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13.4.09

Padrão-fé

Numa época não muito distante, todo o sistema monetário dos países desenvolvidos era baseado num conceito conhecido como padrão-ouro, definido assim pela Wikipedia:

A teoria pioneira do padrão-ouro, chamada de teoria quantitativa da moeda, foi elaborada por David Hume em 1752, sob o nome de “modelo de fluxo de moedas metálicas” e destacava as relações entre moeda e níveis de preço (base de fenômenos da inflação e deflação). Cada banco era obrigado a converter as notas bancárias por ele emitida em ouro (ou prata), sempre que solicitado pelo cliente.

Em suma, toda e qualquer cédula monetária tinha um "lastro material", ou seja, tinha a garantia material e paupável de que o banco que a emitiu tinha condições de emiti-la pelo simples fato de ter "ouro em caixa"... Do contrário, toda cédula monetária não seria muito mais do que um papel impresso, ao qual a fé das pessoas, ou a imposição a força dos governos, determinava o valor - valor virtual, não real.

As “regras do jogo” prevalecentes no sistema de padrão-ouro eram simples: a quantidade de reservas de ouro do país determinava, portanto, a sua oferta monetária. Se um país fosse superavitário em sua balança de pagamentos, deveria importar ouro dos países deficitários. Isso elevaria sua oferta interna de moeda, levando a uma expansão da base monetária, o que provocaria um aumento de preços que, no final das contas, tiraria competitividade de seus produtos nos mercados internacionais, freando assim, novos superávits. Já se o país fosse deficitário na balança comercial, exportaria ouro, sofreria contração monetária, seus preços internos baixariam e, no final das contas, aumentaria a competitividade de seus produtos no exterior. Isso trazia uma certa garantia de harmonia e equilíbrio na balança comercial e economia mundiais (pelo menos nos países desenvolvidos).

Após a Primeira Guerra Mundial, o padrão-ouro sofreu modificações definidas nos acordos de Bretton Woods, porém ainda existia o "lastro material" associado a moeda. Entretando, no início dos anos 70, a principal economia mundial, os EUA, sofria a necessidade de financiamento crescente por conta da Guerra do Vietnã. Qual foi a solução miraculosa para "criar dinheiro do nada"? Abandonar o "lastro material", abandonar o padrão-ouro, e deixar a fé das pessoas determinar o quanto valia o dolar. Obviamente que a função do governo americano, e de outros países desenvolvidos, desde então, tem sido certificar-se que as pessoas acreditam que suas moedas valem mais do que o ouro que detém em seus cofres.

O padrão-fé, termo criado por este artigo diga-se de passagem, é muito simples: os bancos emitem as cédulas monetárias e dizem que tem "uma boa quantidade de ouro para garanti-las", e como tais bancos são bancos de países ditos desenvolvidos, todos acreditam neles piamente (até porque se não acreditarem seu dinheiro valerá menos). Assim, todos creem que os maravilhosos papeis impressos em inúmeras cores, com gravuras elaboradas e assinaturas estilosas, "valem exatamente o que valem" - ou seja, seu suposto "lastro material" em ouro, ainda que não exista mais garantia real nenhuma, nenhuma, de que esse ouro esteja lá.

Não sou economista e obviamente a definição do parágrafo anterior é um tanto superficial e mesmo falha. A realidade sem dúvida é bem mais complexa. No entanto, de uma coisa todos sabemos: se toda a população com dinheiro depositado nos países desenvolvidos correr aos bancos e retirar 100% do valor, vai faltar cédula para todo mundo, mas muito pior do que isso, vai faltar "lastro material" para todo mundo - e todos perceberão que, de certa forma, aqueles maravilhosos papeis impressos nada mais são do que... papel impresso.

Como já havia dito na História do Ouro, a economia atual, principalmente as Bolsas de Valores, se baseiam essencialmente em fé... Nada mais justo, já que o próprio sistema bancário deve sua origem aos "cheques de viagem" dos Cavaleiros Templários. Nada mais justo que um sistema que surgiu de um grupo de monges-religiosos-guerreiros seja hoje baseado em fé. O problema está em não avisar as pessoas disso.

Interessante que hoje passemos por uma crise financeira mundial decorrente exatamente da percepção generalizada de que a "riqueza" de certos países ditos desenvolvidos nada mais era do que um construto de fé. Porém, mesmo esse construto era sustentado por bases tão frágeis que até mesmo a fé era uma espécie de sub-fé, uma enganação, uma "fé sub-prime" - um sistema de crença que se baseava cada vez mais no que havia de virtual na economia, em uma bolha especulativa que não correspondia sequer ao PIB de cada país, quanto mais ao "lastro material" de seus bancos.

Isso não é "teoria da conspiração", não é "um mistério de Nova Era", nem mesmo apenas um devaneio deste que lhes escreve. Trata-se da realidade. Talvez de certa forma exagerada, mas realidade enfim. Basta ver os noticiários econômicos, basta procurar entender mais de economia e balança comercial, basta atentar para a "mudança de paradigma" que muitos ditos Gurus da Economia apontam para o futuro a médio prazo. Qual o "lastro material" que nos restou? Qual a base sólida sobre a qual nossas economias serão reposicionadas? Ora, "lastro material" nunca existiu - mesmo o valor do ouro sempre dependeu da Lei de Oferta e Procura, e mesmo isso depende de fé... O que você quer comprar com o seu dinheiro? Quanto vale o seu dinheiro? Tudo depende do padrão-fé. Tudo depende de nós mesmos.

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Crédito da foto: jelayemprins

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6.3.09

Reflexões sobre o ceticismo, parte 3

continunando da parte 2...

Energia: é o potencial inato para executar trabalho ou realizar uma ação.

Quando a energia gera a si mesma.

Quando falamos em energia, as pessoas podem ter as mais variadas concepções. Para um físico energia é "a propriedade (um atributo) de um corpo ou partícula. Não existe sentido em dizer que algo é energia pura"; Já para um devoto de Saint Germain, energia também pode ser "espiritual, com as qualidades de misericórdia, perdão, justiça, liberdade e transmutação, e podemos invoca-la em nome de Deus, para que essas qualidades sejam transmitidas momêntaneamente a nós"; Para os que entendem energia como Ki, Chi ou Qui, "ela pode ser associada de um modo bem amplo ao conceito ocidental de energia: diferentes ideogramas com este mesmo som (da pronúncia da palavra 'Ki') representam em chinês a energia dos alimentos, do ar e a energia pré-natal".

O grande problema das definições não-científicas de energia é que elas são, na grande maioria, pouco específicas acerca do que pretendem definir. São muito mais um conceito, uma idéia, do que parte de um sistema lógico de compreensão do mundo físico. Se a energia é entendida como "potencialidade", não faz mesmo sentido falarmos em "energia positiva" ou "energia negativa" - não é a energia que é positiva ou negativa, mas o uso que fazemos dela. Mesmo essa classificação como positivo ou negativo depende de nossos próprios conceitos do que vem a ser "positivo" e do que vem a ser "negativo"... Interessante que existe uma analogia a isso na ciência: quando falamos em pólos magnéticos positivos ou negativos, estamos usando termos definidos pelos cientistas que servem apenas para definir os pólos que se atraem (opostos) ou se repelem (idênticos).

Então, da mesma forma que poderíamos chamar a energia eólica de "positiva", pois pode nos auxiliar a reduzir o aquecimento global (visto que outras formas de energia contribuem muito mais para o aquecimento do globo), se chamarmos o ódio de "energia negativa", estaremos apenas atribuindo um julgamento a um sentimento humano, sentimento este que pode ser "forte", mas que será sempre "negativo", já que tende a prejudicar ou machucar as pessoas (inclusive a própria pessoa que sente ódio).

Tudo isso é muito filosófico, mas passa longe de uma análise mais cética, que pretende definir com mais clareza o que é energia enquanto conceito científico (um atributo das partículas) e o que são a miríade de energias espirituais: sentimentos, entidades, seres imateriais, forças metafísicas? - Por mais que essas definições embrulhem o estômago de alguns céticos, o ceticismo não pretende ignora-las, mas apenas compreender o que realmente modifica a nossa realidade física, e o que não passa de mito ou imaginação.

