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24.7.14

Algoritmos

» Conto pessoal, da série “Cotidianos”, com breves reflexões acerca dos eventos do dia a dia...


Outro dia vi um sujeito, no metrô, usando uma cédula de dois reais como marca página de seu livro.

Imediatamente me veio a mente que o dinheiro não deveria ser usado desta forma. "Nossa, imagina se ele deixa cair sem querer!". Nós somos acostumados a dar grande valor ao dinheiro. Porém, é até estranho de se pensar, mas aquela cédula nada mais era do que um papel impresso. Ligeiramente mais fino e flexível do que um marcador de página, mas com uma imagem consideravelmente mais elaborada. Bem, um dia ainda podem criar um marcador de página que tenha a mesma imagem de uma cédula de dois reais – neste caso, restaria somente a diferença da grossura e da flexibilidade.

Quando usávamos moedas de ouro, há muito tempo atrás, era a própria moeda que tinha valor. Com o tempo, acabou ficando mais simples usarmos papeis impressos, com gravuras multicolores, para não termos de carregas sacos cheios de moedas (inclusive pelo metrô). Ocorre que tais cédulas costumavam ser rastreadas, isto é, terem uma equivalência direta ao ouro que estaria depositado nalgum cofre do respectivo Estado que imprimiu as cédulas. Mas isto durou somente até os Estados Unidos precisarem de "mais dinheiro do que tinham realmente" para continuar gastando com sua guerra no Vietnã. A "brilhante" solução foi abandonar o lastro material em ouro, e simplesmente continuar imprimindo cédulas multicolores. "Sim, não temos mais como comprovar que estes valores existem, mas se somos a Superpotência do mundo, podemos simplesmente dizer que eles existem, e se tudo correr bem vai todo mundo acreditar".

Deu muito certo. O sistema econômico da pós-modernidade é, desta forma, um grandioso sistema de crenças. Vivemos de grandes bolhas especulativas, que quando estouram revelam pequenas bolhas especulativas por dentro delas. Esperemos que ninguém nunca estoure as bolhas pequenas, pois pode ser chocante descobrirmos que, no fim, o valor que damos ao dinheiro é realmente uma crença – algo que existe somente na nossa cabeça.

Mas, afinal, e o que existe além daquilo que existe somente na nossa cabeça?

Provavelmente a natureza exista, mesmo fora da nossa cabeça. O problema é que, com o que temos feito com a natureza de nosso planeta, em nome de alguma estranha ideia de "empreendedorismo infinito", podemos chegar num ponto em que nossa existência conjunta com esta natureza fique insustentável. A natureza vai continuar existindo, mesmo aqui neste planeta – o que não temos certeza é se ainda teremos cabeças e olhos humanos para a contemplar.

Sabemos hoje que, se todo o planeta já tivesse o mesmo padrão de consumo dos cidadãos dos Estados Unidos, seriam necessários recursos naturais de cerca de três planetas e meio para fechar a conta. E ainda assim eles não estão satisfeitos. Por que ter somente um carro? Por que não ter uma máquina de lavar louça? Por que não trocar de celular a cada seis meses? "Sim, sabemos que tudo isto pode fazer mal pro planeta, mas se não continuarmos consumindo, pode ser ruim para a economia. Nosso PIB pode ficar abaixo da meta!"

É assim que, a despeito do que nos disseram sobre a democracia na escola, no final das contas parece mesmo é que somos governados por algoritmos de lucro. Há empresas tão, tão grandes, que possuem tais algoritmos em suas "metas anuais"; e são eles que determinam o que deve ser feito para maximizar os lucros. Não é a ideia de um ou outro empresário, mas uma construção coletiva. Um ideia que cresceu tanto que assumiu "vida própria". Não são os grandes empresários, os CEOs, quem governam as multinacionais, são os algoritmos de lucro.

