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29.8.13

Sama

Trecho do Projeto Rumi:

Nós viemos girando do nada,
espalhando as estrelas como pó.
As estrelas então se puseram em círculo
e nós dançamos com elas ao centro.

Como a pedra do moinho, gira a roda do céu
em torno de Deus.
Acaso segure um raio de tal toda
terá sua mão decepada!

Girando e girando
tal roda dissolve todo e qualquer apego.
Acaso não estivesse apaixonada
ela mesma gritaria, “Basta!
Até quando hei de seguir nesse giro?”

Cada átomo gira desnorteado,
mendigos circulam entre as mesas,
cães rondam um pedaço de carne,
o amante gira em torno
de seu próprio coração.

Envergonhado perante tanta beleza,
giro ao redor de minha vergonha.

***

Vem! Ouça a música do sama [1].
Venha se unir ao som dos tambores!
Aqui nós celebramos. Aqui todos nós anunciamos:
“Eu sou a Verdade!”

Estamos em êxtase.
Embriagados de um vinho que não se colhe na videira.
O que quer que pensem de nós
em nada lembrará o que somos.

Giramos e giramos, extasiados.
Esta é a noite do sama.
Há luz agora. “Luz! Luz!”

Eis o amor verdadeiro
que diz para a mente: “Adeus”.
Este é o dia do adeus.
“Adeus! Adeus!”

Todo coração que arde nesta noite
é amigo da música.

Ardendo, ansioso por seus lábios,
meu coração transborda por minha boca.

***

Silêncio!
Você é feito de pensamento, afeto e paixão;
e o que resta é nada além de carne e ossos...

Por que nos falam de templos de oração
e de atos piedosos?
Nós somos o caçador e a caça,
outono e primavera,
noite e dia,
o Visível e o Invisível.

Nós somos o tesouro do espírito.
Nós somos a alma do mundo,
liberta do peso que enverga ao corpo.

Não somos prisioneiros nem do tempo nem do espaço
nem mesmo desta terra em que pisamos.

No amor fomos gerados.
No amor nascemos.


Comentário

Enquanto estamos aqui, nesta pedra a girar em torno do Sol, que por sua vez gira em torno do centro gravitacional da Via Láctea, que por sua vez gira atraída pelos grandes aglomerados de galáxias locais, não há sequer um momento em que estamos parados, nem mesmo um momento em que nossos átomos estejam parados.
Nesta roda cósmica tudo se move em direção a algum lugar. Tudo se encontra catapultado rumo ao horizonte... O que há depois disso tudo? O que existia antes? Por que diabos o mundo não cansa de dançar?
Você pode abordar esta questão cientificamente, e procurar analisar a posição e a velocidade de cada pequena partícula do Cosmos; e então, quem sabe, tal qual o Demônio de Laplace, saber perfeitamente para onde tudo se move, e com que velocidade se move. Saber de cada pequena coisa que ocorreu e ocorrerá!
Mas, ainda que você consiga tais informações a duras penas, ainda que se torne onisciente das coisas materiais, ainda assim não saberá de nada do que ocorre neste momento, nesta dança.

O sama é a dança da alma.
A alma não tem nem posição nem velocidade, nem tampouco está preocupada com o que ocorreu ou está para ocorrer.
A alma está no que ocorre neste momento; ela está dando o próximo passo desta dança...

Você pode sentir seus movimentos?

***

[1] O sama é a dança cósmica dos dervixes rodopiantes, criada por Rumi e praticada pela ordem sufi Mevlevi.

» Ouça o poema acima sendo recitado por Leticia Sabatella (a partir de 1:50; ela usa outra tradução)

Crédito da imagem: achada em facebook.com/mevlana

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1 comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Confirmado:

Luz é gerada pelo vácuo:
http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=vacuo-produz-luz

30/8/13 20:05  

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