termo muito parecido de um idioma que serviu como base para os textos sagrados do zoroastrismo, religião da antiga Pérsia: tal idioma era o avéstico, um primo do próprio sânscrito. Segundo os Gatas, os livros mais importantes da religião persa, cuja autoria é atribuída ao próprio Zoroastro, os deuses podiam ser divididos em duas classes: os ahuras eram aqueles dignos de adoração, enquanto os daevas deveriam ser evitados. O termo ahura estava, inclusive, associado ao próprio nome do deus e criador supremo dos seguidores dos Gatas: Ahura Mazda.

Com o passar do tempo, entre os zoroastristas os daevas foram sendo cada vez mais demonizados. Se antes eram somente deuses menores, indignos de adoração, eventualmente se tornaram... adivinhem? Isso mesmo: algo que se assemelha em muito ao que chamamos de demônios no Ocidente cristão. E não é necessário se aprofundar muito mais para notar o que a teoria nos diz: para os hindus, os deuses (ahuras) dos Gatas se tornaram demônios (asuras), ao passo que para os zoroastristas foi justamente o oposto, os deuses (devas) dos Vedas é que viraram demônios (daevas).

Aliás, conhecendo a humanidade como conhecemos, não é difícil compreender como essa teoria pode ter base sólida na realidade. Afinal, quantos não foram os povos ditos civilizados que classificaram todo e qualquer estrangeiro como bárbaro? E quantos não foram os religiosos que chamaram seus rituais de “religião oficial”, e todos os demais de “magia e bruxaria”? Assim, para boa parte da humanidade, o deus de um povo era o demônio do outro, e vice versa; mas terá sido sempre assim?


Pelo que dela me contaram, acho que não há nada de bárbaro e selvagem nessa nação, a não ser que cada um chame de barbárie o que não é seu costume. Assim como, de fato, não temos outro critério de verdade e de razão além do exemplo e da forma das opiniões e usos do país em que estamos. Nele sempre está a religião perfeita, o governo perfeito, o uso perfeito e consumado de todas as coisas. [2]

Quando os padres europeus vieram ao Brasil, então recém-descoberto por eles (mas os índios chegaram milênios antes), se depararam com a dupla tarefa de evangelizar tanto os indígenas quanto os escravizados africanos. E, se entre os índios havia tantos povos distintos que foi difícil determinar um único conjunto de deuses, entre os africanos essa etapa foi mais simples, pois muitos deles cultuavam os chamados orixás, que eram como deuses da natureza.

Não demorou muito, e eles tentaram identificar qual dos orixás seria o representante do mal, isto é, o demônio. Como encontraram um símbolo de Exu com um pênis ereto, e como muitos deles associavam o sexo ao pecado, e o pecado ao mal eterno, ficou acertado assim, de forma um tanto apressada, que na falta de um representante melhor, Exu seria o Coisa Ruim.

Ora, ocorre que entre os orixás, assim como entre muitos outros panteões, inclusive o dos deuses gregos, não há um representante do mal, um adversário direto do Criador, muito menos um anjo caído. Veja bem: isto não significa que os orixás, ou até mesmo os demais deuses, não possam praticar atos de maldade, eles apenas não representam o mal. Os deuses em geral já cometeram desde adultérios a genocídio generalizado por meio de dilúvios, mas isso por si só não quer dizer que Zeus e Jeová (para dar nome aos bois) sejam demônios, muito pelo contrário. Então, por que diabos Exu deveria ser demônio somente porque foi visto com o pênis ereto?

Uma das possíveis explicações para a ausência de um representante do mal entre os orixás pode ser o fato de que os povos africanos que cultuavam tais entidades da natureza não travaram nenhum tipo de conflito cultural, onde a religião de um povo tentou se infiltrar no território de outro, como provavelmente se passou entre os hindus e os zoroastristas. Mas talvez a explicação seja ainda mais simples, talvez o próprio demônio não seja exatamente aquilo que a maioria pensa.

O termo “demônio” vem do latim, daemon (em grego, daimon) cuja tradução aproximada está mais próxima do que chamamos hoje de “espírito”. Aliás, a prova de que o termo não era originalmente associado a algum ser maléfico, ou grupo de entidades que representavam o mal, e somente o mal, é que os gregos antigos usavam termos como eudaemon, um espírito ordeiro, e cacodaemon, um espírito caótico. Mesmo o cacodaemon não seria necessariamente mal, mas antes uma espécie de espírito zombeteiro, que não seguia as regras. O próprio Sócrates, grande sábio da filosofia grega, dizia estar em contato constante com seu daemon, isto é, uma espécie de espírito guardião.

E, se ainda não foi o suficiente para mudar sua opinião, os gregos ainda tinham um termo muito curioso para expressar uma espécie de estado de plenitude do ser, de grande felicidade e contentamento ante a existência, eudaimonia. E o que significa eudaimonia? Ser habitado por um bom daemon, viver sob a influência de um bom espírito.

Assim, da próxima vez que alguém passar pelo seu caminho desesperado, temendo o demônio que dobrou a esquina, diga para que não fuja, diga para chamá-lo para tomar um café. Vai saber, talvez o seu demônio na realidade seja o seu próximo grande amigo.


(este texto eu dedico ao meu amigo Robson Belli, pelo conjunto da Obra; a ideia inicial surgiu de um comentário do Guilherme Romano no Boteco Mayhem)

***

[1] Trecho do início de O ardor, de Roberto Calasso (trad. Federico Carotti; Companhias das Letras).

[2] Trecho dos Ensaios de Montaigne, mais precisamente do ensaio intitulado Sobre os canibais, onde ele comenta sobre o que ouviu falar dos índios brasileiros (trad. Rosa Freire D’Aguiar; Companhia das Letras).

Crédito das imagens: [topo] raph (puja, ou ritual do fogo, celebrado de forma muito similar aos Vedas, aqui em Campo Grande/MS, por Atmaji e seus discípulos); [ao longo] Google Image Search (representação clássica de Ahura Mazda); Guito Moreto/O Globo (Exu representado no desfile da Grande Rio na Marquês de Sapucaí; a escola venceu o Carnaval de 2022).

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1.1.23

Lançamento: Autobiografia de um Iogue

As Edições Textos para Reflexão publicam um grande clássico espiritual do séc. XX: Autobiografia de um Iogue, por Paramahansa Yogananda, na tradução de Rafael Arrais.

Este é um livro de muitas jornadas, há nesta obra muitos livros dentro de um só. Publicado logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, mas escrito ainda ao longo do terror, ele sinaliza uma nova esperança, uma nova era para a espiritualidade humana: que tenha sobrevivido ao tempo, e que seja até hoje um bestseller global, é um sopro de alívio para todos aqueles que despertaram da ilusão material.

Um ebook já disponível para o Amazon Kindle, Google Play e outras lojas; e também na versão impressa:

Comprar eBook (Kindle) Comprar eBook (Google) Comprar impresso (Amazon US)


» Leia o Epílogo desta edição: As aventuras de Makunda

» Leia um trecho da tradução


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6.12.22

As aventuras de Makunda

Epílogo escrito para a minha tradução de Autobiografia de um iogue, a ser lançada em livro e e-book no início de 2023 – pelas Edições Textos para Reflexão.

 

Este é um livro de muitas jornadas, há nesta obra muitos livros dentro de um só. Seu título, Autobiografia de um iogue contemporâneo (depois abreviado para Autobiografia de um iogue), abarca dentro de si muitos outros títulos possíveis: As aventuras de Makunda; Encontros com santos notáveis; Turismo espiritual na Índia; A vida de Láhiri Mahasaya; O mistério de Babaji; O Kriya Yoga; A espiritualidade no Oriente e no Ocidente etc. Que todos estes pudessem servir de título para a obra-prima de Paramahansa Yogananda diz muito sobre a sua abrangência e a sua importância espiritual. Publicada logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, mas escrita ainda ao longo do terror, ela sinaliza uma nova esperança, uma nova era para a espiritualidade humana: que tenha sobrevivido ao tempo, e que seja até hoje um bestseller global, é um sopro de alívio para todos aqueles que despertaram da ilusão material.