Da mesma forma, para os espiritualistas, compreender a energia de forma científica me parece um bom caminho para classificar melhor as diversas teorias envolvidas, utilizando do ceticismo como ferramenta para julgar quais merecem maior crédito de estudo, e quais se apresentam absurdas de antemão. Se ouvirmos falar em "seres de energia", precisaremos nos perguntar então "de onde vem sua energia"? Toda teoria que diz que a energia gera a si mesma, que é uma entidade incriada, ou que existe desde o início do Universo, deve ser analisada e reanalisada, pois vai no sentido oposto de muito do que temos observado acerca da Natureza nos últimos séculos...

Não me parece que a consciência, ou alma, ou espírito, seja imaterial. Pelo contrário, diversas teorias espiritualistas modernas, como o espiritismo, ou milenares, como o I Ching, afirmam exatamente que a energia vem das coisas em si, não de fora delas, e que não é a energia que opera a matéria, mas a matéria que irradia energia... Se essa matéria interage com a luz (fótons), se já foi detectada em laboratório, se assemelha-se mais a ondas eletromagnéticas do que a partículas determinadas no espaço, aí sim é uma outra história. Porém, essa "outra história" passa a não soar tão absurda a luz de um ceticismo responsável, por mais que possa soar absurda a um materialista convicto.

Como disse Lavousier, "na Natureza nada se cria e nada se perde, apenas se transforma" - Imaginarmos que "raios de energia espiritual" podem se formar no Universo, apontados para nós, porque "de alguma forma os invocamos por nossa fé em Deus", pode até soar confortador e nos ajudar bastante quando estamos nos sentindo depressivos, porém usarmos desses conceitos metafísicos ao pé da letra para explicar os sistemas naturais ao nosso redor me parece um extremo exagero, no mínimo um atentado ao ceticismo.

Por outro lado, continuarmos estudando a consciência humana e outros fenômenos ainda além das cartilhas científicas, valendo-nos do ceticismo, me parece no mínimo uma promessa de estudo dirigido pela lógica... Até onde a ciência nos explica a Natureza, saudemos a ciência. Nos limites do horizonte onde ela ainda não chega, valemo-nos da lógica, do bom senso, e de um ceticismo como ferramenta de ajuda, e não de cegueira.

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Crédito da foto: Diiego!

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4.3.09

Reflexões sobre o ceticismo, parte 2

continunando da parte 1...

Mecânica quântica: é o estudo dos sistemas físicos cujas dimensões são próximas ou abaixo da escala atômica, tais como moléculas, átomos, elétrons, prótons e de outras partículas subatômicas. A Mecânica Quântica é um ramo fundamental da física com vasta aplicação. Para compreender melhor este artigo é recomendado ver esta animação explicando a dualidade onda/partícula pelo experimento de fenda dupla.

Quando a quântica deixa de ser física.

Para começar nossa história, vamos trazer a informação deste artigo da Superinteressante sobre o livro mais antigo do mundo:

"Os físicos do século 20 descobriram que as partículas que compõem a matéria estão em perpétua transformação: prótons se convertem em elétrons que se convertem em nêutrons, e assim por diante. O Universo não é algo estático, mas uma massa de energia em constante transformação, uma teia de processos infinitos e dinâmicos – ou mutações. E mais: o fluxo de metamorfoses que domina o mundo subatômico e forma tudo o que existe é regido pela dança de opostos. Os elétrons de carga negativa giram em torno dos núcleos de carga positiva, formando o átomo e o Universo.

Niels Bohr, um dos pais da física quântica, ajudou a derrubar a noção de que as leis que regem o Cosmos são independentes da matéria – em vez disso, hoje se acredita que essas leis emanam da própria energia em mutação que forma o mundo. Idéia que pode ser resumida no seguinte lema: 'As leis naturais não são forças externas às coisas, mas representam a harmonia e o movimento inerente às próprias coisas'. Note bem: essa frase não saiu de um livro de física. É um trecho do I Ching."

Na história da ciência, engana-se quem imagina que encontram-se apenas gênios racionais, porém absolutamente materialistas. Como dito anteriormente, a ciência não é materialista nem espiritualista, é apenas um método racional de observação e compreensão da Natureza. Ora, Niels Bohr foi genial, um dos pais da física quântica, mas não usou apenas sua razão para chegar a criação e comprovação dos ramos científicos pelos quais é reconhecido: sem dúvida, não apenas ter lido o I Ching e pesquisado doutrinas espiritualistas, como também não ter tido receio de usar sua própria imaginação, decerto o ajudou imensamente, talvez tanto quanto o próprio estudo do cálculo em si.

Não é materialista quem crê na existência da matéria, fosse esse o caso alienado seria aquele que não fosse materialista. É materialista aquele que acredita que somente a matéria existe, e que tudo pode ser explicado através dela, incluindo a consciência... O problema não é crer especificamente que somente a matéria existe, mas crer que essa matéria se resume aquela matéria já detectada, do tipo que interage com a luz (fótons) - assim como crer que todos os mecanismos por detrás da formação e funcionamento dessa matéria já foram desvendados pela ciência (por exemplo: classificar de absurda por antemão uma teoria que afirme que "a alma" pode ser formada de "matéria desconhecida"). Se Bohr houvesse se limitado pelo que "já se sabia" sobre a matéria, teria sido materialista, teria ignorado o I Ching possivelmente, e seria um completo desconhecido na história da ciência.

Porém, não foi através do I Ching que Bohr compôs suas equações. O I Ching, a exemplo do que falamos sobre o ceticismo em si anteriormente, foi uma ferramenta e não um meio em si próprio: nesse caso, a espiritualidade e imaginação de Bohr o auxiliaram em suas descobertas científicas - porém, o que ele alcançou dentro da ciência, foi somente através do método científico. O problema está, obviamente, em se misturar os conceitos e os métodos.

Ultimamente a física quântica tem sido vítima dessa confusão. São livros, documentários e outras mídias que afirmam que "somente a consciência causa o colapso de onda, então a realidade física só existe porque a observamos", e que não param por aí, dizem mais adiante que "se podemos causar o colapso de onda, podemos moldar nossa própria realidade". Em suma, uma extrapolação não apenas da ciência, mas também de diversas noções espiritualistas, extrapolação esta que afirma que em última instância "as coisas a nossa volta ocorrem porque pensamos nelas, ou as desejamos."

Segundo a teoria da Redução Objetiva Orquestrada, dos cientistas Stuart Hammeroff e Roger Penrose, a consciência é fruto de processos quânticos no cérebro, e nossas decisões nada mais são do que "colapsos de onda de estados cerebrais" - essa teoria de que pensamentos e decisões podem ser explicados pela Mecância Quântica é não apenas de uma lógica elegante, como também resolve o problema da ausência de livre-arbítrio nas teorias que afirmam que absolutamente tudo, mesmo nossas decisões morais e sentimentos, são fruto de reações químicas do cérebro, que são por si mesmas já determinadas.

Muitos cientistas e espiritualistas viram essa teoria como uma forma de ligação entre o que diz a ciência e o que diz a espiritualidade. Amit Goswami é um físico polêmico que, à partir dessa teoria, chegou a inúmeras conclusões das quais infelizmente uma análise cética nos traz muitos poucos resultados, ou mesmo nenhum, que possam ser considerados à luz da ciência. Mas pelo menos Goswami partiu de uma teoria científica, infelizmente não precisamos nem de muito ceticismo para perceber que muitas outras teorias pseudocientíficas acerca da Mecânica Quântica e da consciência não passam de uma espécie de mistificação da espiritualidade, também sem nada de realmente científico.

