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24.9.19

Do que é formado o espírito?

Neste vídeo contaremos com a ajuda de Allan Kardec para tentar responder se os espíritos são, afinal, materiais ou imateriais. Também adentraremos em conceitos da filosofia e da ciência para tentar compreender melhor a resposta desta questão.

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1.3.13

O que é matéria e energia escura?

Texto de Cesar Grossmann para o site HypeScience. As notas ao final são minhas.


A matéria escura e a energia escura são soluções propostas para explicar alguns fenômenos gravitacionais, e, até onde sabemos, são coisas distintas.

Embora juntas respondam por mais de 95% do nosso universo, só sabemos de sua existência por meios indiretos, observando seus efeitos sobre o universo e tentando deduzir suas propriedades a partir deles.

Matéria escura
A matéria escura foi proposta nos anos 1930 por Fritz Zwicky para explicar a diferença entre a massa gravitacional e a massa luminosa de aglomerados de galáxias (Fritz Zwicky estava trabalhando com curvas de rotação de galáxias).

A massa gravitacional de um objeto é determinada pela medida da velocidade e raio da órbita de seus satélites, um processo igual à medição da massa do sol usando a velocidade e distância radial dos planetas.

A massa luminosa é determinada pela soma de toda luz e convertendo este número em uma estimativa de massa, baseado na nossa compreensão sobre como as estrelas brilham. Esta comparação de massa-para-luz indica que a energia na matéria luminosa contribui com menos de 1% da densidade média de energia do universo.

Certamente existe mais matéria nas galáxias que não emite luz, mas as evidências indicam que há um limite máximo para a matéria normal (aquela feita de átomos) presente no universo. Evidências vindo da medição da radiação cósmica de fundo, por exemplo, apontam que no máximo 5% da densidade de massa-energia do universo e 20% da massa dos aglomerados está na forma de átomos.

Mas do que é feita a matéria escura? Muitos físicos e astrônomos acham que a matéria escura é provavelmente uma nova partícula que ainda não foi detectada em aceleradores de partículas ou em raios cósmicos.

Para ser uma partícula de matéria escura, ela tem que ter bastante massa, provavelmente mais que um nêutron, e interagir muito fracamente com a matéria normal, de forma a dificilmente reagir produzindo luz.

O protótipo do candidato é algo parecido com um neutrino, só que todos os tipos de neutrinos conhecidos são muito leves e muito raros para explicar a matéria escura [1].

E como a matéria escura afeta o universo? Aparentemente, ela é responsável pelas estruturas que vemos no universo, como galáxias e aglomerados; é ela que “segura” estes objetos imensos, não deixando que se desfaçam.

Como curiosidade, a proposta de uma matéria escura na década de 1930 por Fritz Zwicky não foi levada a sério porque o suíço tinha entrado em atrito com muitos colegas na comunidade astronômica. Em 1962, a astrônoma Vera Rubin fez a mesma descoberta, que novamente não foi levada à sério, desta vez porque ela era uma mulher. Ela persistiu e conseguiu atenção da comunidade em 1978, com um estudo profundo de 11 galáxias, inclusive a nossa [2].

Energia escura
A energia escura tem sua origem nos trabalhos para entender a expansão acelerada do universo. Basicamente, a teoria atual não consegue explicar essa aceleração. Uma das especulações é que a aceleração é consequência de uma nova forma de matéria, apelidada “energia escura”, que também não foi detectada até agora.

É chamada de “escura” porque deve interagir muito fracamente com a matéria, como a matéria escura, e é chamada de energia porque uma das coisas de que estamos certos é que ela contribui com cerca de 70% da energia total do universo. Se descobrirmos o que é, podemos então trocar o nome para algo menos misterioso.

Com o estabelecimento do modelo cosmológico do Big Bang, acreditava-se que a expansão inicial de 13,7 bilhões de anos atrás estaria diminuindo com o tempo, mas duas equipes de pesquisadores independentes descobriram em 1998 que a expansão estava acelerando.

A aceleração é determinada pela medida dos tamanhos relativos do universo em diferentes eras. De uma forma específica, os astrônomos medem o redshift ou desvio para o vermelho do espectro e a distância da luminosidade de explosões estelares chamadas supernovas tipo 1a.

O tempo que a luz da supernova leva para chegar aos telescópios é descoberto examinando a distância da luminosidade, enquanto a mudança do tamanho do universo entre a explosão e a observação é determinada pelo desvio para o vermelho. Uma comparação destes tamanhos em uma sequência de tempo revela que o universo está crescendo cada vez mais rápido. Desde esta descoberta, os equipamentos ficaram mais sensíveis e os dados foram confirmados pela medição de outros fenômenos cosmológicos.

A teoria da relatividade prevê que a aceleração cósmica é determinada pela densidade média de energia e pressão de todas as formas de matéria e energia no universo. Só que as quantidades da matéria normal, da energia normal, e da matéria escura não respondem pela densidade de energia necessária para a aceleração – tem que ser outra coisa.

Uma das hipóteses mais aceitas é que o universo é preenchido por um mar de energia quântica de ponto zero, que exerce uma pressão negativa, como uma tensão, fazendo com que o espaço-tempo sofra uma repulsão gravitacional. É a chamada constante cosmológica, introduzida por Einsten em outro contexto (e referida por ele como seu maior erro) [3].

E como a energia escura afeta o universo atualmente? Ela é responsável pela aceleração cósmica, e equipes internacionais de astrônomos estão trabalhando para refinar a medida desta aceleração. Dela depende o julgamento da constante cosmológica de Einstein, uma possível compreensão da teoria fundamental da natureza (gravidade quântica e o estado quântico do universo), e o destino do universo (Big Chill ou Big Rip?).

Diferenças entre as duas
As duas, matéria escura e energia escura, possuem diferenças enormes. A matéria escura atrai e a energia escura repele, ou seja, a matéria escura é usada para explicar uma atração gravitacional maior que o esperado, enquanto a energia escura é usada para explicar uma atração gravitacional negativa [4].