Yogananda é o nome monástico de Makunda, nascido numa abastada família indiana, em 1893. Quando jovem, viveu cercado de pais e irmãos mais ou menos devotos, como o indiano médio da época, mas logo cedo ficou claro para todos que o seu caminho na espiritualidade seria único. A sua vida é toda pontuada por sinais e milagres. Dizer que nasceu predestinado é pouco, é como se cada etapa de sua vida fizesse parte do capítulo de alguma epopeia lendária. A criança que, quando adulta, seria a responsável pela divulgação do yoga no Ocidente; mas que acabou levando aos ocidentais muito mais do que isso: toda a cultura da Grande Índia, da Índia ancestral, se resume em sua figura, em seu sorriso, em sua vontade de ensinar com complacência – coisa que não recebeu nem mesmo de seu próprio guru.

A própria estrutura do livro demonstra isso. Makunda vai nos seduzindo pouco a pouco. Não se gaba do que veio a conquistar em seu caminho em nenhum momento, mas principalmente no início retrata a si mesmo de maneira humilde, um jovem que sonhava conhecer o Himalaia, e que se interessava mais pelos monges e gurus do que por sânscrito ou matemática. Os milagres, grandes ou pequenos, ficam em segundo plano, tudo o que lhe interessa descrever de fato é como, desde o início, ele sempre esteve em busca de Deus – com Seus muitos nomes e nuances.

Assim, não se trata de uma obra que queira provar alguma coisa. Até mesmo Makunda só passou a acreditar em certas coisas depois de vivenciá-las. O ceticismo fazia parte de seu dia a dia, tanto que precisou ver para crer em muitos dos milagres dos santos e das santas que cruzaram o seu caminho; ou melhor, que ele tratou de ir atrás. Foi amigo tanto de cientistas quanto de gurus, circulava tanto em meio aos mais ricos quanto entre renunciantes estritos, alguns dos quais sequer usavam roupas.

Mas a sua obra fala, em essência, de sua relação com Deus, e de como essa relação se refletiu diretamente em sua convivência com os seres humanos, os filhos de Deus, os reflexos do divino. No entanto, isso não fica tão evidente em nenhum momento do texto, não é algo que Makunda quisesse nos trazer como uma espécie de mandamento, “Ame a Deus acima de todas as coisas”, não: Makunda faz disso o seu exemplo de vida, é algo que fica subentendido nas entrelinhas, como uma fragrância perene fluindo de suas palavras. É assim que somos conquistados, é assim que esta leitura pode ser verdadeiramente transformadora.

A semente que Makunda se incumbiu de plantar no Ocidente dá frutos até hoje. Afinal, não foi por acaso que os Beatles foram parar em um retiro espiritual na Índia, nos anos 1960. Naquela altura, o yoga já era algo amplamente conhecido, principalmente entre os jovens, e embora outros iogues lhe tenham precedido na peregrinação pelo Ocidente, foi Autobiografia de um iogue a principal obra de divulgação da ciência espiritual indiana. E, mais recentemente, a importância da obra se fez evidente no funeral de um dos grandes visionários de nosso tempo: era ela que Steve Jobs quis que aqueles que foram ao seu enterro lessem, quiçá para que pudessem compreender que a sua própria morte não era o ponto final de nada.

Até hoje, espalhada pelo mundo, incluindo o Brasil, a Self-Realization Fellowship, ou Irmandade da Autorrealização, divulga os livros e os ensinamentos de Makunda. Até hoje, anualmente, milhares de devotos fazem a leitura conjunta da obra em épocas específicas do ano. Até hoje, graças ao Paramahansa, o Kriya Yoga também vive no Ocidente, e não ficou oculto sob os véus da Índia milenar.

Não foi uma tarefa simples. Makunda foi obrigado a abandonar a família e, principalmente, o seu guru, numa época em que a viagem da Índia para os Estados Unidos levava meses, e a troca de mensagens era algo bem mais problemático. No entanto, tal distanciamento foi mais físico do que espiritual, pois o Paramahansa seguia o seu propósito de vida, aquilo que literalmente nasceu, foi encarnado para fazer. Era, em suma, uma Vontade maior do que a sua própria; e ele, em sua imensa sabedoria, soube viver inteiramente alinhado a ela.

“Valeu a pena?” – perguntou a Makunda um de seus primeiros discípulos nos Estados Unidos.

“Sim, mil vezes sim! Valeu a pena; tem sido uma inspiração constante, mais do que jamais pude sonhar, ver o Ocidente e o Oriente se aproximando pelo vínculo mais duradouro, o espiritual!”

Makunda, ou Paramahansa Yogananda, foi feliz no cumprimento de sua missão. As suas aventuras neste mundo se encerraram em 1952, quando, ao final de um discurso, citou um trecho de um de seus poemas, Minha Índia, antes de deixar seu corpo tombar ao chão, para que o Espírito pudesse retornar a sua origem. Eis as suas últimas palavras:

Lá onde o Ganges, os bosques, as grutas do Himalaia e os homens sonham com Deus – eu sou abençoado, meu corpo tocou este solo.

 

Rafael Arrais

***

Crédito das imagens: Google Image Search (Yogananda; e Yogananda ensinando yoga nos EUA).

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30.8.22

Samádhi, ou traduzindo Yogananda

No primeiro dia de 2023 entra em domínio público em praticamente todo o planeta toda a obra de Paramahansa Yogananda, o yogui, ou iogue, responsável por uma das maiores obras da espiritualidade do século XX, Autobiografia de um iogue.

Se tudo correr bem, as Edições Textos para Reflexão iniciarão o ano que vem justamente com este lançamento, cuja tradução tem se provado um trabalho longo, profundo, e incrivelmente prazeroso.

O grande mérito aparente do livro é se tratar da autobiografia de um legítimo iogue da Índia, ou seja, escrita por ele mesmo, e não por algum jornalista ou pesquisador. Mas esta obra é muito maior que isso: em suas dezenas de capítulos, Yogananda teceu um intrincado passo a passo de conexão com o divino, de modo que não seria exagero dizer que a mera leitura atenciosa de suas centenas de páginas já é, ao menos de alguma forma, uma prática de yoga em si mesma.

E, para que ninguém duvide disso, trago abaixo um poema que consta no capítulo 14, onde o autor relata sua experiência com a Consciência Cósmica. O próprio título, Samádhi, remete a um estado de “meditação perfeita”, uma iluminação que, embora passageira no tempo, transforma a vida de quem a experimentou, para sempre.

Com vocês, Paramahansa Yogananda:


Desvanecidos os véus de luz e sombra,
Evaporada toda bruma de tristeza,
Naveguei além de todas as manhãs de alegria fugaz,
Até que a miragem dos sentidos ficou para trás.
Amor e ódio, saúde e doença, vida e morte:
Todas estas sombras falsas pereceram na tela da dualidade.
Ondas de riso e sarcasmo, redemoinhos de melancolia,
Tudo se dissolveu na vastidão oceânica do êxtase.

A tempestade de maya aplainou
Pela varinha mágica da intuição profunda.
O universo e os sonhos esquecidos espreitavam no subconsciente,
Prontos para invadir minha memória divina, recém-desperta.
Então eu vi: eu vivo sem a sombra cósmica,
Mas ela não vive sem mim;
Tal qual o mar perdura mesmo sem ondas,
Embora elas precisem dele para existir.

Sonhos e despertares, estados de sono profundo,
Presente, passado e futuro nada mais significam para mim;
Eu estou em cada momento, sempre a fluir, sempre em tudo:
Nos planetas, nas estrelas, na poeira que cintila na terra,
Nas erupções vulcânicas dos grandes cataclismas,
Nos fornos que moldam a matéria, nas geleiras silenciosas
De raios-x, nas inundações de elétrons ardentes,
No pensamento de todos os homens, de antes, agora e depois,
Em cada lâmina verde do prado, eu e a humanidade inteira
Somos cada átomo da poeira sideral;
Desejo e raiva, bem e mal, salvação e luxúria:
Eu engoli a todos, e os transmutei num vasto oceano
Que forma o sangue de meu próprio Ser!

A labareda do êxtase, tantas vezes acalentada pela meditação,
Cegou meus olhos úmidos, cresceu em fogaréu,
Tornou-se um baile imortal de fogo e contentamento,
Até consumir minhas lágrimas, minha forma, tudo o que eu era.