Analisemos a teoria mais comum em muitos desses livros, que diz que "qurendo muito podemos modificar a realidade a nossa volta": imaginemos duas ruas transversais, um cruzamento com um sinal para cada uma, e um motorista em cada uma delas, dirigindo seus respectivos carros em direção ao cruzamento, ainda um pouco distante. O motorista A, usando dessa teoria, pode imaginar que o sinal deve ficar verde enquanto ele está cruzando. O motorista B fará o mesmo. Então, o que diabos ocorrerá? Será que a Natureza irá "medir" quem está "desejando mais forte" que o final fique verde, e julga-lo o ganhador? Ou pior, será que a Natureza não fará absolutamente nada e ambos se encontrarão em um acidente estúpido? Ou um dos motoristas, reconhecendo "sua falta de fé", irá freiar o carro bem a tempo? Qual o "segredo" nessa teoria? O "segredo" é que ela é ilógica, injusta, e portanto não serve nem para a ciência nem para a espiritualidade (tudo bem, muitos espiritualistas até tem uma visão utópica de que "pela fé tudo conseguimos", mas se isso significa prejudicar o direito do próximo, de que vale uma "fé que favorece a injustiça"?).

Nesse sentido verificamos que o ceticismo é uma poderosa ferramenta para que julguemos de forma responsável e justa teorias científicas e espiritualistas. Pode ser que o ceticismo as vezes nos leve a lugares sombrios, mas enquanto estiver baseado na lógica, na ponderação e coerência de pensamento, ainda assim será um poderoso aliado nessa jornada pela selva dos mistérios da Natureza. Nosso facão para cortar as matas da ilusão, mas também para formar uma trilha coesa em direção as maravilhas que a Natureza ainda nos esconde.

Na última parte, a energia na ciência e a energia na espiritualidade...

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Crédito da foto: Mark Miller e The Virgo Consortium

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3.3.09

Reflexões sobre o ceticismo, parte 1

Ceticismo: é a doutrina que afirma que não se pode obter nenhuma certeza a respeito da verdade, o que implica numa condição intelectual de dúvida permanente e na admissão da incapacidade de compreensão de fenômenos metafísicos, religiosos ou mesmo da realidade. O termo originou-se a partir do nome comumente dado a uma corrente filosófica originada na Grécia Antiga.

Quando o ceticismo é bom?

A primeira vista o ceticismo nos parece algo cinzento e sem brilho: "não podemos obter nenhuma certeza a respeito da verdade, somos incapazes de compreender a realidade". Ora, mas que tipo de afirmação é essa? Será que tudo o que conhecemos, e mesmo a realidade, é algo falso e incompreendido? Esse tipo de pergunta ocorre para todos aqueles que, geralmente, de tão apegados a sua noção de realidade, tratam qualquer tipo de "afronta a sua realidade" mais ou menos como a loba que protege seus filhotes de estranhos, mostrando os dentes afiados.

Esse pensamento precipitado, quando extendido ao ceticismo científico, nos leva a crer que "como os próprios cientistas afirmam que não conhecem a verdade, então não devemos dar ouvidos a eles. Daremos ouvidos a quem afirma que a conhece, como a Bíblia." - obviamente que esse tipo de pensamento é bem arcaico e não se aplica a maioria dos religiosos dos dias atuais (será mesmo? espero que não se aplique), mas considerando nossa história religiosa, e de como foram necessários séculos de ciência para que modificássemos finalmente algumas de nossas noções mais básicas da realidade (como por exemplo, a de que a Terra gira em torno do Sol, e não o oposto, como acreditamos na maior parte de nossa história), poderemos entender como um cético hoje tende a ser "mau-visto" por aquelas pessoas que "tem certeza de que compreendem a realidade".

Felizmente, a Natureza nos mostra que não precisamos compreender a realidade para viver nela. Ou melhor: não precisamos compreender cada aspecto e detalhe das leis naturais, para que estas funcionem, e para que vivamos conscientes da maravilha que é a Natureza, ainda que talvez nunca a compreendamos devidamente. Vale então um outro pensamento: "mais vale avançar a passos curtos e cortando grama e galhos de ilusão, na trilha da Verdade, do que permanecermos alegres e felizes com o que já conseguimos, no vilarejo da Ignorância" - ou seja, tudo bem que não compreendamos toda a verdade ou toda a realidade, isso não nos impede, de forma alguma, de prosseguir nessa trilha de descobertas.

Será que só deveríamos nos sentir "seguros o suficiente para caminhar adiante" quando trazemos conosco, abaixo do braço, um Manual da Verdade Absoluta? Ou será que é perfeitamente possível seguir adiante, observando e desvendando a natureza, sem que tenhamos a "segurança aparente" de uma ou inúmeras Verdades? - o problema com essas perguntas é que que elas envolvem uma certa dose de risco: se vamos seguir adiante no ceticismo, é possível que muito do que consideramos a Verdade hoje esteja errado lá na frente, é possível que todo nosso trabalho de reflexão e análise dessa "verdade aparente" se perca, pois no futuro pode ser provado como falso; Por outro lado, se abraçarmos as verdades de algum Manual, e também essas se provarem falsas, teremos nos enganado duplamente - uma, em relação a nossa "verdade aparente" que se provou falsa, e outra em relação a crer que algum livro poderia ter nos trazido a Verdade Absoluta de mão-beijada.

O ceticismo não é inimigo da religião. Religião é apenas a forma que os homens encontraram para alcançar alguma forma de compreensão da Natureza de forma mais sentimental do que racional, mais no sentido do Amor do que da Razão. Não significa que um religioso não possa ser cético, não possa ser cientista, não possa unir todas as potencialidades humanas em prol de um conhecimento mais abrangente da Natureza. Significa apenas que um religioso precisa aprender a deixar de se apegar a este ou aquele dogma. Pois um dogma, enquanto "verdade já encerrada em si mesma", é a antítese da busca por conhecimento, busca essa que ocorre na religião (porque não?) tanto quanto em qualquer outra área de conhecimento humana. Talvez a busca religiosa seja mais interna do que externa, mais sentimental do que racional, mas continua sendo válida: não existe espaço na Natureza em que possamos "estar fora dela", portanto mesmo a busca interna não deixa de ser uma busca "dentro da Natureza".

Também podemos dizer que nem todo cientista será necessariamente cético (ainda que acredite piamente que o seja): ciência é conhecimento, é observação e compreensão racional das leis naturias. Ciência não é materialista nem espiritualista, ateista ou teista, ciência é apenas ciência, se baseia em fatos comprovados experimentalmente, e novas teorias que surgiram através deles, a ciência nunca teve a pretensão de "validar" ou explicar toda a realidade (nisso ela se assemelha ao ceticismo). O cientista que baseia toda a sua visão de realidade apenas na ciência, está no mínimo "vivendo pela metade", esquecendo-se de tantas outras coisas que a realidade nos traz, e que não podem ser medidas ou equacionadas... para não extender muito a lista, fiquemos apenas no Amor.

Como físico, Max Planck observou em seu livro "The Philosophy of Physics" [A Filosofia da Física], de 1936: "uma importante inovação científica raramente faz seu caminho vencendo gradualmente e convertendo seus oponentes: raramente acontece que 'Saulo' se torne 'Paulo'. O que realmente acontece é que os seus oponentes morrem gradualmente e a geração que cresce está familiarizada com a idéia desde o início". O ceticismo pode, portanto, tornar-se vicioso e sua prática deve ser balanceada. É importante que o cético mantenha-se neutro, tenha consciência de sua posição e evite um ceticismo descontrolado que possa vir a transformar-se num fanatismo tecnologico ou numa espécie de fundamentalismo onde se pretende "evangelizar o ceticismo científico" como úncia compreensão válida da realidade (quando o próprio ceticismo exatamente nos afirma que não podemos compreender a realidade por completo).

Quando o ceticismo é bom? A resposta é: quando ele é usado como ferramenta e não como fim. O ceticismo não é um fim em si mesmo, não é uma ideologia. O ceticismo é uma ferramenta para auxiliar na racionalização da realidade, e que leva em consideração a falibilidade humana acima de tudo. Ou, como nos diz R.T.Carrol sobre "em que os céticos acreditam":

"O ceticismo não é um conjunto de crenças, assim pode não haver muitas convicções mantidas por todos os céticos. Até mesmo se houvesse, tais convicções poderiam não revelar nada sobre o ceticismo, já que estas mesmas crenças podem ser mantidas por muitos que não sejam céticos."