Além disso, os efeitos da matéria escura se manifestam em uma escala de 10 megaparsecs (um megaparsec corresponde a 3,2 milhões de anos luz, aproximadamente) ou menor, enquanto que a energia escura parece que só se torna relevante em escala de 1.000 megaparsecs ou mais.

Finalmente, é importante questionar se os fenômenos da matéria escura e da energia escura podem ter uma explicação gravitacional. Talvez as leis da gravidade sejam diferentes do que desenhou a teoria de Einstein. Esta é uma possibilidade, só que até hoje a teoria da relatividade não falhou em nenhum teste. Além disto, novas imagens de aglomerados revelaram um comportamento que é inconsistente com teorias gravitacionais alternativas, como a MOND – ou seja, a matéria escura está ali.

Nossas melhores mentes estão trabalhando no problema e nossa melhor tecnologia está examinando o cosmos, e, por enquanto, não há outra explicação para os efeitos que observamos: a matéria escura e a energia escura são reais. A composição do universo atual, até onde sabemos, é de 4,2% matéria normal, 24% matéria escura e 71,6% energia escura [5]. [en.Wikipedia 1 2, Nasa Ask an Astronomer, How Stuff Works, Nasa Astrophysics, Dummies, National Radio Astronomy Observatory, Scientific American, Space.com, WMAP's Universe]

***

[1] Um "ser de neutrinos" seria improvável pois elementos leves são simples demais para a complexidade necessária a um ser vivo. Já um "ser de matéria escura", apesar de hipotético, não seria um absurdo lógico, pois a matéria escura é responsável pela maior parte da massa (ou pelo menos da atração gravitacional) do universo, logo pode ser tão candidata a formação de um ser vivo quanto a matéria comum, que interage com a luz.

[2] Conforme o usual: primeiro o ceticismo (e, muitas vezes, o preconceito), e então, somente muito tempo após, a aceitação. É assim, uma descoberta de cada vez, que mudamos nossos paradigmas e nossa visão do que vem a ser, afinal, o Cosmos.

[3] Até mesmo quando errou racionalmente, intuitivamente Einstein acertou em cheio...

[4] Há milênios atrás, Empédocles chamou a atração e repulsão cósmicas de "amor e ódio".

[5] Os materialistas eliminativos creem que a matéria já detectada é capaz de explicar a consciência e todos os demais mistérios da mente humana. Há que se ter um boa dose de fé para apostar tudo apenas nestes míseros 4% (do qual conhecemos uma parcela ínfima, em todo caso).

No geral, um resumo excelente de Cesar Grossmann, que merece ser compartilhado e divulgado entre cientistas e espiritualistas (ou, pelo menos, entre aqueles que leram e compreenderam a pergunta #82 do Livro dos Espíritos)...

***

Crédito da imagem: HypeScience

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6.12.10

Reflexões sobre o materialismo, parte 3

Continuando da parte 2

A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Através da nossa subjetividade construímos um espaço relacional, ou seja, nos relacionamos com o "outro".

O limite do subjetivo

Há uma outra espécie de materialismo, definida por alguns como materialismo científico ou eliminativo, mas que eu opto por definir aqui como materialismo anti-subjetivo [1] – pois se trata de uma teoria que afirma que somente a matéria já conhecida explica o funcionamento da consciência humana. Trata-se de uma aposta e de um enorme paradoxo:

A aposta
Hoje se sabe que a consciência se parece mais com um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina há pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a frequência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia, dizia que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceituamente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo videos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje.

Eis a aposta dos materialistas anti-subjetivos: a de que a consciência e seus fenômenos complexos, que exigem não apenas a computação de informações, mas, sobretudo, a interpretação das mesmas, pode ser compreendida apenas levando-se em consideração a matéria já detectada pela ciência.

O paradoxo
Primeiro a ciência moderna, através da neurologia, foi obrigada a aceitar o conceito e a existência da mente subjetiva, para só então tentar reduzi-la a atividades elétricas, efeitos bioquímicos, um mero agitar de partículas no cérebro... Em suma, tentar negar a existência dos qualia.

Qualia são tratados na Filosofia da Mente como sinônimos de subjetividade. Eles significam uma barreira intransponível entre objetivo e subjetivo, entre vivo e não vivo, entre humanos e máquinas. Não sabemos como o cérebro gera a subjetividade, nem se ela pode ser replicada artificialmente. Tentamos padronizar as sensações usando a linguagem, mas as características subjetivas, únicas, de cada sensação, parecem sempre escapar. Quando falamos de algo “amarelo”, por exemplo, não sabemos se essa cor é mais ou menos intensa para nós ou para o “outro”.

Essa inconveniência dos qualia levou filósofos como Daniel Dennet a tentarem negar sua importância ou até mesmo sua existência... Segundo Dennet, a subjetividade é uma ilusão persistente gerada por nosso cérebro, e não existem escolhas, nem morais nem imorais, apenas o resultado do fluxo de partículas no cérebro, de átomos dançando conforme alguma música aleatória definida por nosso meio-ambiente.

Eis o paradoxo: Dennet, ao contrário do que possam pensar, não é alguém que eu condene. De fato, ele é um dos poucos materialistas anti-subjetivos que realmente assumem sua posição enquanto materialistas – a grande maioria simplesmente ignora tal questão, e continuam a viver como se existisse a subjetividade, como se existissem escolhas, como se realmente fizesse algum sentido condenar criminosos ou condecorar heróis de guerra.

Até onde a luz pode chegar
Não há nada de errado com a ciência objetiva, o problema é quando cientistas creem que podem utilizar ciência para adentrar no campo da subjetividade... Da mesma forma que a psicologia não poderá provar que “esta pessoa está sentindo duas vezes mais dor do que aquela outra”, ou que “aquela pessoa ama aquela outra cinco vezes mais do que você ama seu cachorro”, dificilmente a ciência moderna terá sucesso nessa tentativa de equacionar a mente humana, e tratá-la como uma espécie de máquina que programou a si própria.