Você sou Eu, Eu sou Você;
O Conhecer, O Conhecido e Aquele Que Conhece: somos Um!
Sereno, inabalável, eternamente vivo, numa paz que sempre se renova!
Aqui experimentamos tal regozijo:
Uma alegria além de qualquer possibilidade imaginada, o êxtase do samádhi!
Todavia, não um estado sem consciência,
Tampouco um clorofórmio mental anestesiando a vontade.
O samádhi tão somente expande as fronteiras do reino consciente
Além dos limites mundanos,
Até as distâncias mais longínquas da eternidade,
Onde Eu, o Oceano Cósmico,
Contemplo o ego, pequenino, a flutuar.

A queda de um pardal, cada grão de areia soprado pelo vento,
Nada acontece que esteja além da minha visão.
Eu sou o espaço colossal que abarca tudo o que é, foi e será.
E através da meditação profunda, dedicada, que anseia por Mim,
Chega um dia este samádhi celestial.

O murmúrio do baile atômico pode ser ouvido;
E, veja: as montanhas e os vales dançando com a lava,
Esculpindo novas paisagens e territórios!
Mares fluem pelo cosmo, agora são vapores de nebulosas!
AUM [Palavra Criadora] os sopra, rompendo seus véus;
E, veja: eles se espalham pelas galáxias, que maravilha!
Elétrons cintilam em tudo, como pérolas no mar,
E tudo está em paz...
Até que, ao toque do tambor cósmico,
Desvanecem os aglomerados em radiação eterna;
Um êxtase além das palavras, além dos limites,
Preenche tudo que há.

Do êxtase eu vim, pelo êxtase eu vivo, no sagrado êxtase eu sou diluído.
Como uma mente oceânica, eu bebo as ondas da criação.
Quatro véus se estendem pelo cosmo:
Sólido, líquido, gasoso e luminífero.
Eu, estando em tudo, adentro o Grande Eu.
Sombras vacilantes e tênues da memória mortal
Parecem ter se aniquilado para sempre.
No grande céu mental, já não estou aqui ou acolá,
Nem muito acima nem abaixo, nem perto nem distante:
Eu e a eternidade, um único facho singrando o vazio...

Então, uma pequena bolha de riso se forma,
E eu me torno o próprio Oceano da Alegria.


(tradução por Rafael Arrais)

***

Abaixo, segue uma prévia (de parte) da capa de nossa edição. Ela será vendida como e-book na Amazon, Google Play e demais lojas (pelo preço de um café!). E possivelmente teremos ainda uma versão impressa à venda em alguns sites internacionais da Amazon (como de costume, não temos a intenção de competir no mercado impresso nacional, que já conta com uma tradução em português).

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16.8.22

Live sobre mantras com MariAisha Savitri

Em mais uma Live do canal Textos para Reflexão, pegamos emprestada a gravação do Boteco Mayhem comigo, Rafael Arrais, e MariAisha Savitri, espiritualista, estudante e praticante de mantras, dona do Espaço SuryAmar e representante da Ordem Sufi Naqshbandi no estado do Mato Grosso do Sul. A Mari comanda atividades quinzenais e intercaladas de canto de mantras e de zikr (mantras do sufismo) em seu espaço, e neste vídeo trouxemos alguns dos nossos cantos e seus significados. E, sim, nós cantamos alguns deles ao vivo! Assista abaixo:

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11.5.21

Orwell e Huxley

Querido Sr. Orwell,

Foi muito gentil da sua parte pedir aos editores que me enviassem uma cópia do seu livro. Ela chegou enquanto eu estava em meio a um trabalho que me demandava muita leitura e consultas de referências; e como a falta de visão faz com que seja necessário racionar a minha leitura, eu tive que esperar por muito tempo antes de ser capaz se embarcar em 1984.

Concordando com tudo o que a crítica escreveu sobre isso, eu não preciso te dizer, mais uma vez, o quão bom e profundamente importante o livro é. [...]

Assim se inicia a carta que Aldous Huxley enviou a George Orwell, escrita em 21 de outubro de 1949, alguns meses após a publicação de 1984, uma das obras mais lidas e discutidas do Ocidente [1]; e alguns meses antes da morte de Orwell, por tuberculose, aos 46 anos.

Quando tinha vinte e poucos anos, Huxley foi professor de francês de um Orwell ainda adolescente, no Eton College, uma famosa escola inglesa. Não há evidências de que tenham tido algum tipo de convívio fora da sala de aula, mas é certo que Orwell foi um ávido leitor da célebre ficção distópica de seu antigo professor, Admirável Mundo Novo, publicado em 1932. Assim, a despeito de terem tido uma amizade mais profunda ou não, fato é que dois dos grandes escritores do século XX leram as principais obras um do outro, e nutriam uma admiração mútua.

Enquanto uma utopia é uma espécie de “Céu erguido na Terra”, um ideal futuro de uma sociedade onde predominam a justiça e o bem estar social, a distopia é justamente o oposto: um futuro sombrio onde geralmente há opressão governamental e quase nenhuma liberdade individual.

Muito já se debateu acerca das duas visões distópicas descritas nessas obras. A princípio, eles se parecem mesmo antagônicas, tanto que em sua carta a Orwell, o próprio Huxley faz uma defesa da sua própria visão de um futuro sombrio da democracia. Essa comparação foi aprofundada em 1985, num livreto do teórico da comunicação americano Neil Postman, intitulado Amusing ourselves to death (Nos divertindo até morrer). Trago um trecho da obra abaixo:

“Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão [grande líder totalitário] para despojar a população de autonomia, maturidade ou história. Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância.”

No futuro pintado por Huxley, a sociedade está dividida em castas. Crianças projetadas geneticamente saem de fábricas de bebês e são condicionadas a exercer das funções mais nobres às mais abjetas. Não há mães, pais ou casamentos. O sexo é livre. A diversão está disponível na forma de jogos esportivos, cinema multissensorial e de uma droga que garante o bem-estar sem efeito colateral: o soma. Restaram na Terra dez áreas civilizadas e uns poucos territórios selvagens, onde grupos nativos ainda preservam costumes e tradições primitivos, como família ou religião. “O mundo agora é estável”, diz um líder civilizado. “As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; não têm medo da morte; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma.”

Aqui é preciso destacar que nem utopias nem distopias existem no mundo real. O exercício de tentar adivinhar para onde nosso mundo está caminhando, se para a distopia de Huxley ou de Orwell, é algo curioso, muitas vezes interessante, mas nem sempre tão produtivo quanto se pode imaginar. Muitas vezes caímos na armadilha de imaginar que o mundo deve ser preto ou branco: ou se encaminha totalmente para um lado, ou para outro. Quando na verdade a realidade é composta por infindáveis miríades de cinza.

Fato é que Orwell e Huxely falavam sobre mundos diferentes em suas obras. Enquanto Orwell claramente fazia uma caricatura sombria de uma ditadura nos moldes fascistas e stalinistas, Huxley estava bem mais preocupado em criticar a cultura de massa alienante e o consumismo demasiadamente hedonista das democracias ocidentais. Além disso, é preciso lembrar do contexto específico em que 1984 é narrado, do ponto de vista de um membro do Partido [algo mais ou menos equivalente ao Partido Comunista da Coreia do Norte de hoje], que compunha uma modesta minoria dentro da sociedade como um todo. Trago um trecho do início do Cap. 7 da Parte 1 da obra que ilustra isso muito bem:

“Se havia esperança, ela DEVIA estar nos proletas [proletários; ou o povão em geral], porque só neles, naquelas massas desdenhadas, naquele enxame de gente, nos 85% da população da Oceania [uma das três superpotências do mundo], havia alguma possibilidade de que se gerasse a força capaz de destruir o Partido.”

E, se formos analisar a obra mais a fundo, veremos que, tal qual em Admirável Mundo Novo, o povão em geral também é mantido anestesiado de qualquer tipo de pensamento revolucionário através de distrações como a loteria, o noticiário de crimes e guerras e a boa e velha cerveja. O Partido de Orwell policia de maneira ferrenha os seus próprios membros, mas deixa que o restante de população desfrute de certa liberdade. Assim, embora o conhecimento em geral seja filtrado e devidamente censurado pelo Estado totalitário, nada impede que um proletário de Oceania beba a sua cerveja no final do dia e se divirta, por exemplo, com um jogo de dardos. Tons de cinza, tons de cinza...