Na continuação a relação do ceticismo com física quântica e algumas teorias espiritualistas...

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Crédito da foto: GarotosHorriveis

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19.2.09

João de Deus: charlatão?

Este artigo visa analisar o fenômeno das cirurgias físicas efetuadas pelo médium João de Deus, a que muitos céticos encaram como charlatão ou fraude. No entanto, independente de aprovarmos ou não tais cirurgias (ao que tudo indica são os próprios pacientes que pedem por elas), devemos aqui analisa-las somente no contexto do pretenso fenômeno "paranormal" em si, sem que para isso deixemos que noções materialistas influenciem nossa visão. Este artigo pretende analisar esse tipo de fenômeno de forma verdadeiramente cética e imparcial.

Como dito em nosso último artigo sobre ele, João de Deus nasceu em 24 de junho de 1942 em Cachoeira da Fumaça, interior de Goiás. Muito pobre, estudou até o segundo ano primário e em seguida abandonou a escola com o intuito de procurar trabalho e ajudar no sustento dos cinco irmãos. As manifestações mediúnicas começaram quando ainda era menino. Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, teve início o seu trabalho de cura. Após uma visão embaixo de uma ponte, foi orientado a procurar um centro espírita na cidade. Lá chegando, foi recebido à porta pelo presidente do centro, que disse já estar esperando por ele. João se aproximou e subitamente desmaiou. Ao acordar, ficou sabendo que, incorporado, havia operado e atendido a diversas pessoas. Desde então não parou mais de realizar trabalhos de cura.

Em 2005 o dismistificador James Randi participou de um programa da rede americana ABC que visava analisar o fenômeno das cirurgias físicas de João de Deus. Apesar de apenas ter visto alguns vídeos sobre essas cirurgias (provavelmente imaginando que não era possível ir até lá e filmar do ângulo que quiser), ele logo teceu alguns comentários que tem como objetivo dismistificar o fenômeno apresentado, afirmando se tratar de truques de mágica "até mesmo simplórios".

Logo abaixo, iremos contrapor as suposições de Randi com um estudo médico sobre cirurgia espiritual da Associação Médica Brasileira (inclusive baseado em observações das próprias cirurgias de João de Deus), do qual tiraremos algumas citações quando necessário[1]:

1. Sobre as tesouras enfiadas pelo nariz dos pacientes.
Randi afirma que isso não passa de um truque de circo bastante conhecido. No entanto, se esquece de que para que o truque funcione, o mágico precisa enfiar o objeto (no caso, algum prego longo e não uma tesoura) no próprio nariz. Não se conhece esse tipo de truque efetuado em outras pessoas não preparadas. Para se conceber que João de Deus faça isso como forma de mágica, seria preciso crer que as dezenas de pessoas operadas todos os dias, incluindo os próprios pesquisadores e repórteres de dezenas de emissoras (incluindo Discovery e BBC) foram não apenas subornados para compactuar com o "show" de João, mas da mesma forma treinados na técnica. Como o próprio Randi admite que apenas algumas centenas de pessoas conhecem a técnica ao redor do globo, ele mesmo se contradiz.

2. Sobre os cortes de pele sem sangramento normal.
João de Deus faz incisões na pele de pacientes e estes não sentem dor e quase não sangram, apesar de não estarem anestesiados (quanto ao não-sangramento, nem se conhece alguma substância química que possa causar tal efeito). Resta a Randi apelar para um truque de mágica mais elaborado, que ele mesmo demonstrou algumas vezes em programas de TV. Randi esquece, porém, que para tais truques funcionarem precisamos de: (A) Posição específica da câmera, proibindo certas angulações de filmagem; (B) Compactuação e participação do paciente; e (C) Espelhos, pele falsa e outros elementos de tecnologia específica da mágica. Ou seja, (A) é refutado pois podemos filmar as cirurgias por qualquer ângulo, inclusive circundando o médium e o paciente; (B) é refutada pelo mesmo motivo da citação #1 acima; e (C) é refutada pois até hoje não se encontrou nada parecido no "santuário" do médium.
Também vale citar a pesquisa da AMB: "As cirurgias são reais[2], mas, apesar de não ter sido possível avaliar a eficácia do procedimento, aparentemente não teriam efeito específico na cura dos pacientes."

3. Sobre as "raspagens de olho".
João de Deus efetua "raspagens" de um dos olhos dos pacientes utilizando nada mais que a própria mão e uma faca de cozinha não esterilizada. Randi, não tendo muito a acrescentar ao assunto, admite que "seria impossível tocar a córnea do paciente sem uma reação adversa imediata (como piscar ou se afastar) do mesmo, exceto por meio de uma anestesia local aplicada sem que o paciente saiba". Bem, como não está provado que exista qualquer tipo de anestesia aplicada, e João opera dessa forma a décadas, fica difícil imaginar que se trata de fraude.
Voltando a citar a pesquisa da AMB: "As cirurgias e raspados são reais e os materiais extraídos são compatíveis com o local de origem."

4. Sobre a ausência de dor nos procedimentos citados em #1 a #3.
Randi afirma que as "vítimas" podem estar em um "estado de choque" refrente ao trauma, e que porisso não sentem dor no momento, mas podem vir a sentir alguns minutos depois. Ele afirma que a "câmera não continuou filmando o paciente, então não podemos saber" - Aqui se torna evidente que Randi se expõe ao ridículo por fazer tantas suposições sobre um fenômeno que mal conhecia. É muito simples encontrar no YouTube diversos vídeos dessas cirurgias onde fica atestado que os pacientes não sentem nenhuma dor, mesmo horas depois. O mesmo vale para diversos documentários, como os da Discovery e BBC.
Na pesquisa da AMB, dos 10 casos estudados, apenas uma paciente sentiu dor em uma incisão mamária com retirada de fragmento (pretensamente um nódulo benigno), mas não uma dor forte como seria de se esperar normalmente.

5. Sobre a ausência de infecção (hospitalar).
Em décadas de cirurgias físicas sem a instrumentação, anestesia e assepcia adequados, nunca foi constatado um caso sequer de infecção hospitalar nos pacientes de João de Deus, inedependente de ter havido cura ou não no tratamento espiritual. Randi aqui apela para a explicação "de que nem todos os procedimento invasivos realmente cortam completamente o tecido da pele (como um ferimento exposto), e isso poderia explicar a ausência de infecções". Randi mal sabia que João também faz cirurgias extremamente invasivas, apenas estas são mais raras.
Em todo caso, a pesquisa da AMB estudou algumas dessas cirurgias invasivas, e mesmo assim confirmou que não houve casos de infecção: "não há utilização de técnica asséptica ou anestésica, mas não foi detectada nenhuma infecção e apenas um paciente referiu dor."

6 e 7. Sobre os "transes" em que o médium "entra em contato com espíritos" e sobre as recuperações e curas reportadas por pacientes.
Não queremos aqui analisar a crença de Randi em si. Obviamente, como cético, ele não pode conceber uma explicação espiritual para esse tipo de fenômeno. Não criticamos aqui o ceticismo de Randi, mas o exaltamos e reafirmamos: cada um deve crer naquilo que quiser. O problema está no julgar sem saber, como ficou claro nesse caso. Julgar fraude de antemão um fenômeno mal estudado, apenas porque vai contra sua crença (ou descrença). Nesse ponto, o ceticismo de Randi é obviamente falho. Não tiramos seu mérito de dismistificar diversos charlatões pelo mundo, mas lamentamos sua falta de critério para com esse caso em específico.
Sobre as curas comentaremos à seguir.