Já dissemos que toda a matéria é intangível, mas faltou dizer que ela é igualmente invisível em sua maior parte – pois tudo o que vemos com os olhos ou detectamos com instrumentos avançados são frequências de ondas eletromagnéticas, quantas de luz a refletir pelos átomos a dançar no vazio. Nós não vemos a lua, nem a árvore do outro lado da rua, nem mesmo nossas mãos ou as bactérias no microscópio, vemos apenas os quantas de luz, vindos da luz do Sol ou de alguma fonte de luz (tal qual lâmpadas ou vagalumes), a refletir os átomos que constituem as coisas vistas ou detectadas.

Mas mesmo esta matéria que reflete e interage com a luz é apenas uma ínfima minoria – cerca de 4% – de toda a matéria existente em nosso horizonte observável do Cosmos. Todo os resto – 96% – é composto por Matéria Escura e Energia Escura, e só pôde ser descoberto pelos cientistas através de seu efeito gravitacional no movimento das galáxias (assim como nas interações com a força eletrofraca, mas isso já daria outro artigo).

Aí está o limite do subjetivo, segundo os materialistas: 4% da matéria existente no pedaço do universo onde nossa observação alcança. É uma tremenda aposta esta que afirma que o problema difícil da consciência, que o próprio conceito de subjetividade, pode ser explicado e compreendido apenas com o tilintar dos átomos conhecidos. Para sermos materialistas anti-subjetivos, temos de ter muita fé no ínfimo que conseguimos desvelar objetivamente deste Cosmos infinito. Há que se reconhecer sua convicção.

Em breve, o materialismo religioso e a espiritualidade materialista...

***

[1] Por muito tempo o termo utilizado nesta série foi "materalismo subjetivo", somente meses depois da publicação inicial eu achei melhor usar o termo "materalismo anti-subjetivo" no lugar. No blog em geral, passei a usar o termo "materialismo eliminativo", não porque goste mais dele, mas porque tem sido o termo mais utilizado na linguagem comum.

Crédito da imagem: neurollero

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24.4.10

Mente escura

Há tempos que a ciência tem postulado o estudo da consciência humana com um dos maiores desafios do conhecimento humano, talvez mesmo além de uma compreensão elaborada – como, por exemplo, a compreensão que temos do eletromagnetismo ou do nascimento de estrelas –, pois se trata essencialmente de utilizar o próprio objeto em estudo para realizar o estudo em si.

O psiquiatra alemão Hans Berger ajudou a iluminar a questão com a criação do eletroencefalograma (EEG), que grava a atividade elétrica no cérebro por meio de um conjunto de linhas ondulatórias sobre um gráfico. Com essa ferramenta, os neurologistas passaram a mapear a atividade elétrica do cérebro, e fazer diversas associações entre impulsos de coordenação motora, estados mentais e de foco de atenção dos inúmeros colaboradores e pacientes estudados nas últimas décadas.

Hoje se sabe que a consciência é mais como um processo que coordena decisões de acordo com o fluxo de informação sensorial recebido, ela é como o regente de uma “orquestra mental”. Porém, a análise qualitativa dos fenômenos conscientes complexos, como o amor e as decisões morais, ainda passam ao largo da explicação científica. Este é o famoso “problema difícil”: identificar o que exatamente interpreta informações e elabora respostas morais, em oposto a mera computação das informações.

Richard Feynman gostava de comparar a forma como os físicos modernos trabalham com a detecção das ondas de uma piscina: acaso não fosse possível ver quem mergulhou na piscina a pouco tempo, podemos ter uma boa noção de onde e quando ocorreu o mergulho, assim como o peso de quem mergulhou, apenas analisando a freqüência e a amplitude das ondas na superfície da água. A ciência lida somente com o que pode detectar – se ela não detecta o amor ou a moral, ao menos pode detectar o efeito elétrico no cérebro que ocasiona as demonstrações de sentimentos complexos. O que a ciência não pode pretender, entretanto, é que tais sentimentos se resumam ao efeito, ignorando a causa... Ou postulando que a causa está além de nosso controle, que é fruto do mero agitar químico do cérebro, como afirma o filósofo Daniel Dennet, o que em todo caso é basicamente o mesmo que ignorar a causa.

Carl Sagan já chegou a afirmar que prefere seguir os impulsos de seu inconsciente, que este na maior parte das vezes lhe “guia” para caminhos mais produtivos e sensatos do que sua racionalidade consciente [1]. Ora, mas se a ciência se preocupa em detectar a atividade elétrica do cérebro quando este está em plena atividade consciente, o que dizer de quando estamos sem fazer nada, teoricamente “sem pensar em nada, absolutamente nada”?

Em ensaios seminais sobre suas descobertas com as primeiras pesquisas utilizando o EEG em 1929, Berger deduziu, a partir das incessantes oscilações elétricas detectadas pelo aparelho, que “temos de supor que o sistema nervoso central está sempre – e não só durante o estado de vigília – num estado de considerável atividade.” Mas suas idéias foram amplamente ignoradas, até tempos recentes, bem recentes... A tecnologia para se examinar o cérebro se aprimorou: em 1970, veio à tomografia por emissão de pósitrons (PET, Positron-Emission-Tomography), que mede o metabolismo da glicose, fluxo sanguíneo e absorção de oxigênio para a extensão da atividade neuronal; já em 1992 veio à captação de imagem por ressonância magnética funcional (fMRI, functional Magnetic Ressonance Imaging), que mede a oxigenação do cérebro com o mesmo propósito.

Essas tecnologias são mais do que capazes de analisar a atividade cerebral, focada ou não, mas a maioria dos estudos iniciais levou a impressão errônea de que, na maior parte, as áreas do cérebro permanecem tranqüilas até que sejam requisitadas a desempenhar alguma tarefa específica. Ao longo dos anos, no entanto, alguns pesquisadores [2] começaram a estudar a atividade cerebral de colaboradores simplesmente em estado de descanso, deixando a mente livre para divagar. Eles descobriram que a energia gasta pelo cérebro não varia mais do que 5% entre o estado de vigília e/ou atividade consciente e o estado de relaxamento completo, quando supostamente não fazemos absolutamente nada a não ser pensar, divagar...