Outra característica que separa o foco narrativo de ambas as obras é a questão religiosa. Enquanto em 1984 as religiões foram abolidas, o personagem principal é ateu (no máximo um humanista agnóstico), e todas as questões religiosas não passam de um pano de fundo para a narrativa política, na obra de Huxley há uma crítica clara e contundente à ausência de espiritualidade da sociedade dita civilizada em relação àqueles que são chamados de selvagens, vivem fora das metrópoles e ainda praticam costumes primitivos. Ora, como um perenialista, Huxley está claramente defendendo que a religião antiga não é somente importante, como essencial para que o indivíduo alcance uma vida digna e plena.

A filosofia perene, ou perenialismo, é um ponto de vista da espiritualidade moderna que enxerga todas as tradições religiosas do mundo como compartilhadoras de uma verdade única, sendo ela metafísica ou a origem da qual todo o conhecimento esotérico e exotérico se irradiou. O perenialismo tem suas raízes no interesse renascentista pelo neoplatonismo e sua ideia do Uno, da qual toda a existência emana.

Anos após Admirável Mundo Novo ter sido publicado, Huxley continuava a propagar uma interpretação universalista das religiões do mundo, inspirada por vertentes do hinduísmo. Sua obra A Filosofia Perene, de 1945, traz mais luz sobre o tema:

“A filosofia perene é expressa de maneira mais sucinta na fórmula sânscrita, tat tvam asi (‘Isto és tu’); o Atman, ou Eu eterno imanente, é um com Brahman, o Princípio Absoluto de toda a existência; e a finalidade última de todo ser humano é descobrir o fato por si mesmo, descobrir quem ele realmente é.”

Dessa forma, enquanto Orwell procurava alertar seus leitores para os graves perigos das doutrinas políticas que podiam descambar para um Estado totalitário, uma ditadura, Huxley trazia outra espécie de alerta, que dizia mais sobre o perigo de uma sociedade moderna inteiramente afastada da espiritualidade, e seduzida pelas drogas e o hedonismo exacerbado [2]. Enquanto 1984 focava quase que unicamente na política, Admirável Mundo Novo dava também um grande espaço para a religiosidade humana. Assim, o tipo de comparação que Postman nos trouxe em 1985 deve ser considerado em seu contexto limitado. Do contrário, corremos o risco de vermos demônios imaginários onde eles não existem, e nos esquecermos de que o mundo real é muito mais complexo, muito mais acinzentado, do que uma obra de ficção.

***

[1] Eu também traduzi as duas principais obras de Orwell pelas Edições Textos para Reflexão. Leia A Revolução dos Bichos e 1984 no seu Kindle, pelo preço de um café (os links levam para a loja da Amazon).

[2] Sei que pode parecer que Huxley era um conservador do tipo avesso a toda experimentação com drogas e afins. Mas, tanto pelo contrário, Huxley chegou a descrever sua experiência com uma droga alucinógena, a mescalina, que é até hoje o seu segundo livro mais famoso, intitulado As Portas da Percepção.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (Orwell à esquerda, Huxley à direita); [ao longo] Autor anônimo (a cidade de Londres na obra 1984); Bill Butcher (ilustração para o Financial Times; Brave New World é o título original da obra de Huxley).

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18.3.20

Yoga, a via para o Eu Supremo

Neste vídeo tentaremos definir o que é, de verdade, o Yoga. Também falaremos sobre as duas vias possíveis para a Unidade com o Eu; e, ao final, indicamos a leitura de um livro sobre o tema, escrito por uma das maiores espiritualistas de nossa história: Annie Besant.

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9.3.20

Lançamento: Introdução ao Yoga

As Edições Textos para Reflexão publicam Annie Besant, uma das maiores espiritualistas de história.

As 4 conferências compiladas em Introdução ao Yoga visavam dar um esboço geral do Yoga, a fim de introduzir o estudo e a prática dos Sutras de Patanjali – o mais importante dos tratados de Yoga. Preparar o estudante para o seu caminho espiritual, tal é o objetivo do presente livro e a razão das numerosas citações tiradas de Patanjali.

Um ebook já disponível para Amazon Kindle e Kobo:

Comprar eBook (Kindle) Comprar eBook (Kobo)

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Abaixo, segue uma amostra do primeiro capítulo da obra:


O QUE É O UNIVERSO?

Contemplemos em primeiro lugar o mundo que nos cerca. O que significa a sua história? O que ela nos diz em geral, quando a estudamos? Ela se apresenta para nós como um cenário no qual se movem os povos e os acontecimentos, mas na realidade isso tudo não se trata nada além de sombras que dançam. As nações, os reis e homens de Estado, os ministros e os exércitos são sombras, e não realidades. 
Quanto aos grandes eventos, as batalhas e revoluções, a grandeza e decadência dos Estados, tudo isso são sombras ainda mais distantes da realidade. Se o historiador aprofundar as suas investigações, se for se ocupar das condições econômicas, das organizações sociais, das tendências e das correntes intelectuais, estará sempre no meio de sombras sem consistência alguma, projetadas por realidades invisíveis.
O mundo está cheio de formas ilusórias. Os valores que se dão a elas são falsos. As proporções são deformadas. Os objetos que as pessoas mundanas olham como preciosidades são rejeitados pelos espiritualistas como coisas sem valor. Os diamantes deste mundo, que fazem reluzir de mil formas os raios do sol exterior, têm valor apenas para o homem que se apega ao brilho do vidro. A coroa de um rei, o cetro de um imperador, a majestade do poder terrestre nada são em absoluto para o homem que já vislumbrou a majestade do Eu. 
Ora, então nada existe de real, de verdadeiramente precioso? A esta pergunta responderemos de modo diferente do que fariam a maior parte das pessoas:

O Universo só existe para o Eu.

Se o Grande Arquiteto concebe o plano dos Seus mundos e os chama à existência, Ele não é movido a isso pelo que o mundo exterior pode dar, muito menos pela beleza ou pelo prazer. Ele preencheu Seus mundos com objetos belos e agradáveis. Acima da nossa cabeça a imensa abóbada celeste, depois as montanhas de cumes nevados, os vales verdejantes, todos perfumados de flores; o oceano insondável, por vezes tranquilo como um lago, outras vezes erguendo as suas ondulações furiosamente – tudo existe não pelos objetos em si, mas pelo valor que eles apresentam ao Eu; não pelo que esses objetos possam ser por si próprios, mas para que se prestem às vontades do Eu e possam tornar possíveis as Suas manifestações. 
O mundo, com todos os seus encantos, com a sua felicidade e o seu sofrimento, com as suas alegrias e as suas dores, foi concebido com uma soberana sabedoria, de modo a poder levar o Eu a manifestar os Seus poderes. Do nevoeiro do fogo ao Logos [razão universal], tudo existe para o Eu. O imperceptível grão de pó, o mais poderoso Deva [deus] das regiões celestes, a planta alpina que cresce num canto ignorado, a estrela que brilha sobre nossa cabeça, tudo isto existe para que os fragmentos do Eu único, revestidos de numerosas formas, possam, ao realizar a sua própria identidade, manifestar os poderes  do Eu através dos seus corpos materiais. 
Um Eu único tanto reside no humilde pó como no Deva mais exaltado. “Mamansha”, “a minha porção”, “uma parte de mim mesmo”, como os chama Sri Krishna, eis o que são todos esses Jivatmas, todos esses Espíritos Vivos. Para eles o Universo existe. Para eles o sol brilha, as ondas quebram nas praias, os ventos sopram, a chuva cai: de modo que o Eu possa compreender que se manifestou na matéria, espalhado pelo Universo. 


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10.9.19

Do Xamanismo aos Vedas

Neste vídeo analisamos toda a estranheza dos primórdios da civilização indiana, e como o xamanismo migrou da contação de histórias para o registro escrito dos rituais mágicos e religiosos. Ao final também analiso a situação deplorável das comunidades indígenas no nosso país.

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20.5.19

Cantando mantras no SuryAmar

Neste vídeo eu finalmente saí do meu quarto e fui até o SuryAmar Espaço Integral do Ser, aqui em Campo Grande/MS, bater um papo com a minha grande amiga MariAisha Savitri, uma guru que não chama a si mesma de guru. Além de falarmos da parte teórica acerca da prática mística do canto dos mantras, também trazemos alguns mantras entoados lá mesmo. Ao final, ainda explico para que servem os mantras dedicados a Shiva.