***

Médico não promete cura, promete tratamento
Essa frase, que ouvi do célebre e amoroso médico Patch Adams (que é inclusive ateu), resume muito do que devemos considerar acerca desse tipo de cirurgia ou tratamento. Vale mencionar que "assim como outros cirurgiões espirituais brasileiros, João Teixeira afirma que as cirurgias são completamente dispensáveis, podendo os espíritos atuarem diretamente sobre os pacientes. Mas estes necessitariam ver as curas sendo realizadas no corpo físico para se convencerem da realidade do tratamento" (novamente citando a pesquisa da AMB), ou seja, lembrando Hipócrates, podemos também afirmar que "tuas forças naturais, as que estão dentro de ti, serão as que curarão suas doenças" - ou seja, entenda-se como quiser, que "a fé cura" ou que "o efeito placebo cura", o importante é que alguma espécie de cura (ou melhoria) ocorre para quem se mantém confiante e otimista, e isso é fato mesmo na medicina tradicional.

Falando do ponto de vista espiritualista, me parece óbvio que o ideal seria que João parasse com esse tipo de cirurgia física. É difícil dizer até que ponto elas lhe auxiliam em sua jornada de caridade, e até que ponto apenas lhe trazem uma exposição indesejada na mídia mundial. Decerto, é claro, lhe traz muitos inimigos céticos, que chegam até a classifica-lo como "açougueiro". Obviamente que, num estudo mais detalhado, como o da AMB, percebemos a realidade de suas cirurgias, e o bem (direto ou indireto) que produz em seus pacientes.

Mas o fato é que, mesmo de acordo com o próprio João, as cirurgias físicas são desnecessárias para o tratamento. A matéria espiritual é fluida, e como tal, não se opera por mãos físicas, mas antes pelas mãos sutis do pensamento, ou pelo menos é mais ou menos como os espiritualistas compreendem o fenômeno em si. Nada mais sóbrio do que optar pela eventual redução desse tipo de cirurgia, até que não mais seja realizada, mesmo que as pessoas continuem lhe pedindo para tal.

Também vale lembrar que João opera gratuitamente a décadas, e que por mais que a "venda de remédios naturais a 10 reais" e o turismo da região possa até lhe trazer certa renda, não seria suficiente para garantir o funcionamento de seu "santuário", e toda a caridade que próvem dele (incluindo doação de comida e alojamento aos mais necessitados, etc.). Portanto João, como todos nós, depende da caridade, mas além de depender dela, também a realiza, em abundância. Julguemo-o por sua obra.

Conclusão final da pequisa da AMB (veja a pesquisa aqui)
"Pode-se concluir que as cirurgias estudadas e os materiais extraídos são reais, não há utilização de técnica asséptica ou anestésica, mas não foi detectada nenhuma infecção e apenas um paciente referiu dor. Como não houve identificação de fraudes, o fenômeno necessita de posteriores estudos para a explicação adequada da analgesia, da não-infecção, avaliação da eficácia e por quais mecanismos a suposta cura poderia ocorrer, pois as cirurgias em si aparentemente não conduziriam a esse resultado, já que usualmente não extraem tecidos patológicos.

Como vários autores relatam benefícios com os tratamentos espirituais, é fundamental um melhor conhecimento dos mecanismos e eficácia das curas espirituais. Isso possibilitaria a adaptação das formas úteis como terapias complementares à medicina ocidental, bem como desencorajaria os procedimentos danosos ou inúteis. A discussão séria de um tema não requer que compartilhemos as crenças envolvidas, mas que tomemos suas implicações seriamente e não subestimemos as razões pelas quais tantas pessoas se envolvem. Nem a crença entusiasmada ou a descrença renitente ajudarão os pacientes ou o desenvolvimento da medicina".

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Notas:

[1] Este estudo foi realizado por pesquisadores e médicos filiados a Associação Médica Brasileira, e é somente nesse sentido que me refiro a pesquisa como "uma pesquisa da AMB". Não quer dizer que a AMB seja espiritualista, ou materialista, nem que os médicos que conduziram a pesquisa sejam uma ou outra coisa - até mesmo porque a ciência não é, em si, nem uma coisa nem outra.

[2] As cirurgias são reais no contexto de negarem a insinuação de James Randi de que seriam "truques de mágica". Não quer dizer que tenham resultado em cura. Aliás, se lerem a pesquisa completa da AMB verão que a efetividade do tratamento espiritual não é confirmada, embora nenhuma fraude tenha sido verificada nas cirurgias em si.

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Este artigo também pode ser visualizado pelo endereço http://tinyurl.com/joaodedeus

Crédito da foto: Sakanta Running Wolf

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12.2.09

A evolução desconhecida

Neste dia onde comemoramos os 200 anos do nascimento de Charles Darwin, co-criador da teoria da Evolução com Alfred Russel Wallace, gostaria de falar sobre a parte ainda "desconhecida" da evolução das espécies, e principalmente a do homo sapiens.

Como Drausio Varella e outros antropologistas gostam de lembrar, a evolução cultural não se deu apenas no homo sapiens, como em outras espécies capazes de conviver em sociedade, como chipanzés e bonobos, nossos parentes mais próximos (segundo os estudos do Genoma Humano comprovaram). E não paramos por aqui: muitos psicólogos evolutivos fazem alarde sobre a teoria da evolução da mente humana - "Homens traem mais pois na Idade da Pedra precisavam disseminar a espécie em diversas parceiras, sob o risco de condenar sua espécie a extinção caso fossem monogâmicos numa época ainda absolutamente inóspita a sobrevivência sedentária." - esse tipo de afirmação é muito comum entre os defensores da PE Pop (Psicologia Evoltutiva Populacional).

Em artigo recente na Scientific American, o prof. David J. Butler critica a afirmativa de que "o homem moderno tem a mente da Idade da Pedra", e expõe diversas razões, na maioria falta de evidências, para que consideremos essa afirmação uma falácia. Entretanto, se perguntarmos a qualquer cético que crê na teoria da Evolução, o fato de que existe a evolução cultural e cognitiva humana é quase que sempre dado como verdadeiro... Interessante pois que, independente de críticas como as do prof. Butler, exista um problema muito mais importante e crucial para ser resolvido: "Como é possível que Genes, que transmitem apenas características físicas, possam carregar informações ou memórias de uma possível evolução cultural e cognitiva da espécie?".

Até hoje, pouco se desenvolveu esse assunto na literatura científica. Podemos aqui destacar que Dawkins percebeu o problema, tanto que se preocupou em delinear uma vaga teoria acerca dos Memes, teoricamente os "genes que transmitiriam as características não-físicas adiante"... Infelizmente o célebre autor do Gene Egoísta não conseguiu encontrar essa outra espécie de "genes exóticos" em lugar algum, e nem tampouco qualquer outro pesquisador. Os memes continuam sendo alternativas místicas aos genes.

Também podemos citar Jung e seu Inconsciente Coletivo, segundo a Wikipedia ele "é a camada mais profunda da psique humana. Ele é constituído pelos materiais que foram herdados da humanidade. É nele que residem os traços funcionais, tais como imagens virtuais, que seriam comuns a todos os seres humanos." - Seria então, mais ou menos, como quintilhões de bits de informação que "flutuam no ar" e, de alguma forma desconhecida, são acessados não somente por homo sapiens conscientes, como também por todas as outras espécies que obtiveram alguma forma de evolução cultural ou cognitiva - ou seja, não dependeríamos de genes para passar tais informações adiante, elas estariam simplesmente "em algum lugar do espaço". E chamaríamos isso de ciência ou de esoterismo?

É verdade que a teoria de Darwin-Wallace nunca pretendeu explicar a origem da vida, apenas trazer luz a forma com a qual essa vida evoluiu de simples bactérias para seres formidáveis e complexos, numa infinidade de espécies. A teoria da Evolução nunca casou muito bem com a noção de evolução da cultura e cognição nas espécies, e se mostrou especificamente limitada em explicar o surgimento da consciência. Poderemos imaginar que isso se explica pelo fato de que ambos os criadores de tal teoria serem cientistas e céticos, que nada compreendiam de espiritualidade. Então estaríamos errados...

