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13.5.09

Atenas, Esparta e o humanismo

Texto de Jean-joël Duhot no "Sócrates ou o despertar da consciência" (Edições Loyola)

Ao contrário de Atenas, Esparta não concebeu o projeto de construir um vasto império [1]. As molas da potência militar das duas cidades são diferentes. Atenas tem necessidade de dinheiro para construir frotas e pagar os marinheiros, os pobres apreciam esse soldo e os benefícios da guerra, e esse dinheiro exige o imperialismo que é a sua fonte. O dinheiro e o material encontram-se no coração desse encadeamento. Diante disso, Esparta conta essencialmente com os homens: forma guerreiros e apóia-se em seu valor. O dinheiro de um lado, e do outro o valor do homem. O Sócrates do Górgias critica assim o que está no centro do sistema, o Pireu e os Longos Muros que o ligam à cidade, conjunto que abre a cidade sobre o mar e seu império, ao mesmo tempo que a fecha para o acesso terrestre: não é sobre as fortificações materiais que deve repousar a potência verdadeira, mas sobre o homem. Além disso, enquanto a riqueza de Atenas é fundada também sobre o comércio marítimo, por sua vez possibilitado pelo domínio do mar e das costas, Esparta ignora a moeda, recusa o luxo e o comércio inútil e vive em autarquia.

Paradoxo no limite do inacreditável: é graças a uma reflexão sobre Esparta que se afirma a preeminência do homem. O modelo espartano ensina que os valores materiais são engodos, e que o ínico valor verdadeiro está no homem. A cidade é uma verdadeira escola, que se encarrega da criança muito cedo. O paradoxo está em que para os espartanos o homem é essencialmente o guerreiro, enquanto para Platão e, sem dúvida, para Sócrates o modelo espartano é transposto: a república ideal está centrada na formação do homem, concebido não mais como guerreiro, mas como filósofo (veremos aliás que Sócrates soube ser ambos) [2]. Essa cidade, que nos repugna por seu desprezo pelo homem, máquina desumanizante que choca nosso princípios, ocupa assim um lugar insuspeitável nas fontes do humanismo.

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[1] Mais adiante o autor irá afirmar que "Democracia, imperialismo e riqueza estão estritamente ligados em Atenas" - vale lembrar que a democracia ateniense é muito distinta da democracia atual; Ainda citando o autor: "É preciso dar-se conta que o sistema é tão perigoso que nenhuma democracia moderna se inspira nele: não são os cidadãos que tomam as decisões políticas, mas seus eleitos, que podem estudar os dossiês de maneira aprofundada. Transposta para época moderna, a democracia ateniense seria um governo por sondagens de opinião aquecida por uma imprensa arrebatada".

[2] Apesar de Sócrates ter sido militar, tenho sérias dúvidas acerca das ideologias políticas expostas em A Repúlica serem de fato originárias do próprio Sócrates, e não de Platão. Não me parece que Sócrates tinha qualquer vocação ou compromisso para com a política em si, tanto que usualmente demonstra até certo desprezo pelos políticos de sua época.

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Crédito da foto: Wikipedia (hoplita)

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