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28.3.19

As Canções de Kabir

Rabindranath Tagore foi o primeiro não ocidental a vencer o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, e também o único ser humano responsável pela composição do hino nacional de duas nações: Índia e Bangladesh. Tagore foi um dos maiores poetas do Oriente, e aquele que conferiu o título de “Mahatma” (grande alma) a Gandhi. Mas este artigo não quer tratar de Tagore ou de sua poesia, e sim da sua grande fonte de inspiração: um homem, um poeta, uma lenda conhecida simplesmente como Kabir (“Grande”, em árabe).

Pouco se sabe da sua história com exatidão além de que viveu a maior parte da vida na cidade de Varanasi, no nordeste da Índia, durante o século XV (e início do XVI). Varanasi, às margens do Ganges, é uma das principais cidades do hinduísmo, e uma das cidades continuamente habitadas mais antigas da humanidade, com pelo menos 3 mil anos.

Tendo nascido aproximadamente em 1440 nos arredores de Varanasi, e morrido aproximadamente em 1518 na cidade próxima de Mughar, Kabir passou toda a vida sob o domínio islâmico do Sultanato de Delhi (1206-1526), que no entanto era consideravelmente tolerante para com as práticas hindus. Apesar de possuir um nome árabe, Kabir sempre desdenhou dos rótulos religiosos e das castas sociais, tanto que é até hoje considerado islâmico e hindu ao mesmo tempo (o que, mesmo naquela época, já era algo incomum).

Muito bem, a partir deste ponto, a realidade se confunde com a lenda... Segundo a tradição, Kabir nasceu numa família que professava o hinduísmo, pertencente à casta dos brâmanes (a mais “elevada” delas, reservada aos sábios e sacerdotes). Porém, seu pai morreu cedo e a sua mãe, sem ter condições de educá-lo, o ofereceu em adoção. Kabir foi adotado e educado por um casal de muçulmanos relativamente pobres, o tecelão Niru e sua esposa Nima. Naquele tempo, como ainda hoje, a comunidade islâmica de Varanasi dominava a produção e o comércio de tecidos finos. Assim sendo, Kabir alcançou cedo a maestria na arte da tecelagem, e durante o restante da vida trabalhou com ela.

Quando seu pai adotivo morreu, Kabir assumiu o seu posto como tecelão e vendedor de tecidos, de onde tirava o pálido sustento dele e da mãe. Durante o trabalho, no entanto, entrava frequentemente em êxtase místico e, assim absorto noutros mundos, tecia peças fora da medida ou era facilmente roubado por ladrões quando as expunha no mercado. Era necessário que ele disciplinasse tal vocação espiritual, e foi assim que procurou ajuda no ashram de Ramananda, um dos maiores expoentes da bhakti yoga no hinduísmo da época.

Felizmente, Ramananda também foi um dos primeiros grandes mestres daquele tempo a aceitar discípulos de todas as castas e credos. Tomando contato com aquele jovem tecelão, não se importou que fosse pobre e vindo de família islâmica: viu, em seus olhos, toda a sua potência espiritual, e logo o acolheu.

Sob a generosa tutela deste grandioso mestre, Kabir em poucos anos veio a alcançar ele mesmo o status de santo e sábio, reconhecido por muitos discípulos e inúmeros admiradores (inclusive advindos do islamismo). Mas a lenda de Kabir vai além: mantida em sigilo por séculos, a informação de que ele também teria sido instruído por outro mestre foi revelada por Paramahansa Yogananda (1893-1953) em sua célebre autobiografia. Segundo nos revelou Yogananda já no século XX, Kabir também teria sido instruído por Bábaji, um lendário iogue de sua época (considerado por muitos hindus como “o maior dos iogues perfeitos”).

A conexão de Kabir com grandes místicos do seu século não termina aí. No siquismo se diz que Kabir também foi uma das inspirações do próprio guru Nanak (1469-1539). A poesia de Kabir também encontra paralelos evidentes tanto com o misticismo hindu (sobretudo a bhakti yoga) quanto com o sufismo, o misticismo islâmico.

Assim sendo, não surpreende que Tagore, não mais do que dois anos após alcançar o reconhecimento ocidental com o seu Nobel, tenha se dedicado a selecionar e traduzir poemas de Kabir para o inglês. Através desta obra, Songs of Kabir (As Canções de Kabir), o grande poeta de Varanasi foi finalmente conhecido no Ocidente.

Antes de lhes apresentar trechos deste livro, resta-nos ainda uma última lenda (ou anedota) por contar:

Quando Kabir morreu, tanto os hindus quanto os muçulmanos o reivindicaram como deles e houve uma disputa para cremar ou enterrar seu cadáver. Os hindus queriam cremá-lo conforme a sua tradição e os muçulmanos queriam enterrá-lo, seguindo seus costumes. Há uma história popular a respeito de sua morte, que é ensinada como evento histórico em muitas escolas indianas: ela conta que quando abriram o caixão para disputar o corpo, lá encontraram um livreto sobre sua filosofia desdenhando tanto as crenças hindus quanto as islâmicas, e um buquê com suas flores favoritas! O corpo do santo havia desaparecido e nunca jamais foi encontrado.

Agora sim, para encerrar, algumas canções de Kabir (na tradução de Rafael Arrais):

IV.

Não vá até o bosque!
Ó meu amigo, não vá!

Em seu corpo
existe o bosque, cheio de flores...
Tome o seu lugar
numa das milhares de pétalas da lótus,
e então contemple
a Beleza Infinita.


XIV.

O rio e suas ondas
fluem como um só:
qual a diferença entre eles?

Quando se eleva a onda,
ela é a água;
e quando ela rebenta,
ainda é a mesma água...
Diga-me, ó senhor,
onde está a diferença?

Se acaso a chamaram "onda",
não pode mais ser chamada "água"?

Nas mãos de Brama,
os mundos estão sendo contados
um a um, como as contas de um rosário:
contemple-o com os olhos da sabedoria.


XVI.

Entre os polos da consciência e da inconsciência,
lá a mente fez a sua oscilação:
neste movimento se sustentam todos os seres e todos os mundos,
e este pêndulo jamais deixa de oscilar.

Milhões de seres estão lá;
o sol e a lua e os seus cursos estão lá.
Passam-se milhões de anos,
e seu movimento persiste...

Tudo em fluxo!
O céu e a terra e o ar e a água,
e o próprio Lorde tomando forma:
foi esta a visão que fez de Kabir um servo.


raph

***

Bibliografia
The Songs of Kabir, trad. Rabindranath Tagore (diversas editoras); Kabir: 100 Poemas, trad. José Tadeu Arantes (Attar Editorial); Wikipédia.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search; [ao longo] Joel L.

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19.11.18

Nenhum mestre chama a si mesmo de mestre

Estive recentemente num encontro de espiritualistas em São Paulo, nele havia alguns mestres que subiram num palco para falar aos demais. Um deles representava a Ordem Sufi Naqshbandi no Brasil, que é parte do misticismo islâmico. Ao se dirigir a plateia, onde certamente havia mais discípulos do que mestres, ele tratou de nos trazer uma reflexão muito relevante, logo de início:

“Como pode um aprendiz falar de tesouros que ele ainda não possui?”.

Sheikh Ahmed Shakir ainda não se considera um mestre, e provavelmente tem razão. Mas, ainda que fosse um mestre, ele jamais chamaria a si mesmo de mestre. É precisamente assim que somos capazes de julgar, se é que isso é possível, quem é mestre, e quem diz ser mestre (e não é).

O atual mestre da Ordem Naqshbandi vive no Chipre, uma ilha ao sul da Turquia. Segundo Ahmed, quando um mestre sufi está prestes a morrer, ele transfere a incumbência de “mestre da ordem” para um de seus discípulos. Se isto não ocorrer, a ordem inteira se encerra, como já ocorreu com a Ordem Mevlevi, fundada por seguidores do grande poeta do séc. XIII, Jalal ud-Din Rumi, e também inventor do sama, a dança dos sufis (ou dervixes) rodopiantes. Em meados do século XX, o último mestre dos Mevlevi foi morto devido a perseguições políticas, sem transferir a incumbência a ninguém, e os seus discípulos em grande parte “migraram” para a Naqshbandi, que ainda tinha um mestre vivo. Por isso hoje a Ordem Naqshbandi é a representante do conhecimento esotérico, oculto, da dança inventada por Rumi. Os demais a praticam de forma essencialmente artística, não mais puramente espiritual.