Não é à toa que Wallace é tão pouco citado quando se fala na teoria da Evolução - primeiro, era bem mais jovem que Darwin quando a teoria lhes surgiu a ambos, mas principalmente, Wallace foi espiritualista, e um cientista espiritualista é algo que nunca soou muito bem aqueles que escrevem a história da ciência... Segundo a Wikipedia e suas fontes, Wallace "argumentou que a seleção natural não poderia justificar o gênio matemático, artístico ou musical, nem contemplações metafísicas, a razão ou o humor, e que algo no "invisível universo do Espírito" tinha intercedido pelo menos três vezes na história: 1. A criação da vida a partir da matéria inorgânica; 2. A introdução da consciência nos animais superiores; 3. A geração das faculdades acima-mencionadas no espírito humano." - Ora, não é tão fácil desacreditar o pensamento de um espiritualista, quando este é um dos responsáveis pela teoria mór do materialismo, não é mesmo?

Mas poderemos pensar: será que ciência e religião estão em lados opostos? Será que materialismo e espiritualismo nunca se encontraram? Será que a Natureza se explica por noções radicais, preto no branco, como "tudo é matéria" ou "tudo é espiritual e ilusório", ou será que Natureza antes opera em gradações de cinza?

O que Wallace defendia é conhecido pela humanidade desde milhares de anos atrás, nos primórdios das religiões orientais, principalmente do Hinduismo (mesmo Sagan traça paralelos entre as teorias de criação/destruição do Universo e a cosmologia religiosa da antiga India). Consciência, alma ou espírito, chame-a como achar melhor, o que a teoria da Reencarnação defende é tão somente que existe uma lógica perfeitamente plausível por detrás da crença de que a consciência e a memória não dependem de genes para serem passadas adiante, simplesmente pelo fato de que, ao contrário do corpo dito "físico", não são exterminadas na morte.

Num Universo não-local, onde 96% da matéria não interage com a luz, e onde pululam teorias físicas acerca da existência de diversas dimensões, branas, ou mesmo universos palralelos - e mais, onde sabe-se a tempos pela ciência que toda matéria é invisível e intangível - será assim tão fantástico e absurdo imaginarmos que a consciência, algo que sequer detectamos no cérebro humano, e que não sabemos do que é formado, possa sobreviver ao fim das atividades cerebrais?

Pode ser que no futuro a ciência descubra que realmente a consciência nada mais é do que um estado exótico do cérebro, fruto de reações químicas que possibilitaram que poeira de estrelas pudessem adquirir conhecimento do céu noturno, e do Cosmos das quais são filhas. No entanto, negar de antemão a possibilidade da evolução "desconhecida" se dar através de caminhos igualmente ocultos, e apostar todas as fichas no materialismo, me parece algo arriscado... Afinal, todos podemos estar errados, então não deveríamos apontar raivosos e dizer "você está louco, isso não pode estar certo!" - E quem disse que a Natureza obedece aquilo que "achamos estar certo"?

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Crédito da foto: corbis

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10.2.09

Tudo que sei é que nada sei

O célebre sábio antigo, Sócrates, nem sempre havia sido conhecido por sábio. De fato, chegou a servir como soldado e constituir família, como tantos outros atenienses. Foi somente quando leu no oráculo em Delfos o "conhece-te a ti mesmo" que teve um insight, uma iluminação interior, e resolveu dedicar o final de sua vida ao autoconhecimento.

Porém, me parece interessante que não tenha se isolado para se autoconhecer, tanto oposto disso: preferiu dialogar com jovens atenienses, e através desses diálogos pôde não somente conhecer-se melhor, mas também aprender a complexa arte de julgar "quem é sábio, e quem apenas se julga sábio".

Frequentemente, os ditos "sábios" se entrincheiram no cume de sua suposta sabedoria, e passam a atacar todos aqueles que, ao aproximar-se, demonstram certa ignorânica. Dizem eles: "Você não é digno de estar entre nós, é muito ignorante." - "Vá estudar o básico de filosofia, ciências e política, depois retorne." - "Para mim é um suplício ter de dialogar com alguém tão ignorante." - ou ainda "você está além de qualquer salvação, nunca poderá ser um sábio como nós."

Ora, e o que Sócrates descobriu? Que os ditos "sábios", nada mais eram que seres cheios de idéias pré-concebidas, ou tanto pior, conceitos monolíticos que não admitiam diálogo, verdadeiros dogmas das idéias... Descobriu que para ser realmente sábio, era preciso aprender a compreender as diversas formas nas quais a sabedoria se apresenta: no olhar atento de um jovem ainda livre de preconceitos, nas sutis e harmônicas leis da Natureza, no conceito de se estar sempre ao mesmo nível de todos - não por ser igualmente ignorante, mas antes por ser o mais interessado em aprender com tudo a sua volta...

O tão criticado "tudo que sei é que nada sei", portanto, é apenas uma fórmula para que possamos nos harmonizar com o brilho dos outros, se for o caso. Caso nossa sabedoria brilhe muito a primeira vista, pode assustar, afinal todos os ditos "sábios" costumam tratar aos "ignorantes" de forma um tanto grosseira. A sabedoria verdadeira está em, sendo sábio, reconhecer que não é sábio o suficiente para que possa ignorar o aprendizado possível, o aprendizado que se encontra nos diálogos, nas amizades, no convívio e no amor, para com todos os outros que nos cercam, sejam sábios, sejam ignorantes, sejam apenas ignorantes que se julgam "muito sábios" - não importa, todos são possibilidades infinitas de aprendizado.

O cérebro humano tem tantos neurônios quanto estrelas há no céu. Não importa para onde olhemos: para o alto, ou para dentro, tudo é sagrado. Amar o saber, antes de mais nada, é reconhecer que nunca saberemos o suficiente, que não possamos aprender algo a mais. Sócrates sabia. Sócrates não se "julgava sábio", ele o era, realmente, e não se preocupava em alardear isso aos quatro ventos.

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Crédito da foto: Sebastià Giralt

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9.2.09

Os pequenos selvagens

Era 1920, o reverendo Jal Singh, missionário anglicano, liderava aldeões em uma caçada nos arredores de Midnapore, a oeste de Calcutá, na Índia. Esses aldeões eram acostumados a caçar todo tipo de animal selvagem nas redondezas, mas dessa vez sua caçada era algo mais exótica: eles buscavam as meninas Amala e Kamala, que boatos diziam, haviam sido largadas nas florestas da região quando ainda bebês, e então foram "adotadas" pelos lobos, e passaram a viver como seres selvagens, embora humanos.

O que parece uma ficção, em realidade, é algo que sempre foi relativamente comum na história antiga, e nos povos rurais. Amala e Kamala realmente existiram. Quando foram abordadas, sua mãe loba as tentou proteger, e foi abatida pelos aldeões. Jal Singh acreditava que as estava tirando "da mão do demônio", e dando-as uma oportunidade de serem humanas, educadas, instruídas em sua religião e, finalmente, ganharem os céus ao aceitar Jesus como seu único salvador.

Infelizmente não foi bem o que ocorreu. Elas tinham provavelmente entre dois e oito anos, Singh as descreveu - "caninos alongados, queixo retraído, olhos que brilhavam na escuridão." Amala era a mais nova, e morreu em um ano de "cativeiro", sem nunca ter aprendido a falar ou sequer caminhar de forma ereta. Kamala sobreviveu até 1929, tempo em que aprendeu a comer alimentos cozidos (e não carne crua, como anteriormente), andar ereta e falar cerca de 50 palavras. Singh deve ter lamentado, não era o suficiente para que compreendessem Jesus, nem para que chegassem aos céus.

Na Idade Média, as crianças criadas pelos animais eram vistas como símbolo do caos, da insanidade, heresia, maldição de Deus. Mais tarde, o iluminista Russeau envolveu todos os homens não-civilizados em uma aura de pureza e harmonia com natureza chamamdo-os de "nobres selvagens". Mas o fato é que isso tudo apenas nos demonstra o quanto precisamos uns dos outros, o quanto estamos encadeados na teia da vida: o homem é um ser de potencialidades, mas essas precisam ser despertas para florescer.