A conclusão surpreendente a que chegaram é a de que boa parte da atividade geral – de 60% a 80% de toda a energia gasta pelo cérebro – ocorre em circuitos não relacionados a nenhuma evento externo. Com a devida licença dos colegas astrônomos, os pesquisadores deram a essa atividade intrínseca o nome de “energia escura do cérebro” – referência à energia não visível (não interage com fótons), mas que representa a maior parte da massa do universo.

Ficou claro, a partir desse trabalho, que o processo consciente é responsável por apenas uma parte, ainda que crítica, da atividade total de todos os sistemas do cérebro. Como Berger mostrou em primeiro lugar, e muitos outros confirmaram desde então, a sinalização cerebral consiste em um amplo espectro de freqüências, que vão dos potenciais corticais lentos (SCPs, Slow Cortical Potentials) de baixa freqüência até a atividade acima de 100 ciclos por segundo. Um dos grandes desafios da ciência é entender como os sinais de diferentes freqüências interagem.

A orquestra sinfônica proporciona uma metáfora adequada, com sua integrada “tapeçaria” de sons provenientes de múltiplos instrumentos que tocam no mesmo ritmo. Os SCPs equivalem à batuta do regente. Só que, em vez de manter o tempo para um conjunto de instrumentos musicais, esses sinais coordenam o acesso que cada sistema cerebral exige para o vasto depósito de memórias e outras informações necessárias para se sobreviver num mundo complexo e em permanente mudança. Os SCPs garantem que as computações corretas ocorram de maneira coordenada, exatamente no momento adequado.

Mas o cérebro é muito mais complexo que uma orquestra sinfônica. Ele oscila continuamente entre a necessidade de equilibrar respostas planejadas com demandas imediatas. Os grandes expoentes da psicologia, como William James, Sigmund Freud e Carl Jung, sempre compreenderam o enorme e misterioso papel do inconsciente sobre o consciente. Que o cérebro pode até ser uma máquina de envio e reenvio de informações, um computador molecular de vasta complexidade, mas ainda assim há que se pensar no que quer que – esteja onde estiver no cérebro – interpreta as informações recebidas e elabora respostas morais e sentimentais...

Eis a mente escura, aquela que ainda escapa da lente agitada da ciência, assim como a grande parte da matéria e da energia do universo. Do que é formada? Onde está exatamente no cérebro? Seria ela limitada pelo corpo, ou apenas uma energia que toca as teclas do cérebro enquanto este permanece como um instrumento apto para ser tocado? São ainda muitos mistérios, muitos paradoxos e enigmas, muitos “problemas difíceis” no caminho da ciência... Mas ela não descansará; nós não descansaremos, pois a natureza não nos deixará relaxar.

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[1] Livre interpretação de um breve comentário de Sagan num especial da TV americana, onde ele, Stephen Hawking e Arthur C. Clarke discutiram sobre Deus, o universo e as leis da natureza.

[2] Boa parte das informações científicas deste artigo foram retiradas do artigo “A energia escura do cérebro”, capa da Scientific American de Abril de 2010 (ano 8, #95), escrito por Marcus E. Raichle – professor de radiologia e neurologia –, que é um dos principais pesquisadores no assunto aqui abordado.

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Crédito da imagem: Anônimo (representa a disparidade entre a energia gasta no processo consciente, acima da superfície, e a energia gasta pelo inconsciente a todo momento – este tipo de imagem é a metáfora mais utilizada para ilustrar a questão)

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16.12.09

Onde estarão os memes, parte 4

Continuando da parte 3...

A natureza não nos deixará relaxar

O geneticista norte-americano Dean Hamer parece ter uma predisposição inata à polêmica. Em 1993, afirmou ter descoberto um trecho do DNA, que batizou Xq28, supostamente responsável pela homossexualidade masculina. A descoberta lançou à fama e depois ao escárnio (quando outros cientistas falharam em replicá-la, já em 1999) o campo da genética comportamental, do qual é pioneiro.

Ultimamente Hamer voltou à carga, metendo a mão numa área literalmente sagrada. Em seu livro "O Gene de Deus" (Ed. Mercuryo), Hamer tenta sustentar que a crença em um criador também é geneticamente determinada. Antecipando as críticas, Hamer disse logo que não se trata de "o" gene, mas de "um gene entre vários". E, ah, não é exatamente Deus, mas uma predisposição à crença, que ele chama de "espiritualidade". Em todo caso, segundo ele, “O Gene de Deus” é um título que vende muito mais...

O tal gene, isolado por Hamer e sua equipe no Instituto Nacional do Câncer, nos EUA, é identificado pela sigla vmat2. Ele estaria envolvido no transporte de uma classe de mensageiros químicos do cérebro conhecidos como monoaminas, do qual o mais famoso é a serotonina, a molécula do bem-estar. Algumas drogas como o ecstasy e o prozac também influenciam o humor alterando os níveis de serotonina no sistema nervoso. Será que a fé se resume a isso?

É precisamente esse tipo de tratamento ultra-superficial do assunto que permitiu que a ciência moderna chegasse a uma visão mecanicista do homem, e do funcionamento da mente. Mas nosso atual estudo se resume a questão da possibilidade de que características psicológicas e comportamentais possam ser passadas de geração a geração, e evoluir de forma darwinista, precisamente como os genes. Portanto, se gente como Dean Hamer tivesse comprovado que algum gene, seja ele qual for, pode ser o responsável pela transmissão desse tipo de característica – no caso, a homossexualidade ou a espiritualidade – teríamos uma grande comprovação de que os genes, afinal, não transmitem apenas características físicas adiante, e que os memes nada mais seriam do que características ocultas dos genes, sendo passadas adiante pela reprodução humana.

Esse dia, porém, ainda não chegou; E, pelo que temos visto dos “grandes estudos” de gente como Hamer, a tendência é que nunca chegue: os genes, como qualquer geneticista aprendeu na faculdade, transmitem mesmo apenas características físicas. Caberá aos memes, ou a outras teorias, solucionar o problema da transmissão de características não-físicas pelas gerações humanas.