Ahmed também nos explicou que uma linhagem de mestres tem origem num profeta. Profetas reais são raríssimos, e usualmente fundam religiões. Maomé foi o último profeta, segundo se crê no islamismo, e há uma linhagem contínua, uma “linhagem dourada”, desde Maomé até o atual mestre da Ordem Naqshbandi. Quem sabe Ahmed seja o próximo.

Mas não importa, nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, ao menos não para um total desconhecido. Ainda que carregue consigo segredos imemoriais, poderes quase sobrenaturais, conhecimentos ocultíssimos, um mestre se faz mestre por reconhecer que sempre haverá muitos discípulos no Caminho, e ele mesmo talvez jamais deixe de ser um...

Se não crê em mim, basta analisar o que disse Issa, ou Jesus Cristo (Issa é o seu nome islâmico), considerado por muitos como “o mestre dos mestres”:

Dia virá em que farão tudo isso que eu tenho feito, e ainda muito mais (trecho de João 14:12)

Ora, se um dia faremos tudo o que fez o mestre, significa que um dia todos seremos mestres. Mas, então, o mestre ainda seria mestre?

É assim que percebemos duas coisas muito importantes: (1) que todo mestre só é mestre em relação ao seu discípulo; e (2) que todo mestre deseja ardentemente que o seu discípulo também se torne mestre um dia.

Assim sendo, um mestre jamais chamaria a si mesmo de mestre, jamais se apresentaria a um total desconhecido dessa forma, pois o objetivo dele não é reinar acima de uma turba de discípulos ou não discípulos ignorantes, mas antes torná-los melhores, quiçá tão “mestres” quanto ele próprio, ou ainda mais sábios!

E se o Sheikh Ahmed ainda não aceita ser chamado de mestre, sequer na presença de discípulos, no mesmo encontro em São Paulo havia um mestre de fato, já mais velho e com um fiel grupo de discípulos em todo o mundo:

Atma Nambi Guruji nasceu em um pequeno vilarejo no sul da Índia, estado de Tamil Nadu, onde cresceu de uma forma simples, em meio às plantações de arroz. Seus pais nunca lhe impuseram religião alguma, permitindo seu crescimento com a liberdade que uma criança merece e precisa. Atmaji, como é chamado pelos discípulos, teve seu primeiro mestre aos 10 anos de idade, um brâmane que comandava as cerimônias e rituais do templo de Shiva em sua vila. Seu desenvolvimento com esse mestre estendeu-se até seus vinte e poucos anos, período em que aprendeu bem a língua inglesa e o Bakit Yoga – a Yoga da Devoção.

O restante da história do Atmaji vocês poderão conferir no vídeo ao final do artigo, mas antes de encerrarmos, cabe contar uma anedota sobre ele. Todo ano Atmaji vem ao Brasil dar palestras (ou satsangs) no Rio, em São Paulo, e em Campo Grande/MS, onde eu moro. Numa dessas palestras havia todo um marketing por detrás, com banners online e cartazes, o anunciando como “um grande sábio indiano”. Isso não é feito com nenhum tipo de má intenção, o valor arrecadado nas palestras é quase simbólico, e o valor total mal paga a viagem da Índia ao Brasil. Portanto, seria perfeitamente compreensível que Atmaji se portasse como um “grande mestre”, ainda que não se autointitulasse um.

Pois bem, mas eu nunca esquecerei do dia em que ele, adentrando o espaço de uma das palestras, deu de cara com um imenso cartaz onde ele aparecia como um “grande mestre”, quase um ser sobrenatural. Ele simplesmente olhou para aquilo e disse algo como: “this is bullshit, everyone can achieve illumination” (isso é besteira, qualquer um pode conquistar a iluminação).

E, na sequência, ele continuou a fazer o que tem feito há décadas, desde que ele mesmo atingiu a sua iluminação, na Índia: trazer convites aos demais, melhorar este mundo, formar novos mestres, um discípulo por vez.

Com vocês, um mestre do Caminho:

***

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (sufis dançando o sama); [ao longo] um amigo (eu, ao lado de Atmaji e Sheikh Ahmed, no VII Simpósio de Hermetismo, em São Paulo).

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24.10.18

Anjos e Devas

Em diversas religiões é comum a existência de seres espirituais de diferentes categorias. Eles podem variar em termos de desenvolvimento espiritual, moral, poderes e entendimento.

No budismo existem muitos reinos espirituais ou planos de existência que fazem parte de sua cosmologia. Nos estados de privação temos, por exemplo, os asuras (demônios), espíritos famintos e os animais. Podemos renascer como demônios como resultado de karma ruim. Há também diferentes categorias de reinos de devas. Quando temos um bom karma podemos renascer como devas ou como humanos.

É verdade que o reino humano (manussa loka) encontra-se abaixo de muitos dos reinos de devas na hierarquia. Porém, ao atingir os estados de jhanas, um ser humano torna-se capaz de atingir os reinos dos devas.

Na cosmologia do budismo, nascer como ser humano é considerado o melhor tipo de nascimento, pois possui um equilíbrio único de prazer e dor, que é ideal para nos libertar dos ciclos de nascimentos e mortes.

Os devas experimentam muito mais prazer que dor e se encontram em reinos mais elevados do que os humanos. Em compensação, por se encontrarem em estados de tanta alegria, eles não sentem a urgência de se libertar e portanto se torna difícil para eles atingir o nirvana. Por sua vez, os demônios experimentam muito mais dores do que prazer, o que se torna um estado que dificulta enormemente o desenvolvimento espiritual.

Nós humanos normalmente buscamos o prazer e fugimos da dor, o que acaba nos gerando um problema similar ao enfrentado pelos devas: nós ficamos tão distraídos com os prazeres e alegrias que nos esquecemos de trilhar o Caminho Nobre, ou não vemos tanta urgência para isso.

As religiões indianas costumam compensar esse problema sugerindo uma vida de mais simplicidade, meditação, leitura das escrituras ou, em alguns casos, a prática de certas penitências. As austeridades não devem ser excessivas, ou cairíamos num estado similar aos demônios: muita dor impede o desenvolvimento espiritual. Devemos seguir, como Buda sugeriu, o Caminho do Meio, que o nascimento humano já proporciona naturalmente. Basta então adotar as práticas corretas.

Disso tudo concluí-se uma coisa: apesar de na hierarquia os devas (similares aos anjos do cristianismo) se encontrarem num estado superior, por possuírem bom karma, nascer como ser humano é melhor do que ser deva. Através dos estados refinados da mente (jhanas) podemos “ser como devas”. Ao atingir os quatro primeiros jhanas materiais alcançamos um estado mental equivalente ao dos devas. Porém, ao atingir os jhanas imateriais atingimos reinos acima daqueles que os devas podem alcançar, até que conquistamos a iluminação, que é, espiritualmente falando, praticamente inacessível a eles. Por isso é comum que devas escutem os discursos de humanos que já conquistaram alguns jhanas imateriais e as primeiras etapas da Iluminação. Ajahn Mun costumava discursar para devas mesmo antes de se iluminar, quando já estava avançado no entendimento.

Pode-se dizer que existe um ensinamento semelhante no cristianismo. Nós costumamos olhar os anjos como se eles estivessem numa categoria muito acima daquela dos humanos, mas não é bem assim.

O Corão nos conta que, no princípio, Deus criou Adão num estágio de desenvolvimento espiritual até mesmo acima dos anjos. Por isso Deus ordenou que os anjos se ajoelhassem diante dele. Porém, Lúcifer teria se recusado e por isso ele foi expulso do paraíso, de acordo com o islamismo.

É dito no cristianismo que os anjos se encontram constantemente na presença de Deus. Por isso, eles não têm dúvidas de sua existência. São Tomás de Aquino nos conta que eles não possuem corpos materiais, mas espirituais. Sendo assim, são capazes de apenas dois pecados principais: orgulho e inveja, tidos como os piores, pois são pecados do espírito e não da carne.

Os humanos, por outro lado, são capazes de realizar os sete pecados capitais. Eles também não são capazes de ver Deus. Num primeiro olhar, consideraríamos isso como uma desvantagem, certo?

Porém, não é bem assim. De forma similar ao budismo, é dito que os humanos se encontram num equilíbrio de dor e prazer ideal para adquirirmos humildade. É verdade que Adão e Eva caíram, porque pecaram. Eles queriam ser como Deuses, assim como Lúcifer. Porém, a “punição” de Lúcifer e de Adão foram diferentes. Na verdade, essa punição tem mais relação com uma condição que nos ensinará a humildade mais facilmente.