Fosse Mozart criado por lobos, teria sido um gênio da música? Decerto que não, decerto que se não houvesse sido apresentado pelo pai a um piano ainda muito pequeno, não teria sido tão genial. Todo espírito humano traz nos calabouços do inconsciente toda uma história de evolução cognitiva, história essa que a ciência ainda não compreende como pode ser passada geração a geração, visto que genes determinam apenas características físicas, e não morais ou cognitivas... Essas "potencialidades da alma", no entanto, como bem lembrou Sto. Agostinho no livro homônimo (também herança do pensamento de Sócrates - "conhecer-se é relembrar"), dependem de serem despertas, dependem de serem desenvolvidas em prol de toda a humanidade. O ser humano criado por lobos será não muito mais do que um lobo, mas o lobo criado por seres humanos não possui essas potencialidades, e portanto será, no máximo, um lobo "menos feroz".

Fôssemos um povo consciente de sua herança ancestral, de sua longa ligação com todas as formas de vida nessa Terra, em vidas e vidas de evolução cognitiva e moral (em paralelo com a evolução tradicional esclarecida pela teoria de Darwin-Wallace), não deixaríamos nossas crianças para serem devoradas nos ermos, mas da mesma forma, não assassinaríamos os lobos que cuidaram de nossas crianças, pois que nesse sistema sagrado cada um recebe a responsabilidade que lhe compete: o lobo que criou a criança é um animal em vias de emancipação da consciência; o homem que matou o lobo e pretendeu "salvar" a criança é um ser consciente ainda preso na própria ignorância e preconceitos.

Nos dias que se seguem, o homem finalmente compreendeu que tudo que faz a Natureza, faz a si mesmo. Agora chegou a hora de voltarmos a viver, e não apenas sobreviver. Chegou a hora de lembrarmos dos índios e aborígenes que sempre souberam de seu lugar no grande esquema das coisas. Chegou a hora de nos reconectarmos a Natureza, de curar todo mal feito, e de sermos tão puros quanto Amala e Kamala, porém no exercício pleno de todas as nossas potencialidades... Não vamos mais negar quem somos, e o que viemos fazer nesta Terra.

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Crédito da foto: anônimo

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17.1.09

O caçador de médiuns

“Houdini... Houdini... Houdini...”

Ele estava imerso nas águas de um rio com a superfície congelada. Quando foi jogado por um dos buracos no gelo, estava preso por diversas correntes e cadeados, e trancafiado em um baú. Livrar-se das correntes e sair do baú, mesmo debaixo d’água, foi um dos truques que o fez famoso mundialmente, um dos muitos truques “mágicos” de fuga em que era especialista... Porém, naquele dia Houdini havia desconsiderado a possibilidade da forte correnteza do rio o levar para muito longe do buraco na superfície congelada, por onde deveria sair após se livrar das correntes e do baú, e infelizmente foi o que ocorreu.

Com pouco tempo de consciência em um leito de rio de águas em temperaturas muito baixas, tudo que conseguiu fazer foi achar um “bolsão” de ar entre a superfície da água e a camada de gelo imediatamente acima. Eram alguns centímetros talvez, mas era o suficiente para respirar um pouco. Porém, sem saber em que direção estava o buraco no gelo, Houdini passou a considerar que aquele talvez fosse o seu truque derradeiro: um truque do qual só escaparia com a morte.

Isso foi até ouvir a voz de sua recém-falecida mãe. A voz não era um cumprimento emocionado de uma mãe que talvez o estivesse esperando em algum céu, mas uma ordem para que nadasse em direção a ela... E, sem pestanejar, foi exatamente o que o mágico fez: seguindo a voz de sua mãe, encontrou a saída do túmulo de gelo e ainda teve muitos anos de glória pela frente.

Houdini no entanto nunca se esqueceu do ocorrido. Cético, acreditava que poderia ter “fantasiado” sobre ter ouvido a voz da mãe, mas como então explicar que a voz o direcionou a saída do rio? Como explicar a certeza que sentia em seu íntimo, de que aquela era, sem sombra de dúvida, uma comunicação genuína de sua mãe falecida?

Buscando explicações, Houdini acabou encontrando em Sir Arthur Conan Doyle, célebre criador de Sherlock Holmes, um conselheiro promissor: Doyle era um intelectual, e provavelmente mais confiável do que “espiritualistas em geral”.

Através de Doyle, Houdini teve suas primeiras experiências com o espiritismo, e alguns fenômenos que ainda eram comuns na Europa do início do século XX: “experiências com copos”, “mesas girantes” ou simplesmente médiuns que “diziam incorporar os mortos”. Entretanto, seguindo o próprio conselho do codificador da doutrina espírita, Houdini encarou todas essas pretensas “experiências espíritas” com extremo ceticismo. Com seus conhecimentos célebres de magia e ilusionismo, desmascarou inúmeros charlatões e falsários, a maioria dos quais cobravam por suas “apresentações” (o que é condenado pelo espiritismo). Não precisou de muito mais do que isso para que Houdini fosse então considerado uma espécie de desenganador, desmistificador, ou “caçador de médiuns”, principalmente porque desde essa época a mediunidade já era atacada por duas vias: céticos que contestavam a existência de espíritos fora de um corpo, e protestantes que ligavam a mediunidade a “comunicações com demônios”.

Doyle, que notadamente não era um cético por excelência, acabou rompendo sua amizade com Houdini. Obviamente que Houdini atacava somente os charlatães, e não os espíritas (que, dentre outras coisas, não cobram nada por sua mediunidade), mas o choque negativo (em relação à mediunidade em geral) que Houdini causava na mídia da época foi o suficiente para que Doyle considera-se afastar-se dele (mesmo o considerando um “grande médium”, coisa que o próprio Houdini sempre desmentiu).

Ora, me parece que até aqui essa é uma história ideal para os “céticos de plantão”, que aproveitam qualquer mísera oportunidade para atacar o espiritismo. Ocorre que, felizmente (ou infelizmente), esse tipo de “cético” não é muito dado e interpretações mais profundas dos fatos: sim, é óbvio que Houdini vinha desmascarando inúmeros charlatões durante os anos, mas engana-se quem acredita que Houdini fazia isso pelo puro prazer de os desmascarar, ou por alguma consciência de justiça; nada disso, Houdini estava todos esses anos tão somente tentando voltar a se comunicar com a mãe. Aquela experiência do rio realmente nunca lhe fugiu da memória: ele tinha a esperança clara de encontrar uma comunicação mediúnica verdadeira, pois sentia que precisava voltar a dialogar com a mãe.

Mas, como dizia Chico Xavier, “o telefone só toca da lá para cá” (Kardec diria outra coisa, mas isso já é outra história). Sem dúvida, Houdini perseguiu uma comunicação mediúnica com a mãe por boa parte da vida, mas ele a buscava pelos motivos errados, motivos egoístas. Mediunidade não é “passe de mágica”, nem uma coisa que existe para nos “consolar” ou “satisfazer os desejos íntimos”; mediunidade é uma lei natural que permite que espíritos trabalhem em comunhão em ambos os mundos (ou dimensões), e segue uma série de regras estritas (não cobrar fortunas é muitas vezes uma delas), todas voltadas para a reforma moral íntima dos médiuns, geralmente através da caridade. Quem vai atrás do espiritismo em busca de uma “comunicação” ou fenômeno espiritual, quase que sempre sairá de um centro espírita desiludido: os espíritos não se prestam às nossas necessidades, os médiuns é que se prestam as deles, de preferência aos espíritos adiantados moralmente que querem tão somente “melhorar a moral na vizinhança cósmica”.