O psiquiatra suíço Carl G. Jung desenvolveu o conceito de inconsciente coletivo – uma parte da mente, compartilhada por todos, como produto da ancestralidade. Para ele, esse inconsciente inclui os arquétipos (conceitos universais inatos), como mãe, Deus, herói, etc., detectáveis na forma de mitos, símbolos e instinto. Presume-se que ele via o inconsciente coletivo como um tipo de memória popular, corporificado na estrutura do cérebro. Ora, que o cérebro de um recém-nascido obtenha registros em seu hipocampo, trazendo memórias armazenadas por seus ancestrais, nem seria um grande problema científico, contanto que fossem detectadas as partículas responsáveis por tal transmissão. Nesse caso, a grande diferença da teoria de Jung para a teoria de Dawkins é que o inconsciente coletivo pode mesmo abrigar memórias e costumes de toda a espécie, e não apenas dos memes que foram passados adiante na reprodução.

E temos aí uma enorme quantidade de informação “mitológica” a “flutuar pelo ar” e influenciar diretamente os costumes e a cultura dos seres humanos. Continua inexplicado, continua oculto, continua profundamente místico – exatamente como os memes.

Nesse ponto o bom observador deve ter percebido o grande dilema: por um lado, cientistas, psicólogos e antropólogos têm percebido e reconhecido que, sem dúvida, certas características não-físicas são transmitidas adiante ao longo da evolução humana; por outro lado, as únicas unidades materiais detectadas, os genes, não explicam o mecanismo de tal processo. Portanto, qual a grande diferença entre os que acreditam em memes e no inconsciente coletivo, e os reencarnacionistas e espiritualistas em geral?

Muitos dos que se dizem “materialistas” imaginam que a máxima da teoria do materialismo – “tudo o que existe é matéria” – coloca esta maneira de ver o mundo automaticamente acima das demais, que crêem no “imaterial”. Mal sabem que existem muitos espiritualistas que crêem piamente que “tudo o que existe é matéria”, da mesma forma que os materialistas. A única diferença é que certos espiritualistas crêem que os 96% de matéria não detectada no universo (porque não interage com a luz, segundo a teoria da Matéria Escura) podem explicar muito do que é desconhecido do materialismo, que por seu lado, crê piamente que o mecanismo de tudo o que existe, incluindo a mente humana, já pode ser compreendido apenas analisando-se os 4% da matéria já detectada.

A grande diferença entre esse tipo de espiritualista (alguns diriam, moderno) e o materialista, é que o último já se dá por satisfeito com o que já foi detectado pela ciência, enquanto o primeiro dedica a vida a desvendar os segredos da matéria fluida, não-detectada. É nesse sentido que se diz que a consciência, ou o que quer que forme seu processo, pode perfeitamente sobreviver após o fim da vida corpórea, assim como decerto já vivia anteriormente ao nascimento – dessa forma se explicariam fenômenos como experiências de quase morte, crianças que se lembram de “vidas passadas”, e outros ramos mais próximos da parapsicologia do que da auto-proclamada “ciência oficial”.

Obviamente que o fato de tais teorias espiritualistas virem sempre envoltas em questões teológicas e, segundo muitos céticos, “pseudo-científicas”, afasta muitos cientistas de seu estudo, temerosos com a possibilidade de serem conhecidos como “cientistas espiritualistas” – algo que a comunidade científica aparentemente condena, apesar de ficar por vezes igualmente aparente que muitos deles ignoram completamente o que exatamente significa ser um espiritualista.

Porém, como já foi dito por mim em outros artigos, a natureza nunca se comportou da maneira que “achávamos que iria se comportar”. Segundo Richard Feynman, “a imaginação da natureza é muito maior que a do homem, ela nunca nos deixará relaxar”. É provável que tanto os adeptos da memética quanto os reencarnacionistas vejam o mundo através de uma lente ainda desfocada, talvez o futuro da ciência e do espiritualismo ainda nos esconda mecanismos naturais tão belos e extravagantes, tão simples e transcendentes, que nossa imaginação não seja capaz de vislumbrá-los, e nossa racionalidade não seja capaz de compreendê-los.

Que as lentes se interponham. Que venha o futuro!

***

Crédito da foto: [topo] Divulgação (Richard Feynman), [ao longo] Hikabu (arquétipos)

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18.4.09

Reflexões sobre a consciência, parte 2

continuando da parte 1...

Livre-arbítrio: é a crença ou doutrina filosófica que defende que a pessoa tem o poder de escolher suas ações.

O que é liberdade afinal?

Carlos é um bombeiro veterano, que durante a carreira arriscou a vida inúmeras vezes para salvar pessoas de situações de morte certa. Roberto é um ex-presidiário que após um longo tempo na prisão tenta aos poucos se readaptar a sociedade de forma honesta, e atualmente trabalha como vendedor em uma loja de celulares. Em um dado dia em específico, ambos estão caminhando na mesma rua, e percebem que há um prédio em chamas. Numa observação mais cuidadosa, percebem que uma criança pede socorro na janela do segundo andar... Talvez seja possível ainda salvar a criança se alguém corajoso entrar rapidamente no prédio nesse exato momento, ainda que arriscando a própria vida. Essa é uma escolha complexa: arriscar a própria vida para resgatar um semelhante, ou preservar a sua vida e assistir uma criança morrer de forma pavorosa? - é nesse sentido que vamos aqui discutir o livre-arbítrio (em oposição a, por exemplo, "escolher" se curar de um vírus ou ganhar na loteria, pois sabemos que toda liberdade é obviamente limitada pelas leis naturais, e pelas leis de probabilidade).

Considerado o exemplo do parágrafo acima, vamos analisar algumas teorias científicas acerca do livre-arbítrio e de sua relação com a consciência:

Segundo o filósofo Daniel Dennet, não existem coisas como experiências subjetivas; em vez disso ele propõe que o cérebro é um computador que possui informações de diferentes fontes com uma disposição para um comportamento particular e uma habilidade para distinguir entre estímulos diferentes. Trata-se de um complexo sistema de informação e modulação de informação sem nenhuma experiência subjetiva. Seguindo o que expomos anteriormente, Dennet basicamente postula que o "teatro mental" de Baars, o que subjetivamente experienciamos como o processo de consciência, nada mais é que uma disponibilidade global de informações, interpretadas pelo cérebro de maneira determinista sem que tenhamos realmente nenhuma possibilidade de escolha subjetiva sobre "o que fazer à seguir". Muitos outros neurologistas e materialistas convictos postulam que nossas escolhas conscientes, nossa subjetividade, nossa moralidade ou imoralidade, nada mais são do que a consequência de certas interações de partículas em nosso cérebro - de fato, não é possível se declarar materialista sem concordar ao menos parcialmente com isso.

