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4.7.08

O ônus da prova

Em se falando de crenças ou terorias conceituais, as pessoas parecem se dividir entre as que tem certezas e as que tem convicções.

As pessoas que tem certezas, ou acreditam ter, acham que a verdade sobre a realidade da Natureza, ou ao menos boa parte dela, já foi esquadrinhada e perfeitamente compreendida e explicada por um livro, um profeta, um alienígena ou mesmo uma "entidade espiritual". Essas pessoas geralmente se acham no direito de "divulgar" essas certezas para os outros, e acreditam que estão com isso fazendo um "grande bem", visto que, na sua opinião, de nada adianta continuar buscando a verdade: ela já foi encontrada e agora precisa ser divulgada a toda humanidade, de preferência o mais breve e insistentemente possível. Em suma, acreditam que sua verdade está provada e não pode ser questionada.

As pessoas que tem convicções, de certo admitem que nem toda verdade sobre a realidade da Natureza foi encontrada; Em realidade, muitas acreditam que compreendemos apenas uma ínfima parte dela. Essas pessoas sabem que, exatamente pela verdade não ter sido totalmente compreendida, não seria sábio nem razoável pretender que suas crenças sejam abraçadas pelo restante da humanidade: melhor esperar que as pessoas se interessem pela crença por si mesmas, antes de ir atrás das pessoas com a promessa de que encontraram para elas a verdade, exatamente porque qualquer promessa desse tipo seria falsa. Ainda que concordem que sua crença possa vir a explicar muito do que ainda não foi compreendido ou comprovado, sabem perfeitamente que absolutamente tudo o que acreditam não está livre de questionamento, e tampouco está provado.

Pois bem, enquanto as primeiras são dogmáticas, essas últimas são antes de tudo, racionais: afinal, sabe-se que o ônus da prova cabe e caberá sempre a quem procura afirmar alguma coisa, e não a quem apenas se recusa e acreditar enquanto nada estiver comprovado.

Ora, e recorrendo a experimentação científica, os cientistas comprovaram que a Terra não é plana, que não está no centro do Universo (que aliás não tem centro definido espacialmente), que orbita o Sol e que essa órbita é constante (não poderia, portanto, parar de um minuto para o outro), que absolutamente toda matéria na Terra é feita da combinação de algumas dúzias de elementos químicos, que as espécies animais evoluem ao longo dos milhões de anos pelo mecanismo da seleção natural, etc. - Entretanto, apesar dos religiosos terem parte da teoria de um Universo criado aparentemente do "nada" comprovada pelo Big Bang, não tem-se comprovado cientificamente a existência de Deus, se ele seria um ser consciente, se existem espíritos, se existem alienígenas visitando a Terra, se existem realmente os chamados "fenômenos paranormais", etc.

Apesar de tudo isso ser definitivamente importante de ser levado em consideração, também vale considerar, da mesma forma, que em lugar algum está escrito que um cientista não possa ser religioso, ou que um religioso não possa ser cientista... Afinal, o próprio estudo do Genoma Humano comprovou que na Terra só existe uma espécie de seres humanos, o homo sapiens, e não vem escrito em seus genes que eles precisam, ao nascer, escolher entre um caminho e outro, excluindo e ignorando totalmente um deles.

A princípio, nada pode comprovar hoje que quem afirme que existem pequenos dragões de Matéria Escura voando pela noite em uma dada cidade esteja equivocado: não se pode detectar a Matéria Escura, e mesmo que se pudesse, talvez ao fazer as medições na cidade em questão os dragões tenham se mudado para uma outra, e será difícil comprovar se existem, mas da mesma forma será imposível comprovar que não existem.

Portanto, há que se baixar a guarda, desfazer os nós, e admitir: "em princípio, toda crença tem sua chance de estar absolutamente correta, por mais improvável que possa parecer a primeira vista"... Até porque, foi exatamente com essa abordagem que os gênios da ciência observaram o que ninguém havia se arriscado a observar na Natureza, e dessa forma, nos ombros de gigantes, um seguido do outro, mudaram a nossa forma de ver o mundo, por mais religioso que cada um de nós possa ser.

Há que se tentar analisar a crença de cada um, e se for o caso de fazer julgamentos, julgar antes de tudo as consequências morais de cada crença: se um religioso pratica a caridade, a abnegação, o auto-conhecimento, a crença em um futuro melhor para a humanidade, construído de preferência pela própria humanidade em conjunto, e não por um Deus Ex-Machina no Fim dos Tempos, não importa se os motivos de suas boas ações se baseiam num Manual da Verdade Absoluta, na Mensagem Divina de um Profeta ou mesmo na Instrução de Espíritos de Luz, o que importa são suas obras e não suas crenças.

Da mesma forma, se um religioso encontra em sua crença razão para crer que existem castas de seres humanos, uns evoluídos e outros nem tanto, uns programados por Deus para serem portadores de toda a verdade, e outros portadores de todo mal; Ou ainda que use de sua crença para afirmar que este ou aquele será condenado, este ou aquele será salvo, que este ou aquele tem alma, e este ou aquele é apenas um "construto de Deus" para nos servir, e finalmente, se através de sua crença nega veementemente o que a ciência já comprovou em experimentações, e se acha no direito de tentar afastar as pessoas do "mal do conhecimento", da mesma forma, julguemo-os pelas suas obras, e não pelas suas crenças.

Ninguém de certo conhece toda a verdade do mundo, mas em nossa consciência trouxemos, ou nos foi dado, o bom senso. Apesar de tudo, acredito que ele ainda é, e sempre será, o nosso melhor guia em meio ao aparente caos de crenças que nos parecem inóspitas, julgamentos que nos parecem precipitados, e seres humanos que nada vêem e nada sentem.

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