Para os céticos que ainda não acreditam que a intenção real de Houdini era ter um novo contato com a mãe, resta-nos a história bastante conhecida que nos conta que, pouco antes de falecer (sua morte foi um tanto banal), Houdini confidenciou a sua esposa (Bess) um código que serviria para que ela interpretasse qualquer comunicação mediúnica após sua morte: caso o pretenso médium informasse o código, Bess saberia que era uma comunicação genuína do marido falecido. Meses após sua morte, Bess divulgou na mídia que buscava comunicações do espírito desencarnado de Houdini, e não sem surpresa, percebeu que a maioria delas era falsa, pois não informava o código. Isso prosseguiu até que um médium chamado Arthur Ford divulgasse o tal código secreto. Posteriormente, para conseguir com que um filme sobre a carreira do marido fosse rodado (o que lhe renderia bastante dinheiro), ela “admitiu” que talvez o tal código pudesse ter chegado a Ford antes de Houdini morrer (mas não deu muitos detalhes além disso, na realidade era “pré-condição” da produtora que Houdini não fosse retratado como “alguém que acreditava na mediunidade genuína”, devido a razões óbvias [novamente, duas vias de ataque: céticos e protestantes]).

O fato é que, tendo ou não o tal código sido revelado anteriormente a Ford, Houdini sem dúvida tinha a crença de que era possível a mediunidade genuína (embora, sem dúvida, soubesse que a grande parte dos “médiuns” da época eram fraudes): do contrário, não teria passado boa parte da vida buscando uma nova comunicação com a mãe, e muito menos se daria ao trabalho de criar o tal código para sua esposa.

Para mim, isso demonstra que o ceticismo e a mente aberta são condições ideais para a compreensão da realidade. É muito provável que ainda existam muitos farsantes no campo espiritualista (mesmo entre os que nada cobram, mas buscam atenção, ou sofrem de autoengano), mas ignorar a realidade espiritual do mundo pode nos limitar certas opções: será que quando estivermos congelando no leito de um rio escuro, seguiremos a voz que nos ama?

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12.1.09

Porque simpatizo com o espiritismo (III)

Seguindo o artigo anterior de onde parei...

Como vinha dizendo, uma coisa é crer na possibilidade de um Criador, outra muito distinta é compreendê-lo. Em todo caso, poderemos começar por uma lei da Natureza para a qual tanto céticos quanto espiritualistas não criam objeção a primeira vista: a lei da evolução. Evolução não significa que os organismos na Terra evoluem aleatóriamente com o passar do tempo, peixes que "decidem" ir viver na terra firme, simios que "decidem" ir viver em cima das árvores, ou girafas que "de alguma forma" esticam seu pescoço até que consigam comer as folhas das copas das árvores... Evolução significa que genes já existentes na espécie são privilegiados ou descartados, de acordo com sua função, até que certas características físicas (determinadas por esses genes) possibilitem uma melhora na capacidade da espécie sobreviver: peixes que tinham mais chances de sobreviver em terra firme se transformam lentamente (ao longo de várias espécies e milhões de anos) em criaturas desse tipo, simios que sobrevivem mais nos galhos das árvores evitando predadores no solo se transformam em mestres das árvores, girafas que vislumbram a possibilidade de encontrar pasto acima das árvores (onde não há muita concorrência com outros herbívoros) se transformam em criaturas pitorescas de pescoço alongado.

Se existe um plano para tudo isso, pela lógica devemos considerar que todas as criaturas vivas tem igual oportunidade na Terra, e que a Natureza, muito antes do homo sapiens chegar, proporcionou um vasto campo de experiências para essas espécies, onde simples bactérias evoluiram lentamente para todo tipo de animal sobre a Terra: uns bem sucedidos na sobrevivência, outros mal sucedidos ou extintos. A Natureza não faz um drama disso tudo: ela apenas propicia que espécies evoluam fisicamente, até estarem de acordo com a capacidade de abrigarem consiciência. Se considerarmos toda a história da Natureza na Terra, como um todo, teremos um maravilhoso exemplo de luta feroz pela sobrevivência, mas também do lento afloramento daquilo que nos é mais precioso: a capacidade de sermos conscientes de nós mesmos, e então passarmos a decidir nosso próprio futuro; Sermos morais ou imorais, sábios ou ignorantes, amorosos ou indiferentes... Agora, não dependemos apenas dos instintos animais, não precisamos mais ser governados por eles.

O Criador justo

Por mais que nos seja complexo definir conceitos como a Justiça, me parece que toda a história descrita acima pelo menos nos leva a uma idéia de "igual oportunidade". Pois, se Deus criasse os espíritos no ato da concepção, e os "enviasse" as mães, como poderíamos ver Justiça quando uns nascem em terras áridas africanas, enquanto outros nascem em celeiros de riqueza europeus? Quando uns nascem numa era de tecnologia, anestesia e direitos civis, e outros nascem no passado tribal ou na época negra medieval? Quando uns nascem perfeitamente saudáveis, e outros nascem com doenças terminais ou disfunções desastrosas?

Na minha modesta opinião, um Criador só poderia ser realmente Justo se nos houvesse criado todos iguais, princípios de consciência ancestrais, que vieram evoluindo ao longo de diversas espécies, e diversas encarnações, até que a consciência enflorasse, e pudéssemos então guiar a nós mesmos, obedecendo a uma simples Lei de Causa e Efeito: tudo o que sua consciência inflige de mal, estará para sempre gravado nela própria. A única forma de evoluir moralmente, portanto, é nos expurgarmos desse mal, lapidando nossa alma lentamente, também ao longo de milhares de anos... Não existe punição nessa Lei, a "punição" está de acordo com a ignorância de cada espírito para com os segredos de sua própria consciência. Melhor aquele que matou pessoas na fogueira vir como enfermeiro de queimados, do que ele mesmo morrer queimado... No entanto, existem espíritos ignorantes que ainda seguem a lei do Talião, e mesmo aqueles que se recusam de antemão a qualquer prática de caridade. Mas, aqueles que tem algum conhecimento de si mesmos, e do Amor que nos liga a todos em uma teia divina, trata de trabalhar sempre para que sua consciência se veja livre de toda culpa, o quanto antes melhor!

Seguindo a mesma lógica, teremos uma elegante explicação para a evolução da cognição humana. Genes, como já disse, determinam apenas características físicas. Não se sabe que espécie de genes determinam características cognitivas (como em gênios precoces da música ou matemática), morais (como nos grandes sábios e seres amorosos) ou mesmo culturais (embora os cientistas tenham chegado a vaga teoria dos Memes). Ora, é que esses tais "genes da cognição" nada mais são do que a capacidade cogntiva desenvolvida pelos espíritos ao longo de inúmeras encarnações. São como "potencialidades da alma" que se encontram adormecidas, e podem ser afloradas ou não, dependendo da "sorte" de cada um na vida atual, ou seja: do que se propuseram a vir realizar de construtivo para si mesmos (e todo restante do planeta).

Dessa forma, o médico que precisa desenvolver sua moral, poderá ter uma potencialidade para a prática da medicina nunca desenvolvida, e quem sabe ser um mero faxineiro do hospital: para este, o aprendizado não vem mais de cirurgias, e seu jaleco de faxineiro o trará todo o tipo de provas que o fará "forçosamente" encarar os problemas morais em seu espírito; Poderá, no mínimo, aprender a respeitar a todos como iguais, cirugiões ou faxineiros. E nos livros de Kardec, exemplos como este não faltarão.

Porisso também é que a grande maioria se esquece de suas vidas passadas, é que elas não desempenham papel tão preponderante assim: não precisamos "saber" o quanto fomos imorais para praticar a moral. Não precisamos "fazer regressão" para despertar nossa capacidade de amar... Ela já está aqui, dentro de nós, e o espiritismo nos passa sempre essa mesma recomendação de trabalho na melhora gradual de nós mesmos. É tão somente isso que os espíritos de luz desejam para nós, pois que ninguém evolui sozinho, e a evolução não anda para traz. Certamente que antes, quando iámos ao Coliseu ver feras devorando homens, quando achávamos normal a escravidão e a idéia de que mulheres e animais não tinham alma, eramos decerto menos evoluídos moralmente... Daí a lógica de que procurar saber de nosso próprio passado espiritual quase nunca é passo necessário para que evoluamos aqui e agora, no único presente ao qual nos foi dado decidir o que fazer.

Nascer, morrer, renascer ainda, e progredir sempre. Tal é a lei (essa frase se encontra na lápide de Kardec, na França).

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