Se corretas, no entanto, essas teorias significam que nossas vidas seriam completamente determinadas por nossos genes e pelo ambiente que nos cerca, e por conseguinte não haveria lugar para as responsabilidades. Ninguém mais seria responsável ou teria algum tipo de obrigatoriedade, e muito menos qualquer tipo de mérito e/ou demérito atrelado a qualquer escolha ou ação "subjetiva e moral" - Bombeiros que salvam vidas nada mais seriam do que seres guiados por interações específicas de partículas em seus cérebros, eles nunca tiveram a "escolha" de serem altruistas ou heróis. Da mesma forma, terroristas e assassinos também não teriam "culpa" alguma por seus atos: a "culpa" fica por conta das interações de partículas em seus cérebros.

Nesse sentido, o determinismo materialista não seria muito distante do determinismo divino. Não importa se são reações químicas iniciadas pelo baile de partículas cerebrais, ou se é a "mão de deus" em ação: em ambos os casos tudo o que realizamos, pensamos e sentimos não é fruto de nossa vontade ou escolha, mas fruto de um determinismo onipresente em todo o espaço-tempo. Nesse sentido, a mera discussão filosófica sobre o assunto (ou qualquer outro assunto) se torna obsoleta de antemão, pois não somos nós que escolhemos discutir, e sim as partículas ou a "mão de deus"... Não sou eu quem está digitando este texto e nem você que o está lendo, somos meros fantoches do determinismo! E, não sei quanto a você, mas pelo bem da filosofia (e de tudo o mais) acho mais saudável considerarmos outras hipóteses... Até mesmo porque o materialismo é apenas uma teoria não comprovada, e como já devemos ter percebido a essa altura, o conhecimento do homem acerca do processo de consciência ainda está engatinhando.

Uma outra teoria para o problema foi postulada pelo anestesista Stuart Hameroff e pelo matemático Roger Penrose, e se chama teoria dos processos quânticos. Ela se baseia no princípio de que no mundo microscópico das partículas isoladas, o princípio da incerteza e a mecânica quântica fazem com que diversas "escolhas" estejam superimpostas, e não podemos saber em dado momento, com antecedência, qual delas será tomada - mais ou menos como se qualquer escolha fosse tão aleatória quanto os processos quânticos no nível subatômico. Eles propõem que a consciência nasce de estruturas minúsculas semelhantes a tubos, feitas de proteínas, que existem em todas as células do corpo, incluindo as do cérebro. Segundo a chamada teoria da Redução Objetiva Orquestrada (Orch OR, em inglês) - que deriva da primeira - a qualquer momento podem ocorrer vários estados quânticos e possibilidade nas células cerebrais, e quando uma decisão é tomada, ela é o resultado do colapso de um estado, que então alcança a consciência. Em suma, segundo Hameroff e Pensore, pensamentos e escolhas não são pré-determinadas, muito embora nosso controle sobre elas continue um tanto precário. Não diríamos, usando o exemplo do primeiro parágrafo, que Carlos "escolheu" salvar a criança porque era altruista, mas sim porque de alguma forma, sua "tendência para o altruismo" afetou os estados quânticos de suas células cerebrais, tornando a "possibilidade da escolha altruista" maior, embora fosse ainda apenas uma probabilidade. Morre o determinismo, nasce o semi-aleatório, mas não saímos muito do lugar...

Sir John Eccles, neurologista vencedor do prêmio Nobel de medicina de 1963, foi talvez o mais ilustre cientista a argumentar em favor da separação entre a mente, a consciência (no caso, um processo da mente) e o cérebro. Ele dizia:

"Nós, como pessoas que experienciam, não aceitamos tudo o que nos é fornecido por nosso instrumento, a máquina neuronal de nosso sistema sensorial e o cérebro, nós selecionamos tudo o que nos é fornecido de acordo com o interesse e a atenção, e modificamos as ações do cérebro, através do 'eu'" - em suma, Eccles apenas defendia uma característica até mesmo óbvia que surpreendentemente escapou ao olhar atento de muitos cientistas (e ainda escapa): que alguma coisa em nós faz escolhas, simples e complexas, e que não sabemos exatamente onde esse 'eu' está fisicamente no cérebro (se é que está lá, ou apenas lá).

Outro defensor dessa teoria é Bahram Elahi, especialista em cirurgia e anatomia. Diz ele que embora a mente e o cérebro sejam separados, a mente (ou consciência) não é algo imaterial. Ao contrário, é composta de um tipo de matéria muito sutil que, embora ainda não-descoberta, é conceitualmente semelhante às ondas eletromagnéticas, que são capazes de carregar sons e figuras (e mesmo vídeos - figuras em movimento), e são governadas por leis, axiomas e teoremas precisos. Ele teoriza que tudo relacionado a esta "entidade" deve ser considerado como uma disciplina científica não-descoberta, e estudada da mesma maneira objetiva que outras disciplinas (como química ou biologia, por exemplo). A consciência pode, portanto, ser formada por algum tipo de substância material sutil demais para ser medida ou detectada utilizando as ferramentas científicas disponíveis hoje. Dessa forma, assim como os físicos continuam tentando descobrir novas partículas exóticas de matéria (muitas das quais, como o bóson de Higgs, por enquanto existem apenas em teoria), a consciência pode ser formada por alguma matéria dentro dos cerca de 96% ainda não descobertos pela ciência, segundo a teoria da Matéria Escura.