Assim, com tanto lucro, também fica muito simples investir na política, no Grande Negócio Eleitoral. Algumas grandes empresas, como petrolíferas e empreiteiras multinacionais, financiam campanhas dos candidatos que têm alguma chance de vencer eleições. As eleições do Grande Negócio Eleitoral são caras, muito caras. Assim, somente quem tem muito, muito dinheiro, tem alguma chance de vencer. Isto porque somente quem tem como financiar grandes agentes de marketing tem alguma chance de convencer as pessoas (as filosofias e ideologias já não convencem mais ninguém, o marketing sim). Desta forma, o sistema é montado para que somente algumas poucas empresas, muito grandes e muito ricas, possam colocar seus candidatos no poder.

E assim, seguindo o plano à risca, conseguem manter a roda girando, e cada vez mais rápido, até que o mundo acabe... Não faz muito sentido, quem é que pensou que poderia dar certo?

Aí é que está: algoritmos não pensam. Algoritmos foram pensados, e quem os pensou pode nem estar mais aqui para ver como as coisas, quem sabe, não estejam enveredando para um caminho viável, digamos assim.

"Ora, mais pode ser que nem todos pereçam, que sobrem alguns poucos, e que não sejamos totalmente extintos; e então poderemos reconstruir tudo de novo."

Mas então, se já sabemos que não dará certo, por que continuar insistindo neste modelo? Por que o medo de buscar algo novo? O máximo que pode ocorrer é nos extinguirmos um pouco mais rápido, em meio a algumas guerras e conflitos que escapem de controle...

Pelo menos não teremos sido hipócritas. Pelo menos teremos sido honestos, até o fim.

Portanto, se algum país invade outro em busca de petróleo, sejamos honestos, e não inventemos que ali havia "uma luta pela democracia".

E se multinacionais vêm comprar nossas fontes de água doce, sejamos honestos, e não inventemos que elas estão apenas "investindo no mercado interno".

E se nossos gadgets mais avançados são construídos por trabalhadores escravos ou semiescravos, sejamos honestos, e não inventemos que isto se dá somente para que "a livre concorrência deixe o mercado sadio".

E se um de nossos candidatos vence a eleição com um financiamento de campanha um pouco mais robusto do que o outro, sejamos honestos, e não inventemos que havia ali "um embate de ideologias", nem muito menos que vivamos numa época de "democracia plena".

É este o meu manifesto. O manifesto pelo fim da hipocrisia.

***

Crédito da imagem: ABM/Corbis

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2 comentários:

Blogger Juliano disse...

Muito muito bom!

Hoje em dia alguns tem essa a ciência destes fatos...
Talvez algo mude quando a grande maioria souber o que faz realmente a roda girar.

O triste é saber disso hoje e não saber como reagir.
Lembro que alguns anos atrás eu me recusava a comprar os produtos "Made in China", hoje em dia eu já nem olho esse detalhe, 90% do que eu consumo é feito la.

Abraço,
Juliano.

4/8/14 13:14  
Blogger raph disse...

Oi Juliano,

Acho que o que devemos tentar fazer são mudanças graduais, em pequenos passos, pois grandes revoluções provaram ser muito raras e, tantas vezes, ilusórias...

No entanto, o espaço para a mudança gradual vai ficando cada vez menor, enquanto parte do mundo ainda se vê presa a mentalidade de muitos séculos atrás.

Enfim, talvez também seja a hora de nos prepararmos para uma grande crise, mas sem perdermos a esperança...

Pois que, embora as boas notícias mal apareçam nos noticiários apocalípticos, elas existem. E, ainda que cambaleante e a passos de tartaruga manca, o mundo consegue ir a frente, principalmente no pensamento da juventude.

A grande questão é: "Mas ainda teremos tempo?". O Eduardo Galeano disse que "este mundo de merda está grávido de um outro"... Só não sei se teremos tempo de um parto normal, ou se terá de ser na base da cesariana radical :(

Abs!
raph

4/8/14 14:43  

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