Nós humanos nos tornamos mortais. Porque morremos podemos valorizar mais a vida, considerando-a preciosa. Isso irá apressar nossa urgência de nos desenvolvermos espiritualmente. A mesma urgência que os devas não possuem, já que eles vivem muito mais que nós.

Para completar, porque os seres humanos podem cair em mais pecados que os anjos, eles poderão aprender a humildade com rapidez. Irão reconhecer que são fracos. Da mesma forma que no budismo é dito que, porque o ser humano experimenta certo grau de dor, ele irá buscar atingir a iluminação com mais urgência, sem tantas distrações.

E, finalmente, uma questão chave: Deus não se mostra claramente para os seres humanos. É dito que Deus mantém uma distância epistêmica de nós, não deixando sua existência totalmente clara, pelo mesmo motivo que ele respeita nossa liberdade: é superior escolher o bem quando é possível optar pelo bem ou pelo mal do que se não tivéssemos escolha nenhuma. De forma análoga, é superior acreditar em Deus quando ele não se mostra claramente do que caso ele deixasse bem claro que existe.

Os anjos caminham sempre na presença de Deus e não têm dúvidas de sua existência. É muito mais difícil caírem em pecado, por não terem corpos. Sendo assim, a missão deles é diferente. Eles podem, por exemplo, nos guiar, nos ajudar e nos inspirar.

Não é que os anjos sejam inferiores aos humanos no cristianismo. Em muitos aspectos, os anjos são superiores aos humanos, da mesma forma que os devas são superiores: por não terem corpos, possuem muitos poderes especiais que nós humanos não possuímos. E por terem um nível mais elevado de entendimento espiritual (afinal, os anjos sempre estão com Deus e os devas se mantém sempre num estado equivalente aos jhanas materiais), eles são capazes de saber coisas que desconhecemos.

No entanto, a fraqueza humana pode se tornar uma força que nos torna capazes de ir mais longe. No catolicismo é dito com muita clareza que quando um ser humano se torna um santo, o seu desenvolvimento espiritual se torna tão elevado quanto o de um anjo. Da mesma forma que uma pessoa ao atingir jhanas materiais torna-se tão elevado quanto um deva.

Existe essa passagem misteriosa na Bíblia:

“Ousa algum de vós, tendo algum negócio contra outro, ir a juízo perante os injustos, e não perante os santos? Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgar as coisas mínimas? Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a essa vida?” (1Cor 6:1–3)

Existem diferentes interpretações para essa passagem. Alguns dizem que os humanos que se tornarem santos serão aqueles a julgar os anjos caídos no Juízo Final.

E não podemos nos esquecer que no catolicismo há Maria, mãe de Deus. Ela só está abaixo da Santíssima Trindade. Encontra-se até mesmo acima dos anjos. O que nos sugere que um ser humano possui o potencial de atingir um estágio até mesmo superior ao dos anjos, como é o exemplo de Adão no islamismo, quando estava no Jardim do Éden, e de Maria no catolicismo.

Vejo isso como um teste de Deus para ambos: para anjos e para humanos. Os humanos devem desenvolver humildade lembrando que Deus e os anjos se encontram acima deles na hierarquia. E os anjos devem desenvolver humildade lembrando que Deus está acima deles e os seres humanos possuem um potencial de elevarem-se a alturas que somente Deus sabe, de acordo com o nível de santidade de cada um.

Porém, a isso o catolicismo não coloca nenhuma dúvida: um santo é equivalente a um anjo. Não em natureza, mas em nível espiritual e de entendimento. Por isso eles podem adquirir até o poder de fazer milagres, originalmente apenas pertencente a anjos. E por isso quem atinge jhanas materiais no budismo pode adquirir alguns poderes psíquicos, como os devas.

Que tudo isso nos sirva de reflexão e para recordarmos: nascer como humano é realmente uma bênção extraordinária. Podemos chegar a alturas que nem imaginamos, mas primeiramente é preciso tornar-se digno disso, baixando a cabeça, com humildade, prestando homenagem a todos que são mais sábios que nós e aprendendo com eles.

Wanju Duli é escritora – Contato: facebook.com/WanjuDuIi

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Crédito da imagem: wikimedia (Buddha preaching Abhidhamma in Tavatimsa)

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24.4.18

Deus é nosso amor (Reflexões no YouTube)

Em meu segundo vídeo na TV Aberta das Internetz, falo um pouco mais sobre as diversas formas de se conceber a Deus, tanto as ocidentais quanto as orientais. Também veremos como Joseph Campbell foi um sujeito fod@, e como os sábios hindus já debatiam assuntos divinos complexos desde pelo menos a época de Cristo:

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10.4.18

As grandes questões do ocultismo (tomo II)

« continuando do tomo I

No caminho da mão esquerda nós tomamos a rota direta, que é muito mais extenuante, muito mais perigosa, e onde há maiores chances de uma queda (Zeena Schreck)


Bem, se eu já havia me metido numa enrascada ao tentar definir o que diabos é ocultismo, talvez neste momento tenha me colocado num problema ainda maior: o que são o caminho da mão esquerda e da mão direita, afinal de contas?

Se formos buscar nos canais tradicionais de informação – onde boa parte do ocultismo é entendida de forma tão superficial quanto um super-herói como Hércules (da Marvel), se comparado ao seu mito antigo – temos algo não muito diverso do maniqueísmo raso: “O caminho da mão esquerda é equiparado às maliciosas práticas da magia negra, enquanto o caminho da mão direita refere-se às práticas benéficas da magia branca”. Sim, isto se encontra na Wikipédia; não é a toa que tão poucos sabem o que é ocultismo...

Um dos problemas de se tentar definir o que é o chamado caminho da mão esquerda (Left Hand Path: LHP) e a sua “contraparte”, o caminho da mão direita (Right Hand Path: RHP), é que muitas vertentes ocultistas formaram opiniões diversas sobre eles. Há quem creia que só devemos falar em LHP; há quem diga que podemos falar em ambos, mas que não são exatamente opostos; há quem atribua características tão díspares para LHP e RHP, que fica quase impossível uma definição única. No entanto, há pelo menos uma espécie de “consenso geral”: o de que LHP vem de práticas espirituais heterodoxas, por vezes individuais; e o RHP, por sua vez, favorece as práticas ortodoxas, geralmente baseadas nos ensinamentos de uma coletividade eclesiástica.

Tudo teve início na Índia...
Talvez surpreenda a muitos ocultistas ocidentais, mas os termos LHP e RHP surgiram inicialmente na Índia, mais precisamente dentre os praticantes do tantra, que pode ser aqui brevemente resumido como o “ocultismo hindu” (na verdade ele é muito mais que isso; apenas não terei tempo para entrar no tema nesta série). No Oriente, o RHP, ou Dakshinachara, se refere a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa; por sua vez, o LHP, ou Vamachara, se refere a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas. É preciso lembrar, no entanto, que isso já é muito distante da dualidade infantil de “bem” e “mal”; ou de “magia branca” e “magia negra”.

Porém, se no ocultismo ocidental contemporâneo um praticante LHP pode dividir um mesmo auditório com um praticante RHP sem que necessariamente eles sejam facilmente identificados por sua aparência, vestimenta, acessórios, ou até pela forma de se expressar, na Índia, particularmente na Índia antiga, alguns seguidores do LHP eram instantaneamente percebidos por onde passavam (e ainda são, embora estejam praticamente extintos):

Os aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação do deus Shiva associada à aniquilação… do mal! Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o verdadeiro Eu, transcendendo todos os tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Devemos pensar na prática aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar, sendo que a diferença entre a imunização e a infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente. Os aghori provavelmente seriam percebidos por um turista ocidental desapercebido como mendigos imundos que se misturam com mortos... mas, é preciso lembrar que mesmo Jesus Cristo já abriu uma tumba, e fez um cadáver voltar à vida: “Lázaro, levanta-te e anda!”. Não sei se o Rabi da Galileia foi lá muito ortodoxo em suas práticas...