O que é liberdade afinal? Talvez seja apenas uma ilusão criada pelo processo consciente, para que a matéria orgânica conheça a si mesma, embora não tenha nenhum tipo de liberdade de escolha... Talvez, como no caso do bombeiro e do ex-presidiário, as escolhas complexas, morais, dependam de uma análise cuidadosa do inconsciente, que pode estar conectado permanentemente a uma "entidade" que governa o cérebro e seus processos... Nesse caso, o cérebro nada mais seria do que uma ferramenta nas mãos de um operário consciente, e pensamentos nada mais seriam do que as ordens dadas por tal operário... Mas, será que temos condições de compreender esse operário que se esconde da ciência, enfurnado em nosso inconsciente?

À seguir, o que a sabedoria milenar do oriente, a parapsicologia e as teorias espiritualistas tem a dizer sobre o assunto...

***

Bibliografia recomendada: "O tecido do cosmo" de Brian Greene (ed. Cia das Letras); "O que acontece quando morremos" de Sam Parnia (ed. Larousse). Este vídeo também explica muito bem o experimento de dupla fenda da mecânica quântica (dualidade onda/partícula).

Crédito da foto: Jaume Fernandez

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4.12.08

Você e o copo (II)

Retornemos a experiência do copo:

Pegue um copo, pode ser qualquer tipo de copo, e o apalpe com as mãos por alguns momentos. Sinta a pressão em seus dedos, de acordo com a força com que os pressiona contra a superfície do vidro... Mas cuidado para não quebrar o copo e machucar a mão!

Agora me permita fazer algumas perguntas, e lhe trarei as respostas ao final. Portanto, não as leia se ainda estiver pensando na resposta:

1. O copo é real?

2. O copo é sólido?

3. De que forma você sente o copo nas mãos?

 

 

Bem, vamos as respostas:

1. Sem dúvida, tudo o que é percebido faz parte da realidade.

2. O copo tem volume e forma definidos, e seus átomos tem uma ordenação espacial fixa: apesar de ainda se moverem, este movimento é imperceptível aos olhos humanos. Dessa forma, e nesse sentido, o copo é "sólido".

3. Através do sentido do tato, conseguimos perceber a pressão que nossos dedos exercem sobre o copo.
No entanto, é interessante imaginarmos que se, por algum momento, os átomos que estão na ponta de nosos dedos se chocassem com os átomos do vidro que forma o copo, teríamos uma potencial reação de fusão nuclear, tornando a experiência potencialmente letal, não somente para nós, como para todo o planeta...
O que há de realmente "sólido" no vidro do copo (assim como em nossos dedos) são átomos, que em suas "superfícies" são formados por elétrons. Quando elétrons são aproximados uns dos outros, eles se repeleam mutuamente, pois possuem a mesma carga (como dois imãs de mesma carga, por exemplo).
Quando tocamos a matéria "sólida" (o vidro do copo), é a força de repulsão eletrostática (entre os elétrons) que nos transmite a sensação de pressão através das terminações nervosas em nossos dedos (tato). Dessa forma, nada de realmente "sólido", nada que contenha massa, nunca se choca, a não ser nas reações nucleres.
Quando caminhamos sobre o solo do planeta, estamos na verdade flutuando sobre ele. O fato de "acreditarmos" que estamos realmente tocando o solo (seja com os pés descalços ou não) se deve a forma tradicional com a qual entendemos a matéria sólida: o solo, o copo, nossos corpos, um trêm bala, a Lua, etc... É preciso um certo conhecimento da Física para que nosso cérebro se acostume a interpretar o que realmente ocorre quando caminhamos; E mesmo assim, trata-se de uma simulação de nossa imaginação, pois não temos sentidos apurados o suficiente para perceber átomos e elétrons bailando pelo Cosmos à nossa volta.

Nessa nova experiência percebemos que toda matéria é, portanto, intangível. Tudo o que "tocamos" é o vazio entre os elétrons, e sua repulsão eletrostática.

Segundo a teoria da Matéria Escura, a matéria convencional, essa que forma "as coisas ao redor", corresponderia a míseros 4% da matéria do Universo... Portanto, podemos ser perfeitamente materialistas, contanto que percebamos o "quão pequeno" é esse mundo da matéria, e o quanto falta ainda para o homem descobrir, detectar, e desvendar.

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1.11.08

Você e o copo (I)

Está interessado em uma experiência existencial interessante? Bem, basta não ler se não estiver.

Pegue um copo, pode ser qualquer tipo de copo, e coloque em cima de uma mesa a no máximo um metro de distância. Certifique-se que está em um ambiente iluminado, seja pela luz do sol ou pela luz "artificial" de uma lâmpada, por exemplo; Depois sente-se em uma cadeira e observe atentamente o copo por alguns momentos...

Agora me permita fazer algumas perguntas, e lhe trarei as respostas ao final. Portanto, não as leia se ainda estiver pensando na resposta:

1. O copo é real?

2. O copo é visível oi invisível?

3. De que forma você vê o copo?

 

 

 

Bem, vamos as respostas:

1. Sem dúvida, tudo o que é percebido faz parte da realidade.

2. Absolutamente invisível, assim como qualquer outro objeto ou ser que não emite luz.

3. Nosso orgão de visão consegue perceber o copo pelas partículas de luz que interagem com ele (no caso, refletem-se, já que ele não emite luz) e nos alcançam. Não vemos o copo diretamente, portanto, vemos a luz que interagiu com ele.
A luz na forma como a conhecemos é uma gama de comprimentos de onda a que o olho humano é sensível. Trata-se de uma radiação eletromagnética pulsante ou num sentido mais geral, qualquer radiação eletromagnética que se situa entre as radiações infravermelhas e as radiações ultravioletas.
Porisso, quando olhamos o céu a noite, estamos vendo o passado, a luz que veio de algum lugar muito distante para nos trazer informações visuais. Decerto se alguém observou algum copo parecido a bilhões de anos, alguma partícula de luz refletida na experiência pode estar passando pelas imediações de nosso sistema solar nesse exato momento.

Nessa experiência percebemos que a matéria, por mais sólida que seja, é absolutamente invisível como este copo que observamos. Nós só vemos "as coisas ao redor" porque elas interagem com a luz, pois tudo o que vemos são partículas de luz (fótons).

Segundo a teoria da Matéria Escura, a matéria convencional, essa que forma "as coisas ao redor", corresponderia a míseros 4% da matéria do Universo... Portanto, podemos ser perfeitamente materialistas, contanto que percebamos o "quão pequeno" é esse mundo da matéria, e o quanto falta ainda para o homem descobrir, detectar, e desvendar.

Na próxima experiência com o copo, iremos avaliar se a matéria (ou o copo) é tangível e paupável. Até lá.

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4.7.08

O ônus da prova

Em se falando de crenças ou terorias conceituais, as pessoas parecem se dividir entre as que tem certezas e as que tem convicções.

As pessoas que tem certezas, ou acreditam ter, acham que a verdade sobre a realidade da Natureza, ou ao menos boa parte dela, já foi esquadrinhada e perfeitamente compreendida e explicada por um livro, um profeta, um alienígena ou mesmo uma "entidade espiritual". Essas pessoas geralmente se acham no direito de "divulgar" essas certezas para os outros, e acreditam que estão com isso fazendo um "grande bem", visto que, na sua opinião, de nada adianta continuar buscando a verdade: ela já foi encontrada e agora precisa ser divulgada a toda humanidade, de preferência o mais breve e insistentemente possível. Em suma, acreditam que sua verdade está provada e não pode ser questionada.

As pessoas que tem convicções, de certo admitem que nem toda verdade sobre a realidade da Natureza foi encontrada; Em realidade, muitas acreditam que compreendemos apenas uma ínfima parte dela. Essas pessoas sabem que, exatamente pela verdade não ter sido totalmente compreendida, não seria sábio nem razoável pretender que suas crenças sejam abraçadas pelo restante da humanidade: melhor esperar que as pessoas se interessem pela crença por si mesmas, antes de ir atrás das pessoas com a promessa de que encontraram para elas a verdade, exatamente porque qualquer promessa desse tipo seria falsa. Ainda que concordem que sua crença possa vir a explicar muito do que ainda não foi compreendido ou comprovado, sabem perfeitamente que absolutamente tudo o que acreditam não está livre de questionamento, e tampouco está provado.

Pois bem, enquanto as primeiras são dogmáticas, essas últimas são antes de tudo, racionais: afinal, sabe-se que o ônus da prova cabe e caberá sempre a quem procura afirmar alguma coisa, e não a quem apenas se recusa e acreditar enquanto nada estiver comprovado.

Ora, e recorrendo a experimentação científica, os cientistas comprovaram que a Terra não é plana, que não está no centro do Universo (que aliás não tem centro definido espacialmente), que orbita o Sol e que essa órbita é constante (não poderia, portanto, parar de um minuto para o outro), que absolutamente toda matéria na Terra é feita da combinação de algumas dúzias de elementos químicos, que as espécies animais evoluem ao longo dos milhões de anos pelo mecanismo da seleção natural, etc. - Entretanto, apesar dos religiosos terem parte da teoria de um Universo criado aparentemente do "nada" comprovada pelo Big Bang, não tem-se comprovado cientificamente a existência de Deus, se ele seria um ser consciente, se existem espíritos, se existem alienígenas visitando a Terra, se existem realmente os chamados "fenômenos paranormais", etc.

Apesar de tudo isso ser definitivamente importante de ser levado em consideração, também vale considerar, da mesma forma, que em lugar algum está escrito que um cientista não possa ser religioso, ou que um religioso não possa ser cientista... Afinal, o próprio estudo do Genoma Humano comprovou que na Terra só existe uma espécie de seres humanos, o homo sapiens, e não vem escrito em seus genes que eles precisam, ao nascer, escolher entre um caminho e outro, excluindo e ignorando totalmente um deles.

A princípio, nada pode comprovar hoje que quem afirme que existem pequenos dragões de Matéria Escura voando pela noite em uma dada cidade esteja equivocado: não se pode detectar a Matéria Escura, e mesmo que se pudesse, talvez ao fazer as medições na cidade em questão os dragões tenham se mudado para uma outra, e será difícil comprovar se existem, mas da mesma forma será imposível comprovar que não existem.

Portanto, há que se baixar a guarda, desfazer os nós, e admitir: "em princípio, toda crença tem sua chance de estar absolutamente correta, por mais improvável que possa parecer a primeira vista"... Até porque, foi exatamente com essa abordagem que os gênios da ciência observaram o que ninguém havia se arriscado a observar na Natureza, e dessa forma, nos ombros de gigantes, um seguido do outro, mudaram a nossa forma de ver o mundo, por mais religioso que cada um de nós possa ser.

Há que se tentar analisar a crença de cada um, e se for o caso de fazer julgamentos, julgar antes de tudo as consequências morais de cada crença: se um religioso pratica a caridade, a abnegação, o auto-conhecimento, a crença em um futuro melhor para a humanidade, construído de preferência pela própria humanidade em conjunto, e não por um Deus Ex-Machina no Fim dos Tempos, não importa se os motivos de suas boas ações se baseiam num Manual da Verdade Absoluta, na Mensagem Divina de um Profeta ou mesmo na Instrução de Espíritos de Luz, o que importa são suas obras e não suas crenças.

Da mesma forma, se um religioso encontra em sua crença razão para crer que existem castas de seres humanos, uns evoluídos e outros nem tanto, uns programados por Deus para serem portadores de toda a verdade, e outros portadores de todo mal; Ou ainda que use de sua crença para afirmar que este ou aquele será condenado, este ou aquele será salvo, que este ou aquele tem alma, e este ou aquele é apenas um "construto de Deus" para nos servir, e finalmente, se através de sua crença nega veementemente o que a ciência já comprovou em experimentações, e se acha no direito de tentar afastar as pessoas do "mal do conhecimento", da mesma forma, julguemo-os pelas suas obras, e não pelas suas crenças.

Ninguém de certo conhece toda a verdade do mundo, mas em nossa consciência trouxemos, ou nos foi dado, o bom senso. Apesar de tudo, acredito que ele ainda é, e sempre será, o nosso melhor guia em meio ao aparente caos de crenças que nos parecem inóspitas, julgamentos que nos parecem precipitados, e seres humanos que nada vêem e nada sentem.

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