Outra possível compreensão da relação entre o ortodoxo e o heterodoxo que definem os caminhos é a relação entre a disciplina e a abstenção. Um praticante RHP vai preferir abster-se de alguns desejos tipicamente mundanos, como o sexo dito promíscuo ou o consumo excessivo de bebida alcoólica; já alguém da via LHP pode, justamente, buscar ativamente tais práticas, para colocar a sua própria disciplina em xeque. Ou seja: ao invés de evitar o “perigo”, ele irá buscá-lo conscientemente, como alguém que se vê maduro o suficiente para ser testado, para testar a si mesmo, em seus apegos e excessos mundanos. É por isso que alguns dizem que o LHP é um caminho mais direto, porém bem mais perigoso.

Por muito tempo o ocultismo ocidental não esteve muito distante dessa antiga definição hindu para os dois caminhos. Ainda no tempo de Éliphas Lévi, que muitos consideram o maior ocultista do séc. XIX, a chamada “Alta Magia”, que lida com os seres do Alto, com os espíritos etéreos e com o intelecto, esteve associada à ortodoxia cristã e ao RHP. Assim, ainda que nem sempre tenha estado tão claro, se pressupunha que havia uma “Baixa Magia”, para lidar com os seres da Terra, com os espíritos densos e com a intuição – esta, portanto, estaria ligada ao LHP. Até hoje, de fato, podemos encontrar classificações parecidas nos cultos e religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda.

No entanto, com a abertura e divulgação de parte do chamado conhecimento oculto para a população leiga e os não-iniciados em geral, um movimento que atravessou o séc. XX (com grande auxílio de Aleister Crowley) e culminou na era da internet, muitas tradições se intercruzaram e, de uma imensa salada mista de conceitos e interpretações, se acabou chegando, ironicamente, a uma ideia um tanto simples para se compreender os caminhos: expansão e restrição.

Desde o yin e yang oriental já se fala nisso: uma parte da natureza que é ativa e expansiva (yang), e a sua contraparte, passiva e restritiva (yin). Na Árvore da Vida da kabbalah, há o pilar direito, expansivo, e o pilar esquerdo, restritivo. Neste caso, a associação dos lados aos caminhos é natural: o RHP seria o pilar expansivo (direito), enquanto o LHP ficaria do lado restritivo (esquerdo). Tal visão “natural” dos caminhos parece ter agradado muita gente, e em geral se tornou quase que um consenso adicional à antiga interpretação que, como já vimos, veio desde o tantra hindu. É preciso atentar para um detalhe, no entanto: todo yang traz em si um pouco de yin, e todo yin traz um pouco de yang. Com isto em mente, penso que podemos aplicar o LHP e o RHP ao caminho espiritual de cada um de nós (um caminho que, invariavelmente, perpassa muitas vidas)...

Ovelhas pastoreadas e ovelhas desgarradas
A imensa maioria das crianças não guarda senão uma vaga intuição acerca das vidas anteriores. Muitas podem carregar traumas relacionados às inúmeras guerras religiosas de nossa história, mas eles não costumam vir à tona até que chegue a adolescência com sua rebeldia. Assim, a suposta “tábula rasa” de nossa mente precisa ser preenchida com conhecimento, e na maior parte do mundo o lado espiritual é contemplado pela ortodoxia eclesiástica em voga na região em que nascemos. Nos tornamos, enfim, ovelhas pastoreadas pelo ensinamento religioso tradicional, e por seus representantes.

Isto se dá por um imenso movimento de expansão em nossa mente, que passa boa parte da infância sendo inundada, martelada por todo tipo de conhecimento religioso, mais ou menos dogmático, a depender da sorte que tivemos, isto é: do país e da família em que nascemos. Quando iniciamos a formação de nossa personalidade adulta, entretanto, muitas vezes antigos traumas, ou antigas preferências pela heterodoxia, costumam vir à tona. É assim que muitas ovelhas se desgarram de seus rebanhos, se tornando “a ovelha negra da família”.

Esta sempre foi à essência do ateísmo: não necessariamente descrer em Deus, mas ser avesso às tradições, se recusar a praticar a religião estabelecida, não seguir o rumo da multidão, por vezes se isolar não somente em seu próprio pensamento, mas abdicar da sociedade como um todo. Claro que nos dias atuais, numa era hiperconectada, tal isolamento é cada vez mais raro – mas, estranho de se pensar: todo livre-pensador, todo fundador de novas doutrinas e religiões, necessariamente teve o seu momento de eremita, o seu tempo no LHP. Foi necessário restringir a expansão para encontrar as suas próprias ideias.

O próprio cristianismo surgiu de um homem assim. Cristo jamais teria se dignado a perambular pela Galileia com seu punhado de ovelhas desgarradas, falando tanto a homens quanto a mulheres, tanto a nobres quanto humildes, praticando os “milagres” mais estranhos (ao ponto de precisar ser “calado” pela tradição), se não fosse ele mesmo um fiel seguidor do LHP.

No entanto, a partir da consolidação e da imensa vitória do cristianismo enquanto doutrina, todas as discussões da Igreja primitiva foram sendo decididas, todos os dogmas foram sendo estabelecidos sobre as heresias, e de um ensinamento simples e profundo, “Amai ao próximo como a ti mesmo, e a Deus acima de todas as coisas”, toda uma construção se ergueu, com suas virtudes e seus vícios, para se consolidar em uma nova tradição. É desta forma que a maior parte dos santos católicos seguiram o RHP, evangelizando os ensinamentos de um andarilho exótico, maltrapilho, que fazia os mortos se levantarem e afirmava que podia ser consumido, ele próprio, através do pão e do vinho. Não há nada mais heterodoxo que isso.

O mago e o místico
Numa visão geral, todo mago está geralmente ligado a uma via não tradicional, não eclesiástica, enquanto todo místico surge do próprio seio das comunidades religiosas... mas, será que é sempre assim? No ocultismo, não é possível nos atermos a visões binárias, ao “bem” e ao “mal”, ao “branco” e ao “negro”. Assim como todo yin traz sua parcela de yang, e vice versa, o mesmo pode ocorrer aqui.

Por exemplo, em seu aspecto de “realização da vontade”, o mago é muito mais ativo, muito mais expansivo, muito mais associado à coluna direita da Árvore, e não à esquerda. Da mesma forma, em sua “contemplação de Deus”, o místico é muito mais passivo, estando ligado à coluna esquerda, e não à direita.

Por outro lado, quando “expande seu coração” para abarcar a tudo e a todos, o místico se porta de forma incomparavelmente mais expansiva que o mago, que em geral “se restringe ao seu próprio grimório”, ao seu próprio vocabulário, a sua própria linguagem mágica, abdicando de maiores explorações pelas egrégoras alheias.

Quanto à ortodoxia e à heterodoxia, podem ocorrer inversões ainda mais curiosas: o já citado Éliphas Lévi foi um mago grandioso que, em geral, esteve muito ligado à tradição católica; já em pleno século XIII, em meio ao islamismo tradicional, surgiu um místico sufi, Jalal ud-Din Rumi, que passou boa parte de seus dias simplesmente rodopiando e recitando poemas aos seus discípulos. Perto de Lévi, Rumi seria considerado um lunático.

É assim que todo mago e todo místico têm sua fase LHP e sua fase RHP, e por vezes eles conseguem seguir precisamente pelo meio, tomando o rumo direto, o rumo que salta um Abismo ainda mais infernal do que qualquer noite negra da alma. Há que se perguntar, após tantas elucubrações, por que afinal tanta gente se arrisca por tantos e tantos perigos? Por que seguem pelo RHP ou pelo LHP? Aonde se quer chegar com tudo isso?

Creio eu que todos nós, os ocultistas, buscamos por um campo...


Além das ideias de certo e errado,
há um campo. Eu lhe encontrarei lá.

Quando a alma se deita naquela grama,
o mundo está preenchido demais para que falemos dele.
Ideias, linguagem, e mesmo a frase “cada um”
não fazem mais nenhum sentido.

(Rumi)

» No tomo III: a Verdadeira Vontade.

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Fontes consultadas
O tema deste tomo é bastante complexo e certamente vai muito além dos meus parcos conhecimentos na área; tal texto jamais teria sido possível sem o inestimável auxílio do artigo O Caminho Sinistro (por XLR), do episódio 19 do Vortex Caoscast – Mão Esquerda para Destros, e das contribuições de Gabriel Leite Bueno, Maes Hughes e Dan Cruz (dentre outros) no grupo do Vortex no Facebook.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search/Geoglyphiks.com [ao longo] Reuters (Aghori de Varanasi, Índia); a1samurai @ DeviantArt.

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